IpanAmy

Mais um achado a que cheguei graças à leitura de resenha do Tárik de Sousa na CartaCapital, ele um dos heróis deste blogue que, feito quem parou no tempo, ainda acredita em (alguns) críticos de música (outros achados “tarikianos” foram o novo da Céu e Língua Brasileira, de André Parisi). Não, não se trata simplesmente de mais uma versão, de mais uma gravação da desde sempre tão regravada Garota de Ipanema, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes: trata-se da gravação de Amy Winehouse para The Girl From Ipanema, a versão de Norman Gimbel para o clássico bossanovista.

Confesso que antes de ler o Tárik pensei que Lioness: Hidden Treasures (2011) era mais um destes caça-níqueis da “necrofilia da arte” (Pato Fu), a indústria sempre querendo faturar mesmo antes de o defunto esfriar. Isso aí é coisa fina!

Choro poliglota traduzido em “Língua Brasileira”

A música colorida da estreia de André Parisi

POR RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO

Dois amigos, um chega ao escritório de trabalho pabulando de sua mais nova aquisição chorística. Coloca-o para tocar, gabando-se de sua recente descoberta e o outro imediatamente aprova a beleza anunciada pelo primeiro, que havia lido uma belíssima resenha do Tárik de Sousa na CartaCapital e, sem pestanejar, encomendou o disco pela internet, caminho cada vez mais natural hoje em dia, numa São Luís que padece da falta de lojas de discos e livrarias.

Era Língua Brasileira, do jovem clarinetista André Parisi, disco independente lançado em 2011 e distribuído pela Tratore. Os dois amigos, também colegas de trabalho – parece óbvio e/ou redundante, mas são duas coisas diferentes, diga-se –, ficaram ali, no escritório, trabalhando e ouvindo o disco em som ambiente. Ao fim, play novamente e assim até a hora do almoço.

O regional Língua Brasileira, que acompanha André Parisi (em pé) ao tocar a homônima

“Surgiu o nome, a partir da ideia de que não falamos mais a língua portuguesa; e, na música, os lundus, maxixes e polcas também compõem uma nova linguagem musical, a língua brasileira”, explica Filosofando num boteco, curto texto no encarte do disco dando conta da urdidura do mesmo. Por ali também cabem baião, frevo e sambas, tocados em modo choro, tudo ali desde sempre, tudo soando tão novidade.

Conclusões de ambos: fazia tempo que não ouviam um disco inédito e, ainda por cima, de um jovem músico, tão bom, tão arrebatador.

Para o segundo, o primeiro tinha toda razão ao propagandear sua aquisição choro-fonográfica, de fato, um achado da “arqueologia musical contemporânea”, por tudo que esse disco traz de extraordinário. Os dois amigos, o leitor já percebeu faz  tempo, eram os autores deste texto, postado quase simultaneamente em seus blogues. Mas voltemos à Língua Brasileira.

Um repertório autoral e inédito, nos dando a sensação de grandes clássicos; daí ficar bem clara, até aos ouvidos menos atentos, uma pegada moderna, de substância tradicional. Algo raro nos discos de música instrumental brasileira. Coisa que alguns até se arriscam a fazer, mas, ou caem no tradicionalismo repetitivo, sem nada de novo, ou escorregam num vanguardismo sem alma, sem substância, até com certo virtuosismo, mas sem tocar ou revelar a própria identidade. Na maioria das vezes são acometidos, como diria Nelson Rodrigues, de uma síndrome de vira-latas, fuçando acordes em busca de ser algo que não são, ou exibindo-se como maratonistas, narizes empinados, as mãos capazes de tocar não-sei-quantas notas e/ou acordes por segundo.

Definitivamente isso não é o que ocorre em Língua Brasileira. André Parisi, jovem e exímio clarinetista, mostra saber equacionar bem essa natureza da cultura brasileira em permanente e intensa transformação, apresentando- nos um disco com alma e idioma brasileiro, naquilo que ele tem de mais original, a multiculturalidade. Um disco de sonoridade límpida, quase transparente e ao mesmo tempo colorida. Lúdica. Lúcida. Lírica.

A este par dá a impressão de um lindo vitral multicolorido em forma de música – mais precisamente de choro – no qual é possível perceber todas as cores, ou seria todas as sonoridades, tomando os ouvidos de agradável sensação e o coração de aprazível sentimentalidade. A música de André Parisi – ele assina todas as composições e arranjos – é mais colorida que a fotografia e design de Fernando Angulo, que emoldura o rapaz barbado e sua clarineta na capa, contracapa e encarte – ali onde aparecem Léo Nascimento (violão oito cordas), Dado (flauta e saxofone), André Kurchal (pandeiro), Júlio César (cavaquinho) e Marcos Cruz (violão sete cordas), regional que entra em campo sob o comando de nosso clarinetitular. Também falam a Língua Brasileira Osvaldinho da Cuíca (competência e beleza no instrumento que lhe dá sobrenome), Charlie Flesch (pandeiro), Felipe Soares (sanfona) e Ruy Weber (direção musical).

