Modo de vida: poesia

Os párias Raimundo Garrone, Ademar Danilo e Marcello Chalvinski conversaram com o Homem de vícios antigos no Cafofo da Tia Dica. Foto: Leide Ana Caldas (10/5/2016)

“Não confio em ninguém com mais de 30”, diz o hit dos Titãs. 2016 marca os 30 anos da publicação da primeira edição da revista Uns & Outros, que ao longo de oito exemplares veiculou os poetas da Akademia dos Párias.

O nome do grupo trazia em si uma provocação: colocava os párias, isto é, a ralé, num local sagrado, a academia – referiam-se provocativamente à Academia Maranhense de Letras (AML). Na outra academia, a Universidade Federal do Maranhão, exercitavam a liberdade, a maioria deles no curso de Comunicação Social.

A Akademia dos Párias congregou, ao redor de poesia, álcool e drogas um estilo de vida que acabou por devolver à cidade de São Luís o status de cidade de poetas – para além do modorrento título, sempre contestável, de Athenas brasileira.

Jovens estudantes, alguns já formados, tomavam de assalto bares com seus recitais caóticos –porém sinceros. Os 30 anos da revista e, portanto, do grupo que a publicava, serão celebrados amanhã (19), a partir das 19h, na Livraria Poeme-se (Rua João Gualberto, 52, Praia Grande), com o lançamento de A poesia atravessa a rua, antologia que reúne 25 poetas publicados nos oito números da Uns & Outros.

No Cafofo da Tia Dica (por detrás da Poeme-se), Homem de vícios antigos conversou com os jornalistas Ademar Danilo e Raimundo Garrone e o publicitário Marcello Chalvinski, representantes de duas gerações (ou dentições) da Akademia dos Párias, todos poetas – ao menos em algum momento da vida –, todos publicados na Uns & Outros.

Foto: Leide Ana Caldas (10/5/2016)
Foto: Leide Ana Caldas (10/5/2016)

Vocês abandonaram a poesia?
Raimundo Garrone – Eu continuo escrevendo, mas não publico.
Ademar Danilo – Eu me embruteci. O jornalismo me tirou da poesia.
Marcello Chalvinski – Eu publiquei três livros de poesia [Anjo na fauna, Temporal e Dom Juan] e o romance O plano [Prêmio Literário Gonçalves Dias da então Secretaria de Estado da Cultura do Maranhão, 2008], e já estou com outro [de poesia] para publicar.

Garrone, um dia alguém vai achar inéditos em tua gaveta.
Garrone – Como aquela poeta americana, Emily Dickinson. Não é que eu queira ser póstumo, não. Poeta é quem se considera.
Ademar –“Inverno, primavera/ poeta é quem se considera”.
Garrone – Zeca [Baleiro] musicou [o poema de Paulo Leminski de cujo trecho Ademar lembrou]. Uma das coisas que me chamou muita atenção foi uma entrevista atribuída a Ferreira Gullar na qual ele diz que quando alguém o chama de poeta, ele diz ter vontade de responder “poeta é a mãe!”. Acaba sendo um xingamento, enxergam o poeta como aquela pessoa complacente, aquela pessoa no mundo da lua, ainda é uma ideia que se tem.

Poeta acaba sendo uma espécie de mestre ou compadre, aqui em São Luís é uma saudação. Muita gente aqui se aventurou de algum modo na poesia.
Marcello – Uma coisa interessante no Fernando Abreu é que, uma vez ele me disse, ele sabia que ia ser poeta desde que nasceu. Ele já tinha essa noção. Tem uma coisa que eu gosto de registrar: mais ou menos quando eu conheci essa turma, no final da década de 1980, acho até que foi Fabreu quem me falou, sobre a questão da verdade que a poesia precisa ter. Poesia só é poesia se ela tiver verdade, se ela tiver vivência, essa coisa intrínseca. Já na década de 90 eu tive outra constatação de que a poesia, na verdade, é uma forma de viver. O que se registra no livro são poemas, a poesia é a forma de viver dos poetas. Eu continuo publicando, alguém já disse que sucesso e fracasso são iguais, os dois são ilusões. Pra mim importa fazer, produzir, viver dessa forma: a poesia como jeito de ser, existir e perceber as coisas. O que sobra desse filtro é que vai ser o poema, aquilo que sobra, o que a cachaça não apaga e a noite não elimina da memória.
Garrone – Um detalhe importante em relação aos párias é que os párias não eram um movimento literário, mas uma forma comportamental, seja pelo ambiente político da abertura [o processo de redemocratização brasileiro, após 21 anos de ditadura militar], muitos de nós começamos a conviver na universidade, que vivia com a cabeça muito fechada em função do regime.
Ademar – Foi importantíssimo para aquela época. Nós, de certa forma, resgatamos a poesia para o dia a dia da cidade. Nós declamávamos, nós vendíamos revistas, nós tínhamos uma presença poética na cidade.
Marcello – Não era só escrever e publicar. Tinha os recitais, os párias, performances.

Esta mesa tem duas gerações da Akademia dos Párias. Deste lado a primeira geração, fundadora, e deste a segunda dentição, com Marcello, mais novo. Como é que vocês se conheceram e chegaram à Akademia?
Garrone – A UFMA foi um catalisador.
Marcello – Quando eu conheci a turma estava saindo o “quinto dos infernos” [a quinta edição da revista Uns & outros], Fabreu já tinha me convidado, mas eu não entreguei os poemas.
Garrone – Existiam uns bares que eram referência. Por exemplo, no beco do teatro tinha um bar que a gente sabia que só dava artista. Então a gente ia pros bares sabendo que íamos encontrar.
Marcello – E rolava recital. Não era uma poesia só textual, só escrita, só impressa. Era uma poesia que era feita nos bares, subíamos nas mesas e começávamos a recitar.
Ademar – A gente vivia isso.

Marcello, o que te trouxe à São Luís?
Marcello – Eu sou de Curitiba, tenho uma vida errática. Eu viajei, por 10 anos eu fiquei viajando o Brasil, com o trabalho que eu fazia, com cartografia, e escolhi um lugar para ficar. Eu gosto muito das pessoas daqui.

Vocês se conheceram na UFMA no curso de comunicação?
Ademar – Eu fazia Direito. Nós [ele e Garrone] éramos vizinhos. Os maus hábitos nos aproximaram.
Garrone – Aos 50 não se fala em vícios, se fala em hábitos [risos].
Marcello – Acho que no princípio toda a turma, a primeira dentição, era quase totalmente formada por estudantes da UFMA. A segunda dentição, ZéMaria Medeiros, Joe Rosa, eu mesmo, ninguém era aluno da UFMA.
Garrone – O Comunicarte [tradicional encontro promovido pelos cursos de Comunicação Social e Artes] tinha feito um impresso, com vários poetas, e nós resolvemos fazer a Uns & outros. Ela foi um embrião, a partir dali a gente se aproximou mais, fosse para mostrar que todo mundo podia fazer poesia, por que aqui em São Luís tem aquela coisa da tradição.
Ademar – Nós tivemos um incentivo muito grande do pessoal do Guarnicê [suplemento então encartado no jornal O Estado do Maranhão, depois uma revista independente], que eram Celso Borges, Joaquim Haickel, [Roberto] Kenard, Paulinho. Eram jovens, mas já casados, já tinham terminado os cursos, e nos acolheram. A palavra é essa: o pessoal do Guarnicê acolheu os párias. Ajudavam a gente a imprimir, eles já trabalhavam, Celso já era casado, Joaquim já era deputado, eles ajudavam. Era uma geração acima da gente.
Garrone – Naquela época não havia internet, os jornais circulavam bastante e você via ali, no domingo, aquele encarte, num jornal oficial, da família [Sarney, proprietária do Sistema Mirante de Comunicação], mas tinha algo diferente. Ousado, digamos assim. Isso acabou.

Afora a poesia o que vocês destacariam como elementos de interesse comum?
Ademar – Nós tínhamos estilos de vida parecidos. A maior parte de nós tinha militância estudantil, pensava coisas semelhantes, frequentava lugares semelhantes. Eu levei todo mundo pro reggae, todo mundo virou regueiro.
Marcello – Todo mundo progressista, libertário e doido.
Garrone – Havia também uma identificação com a geração beat, a coisa do pé na estrada. Eu e esse aqui [Ademar], a gente tem várias histórias de estrada [risos].

Qual foi a repercussão da primeira Uns & outros? Foi uma coisa pensada ou foi uma coisa meio “vamos reunir quem está escrevendo e ver no que é que dá”? Como é que foi isso?
Garrone – Já tinha essa base do jornal do Comunicarte. O que deu repercussão foi o lançamento, no Sapecas Bar [hoje extinto; na Rua das Flores, por detrás da Igreja de São João]. Pegávamos as revistas, todo mundo liso, e entrávamos nas salas de aula [na UFMA], pedíamos licença e entrávamos, recitávamos.
Marcello – A gente foi pra UFPA em 1993.
Ademar – Nós não achávamos que era uma coisa assim à toa. Nós já tínhamos inserção na sociedade. Naquele tempo eu já trabalhava em rádio, todos nós fazíamos movimento estudantil, nós tínhamos presença na universidade, presença na sociedade. A gente sabia que aquilo ia repercutir. O que a gente não tinha era uma estratégia de marketing pensada, mas a gente não fez à toa. A gente fez sabendo que era possível fazer. Era uma revista de-vez-em-quandal.
Garrone – Saia mais ou menos de seis em seis meses.
Marcello – Uma coisa que eu acho importante que se diga dos párias é que quando íamos fazer um recital eram poemas autorais, próprios, e muitas vezes de improviso. Diferente de outros que faziam leituras de poemas, vão ler Drummond, poemas já… [interrompe-se]. Com a gente, de vez em quando rolava um Baudelaire, um Launtréamont, mas a maioria eram poemas nossos.
Garrone – Os nossos recitais eram junkies mesmo. Tinha gente que batia palma e tinha gente que vaiava, jogavam copos, nós acontecíamos.
Marcello – Eu me lembro do Beco Cultural, a gente botou umas mesas no palco e ficou o microfone ali, a gente bebendo em cima do palco, de vez em quando um levantava, com seus papéis ou não, recitava um poema e as coisas iam fluindo. Assim eram as apresentações dos párias.
Garrone – Todos bêbados!

Uma coisa menos comportada. Era um grogue ao vivo.
Garrone – Era um grogue.
Ademar – O pouco que lembramos era assim [gargalhadas gerais].
Garrone – O Diário Oficial [do Estado do Maranhão], quando era publicado no Sioge [o Serviço de Imprensa e Obras Gráficas do Estado, hoje extinto], ele tinha um encarte cultural, era Alberico [Carneiro Filho, escritor e professor] que era o editor. Ele ia fazer, nós já tínhamos publicado a última revista, eu era editor de cultura de O Imparcial, e não sei por que cargas d’água, ele quis convidar os párias para fazer um recital lá no Sioge, nessa festa. Lá estavam Jomar [Moraes, escritor, membro da AML], a academia. Foi um escândalo!
Ademar – Diga-se de passagem, o Jomar Moraes não gostava nada de nós. Escreveu artigos detonando a qualidade da Akademia dos Párias. A Academia Maranhense de Letras não gostava, por que o próprio nome Akademia dos Párias mostrava essa contradição, a academia como essa coisa pompa e pária que é a ralé da sociedade.

Quer dizer, havia uma intencionalidade quando vocês batizam o grupo.
Ademar – Claro!
Garrone – Tem um poema de Bráulio Tavares, chamado Amor e verdade, que é um poema assim: “me dá tua mão!/ toca aqui [toca a calça na altura do pênis]/ sentiu? Acredita agora?” Quando eu fiz isso lá no Sioge, aí pronto, a família maranhense… [risos] ao ponto que acabaram com a festa, não nos pagaram o cachê.
Ademar – Nessa mesma época houve uma premiação, dessas premiações fajutas, do produtor que faz, os melhores do ano, e o melhor do ano na área cultural é o diretor financeiro não sei o quê que tem. Aí convidaram os párias para essa festa de melhores do ano no Casino [Maranhense, então um tradicional clube na avenida Beira Mar], onde estava a nata da inteligência formal de são Luís, os tidos inteligentes, acadêmicos e tudo mais, e era o troféu Apolônia Pinto de Cultura do Maranhão. E lá pelas tantas, eu já trabalhava na Mirante, o locutor do evento era [o radialista] César Roberto. Nós éramos temidos, as pessoas sabiam que a gente ia aprontar alguma. César Roberto na apresentação, eu trabalhava junto com ele, eu chego de surpresa nele, por detrás do microfone e digo: “César, a Akademia dos Párias vai fazer uma homenagem à cultura”, e César Roberto, confiando no seu amigo de trabalho [risos]. Tinha um camarote com Jomar Moraes, que era presidente da Academia Maranhense de Letras, e César Roberto anuncia: “e a partir de agora a Akademia dos Párias no troféu Apolônia Pinto vai fazer uma homenagem à cultura!”. Isso era de madrugada, e não se sabe de onde Paulo Melo Sousa [poeta e jornalista] aparece com um abacaxi, todos embriagados, e nós decidimos oferecer à Academia Maranhense de Letras. Era o troféu Apolônia Pinto, nós resolvemos oferecer o troféu Apolônia Pênis [risos]. Quando a gente se espanta Paulão jogou o abacaxi no camarote e esse abacaxi saiu caindo por cima deles lá, aquele alvoroço, a festa acabou por ali.
Marcello – Uma vez nós fomos convidados para representar a Akademia dos Párias num simpósio do curso de Letras da UEMA. Fomos Fernando Abreu, Joe Rosa e este seu amigo. Teve apresentação de todo tipo de poesia. A gente entra depois do coral da Igreja Maranata. A gente se apresentou e foi falar um pouco da poesia erótica. Cada um disse um poema e eu falei um poema de Bráulio Tavares. Quem tinha me convidado era uma professora que estava bem na minha frente. Era o Poema da Buceta Cabeluda, que tem versos como: “a buceta da minha amada é cabeluda/ e cabe linda na palma da minha mão”, quando eu falei mão, olhei para a professora ela estava vermelha, “a buceta da minha amada é cabeluda/ é o alfa e o ômega dos meus segredos/ e na minha língua é lambda”, quando eu falei lambda, a professora não estava mais lá. No final a confusão foi tão grande, a gente estava autografando livros, a meninada pirou, um professor que ia se apresentar depois da gente, disse “olha, eu ia fazer uma coisa meio escandalosa, mas depois dos párias eu vou parecer um anjinho”… e eu estava feliz, vendendo livro, dava pra beber, era aquela coisa, poesia e álcool, álcool e poesia. Aí chega a professora, com outro professor, vieram me dar uma bronca, por que eu tinha feito aquela coisa pornográfica. Eu argumentei: “mas professora, o objetivo da universidade não é atritar as inteligências?”, e eles “não, mas não sei o quê”, eu tentei argumentar, mas eles insistiram, eu virei e disse: “olha, eu já fiz [recitei] o poema, vocês querem que eu faça o quê, agora, com essa buceta, que eu raspe?” [gargalhadas]. Sempre havia um tipo de confusão por causa da ousadia. É como Garrone falou: ou aplaude ou vaia, indiferente não fica.
Garrone – Uma coisa engraçada é que uma vez fomos para Arari, ficamos hospedados na casa do prefeito, um evento só para professores e havia um poema de [Antonio Carlos] Alvim que dizia “grande e lúcida a buceta de Lúcia”, e nós pensávamos que íamos chocar, que fosse o inverso, mas eles receberam super bem. Havia uma preocupação em dizer ou não, e fomos surpreendidos. Para ver a contradição.
Ademar – O fato é que a Akademia dos Párias devolveu a imagem de São Luís como terra de poetas. O pessoal via aquele monte de moleque fazendo poesia. Boa ou ruim, mas fazendo poesia e projetando a poesia na cidade. A Akademia dos Párias foi muito importante para os anos 1980, para a cena cultural de São Luís, foi fundamental.

Vocês falaram há pouco de vender revistas em salas de aula. Quer dizer, havia certo respeito dos professores.
Ademar – Não era tanto respeito, era certa inevitabilidade.
Garrone – A gente pedia licença e entrava. Se eles dissessem não, a gente entrava do mesmo jeito.
Ademar – Isso nós herdamos do movimento estudantil.
Garrone – A universidade como uma casa aberta, era uma compreensão nossa. Você tinha relação com o Sá Viana [bairro por detrás da UFMA], não tinha muros. A gente sempre discutiu que a universidade era o espaço para se exercer a liberdade que a sociedade não permitia. Esse era o discurso que a gente tinha, não o discurso que se tem hoje de que a universidade é um grande colégio.

Nesse aspecto vocês não pensam que o ambiente universitário hoje não está meio estéril?
Ademar – Sem dúvida alguma! É outra realidade.
Garrone – Hoje em dia é o cara entrar, fazer o dever de casa, se formar, fazer o trabalho certinho e acabou. Não tem experiência nenhuma, não viaja.
Ademar – Não existe mais movimento estudantil. Hoje o movimento estudantil se sustenta com emissão de carteiras de estudante. O movimento estudantil não vai mais para os retornos pedir pedágio para a população ajudar na luta estudantil.
Garrone – Papai e mamãe bancam. Hoje se vai para encontro de estudantes, vai de avião, fica em hotel.
Ademar – Isso não existia na nossa época. A gente ia para a rua tentar arrumar dinheiro para viajar de ônibus e ficar em alojamento, em colégio. Hoje o movimento estudantil é uma máquina de fazer dinheiro, há empresas especializadas em organizar encontros. Isso não é saudosismo, pode parecer “ah, na minha época era melhor”, não era, era uma forma diferente de ver o mundo, as coisas eram mais conquistadas.

Que livros de cabeceira vocês elegeriam?
Ademar – [Charles] Bukowski em primeiro lugar, sem dúvida nenhuma, tipo obras completas.
Marcello – Os beatniks, Gregory Corso, [Lawrence] Ferlinghetti.
Ademar – Todo mundo lia muito e várias coisas.
Garrone – Na poesia tinha [Paulo] Leminski, antes de Leminski virar pop, digamos assim, a gente já lia. Chacal era uma referência, passou por aqui. Tinha Os Camaleões [grupo de poetas integrado por, entre outros, Pedro Bial] do Rio. Como a gente viajava muito para encontros, a gente conhecia grupos em salvador e trocávamos com o que fazíamos. Os irmãos [Augusto e Haroldo de] Campos. Ademar tinha Mulheres, de Bukowski, foi o primeiro que a gente viu. Nós tínhamos só uma livraria, que era a Espaço Aberto, aqui na Rua do Sol, era a livraria de Josias Sobrinho [compositor].
Marcello – Talvez uma das maiores divisas da Akademia dos Párias seja de Ferreira Gullar. Aquele trecho “loucos são todos em suma/ uns por pouca coisa, outros por coisa alguma”.
Ademar – Saiu em todos os números [como uma espécie de epígrafe] e representava a nossa loucura mesmo.
Garrone – Bráulio Tavares eu conheço duma edição da Abril que vendia em bancas. Com a Companhia das Letras é que começou a surgir uma literatura mais voltada para nosso caminho. A primeira tradução de [Vladimir] Maiakovski que eu li foi uma tradução portuguesa horrível. Aí tu vai ler a dos irmãos Campos com Boris Schnaiderman, é outra coisa!

O que do espírito pária está mantido intacto em vocês, hoje?
Ademar – Eu digo com toda tranquilidade: eu era um jovem rebelde. Hoje eu sou um coroa rebelde. Eu nunca perdi o meu sentimento de contestação. Ao longo do tempo eu exerci esse sentimento de contestação de várias maneiras, na política partidária, cheguei até a ser vereador, larguei a política partidária, é uma página totalmente virada, mas continuo firmemente com minhas posições políticas, continuo firmemente atendendo e entendendo minha formação de esquerda. Só não tenho mais militância, mas continuo com a mesma visão crítica, claro que hoje com a perspectiva de alguém com 53 anos, que não é igual à de quem tem 18 anos. Mas eu continuo na rebeldia, acreditando e desacreditando na humanidade.
Garrone – Além disso que Ademar falou, está dentro de mim, mas eu me preocupo, por que eu não quero mexer nisso. Não dá para conciliar essa coisa mais pária com essa coisa mais profissional, família. Se eu começar a beber eu sei como é que eu sou, eu me conheço. Até a relação com a poesia, ela não vai te dar sustento, mas te dá comportamento. Eu temo começar a dar mais espaço para o lado poético e menos para o lado jornalístico, por que a poesia me leva, de certa forma, para a anarquia, para a falta de regras, uma série de coisas que eu sei que estão em mim. Não quer dizer que todo mundo seja assim. Eu te garanto que no dia 19 eu vou estar morto de bêbado aqui [aponta para a livraria Poeme-se], por que eu tenho que beber para fazer isso, faz parte de meu espírito, faz parte de minha relação com ela [a poesia]. Dito isso, eu prefiro deixá-la ali, o diabinho está ali, é melhor não cutucar com vara curta.
Marcello – O que aconteceu comigo é que, como eu falei, eu não nasci poeta. Eu descobri a poesia e fui entender que a poesia só é poesia se tiver verdade. A poesia é uma forma de viver. Eu vivo dessa forma e não aprendi outra de lá pra cá. Não mudou nada, só a idade, os joelhos que doem, mas o fígado ainda está bom. Ainda tem muito álcool para transformar em poesia, muita poesia para ser transformada em álcool. Esse é o lado pária que permanece.

Uma amizade atávica

JP Turismo conversou com os poetas Celso Borges e Fernando Abreu sobre o lançamento de Akademia dos Párias: a poesia atravessa a rua, antologia que celebra os 30 anos do movimento poético que agitou a Ilha

POR ZEMA RIBEIRO
ESPECIAL PARA O JP TURISMO

Os poetas Celso Borges e Fernando Abreu durante entrevista no Cafofo da Tia Dica. Foto: ZR (29/4/2016)
Os poetas Celso Borges e Fernando Abreu durante entrevista no Cafofo da Tia Dica. Foto: ZR (29/4/2016)

Quando Fernando Abreu voltou à São Luís – “eu sou daqui, mas só nasci aqui; passei a infância em Grajaú”, localiza –, foi estudar piano. A Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo funcionava ao lado de sua casa, na Rua da Saavedra, no Centro da cidade, o que gerou uma pergunta de um desconfiado Gilles Lacroix, então professor do instrumento na instituição: “mas é só por isso que você quer estudar piano?”, referindo-se ao fato de ele morar perto da escola. “Não. Quero estudar piano por que quero ser músico”, respondeu.

Foi por pouco: Fabreu, como hoje o jornalista e poeta é conhecido pelos amigos mais íntimos e leitores em geral, não tinha, no entanto, piano em casa, para as lições. Olga Mohana, então diretora da EMEM, orientou-o a procurar dona Maria Eugênia Borges, que morava na Rua da Paz, também no Centro, e tinha um piano em casa. Era a mãe do poeta Celso Borges. Fabreu tinha por volta de 14 anos e CB estava às voltas com o lançamento de Cantanto [ed. do autor], sua estreia na poesia, de 1981.

“Uma amizade atávica”, exclama Fabreu, para lembrar-se, logo depois, de que o avô de Celso ajudara seu pai a se estabelecer em São Luís. “Ele ficou anos ocupando um imóvel, sem pagar aluguel. Com a barbearia custeou seu curso de odontologia, depois pagou os aluguéis, mas nada teria acontecido sem aquela força”, agradeceu.

As lembranças vão se emendando umas às outras como cigarros acesos nas baganas dos anteriores, embora ninguém fume durante a entrevista regada a água e coca-cola. No Cafofo da Tia Dica, detrás da Livraria Poeme-se, na Praia Grande, converso com os poetas sobre os 30 anos que a Akademia dos Párias, movimento integrado por eles nas décadas de 1980 e 90, completa em 2016, e que será comemorado com o lançamento da antologia Akademia dos Párias: a poesia atravessa a rua.

“Eu sou mais ou menos seis anos mais velho que toda a turma”, revela Celso, à época já formado em jornalismo pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA) – onde grande parte dos párias se encontrou, principalmente nos corredores do curso de Comunicação Social –, pai de família e com carteira assinada no Sistema Mirante de Comunicação. “Eu tinha completa liberdade na rádio [Mirante FM, inaugurada há pouco], levei Ademar Danilo [jornalista e dj] para fazer o Reggae Night, ele já tinha um conhecimento fabuloso do ritmo”, lembra.

“A gente ouvia Bob Marley, Peter Tosh, Jimmy Cliff. Foi através de Ademar que começamos a ouvir outros nomes da Jamaica”, enumera Fabreu. “O estúdio era pequenininho, mas uma vez Celso levou a galera lá, botou a gente sentado no chão, crivou de perguntas e publicou uma entrevista”, conta. O papo saiu na Guarnicê, que era um encarte do jornal O Estado do Maranhão – depois a revista circularia de forma independente –, editada por Celso com Roberto Kenard e Joaquim Haickel.

Ronaldão lendo um poema no lançamento do número 3 da revista Uns & Outros, no bar de Betto Pereira, no São Francisco, em 1986 ou 87. Foto: acervo Párias.
Ronaldão lendo um poema no lançamento do número 3 da revista Uns & Outros, no bar de Betto Pereira, no São Francisco, em 1986 ou 87. Foto: acervo Párias.

“Outro cara importante foi Ronaldão. Era um cara versado em Bob Dylan, Kraftwerk, Pink Floyd. Encarnou um personagem, sumiu. Ninguém sabe por onde anda. A última vez que eu falei com ele, ao telefone, foi em 1997. Guaracy [Brito Jr.] também já sacava muito de música, Joy Division”, Celso lista outros autores de poemas que estarão na antologia.

Indago-lhe o critério de seleção. Ele não titubeia: “primeiro os poemas que sobreviveram ao momento; depois, poemas que tinham o espírito pária. São 25 poetas, muitos deles só publicaram ali, na Uns & outros [revista editada pela Akademia dos Párias], naquele momento”, revela. O único poema que não saiu na revista foi justamente Pária, de Celso Borges, que encerra seu Pelo avesso [1985]: “somos poucos/ cada vez menos/ somos loucos/ cada vez mais”, diz um trecho do poema, que não por acaso ilustrava a camisa que o poeta escolheu para conversar com o JP Turismo. Vestido de preto, Fabreu saudava o citado Bob Marley e sua One love. Paz, amor e poesia, bem traduzindo o clima pária.