Com o mérito que lhe confere o título informal de “embaixador do Choro no Maranhão”, um dos autores deste texto recebeu, da assessoria do artista, o disco, em sua residência. Muito justo!

Neste domingo (4), às 9h, na Rádio Universidade FM (106,9MHz),  ele compartilha com os ouvintes do Chorinhos e Chorões este Língua Brasileira. Certamente será um excelente programa, pelo talento apurado de quem fala e toca, sem constrangimento algum, a nossa pluralíssima  Língua Brasileira da Música, que também pode se chamar de Choro – ambos assim mesmo, em maiúsculas. E nesse território amplo, Parisi se revela um grande poliglota.

Pelas costas

O cantor João Gilberto em show no Auditório Ibirapuera, em São Paulo, em 2008

Álbuns embargados por João Gilberto há 20 anos estão disponíveis para venda na internet, em novas edições, produzidas fora do país. Continue Lendo “Pelas costas”

O sol era mais escuro antes da aurora

Parceria de Ligiana e Juliana Kehl, a faixa que batiza o post é amostra do disco novo da primeira, que deve sair este ano, sucessor do excelente De amor e mar (2009). Pra ficar com água na boca. Ou nos ouvidos…

Rádio Mec foca violão de João Pedro Borges

Hoje (15), às 22h, vai ao ar mais uma edição do semanal Violões em Foco, na Rádio Mec (o programa pode ser ouvido pela internet).

Rádio Mec apresenta um dos maiores nomes do violão brasileiro

Redundância intencional, o Violões em Foco de hoje enfoca o talento de João Pedro Borges, um dos maiores nomes brasileiros do instrumento que dá nome ao programa, que tem apresentação de Luís Carlos Barbieri.

A programação inclui peças como Valsachorando, Valsa da Vida, Abraçando Chico Soares (as três de Paulinho da Viola), Elogio de la Danza (Leo Brouwer) e Tema e variações –  1, 10, 20 e fuga de Folias de Espanha (M. Maria Ponce).

Também conhecido no meio musical como Sinhô, João Pedro Borges bate um papo com Luís Carlos Barbieri, e não executará as peças ao vivo.

Disco brinde em que João Pedro Borges interpreta Paulinho da Viola (com a participação do mesmo nunca teve reedição em cd)

Curiosidade – As três primeiras músicas acima listadas, por exemplo, fazem parte do álbum Brasil Instrumental, um duplo raríssimo, de 1985, que uma empresa deu de brinde a seus clientes. Conta com um time enxuto, porém da pesada: João Pedro Borges (violão), Paulinho da Viola (cavaquinho e violão) e Cesar Faria (violão). O outro disco do brinde trazia o encontro inusitado (com isso refiro-me à formação do quarteto, não ao indiscutível talento de seus integrantes) de Paulo Moura (saxofone), Zé da Velha (trombone), Raphael Rabello (violão) e Jacques Morelembaum (violoncelo). Nunca teve reedição em cd.

Mais três grandes discos de 2011 para você baixar em 2012

Mas não espere tanto e baixe agora!, os três disponíveis nos sites de seus autores; ao longo do post há outros, não (só) do ano passado

Passo TortoRômulo Fróes é um pensador da música contemporânea. Cantor e compositor de indiscutível talento, com excelentes discos no currículo – Calado (2004), Cão (2006), o duplo No chão sem o chão (2009) e Um labirinto em cada pé (2011) –, é, além de tudo, das poucas figuras que se dispõem a pensar a música contemporânea. Digo, entre os que estão produzindo música contemporânea.

Mas Passo Torto não é um disco de Rômulo Fróes, que tem o talento somado aos de Kiko Dinucci, Rodrigo Campos (do ótimo São Mateus não é um lugar assim tão longe, de 2009) e Marcelo Cabral. O último é contrabaixista e produtor, os outros três, compositores. O grande lance da experiência é que aqui eles compõem juntos. É uma tradução de experiências anteriores, em que uns tocam no disco do outro, outros participam do show de um etc. Referência comum aos trabalhos-solo dos moços: o samba. Mas dizer que se trata de um disco de samba seria diminuí-lo. É samba, do bom, mas é bem mais que isso.