Influências – O surgimento da Akademia dos Párias se dá no apagar das luzes da ditadura militar brasileira, que assombrou o país por 21 anos. “Coincidiu também com uma abertura gráfica, editoras como a Brasiliense começaram a publicar [Paulo] Leminski, Chacal, John Fante, [Charles] Bukowski”, lista Fabreu. “Caprichos e relaxos, Drops de abril, Pergunte ao pó, Cartas da rua e Mulheres eram bíblias, uma espécie de Pentateuco particular”, enumera CB.

Galera Pária no antigo Hotel Quatro Rodas, em 1986. Foto: acervo Párias
Galera Pária no antigo Hotel Quatro Rodas, em 1986. Foto: acervo Párias

“Nós éramos amados e odiados em igual medida. Muita gente adorava, a gente vendia revistas, fazia saraus em bares e, claro, bebia muito. Outros chamavam a gente de “viado”, por que era tudo muito orgânico, a gente se abraçava, se beijava em público”, lembra Fabreu. E completa, pensando em Allen Ginsberg, Jack Kerouac e companhia: “mal comparando, éramos como os beats, ao redor de quem orbitavam também figuras que não escreviam ou escreviam ocasionalmente”.

Uns & outros – A revista Uns & Outros teve oito números publicados em 10 anos – o último saiu em 1996. “Havia uma necessidade de publicar. As pessoas estavam escrevendo, de repente se reunia o material, se cotizava e pensava-se que com o dinheiro da venda da revista a gente pagaria o que ficou devendo na gráfica e investiria no próximo número: mas a farra era grande e nunca havia caixa”, ri Fabreu.

“Gosto de pensar na importância da revista. Havia um vazio. Se pensarmos no que foi feito em termos de agito literário nas décadas anteriores, é nada. É claro que havia os livros de [os poetas Bandeira] Tribuzzi, Nauro [Machado], [José] Chagas – mas outras leituras nos interessavam mais. A Uns & Outros serviu para mostrar que poesia podia ser feita por quem não é da Academia Maranhense de Letras e eu gosto de pensar que anos depois, embora soe estranho, já que eu fiz parte também, influenciou, por exemplo, a revista Pitomba!”, celebra Celso.

ServiçoAkademia dos Párias: a poesia atravessa a rua, a antologia, será lançada no próximo dia 19 de maio (quinta-feira), às 19h, na livraria Poeme-se (Rua João Gualberto, 52, Praia Grande), com recital de poesia.

[Jornal Pequeno, JP Turismo, sexta-feira, 6 de maio de 2016]

Socialista insurgente

Fenômeno das redes sociais, referência de um jornalismo que se assume de esquerda, a jornalista Cynara Menezes, editora do blogue Socialista Morena, estará em São Luís terça-feira que vem (19) para um debate sobre “Mídia, poder e democracia”, promovido pela Secretaria de Estado dos Direitos Humanos e Participação Popular (Sedihpop).

O evento “Diálogos insurgentes” acontece na Galeria do Centro de Criatividade Odylo Costa, filho (Praia Grande), às 17h, gratuito e aberto ao público. Ela dividirá a mesa com Francisco Gonçalves, titular da Sedihpop, professor doutor do departamento de Comunicação da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), e Ricarte Almeida Santos, sociólogo e radialista, secretário executivo da Cáritas Brasileira Regional Maranhão, produtor e apresentador do dominical Chorinhos e Chorões, na Rádio Universidade FM (106,9MHz).

Formada na Universidade Federal da Bahia (UFBA), Cynara já passou por grandes redações, como Folha e O Estado de S. Paulo, Veja, Isto É/Senhor, Vip e CartaCapital. Atualmente é colunista da revista Caros Amigos, onde assina o Boteco Bolivariano.

Zen Socialismo. Capa. Reprodução
Zen Socialismo. Capa. Reprodução

Inaugurou o Socialista Morena em 2012, assumidamente esquerdista. Em sua casa na internet, prega um socialismo à brasileira, mestiço, moreno, como defendiam Darcy Ribeiro e Leonel Brizola, a quem ela homenageia em seu espaço, o primeiro veículo de comunicação brasileiro a ter uma editoria de “maconha” – ousadia imperdoável para os reacionários que não perdem tempo em agredi-la por… pensar.

No blogue, ao contrário da regra geral da internet – sim, há exceções –, busca escrever textos que sobrevivam à pressa e instantaneidade típicas da rede. Ano passado reuniu os melhores em Zen Socialismo (os melhores posts do blog Socialista Morena) [Geração Editorial, 2015, 240 p.; leia o primeiro capítulo], que ela autografará após o debate.

Por e-mail, Cynara Menezes conversou com exclusividade com o Homem de vícios antigos.

A Socialista Morena Cynara Menezes. Foto: João Fontoura
Cynara Menezes, a Socialista Morena, em clique de João Fontoura

Você tem feito a defesa do mandato da presidente Dilma Rousseff, com as devidas críticas a seus governos e aos de Lula. Na sua opinião, o PT é vítima de uma armadilha que criou para si, ao não democratizar a comunicação e as verbas de publicidade governamental?
Acho que o PT cometeu um erro de estratégia ao repetir a aliança com o PMDB em 2014. Não lhe acrescentou nada, pelo contrário. Estaria muito melhor hoje se Dilma tivesse sido eleita numa chapa puro sangue. Quanto à democratização da mídia, ainda que ela não tivesse se concretizado, seria possível ao partido (não ao governo) investir em mídias próprias, em vez de gastar tanto dinheiro em marketing político durante a campanha eleitoral. Para mim, a existência da internet é, em si, uma democratização da mídia. O PT e as esquerdas em geral poderiam ter avançado mais nos últimos anos em busca de meios de comunicação próprios.

O Socialista Morena é, hoje, um fenômeno nas redes sociais, algo raro para um site assumidamente de esquerda. Sua iniciativa é sustentada por seu público leitor. A que você credita essa preferência?
Acho que toquei num ponto que muitos órgãos da grande mídia parecem não perceber: a carência do leitor por textos bacanas, curiosos, sobre fatos atuais ou históricos. Invisto no meu blog em posts atemporais justamente por isso; os posts noticiosos acabam ficando “datados” rapidamente, de certa forma repetem o impresso, que no dia seguinte já estará embrulhando o peixe. Também me situei num nicho existente: a demanda por leituras de esquerda, que os jornalões não contemplam de forma alguma. Pode-se dizer que ninguém de esquerda hoje se sente representado pela mídia hegemônica. E somos metade da população, pelo menos.

O blogue surgiu em paralelo à sua atividade na imprensa, como repórter de CartaCapital. O hobby virou um compromisso mais sério? Você é adepta do pensamento de que “quem trabalha com o que gosta vive eternamente de férias”?
Nunca foi hobby, sempre foi um plano B para mim. Quando comecei o blog, já tinha em mente que estava iniciando meu veículo de comunicação. Quem trabalha com o que gosta é mais feliz, sem dúvida. Eu trabalho pacas, jamais podia dizer que estou eternamente de férias.

A transparência entre quem escreve e quem lê deveria ser um pressuposto da prática jornalística, não é? Raramente se vê um veículo ou profissional assumir de forma explícita posição político-ideológica, escondendo-se sob o falso manto da imparcialidade. O cenário está mudando?
Sim, depende do veículo. Alguns jornais e revistas proíbem que seus jornalistas se posicionem politicamente nas redes sociais, caso da Folha. Mas vejo, por exemplo, que os profissionais do jornal O Globo são mais liberados para falar o que pensam, assim como os repórteres dos canais esportivos, mesmo os da Globo. Recentemente vi também jornalistas da TV Globo e GloboNews assumirem posturas ideológicas, tanto mais progressistas quanto mais à direita. Acho isso bom, fica mais transparente.

De uns tempos para cá, muita gente tem migrado de veículos para profissionais, isto é, deixado de acompanhar jornal A ou B para acompanhar jornalista X ou Y. A seu ver, quais as vantagens e desvantagens deste modelo?
A vantagem é que os jornalistas se firmam sem a necessidade de estar vinculados a grandes veículos. Para o leitor, facilita na orientação do que ler: quando você confia em alguém como guia de leitura, evita perder tempo com conteúdos desinteressantes ou com os quais a pessoa não se identifica. A desvantagem é que ainda somos poucos, isso reduz o espectro da informação. Quando formos muitos informadores autônomos, haverá um leque mais amplo de escolha para o leitor.

Quais as suas melhores e piores lembranças de seus tempos de grande mídia?
Trabalhei muito bem na Folha de S. Paulo, tive grandes oportunidades lá. Pude entrevistar alguns dos escritores mais importantes do país e fiz muitas matérias divertidas. O chato para mim na Folha era o veto ao pensamento político próprio. Isso, depois de certa idade, se torna insuportável. Minha pior lembrança é, sem dúvida, minha passagem de oito meses pela revista Veja, uma escola de como não fazer bom jornalismo.

Seu claro posicionamento ideológico tem um preço: ataques, grosserias e toda sorte de péssimos comportamentos de quem não consegue tolerar sua postura. A veiculação de mentiras sobre sua pessoa é uma constante. De vez em quando você anuncia processos na justiça contra a perpetuação dessa prática. É possível fazer um balanço das causas? Dá para comprovar, como parte, a lentidão e seletividade da justiça brasileira?
É muito difícil penalizar alguém. O máximo que a gente consegue é dar um tranco, enviando interpelações judiciais a caluniadores. No caso do senador Ronaldo Caiado, pedi direito de resposta em seu twitter por ter me caluniado. A ação está correndo na Justiça.

Uma trincheira de sua luta é a defesa de um modelo alternativo de socialismo, mais à brasileira, mestiço, moreno, evocando figuras como Darcy Ribeiro e Leonel Brizola, a quem o nome de seu blogue homenageia. Mais que possível, é um socialismo necessário?
Eu vejo a existência do socialismo como uma condição sine qua non para o equilíbrio do planeta. Imaginem se no mundo só houvesse capitalistas! Acho que as teorias em torno do socialismo estão mudando. Não sou nenhuma teórica, mas percebo que talvez o socialismo não seja, como se pensava, um modelo de sociedade, e sim um sistema de governo. Talvez sejam possíveis governos socialistas e não uma sociedade socialista.

Você visita o Maranhão governado por Flávio Dino, primeiro governador eleito pelo PCdoB na história do Brasil, após décadas de dominação da oligarquia Sarney. É possível, à distância, fazer uma avaliação do mandato do comunista?
Não me chegam muitas informações, mas o que conheço, gosto. Sobretudo por ele ter sido capaz de desmontar a oligarquia Sarney. Acompanhei recentemente a abertura de concurso para professores com salário inicial de 5 mil reais na rede estadual. Valorizar os professores é sempre um bom sinal. Darcy Ribeiro aprovaria.

O processo de impeachment de Dilma Rousseff lembra, guardadas as devidas proporções, a cassação do governador maranhense Jackson Lago, em abril de 2009, através de um golpe judiciário. Após pouco mais de dois anos de governo, o pedetista tinha certo desgaste com alguns setores e contou com pouco apoio popular. Que conselhos você daria a Flávio Dino para um mandato realmente popular, democrático e progressista?
Governar com a participação dos movimentos sociais. Dilma se afastou deles nos dois mandatos, foi um de seus principais equívocos. Saber ouvir as pessoas, principalmente os jovens, que estão muito interessados em participar das gestões e das decisões. Acho que toda secretaria deveria ter um conselho de jovens. Temos que ouvir os jovens, eles estão na rua o dia todo, estão na escola, na universidade, têm contato com a insegurança, com a polícia. Um governo de esquerda também tem que ser criativo, buscar sempre novas soluções para os problemas, e deve estar atento para a mobilidade urbana, uma questão fundamental do século 21.

A menina vinda do interior da Bahia que venceu na vida: passou por grandes redações, morou na Espanha e hoje tem um dos blogues mais respeitados do país. Num tempo em que o jornalismo parece se esfarelar em sua mesquinhez movida por interesses outros que não a notícia e a verdade em si, o que você diria a jovens estudantes que serão jornalistas num futuro breve?
Que procurem investir em sua formação intelectual. Aprender idiomas, ler boa literatura, bons ensaios e bons conteúdos na rede. Fuçar, não perder a curiosidade, sempre. Procurar conhecer os mestres também é importante. Tudo isso vai ajudá-los a se tornarem profissionais diferenciados no meio. Gente despreparada não terá lugar no jornalismo, ou fará mais do mesmo.

Arqueologia poética

Aos 26 anos Mayra Fontebasso cursa o último período de Letras na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), no interior paulista. Natural de Itu, a mãe da Clarice ganha a vida mexendo ou produzindo textos alheios: “pesquisadores, professores universitários, advogados, jornalistas, escritores e políticos que querem textos e discursos mais bem elaborados” procuram a moça à frente da Leitura Profissional, onde escreve, edita, revisa e traduz.

Mayra é também contadora de histórias e diz gostar “de fingir que toco chorinho ao violão”. Ela segue sem se levar muito a sério: “descobri que estudo literatura e tento fazer isso a sério, mas falta dinheiro”, apresenta-se.

Raça nº. 13, 1929. Capa. Reprodução
Raça nº. 13, 1929. Capa. Reprodução

Sua pesquisa de conclusão de curso é sobre “Os modernistas e a revista Raça (1927-1934)”, sob orientação do Prof. Dr. Wilton José Marques e, faz questão de frisar, apoio financeiro do CNPq. A publicação circulou na região no período assinalado.

Ela revela desde sempre se interessar “pela história do interior paulista e seus arranjos políticos pautados por interesses oligárquicos e perpetuadores de desigualdades que persistem até hoje”. Reside em São Carlos/SP desde 2008 e a partir de um estágio na Fundação Pró-Memória local passou a estudar a “falsa vanguarda” do movimento modernista Verde-Amarelo a partir de sua manifestação literária na revista são-carlense do final dos anos 1920.

Foi em meio a essa pesquisa que deu com os óculos em três poemas desconhecidos de Carlos Drummond de Andrade [1902-1987] publicados na Raça. É ela quem prefere, com razão, o termo “desconhecidos” em vez de “inéditos”, já que embora não constem de nenhum livro do autor, antologias ou estudos sobre sua obra, os poemas foram publicados na revista (leia-os ao final deste post). É um Drummond inocente, bem diferente do que reconheceríamos como um dos maiores poetas brasileiros do século passado, efígie das notas de cinquenta cruzados novos, homenagem póstuma da Casa da Moeda brasileira no final da década de 1980 – o verso da nota trazia o poema Canção amiga, musicada por Milton Nascimento em 1978.

Sobre os achados Mayra Fontebasso conversou com o Homem de vícios antigos.

A pesquisadora metendo os óculos nos perdidos de Drummond. Foto: Wilson Aiello
A pesquisadora metendo os óculos nos perdidos de Drummond. Foto: Wilson Aiello

Como foi o seu grito de “eureka!” ao se deparar com os três poemas desconhecidos de Drummond?
Na verdade as reações foram mais como “Quem é o charlatão se passando por Drummond?” e um “Ahhh, duvido que seja Drummond! Não tem nem o Andrade na assinatura…”. Acho que qualquer leitor do consagrado itabirano teria essa reação ao se deparar com os poemas. Eu, particularmente, conhecia a obra do poeta apenas a partir do livro Alguma poesia [1930]; além do mais, no periódico são-carlense que estudo – a revista Raça, publicada entre 1927 e 1934 – é comum vários colaboradores assinarem com pseudônimos, uma estratégia para evitar desafetos com leitores e para os editores ‘encherem’ as páginas da revista, já que provavelmente vários textos sem autoria e mesmo com nomes suspeitos eram produzidos por eles. Ainda, os poemas eram assinados por um “Carlos Drummond”, sem o Andrade, o que de início me chamou a atenção. Bastou a leitura de alguns títulos especializados, porém, para eu ter a certeza de que essa era uma assinatura do poeta muito utilizada ao longo dos anos 1920. Tirei a teima por meio do livro organizado pelo professor Antônio Carlos Secchin, chamado 25 poemas da triste alegria [CosacNaify, 2012], escrito por Drummond em 1924 e até então desconhecido. Nesse livro há um texto sobre os pseudônimos utilizados por Drummond, o que me levou à Bibliografia comentada de Carlos Drummond de Andrade minuciosamente organizada por Fernando Py, que fez um levantamento de toda a obra drummondiana publicada de 1918 a 1934 [2ª. edição, aumentada; Fundação Casa de Rui Barbosa, 2002]. Em nenhum destes livros os poemas da revista são-carlense apareciam, nem mesmo no Inventário do Arquivo Carlos Drummond de Andrade, que possui mais de dois mil itens aos cuidados da Fundação Casa de Rui Barbosa, encontrei qualquer referência aos poemas da Raça. Com esses livros foi que passei a conhecer o jovem Drummond que publicava principalmente no jornal republicano Diário de Minas. Inclusive suspeito que haja uma coletânea de mais de 140 poemas-em-prosa semelhantes a estes que encontrei em uma monografia defendida na UFMG que, infelizmente, não está disponível para leitura online em lugar nenhum e já virou um mito para mim. Preciso passar por Minas Gerais e correr atrás desse trabalho.

Você é estudante do último período de Letras. Sua pesquisa é sobre a revista Raça. Qual a abordagem de seu trabalho monográfico?
Olha, a abordagem é a paixão em enxergar na literatura toda uma organização de pensamento sobre o que se falava e se escrevia em uma dada época. Vou tentar simplificar: gosto de pensar sobre como se relacionavam num determinado período a obra literária, no caso a revista Raça, o seu público leitor e a sociedade que permitiu que essa obra surgisse e circulasse. Dizem que essa é uma abordagem historiográfica, mas desconfio que esse seja o nome que deram para essas pessoas loucas como eu que amam papeis antigos e “fontes primárias” que nos fazem espirrar e que são um amontoado de peças de um quebra-cabeça que dificilmente poderá ser completado. Estudando a Raça tenho a oportunidade de entender melhor como pensava a ala mais conservadora do movimento modernista, aquela vinculada aos Verde-Amarelos como Cassiano Ricardo, Menotti del Picchia e Plínio Salgado, para citar alguns nomes que aparecem na revista. Consigo, então, olhar ao mesmo tempo para o movimento modernista a nível nacional conflitando-o com o dado local, com a recepção de suas ideias e com as articulações de intelectuais conhecidos com personalidades locais que possuíam um projeto de construção para um país, um projeto de nação calcado na definição do que seria justamente a “raça brasileira” em meio aos mitos do caldeamento e da mistura entre o que denominam – nessa ordem hierárquica –como bandeirantes paulistas, indígenas e negros. Na minha pesquisa pretendo delinear melhor quem são e como pensavam os escritores modernistas que contribuíram para a revista são-carlense, discutindo o projeto editorial que sustentava um projeto de nação para o Brasil. Já no TCC o tema Drummond será incontornável e vamos ver o quanto conseguirei me aprofundar na produção de juventude do poeta.

Os poemas de Drummond são ruins, o que é justificável: era então um autor bastante jovem e ainda desconhecido. Como você os localizaria dentro da obra do poeta? Acha que ele se envergonharia deles?
Eu sou bem na minha, sabe? Sou mãe, lutei muito para chegar perto de concluir minha graduação, sempre tive que trabalhar para me manter na universidade, sei que não li nem um quinto do que deveria ter lido até agora para fazer o que faço… Aliás, suspeito muito do que faço e do que penso, e tenho certeza que esse badalo todo o Drummond é que criou só para se vingar de mim aumentando expectativas em torno da minha pesquisa [risos]. Certamente ele detestaria o que estou fazendo. Não gosto de dizer que os poemas são ruins, prefiro dizer que são imaturos, ingênuos, “manjados”; mas têm o seu encanto justamente por nos lembrar de que o Drummond não nasceu grande. Ele também seguiu modelos, idolatrou outros poetas, por vezes os imitou descaradamente até achar o seu próprio estilo e publicou essas “bobeiras de juventude” loucamente, passando a vida negando essas produções e tentando escondê-las. São poemas-em-prosa (ou prosa poética), um estilo de escrita usado por muitos poetas porque permite certa narração mais próxima à realidade ao mesmo tempo em que contém elementos poéticos como o ritmo e a métrica, as metáforas, as imagens resgatadas por meio da linguagem poética. Drummond escreveu muitos poemas-em-prosa, então não é uma novidade para os estudiosos, mas esses achados reforçam o que o pesquisador John Gledson apontou já nos anos 1980 [Poesia e Poética de Carlos Drummond de Andrade, Ed. Duas Cidades, 1981]: Drummond não nasceu moderno e passou por um processo de formação, embora ainda haja certa resistência a essa leitura. São poemas “penumbristas” porque se vinculam a uma tendência literária do período de transição entre os séculos XIX e XX no Brasil, pré-modernista, como chamam os especialistas. O Penumbrismo não chegou nem a ser uma “escola literária”, foi mais uma estética, um estilo calcado nos poetas franceses e italianos que tratavam de temas intimistas. No Rio de Janeiro, onde residiam escritores como Ronald de Carvalho, que inclusive cunhou o termo “penumbrismo”, essa estética era mais difundida. Nos anos 1920 o jovem Drummond lia muito Ronald de Carvalho e também Guilherme de Almeida, Ribeiro Couto e Eduardo Guimaraens, todos tributários dessa “atitude penumbrista”. Os traços simbolistas dos poemas que encontrei fazem referência a um Alphonsus de Guimaraens, por exemplo, muito lido e admirado por Drummond. São poemas com o “espírito” da época, “penumbristas” devido às várias reticências e ao tom melancólico e de solidariedade com um outro que não sabemos quem é; e “simbolistas” por evocar imagens como as “mãos soluçantes que dançam”, as “mãos viúvas que tateiam insones” etc. Em uma análise mais séria esses traços são vários e em um artigo futuro pretendo aprofundá-los.

A obra de Drummond vem sendo reeditada pela Companhia das Letras. Você é leitora de Drummond e de poesia em geral? Dele, qual o seu livro predileto? E quais são os teus outros poetas de cabeceira?

A pesquisadora tietando a estátua do poeta em Copacabana. Foto: acervo pessoal
A pesquisadora tietando a estátua do poeta em Copacabana. Foto: acervo pessoal

Eu bebo prosa e transpiro poesia. Não sei se sou boa leitora, mas vou longe quando consigo tempo para ler e até brinco de escrever, nada sério. As reedições de Drummond sempre me deixam ansiosa. Quem dera o mercado editorial fosse mais robusto para os livros não serem tão caros, mas faltam leitores… Livros são caríssimos para mim! É raro eu conseguir comprar alguma edição nova, sorte que existem sebos e bibliotecas. De todos os livros do Drummond é A rosa do povo o que sempre me comove mais, me leva aos prantos e depois me faz rir, me dá um soco no estômago e depois me faz caminhar com fé. A ilustração da primeira edição desse livro logo estará na minha pele, só preciso arranjar tempo para terminar umas adaptações na arte de Santa Rosa [risos], vou colocar mais mulheres nela. Minha cabeceira da cama é um fuzuê. Um vai-e-vem de livros e desenhos e rabiscos… Tem coisa que nunca sai de lá e que nem sempre está em livro. É que tenho o hábito de transcrever o que gosto em pedaços de papeis que se espalham espontaneamente por toda a casa. Cotidianamente, para ficar só na poesia, me deparo com Carolina Maria de Jesus, Manoel de Barros, Patativa do Assaré e Hilda Hilst. Drummond fica sempre ali no cantinho, ele pesa em livro. Tem para todos os humores. Ana Cristina César, Adélia Prado, Cora Coralina, a Patrícia Galvão… Acho que parei no tempo. Olhando aqui ainda vejo um Cacaso de bolso e um Murilo Mendes praticamente impassível em suas letras prateadas.

E de nomes contemporâneos, em prosa ou poesia, você tem lido alguém? Alguém que tenha te chamado a atenção?
Eu parei mesmo no tempo. Leio pouco ou quase nada contemporâneo, não por falta de influência, já que tenho uma porção de amigos que vive comentando várias obras. Gosto muito da escrita do [Milton] Hatoum, [Ariano] Suassuna, e de Paulo Lins, [Luiz] Ruffato, Marcelino [Freire]… Posso ir para fora do Brasil? Morro de amores pelo [José] Saramago… O restante eu realmente não tive meios ainda de sentar para conhecer além dos nomes e da fama.

E já é possível responder quais são os seus planos após a conclusão do curso de Letras?
Depois do curso de Letras eu pretendo ganhar dinheiro [risos]. Falando sério, não sei ainda se a carreira acadêmica é pra mim, pois embora eu ame pesquisar, os recursos para essa área de estudo são escassos. Gosto de agito cultural, de antropofagia literária e a coisa sempre me parece acomodada demais nas universidades. Adoro a ideia de dar aulas para jovens! Quem sabe algum projeto surja desse desejo de transformar as pessoas por meio da literatura… Talvez eu tente uma Pós-Graduação para continuar estudando o pensamento conservador na literatura brasileira, ou talvez eu parta mesmo para projetos e ajude a divulgar o que encontrei para estimular outros pesquisadores. Nesse rolo todo o certo é que continuarei trabalhando com revisões, traduções e aprimoramento de textos. Há oito anos tenho uma empresa nessa área, a Leitura Profissional, e meus clientes são pesquisadores, professores universitários,  advogados, jornalistas, escritores e políticos que querem textos e discursos mais bem elaborados. Primeiro me formo, depois vejo onde hei de fincar minhas raízes.

Fac símile da página com os poemas perdidos do jovem Drummond. Reprodução
Fac símile da página com os poemas perdidos do jovem Drummond. Reprodução

POEMAS PERDIDOS

Revista Raça, nº. 13, jun.1929, p. 32 – São Carlos/SP

Acervo de Octavio C. Damiano – Fundação Pró-Memória de São Carlos

[Ortografia atualizada pela pesquisadora. O poema compõe parte do corpus da pesquisa de iniciação científica Os modernistas e a revista Raça (1927-1934), empreendida por Mayra de Souza Fontebasso sob a orientação do Prof. Dr. Wilton José Marques (Departamento de Letras/UFSCar) e o financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Contato: leituraprofissional@gmail.com]

O poema das mãos soluçantes, que se erguem num desejo e numa súplica

Como são belas as tuas mãos, como são belas as tuas mãos pálidas como uma canção em surdina…
As tuas mãos dançam a dança incerta do desejo, e afagam, e beijam e apertam…
As tuas mãos procuram no alto a lâmpada invisível, a lâmpada que nunca será tocada…
As tuas mãos procuram no alto a flor silenciosa, a flor que nunca será colhida…
Como é bela a volúpia inútil de teus dedos…

O poema das mãos que não terão outras mãos numa tarde fria de Junho

Pobres das mãos viúvas, mãos compridas e desoladas, que procuram em vão, desejam em vão…
Há em torno a elas a tristeza infinita de qualquer coisa que se perdeu para sempre…
E as mãos viúvas se encarquilham, trêmulas, cheias de rugas, vazias de outras mãos…
E as mãos viúvas tateiam, insones, − as friorentas mãos viúvas…

O poema dos olhos que adormeceram vendo a beleza da terra

Tudo eles viram, viram as águas quietas e suaves, as águas inquietas e sombrias…
E viram a alma das paisagens sob o outono, o voo dos pássaros vadios, e os crepúsculos sanguejantes…
E viram toda a beleza da terra, esparsa nas flores e nas nuvens, nos recantos de sombra e no dorso voluptuoso das colinas…
E a beleza da terra se fechou sobre eles e adormeceram vendo a beleza da terra…

Carlos Drummond

Os franco-sambas

Pas à pas. Capa. Reprodução
Pas à pas. Capa. Reprodução

A dupla francesa Aurélie & Verioca lançou, ano passado, seu segundo disco, o ótimo Pas à Pas, em que apresentam temas instrumentais e cantados, em francês e português, com sonoridade brasileiríssima: estão lá o choro, o samba e a bossa nova.

Gravado entre a França e o Brasil, o álbum é recheado de participações especiais daqui e de lá: [a flautista] Cléa Thomasset, Flor de Abacate [grupo formado por Marcos Flávio (trombone), Rubim do Bandolim, Silvio Carlos (violão sete cordas), Dudu Braga (cavaquinho) e Oszenclever Camargo (percussão)], [a cantora e compositora] Joyce Moreno, [o violonista] Luís Filipe de Lima, [o violonista e bandolinista] Marco Ruviaro, [o baterista e violoncelista] Médéric Bourgue, [o cavaquinista] Osman Martins, [o percussionista] Stéphane Edouard, [o violonista] Swami Jr., [o saxofonista] Thomas Vahle e [o percussionista] Zé Luis Nascimento.

Além de músicas autorais, o disco traz composições de nomes como Joyce Moreno [Chocolate for (h)all, versão delas para For hall], Swami Jr. [Le temps d’un samba, versão delas para O tempo de um samba] e Egberto Gismonti [À la dérive, versão delas para Loro].

Em abril elas voltam ao Brasil para uma turnê, o que fazem regularmente desde 2012. Já estão agendadas duas apresentações no Rio de Janeiro: dia 28 de abril, no Vinicius Bar (Rua Vinicius de Moraes, 39, Ipanema), com repertório mais voltado à bossa nova; e dia 30 de abril, na Casa das Artes da Ilha de Paquetá (Praça de São Roque, 31, Paquetá). Elas demonstram interesse em passar também por Brasília, Goiânia e São Luís – atenção, produtores! –, onde o público mais afeito a choro já ouviu faixas de seu disco mais recente no Chorinhos e Chorões de Ricarte Almeida Santos.

Aurélie Tyszblat (voz e letras) e Verioca Lherm (violão, voz, cavaquinho, percussões vocais e músicas) conversaram por e-mail (em português) com o Homem de vícios antigos.

Verioca (de óculos) e Aurélie. Foto: José Feijó
Verioca (de óculos) e Aurélie. Foto: José Feijó

 

Está anunciada uma turnê de vocês pelo Brasil que pode passar por São Luís. O que está fechado e o que está faltando?
Aurélie – Estamos fazendo uma turnê por ano no Brasil desde 2012. Até o ano passado, essa turnê passava por Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo. Para 2016, o nosso desejo é tentar atingir outros espaços. Pensamos em Goiânia, Brasília e São Luís do Maranhão, por que as nossas produtoras têm conexões nesses estados. A nossa experiência mostra que a maioria dos shows dessas turnês é fechada entre um e dois meses antes do início da temporada. Temos já dois shows marcados no Rio e ainda algumas semanas para completar a temporada.

Vocês são francesas. Como se conheceram? Algum parentesco? E como se apaixonaram pela música brasileira?
Verioca – Eu nasci perto de Clermont-Ferrand, no centro da França, e moro em Montpellier, no sul da França perto do mar, há mais de 10 anos. Não tenho nenhuma ligação familiar com o Brasil. Eu toco música brasileira há 30 anos, então essa música é mais que uma inspiração para mim, ela virou a minha música! Primeiro foi quando estudei violão clássico no conservatório. Tinha estudado algumas obras de [Heitor] Villa-Lobos, [Tom] Jobim, e logo depois eu descobri a pianista e cantora [maranhense] Tânia Maria. Foi como uma revelação: eu soube imediatamente que era este tipo de música que eu queria tocar. Desde esse tempo eu comecei a estudar e nunca parei. Hoje, além do meu violão de seis e da minha voz, eu toco percussões – surdo, pandeiro, tantan, repinique, alfaia, tamborim etc. –, cavaquinho, violão sete cordas. Como multi-instrumentista, eu toco em vários grupos de música na França. A maioria são grupos de música brasileira – o grupo Madrugada, que faz samba, Choro Sorrindo, que toca choro, Guaraná Samba, que toca música afro-brasileira, Onda Maracatu, que toca maracatu –, mas também com cantoras de canções francesas, Marie Busato, ou grupos de crianças, Les P’tits Loups du Jazz.

Aurélie – Eu nasci em Paris e moro lá desde sempre. O meu avô do lado do meu pai era da Polônia e a minha mãe nasceu na Argélia. Do meu lado também não tem nenhuma ligação com o Brasil na minha família. Quem sabe numa outra vida éramos formigas brasileiras… ou bem-te-vi talvez… Eu ouvi o meu primeiro disco de música brasileira quando tinha 14 anos de idade. Era um disco de Chico Buarque e a gravação ao vivo de Vinícius [de Moraes] com Toquinho e Maria Creuza, En La Fusa [gravado na boate homônima em Buenos Aires]. Depois comecei a cantar a música de [o pianista] Michel Legrand e standards de jazz. Mas nas partituras do Real Book, queria sempre cantar os temas brasileiros. Foi anos depois, em 2003, que encontrei um professor muito querido, Eduardo Lopes, que mora na França e faz oficinas sobre a música brasileira. Foi graças a ele que desenvolvi a minha paixão pela música brasileira de uma forma muito profunda, longe dos clichês. Comecei a minha vida profissional trabalhando com cinema, primeiro com produção e logo depois como roteirista. Eu queria contar histórias e acho que é exatamente o que eu quero fazer no palco hoje.

Verioca – Nós nos cruzamos pela primeira vez em 2002 numa oficina de jazz que eu estava dando. Depois a Aurélie me contatou em 2007 para me propor de montarmos juntas um repertório de versões de [o violonista] Guinga e [o compositor] Aldir Blanc. Eu só podia aceitar, pois admiro desde sempre o trabalho deles. Nós preparamos então umas vinte músicas e começamos a viajar com o show.

Aurélie – A Verioca tinha acabado de abrir o show da Tânia Maria no Olympia de Paris e eu fiquei muito fã do trabalho dela. Eu escutei os seus dois primeiros cds sem parar durante um certo tempo, antes de pensar em propor minhas letras. O começo da parceria na composição é mais recente, do final de 2009.

É interessante vocês falarem nesta distância de clichês. Em seu novo disco, por exemplo, vemos, entre os compositores, os nomes de Joyce Moreno e Egberto Gismonti, entre outros, além do nome dela e de Swami Jr. entre as muitas participações especiais. Gostaria que vocês comentassem um pouco o processo de realização deste disco.
Aurélie – Temos uma relação específica com cada músico que participou do nosso disco. Vamos começar com a Joyce. Ela conhece o trabalho solo da Verioca há mais de 15 anos, pois a empresária dela à época, Beth Bessa, que é agora a nossa produtora no Rio, tinha oferecido os dois primeiros discos dela. Ela já tinha gostado muito. Finalmente, nos encontramos no Rio em 2010 durante uma oficina sobre a música brasileira conduzida por meu professor Eduardo Lopes. Cantamos Essa mulher para ela e ela gostou. Uma amizade nasceu assim. E quando escrevi essa letra na música instrumental dela, For hall, pedi a autorização e ela me deu na hora. Ela fala fluentemente francês e aceitou o convite para participar do disco com a maior simplicidade e alegria. Ano passado foi uma alegria poder convidá-la no palco do Sesc Tijuca, onde tocamos uma das músicas mais recentes dela, chamada Claude et Maurice, em homenagem a Claude Debussy e Maurice Ravel. Com Gismonti foi diferente. Quando escrevi a letra do Loro e quando a Verioca chegou a um arranjo interessante, consegui o e-mail dele e pedi a autorização de mostrar essa versão. Ele demorou um pouco para me responder, mas quando respondeu, nos acolheu com uma generosidade incrível. Ele tinha “estudado” o nosso trabalho com muito carinho e nos deu sugestões e opiniões que vão ficar para sempre nos nossos corações. Com Swami Jr. foi um pouco do mesmo jeito, a gente tinha um amigo em comum, o [cantor] Marcelo Preto, que já tinha gravado no nosso primeiro disco [Além des nuages, 2011]. E quando eu fiz a versão de O tempo de um samba ele aceitou de nos encontrar para ouvi-la. Na época não sabia que ele falava francês, pois tinha morado em Paris alguns anos. De lá ele topou gravar na música dele e ficou lindo! É interessante notar que tanto a Joyce quanto Gismonti e Swami Jr. falam francês muito bem. Só pra dizer que essa ponte franco-brasileira funciona nos dois sentidos. Os outros convidados do disco são amigos que a gente escolheu com muito carinho para participar de tal faixa. Pode parecer esquisito, mas a gente gosta de apresentar músicos brasileiros que não se conhecem. Foi assim que o Luís Filipe de Lima faz um duo com Osman Martins no cavaquinho. Os dois nunca se encontraram – Osman mora na Bélgica há anos e Luís Filipe é radicado no Rio –, mas a musicalidade deles juntos é impressionante. Flor de Abacate que toca no Pas à pas são [nossos] amigos desde 2012, a primeira turnê que fizemos em Minas. Temos uma admiração muito grande pelo trabalho deles juntos e separados também. O irmão de Dudu e Ramon Braga até gravou uma música nossa no primeiro disco dele, Reconciliação. Mas também tem participações de músicos daqui: o Médéric Bourgue no cello é um dos raros músicos daqui que conhece bem a música brasileira e a suas síncopas tão particulares. Ele também toca bateria, mas tem um som lindo no cello. A Cléa Thomasset é uma amiga de longa data que tem uma relação muito forte com o Brasil, dedica a sua música ao chorinho. Ela faz parte da boemia de Paris, do que falamos em Naquele bar [faixa de Pas à pás]. O Marco Ruviaro é amigo dela, chorão de primeira, compositor, bandolinista e toca até clarinete muito bem! No total, levou um ano de produção para finalizar o disco, gravando no Rio, Belo Horizonte, São Paulo, mas também Paris, Bretanha. Pode parecer muito, mas é o tempo que precisamos para amadurecer cada música. Deveria dizer cada compasso de cada música [risos]. E também a vantagem de não ter gravadora. Como independente, podemos ter o tempo que precisamos. Basta ficar focadas. Vou acrescentar aqui que, como trabalhei com produtora de cinema na minha primeira experiência profissional, sei mexer nessa burocracia chata. Não é a minha praia como vocês falam, mas tem que fazer para poder viabilizar os nossos sonhos…

Pas à pas é um disco bilíngue. Mesmo quando cantando em francês, as músicas compostas por vocês, é um disco que soa brasileiríssimo. Quais os principais canais de fruição de música brasileira para vocês? Discos chegam ao mercado, vocês importam, baixam, ou um pouco de tudo isso?
Verioca – Comecei a me interessar por música brasileira nos anos 1980. Nesta época não tinha internet! Então eu sempre procurava discos de vinil. Tenho mais de 600 LPs de música brasileira e mais de 500 CDs, viajava no Brasil quando eu podia para caçar as pérolas que podia achar. Também assistia, sempre que possível, os brasileiros que tocavam na França, como por exemplo Les étoiles, com [os cantores] Rolando Faria e Luiz Antônio, ou Tânia Maria, que vem de São Luís do Maranhão, ou [a cantora e violinista] Mônica Passos. Nas minhas viagens, procurava partituras e voltava na França para estudar.

Aurélie – Hoje é mais fácil. Facebook é uma ferramenta que pode ser muito ruim, mas que é, sem dúvida, uma fonte incrível para descobrir novos talentos. Essa semana descobri o grupo vocal Ordinarius [formado pelos cantores André Miranda, Augusto Ordine, Letícia Carvalho, Luiza Sales, Maíra Martins e Marcelo Saboya] e me encantei! Mas cada vez que viajamos, a nossa mala volta cheia de discos novos. Pois o que é incrível no Brasil é que, apesar das dificuldades que têm os músicos bons para ter visibilidade na grande mídia, tem sempre novos compositores, intérpretes, talentos que surgem.

Vocês falaram na paixão inicial pela obra de Villa-Lobos. São Luís do Maranhão, de onde escrevo, é a terra de Turíbio Santos, um dos maiores divulgadores da obra de Villa mundo afora, já tendo morado na França, gravado diversos discos aí e vencido alguns concursos de violão. Vocês conhecem seu trabalho?
Verioca – Eu conheço Turíbio Santos, sim! O [violonista] Roland Dyens foi o meu professor e com certeza, quem estuda violão clássico conhece Turíbio Santos.

Aurélie – Não conhecia, mas gostei muito.

Foi a música brasileira que levou-as a aprender português?
Aurélie – Sim, foi por causa, ou seja, graças a música que a gente começou a estudar a língua portuguesa. Antes de me interessar nessa música, nunca tinha achado letras tão poéticas, tão ricas e com uma poesia do dia a dia que ajuda a viver.

Verioca – Eu também aprendi o português viajando para o Brasil e através das letras, mas também dos gibis do Zé Carioca. Por esse motivo o meu português é mais coloquial.

Sua nova turnê brasileira deve ser focada no Pas à pas, mas passar também pelo primeiro disco e outras afetividades, digamos assim. O que o público brasileiro das cidades por onde vocês passarão pode esperar de Aurélie e Verioca no palco?
Aurélie – A turnê oficial de lançamento de Pas à pas foi feita ano passado. Mas para muitas pessoas, esse disco ainda é novidade! Então pretendemos continuar a divulgar esse trabalho. Porém, como sempre, costumamos viajar com muitas coisas diferentes no nosso repertório. Temos por exemplo um repertório dedicado ao choro cantado, com obras de Ernesto Nazareth, Pixinguinha, Jacob do Bandolim… São letras um pouco esquecidas que gostamos de resgatar, e também algumas surpresas em francês. Também, nesta temporada, faremos no Rio um show de homenagem a bossa nova, no Vinicius Bar, em Ipanema. Na França, apresentamos esse ano um show com um escritor francês, Jean-Paul Delfino, que inclusive viajou à São Luis em novembro de 2015, e que escreveu há alguns anos um livro sobre a bossa nova. Com ele, o nosso show mistura histórias ligadas a bossa nova e músicas de Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Baden Powell que têm versões em Francês. Além disso tudo, gostamos sempre de homenagear os compositores que alimentaram a nossa identidade franco-brasileira: Guinga, Eduardo Gudin, Joyce Moreno e Egberto Gismonti fazem parte desse grupo. Mas o que eu posso dizer é que, independentemente do repertório, procuramos sempre fazer um show que mistura emoções, contando histórias, anedotas que nos levam também do lado da infância, da saudade e da joie de vivre. Isso tudo para que o nosso show vire um momento de encontro autêntico com o público.

Já é possível falar em disco novo? Se sim, o que vocês estão preparando?
Aurélie – Para o próximo disco temos ideais. Mas são apenas desejos que não podemos comentar ainda. Como eu já falei para você, produzir o Pas à pas foi um processo demorado e exigente de um ano de produção, sem falar dos inúmeros meses que a gente levou para escrever e selecionar o repertório. Então acho que ele merece uma vida longa  e vamos fazer tudo para defendê-lo no palco durante mais um tempo.

Vejam o clipe de Pas à pas:

Morte, dança e pequenos detalhes

Nas estâncias de Dzyan.Capa. Reprodução
Nas estâncias de Dzyan. Capa. Reprodução

 

125 anos após sua morte, a escritora russa Helena Petrovna Blavatsky [1831-1891] deu, por acaso, título ao segundo disco solo de Juliano Gauche, um dos mais interessantes cantores e compositores surgidos neste século. Ele acaba de lançar Nas estâncias de Dzyan [EAEO, 2015], sucessor do ótimo homônimo Juliano Gauche [2013]. A frase foi encontrada pelo artista em A doutrina secreta, de 1888.

Além dos discos solo, a discografia de Juliano inclui ainda Quanto mais pressa mais de vagar [2003], Feliz feliz [2008] e Veneza [2012], com a banda Solana, e Hoje não! [2009], dedicado ao repertório de Sérgio Sampaio, com o Duo Zebedeu, formado por Fábio do Carmo (violão sete cordas) e Júlio Santos (violão). As nove faixas de Nas estâncias de Dzyan foram sendo compostas, sem haver necessariamente uma preocupação do artista em moldar um novo álbum.

Entre o primeiro solo e este há muitos pontos em comum – o fato de ambos terem nove faixas é apenas um deles. Das de Juliano Gauche, apenas Sérgio Sampaio volta, de Tatá Aeroplano, não era assinada por ele; em Nas estâncias de Dzyan, a exeção é 1,99, de João Moraes. Este é um disco sobre a morte, revela o compositor, apesar de pontos solares (para além do berrante amarelo do projeto gráfico assinado por Mariana Coggiola), ecos de Jovem Guarda e Animals.

Nas estâncias de Dzyan foi gravado em duas semanas nos estúdios EAEO e a ficha técnica também guarda semelhanças com o anterior. Juliano Gauche, que apenas cantava no disco anterior, neste assume também os violões, divididos com Junior Boca, que empunha ainda guitarras e assina os arranjos com Tatá Aeroplano. A banda se completa com João Leão (teclados), Daniel Lima (contrabaixo) e Gustavo Souza (bateria). O disco pode ser ouvido e baixado no site do artista.

Juliano Gauche conversou com o Homem de vícios antigos sobre sua trajetória, influências, a mudança do Espírito Santo para São Paulo, a “síndrome” do segundo disco, apostou suas fichas no talento do parceiro João Moraes e ainda encontrou tempo para um faixa a faixa, quase uma segunda entrevista. Sobre a possibilidade de se apresentar em São Luís revela estar esperando um convite. O show de lançamento de Nas estâncias de Dzyan acontecerá no próximo dia 31 de março, no Sesc Pompeia, em São Paulo.

Divulgação
Foto: Nino Andres

 

ENTREVISTA: JULIANO GAUCHE

Como você chegou a Dyzan e suas estâncias? Não temeu ser tachado de hermético ao batizar este segundo disco?
Estava lendo um livro da Blavatsky e passei por essa expressão, que guardei e depois usei como título da música que abre o disco. Quando mandei o arquivo pro Tatá Aeroplano, o arquivo chegou com este título, pois era o nome da primeira música. Quando encontrei o Tatá depois disso ele foi logo dizendo: “adorei o nome do disco”. E eu disse meio rindo: “mas eu ainda não escolhi o nome do disco”. E ele: “mas não é Nas estâncias de Dzyan?”. E eu: “bem, até tinha pensado nisso, mas achei esquisito demais até pra mim”. E ele: “não, é ótimo. São duas palavras incomuns, soa bem”. Assim, assumi. Acho sim um título estranho, hermético e tal. Mas minha vida é cheia dessas coisas. Tenho mais é que assumir mesmo.

Apesar de discos com a banda Solana e com o duo Zebedeu, como foi lidar com a síndrome do segundo disco?
Minha relação com o ato de compor é de muita sorte. A inspiração é sempre muito generosa comigo. Eu realmente gosto de fazer isso. E faço sem, necessariamente, pensar em disco. Acho saudável e divertido compor. Quando chega a hora de fazer um disco eu simplesmente já estou apaixonado pelas músicas. O processo de gravar é muito natural. E o primeiro disco teve uma recepção tão carinhosa que entrei neste novo com total segurança.

Você guarda semelhanças, inclusive físicas, com seu conterrâneo Sérgio Sampaio, homenageado em teu primeiro disco com a regravação de Sérgio Sampaio Volta, de Tatá Aeroplano, e a cuja obra você dedicou Hoje não!, com o Duo Zebedeu. É sua maior referência?
Adoraria ser tão próximo do Sampaio como geralmente sugerem. Mas sou vira-lata demais pra isso. O Sérgio tem uma classe, um polimento, um esmero, que eu passo longe. As referências que eu mais carreguei na vida foram o John Lennon, o Roger Waters, Raul Seixas, Renato Russo… Compositores de dois, três acordes, melodias simples, letras espirituosas e poéticas. Adoro João Gilberto, Tom Jobim, Chet Baker, Billie Holiday… mas sei que tô muito longe disso.

O que mudou com sua saída do Espírito Santo natal para São Paulo?
Caí na real. Fui obrigado a prezar mais pela lucidez, pelo equilíbrio. No Espírito Santo eu podia bancar o doido sem maiores problemas: sempre tinha quem segurava minha onda. E ainda me escondia numa banda. Em São Paulo é jogo duro. Não tenho rede de apoio pro trapézio. Ao mesmo tempo que isso quase acabou comigo, também me fez crescer muito profissional e pessoalmente.

A ficha técnica de Nas estâncias de Dzyan guarda semelhanças com a de Juliano Gauche, seu disco anterior: em ambas figuram nomes como Tatá Aeroplano e Junior Boca, entre outros. Quais as principais semelhanças e diferenças entre os dois discos que você apontaria?
No primeiro disco eu simplesmente cantei. Como eu tinha acabado de gravar o último disco com o Solana, eu pedi ao Tatá que me ajudasse na produção do disco solo, por que eu estava muito cansado e confuso. E ele fez tudo com a ajuda do Junior Boca: montou a banda, cuidou dos arranjos, mixagem, tudo. Neste disco novo eu meio que reassumi o controle das coisas. Até mesmo por sugestão do Tatá e do Boca. Tive mais tempo e calma pra pensar em tudo. E desta vez eu produzi o disco, participei dos arranjos, acompanhei toda a mixagem ao lado do João Noronha, enfim, este foi o disco em que mais trabalhei diretamente.

Disco é cartão de visita, artistas têm que inventar outras formas de se sustentar já que a vendagem de discos já não garante. Você disponibiliza seus discos para audição online e download, além de lançá-los, fisicamente. Como se equilibrar nesta corda bamba?
É com os shows que a gente recupera esse prejuízo. “Antigamente” [aspas dele] pagava-se jabá para que o disco circulasse; hoje em dia a gente dá o disco de graça: é quase a mesma coisa. Tudo para que as pessoas se interessem pelo show, que é onde está a grandeza deste trabalho.

Não creio que distribuir o disco possa ser comparado com jabá, já que neste caso, o volume de dinheiro é violento e responsável por fazer novos astros e estrelas, bastante descartáveis. Como você lida, enquanto artista, com a infeliz certeza de que, apesar de ser mais talentoso que um monte de gente que toca bem mais em rádio ou aparece na tevê, sua obra infelizmente ficará restrita a um círculo mais específico?
Sim, claro. O que eu tentei colocar é que não ganho dinheiro com o disco, mas também não pago pra ele tocar. Ele anda, lentamente, claro, mas sozinho. Isso graças a essas novas formas de distribuição. Não acredito nessa coisa de música boa e música ruim. Se alguém gosta de uma música, pra ele, ela é boa. A música tem diferentes finalidades. E as pessoas podem escolher o que faz bem pra elas, o que elas querem sentir ao ouvir uma música naquele momento. Agora mesmo estava aqui lendo a revista da UBC [União Brasileira de Compositores] e uma compositora estava reclamando de como a música no Brasil tá ruim, que só ela e a turma dela fazem música de qualidade. Que hoje em dia as músicas só têm dois acordes, o que é o meu caso. Além disso ser mentira é de uma pobreza tão grande, isso é tão fascista. A diversidade é a grande riqueza do Brasil. Isso tem que ser glorificado. Agora, se alguém tem mais grana pra investir no seu trabalho, essa pessoa terá mais resultados, mais alcance, isso é lógico, natural, matemático, e não deveria ser fonte de inveja, não. Eu me sinto confortável com o meu tamanho, com o meu lugar. É exatamente proporcional ao quanto consigo investir. E ainda acredito que o tempo me será muito generoso.

Por falar em shows, como está a agenda? Alguma perspectiva de São Luís do Maranhão?
As propostas de shows estão chegando bem. É claro que agora estamos totalmente focados no lançamento do disco, que será 31 de março, no Sesc Pompeia. Mas já estamos começando a colorir a agenda. Ainda não pintou um convite para ir à São Luís do Maranhão, não. Mas bem que poderia.

A sonoridade de Muito esquisito lembra muito a Jovem Guarda. É outra referência importante?
Pois é. Na verdade este é um dos arranjos mais despojados do disco. Eu não queria que ela ficasse séria e disse: “ah, vamos fazer uma coisa bem básica, bem popular. Vamos tentar a mesma levada de Meu amigo Pedro, do Raul. Ih, não deu certo. Vamos tentar a levada de Quando, do Roberto. É… assim tá legal. É isso. Beleza!”.

1,99 é de um lirismo comovente.
1,99 é uma música do João Moraes, um dos meus melhores amigos e parceiros. Ele também é de Cachoeiro [do Itapemirim]. É da família do Sérgio Sampaio. Ele que idealizou e produziu o Hoje não! E essa é uma dentre as dezenas de músicas lindas que ele tem. O disco dele é um dos discos que eu mais tenho esperado.

Você é casado com sua produtora. O quanto isso ajuda ou atrapalha, já que, em tese, não se separa a vida pessoal da vida artística?
Na verdade eu me casei com uma publicitária. A Sil [Ramalhete] trabalhava numa agência de publicidade quando nos conhecemos. O primeiro trabalho de produção dela foi com os shows do disco Hoje não! E ela só cresceu nessa área depois disso. E é maravilhoso isso. Hoje a gente fala a mesma língua, vivemos as mesmas coisas. Eu a ajudo no que posso com a produtora dela, a Ramelhete Produções, e ela cuida do meu trabalho com um amor que ninguém teria. Claro.