Serafim – Conheci o mineiro Sérgio Pererê, cantor, compositor e multiinstrumentista, através de sua conterrânea Ceumar, sua Onde qué, gravada em Sempreviva! (2003). Depois ele participaria de Meu nome (2009), disco dela, todo autoral, gravado ao vivo, antes de mudar-se para a Holanda: Pererê canta em Gira de meninos, parceria dos dois, já gravada por Rubi (Paisagem humana, 2008).

De seu disco novo, a primeira música que ouvi foi o samba Brilho perfeito: “Creio em seu amor e é por isso/ que conheço as curvas da estrada/ nunca me atirei num precipício/ e nem me perdi na encruzilhada”, entre as 16 a minha predileta.

Em seu site, o ouvinte pode escolher quanto quer – se quer – pagar pelo disco e ainda como quer – se quer – o encarte, se colorido ou p&b.

SetembroJunio Barreto demorou sete anos entre o bom disco de estreia e este ainda melhor. Nesse meio tempo, o “Caymmi de Caruaru”, como é chamado, foi gravado por nomes como Gal Costa, Lenine, Maria Rita, Roberta Sá e Rubi, entre outros, embora seja ainda um quase completo desconhecido, para muitos.

Muitos que certamente lembram de versos como “vim, vim, vim/ eu vim, oi/ atendi teu pedido e vim”, de O pedido (Junio Barreto e Jam Silva), que abre o belo Que belo estranho dia pra se ter alegria (2009), de Roberta Sá. Ou de Santana, gravada por Junio Barreto em sua estreia (2004) e regravada por Gal Costa (Ao vivo, 2006), Lenine (Acústico MTV, 2007), Rubi (Paisagem humana, 2008) e Maria Rita (Elo, 2011): “A santa de Santana chorou sangue/ chorou sangue/ chorou sangue e era tinta vermelha/ a nossa santa padroeira chorou sangue”.

Ao contrário da personagem de sua música mais gravada, você, como o blogueiro, certamente vai rir de alegria ao ouvir Setembro. Mas não espere o mês-título chegar: como os outros recomendados neste post, é disco pra se ouvir o ano inteiro, começando por agora.

A batucada de Mila

Carioca radicada há tempos no Maranhão, Mila Camões esbanja talento, passeando com desenvoltura pelo repertório de nomes como Hermeto Pascoal, Chico Buarque, Paulo César Pinheiro, Antonio Vieira, entre outros – e aqui falo do que lembrei, de cabeça, imediatamente, ao tentar referendá-la.

Seu nome nunca sei se se grafa com um ou dois “l”: a imagem que colo aí em cima o traz com um, o release da produção, que recebi por e-mail, com dois. Seu disco de estreia, aguardo ansiosamente há tempos. É tanto tempo de gestação que sua gravidez foi mais curta. Digo: já faz bem mais que nove meses que Mila grava, ensaia, regrava, refaz, com carinho de mãe coruja. Um disco que me desperta curiosidade, por não saber mais que do talento dela como elemento, sob direção musical de Celson Mendes – o que quero dizer é: não sei, por exemplo, do repertório, mas certamente vem coisa boa por aí.

Aperitivo: Mila Camões apresenta o show Na batucada da vida nesta sexta (2), às 21h, no Cumidinha de Buteko (Cohajap). A formação do trio que a acompanhará é inusitada para um repertório de samba: o citado Celson Mendes (violão), Fleming (bateria) e Jeff Soares (contrabaixo). Conceito: homenagear a mulher no contexto do samba, passeando por obras de compositores e intérpretes como Arlindo Cruz, Assis Valente, Chico Buarque, Clara Nunes, Clementina de Jesus, Dona Ivone Lara, Janet de Almeida, Jovelina Pérola Negra, Mônica Salmaso, Paulo César Pinheiro e Wilson das Neves, entre outros e outras.

Maiores informações no blogue do produtor, Celijon Ramos.

Uruguaios na roda de choro

Ricarte Almeida Santos apresenta, neste domingo, em seu Chorinhos & Chorões, a música do La Chorona, grupo uruguaio que se dedica ao choro. O blogue entrevistou Gonzalo Perera, violonista do quarteto.

Eles são uruguaios. Mas tocam como brasileiros. E nem de longe isso é desmerecer os hermanos, a analogia só é possível por tratar-se do mais brasileiro de todos os gêneros musicais: o choro. Outra analogia, cabível ou não, seria dizer de meninos que tocam como gente grande: os músicos do La Chorona têm entre 32 e 37 anos, são, pois, gente grande, e tocam como tal.

Gonzalo Perera (violão), Martin Perez (sax soprano), Nacho Delgado (pandeiro) e Santiago Silvera (bandolim e cavaquinho) formam o grupo de Montevidéu que passeia com desenvoltura por composições de nomes de lá e cá.

Deste lado da fronteira, grandes mestres da música brasileira, o choro em especial: André Victor Correia, Donga, Jacob do Bandolim, Lina Pesce, Nelson Cavaquinho, Noel Rosa, Pixinguinha, Waldir Azevedo e Zequinha de Abreu, espalhados nos dois discos que o grupo gravou até aqui: Instrumental (2005) e Chorando al sur (2010), ambos gravados de forma independente, este último quase todo dedicado à turma de Pindorama – das oito faixas, apenas La Rita é assinada por Santiago Silvera.

História – O “embaixador” do choro no Maranhão, Ricarte Almeida Santos, recebeu os dois discos do La Chorona de presente do amigo César Choairy, que topou com o grupo tocando em uma praça em Florianópolis/SC, conforme a história que conta aqui, anunciando seu programa de amanhã (27), o Chorinhos e Chorões, às 9h, na Rádio Universidade FM (106,9MHz).

Por e-mail, este blogue conversou com Gonzalo Perera, que carinhosamente agradeceu a divulgação do disco por estas plagas – as perguntas foram enviadas em português, as respostas vieram num misto de português e espanhol e aqui publicadas em português, numa quase-tradução de Zema Ribeiro.

ENTREVISTA: GONZALO PERERA, DO LA CHORONA

Zema Ribeiro – Desde quando o La Chorona está na ativa?
Gonzalo Perera – O La Chorona começou no ano 2003, com Santiago Silvera, atual cavaquinho e bandolim do grupo. Depois disso, mudou várias vezes de integrantes até hoje.

Como descobriram a música brasileira, sobretudo o choro? A música brasileira é muito difundida e o povo uruguaio gosta muito. O contato com o choro vem da pesquisa. Em busca de outros ritmos e estilos apareceu o choro, primeiro num disco de vinil de Altamiro Carrilho, depois apareceram Waldir Azevedo, Jacob do Bandolim, Pixinguinha… e aí não largamos mais!

Onde está sediado hoje o La Chorona? Desde o ano passado estamos radicados em Florianópolis.

Vocês sonham dividir o palco com algum músico brasileiro? Os músicos com que gostaríamos de dividir o palco são muitos… todos, eu acho. Hamilton de Holanda, por dizer algum. O [grupo] Choro das Três (não só porque são lindas, mas porque tocam muito), o Trio Madeira Brasil…

Que músicos uruguaios você recomendaria aos brasileiros conhecer? Alfredo Zitarrosa e o Quarteto Zitarrosa, que são os músicos que o acompanhavam. Jorginho Gularte, que faz candombé. Jaime Roos, Hugo Fatorusso, Trio Ibarburu, todos com estilos diferentes entre si.

Na sua opinião, qual o maior músico brasileiro? É muito difícil dizer qual é o maior músico brasileiro. Inclusive acho injusto com muitos outros. Mas a título pessoal, dentro do choro, acho o Jacob do Bandolim um gigante. Chico Buarque, outro estilo, outro gigante.

Bruno Batista emociona em português

 [Sobre Eu não sei sofrer em inglês, show de lançamento do disco homônimo, Bruno Batista, Teatro Arthur Azevedo, ontem (11)]

Maranhense nascido em Pernambuco, Bruno Batista veio da São Paulo onde hoje mora lançar em São Luís seu novo disco, Eu não sei sofrer em inglês, o segundo da carreira, festejado por público e crítica.

A faixa-título abriu sua apresentação ontem (11) no Arthur Azevedo, com pouquíssimo atraso. O teatro não estava lotado, mas o público era bom e emocionou-se em língua pátria com o artista.

O show teve como base o repertório completamente autoral de Eu não sei sofrer em inglês, que traz regravações de Já me basta e Acontecesse, do primeiro disco. Bruno Batista cantou ainda duas músicas inéditas, uma já com alguma idade, outra mais nova, uma balada que certamente fará sucesso quando tocar nas rádios.

O compositor trouxe de São Paulo sua banda, com quem no palco repetiu o clima pop-festivo do disco – gravado em três sessões, ao vivo no estúdio: Chico Salem (guitarras, violão e direção musical), Rovilson Pascoal (guitarras), Marcelo Castilha (acordeom, piano e teclado) Chico Valle (bateria) e Guilherme Kastrup (percussões), além do próprio Bruno Batista ao violão. Só não eram ensaiadas sua emoção, timidez e carisma.