NAS ESTÂNCIAS DE DZYAN – FAIXA A FAIXA

Ouça Nas estâncias de Dzyan:

A faixa título, a meu ver, dialoga com a abertura do disco anterior: se nesta você diz “se eu cair… me trate do jeito que você quiser”, o título daquela era justamente, e de repente, Cuspa, maltrate, ofenda.
Tem ligação sim. Estética e conceitualmente. Mas em Cuspa… eu falava pra Sil sobre nossa relação. Quase que instigando ela a ser ofensiva com quem não via com bons olhos nossa relação. Tipo: manda esse povo todo à merda. Por que “em meu mundo você”… Já em Nas estâncias… é mais um pedido de desculpas que eu faço pro mundo e pra quem tá do meu lado. Tipo: eu sei que eu faço merda. “mas como eu ia saber…”

Ouvi ecos de Animals na guitarra de Animal.
Pois é. Tem esse eco sim, ideia do Boca.

Alegre-se é a canção mais “solar” do disco, concorda?
Sim. Alegre-se é a mais solar. É justamente uma proposta para sair e tomar um sol, um ar…

Teus discos têm muito de autobiográficos. O clarão é outro exemplo, de otimismo, inclusive.
A ideia é essa. No fundo, eu acho que eu me comporto como um escritor. Sempre me projetando nas palavras. E tenho mesmo andado bem otimista.

Ela [O clarão] é irmã de Um canto que leve seus olhos pro espaço.
Acho que sim. É um discurso bem parecido mesmo.

E de algum modo também de Pode se deixar levar, onde o casal protagonista se separa apenas “de mentirinha”.
Pode se deixar levar é mais rotineira. Sobre pequenos desentendimentos. Mas ainda assim tem essas sentenças espiritualistas, tipo: “e não tem nada, meu bem, que vá fazer tanto mal/ Pode se deixar levar”, como quem diz: relaxa!

E Canção do mundo maior encerra o disco, quase rotulando-o, mas sem nunca limitá-lo: Nas estâncias de Dzyan é, no fundo, um disco de amor?
No fundo é um disco sobre a morte. Canção do mundo maior é só sobre a morte. E é claro, o reflexo da morte na vida. Nas pequenas coisas.

Um final surpreendente…
[Risos] Está tudo nos detalhes.

Chorografia do Maranhão: Monteiro Jr.

[Última entrevista da série. O Imparcial, 24 de maio de 2015]

Cardiologista de profissão, violonista é o 52º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVANIO ALMEIDA SANTOS

Cardiologista de ofício, o médico Francisco das Chagas Monteiro Junior nasceu em São Luís em 25 de janeiro de 1960. Após o nascimento, morou em São Vicente de Férrer, na Baixada maranhense, terra natal de seus pais, Francisco das Chagas Monteiro, funcionário público estadual, coletor de renda, e a professora Maria do Rosário Monteiro. Depois, por conta do trabalho do pai, morou em Barão de Grajaú e Timon, antes de fixar-se em definitivo na capital maranhense.

Às margens do Parnaíba o violão entrou em sua vida: sua mãe comprou um instrumento de um rapaz que apareceu tocando em sua porta. Ali o menino começou a se arriscar, mas só deslanchou ao ingressar na Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo [EMEM]. Cursando pós-graduação e residência médica, ele morou ainda no Rio de Janeiro – concentrado na formação profissional, acabou não aproveitando o propício ambiente carioca, embora tenha passeado por suas míticas lojas de instrumentos musicais.

Num fim de tarde no Bar do Léo, o músico “do coração” concedeu seu depoimento à Chorografia do Maranhão, o 52º. da série. A entrevista foi ilustrada musicalmente por Brasileirinho [João Pernambuco], Abismo de rosas [Américo Jacomino] e um trecho de Choros nº. 1 [João Pernambuco].

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

Você nasceu em São Luís? Minha mãe veio me ter aqui. Depois eu voltei para lá [São Vicente de Férrer], fiquei uns seis anos. Depois fomos para Barão de Grajaú, por causa do lado dele [seu pai], funcionário. Depois viemos pra Timon, três anos lá, até vir para São Luís. Foi lá em Timon meu primeiro contato com violão.

Quem foi a figura? Então, como é que foi isso? Eu tinha uns 10 anos, mais ou menos, nove, 10 anos, apareceu um rapaz tocando violão lá em casa, na porta. Minha mãe, na infância, já tinha tido uma iniciação no piano, mas não continuou, não toca nada, ela tem 84 anos, hoje. Minha mãe já tinha esse contato, eu sou o filho mais velho, foi ideia dela, ela comprou o violão do rapaz, um violãozinho qualquer. Naquela época, interior, não tinha essa facilidade toda que tem hoje. Onde aprender? Com quem? Pegar de onde? Não tinha nada disso. Eu comecei a mexer ali, mas sem nenhuma orientação não rendia nada. Quando a gente veio para São Luís, eu devia ter meus 13 anos, mais ou menos, aí foi que a minha mãe contratou, iniciativa toda dela, um professor de violão. Naquela época nada mais era do que o cara que anotava o braço do violão, as posições. Aprendi os acordes naturais, aquela coisa bem básica, acompanhei umas musiquinhas, fiquei não sei quanto tempo, não lembro. Não estou lembrado o nome dele também. Era uma pessoa que tocava de esquina, tocava acordes naturais. Ficou por aí. Quando eu tinha 17 anos, eu tive a ideia de entrar para a Escola de Música.

Nessa época você já estava morando em São Luís? Já! Eu vim para cá com uns 13 anos, mais ou menos, foi a época que eu tive essa iniciação com esse rapaz, e aí eu fui para a Escola de Música. Na Escola de Música, naquela época, o esquema era o seguinte: você entrava, tinha um semestre, que eles chamavam de musicalização. Você tinha introdução à teoria musical, pegava na flauta, era tudo com flauta. O professor na época era o Gilles [Lacroix]. Ele dava musicalização. Eu vim reencontrá-lo recentemente, eu trabalho no [Hospital Universitário Presidente] Dutra, e ele mora ali por trás. Eu tive esse semestre de musicalização. O semestre seguinte seria pegar no instrumento que a gente escolhesse. Eu escolhi violão. Eu tive um semestre de aula com Joaquim Santos [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 8 de dezembro de 2013], por sinal eu vim reencontrá-lo na época desses recitais [apresentações de Monteiro Jr. no Teatro Arthur Azevedo], eu fui pedir ajuda para ele num arranjo para violino e tal. Já naquela época dava para perceber que ele é um cara de alto nível. Mas com ele foi só aquela parte bem inicial, “ó, isso aqui é mi”, aqueles exercícios básicos, bem inicial mesmo. No ano seguinte, a Escola funcionava só durante o dia, eu entrei na Faculdade [de Medicina]. Só tinha de dia, e o curso médico absorve demais, é de manhã e de tarde, não tem horário. Aí eu larguei a Escola, fiquei com pena e tudo, mas não tinha como fazer. Embora eu gostasse da música, em nenhum momento eu pensei em ser músico profissional, não houve esse dilema. Eu sabia que eu não ia abandonar aquilo, ia querer sempre ter um contato. Mais ou menos por essa época eu comecei a ter contato, a gostar mais, apreciar mais bossa nova, curti muito bossa nova, e comecei também a tocar. Naquela época eu já tinha as revistinhas, comecei a pegar cifras, aqueles acordes de bossa nova, foi uma coisa bem legal, gostei muito, comecei a tocar bossa nova.

Foi a época em que você formou em Medicina? Mais ou menos. Antes disso, eu achei interessante, acho que foi meu primeiro contato com música instrumental de violão, foi na João Henrique [rua no Centro, ao lado da Igreja de São Pantaleão], a gente morava ali quando veio para São Luís, e meu pai comprou uma vitrola, era um móvel grande, e eu lembro que o lojista deu, como brinde, um elepê de Dilermando Reis. Acho que naquela época, por volta de 13, 14 anos, foi meu primeiro contato, aquele disco Abismo de Rosas, da capa amarela, tem um violão na capa. Foi o primeiro contato, mas foi aquela coisa incipiente, depois veio essa passagem pela Escola, comecei a tocar por cifra, bossa nova, depois os grandes mestres da MPB, sou muito fã de Tom Jobim, Chico Buarque.

Dilermando te deu um despertar? Um despertar, mas eu não lembro no tempo quando eu comecei a esboçar solos ao violão. Depois o contato maior foi com a MPB mesmo clássica, dos grandes mestres, Tom Jobim, Francis Hime, que eu gostava muito, Edu Lobo, esse pessoal.

Na sua família havia músicos? Não, não tinha músico. Assim, até tinha, mas distante, eu não tinha convívio. O que aconteceu? Naquela época, mais ou menos pela faculdade, eu já tinha passado pela Escola de Música, eu começava a encomendar, sempre que alguém ia ao Rio de Janeiro, para ir lá à Rua da Carioca e trazer partituras. Eu comecei desenvolvendo um método próprio de botar aquelas partituras para o violão. Eu lembro que no começo demorava muito, pegar, dividir o compasso, ir colocando aquilo ali, foi mais ou menos assim. Aí eu comecei a pegar, partituras, Dilermando Reis, e mais adiante vieram algumas partituras já de choro, de João Pernambuco, foi mais ou menos esse contato. Quando da conclusão da faculdade eu fui para o Rio de Janeiro, fui morar lá, fiz pós-graduação, residência, mestrado, fiquei nove anos e pouco. Lá no Rio eu não tive nada de contato. A única vantagem foi estar próximo da Rua da Carioca e adjacências, eu adorava passear por ali, ficar garimpando partituras, pelo título. Eu andava por ali pela Guitarra de Prata, Bandolim de Ouro [míticas lojas de instrumentos musicais no Rio de Janeiro]. Eu comecei a comprar partituras por conta própria, fazia minha própria seleção. Fiquei estes anos lá, voltei para São Luís, era 1992, e aqui continuei tocando em casa, em família. Eu acho que aí um marco importante foi meu contato com Biné [do Cavaco, Os Irmãos Gomes, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 22 de junho de 2014].

Antes da vitrola e do disco de Dilermando Reis você tem outra lembrança musical, do ambiente? O que se ouvia em casa? Teus pais eram grandes compradores de discos? Não, nada em especial. Inclusive meu pai, que era funcionário público, era um cara muito conservador, eu tive uma criação muito tradicional, ele nunca aprovou essa história de violão. Era coisa da minha mãe. Minha mãe era mais inovadora, mais liberal. Meu pai não aprovava isso, achava que violão, aquele preconceito, talvez hoje menos, aquela coisa, ia desvirtuar, levar para a bebida, afastar da escola, tinha essa ideia. Mas também nunca proibiu, apenas não estimulou. Eu fico pensando, fazendo um paralelo, quando eu me apresentei no Teatro [Arthur Azevedo], eu gostava de pesquisar a vida, algumas curiosidades da vida dos compositores. E eu fiz uma apresentação intitulada De bossa a Bach, e ia de Samba do avião [Tom Jobim] até alguns eruditos, e eu estava pesquisando algumas coisas sobre a vida do Tárrega [o compositor e violonista espanhol Francisco Tárrega], que é um grande mestre. Na vida dele, pela fonte que eu li, o violão foi acidental. Ele quando garotinho teve um acidente com a babá, um afogamento, um negócio, e teve uma deficiência visual. E os pais na Espanha resolveram se mudar para uma cidade onde houvesse um conservatório de música, por que um cego, a única coisa que poderia dar a ele um ofício seria ser músico. Depois ele reverteu o problema na visão, mas mudaram e ele despertou, é um dos maiores músicos de todos os tempos.

Quando você recebeu o disco do Dilermando Reis despertou para o violão além da bossa. Depois de Dilermando quem foram teus principais mestres para desenvolver essa capacidade? Me impressionou muito, aquele violão de cordas de aço. A única coisa formal foi essa passagem de um ano pela Escola de Música. Ali eu aprendi a passar uma pauta para o braço, a base, uma coisa bem básica, não a desenvolver. Nessas aulas eu não cheguei a tocar música nem nada. A partir daí as partituras, aí eu comecei a fazer sozinho, esse período todo no Rio de Janeiro e depois de voltar para cá.

E nessa trajetória autodidata que músicos te impressionaram, te instigaram a buscar mais aprendizado? Não houve uma pessoa que tenha convivido comigo. Nesse período eu comecei a me interessar por comprar discos, cds. Eu tinha partituras e comecei a comprar e ouvir cds. Foi quando eu comecei a conhecer [os violonistas] Baden Powell, Raphael Rabello, já foi até mais para cá, mais pra cá também eu curti muito Paulinho Nogueira, Toquinho. E outros discos de Dilermando Reis.

Que papel teve Biné [do Cavaco] em tua trajetória? Eu acho que ele é um divisor de águas no seguinte aspecto: eu o encontrei a primeira vez na casa do doutor João Bosco Barros Rego [médico, poeta, ex-deputado], um cara multi, hoje está no interior, é meu paciente. Na casa do Bosco, tem uns 15 anos, ele foi meu professor na faculdade, era chefe de meu departamento. Ele tocava alguma coisa e fazia uns encontros musicais na casa dele, acho que no Recanto dos Vinhais. Num desses encontros eu encontrei o Biné, acho que ele dava aula para ele de violão. Biné, é até engraçado, desde o começo houve aquela empatia, e ele costuma dizer, se gabando, que até eu conhecê-lo, eu era um músico de apartamento, de não compartilhar, tocando sozinho. A partir do Biné é que ele começou a me chamar para as rodas, aquele pessoal do Bairro de Fátima, começamos a nos encontrar também na casa do Bosco, e começou a me estimular a tocar com outros, até então eu tocava sozinho. Tinha outros músicos, da família dele, vocês conhecem bem. Seguindo na história, acho que mais ou menos há 10 anos, eu tive contato com [o multi-instrumentista Arlindo] Pipiu, foi outro marco. Eu já o conhecia da infância, eu morava ali pela São Pantaleão. Eu lembro daquela figura, daquela época, magrinho, cabelo black power, mas ele não me conhecia. Eu tive um casamento, tenho dois filhos, já adultos, uma filha médica, um filho vai fazer medicina. Aí eu me separei, estou numa segunda união. Minha esposa atual é enfermeira, e a gente fez uma cerimônia em casa, uma celebração, e Pipiu apareceu. Eu o contratei para tocar, alguém me deu o telefone. Ele foi com o violão, sozinho, depois eu pedi e toquei também. Ele gostou. Eu sabia desse histórico dele, que ele era um grande músico, sabendo disso eu me aproximei mais ainda, houve uma empatia. Aí ele me convidou para ir na São Pantaleão, no estúdio dele, ele já estava com o estúdio montado. Eu gravei um cdzinho lá, uma coisa bem doméstica. Inclusive na época, nem houve um contrato formal, eu ajudei com a despesa, essas músicas, Sons de carrilhões [João Pernambuco], e por aí vai. Quando eu olhei aquilo gravado, até me surpreendi. É aquela coisa de você não dar muito pelo que faz. Quando eu vi gravado eu achei bonito aquilo. Ele estava com tempo e foi uma ideia acho que até mais dele, “Monteiro, vamos apresentar isso aí, vamos levar para o Teatro, eu tenho uns contatos aí, a gente arruma”. A gente começou a trabalhar em cima disso. Na época estava se formando uma associação de cardiopatas, eu uni uma coisa à outra. Já tinha o Biné no circuito, entrou o Pipiu, ele agregou alguns músicos, aí me veio a ideia de fazer um projeto, chama Tocando com o coração. Consiste nisso: a gente faz apresentações públicas, vende cds para amigos e parte dessa arrecadação é transferida, doada para alguma instituição. E assim foi. Teve o primeiro, já foram cinco. Em sequência gravamos outros dois cds, Tocando com o coração, volumes dois e três. O primeiro e o segundo a gente fez na raça, não tinha muita assessoria, Pipiu produzia. Depois entrou no circuito o Mário Jorge [produtor], pegou essa parte de produção, promoção, mídia. Fizemos os últimos três com ele. Mais ou menos por essa época foi que eu tive contato com Márcio Guimarães [cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 25 de janeiro de 2015], ele era namorado de minha sobrinha, hoje é casado com ela, a Thaís [Tathy Estrela, cantora]. Márcio fez Escola, é um músico dedicado, muito bom. O Márcio foi muito importante como motivação, aprendi muito com ele. Eu era muito amarrado a algumas regras que eu mesmo me impunha, era muito contido. Ele me libertou um pouco, essa coisa de colocar o dedo no lugar certo, ele me dizia: “o importante é o som, é o que sai”.

Você não vive para a música nem de música, não é? Nunca nem ganhou um cachê? Não, nunca pensei. Não. Quer dizer, uma vez a gente fez uma apresentação com Mário Jorge, no Armazém [da Estrela, extinto bar na Praia Grande], mas o cachê também foi doado, eu não recebi para mim. Os músicos que estão comigo, o que arrecada, a gente os paga.

Você se vê sem a música? Não. Sem o violão, não. É uma coisa que assim, ave maria!, [pensativo] um acidente com as mãos. Eu gostava de jogar vôlei. Minha primeira esposa quebrou um ossinho da mão, jogando, depois disso eu não quis mais. É uma coisa muito importante, independente de apresentar. Uma coisa para mim mesmo, eu pego isso aqui [abraça o violão].

Você já integrou algum grupo de música? Só com essa turma, e em rodas informais. Às vezes, depois que eu conheci o Pipiu, eu fiz saraus em casa, eu tenho alguns registros em dvd disso. A gente chamou muitos músicos, Osmar do Trombone [Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 23 de junho de 2013], Zezé da Flauta [Zezé Alves, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 9 de junho de 2013], Robertinho [Chinês, bandolinista e cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 28 de abril de 2013], essa turma toda já passou, a gente já fez algum encontro.

Eu vi você tocando agora no Dia Nacional do Choro [23 de abril, na sede da Associação Atlética Banco do Brasil – AABB]. Foi um momento muito bonito. Foi. Eu, Pipiu, Nonatinho [percussionista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 6 de julho de 2014] no pandeiro e o Biné no cavaco. Nessa trajetória, eu acho esquisito chamar de show, mas essas apresentações no Teatro foram muito importantes, muito marcantes na minha vida. Eu sempre fui muito contido, sou uma pessoa tímida. Engraçado, foi um ciclo: a gente fez aquilo ali, veio aquela inspiração, aquela motivação, dá trabalho. Eu levava um ano, escolhendo repertório, ensaiando, dá trabalho, às vezes eu tinha que me afastar de horário de consultório, uma semana, duas semanas, me afastar totalmente para poder ficar dedicado àquilo. Esses cinco recitais, eu não afasto a possibilidade de fazer alguma coisa, mas parece que aquele frenesi, aquela coisa, você realiza, ficou um pouco… [se interrompe] Eu me contento, às vezes faço um sarau em casa, [vou] quando a gente é convidado. Recentemente eu fui numa casa de idosos, um amigo convidou, estava fazendo uma comemoração, já fui na universidade também.

Além de instrumentista, você desenvolve outras habilidades na música? Na vida acho que eu devo ter feito umas três ou quatro composições, eu nunca divulguei nem toquei. Uma é instrumental, eu botei Valsinha de Clara, minha filha, tem nove anos hoje, por sinal gosta de cantar também, se apresentou uma vez no Teatro comigo, quando ela fez cinco anos. Mas não tenho essa coisa de compor.

E os arranjos? Eu adapto. Ao longo dessa caminhada eu fiz alguns arranjos, principalmente de música popular, por exemplo, Carolina, de Chico Buarque, é o nome da minha filha mais velha, tem 29 anos, vai casar agora, eu fiz um solo para Carolina. Foi uma experiência muito interessante fazer estes espetáculos, sempre um bom público, claro que muitos amigos. Eu sempre vi nisso, eu nunca pretendi ser um virtuose. Para tocar num nível muito elevado tem que ter dedicação, não há como chegar a este ponto pegando meia hora de violão por dia, não tem como.

Você pega o violão todo dia? Quase todo dia. Não tenho disciplina, “agora é a hora do violão, vou sentar e tocar uma hora, duas horas”, não. É aquela coisa, pega, toca um pouquinho. O propósito sempre foi primeiro compartilhar

Além de violão você toca algum outro instrumento? Não. Nunca quis, nunca me interessei. Nada.

Você já gravou três discos. Já participou de discos de outros artistas? Três discos, Tocando com o coração, três volumes. Sempre priorizando o repertório de violão. Em um a gente colocou Aquarela, de Toquinho, o forte sempre foi João Pernambuco, Ernesto Nazareth, Dilermando Reis. Não, nunca participei. Devo dizer que ao longo dessa caminhada uma coisa muito interessante foi conhecer pessoas. Os shows sempre tiveram parcerias, convidados especiais, Robertinho Chinês, no início, participou, Solano [o violonista sete cordas Francisco Solano, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 26 de maio de 2013], Pipiu, Biné, eram mais constantes, teve muita gente boa, Rui Mário [sanfoneiro, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 7 de julho de 2013], Talitha e Taynara, aquelas irmãs.

Para você, qual a importância do choro, a importância dessa música? O que eu posso dizer é que eu acho muito bonito. O choro, João Pernambuco, eu sempre fiquei muito encantado com isso, alguns o consideram o pai do violão brasileiro, acho-o genial. As músicas dele, parece até de propósito, têm uma dificuldade.

Quem, hoje, no Brasil, do violão, te chama a atenção? Na atualidade me chama a atenção o Yamandu Costa. Eu acho excepcional. Mas para te falar a verdade eu nem aprecio tanto aquela pegada quanto eu aprecio o violão, por exemplo, de Baden Powell, Raphael Rabello, Sebastião Tapajós, Paulinho Nogueira.

E no Maranhão? Admiro muito o Luiz Jr. [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 4 de agosto de 2013], embora também ache que a praia dele é totalmente diferente. Ele é um virtuose. Eu esqueci de citar, mas depois de Biné eu tive um contato com Hermelino Souza [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 30 de novembro de 2014]. Ele era meu paciente, é muito calado. O Hermelino foi muito interessante, ele segue essa linha do erudito, é mais para o erudito, o conhecimento dele extrapola, tem um conhecimento mais vasto na área erudita. Eu fui uma vez na casa dele, ele tem um quarto, como se fosse uma biblioteca, enorme, só de partituras. Inclusive ele me conseguiu algumas partituras, sei lá, Tempo de criança [Dilermando Reis]. Ele me deu algumas que eu não tinha, ouvia em cd e queria. O convívio com ele também foi bem interessante. Eu não tive nenhum convívio com João Pedro Borges [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 14 de abril de 2013], chegamos a nos conhecer. Meu filho que mora em São Paulo chegou a ter aulas com ele, no Ceuma, ele dirigiu o Musiceuma. Turíbio [Santos, violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 29 de setembro de 2013] também é uma referência, eu ouvi muitos cds.

Você tem convivido com essa turma mais jovem do Maranhão. Como você avalia o nível do choro praticado no Maranhão? Acho que tem excelentes músicos, excelentes instrumentistas. Naquele dia do choro foi um desfile de virtuoses, o Rafael [Guterres, cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 18 de maio de 2014], Wendell [Cosme, bandolinista e cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 24 de novembro de 2013], o outro Wendell [de la Salles, bandolinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 15 de março de 2015], que agora toca com Solano e Paulo [Trabulsi, cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 22 de dezembro de 2013]. Tem muita gente boa. Talvez o que esteja faltando sejam maneiras de levar isso a um público maior. Você vê que no dia do choro não estava lotado. É isso que está faltando. É uma música de excelente qualidade. Músicos, tem bastante aí.

Você falou da centralidade da bossa nova em teu interesse por violão. Você se considera um chorão? Eu não sei. Eu me vejo assim, o Márcio me diz: “tu é um músico”, e eu penso: “não, eu sou médico”. Eu demoro a me considerar, talvez seja uma modéstia, achar que eu tenho nível, será que posso me considerar? Mas acho que posso dizer que sim, por que eu gosto muito, aprecio muito esse gênero. Independente de eu ser um grande intérprete ou não, eu gosto, gosto de tocar violão, músicas desse gênero. Nesse sentido, sou interessado em buscar, estou sempre pesquisando. É diferente, por exemplo, do samba. Eu gosto, mas não aprecio com a mesma intensidade. É claro que tem o viés do violão, eu não cheguei ao choro por chegar ao choro, cheguei através do violão. É uma via. Ou você chega por influência de alguém. É uma música de qualidade, é muito boa. É a maior parte de meu repertório para violão.

A saga de Graciliano

Vencedor de um grande prêmio literário, de repente Graciliano se vê entre os dilemas de quem passa a ter todo o tempo do mundo para gastar com apenas uma preocupação: escrever. O problema é uma espécie de bloqueio, criado também, talvez, justamente pelo excesso de tempo livre – e a consequente dificuldade para administrá-lo. A escrita, que deveria garantir a entrega de um próximo livro a um editor em determinado prazo, é dividida entre festas, álcool e sexo, tudo em doses exageradas.

O ano em que vivi de literatura. Capa. Reprodução
O ano em que vivi de literatura. Capa. Reprodução

Graciliano é o protagonista de O ano em que vivi de literatura [Foz, 2015, 251 p.], de Paulo Scott, criador, como sua criatura, premiado: a Bolsa Petrobrás de Criação Literária garantiu-lhe a escrita de Habitante irreal [Alfaguara, 2011, 264 p.], com que venceu o prêmio Machado de Assis da Fundação Biblioteca Nacional em 2012, e o volume de poemas Mesmo sem dinheiro comprei um esqueite novo [Companhia das Letras, 2014, 80 p.] venceu em 2014 o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA).

O ano em que vivi de literatura poderia ser facilmente etiquetado como “autoficcção” – discussão e rótulo pelos quais Scott não nutre interesse. No volume não é possível distinguir que fatos foram realmente vividos pelo autor dos inventados por ele para sua personagem, que vive em geral rodeado de gente, mas constantemente sente-se solitário.

Parece contraditório, mas o que Graciliano busca é aplacar o vazio dessa solidão através de relacionamentos fugazes – alguns encontros são marcados pelas redes sociais. Os momentos de convívio com os pais não são bons e a aventura dele é também a busca de uma irmã que sumiu no mundo. Em alguma medida, o livro expõe ainda as entranhas do mercado editorial brasileiro.

O título brinca com outra contradição: justo no ano em que vive de literatura, Graciliano perde prazos e gasta o tempo com outras questões e simplesmente não escreve – embora a quem lhe fizesse a infalível pergunta sobre livro novo, sempre tinha uma desculpa, um enredo na ponta da língua, no que diferem criador e criatura.