As participações especiais de Cláudio Lima e do Criolina (Alê Muniz e Luciana Simões), um show à parte. O primeiro reinventou Vaidade, música que, no disco, tem participação especial de Rubi – os dois, grandes intérpretes, cada qual à sua maneira; os segundos trouxeram ao palco sua O Santo (de Cine Tropical, segundo disco do duo) e entoaram vocais viscerais para Hilda Regina.

A exemplo do disco, o show foi fechado com As cigarras, já no bis. Ficou um gosto de quero mais: Bruno Batista já não cantava em São Luís há quatro anos, o último show, Hein?, no Teatro Alcione Nazaré, quando dividiu o palco com Cláudio Lima. Que não demorem tanto os próximos show e disco.

Trem musical, Parador de Nosly encosta amanhã (29) na estação Arthur Azevedo

Do Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira: “Iniciou a vida artística em 1984 na cidade de São Luís, capital do Estado do Maranhão.// Residiu em Minas entre os anos de 1986 e 1995, onde integrou a Orquestra de Violões do Palácio das Artes. No ano 2000 lançou pela gravadora Dabliu o cd Teu lugar, no qual interpretou várias composições de sua autoria, entre elas, Brinco, Noves fora e Japi, as três em parceria com Zeca Baleiro; Coração na voz (c/ Nonato Buzar e Gerude); Gueno (c/ Glauco Barbosa) e June, parceria com o poeta Celso Borges, entre outras.// No ano de 2003, ao lado de César Nascimento e Mano Borges, apresentou-se no “Projeto Prêt-à-porter”, com direção artística de Sérgio Natureza, no Teatro Café Pequeno, no Leblon, Zona Sul do Rio de Janeiro.// Em 2010 lançou o cd Nave dos Sonhos, no qual figura a faixa-título composta em parceria com o também maranhense Nonato Buzar, disco lançado em show homônimo no Bar Severyna, em Laranjeiras, Zona Sul do Rio de Janeiro. No show contou com a participação dos músicos Ney Conceição (baixo), Kiko Continentino (teclados) e Victor Bertrami (bateria).// Entre seus diversos parceiros destacam-se os letristas Celso Borges, Tibério Gaspar, Chico Anísio, Fausto Nilo e Sérgio Natureza, além do compositor e sambista carioca João Nogueira.”

Do texto do encarte de Parador [ouça na Rádio UOL], assinado pelo parceiro-produtor Zeca Baleiro: “Parador é o terceiro disco de Nosly, compositor maranhense que já zanzou por muitas plagas sem fixar-se em nenhuma – São Luís, Rio, Belo Horizonte, Düsseldorf… Como seu conterrâneo Gonçalves Dias, Nosly vive no exílio, no abandono apaixonado da música, urdindo canções como quem tece num tear seu artesanato de afetos, sua teia de ritmos (…)// Sem mais delongas, digo: Nosly é um craque inquestionável da sempre nova (e muito viva) canção brasileira”

Parador abre com a regravação de Aquela estrela (Ronald Pinheiro e Jorge Thadeu) e fecha com Maria Luiza (Nosly), único tema instrumental do disco, homenagem à mãe do compositor. Entre as 13 faixas, parcerias, regravações e inéditas.

Amanhã (29), às 21h, no Teatro Arthur Azevedo, acontece o show de lançamento de Parador (2011), novo disco de Nosly, produzido por Zeca Baleiro (mais sobre o show no release escrito pelo parceiro Fernando Abreu). Abaixo, a entrevista exclusiva que o músico concedeu ao blogue, por e-mail.

ENTREVISTA: NOSLY

ZEMA RIBEIRO – Nosly, como foi sua infância e em que momento você sentiu que ia ser músico, que ia viver de música?

NOSLY – Nasci em Caxias/MA, em agosto de 1967. Sou o sétimo filho de uma família de 10 e carrego o nome do pai, Nosly. Cresci ouvindo muita música boa, música de qualidade, orquestradas e interpretadas por grandes nomes. A minha primeira lembrança, eu deveria ter talvez quatro ou cinco anos, foi colocar na “radiola”Agostinho dos Santos cantando Estrada do Sol (Tom Jobim e Dolores Duran). Depois, com sete, me divirtia com os instrumentos musicais (xilofones, saxofones, clarinetes etc.) que ganhava na época de natal. Acho que os meus pais, de alguma maneira, já identificavam meu interesse pela música. Só lá pelos 13 é que pintou o violão na minha vida. Daí foi paixão à primeira nota.

Parador pode ser considerado teu disco mais pop, embora nunca descartável, como acentua o parceiro Fernando Abreu no release de divulgação do show de lançamento. Como foi sua gestação? O disco começou a ser idealizado no começo do novo milênio, mas por conta da agenda do Zeca [Baleiro, produtor do disco] e a minha decisão de passar um tempo na Europa, foi sendo adiado, até, finalmente em 2010, partirmos pra por em prática e realizar o sonho antigo. Muitos e-mails trocados com o Zeca até chegarmos a esse repertório que aí está. Compus algumas coisas especialmente pra esse cd, como por exemplo Oh, baby perdoe (Nosly e Zeca Baleiro), Aldeia (Nosly e Celso Borges) e Apesar de doer (Nosly e Vanessa Bumagny). Muitas idas e vindas, São Luís, São Paulo, São Luís, até a conclusão e lançamento em maio deste ano.

O que o público ludovicense pode esperar do show de lançamento do disco, que contará com a participação especialíssima de Toninho Horta? O show tem como base o repertório do cd e toco ainda algumas músicas do primeiro [Teu lugar] e do segundo cd [Nave dos sonhos]. A banda é sensacional: VICTOR BERTRAMI – BATERA, NEY CONCEIÇÃO – BAIXO e KIKO CONTINENTINO – PIANO [grifos dele]. O Toninho é amigo desde 86, quando eu participei do I Seminário Brasileiro da Música Instrumental, realizado em Ouro Preto. Considero o Toninho um dos maiores violonistas, guitarristas do mundo, além de consagrado compositor, grande ídolo, desde o tempo que ouvia o Clube da Esquina. Melhor agora, depois de tantos anos de amizade, poder estreitar mais ainda nossos laços musicais e contar com a presença dele no show. É uma honra pra mim e acredito que será também para o público que vai nos prestigiar.

Parador traz uma série de parcerias, com nomes como Celso Borges, Fausto Nilo, Fernando Abreu, Olga Savary, Vanessa Bumagny e Zeca Baleiro, entre outros, o primeiro e o último aqui listados talvez os mais antigos, parceiros desde o começo da carreira. Como se dão essas parcerias? Como é lidar com essa pluralidade? Cada parceiro tem sua importância e admiro todos eles, pois a parceria nasce antes, no coração da gente, só depois vira música. Já compus de n maneiras distintas, não dá pra prever nem premeditar, tudo nasce como deve ser, naturalmente. Recebo letras de música, poemas, ideias de melodias, enfim cada caso é um caso. O importante mesmo é que o momento seja pleno e que a ideia venha à cabeça. Tive a honra de compor com grandes nomes da MPB, como Nonato Buzar, Chico Anysio, João Nogueira, Tibério Gaspar, Sérgio Natureza, Zeca Baleiro, Chico César, Fausto Nilo, Luis Carlos Sá, Celso Borges, Fernando Abreu, Gerude, Luis Lobo, Olga Savary, Lúcia Santos, Cláudia Alencar, enfim, a lista é longa e sempre cabe mais um. É muito bom poder compartilhar momentos e afinidades e a parceira é a junção dessas duas coisas.

Como foi trabalhar com o parceiro Zeca Baleiro assinando a produção? Foi muito prazeroso trabalhar com o Zeca. Já fizemos tantas coisas juntos no passado, que facilitou nesse agora. Temos muita afinidade, crescemos juntos e ouvimos muita música naquelas tardes de Monte Castelo. Além disso, nossa concepção é bem parecida, embora cada um tenha sua maneira particular de evidenciar isso. Pra resumir, foi uma beleza fazer esse cd produzido por ele, pelas ideias que dividimos e pelo despojamento sobre qualquer sentimento de vaidade que pudesse macular esse nosso encontro.

Faixas como Oh, baby, perdoe (Nosly e Zeca Baleiro), I’ll be over you (Steve Lukather e Randy Goodrum) e So I’ll have to say I love you in a song (Jim Croice), têm um acento brega, seja pela temática romântica da primeira, a segunda uma balada original que aqui ganha versão reggae e a terceira por ter tido uma versão em português gravada por um ídolo do gênero, Fernando Mendes. Sobretudo em relação às duas últimas, como se deu a escolha para que entrassem no repertório de ParadorApesar de ter ouvido na infância Odair José, Fernando Mendes, Amado Batista, Wando etc., tudo aquilo soava natural, era rotulado de brega, mas isso já tomou outra conotação dos dias de hoje. Tanto é que grandes nomes  da MPB continuam gravando esses compositores ditos brega até hoje. Nada foi intencional, recebi a letra do Zeca pela internet, via e-mail, daí apenas dei vasão ao sentimento do momento. Melodia não tem hora pra acontecer e nem se sabe como vai ser. Você sente e põe no violão. Quando gravamos não tivemos essa preocupação de fazer um acento como se fora brega. Quisemos sim, fazer rememorar alguns timbres dessa época que caíram em desuso. Seria, pois ,uma retomada de algo que foi bom e se perdeu durante um tempo e que agora temos a chance pelo menos de registrar à nossa própria maneira e entendimento.