Paulo Scott conversou com o Homem de vícios antigos. A entrevista foi além de O ano em que vivi de literatura. Ao anunciar, no chat de uma rede social, a intenção de realizá-la, antes de enviar-lhe o bloco de perguntas por e-mail, ele comentou: “o livro ficou pronto em 2014 e revisitá-lo em face de novos questionamentos é instigante”.

“Estou muito envolvido com o Marrom e amarelo, que é sobre racismo no Brasil”, antecipou. Seu próximo livro sai em 2017 pela Alfaguara.

Paulo Scott: "Um escritor precisa teimar, manter-se naquilo que acredita e continuar". Foto: Foz Editora/ Divulgação
Paulo Scott: “Um escritor precisa teimar, manter-se naquilo que acredita e continuar”. Foto: Foz Editora/ Divulgação

 

Em uma reportagem para a Revista da Cultura [Eu, eu mesmo e eu também, #100, novembro de 2015], que conta com depoimento seu, o jornalista Ronaldo Bressane aborda a questão da autoficção, no que você declara não acreditar. Talvez o charme seja a dúvida, a não distinção, mas o quanto há de autobiográfico e de invenção em O ano em que vivi de literatura?
O que posso dizer a você, meu caro, é que não busquei com esse livro – que para mim é sátira (talvez intrincada demais, admito) – concretizar teoria, leitura acadêmica ou experiência estética sobre a confusão entre vida do autor e possíveis desdobramentos contidos na trama para induzir semelhança (e disso curiosidade) em relação à sua biografia, sua realidade. Suponho que leitores que acompanham minha trajetória – e tenham informação sobre o que significou eu ter colocado a produção literária e a leitura de obras literárias como prioridade durante um pouco mais do que sete anos – possam, em algum momento, antes da leitura do O ano em que vivi de literatura, imaginar (e esperar) a existência de revelação relacionada ao que foram esses dias, esses anos para mim. Contudo, não se trata disso. Não é também minha intenção – sobretudo em um projeto de romance executado em primeira pessoa – glamorizar aposta pessoal (que, no fundo, não passa de aposta pequeno-burguesa, mesmo se tratando, ou especialmente em razão disto, de escritor brasileiro, escrevendo em português em um país como o Brasil, onde as pessoas, no cômputo geral, nem sequer leem os seus escritores contemporâneos) que é escolha só minha e interessa só a mim.

Aliás, cabe o elogio: baita título! O livro narra o período em que o protagonista pode literalmente viver a partir de um prêmio recebido. Infelizmente, mesmo num universo literário mais profissionalizado, ainda é preciso esperar um prêmio para poder “viver de literatura”, já que a venda de livros ainda não o permite?
Antes quero dizer que é uma grande alegria receber esse retorno positivo da sua leitura do livro. Pois é. Não temos um mercado literário forte no Brasil, um mercado que, em decorrência de quantidade expressiva de leitores, sustente um projeto de longo prazo de um escritor bancado exclusivamente pela venda de seus livros. Estou longe de conseguir me sustentar unicamente com os royalties obtidos pelas vendas dos livros que escrevi. Consegui me manter, de maneira simples, comedida mesmo, sem ter de recorrer a atividades fora do meio literário, por quase seis anos – nesses quase oito anos de exílio carioca. Isso aconteceu graças a um contexto (de sorte) de bolsas, prêmio, adiantamentos, de pagamentos advindos da venda dos direitos de adaptação de livros meus para o cinema, de convites para festas, feiras, festivais, viagens, programas literários que remuneram os autores, de convites para oficinas de criação literária, para palestras em universidades – isso tudo em um panorama econômico bastante favorável, ao menos aqui no Brasil. Não é algo com que se possa contar para sempre. Um prêmio literário que pague um valor importante, esteja-se falando ou não de autor profissionalizado, pode garantir alguns meses de vida integralmente voltada à produção literária, talvez um ano e alguns meses, se houver uma boa programação, dificilmente assegurará mais do que isso; e isso, entretanto, é muito melhor do que nada. Gosto de pensar que o livro trata do fim de um ciclo e do início de outro, de uma realidade no relacionamento entre leitores e autores que se transformou radicalmente com o avento da internet e das redes sociais (e, a partir disso, de uma época de decadência, mediata e imediata). Quando o programei e quando o escrevi, para tratar apenas de um dos aspectos possíveis dessa realização, ainda estávamos vivendo a onda de muitos eventos literários, eventos em grande quantidade e podendo bancar boa remuneração aos autores convidados, recebendo-os e paparicando-os, muitas vezes, de maneira como não se vê nos melhores eventos literários da Europa e da América do Norte, que são realidades que conheço um pouco.

É possível dizer que atualmente você vive de literatura? – não necessariamente de apenas escrever, mas de participar de eventos literários, ministrar oficinas, palestras etc.
Não tenho mais como bancar esse meu “vivendo na corda bamba do mundo literário” sem comprometer a tranquilidade mínima que preciso para produzir, para ler tudo que preciso ler e para existir (especialmente em um país em crise). Ano passado peguei um trabalho fora do mundo literário para poder equilibrar as contas – penso que não é inoportuno o registro: moro no Rio de Janeiro, uma cidade que está se tornando cara demais e violenta demais. Neste ano que está iniciando, priorizarei uma vida com melhor qualidade, com doses menores de ansiedade no gerenciamento das incertezas financeiras, assumirei compromissos fora do universo literário anunciado na sua pergunta. No fundo, parece, será uma guinada drástica, embora não tão drástica como a cometida em 2008, quando deixei Porto Alegre e me transferi para o Rio de Janeiro. A ver.

Você tem formação em Direito. Atua ou atuou na área? O quanto ter que buscar a sobrevivência noutro campo atrapalha a produção literária e vice-versa?
Só quem passou, de fato, pelo planejamento de buscar uma rotina de tempo integral para conseguir ler e escrever poesia e prosa ficcional na hora do dia que lhe parecer mais conveniente sabe o que significa uma ruptura dessa natureza, o que é ter de negociar com todo o tempo livre que você um dia idealizou. Nessa perspectiva, quase tudo que rompe esse estado ideal acaba atrapalhando sim, mas não é o fim do mundo. Ter um emprego paralelo, uma profissão paralela, não é necessariamente ruim – não acredito em regras absolutas, resisto sempre a fórmulas e receitas fechadas –, há muitos autores que para produzir com qualidade precisam ter tranquilidade, estabilidade profissional, mesmo que isso lhes custe uma redução grande do tempo disponível para ler e escrever textos literários. A produção literária poderá ser boa e relevante esteja o autor submetido, ou não, à rotina de um trabalho diverso da literatura. A vida, no grande arco da existência, e esta realidade não pode ser negligenciada, precisa ser viabilizada da maneira mais inteligente possível. Fora do meio literário, respondendo à primeira parte da pergunta, atuei profissionalmente na área do Direito, como advogado, consultor e professor.

O protagonista de O ano em que vivi de literatura chama-se Graciliano, nome de seu autor predileto. Fora o fato de serem gaúchos vivendo no Rio de Janeiro, quanto há de Paulo Scott na personagem Graciliano e o que mais te chama a atenção e/ou você admira e/ou persegue no alagoano Graciliano Ramos?
Levei bom tempo para encontrar a personagem Graciliano. Era importante não concebê-lo como um modo de retransmitir (um truque para retransmitir) minha voz, minhas ideias, meu itinerário. Não me vejo nele, não me vejo no olhar de historiador dele, na solidão dele, nos excessos e idealizações dele, na impassibilidade dele quando retorna ao passado, quando refaz (relata) um ano específico da sua vida sem o temor de encarar o que fez de bom e o que fez de ruim (para si e para outros). Não costumo criar altares, tento não me fazer refém das cristalizações, dos espelhos, das certezas; mesmo que inicialmente isto pareça algo descabido, procuro dispensar o mesmo cuidado a texto de um escritor novato e desconhecido que dispenso a texto escrito por um Graciliano Ramos, por um Machado de Assis, por um Érico Veríssimo, por um Guimarães Rosa (que são figuras que admiro demais). Há, porém, nessa lógica de não canonizar, as afeições inexplicáveis, incontornáveis, os diálogos mentais, que desenvolvemos em relação a certas figuras; isso é forte quando penso em Graciliano Ramos – tem aquele modo de escrever e tem aquela impetuosidade complexa. Penso que, na linha da pergunta (possivelmente escapando da pergunta), a grande personagem, o grande centro da narrativa deste romance, seja a área imensa, purgatório da beleza e do caos (parafraseando Fausto Fawcett), chamada Rio de Janeiro conflitando com o rumo, não exatamente localizado, do protagonista, a mosca que caiu na armadilha da planta.

O livro aborda também a questão das redes sociais como palco do escritor, como forma de manter contato mais direto com leitores, editores, parentes e paixões. Como você observa a autopromoção se valendo destes canais?
Disse em entrevista que foi publicada em novembro do ano passado em jornal brasileiro que as redes sociais aprisionaram a alma – o lado indômito da alma – dos poetas, porque acabamos, poetas e prosadores, cedendo à lógica da quantidade de likes; as editoras, a mídia e todos acabam cedendo a essa contabilidade. Se temos um estádio Maracanã de likes nas telas dos nossos computadores, nos visores dos nossos celulares, estamos bem, não importa a ousadia, a originalidade, a qualidade do que se produziu. Isso é bem fraco. Não há santos nas redes sociais; se você está nas redes sociais, você está sim se autopromovendo. Se você está nas redes sociais, você tem noção de que as “informações dos fatos” precisam ser aquecidas/reaquecidas a todo o momento para não serem esquecidas, para não perderem o peso, nesta avalanche diária de “informações dos fatos”. Não é de graça que as editoras no mundo todo estão induzindo (para não dizer obrigando) seus autores a terem contas no Twitter, no Facebook, no Tumblr, no sei lá onde, porque sabem que a constância, a presença constante na web, está se tornando a grande exigência para que algo se afirme, não desapareça na grande, e ininterrupta, corrida de cavalos na qual se transformou o contemporâneo. Tive, até agora, um número importante de retornos, por mensagens eletrônicas, destacando o decorrer da narrativa a partir do fenômeno das redes sociais – o editor da caixa de comentário do Facebook se tornou mais importante do que o editor Word –; penso que os leitores entenderam o que não está explicitado no livro (já que é um livro de lacunas). Estamos todos mais caretas e desfocados por conta disso, dos editores de texto das redes sociais serem mais importantes do que os editores de textos tradicionais; é um sonho de liberdade, porque, na realidade, estamos embarcados em um elevador que está nos levando cada vez mais para o fundo de uma prisão. Claro, não há dúvida de que estamos vivendo os primórdios de uma situação que mais para frente, mais para o futuro, deverá ser mais bem vivenciada, deverá ser assumida de forma mais madura.

Seu livro narra a vida desregrada de um autor com um fabuloso prêmio literário na conta bancária, em uma aventura regada a doses cavalares de sexo, álcool e festas, revelando também as entranhas do círculo literário/editorial brasileiro. Pode ser lido como sua contribuição para desglamorizar a “vida de escritor” como imaginada por leitores “reles mortais”?
Penso que o livro narra o cotidiano de quem passa a ter todo o tempo livre para escrever – não é fácil negociar com esse espaço tão amplo. Ele está perdido e leva um tempo para perceber que está perdido, porque tem o deslumbre e tem a incapacidade de lidar com a nova situação, com a escolha, com os olhares e expectativas dos outros. É certo que a personagem Lenara, a jurada do concurso que colocou no bolso de Graciliano os 300 mil reais que mudariam sua vida, é a presença desencadeadora de certos questionamentos cruciais à trama do livro, mas a verdade é que todos os questionamentos, todas as buscas já estavam na cabeça de Graciliano, muito por conta da sua falta de resignação diante da sua rotina de professor de História, do seu relativo sucesso como escritor gaúcho, do seu relacionamento com o pai, com a ausência da irmã mais velha que, atrás de mais liberdade, desapareceu na vida. Escuto muito sobre os excessos do livro. Bem eles estão lá para acentuar algo, estados emocionais, pequenas tragédias – talvez a mais evidente seja a solidão. Não é gratuito isso dele fazer sexo demais, de se entregar a toda possibilidade que as redes sociais entregam de bandeja no seu colo; como já disse, ele está perdido. O próprio fato dele – um homem de 40 anos, portanto no auge da sua virilidade física e no auge da sua agressividade “bestial” adulta – estar sempre “pronto”, sempre tão facilmente excitado, faz parte dessa composição narrativa, dessa ênfase, dessa solução. Ele – homem, branco, hétero, com ótima educação, inteligente e sortudo – está eufórico, permanentemente excitado, isso é evidente, porque, sem desconsiderar o quanto está perdido, tem nas mãos o passe vip e está, por conta disso, solto feito um cachorrinho recém-nascido que ainda não compreendeu que não passa de um cachorrinho, na Disneylândia dos escritores brasileiros. Evidente que por ser tratar de uma sátira, de uma ficção, há ênfases que estão longe de certas realidades, da minha realidade e da realidade de tantos outros escritores e escritoras; prefiro pensar que essa realidade do livro, essa realidade constituída, é um dos seus méritos, haja, ou não, críticas agudas por trás de tudo que se apresentou. Quanto à desglamorização, o que posso dizer é: nunca acreditei nela, nunca me portei como alguém que aposta nela. No entanto, não pretendi (e não pretendo) fazer dessa minha postura uma cruzada – tenho receio enorme dos paladinos. Sei que todo escritor se deixa levar pelo canto da sereia – em altura ou outra, inebria-se com o próprio trabalho, com o próprio sucesso, com o próprio discurso, com a própria ambição –, e sei que depois a tendência é a de que ele consiga se recompor (alguns, raros, não conseguem abandonar a igreja da vaidade, mas eles e os seus egos, por si só, não são importantes). Nesses 15 anos que se passaram desde a publicação do meu primeiro livro, o História curtas para domesticar as paixões dos anjos e atenuar os sofrimentos dos monstros [Sulina, 2001, assinado sob o pseudônimo Elrodris], vi muita gente boa surgir, brilhar e desparecer, gente que desapareceu porque não tinha a determinação necessária. Não quero realizar diagnóstico, juízo, quero, talvez, é “transfigurar” um tantinho para mostrar como, às vezes, tudo que nos cerca é tão patético, e nós somos patéticos também. Para mim, em resumo, é uma questão de teimosia, um escritor precisa teimar, manter-se naquilo que acredita e continuar, tendo que negociar o tempo inteiro com a solidão. Certa vez conversando com jovem jornalista, pessoa tomada pelo deslumbramento de estar em um grande veículo da imprensa brasileira, pelo falso poder que a posição projeta, justo por estar naquele autoencantamento, falei algo como: cuidado que o teu super hype de jornalista especialista em literatura vai passar (a imprensa brasileira sempre demite) e os escritores que não vieram a passeio, independente de aplauso, continuarão carregando suas pedrinhas, continuarão escrevendo seus livrinhos.

Chorografia do Maranhão: Maestro Nonato

[O Imparcial, 26 de abril de 2015]

Nascido deficiente visual, Maestro Nonato faz jus ao epíteto; o multi-instrumentista é o 51º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVANIO ALMEIDA SANTOS

Num início de noite chuvoso, a chororreportagem alcançou seu 51º. entrevistado, em sua casa, na Cohab. Maestro Nonato provaria, ao longo da conversa, merecer o epíteto que o tornou famoso.

Raimundo Nonato de Azevedo nasceu em Pirapemas em 1º. de novembro de 1962, filho do vaqueiro Francisco das Dores de Azevedo e da costureira Maria das Graças de Azevedo. É casado com Vera Lúcia, que vez em quando tem que chamá-lo para tomar café, tamanha é sua dedicação à música e ao estúdio que mantém em casa.

A deficiência visual com que veio ao mundo parece, qual um super-herói, ter lhe aguçado o sentido musical. Com entre seis e sete anos, já tocava bandolim, que aprendeu sozinho. Depois do instrumento que deu sobrenome artístico a Jacob, influência confessa, aprendeu também, sempre autodidata, os violões de seis, sete, 10 e 12 cordas, sanfona, bateria, contrabaixo, guitarra, cavaco, banjo, banjo-cavaco, banjo-tenor, piano e percussão.

O ex-integrante da Tribo de Jah revela estar planejando montar um regional de choro. Seu depoimento à Chorografia do Maranhão foi ilustrado musicalmente por Sons de carrilhões [João Pernambuco] e Marcha dos marinheiros [Américo Jacomino], tocadas em um violão seis cordas de estudo de suas filhas, Vanessa e Virlana, além de Bela mocidade [Donato Alves] e Boi de lágrimas [Raimundo Makarra], executadas em ritmo de choro.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

Sua casa tinha um ambiente musical? Como você enveredou pela música? Eu comecei muito cedo, com seis, sete anos, tocando bandolim, foi meu primeiro instrumento.

Como foi isso? Eu simplesmente comecei, do nada, brincando. Aos cinco anos, criança tem aquela ideia de fazer aqueles violõezinhos de, na época, era de lata de goiabada, aquele negócio. Fazia aquilo, botava quatro cordas, e começava a brincar. Um vizinho chegou com um instrumento, o bandolim, “acho que a gente consegue pegar isso aqui, por que tu não compra isso aqui pro teu filho?” Papai comprou, eu comecei com aquilo, mexendo. Com sete, oito anos, eu já estava tocando bandolim. Depois mudei para violão, com 10 anos eu tava tocando violão, com 12 comecei a tocar sanfona, aí fui só aperfeiçoando, ganhando experiência e aperfeiçoando as coisas.

Além destes, que outros instrumentos o senhor toca? Violão, bandolim, sanfona, bateria, contrabaixo, guitarra, que é quase a mesma coisa do violão, aí vem o [violão de] seis [cordas], o sete, o 10, o 12, cavaco, banjo, banjo-cavaco, banjo-tenor, piano, instrumento de percussão, tudo. Só nunca me dediquei ao metal, nunca tive paixão. O resto a gente toca tudo.

E estes instrumentos todos, você aprendeu a tocar só? Sozinho.

Todos? Sozinho.

O que você ouvia, quando criança, em termos de música na sua casa? O que tocava no rádio, na radiola de seu pai? Eu nunca parei para definir um estilo musical. Eu acompanhei tudo. A época de chorinho, o Jacob [do Bandolim], o Waldir [Azevedo, cavaquinista], também aquele chorinho de saxofone, essa história eu acompanhei muito. Muito chorinho a gente aprendeu assim, de ouvido. Violão, com Dilermando Reis, aquela galera toda, violão das antigas. Sanfona já foi a época de Gonzagão [Luiz Gonzaga], Dominguinhos, essa rapaziada, Oswaldinho. Foi sempre acompanhando na verdade os caras, Sivuca. Essa rapaziada.

Além de músico você tem alguma outra profissão? Eu fiz rádio-técnico, locução, reportagem, aqui em São Luís, [na rádio] Difusora, 1981, 82.

Nesse período você atuou nessa profissão? Sim, eu gostava muito. Depois não tive mais tempo, entrei em banda.

Se fôssemos definir um instrumento para Maestro Nonato, de que forma você mais se identifica, com qual instrumento? É complicado. Todos a gente procura fazer com perfeição. O que eu mais tenho contato, contato diariamente, são os teclados. Esse é contato direto, todos os dias, a gente está no estúdio. Os outros já é duas vezes por semana, três vezes por semana, agora teclado é direto.

Se você tivesse que definir a pessoa que mais o influenciou para a música, quem você definiria? [Pensativo] Ah, na época foi Sivuca. Eu ouvia muito o Sivuca, nossa! A sanfona perfeita! E a rapaziada do chorinho, Waldir, Jacob.

O senhor sempre viveu de música? Vive até hoje? Sempre! Sempre! Música sempre foi a fonte, o ganha-pão, até hoje. Estúdio de gravação é música direto, de manhã, de tarde, de noite. A gente grava todo mundo, essa rapaziada de bloco tradicional, escola de samba, bumba boi, a gente grava 40 discos de boi por ano. Bloco, nós temos 44 blocos tradicionais [em São Luís], eu gravo 38. Escola de samba nós temos 10, eu gravo oito.

Estes grupos têm uma preferência por seu estúdio. É, já temos alguns anos de estrada.

Dá para viver de música com dignidade? Dá! Os caras reclamam, mas dá, dá sim.

Também tocando tudo desse jeito, né? [gargalhadas dos chororrepórteres e do entrevistado] A atividade artística é uma atividade nem sempre bem compreendida pelos pais. Os seus sempre o apoiaram na decisão de seguir o rumo da música? No início estranharam, mas depois todo mundo chegou junto e acabou. Foi a época que eu tive que vir para cá para estudar e se aperfeiçoar nas coisas.

Você chegou a fazer faculdade? Não. Eu parei antes.

E sua passagem pela Tribo de Jah? Eu fiz a Tribo de Jah. Nós participamos dos cinco primeiros discos. Produzimos vários cantores, Betto Douglas, uma rapaziada boa, Rogéryo Du Maranhão, eu já fiz muitas produções aqui, coisa nossa.

Que fato foi decisivo para você seguir a música? Foi um presente que eu ganhei, uma sanfona, e isso acabou estimulando muito. Eu gostava muito de sanfona e uma freira me deu uma de presente, e isso fez com que eu não deixasse mais a música.

De que outros grupos e bandas você participou? Eu fiz guitarra, na época, no conjunto Transversom, em Coroatá, e aqui em São Luís eu fiz Os Invencíveis, em 1979, guitarra, em torno de dois meses, depois voltei para o teclado. Depois a gente montou o Superstar, o grupo Deliverys, o Superkingsom, a Tribo de Jah, o Jota Som Seis.

Você veio para São Luís quando? Eu vim cedo para estudar, em 1967, fiquei até 1976, por aí. Depois fui para Rosário, que foi minha primeira banda, meu primeiro grupo, onde eu fui tocar teclado. Depois fui para Coroatá, depois vim para São Luís, de novo, aí pronto.

Como era o nome do grupo de Rosário? Era Os Favoritos.

O senhor dá aula de música? Não. Eu não tenho tempo. Eu até gosto.

Além de instrumentista, o senhor desenvolve outras habilidades na música? Composição, arranjos. Eu sou mais arranjador. A minha linha mais é arranjos, eu passo para os meninos e os meninos escrevem. Eu uso uma mesa que elimina o mouse e o teclado [do computador, no estúdio], é uma mesa que a gente usa direto, facilita demais.

Por que o senhor saiu da Tribo [de Jah]? Tempo. A gente começou estúdio, essas histórias, não tinha mais como conciliar. Muita viagem, a galera começou a querer gravar. Eu fiz o estúdio, na verdade, de brincadeira, para fazer uma campanha política. Aí a história espalhou, que eu tinha botado estúdio, e eu não consegui mais parar.

Em que ano o senhor montou o estúdio? Em 2002. Aí eu não tive mais como parar.

Você gosta de tocar violão sete cordas? Gosto. É um instrumento muito bonito. Eu já gosto mais do sete que do seis. É um instrumento que além de ser muito ligado à questão do choro cabe muito bem nessa nossa música carnavalesca, bloco tradicional, escola de samba. A gente trabalha bastante o sete, tem uma pegada mais forte.

Você lembra de que discos já participou? Mais ou menos uns 30 discos diferentes. Cinco da Tribo de Jah, Betto Douglas, Giovani Papini, fiz todos dele, todas as produções, César Nascimento, na época do Reggae sanfonado [composição de César Nascimento, gravada, além do autor, por Alcione], Maguinha do Sá Viana, muita coisa.

Você chegou a integrar algum grupo de choro, algum regional? Não. A gente está com a ideia, agora. Com João Eudes [violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 16 de fevereiro de 2014], a gente está pensando em montar, a ideia está amadurecendo para fazermos.

Houve um tempo em que os grupos que tocavam na noite abandonaram os instrumentos acústicos e passaram a usar teclados. Você viveu essa transição? É, os instrumentos foram trocados pelos teclados na época. Eu fiz isso também, participei dessa época, mas nunca é a mesma coisa. Os teclados de ritmo substituíram muito, bandas e tal, demorou muito, banda agora é que está voltando. Durante muito tempo surgiram alguns fenômenos, Lairton dos Teclados, Frank Aguiar.

Você chegou a fazer festa nesse modelo? Sozinho, com o teclado? Cheguei a fazer carnaval. Fiz carnaval, grandes carnavais como Cururupu, Itapecuru, Rosário. Carnaval de praça mesmo. Aquela história, sonorização boa, só o teclado falando, era coisa de louco. Sonzão por cima e o cara tá aqui. Só em Rosário eu fiz três carnavais, dois em Itapecuru. Era a época em que o teclado estava no auge. As bandas começaram a tocar por que agora eles estão fazendo muitas variações, não dá para o teclado fazer tudo, aquelas viradas loucas que as bandas fazem. Para o cara fazer aquilo, tem que ser playback, aí não tem graça. Se não for tocando, pra mim não tem graça. Depois que o teclado começou a perder a história, os caras começaram a usar playback, aí eu aposentei o teclado. Não tem graça! Eu não estou mais tocando, agora o cara chega, leva um pen drive, antigamente era uma sacola de disquetes. Perdeu o charme. Eu saí da onda.

O choro, apesar de você não ter integrado nenhum regional, fez parte de sua vida desde o começo, seu primeiro instrumento foi o bandolim, influenciado por Jacob. Qual a importância dessa música para você? O choro é um tipo de música que vai muito fundo. É uma coisa muito certinha, você não encontra barulho em choro, você encontra tudo certinho, aqui [dedilha o violão, apresentando a estrutura de um choro], vêm os acordes, os solos.

O choro não é para qualquer um? Não. Tem que ser estudado direitinho, acordes perfeitos, o choro não aceita você errar. O choro é muito trabalhado.

Você acha que o choro no Brasil representa uma escola de música para o músico brasileiro? Na lógica seria. Para mim, é. Eu vejo o choro como uma verdadeira escola musical.

Há quem diga que quem toca choro toca qualquer música no Brasil. Você concorda com isso? Às vezes. Bom, tocando o choro você pode tocar qualquer coisa, agora quem toca qualquer coisa, nem sempre toca choro. O cara toca um arrocha aqui, se ele tentar tocar um choro, não vai sair.

Você escuta muito choro, hoje? Sempre que tenho tempo.

O senhor falou várias vezes em tempo, parece um homem muito ocupado. Você trabalha muito? Ah, a correria é de oito à meia noite. Época de campanha vai, entra a noite, vem o dia e a gente está lá, é preciso a mulher estar chamando para tomar café. É complicado.

Mas é um trabalho prazeroso? É, ali dentro a gente esquece tudo. A música representa praticamente tudo.

O choro é seu gênero musical preferido, para ouvir, para tocar? O choro, sempre que eu não estou fazendo nada, eu gosto de estar ouvindo. Em rodas de amigos, sempre que estamos reunidos, com João [Eudes]. João é apaixonado por choro.

Se você fosse defini-lo, como você o definiria? João Eudes é muito dedicado, estudioso demais, gosto de ouvi-lo tocar. Ele encara a música de maneira séria e a coisa acontece. Muita gente faz música para brincar, mas não é brincadeira, tem que ser sério.

E Dilermando Reis? O que significou para você? Me inspirou para o violão [Dedilha a introdução de Abismo de Rosas, de Dilermando Reis]. É muito lindo isso, eu gosto bastante.

Você acha que o choro do Maranhão está bem representado? Com certeza! Eu acho que os eventos é que são poucos. Mas já temos uma equipe boa, dava para fazer mais movimento.

E esse regional em que vocês estão pensando, seria você, João Eudes… E João está tentando ver se traz Eliésio [sanfoneiro]. Ele está em Teresina. Grande músico! Toca muito!

Como você avalia a música produzida no Maranhão, de modo geral? Hoje nós temos uma musicalidade boa. Até por que começaram a chegar recursos, equipamentos, para que você tenha uma qualidade boa, bons técnicos, operadores. Ainda está fraco por que agora é que se está começando a ter acesso a equipamentos e as pessoas têm que estudar mais um pouco. Isso de “já sei tudo” atrapalha muito. Tudo tem que ter estudo, tudo tem que ter aperfeiçoamento. Ainda se cometem pecados em matéria de mixagem, masterização. Muita gente pensa que masteriza, mas na verdade, não. Aqui só uma pessoa faz masterização: chama-se Jota Gomes. Não se peca só aqui, mas lá fora o campo é mais aberto.

Além do choro como gênero, você pode ouvir, no choro, um baião, um frevo. O Maranhão poderia tirar proveito de seus ritmos populares nas rodas de choro. Isso ainda acontece pouco. Não seria interessante acontecer mais? Muito! Pode, por que tudo dá certo. Se você quiser fazer [começa a dedilhar Bela mocidade em ritmo de choro, passando em seguida a Boi de lágrimas, também em ritmo de choro]. Dá, tudo vai. Se fizer, dá certo. Nós temos aqui um grupo, do Carlindo, eu não lembro o nome, mas você não o ouve cantar [cantarola, se acompanhando ao violão] “descobri que te amo demais”, ele transforma tudo em samba [cantarola, se acompanhando ao violão, Boi de lágrimas, em ritmo de samba].

Você se considera um chorão? Não tanto, por que eu vivo muito outros estilos. Mas é um estilo que eu gosto demais. Não é a vivência cem por cento.

Quais os seus planos para o futuro? Nosso plano é sempre o trabalho, muito trabalho, dar continuidade à luta pela nossa cultura. Vamos continuar nessa missão. É gostoso!

Rec-Beat busca alternativas para seguir acontecendo com qualidade – e de graça

Arte: Karina Buhr
Arte: Karina Buhr

 

Entre os próximos dias 6 a 9 de fevereiro, isto é, durante o carnaval, o Cais da Alfândega, no Recife, sedia a 21ª. edição do Rec-Beat, um dos mais longevos festivais de música do Brasil. Antonio “Gutie” Gutierrez sentiu a ameaça de, pela primeira vez em duas décadas, o festival não acontecer, e foi à luta: lançou uma campanha de financiamento coletivo, visando manter o nível das atrações – embora o festival seja um pouco menor em 2016 – e a gratuidade do evento.

“Vamos fazer juntos o festival” é o slogan da campanha, que pretende arrecadar 200 mil reais até o dia do início do Rec-Beat, que ao longo de duas décadas sempre primou por inovação e qualidade em sua programação. As recompensas pelas doações – clique aqui para colaborar –variam de brindes personalizados até ingressos para outros festivais brasileiros, além da coautoria da realização desta edição.

Pernambucana nascida na Bahia e radicada em São Paulo, com alguns Rec-Beat no currículo, entre bandas como Comadre Fulozinha e Eddie, além de em carreira solo, Karina Buhr assina a arte do pôster deste ano.

De acordo com Gutie, a crise financeira em que mergulhou o país gerou cortes de até 50% do patrocínio, de “um valor que já não era tão expressivo”, segundo o produtor. Para termos uma ideia, prefeituras de três municípios maranhenses já anunciaram a não realização de um circuito oficial (leia-se: estatal) do carnaval este ano – Coelho Neto, Pedreiras e Santa Inês –, de acordo com informações do jornal O Imparcial.

Gutie conversou com exclusividade com o Homem de vícios antigos.

"Esse aperto está nos levando a pensar em coisas novas", afirma Gutie. Foto: Diego Nigro/ JC Imagem
“Esse aperto está nos levando a pensar em coisas novas”, afirma Gutie. Foto: Diego Nigro/ JC Imagem

 

O que houve ao longo dos anos com o financiamento do Rec Beat?
No inicio, por três edições, o Rec-Beat foi realizado em Olinda, na área interna de um casarão, o Centro Luiz Freire. Aí havia cobrança de ingressos, um preço simbólico, suficiente para cobrir os custos, que não eram altos porque ainda era o início do projeto e tudo era feito mais como uma diversão, com uma estrutura bem simples. Em 1999 fomos convidados pela Secretaria de Cultura do Recife para levar o Rec-Beat para o Bairro do Recife, sítio histórico da cidade. O objetivo era o festival ser uma âncora para o público jovem de um projeto de fomento do carnaval no bairro, ainda muito incipiente. A partir daí o festival passou a receber patrocínio da Fundação de Cultura Cidade do Recife (FCCR) e também se tornou gratuito, como é até hoje. A gratuidade é um ponto chave do festival e tem o lado bom e o lado ruim. O bom é que dá uma grande liberdade para se fazer uma programação mais ousada, pautada em novidades, em coisas mais experimentais que ainda não estão inseridas no grande mercado, ou seja, não precisamos escalar nomes do mainstream para atrair público pagante, uma vez que a gente não vende ingresso. A gratuidade permite que o público tome contato com bandas desconhecidas, ou pouco conhecidas, que certamente ele não pagaria pra ver se não estivesse ali, na rua, sem custo para ele. O lado ruim é que o festival perde uma fonte de receita, ou seja, o festival não pode contar com recursos de venda de ingressos para cobrir seus custos, e passa a depender, dessa forma, exclusivamente de patrocinadores e apoiadores. O Rec-Beat cresceu muito, ao longo dos anos, mas o patrocínio oficial não acompanhou a evolução dos custos de realização do evento. Além disso, o Rec-Beat sofre uma limitação para captar recursos junto à iniciativa privada, tendo em vista que a Prefeitura já tem acordos com grandes patrocinadores que impedem o festival de captar recursos desses mesmos patrocinadores ou de concorrentes do patrocinador oficial, como cervejarias, por exemplo. Com o agravamento da crise financeira do país este ano e um corte do patrocínio da ordem de 50%, de um valor que já não era tão expressivo, fomos em busca de saídas para manter o festival no nível conquistado, principalmente no que se refere ao conteúdo artístico, conceitual, e a gratuidade. Foi aí que abrimos várias frentes, e uma delas foi a tentativa do financiamento coletivo.

Muitos artistas têm recorrido ao financiamento coletivo para a realização de trabalhos artísticos (filmes, livros, cds, dvds, exposições etc.). O Rec-Beat parece ser pioneiro para a realização de um festival. O crowdfunding é “o” caminho, hoje?
Creio que somos pioneiros nisso, até agora não vi nenhum festival independente recorrer a esse mecanismo para levantar recursos. Pra gente é uma incógnita, não sabemos onde vai dar. A gente vê vários projetos de CDs, livros, filmes alcançando êxito. Mas não temos uma referencia de projeto para festival. Certamente com esta experiência vamos poder aprimorar a estratégia, avaliar os acertos e erros, caso a gente venha a fazer no próximo ano. Nesse momento que estou respondendo a essa sua pergunta o que posso dizer é que o fluxo de adesão à campanha ainda não decolou, mas ainda faltam alguns dias para o encerramento. Mesmo assim eu acho que o crowdfunding pode vir a ser uma boa opção para o financiamento de festivais como o Rec-Beat.

O momento por que passa o já tradicional festival é reflexo da crise que atravessa o país?
Acho que reflete a crise econômica e também a falta de discernimento enfrenta-la. Quando você sofre restrição econômica, você tem que adotar um critério para reduzir seus custos de modo a manter o que é importante e vai te dar retorno e eliminar o que é supérfluo e só vai lhe trazer mais despesas. Eu não tenho dúvida de que o Rec-Beat traz um imenso retorno para o patrocinador, para o público, para a música independente, para a nova música brasileira, para a nova música latino-americana, para a tradição do carnaval pernambucano. O festival traz público. O festival contribui como destino turístico, para o fluxo de renda. Ano passado, e este ano também, o Rec-Beat entrou na agenda de três revistas de bordo de empresas aéreas colocando o evento como destino no carnaval, sem contar o destaque que recebe em vários veículos da imprensa nacional. A mídia espontânea gerada pelo festival, quando valorada, supera em três vezes o custo do festival. Ou seja, como é que você corta severamente o patrocínio destinado a um evento que traz tantos benefícios? Estamos passando por uma forte crise econômica, é fato. Eu já vivi momento pior que isso. O Rec-Beat tem 20 anos. Está sendo um ano difícil, mas por outro lado esse aperto está nos levando a repensar muita coisa, a trabalhar novas parcerias, pensar em coisas novas. Incrível também a solidariedade de muitas bandas e artistas, que estão chegando espontaneamente e oferecendo apoio. Acima de tudo é bom momento pra saber quem está por dentro e quem está por fora.

O ministro Juca Ferreira deu uma entrevista ao jornal online Nexo afirmando que o MinC já vive um momento “pós-crise”. O que você poderia comentar a respeito da fala dele?
Respeito muito Juca Ferreira, um grande gestor, um dos melhores ministros que esse país já teve na área da cultura, e só o fato de Marta Suplicy não gostar dele já mostra que ele é boa gente. Acho que quando Juca diz que já vivemos um momento de “pós-crise” talvez ele queira dizer que estamos conscientes que estamos vivendo uma crise e adotando caminhos para superá-la. Concordo quando ele diz, na entrevista, que a crise é menor do que parece. Antes de tudo vale dizer que a crise é mundial, o mundo vive um momento de retração econômica, que reflete principalmente o esfriamento da economia chinesa. Nossa visão da crise no Brasil é dada pelos grandes meios, o famoso PIG [o partido da imprensa golpista], que aliado a uma oposição medíocre, está impedindo que Dilma governe e que adote medidas para superar as dificuldades. E quando você tem um bombardeio diário na mídia falando de crise, crise, crise… é claro que acaba criando uma expectativa negativa nos agentes econômicos. Só acho que o MinC deveria nesse momento ter mais cautela no lançamento de editais de financiamento de projetos. Existe muita pendência de editais aprovados cujos recursos não são liberados. Isso cria um desgaste muito grande junto aos produtores que são contemplados e que depois recebem a notícia de que o dinheiro não existe.

Que nomes já estão confirmados para a edição 2016 do Rec-Beat? Além do corte no patrocínio, o festival sofrerá alguma espécie de diminuição?
Vamos reduzir uma atração por noite, que na verdade significa voltar ao formato que já fazíamos um ano atrás. Serão cinco bandas e mais um dj por noite fazendo os intervalos entre as bandas. Além disso, devemos ter festas after com djs, em uma casa fechada, no Bairro do Recife. Também mantivemos este ano o “Rec-Beat Apresenta”, que é uma proposta de realizar no período pré-carnaval uma noite com três bandas novas, revelações, nas quais o festival aposta. Este ano, além de fazer no Recife, estamos fazendo o “Rec-Beat Apresenta” também em Joao Pessoa, lá também com três bandas. Nesse momento que respondo a essa pergunta já temos confirmado oficialmente para o Festival Rec-Beat 2016: Maite Hontelé (Colômbia), Moh! Kouyaté (Guiné), Liniker (SP), Francisco-El Hombre (México/Brasil), Luísa e Os Alquimistas (RN), Duda Brack (RS). Até o final da semana teremos tudo definido.

A herança musical de Alice Passos

Com o Maranhão e a música no DNA, a cantora e flautista Alice Passos é a convidada da última edição do projeto RicoChoro ComVida em 2015. O sarau musical acontece hoje (19), a partir das 18h, no Bar e Restaurante Barulhinho Bom (Rua da Palma, 217, Praia Grande). A noite contará ainda com as apresentações do dj Marcelo Guzmán e do Regional Chorando Callado, que acompanhará a artista carioca.

O grupo se formou por ocasião do projeto Clube do Choro Recebe, produzido por Ricarte Almeida Santos entre 2007 e 2010, no Bar e Restaurante Chico Canhoto. João Eudes (violão sete cordas), João Neto (flauta), Wanderson Silva (percussão) e Wendell Cosme (bandolim e cavaquinho) – a formação para hoje –, à época eram jovens estudantes de música; hoje são dos mais requisitados e frequentes nomes em fichas técnicas de discos e shows de artistas locais e nacionais.

Alice é filha da cavaquinhista maranhense Ignez Perdigão, irmã da cantora e cavaquinhista Mariana Bernardes e afilhada do multi-instrumentista Egberto Gimonti. Apesar da pouca idade – 25 anos recém-completados – já é vasto seu currículo: aos oito anos entrou para os Flautistas da Pro Arte, passando em seguida a se apresentar com a Orquestra de Sopros da Pro Arte. Integrou por quatro anos a Orquestra Corações Futuristas, fundada e regida por Gismonti.

Em 2006 ela participou do disco Mario Lago – O homem do século XX. Atualmente prepara seu disco solo de estreia. A artista conversou com O homem de vícios antigos.

Alice Passos: vasto currículo, apesar da pouca idade. Foto: divulgação
Alice Passos: vasto currículo, apesar da pouca idade. Foto: divulgação

Homem de vícios antigos – Você é filha de maranhense e já se apresentou em São Luís diversas vezes. Qual sua relação com a cidade?
Alice Passos
– São Luís é minha segunda casa. Tenho diversos tios e primos aqui na ilha e desde que vim a primeira vez que venho pelo menos uma vez por ano. Excepcionalmente nos últimos três anos não pude vir, por isso estou muito alegre de estar voltando pra cá, onde me sinto em casa, onde danço o bumba meu boi, o tambor de crioula… Me identifico muito com a música e a culinária da cidade.

Com que sentimento você recebeu o convite para encerrar a temporada de RicoChoro ComVida em 2015?
Fiquei muito contente, pois já não vinha à ilha há três anos e estava morrendo de saudade da família, das praias, do vento, da comida…

Qual a base do repertório de sua apresentação amanhã?
Mesclei músicas que eu imagino que sejam conhecidas do público daqui e que gosto muito com músicas do repertório que venho pesquisando ao longo dos meus 10 anos de atividade como cantora

Você já conhecia os músicos do Chorando Callado? Qual o clima dos ensaios?
Conhecia o João Eudes do violão e o João [Neto] da flauta. É como se tocássemos juntos há 10 anos.

Seu disco solo de estreia, prometido para ano que vem, terá, entre compositores e participações especiais, nomes como Guinga, Paulo César Pinheiro, Francis Hime, Maurício Carrilho, Egberto Gismonti e Yamandu Costa. O que significa para você o endosso de tantos nomes tão importantes para a música brasileira?
Conheço o Egberto desde criança. É meu padrinho. Engraçado que a nossa relação é muito mais pessoal do que musical, apesar d’eu ter participado da Orquestra Corações Futuristas, regida por ele, durante quatro anos. Fora o Francis, com quem encontrei poucas vezes, tenho uma forte relação de amizade e afeto com todos os outros compositores e músicos citados. Seja encontrando para tomar um chope, seja ensaiando juntos, gravando… Engraçado que, por ter uma amizade com eles há tanto tempo, acho que não tenho muita dimensão do que significa o nome deles no meu projeto. Claro que tenho consciência da importância deles pra a música brasileira, mas pra mim é muito natural tê-los no meu primeiro disco. No caso, acaba que o Yamandu e o Egberto infelizmente não puderam participar. Mas estão no disco Dori Caymmi, Guinga, Sérgio Santos e Théo de Barros. Me sinto muito honrada e agradecida pela generosidade de todos que participaram do meu disco.

Você chegou a tentar outra profissão fora da música?
Nunca! Canto desde os nove anos, tanto em show quanto em gravação.

O fato de ter nascido numa família de músicos ajudou ou atrapalhou em sua decisão de seguir a carreira musical?
Os dois. Atrapalhou no sentido que eu, por rebeldia adolescente, tentei querer outra coisa, só pra ser do contra. Mas não foi pra frente. Ajudou em todos os outros sentidos. Tive muita ajuda.

Você é cantora e flautista. O público de São Luís também terá a oportunidade de ouvir você tocando flauta?
Desta vez não. Toquei flauta praticamente só em orquestras. Faz dois anos que não trabalho mais como flautista, só dou aulas.

Você é reconhecida como um dos nomes que colaborou para a revitalização e o reconhecimento da Lapa enquanto centro sambista do Rio de Janeiro. Você conhece ou acompanha o cenário do samba ou da música popular de modo geral no Maranhão? Se sim, que nomes destacaria?
Muito menos do que eu gostaria. Conheço o grupo Espinha de Bacalhau, Feijoada Completa, torço desde sempre pelo Roberto Chinês que é um baita instrumentista… Sempre que venho tenho pouco tempo pra fazer essa garimpada da música que não conheço. Acabo vendo os mesmo amigos, fico muito tempo com a família. Mas espero voltar a vir anualmente e me inteirar do que tá rolando.

Chorografia do Maranhão: Wendell de la Salles

Abre parêntese: ao tempo em que reproduzo cá no blogue a 49ª (de 52) entrevistas da série Chorografia do Maranhão, tenho a imensa alegria de compartilhar com os poucos mas fiéis leitores deste Homem de vícios antigos: o edital de apoio à publicação de livros 21/2015 da Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (Fapema) aprovou o projeto Chorografia do Maranhão (clique aqui para baixar o resultado). Muito em breve, caros e caras, as entrevistas realizadas por este que vos perturba, Ricarte Almeida Santos e Rivanio Almeida Santos (fotografias), publicadas entre março de 2013 e maio de 2015 no jornal O Imparcial, reunidas em livro, aguardem! Fecha parêntese.

Bandolinista potiguar radicado há cerca de 10 anos em São Luís, membro honorário do Regional Tira-Teima é o 49º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVANIO ALMEIDA SANTOS

Doutor em engenharia química e bandolinista, o potiguar Wendell Ferreira de la Salles ganhou este sobrenome de uma promessa da avó: com complicações na gravidez, ela batizaria o filho com o nome do santo do dia. Seu pai, o funcionário público João Batista de la Salles, iniciava ali um outro ramo onomástico na árvore genealógica da família.

Grande comprador de discos – “ele comprava mais do que ouvia” – foi seu pai uma das primeiras influências musicais do menino Wendell. Em meio a tão vasto acervo, logo os discos de choro chamaram-lhe a atenção.

Wendell nasceu em 22 de agosto de 1974, filho da professora do ensino fundamental Telúsia Ferreira de la Salles. É casado com Kátia Simone, também engenheira química natalense, com quem tem uma filha de oito anos – que lhe inspirou a música Anjo meu, gravada no disco de estreia do Regional Tira-Teima, que deve ser lançado em breve.

O 49º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão conversou com os chororrepórteres no novo Barulhinho Bom (Praia Grande) e contou, entre outras histórias, como começou a tocar ainda criança, a ida para o doutorado na França, o retorno ao Brasil – hoje é professor da Universidade Federal do Maranhão – e a acolhida entre os bambas do Tira-Teima.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

De onde vem teu sobrenome? É uma situação estranha. A família de meu pai efetivamente é Melo, exceto meu pai que tem esse sobrenome, de la Salles. Ele nasceu no dia de um santo, São João Batista de la Salles, e minha vó, que parece que teve problemas na gravidez, fez uma promessa, só que na hora do registro ela não botou João Batista de la Salles de Melo, ficou João Batista de la Salles. Aí vem dele.

Seus pais tinham algum envolvimento com música? Não. Meu pai sempre gostou de ouvir música, era um grande comprador de discos, mais comprava do que ouvia. A gente sempre teve uma variedade muito grande, eu sempre ouvi muita música por que meu pai comprava muitos discos, eu ouvia até mais que ele, ele comprava e eu ouvia. Até hoje continua mais ou menos assim. Ele tinha uma tendência a querer agradar os convidados. Se ele tinha amigos que gostavam de rock, ele ia e comprava rock, gostava de samba ele comprava discos de samba, de choro, discos de choro.

Mas sempre com um padrão de qualidade. É, sempre com um padrão de qualidade, sempre com bom gosto, em geral. O rock para ele era aquele rock tradicional, de Beatles, Rolling Stones, Elvis Presley. Mas isso foi mais na infância mesmo, depois ele deu uma parada, hoje é que está voltando [a comprar discos].

Ele tocava alguma coisa? Não. Na família, quem tocava era meu avô, pai da minha mãe. Ele nasceu no interior do Rio Grande do Norte, tocava cavaquinho, mas tocava forró.

E a música nordestina, tinha espaço na tua casa? Tinha. Sempre teve. Forró, eu gosto bastante, daquele tradicional, meus pais também.

No meio de toda essa coleção de discos de teu pai, você lembra o que chamou a atenção? Algo que você queria ouvir sempre, que repetia muito. Aquele disco que você ouviu até furar. É engraçado, realmente a variedade era grande, mas quando eu paro para pensar no que eu queria ouvir, ainda criança, eram discos de choro mesmo. Eu não lembro de botar outras coisas. Lembro das capas dos discos de Jacob [do Bandolim] que ele tinha, o disco de Assanhado, Vibrações, são as que mais vêm à cabeça ainda na época do vinil. Eu não tinha muito tempo para escolher, papai não dava tempo para escolhermos, ele estava o tempo todo botando algum disco, e a gente no clima, ali, sempre tinha festa lá em casa.

Além de músico, você tem outra profissão? Atualmente sou professor da UFMA, formado em engenharia química. Minha profissão efetiva, mesmo, deixou de ser a música há bastante tempo.

Houve algum momento de tua vida em que você atuou como músico profissional? A música permitiu até que eu concluísse uma graduação, que eu fizesse um mestrado em Natal, a situação financeira de meus pais não era muito fácil. Eu nunca tive problemas para fazer o que eu queria devido à música. Comecei a tocar muito cedo, meus pais não tinham muitas despesas comigo. A música serviu como profissão um bocado de tempo na minha vida, tocava na noite, sexta, sábado, domingo, desde oito, nove anos de idade. O primeiro regional que eu toquei foi um que meu pai criou. Ele se empolgou tanto quando me viu brincando com o cavaquinho que era de meu avô, que criou um grupo para eu tocar. Ele pagava os músicos para tocar comigo. Eu não tocava nada, sabia duas ou três músicas, ele pagava os músicos, tinha um cantor, eu entrava, toca minhas duas ou três músicas e eles continuavam, a noite toda.

Então o teu instrumento de origem é o cavaco? É o cavaquinho. Um cavaquinho que tinha na casa de meu avô, que eu achei velho, dentro de um armário, a primeira vez que eu peguei ele se assustou, já veio para tomar da minha mão. Ele já faleceu, uma das filhas guarda até hoje. Era um tonante, preto, nem sei se existe essa marca atualmente. Foi meu primeiro instrumento. Eu comecei a pegar, mesmo forçando a barra, ele não gostava que ninguém pegasse, eu pegava só para fazer barulho. Um dia ele pegou para me ensinar uma música, “quer aprender uma música?”, eu “quero”. Ele tocava poucas músicas, uma das que ele tocava, que ele solava no cavaquinho, era Naquela mesa [de Sérgio Bittencourt, feita em homenagem a seu pai, Jacob do Bandolim], foi a primeira música que ele me passou. Quando eu cheguei em casa mostrando pra meu pai, meu pai já se empolgou, aí pronto.

Você considera seu avô seu primeiro professor? Eu acho que sim. Foi ele quem primeiro me passou alguma coisa.

Como é que foi esse processo de transição do cavaquinho para o bandolim? Eu comecei exatamente nesse grupo que meu pai montou, a ir para o Clube do Choro em Natal. Eu comecei mais ou menos com oito anos. É sempre difícil eu saber a data que eu comecei por que meu pai tem uma tendência a diminuir. Se vocês forem falar com meu pai é capaz de ele dizer que eu comecei com quatro [risos dos chororrepórteres]. Então de tanto eu ouvir meu pai reduzindo, a idade com que eu comecei, eu fico em dúvida. Mas eu acho que eu tinha uns 10 anos mais ou menos, quando ele decidiu me levar para o Clube do Choro. Eles se reuniam acho que quarta-feira à noite. Quando cheguei lá foi um choque de realidade. Eu até ali não estava preocupado com o que eu fazia. Esse grupo que meu pai montou, a gente fazia qualquer coisa e eu estava agradando pela idade. Quando eu cheguei no Clube do Choro, não, o pessoal já comigo completamente diferente, eu comecei a revisar, a estudar, a escutar, montar repertório. Começa a tocar, as pessoas começam a falar, “instrumento para solista não é cavaquinho, é bandolim, tem muito mais possibilidades, uma maior escala, se você começar a tocar bandolim você vai largar o cavaquinho no outro dia”. No Clube do Choro não tinha solista de cavaquinho, mas tinha um solista de bandolim. Na época foi uma de minhas primeiras referências: João Juvanklin. Toca até hoje, tem vários cds lançados lá em Natal, eu toco várias músicas dele, é um excelente compositor. Para mim foi uma inspiração para eu migrar para o bandolim. Não lembro exatamente quando, me deram um bandolim de presente lá no Clube do Choro. E realmente, quando eu comecei a tocar bandolim eu deixei o cavaquinho de lado.

Você desperta para o choro em meados da década de 1980, quando o rock brasileiro estava no auge. Eu nunca fui muito de rock, essa geração do rock brasileiro, a minha esposa, por exemplo, conhece muita coisa dessa época, Capital Inicial, Engenheiros do Hawaii, Legião Urbana, mas essa geração passou meio de lado para mim. Eu acho que eu já estava muito focado nisso aí [no choro], realmente foi muito intenso, eu acho que eu toquei tanto nesse período aí, dos 12 aos 20 anos, que quando eu tive uma situação que me permitiu largar o bandolim eu não senti saudade.