A faixa-título é uma homenagem a um tio teu, em cuja casa tu moraste, no Rio de Janeiro. Composta em parceria com Gerude e Luis Lobo, também dá a ideia de um Nosly cosmopolita, que já morou inclusive na Alemanha, onde foi gestado outro disco teu, o anterior Nave dos Sonhos. Qual o melhor lugar em que você já morou, seja por aspectos pessoais, mas sobretudo musicais? É muito bom ser cidadão do mundo, falar quatro línguas, sair em busca do aprimoramento, da melhora que todos almejamos. Belo Horizonte é bem marcante na minha vida. Tenho saudades de lá. O Rio de Janeiro, especialíssimo, e tenho sangue carioca: meu pai era carioca. Foi muito importante pra mim o tempo que vivi lá. E por último Düsseldorf, na Alemanha, onde vivi por cinco anos maravilhosos. Fica difícil apontar essa ou aquela cidade, cada uma tem sua medida de importância em meu coração. E quanto aprendizado!

Como você analisa o cenário da produção musical do Maranhão hoje? E no seu caso particular, é mais fácil ser reconhecido aqui, sua terra, ou lá fora? Claro que se você está num grande centro, São Paulo, Rio, BH etc., você tem mais oportunidades de mostrar seu trabalho, não tem o que comparar. Quanto à produção local, acho que fazemos música de altíssimo nível, lindas poesias, letras, lindas melodias que poderiam com certeza embalar corações mundo afora. Basta, pra que isso aconteça, oportunizar, formar plateia e ocupar espaços ociosos com bons espetáculos, seja de música, teatro, poesia, artes plásticas, dança, enfim, qualquer manifestação cultural com que o povo se identifique. Na Europa, tenho público cativo, são três cds editados lá. No Brasil, minha música é ouvida de norte a sul. Vivo em busca do reconhecimento, não importa onde seja, onde esteja. Se o povo quer me ouvir, lá sempre estarei.

Ainda Sérgio Sampaio

Na Semana Sérgio Sampaio, que este blogue promoveu há uns dias, ocorreu um lapso imperdoável.

Deveríamos ter falado, e tentamos corrigir agora a falha, de Juliano Gauche, o moço dos clipes abaixo, em que canta Nem assim e Brasília, ambas de Sérgio Sampaio, acompanhado do Duo Zebedeu:

Dizê-lo meramente cover do capixaba é reduzi-lo, embora Gauche encarne Sampaio com raros talento, competência, simpatia e sensibilidade.

Em 2009, acompanhado apenas do par de violões do Zebedeu, leia-se, Fábio do Carmo e Júlio Santos, ele lançou o ótimo Hoje não!, inteiramente dedicado ao repertório do gênio de Cachoeiro do Itapemirim, altamente recomendável.

Semana Sérgio Sampaio #4

Por conta do (re-)lançamento de Sinceramente (1982), de Sérgio Sampaio, pelo selo Saravá, de Zeca Baleiro, este blogue ofereceu a seus poucos-mas-fieis leitores a Semana Sérgio Sampaio, que se encerra com este post, que traz a entrevista, inédita, que Rodrigo Moreira, autor da biografia Eu quero é botar meu bloco na rua (2000, esgotada), concedeu a este blogueiro, por e-mail, em 10 de abril de 2007.

Não há merchandising na parada: a Semana Sérgio Sampaio é a soma de forma e ocasião de eu desovar material inédito que ficou na gaveta. Penso que Sampaio e seus fãs mereçam! Espero que tenham gostado (tirei daqui o recorte que abre o post).

ENTREVISTA: RODRIGO MOREIRA

ZEMA RIBEIRO – O que te levou a escrever a biografia de Sérgio Sampaio?
 
RODRIGO MOREIRA – Bem, eu sempre fui fã, e como todos os demais fãs, não muito esclarecido sobre como foi mesmo a trajetória dele. Isso fez crescer a curiosidade, que aliada à vontade de fazer algo por seu resgate, acabou me levando a começar a pesquisa, cerca de dois anos depois de sua morte.

Quais as principais dificuldades enfrentadas? Na verdade, eu até que tive sorte, pois logo no início de tudo conheci Sérgio Natureza, amigo e parceiro dele, que já tinha delineado o projeto de resgate Balaio do Sampaio. Ele facilitou bastante meu trabalho, me apresentando diversas pessoas importantes na vida de Sampaio, como familiares, ex-mulheres, músicos, produtores etc. Minha maior dificuldade foi mesmo não ter conhecido Sérgio Sampaio pessoalmente, talvez se tivesse sido amigo dele eu pudesse ter muito mais informações.