No bandolim você se considera meio autodidata? De início, sim. Mas as coisas foram acontecendo muito rápido. No momento em que eu estive no Clube do Choro eu comecei a aparecer mais e tinha um instituto de Música lá em Natal, o Instituto Valdemar de Almeida, e tinha vários cursos de música, curso de teoria, bandolim, cavaquinho, violão, e na época, o diretor do instituto fez uma apresentação no Clube do Choro e me ofereceu bolsas para eu estudar gratuitamente no instituto. Aí eu perguntei: “bolsa de quê?”, e ele “do que você quiser”. Aí eu disse que ia fazer cavaquinho, bandolim, teoria musical, vou fazer tudo. Ainda nessa época eu estudei cavaquinho, bandolim, com o professor Alexandre Moreira, que é sobrinho do João Juvanklin, que também é bandolinista, é uma família com vários bandolinistas, a esposa do Alexandre também é bandolinista, uma bandolinista canhota, muito boa, eu comecei a estudar no Instituto, bandolim, cavaquinho e teoria musical. Até então, aí, era basicamente de ouvido. Na época, mesmo você estudando, a gente não tinha facilidade de encontrar material como se tem hoje em dia. “Ah, gostei dessa música”, se você for esperar a partitura para aprender aquela música você não aprende. Não ia achar, não tinha internet para procurar, então eu acabei desenvolvendo uma capacidade muito grande de aprender música de ouvido. E eu não precisava estar com o instrumento para aprender, bastava ouvir. Isso acontece até hoje. Eu não perdi o bandolim, deixei de tocar, fiquei praticamente 10 anos sem tocar, mas eu não deixei de ouvir.

Quando você foi para a França você largou o bandolim? Não, na França, até 2004, eu fiquei lá de 2000 até 2004, lá eu cheguei até a fazer algumas gravações, não de choro. Eu participei de um projeto com um cantor que queria gravar a música de Jorge Brassan, era uma música em ritmo de bossa nova, ele queria dar uma mudada. Eu cheguei em Toulouse, eles estavam inaugurando uma linha de metrô e queriam criar uma música para tocar no lançamento desse metrô, e quando eu estava lá eu conheci um grupo chamado Le Famouse T, me disseram que tinha uma brasileira, eu fui me informar quem era, era a irmã do Armandinho Macedo [bandolinista] que fazia parte desse grupo. Ela tinha a intenção de fazer uma música voltada para o frevo, para tocar no lançamento desse metrô. O Armandinho de vez em quando aparecia na França. Ela soube que eu tocava bandolim e acabou me convidando para participar desse cd, que eles lançaram com o patrocínio da empresa de transportes. A gente gravou uma música, eu fui na França o ano passado, estava tocando essa música lá, era uma composição deles e eu gravei uma participação. Eu toquei, mas sempre tinha uma brincadeira lá e eu não abandonei o bandolim, a gente está fora, sente mais saudade da terra, era uma forma de eu me ligar ao Brasil. Mas quando eu voltei ao Brasil, praticamente fiquei sem pegar no bandolim, de 2004 até o ano passado. Pegava em casa, ocasionalmente. Foi um período conturbado, eu era de Natal, fui para a França, voltei para Maceió, fiquei dois anos em Maceió, depois vim para cá, quando eu estava em Maceió minha esposa engravidou, eu vim para cá com uma criança de 20 dias, entrei na UFMA, comecei a focar naquilo ali e a música foi ficando de lado, ficando de lado…

Além de teu avô quem você considera seus principais mestres? Meu avô foi importante no início. Eu diria o João Juvanklin, lá de Natal, nunca foi meu professor de bandolim, mas o fato de eu estar tocando frequentemente ali com ele, no Clube do Choro, aprendi bastante coisa com ele. O João Juvanklin tinha uma coisa que eu admirava bastante nele, era o som que ele tirava do bandolim. A gente encontra muitos bandolinistas bons, mas são poucos os que conseguem tirar do bandolim o som que o bandolim é capaz de fornecer.

Isso tem a ver com técnica? Ou com a qualidade do instrumento? Isso tem a ver com técnica, principalmente. Mas também com a qualidade do instrumento, se você pegar um instrumento ruim é difícil, mas um cara que tem o domínio da técnica consegue até tirar um som bonito num instrumento ruim. Agora tem muita gente com bons instrumentos que não consegue tirar esse tipo de som. E ele tirava. Um dos elogios que me fizeram a vida toda é exatamente em cima disso aí, que eu consigo tirar um som bonito do bandolim, provavelmente inspirado no que eu ouvia dele para produzir esse tipo de som.

Além de técnica e da qualidade do instrumento, onde você localiza o sentimento? O sentimento é importante. Quando a gente fala em técnica a gente só pensa em agilidade. Quando eu falo em técnica eu incorporo a questão do sentimento aí também. Você pega uma música como Vibrações, se você não colocar sentimento ali ela não rende, não flui, é uma música qualquer. Quando você escuta a gravação de Jacob do Bandolim [autor da música] você sente alguma coisa diferente, você sente as emoções que ele estava tentando imprimir quando estava tocando aquela música. Isso é outra coisa difícil também, você sentir que o cara que tá tocando aquela música está sentindo alguma coisa e não tocando mecanicamente. Se for mecanicamente a música não sai com qualidade.

Além de cavaquinho e bandolim você toca algum outro instrumento? Eu toco um pouco de violão sete cordas, um pouco de violão seis cordas, eu nunca tive um violão em casa. Quem toca em grupo de choro sempre vê os outros tocando e acaba aprendendo um pouquinho. Eu gosto de brincar um pouco com o violão, de sete, de seis, cavaquinho. Já toquei um pouco de violino, é a mesma afinação de bandolim, tive um pouco de dificuldade com o arco, mas se adapta, se eu quisesse insistir eu me adaptaria, a escala é a mesma coisa. Basicamente isso aí.

Já que você também toca cavaquinho, que lugar tem Waldir Azevedo em teu repertório? Hoje praticamente eu não toco Waldir Azevedo devido a eu ter focado muito no bandolim. Mas eu tenho um repertório muito grande de Waldir Azevedo, na época que eu tocava cavaquinho era essencialmente Waldir Azevedo. Meu pai tinha a coleção dele praticamente completa em vinil, eu gosto bastante.

E Jacob? Jacob tem um lugar bem especial. Eu tenho um repertório muito bom de Jacob do Bandolim. Na época em que eu comecei a tocar não era fácil encontrar. Eu aprendi muita coisa de Jacob pelo João Juvanklin, não pelos discos, eu olhava-o tocando. Da minha geração é uma das principais referências.

Além de instrumentista você desenvolve alguma outra habilidade na música? Compõe, arranja? Eu nunca fui muito de compor, acho que não tinha nem tempo para parar para compor, sempre fazia várias coisas paralelamente, além da música, várias outras atividades. Mas cheguei a fazer algumas composições, lá atrás. Quando eu cheguei à São Luís, depois que eu conheci o Regional Tira-Teima eles me falaram que estavam fazendo um disco de composições originais e perguntaram se eu não tinha alguma composição. Eu gravei duas no cd deles, minhas, uma que eu tinha feito lá atrás, e uma que eu compus especialmente para estar neste cd. Uma é Aguenta seu Florêncio, que eu fiz em homenagem a meu avô, seu João Florêncio [Ferreira]. Meu avô era daqueles que gostava de música a 150 quilômetros por hora, coisa que exigisse técnica. Eu fiz uma música para ele, faleceu há cerca de três anos. A outra é uma música que eu fiz para minha filha, recentemente, intitulada Anjo meu. Infelizmente não deu tempo de participar mais, o disco já estava praticamente pronto. Eles tinham intenção que eu incluísse o bandolim em outras músicas, mas isso ia terminar atrasando o lançamento do cd.

Você gosta de tocar com o Tira-Teima? Gosto! Foi engraçado, eu tava há quase 10 anos sem tocar, conheci-os meio por acaso, estava na casa de um professor da UFMA, toca piano, Adelino Valente [pianista e bandolinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 20 de julho de 2014]. Desde que eu cheguei na UFMA a gente se encontrava pelos corredores e o pessoal dizia para ele: “ah, ele toca bandolim”, e me dizia: “ah, ele toca piano”, e ninguém botava muita fé: um professor de matemática que dizem que é muito bom e toca piano e um professor de engenharia química que toca bandolim [risos]. Foi passando um ano, dois, três anos, um dia ele me chamou para ir à casa dele, fomos tocar um pouquinho. Quando eu comecei a tocar ele começou a ligar. Ligou pra Solano [Francisco Solano, violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 26 de maio de 2013], pra Paulo [Trabulsi, cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 22 de dezembro de 2013], o pessoal do Tira-Teima: “venha cá, venha cá”. Eles estavam na época do Tira-Teima Convida [temporada de apresentações em que o Regional recebia convidados, no Terraço do Hotel Brisamar] e eu participei com eles uma sexta-feira. Me convidaram para tocar, mas eu estou tocando sem compromisso. O fato de eles tocarem em uma data fixa, na sexta-feira, pra mim é um pouco complicado. Pode acontecer de um semestre eu ter aulas na sexta-feira à noite, os horários variam. Às vezes eu saio muito tarde. Se eu assumisse o compromisso eu teria que ir, então eu preferi ficar um pouco mais livre.

O que trouxe você à São Luís foi a UFMA? Foi a UFMA. Inclusive foi meio inusitado. Eu não queria vir para os lados de cá. Eu sou de Natal e tinha a intenção de ficar ali perto. Só que quando eu voltei do doutorado eu estava atrás de edital para professor, e dos editais que lançaram na época, normalmente esses editais exigem que você revalide o diploma. Todos os editais exigiam o diploma revalidado, menos o da UFMA. A UFMA não exigia a revalidação para a inscrição, só para a posse. Aí eu vim fazer, vim parar aqui.

Você, como engenheiro químico, com doutorado na área, consegue fazer alguma relação, se é que é possível, entre a música e a engenharia química e em que sentido uma coisa e outra se atrapalham e se ajudam? Eu acho que não atrapalha, mas também não ajuda. Quem trabalha na área da engenharia, se pudesse ter um lazer como a música, seria fantástico. É uma profissão estressante, um pouco pesada, principalmente em nível universitário, pega turmas enormes, conteúdo que envolve muito cálculo. Então você ter a opção de quando estiver estressado pegar um instrumento e dar uma relaxada, é fantástico. Eu me distraio facilmente com outras atividades, não só com música, mas com leitura, com tevê. Agora, relação direta, existem teses que falam da relação da matemática com a música; da engenharia, especificamente, eu não conseguiria fazer.

E os grupos de que você fez parte lá em Natal? Eu fiz parte desse que meu pai criou, eram Os Originais do Choro, deve ter durado uns três anos, aí eu fiz parte do Clube do Choro, enquanto ele existiu, devo ter ficado uns seis, sete anos. É aquele negócio, o pessoal se reunia para tocar, muita gente que tocava no Clube do Choro era músico profissional, depois começou a querer se expandir. Enquanto tocávamos às quartas-feiras, tudo bem, depois começaram a querer fazer sexta e sábado, aí começa a tirar opção de quem vive de música, então o Clube do Choro acabou, se dividiu em dois grupos, eu fiquei tocando em um e o outro foi para outro lado. Quando eu entrei na faculdade eu larguei tudo, sabia que era um curso pesado. Mas a música ainda estava muito perto e o pessoal, “não, vamos montar um grupo”, aí montamos um grupo de samba, Os Engenheiros do Samba. Eu tocava cavaquinho, era uma brincadeira de estudantes. No meio desse curso as bandas de samba sérias de Natal começaram a me ver tocando e eu comecei a receber convites, do Divina Chama, Verdadeira Chama, era outro nível, um negócio maior, multidões, palco grande, algo que eu nunca tinha tido com o choro. Começou a me dar uma renda e não exigia muito de mim.

E discos? Você chegou a gravar? Na época em que eu saí foi que o pessoal começou a gravar. O João Juvanklin gravou um disco patrocinado pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, hoje ele tem uns seis ou sete, mas tudo gravado depois que eu saí de lá. Inclusive ele fala, sempre que a gente se encontra, que ele ainda queria que eu participasse de um cd dele. Eu esqueci de falar de um grupo: quando eu estava no Mestrado eu participei de um grupo de choro chamado Choro & Companhia. Foi o último grupo em que eu toquei, até ir embora para a França, de 1998 a 2000, estávamos com um projeto de gravar um cd na época. Não tinha mais nenhum grupo de choro e a gente de algum modo fez ressurgir. Foi interessante por que a gente foi chamado até para participar de festivais internacionais. Antes de eu ir estudar na França eu fui lá com esse grupo tocar, num Festival de Verão. Quando a gente voltou, o flautista desse grupo, é bem conhecido, o Carlos Heinze, estava gravando o cd dele e eu participei de duas músicas, correndo, antes de viajar, uma gravação feita às pressas.

Pra você, o que é o choro? Qual a importância dessa música? O choro foi que me fez praticamente gostar de música. O choro, por incrível que pareça, é uma música interessante para você começar a caminhar pela música brasileira. O choro é meio resultado de vários gêneros que acabaram culminando nesse estilo. Quem pensa em começar a tocar, um bom ponto de partida é o choro. Ele tende a ser um cara bem eclético, tende a ter uma preparação que permita ele transitar entre várias áreas da música brasileira. O músico de choro tem facilidade de se integrar com vários estilos musicais.

Você concorda que quem toca choro toca qualquer coisa? Qualquer coisa eu não diria, mas toca muita coisa. Tem alguns estilos musicais que são diferentes. Um solista de choro tem dificuldades de improvisar no rock, é uma linguagem totalmente diferente. Nessas músicas mais brasileiras ele tem mais facilidade de transitar entre elas.

Você se considera um chorão? Sim. É o gênero em que eu me sinto à vontade. A linguagem é muito comum quando a gente está há muito tempo naquele meio. Você ouve, já começa a improvisar, conhece aquela linguagem. Me considero um chorão, embora goste muito de samba também, devido a essa experiência que eu tive na graduação quando toquei em grupos de samba.

Quem você considera o maior nome do bandolim do Brasil? Em todos os tempos? Jacob!

Por que? Pelas composições dele. ele deu uma cara ao bandolim, se pedir para alguém citar, “diga 10 composições que você gosta ao bandolim”, nove vão ser de Jacob, se não forem as 10.

[O Imparcial, 15 de março de 2015]

A vasta bagagem de Curumin

 

Com três discos na bagagem, o cantor, compositor e multi-instrumentista Curumin é um dos mais interessantes artistas da música brasileira surgidos nos anos zero zero. Além dos discos solo – Achados e perdidos (2003), JapanPopShow (2008) e Arrocha (2012) – é nome fácil em fichas técnicas de discos de artistas diversos.

Arrocha. Capa. Reprodução
Arrocha. Capa. Reprodução

Pilotando bateria, percussão, guitarra e/ou contrabaixo, para citar apenas a cozinha básica – a lista de instrumentos que toca é enorme – lá está Curumin, titular dos times de, entre outros, Arnaldo Antunes (Disco, Ao vivo lá em casa, Iê iê iê), Marcelo Jeneci (seu companheiro na banda do ex-Titãs, Feito pra acabar), Céu (Vagarosa), Itamar Assumpção (o póstumo Maldito vírgula), Lucas Santtana (Sem nostalgia), Rodrigo Campos (São Mateus não é um lugar assim tão longe), Rômulo Fróes (Cão, No chão sem o chão), Russo Passapusso (Paraíso da miragem), Walter Franco (Tutano), Zélia Duncan (Pelo sabor do gesto) e Anelis Assumpção (Anelis Assumpção e os Amigos Imaginários), com quem é casado.

Esse trânsito intenso torna impossível rotular a música deste descendente de espanhóis e japoneses com nome artístico indígena. Sua obra agrega elementos de samba, funk, forró, hip hop, afoxé, reggae, eletrônica e mais um rosário de referências. Seus discos são, ao mesmo tempo, dançantes e inteligentes, com letras por vezes fazendo denúncia social – Caixa preta aborda as relações entre mídia e os outros poderes e Mal estar card trocadilha a exclusão social, para ficarmos apenas nestes exemplos.

Curumin se apresenta pela primeira vez em São Luís amanhã (11), de graça, na Praça Nauro Machado (Praia Grande), na programação do Festival BR135, que acontece de hoje (10) a sábado (12). Arnaldo Antunes (que se apresenta hoje na noite de abertura), Siba (na de encerramento) e Orquestra Brasileira de Música Jamaicana são alguns dos outros nomes da grade – veja programação completa no site.

Às vésperas de baixar na Ilha, Curumin conversou com o Homem de vícios antigos.

Foto: Mauro Frasson/ Agência Fiep
Foto: Mauro Frasson/ Agência Fiep

 

Quais as expectativas para esta sua primeira apresentação em São Luís?
As minhas expectativas são as melhores. Eu conheço São Luís, eu sei que é um lugar único no Brasil, com uma mistura, uma cultura ímpar que só tem aí, e também a gente vai chegar aí com um show muito trabalhado, na ponta dos cascos, que a gente já tocou bastante, já rodou o Brasil todo, pelo mundo, é uma banda que tá há muito tempo tocando junta, então tá soando bem natural, bem tranquilo.

O que você conhece da música popular produzida no Maranhão? Destacaria algum nome?
Sinceramente não lembrava de nenhum nome e vim pesquisar com a certeza que conhecia algo daí, mas não sabia que era daí, como por exemplo, João do Vale, Nonato e Seu Conjunto, que são duas referências antigas e de sons únicos. João do Vale tem um disco maravilhoso, O poeta do povo, enfim, um som muito importante para a música popular brasileira. E além disso também os sons novos, da Rita Ribeiro [hoje Benneditto], Zeca Baleiro, Tânia Maria, não tão nova, Tião Carvalho, e toda tradição de reggae que tem aí. Então, eu sei que é um lugar muito prolífico, que respira uma cultura, como eu já disse, única. Eu tenho certeza que tem muita música aí, o tambor de crioula e todas as manifestações, a [Casa] Fanti-Ashanti também, enfim.

Em Arrocha, seu mais recente disco, você regravou Vestido de prata, de Paulinho Boca de Cantor. Em algum sentido, uma espécie de liquidificador fundindo sonoridades aproxima você da trupe, como se seu som fosse uma atualização, possivelmente o que eles estariam fazendo hoje, caso estivessem na ativa enquanto grupo. Em que medida os Novos Baianos são uma referência?
Os Novos Baianos são uma referência, sem dúvida. Eu acho que eles tinham uma coisa, uma proposta mesmo ousada para a época, à frente, tentando ver lá pra frente, tentando chutar regras antigas, tentando inovar, procurando coisas novas, misturas, que falassem a respeito da vida deles. Com certeza eu acho que os Novos Baianos são uma referência, eu escutei muito e tive aquilo muito como influência pra mim.

Você é casado com Anelis Assumpção, filha de Itamar Assumpção e sua herdeira musical. Você já o admirava? Qual a importância e o lugar em que você o coloca? É também uma referência importante?
Com certeza eu já admirava o Itamar, mas estando aqui com a Anelis eu pude admirar cada vez mais, todas as histórias que eu fui ouvindo, e todo o amor que existia em torno dele, e que ele criou na vida dele, e também a história maravilhosa, [corrige-se] quer dizer, maravilhosa, uma história difícil, mas por isso mesmo, talvez, gloriosa, de ter nadado contra o sistema, contra a maré pra conseguir seguir o caminho que ele acreditava e todos os percalços que ele encontrou na frente, mas também toda dignidade que ele teve pra botar isso em frente e fazer música no Brasil.

Você tem uma carreira solo consolidada, mas também é músico de diversos artistas importantes. É difícil conciliar as agendas? O quanto uma coisa atrapalha a outra?
Eu não sinto que atrapalha, muito pelo contrário, eu sinto que me ajuda, por que dá uma desbaratinada, você começa a fazer um trabalho, vai pra outro, isso ajuda também a tirar um pouco uma coisa só da cabeça, a pensar outras coisas, pensar outras formas, e também cada artista que você acompanha você tem uma visão diferente da música. Isso é bom, amplia o repertório, amplia as formas que eu posso me relacionar com ela.

Curumim, com m, é como se chamam as crianças indígenas. Curumin, com n, é seu nome artístico. De onde surge essa assinatura, já que você descende de japoneses e espanhóis?
Curumin foi um apelido de escola, de criança, desde pequeno eu tenho. É um apelido que foi grudando em mim de jeito que meu filho, hoje, se eu falar que meu nome é Luciano [Nakata Albuquerque] ele acha estranho [risos]. Aqui em casa todo mundo me chama de Curumin. Essa coisa do n no final, eu não sei direito em que momento eu resolvi colocar, acho que era também um jeito de diferenciar do curumim indígena, acho que é isso.

Você toca diversos instrumentos e a produção de seus álbuns é, em parte, caseira. A tecnologia favorece os experimentos, colagens. Você mexe muito numa música, seja compondo ou gravando, até decidir que ela está pronta para entrar num disco?
Cara, depende. Cada música tem meio um percurso. Compacto, por exemplo, é uma coisa que saiu assim, surgiu. Até o JapanPopShow eu fazia muito música assim, ah, pintou uma ideia, pluf, eu colocava e pronto, deixava aquela ideia bruta ali. No Arrocha já foi um processo diferente, eu pensava mais, eu fazia o groove, depois ia lapidando, lapidando. E gravando eu mexo, normal, assim, eu tenho uma coisa de ter um cuidado, às vezes eu fico meio cuidando até demais, mas eu sei também de um limite, não é uma coisa exagerada. É até um ponto que eu aguento, que não me enche o saco [risos].

O que você está preparando para o sucessor de Arrocha?
[Pensativo] Olha, o que eu tenho [interrompe-se]. Isso já veio com o Arrocha já um pouco, as experiências de tocar ao vivo com a banda que a gente tem, foi me levando a um conceito da nossa banda, do nosso elo, de como a gente soa, que tipo de música soa bem com a banda que eu tenho agora, que eu já tenho já faz tempo. Mas isso é sempre uma busca, acho que esse disco vai ter essa busca um pouquinho também. Minha banda sou eu e mais dois baixistas, só que um dos baixistas toca guitarra, eu tenho fundado muito esse disco na coisa da linha de baixo, na bateria e baixo. Eu tenho pensado todas as músicas a partir daí. Uma primeira ideia de melodia simples que vem na minha cabeça eu transformo em linha de baixo pra depois criar o resto em cima. É quase como se fosse assim a estrutura da casa, primeiro eu penso na estrutura bem firme, nas vigas, aí depois eu vou construindo o resto.

Músicas como Caixa preta e Mal estar card, de JapanPopShow, traduzem as tenebrosas transações do cenário político brasileiro e são músicas mais atuais do que nunca. Como você avalia o atual momento por que passa o país?
É claro que é um horror, né? Mas tem um lado bom, eu não sei se posso dizer que é bom, mas tem um lado que até então, até esse momento de crise que a gente vive hoje, a gente sempre soube que as coisas horríveis do país existiam. Mas agora todas as máscaras tão caindo e acho que isso, apesar do sentimento horrível que a gente tem, a desesperança, a frustração que a gente tem mesmo em relação a nosso plano de país, eu acho que tem um lado bom, que é – eu ainda tou custando a falar que é um lado bom, mas assim –, tem esse lado de caírem todas as máscaras. Tudo o que é errado está aparecendo, tá vindo à tona. Isso tem sido importante, vai ser um processo que a gente vai ter que passar, dolorido mesmo, e espero que [as coisas mudem] para melhor.

Chorografia do Maranhão: Celson Mendes

[O Imparcial, 22 de fevereiro de 2015]

Aviador e violonista, Celson Mendes é o 48º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVANIO ALMEIDA SANTOS

Celson Afonso de Oliveira Mendes Filho nasceu em Barreirinhas/MA em 25 de janeiro de 1952, pelas mãos de freiras da paróquia local. É o mais velho de oito irmãos. Com menos de dois anos foi levado pelo pai para o Rio de Janeiro, morando depois no Recife e em diversas outras cidades brasileiras – incluindo Cururupu/MA, onde chegou a administrar uma destilaria de álcool.

A vida do violonista é feita de aventuras e acasos. Aviador, ele se tornou músico profissional por acidente – não aéreo; é que mesmo tendo descoberto o talento desde muito cedo, ele não tinha essa pretensão, até participar por acaso de um show de Joãozinho Ribeiro [compositor].

Filho de Celson Afonso de Oliveira Mendes, economista e estatístico, e de Maria Leônia Dias Mendes, Celson Mendes concedeu seu depoimento à Chorografia do Maranhão na nova praça de alimentação do São Luís Shopping, onde se apresentaria àquele sábado no projeto Arte Musical do Maranhão, que teve quatro noites dedicadas a ritmos, instrumentistas, vozes e compositores maranhenses, valorizando e apresentando a diversidade da produção musical do estado.