A que você credita o quase total desconhecimento dele por parte da população brasileira? Bem, ele realmente não chegou a se tornar um artista conhecido em larga escala, apesar de ter tido uma música de sucesso que marcou época, que foi o [Eu quero é botar meu] Bloco [na rua]. Acredito que o fato daquele sucesso não ter tido uma continuidade, uma permanência maior, ele acabou sendo esquecido, ficando apenas na memória de uma parcela mais retrita do público, que são os fãs, que acompanharam e curtiram suas outras obras e foram aos seus shows ao longo dos anos.

Qual a importância de iniciativas como o Balaio do Sampaio, de Cruel e de tua biografia no sentido de preservar a memória de Sérgio Sampaio e de torná-lo conhecido das gerações mais jovens? Na realidade, todas essas iniciativas não foram isoladas, foram meio que interligadas. Primeiro foi o cd, depois minha biografia, ambos correndo paralelos, e mais à frente o Cruel, a pilastra definitiva do resgate. Pelo menos pra mim tudo faz parte de um mesmo projeto (de uma mesma ideia pelo menos), que foi o Balaio do Sampaio. Acho até que deveríamos ter criado um logotipo, ou coisa assim, que estampasse as capas desses trabalhos. Bem, acho que todo esse esforço serviu para, ao menos, chamar a atenção de parte da mídia e do público para a obra que o Sérgio deixou. Inclusive ele estava inédito em cd até a época que saiu o Balaio (1998), depois disso o Charles Gavin editou em cd o primeiro disco (na época troquei informações com ele, na realidade chamei sua atenção para o Tem que acontecer, já que ele estava trabalhando na ocasião com os arquivos da Continental/Warner, mas ele acabou fazendo o primeiro disco). Depois saiu uma coletânea (Warner 25 anos), que contém todas as músicas do Tem que acontecer, mais algumas raras músicas de compactos.

Outro grande achado musical

Jataí (2011) é mais um grande disco recém-lançado disponibilizado por seu autor, em sua página na internet, para download. Eu já o havia baixado há dias e marquei bobeira em, até agora, não ter dito nada sobre esta verdadeira obra-prima. O grande Edvaldo Santana brinda-nos com mais um belo disco carregado de sua poesia e seu blues caboclo.

Acima, A poda da rosa, ótimo exemplo do que estou falando. Baixem o disco – a capa é do não menos gênio Elifas Andreato – clicando nos links do post. E deleitem-se com a doçura poética do mel de Jataí.

Vão Wadeá!

Taí a capa de Samba 808, “o disco inexistente” que Wado acaba de botar na roda. O que signfiica dizer: acaba de disponibilizar em seu site para download. Prática do artista, um dos mais instigantes de nosso tempo: todos os discos dele podem ser baixados em sua página na internet.

Quem me avisou do “lançamento” foi, novamente, a leitoratenta Thayane, que me guiou ao Scream & Yell, que colou lá o pdf que está na pasta de download do disco. “Estar em selo/gravadora servia para distribuição e para dar visibilidade, visibilidade gravadora não tem dado e distribuição… Os caminhos na internet têm resolvido isso melhor” é das coisas que o alagoano nascido em Santa Catarina diz, no texto (leiam-no completo no Scream & Yell ou depois de baixar Samba 808).

O disco roda enquanto escrevo isso, que não é uma crítica, resenha ou coisa que o valha. É, como também disse Wado no citado texto/pdf: “Lançar ao mesmo tempo para o público e mídia foi nossa ideia, dando brechas para sorte e subvertendo as antigas prioridades do sistema de distribuição, que tinha como pré-requisito a aceitação da mídia e espaços comprados para a divulgação”.

Eu, que há tempos já não sei se sou público ou se sou mídia, se sou ambas as coisas ou se sou nada, a única certeza que tenho é que não sou pago, ao menos não para blogar, não poderia deixar de compartilhar o disco, e antes a informação, com os poucos-mas-fieis leitores deste modesto blogue. E digo: Wado é dos raros artistas que eu recomendaria acá mesmo sem ter ouvido o lançamento, confiando na qualidade e no nível de seus trabalhos anteriores, exatamente o que faço agora.

Bem, o disco acabou antes de eu terminar de escrever o post, é hora de apertar novamente o play, deixa eu ir lá. “De ser o Samba 808 tocado com uma máquina velha reutilizada” será meu caso? Queimei um cd-r e estou ouvindo-o e reouvindo-o num cd-player convencional. Play it again!