Ao longo da bem humorada entrevista, ele lembra a participação em grupos como o Bom Tom e o Regional Caixa de Música – quando venceu o Prêmio Universidade FM de melhor músico violonista –, as aventuras da vida de aviador, como guardou uma carteira de cigarros de Baden Powell como souvenir e sua relação com João Donato e Antonio Vieira.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Como era o universo musical na tua casa? Onde você identifica as primeiras influências? Foi meu pai. A gente morava no Filipinho, e ele era o camarada que agregava. Sempre gostou muito de cultura, artes, esportes. Era estatístico, depois se formou em Economia. Logo depois da Estatística ele resolveu fazer Odontologia. No último ano, os estudantes, formandos, iam para um hospital e operavam pessoas carentes gratuitamente. Uma das pessoas que ele estava tratando, ele arrancou um dente, a pessoa teve uma hemorragia, quase morre. Ele gastou uma grana preta para tratar da pessoa e resolveu que nunca mais [risos]. Quando ele foi para o Rio, tinha uns tios, ele se hospedava no apartamento desses tios, e eles tinham acabado de perder um filho. Aí se apaixonaram por mim, pediram para me criar. Ele falou com minha mãe, “pode ser muito bom para ele”, eu me mudei para Copacabana aos um ano e oito meses de vida, isso em 1953, final de 53. Peguei aquela época boa do Rio de Janeiro, em termos, quando dei por mim, lá por 61, 62, com 10 anos de idade, lembro de muita coisa de quando eu tinha cinco, seis anos. Lembro do célebre assassinato da Aída Cury [atentado violento ao pudor, tentativa de estupro e homicídio, o crime aconteceu na noite de 14 de julho de 1958, em Copacabana], lembro da repercussão sobre o atentado da [rua] Tonelero, de Carlos Lacerda [uma tentativa de homicídio contra o jornalista e político ocorrida na madrugada de 5 de agosto de 1954], era pertinho de onde eu morava. Eu morava a um quarteirão de um prédio onde moravam quatro vascaínos [jogadores do Vasco]. Eram eles: Barbosa [Moacir Barbosa, goleiro da seleção brasileira quando da derrota para o Uruguai, na final da Copa do Mundo de 1950, no Maracanã], o goleiro, Bellini [Hilderaldo Luís Bellini, zagueiro, capitão da seleção brasileira campeã mundial em 1958, na Suécia], parecia um artista de cinema, Sabará [Onofre Anacleto de Souza, atuou 12 anos – a maior parte de sua vida profissional – no clube carioca que lhe deu o apelido], eles moravam no mesmo prédio, na esquina de Nossa Senhora de Copacabana com Barão de Ipanema [não chega a dizer o nome do quarto jogador]. Eu vinha passar férias aqui. Meu pai centralizava. Todo domingo de manhã, ele acordava, tinha uma vitrola enorme, até hoje eu tenho discos dele, e ele colocava discos de música erudita durante uma hora, uma hora e meia, tomava café, depois disso começava a tocar Românticos de Cuba, e lá pelas 10, 11 horas, os amigos começavam a chegar com sacolinhas de cerveja, ficavam ouvindo aquele som e isso ficava até umas duas horas da tarde, sentados numa varandinha. Tio Maniquito tocava bem violão, minha vó dizia que o pai dela também tocava. Isso [as reuniões musicais do pai com amigos] desenvolveu, eu tinha duas irmãs de criação que adoravam música. Quando eu fui para Recife, meu sonho era ser aviador. Eu passei para o Colégio Militar do Rio de Janeiro e não me deixaram entrar, por que eu não era filho de militar. Fui pra Recife, passei de novo, nessa época meu pai era superintendente adjunto da Sudene, trabalhava com Celso Furtado [economista paraibano, autor de Formação Econômica do Brasil]. Ele disse: “venha pra cá e faça o exame de novo”. Passei e Celso Furtado foi lá e disse “agora ele entra”. Ao entrar no Colégio Militar, conheci um rapaz, loirinho, tivemos afinidade, ele gostava de basquete, eu também, de música ninguém sabia nada, ele gostava de tocar bateria, e ele disse “eu tenho um tio que é músico, muito famoso”. Eu não sabia de quem se tratava, ele dizia o nome, eu não sabia quem era. Até que um fim de semana ele me convidou para passar na casa dele. O pai dele era médico, coronel da aeronáutica, fui passar o final de semana na frente da praia de Piedade, onde tinha uma vila militar. Quando chega o irmão da mãe dele. Sabe quem era o cara? João Donato [pianista, um dos mentores da bossa nova]! Um dia eu estou passando por uma rua no Centro de Recife e ouço um som de violão que eu nunca tinha escutado. Uma tia compra o disco [Sambas e marchas da nova geração, de 1967] pra mim, Paulinho Nogueira, tocando Roda [faixa de abertura do disco], de Gilberto Gil. Foi meu primeiro elepê. Peguei esse disco, quase furo de tanto ouvir. Uma tia minha, que cantava muito bem, resolve aprender a tocar violão. Eu assistia as aulas, quando acabava, eu pegava o violão, ia lá para o quarto, e comecei a aprender violão assim. Um belo dia fui procurar um professor, ele me botou para tocar, “você leva jeito para a coisa, eu vou te dar umas aulas. Depois conforme seja, a gente vê o valor”. Eu era doido para aprender música, adorava aquele negócio de alguém botar as bolinhas [as partituras] na frente e sair tocando. Eu disse “eu quero aprender isso”. E ele: “primeiro vamos ver se realmente você tem queda”. E um belo dia eu roubei uma partitura dele. Uma semana depois eu voltei tocando aquele negócio. “Quem foi que te ensinou isso?” “Eu aprendi lendo”. Ele nunca me cobrou. Aí veio a perseguição política, meu pai teve que ir embora pro Chile, por conta da ligação dele com Celso Furtado, ele era padrinho de um irmão meu, inclusive. Meu pai foi embora, minha mãe foi para o Rio de Janeiro, com todo mundo, menos eu, por conta do Colégio Militar. Aí fui adotado pela irmã do João Donato, por isso eu a chamo Tia Eneida. Seguimos juntos, passamos para a Escola de Aeronáutica, eu e o Amim [sobrinho de João Donato], passamos para a preparatória, para a academia, depois me botaram para fora. Incompatibilidade de gênios.

O que foi, especificamente? A tia Eneida resolveu, em comum acordo, ela e o coronel Amim, resolveram se separar. Nessa época era a ditadura pesada, 1970. Nós éramos obrigados a nos recolher às 10h da noite, depois disso não podíamos sair, a não ser em toque de emergência. Eu era de uma turma, A, Amim era da turma H, tinha que atravessar, ele foi lá, chorando, e me disse: “nossos pais se separaram”. Botamos uma roupa, pegamos a carteira de cigarros, fomos para o pátio fumar e conversar. Nessa hora me chega um capitão, a gente vivia pendurado, aprontava muito. Eu era atleta, jogava basquete, jogava vôlei e isso me aliviava. Ele não, o negócio era ser músico, vivia tocando a bateria dele. O capitão disse: “cadeia pra vocês!”. Eu chamei o capitão e disse: “vamos fazer um acordo”. Com o número de dias que ele ia dar para nós, ele estava fora. Eu disse: “me dê os 10 dias de cadeia”, eu não sairia ainda, eu tinha uma reserva [risos], mas não faça isso com ele. Ele disse: “vou dobrar a dele e manter teus 10 dias”. Ele tinha uma .45 bem aqui [aponta para a cintura]. O que eu fiz? Dei um murro no nariz dele. No dia seguinte o brigadeiro comandante chamou: “vou fazer um acordo contigo. Fica aí até o fim do ano, pede teu desligamento”, faltavam dois ou três meses, “se não isso vai prejudicar sua vida toda, vai dar expulsão, e vou segurar o Amim, que é filho do brigadeiro e quem deu o murro mesmo foi você”. Numa boa, eu já estava de saco cheio mesmo. Saí da vida militar, seis meses depois o Amim pediu o desligamento dele também, foi chamado para a Transbrasil. Eu já fiz meu curso para aviação civil, era piloto da Votec [companhia aérea brasileira adquirida pela TAM em 1986], voava para a Petrobras, plataforma. Uns seis meses depois dessa história, mais ou menos isso, ele teve um acidente [chora, sem conseguir completar a informação de que o amigo faleceu].

Quem foram teus outros mestres no violão? Um cego em campos, foi professor também de uma cantora muito bonita, a Marina De La Riva. Os De La Riva eram usineiros, amigos de meu pai, meu pai eventualmente trabalhava para eles. Foi o maior tempo de aula com um professor particular. Depois eu estudei também na Escola Villa-Lobos. Estudei um pouco com João Pedro Borges [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 14 de abril de 2013], tive aqui o Pixixita [o músico José Carlos Martins, professor da Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo] como professor de harmonia. Minha vida de aviador não me permitia ter cursos regulares. Eu andava com o violão no avião. Depois proibiram. Eu cheguei a ter nove violões em lugares diferentes, ficavam no hotel. Eu ficava danado da vida quando me mandavam para um lugar onde eu não tinha um [risos].

Quanto tempo você passou nessa vida de aviador? De 1973 a 1980.

E depois? Em 1980 meu pai me fez uma proposta indecente. Eu estava indo pros Estados Unidos com a noiva, ele me apresentou um amigo, que estava precisando de alguém de confiança para recuperar um avião dele. Era urgente. Ele cobria a passagem, hospedagem no melhor hotel de Salvador e mais uma grana que cobria qualquer coisa. Acabei não indo, terminei o noivado. Eu tinha recebido proposta da Vasp na época, estava esperando terminar um curso, se não eu ia primeiro para a Táxi Aéreo Marília, que hoje é a TAM. O cara disse que ia pagar todos os meus cursos, era presidente do Santa Cruz [Futebol Clube], o maior advogado e maior fazendeiro de Pernambuco, usineiro em Alagoas, e tinha um projeto enorme no interior da Bahia. Tinha duas filhas, não tinha filhos. Ele me pagava um salário de piloto de Boeing, eu ficava voando, todo final de semana. O escritório era uma coisa familiar, de noite uísque rolava. Ele ia comprar uns tratores, acabou me contratando também para cuidar da parte técnica, foi esperto, pagava um para fazer o serviço de dois [risos], mas foi bom para mim também, continuei voando. Eu resolvia toda a questão técnica, ganhei um bocado de dinheiro, não tinha onde gastar, não tinha tempo. Depois meu pai resolveu montar uma destilaria de álcool em Cururupu, onde ele tinha, tem, um terreno. Vim pra cá, cheguei aqui 10 de outubro de 1980. Por que eu lembro? Primeira notícia que eu tive aqui foi que tinha afundado um barco chamado Lima Cardoso, com metade do povo de Cururupu, inclusive parentes e amigos meus. Isso fez meu retorno ao Maranhão, lembro bem desse sentimento, tinha passado minha vida toda fora, Minas [Gerais], São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Rio Grande do Norte e Pernambuco.

Nessa época você morava em Cururupu? Sim, eu morava na fazenda, a 10 quilômetros da [sede da] cidade.

Voltando um pouco, você viveu no Rio numa época de bastante efervescência, sobretudo na cena musical. Como isso reverberou em você? Quando eu me entendi por músico meus colegas de turma tinham banda. A música que eles tocavam eram Beatles. Eu achava bonito, interessante, a banda. Mas a música que me tocava era escutar Tom Jobim, Chico Buarque, João Donato, que eu passei a ter acesso aos discos. Eu ia para a casa da tia Eneida, ela tocava muito bem acordeom, cansei de vê-la, João Donato no piano, ela no acordeom, depois eles revezavam. O Amim ficava numa bateria atrapalhando todo mundo [risos]. Eu escutava aqueles temas, ficava encantado. Muitas músicas até se perderam, bolavam na hora, aquelas pegadas jazzísticas. A primeira vez que eu ouvi Samba da bênção [de Vinicius de Moraes e Baden Powell], eu fiquei alucinado. Depois eu me apaixonei por música francesa, era a época de Pierre Barouh [ator, compositor e cantor francês], que também tinha uma ligação com a bossa nova, cinema francês. Nós tivemos recentemente falecido, já com quase 90 anos, foi até um dos percussores da bossa nova, grande compositor, gravou com Rosa Passos [cantora], inclusive: Henri Salvador [cantor, compositor e guitarrista francês]. Ele gravou um disco com uma moça, não lembro se sueca ou norueguesa, chamada Lisa Ekdahl [cantora sueca]. É lindo, lindo, lindo [repete, enfático]! A bossa nova e o jazz, através da influência desse primeiro professor de violão. Minha ligação não era com o jazz, com exceção de Glenn Miller, que eu pai botava e eu ouvia. Meu pai comprou uma usina em Campos, e tinha uma roda de choro. Eu fui lá, eles em volta de uma mesa tocando. Eu me aproximei e fiquei observando. Uma hora eles pararam, conversaram, eu continuei parado. Uma hora sem me dar nem boa tarde. Aí entra no recinto, um galpão, Ivon Curi [cantor, compositor e ator]. Ele chega por trás de mim, botou a mão e disse: “esse camarada aqui toca violão também”. Ele, muito gente boa, simples, dava o show dele, depois sentava do teu lado. Aí os caras me olharam, “é mesmo?”, eu achei de uma indelicadeza, eu era um jovem, eles, todos senhores, eu achei de uma arrogância tão grande, saí e fui jogar sinuca. Mas aquilo me marcou. Foi o contrário do que aconteceu com Paulo [Trabulsi, cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 22 de dezembro de 2013]. Paulo quando foi sacaneado por Zé Hemetério [multi-instrumentista e compositor], botou na cabeça e disse “eu vou mostrar que eu posso”. Eu fiz exatamente o contrário, me desinteressei, me afastei. Eu comecei a observar que havia dois comportamentos distintos: o pessoal mais ligado ao jazz, à bossa, gostava de agregar, o pessoal do choro era “se sabe, sabe, se não sabe, cai fora e nem faz barulho”.

E como se deu a escolha pelo violão? Foi por causa desse disco [Sambas e marchas da nova geração, de Paulinho Nogueira]. Eu completei 15 anos, meu pai tinha um relógio Mido de ouro, eu botava os olhos, achava lindo, todo mundo elogiava aquele relógio. Quando eu fiz 15 anos, eu acordo, ele começou: “vou lhe dar um presente” [imita o pai, sacudindo o relógio]. Aí ele disse: “se eu fosse lhe dar um presente, do que você gostaria?”. Eu respondi: “um violão”. Ele murchou [risos]. Ele parou e pensou: “é um idiota. Em vez de ganhar um relógio, que vale não sei quanto, quer um violão”. Fomos a A Guitarra de Prata [loja de instrumentos musicais na Rua da Carioca, Centro do Rio de Janeiro]. E ele: “traga o melhor violão que você tiver”. Na cabeça dele, um violão não podia custar o preço de um relógio. Aí veio uma caixa, com o violão, eu olhei o violão, aquela boca de madrepérola, tinha um senhor no balcão, afinou o violão, começou a tocar, parecia uma escola de samba, meu pai ficou olhando: “O senhor é um artista!”. Era o Codó [violonista, cantor e compositor baiano]. Tocou uma música chamada Boladinho [de Codó], me deu um disco, eu tenho até hoje. Quando papai perguntou quanto era o violão, levou um susto: “é só um, eu não vou montar uma orquestra” [risos]. Mas fez o cheque, levou, foi meu primeiro violão. E ainda comprou um baita dum estojo, muito caro também. “Não adianta ter um violão desses e ficar jogado” e já queria me matricular no outro dia, aí eu falei: “calma!”. Eu não queria entrar em escola, queria voltar para meu professor no Recife, eu não queria ser músico profissional, nunca tive essa ideia.

Por que você não queria ser músico profissional? Nunca tive essa pretensão. Eu vim para cá, eu tocava com Anna Cláudia [cantora], com Léo [Capiba, cantor e percussionista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 4 de maio de 2014], e Anna Cláudia precisou fazer um disco, pediu para que eu fizesse um projeto. Eu comecei a ser profissional numa circunstância interessante: num show de Joãozinho [Ribeiro], comemorativo de 40 anos dele. O diretor musical dele tinha ido embora e Arlindo Carvalho [percussionista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 18 de agosto de 2013] tinha me visto tocar em algum lugar e disse a ele que eu quebrava o galho dele. Eu passei 48 horas acordado para fazer três dias de show no Teatro Alcione Nazaré. Outro dia eu postei uma foto, estávamos eu, Zé Américo [maestro, arranjador, multi-instrumentista], Rui Mário [sanfoneiro, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 7 de julho de 2013] começando, um dos primeiros shows dele. Eu nunca tinha aceitado cachê na minha vida, mas dessa vez a grana era tão boa, e você se diverte. Hoje eu vivo em torno da música, eu não vivo só de tocar: trabalho com projeto, um estúdio de gravação.

Teu pai nunca ofereceu resistência a você seguir a carreira de músico? Não. Ele era muito do “não quero saber o que você vai fazer. Agora, faça bem”. Eu fui campeão brasileiro de pouso de precisão. Ele tinha uma certa restrição com a coisa da aviação. Ele achava que eu era muito afoito. Quando eu estava na força aérea, sempre tinha uma turma que ia para a esquadrilha da fumaça. Ele tinha pavor de que isso pudesse acontecer, ele sabia que se eu fosse eu ia morrer. Nas décadas de 1950 e 60 morreu muita gente da esquadrilha, hoje bem menos, a técnica é outra, os equipamentos são mais modernos. Mas eu gostava mesmo é de loucura, passar embaixo de ponte, quinze minutos invertido, o motor falha, você voltava, essa era a farra.

O músico que mais te influencia do ponto de vista do estilo é Paulinho Nogueira? Não, eu tenho uma admiração pela limpeza do violão do Paulinho Nogueira. Lógico que ele também tem uma técnica, é uma pessoa que nunca entrou numa escola, aprendeu com um irmão, quem escrevia suas partituras era um rapaz aqui do Ceará, o André Jereissati [violonista]. O que mais me influencia é Baden Powell. Eu cheguei a assistir o mesmo show de Baden Powell 11 vezes. Ainda roubei a carteira de cigarros dele [risos], levei para Cururupu, minha mulher jogou fora – depois de quase 20 anos –, foi uma confusão danada. Eu era apaixonado. Baden fazia de tudo, tem uma coisa que me lembra muito o Yamandu [Costa, violonista sete cordas gaúcho]: ele saía desse plano, saía de órbita quando tocava. Ele tinha a habilidade de violonista, a sensibilidade de compositor, normalmente o grande músico não é um bom compositor. Ele conseguiu fazer coisas simples e belíssimas. Baden tinha um ritmo, era um sujeito miudinho, franzino, fumava desbragadamente, no palco, fumava e bebia. Eram sempre dois bancos, num ficavam a carteira de cigarros e o copo de uísque.

Que grupos musicais você já integrou? Nós tivemos tribos. Por incrível que pareça, minha primeira tribo era exatamente a do choro. Era Paulo Trabulsi, era Solano [Francisco Solano, violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 26 de maio de 2013], Zeca [do Cavaco, cantor e cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 21 de julho de 2013], Serrinha [Serra de Almeida, flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 3 de março de 2013], era o [Regional] Tira-Teima, basicamente. Na época tinha o Teles, já falecido, tocávamos no fundo do quintal da casa de Paulo. Foi onde eu conheci Carlinhos Veloz [cantor e compositor], Léo Capiba também fazia parte, Anna Cláudia, que na época era casada com Paulo. Como grupo de formação profissional, o primeiro grupo foi o Ensaio Três. Foi uma história muito engraçada: trabalhávamos eu, Léo e o Mariano Aguado, que era assessor chefe da presidência do Instituto de Planejamento. Nós éramos muito ligados, Mariano gostava de tocar timba, Léo de tocar pandeiro e cantar, e eu, violão. Uma sexta-feira, deu duas da tarde, o presidente nos dispensou, era véspera de um feriado, alguma coisa. A gente acostumado a trabalhar até seis, passei em casa, peguei o violão, passamos na casa de Léo, pegou o pandeiro, compramos uma timba para Mariano, no caminho, ainda não tinha essa estrutura da [avenida] Litorânea hoje, compramos uma garrafa de uísque, gelo, isopor. Chegamos lá, Léo começou a desfiar o repertório dele. Lá pela trigésima música, eu pensei: “já dá um show”. E disse: “se tu aguentar, a gente podia fazer uma história”. E ele disse: “eu tenho música é pra fazer 10 shows”. Resultado: saímos da praia quase 11 da noite, já com quase 100 músicas tonalizadas. Voltamos sábado de manhã, outro litro de uísque. No outro sábado, de novo. Foram três ensaios. Depois do terceiro já arrumamos um contrato, fomos tocar no Pelicano, já tínhamos umas 300 músicas. Durou um tempo, depois do Ensaio Três, agregamos Paulo Lima, grande baixista, violonista, grande músico, depois o filho dele, Athos, guitarrista, grande músico também. Durante um bom tempo o Pelicano era o ponto de encontro, todo mundo que vinha de fazer show, o ponto de encontro era lá. Já montei muitos quartetos, quintetos, veio o Bom Tom. O Bom Tom é o seguinte: nós montamos o Estúdio Bom Tom, e um dia o Marcelo Bianchini, eu nem sabia que ele cantava, ele deu uma canja no Dom Calamar, eu fiquei encantado com a voz dele, e disse que ia montar um grupo só para acompanhá-lo, acabamos montando o Bom Tom, era um quarteto, depois virou quinteto, já chegou até a hepteto. A ideia era um grupo para acompanhar intérpretes, eventualmente tocamos música instrumental, não somos solistas natos.

E tua participação no Regional Caixa de Música [grupo que acompanhou Joãozinho Ribeiro no Circuito Samba da Minha Terra, entre 2002 e 2003], quando você ganhou o prêmio Universidade FM de melhor violonista? Eu reconheço que aquele prêmio foi mais pelo conjunto da obra, o grande mérito é de Joãozinho Ribeiro, um projeto complicado, de meio de rua, feito com sacrifício, mas aquilo foi fantástico. Para mim, pessoalmente, me deu conhecimento de pessoas da cidade, mais uma vez comprovei que qualquer lugar que você chegue com boa música, do Olho d’Água ao Anjo da Guarda, a boa música será apreciada. Uma história que eu sempre me emociono quando lembro: eu estava tocando num lugar, chegou um senhor, pediu uma garrafa de vinho. Sentou na nossa frente, ele estava pra baixo, arriado. A gente tocando, eu bem de frente pra ele. Eu comecei a prestar atenção que a cada música que a gente tocava ele levantava um pouquinho. Secou a primeira garrafa de vinho, pediu outra, não tomava depressa. Perto de a gente acabar, ele não bebia mais, a feição era outra. Acabamos de tocar, comecei a arrumar meu violão, ele: “posso falar com o senhor? Me acompanha numa taça de vinho?”, chamou o garçom, pediu um prato de frios e outra taça. Ele passou uns 30 segundos olhando para minha cara, o garçom veio, me serviu, e ele disse: “em primeiro lugar eu quero agradecer. Não só o senhor, todo o grupo, mas eu estava prestando muita atenção no senhor. Eu cheguei aqui com um firme propósito, era minha última garrafa de vinho”. Eu disse: “que bom, parar de beber”. Ele frisou: “não, minha última garrafa de vinho. Mas não será mais minha última garrafa de vinho, tanto que eu já pedi outra”. Ele sério, eu gelei: tinha ido ali beber, sair dali e jogar o carro contra um poste, me disse que tinha tido uma decepção muito grande, não entrou em detalhes. Depois ele me disse: “olha, se existe alguma coisa nobre, é o que vocês fazem. Foi Deus que me trouxe aqui. Se eu tivesse ido pra outro lugar… mas vocês tocaram meu coração”.

E discos gravados, participação em discos? Não tenho muitos, não sou um músico de estúdio. Gosto mais de palco. A última agora foi com Vieira [O Natal Azul de Antonio Vieira, com vários intérpretes, lançado em dezembro de 2014], o Memória [Música do Maranhão, de 1997] eu pensei, coordenei o projeto, mas não toquei. Registramos vários compositores da velha guarda. Há ali uns registros muito interessantes. O Canta Cidade, um dia Dr. Jackson [Lago, ex-prefeito de São Luís, ex-governador do Maranhão] chegou muito irritado na Prefeitura, ele tinha ido a um evento, pediu para tocar o Hino da Cidade [Louvação a São Luís, de Bandeira Tribuzzi] e ninguém sabia, aí ele mandou fazer um disco.

Você também teve um papel importante na realização do Festival Internacional de Música de São Luís, infelizmente até aqui, de única edição. Para mim foi a coisa mais importante, musicalmente, que eu já fiz na vida.

Para você, o que é o choro e qual a importância dessa música para a música brasileira? Não concordo que seja a única música brasileira, mas a importância é inegável. Se você olhar hoje, no Brasil, os melhores músicos que nós temos passam pelo choro. Ou pelo menos pelo erudito. E mesmo no erudito, não tem jeito, passa ao menos por Ernesto Nazareth [pianista e compositor]. O choro tem um pé no erudito, um pé no popular, e hoje, com essa turma nova, já pisa em outros terrenos.

Você se considera um chorão? Não, eu não tenho essa pretensão. Se eu dissesse que sim seria muito pretensioso. Não posso de jeito nenhum dizer que sou um chorão. Na realidade, não posso dizer que eu sou um chorão, que eu sou um jazzista. Na verdade, se prestar bastante atenção no que eu faço, talvez seja possível dizer que eu sou um sambista. É, a coisa que eu mais gosto de tocar é samba. Na verdade, como dizia Maestro Nonato: “esse pessoal fica pedindo pra tocar choro. É samba!” [risos].

Para finalizar, gostaria que você falasse um pouco de sua relação com seu Antonio Vieira. Por duas vezes eu fiz essa observação: Vieira foi meu segundo pai. Ele foi um cara que me mostrou muita coisa do mundo. Era um sujeito aparentemente simples, mas era de uma sapiência. Nós viajamos muito, convivemos muito, 24 horas, ficávamos no mesmo apartamento, andávamos, ensaiávamos, tocávamos, três, quatro dias, eu não me cansava nunca dele [emocionado]. Fizemos muitos shows juntos, viajamos o Brasil inteiro. Hoje eu conheço muita gente fora por causa de Vieira, por ter ido acompanhando, ele me deu essa visibilidade, me botou em outro patamar. Eu tenho aproximadamente 50 MDs [minidiscs] de Vieira, isso vai dar mais de 80 horas de Vieira cantando, falando, conversando. Às vezes a gente sentava, ele falava: “tu já vai ligar tua besteira?”. Era uma figura!

Bem-vind@s ao século XXY!

Começa hoje no Cine Praia Grande a II Mostra de Cinema Trans; veja programação completa e leia entrevista exclusiva com a ativista transfeminista Hailey Kaas

XXY. Capa. Reprodução

 

A literatura e o cinema argentinos não poupam suas personagens. Tudo é cru, quase cruel – mas antes de tudo, verdadeiro. Em XXY [2007, Argentina/França/Espanha, drama, 90 min., direção: Lucia Puenzo], Alex enfrenta o drama de ter nascido com características de ambos os sexos e a consequente – pois naturalizada, infelizmente – vontade de parte da sociedade e de sua própria família mudá-la/o – e grafo ambos os gêneros para falar da escolha que ela/e (não necessariamente) terá que fazer, sem querer soar spoiler.

O cinema argentino não poupa sequer a própria Argentina: os pais de Alex (Inês Efron), de 15 anos, mudam-se para o Uruguai tentando fugir da arrogância de gente que acha que sabe de tudo – como dizem as personagens –, para os quais a/o menina/o seria uma aberração que deve ser corrigida a qualquer custo. Caso do cirurgião Ramiro (Germán Palacios), durante cuja visita à família se desenrola este comovente drama.

Durante a visita, Alex e Alvaro (Martín Piroyansky), 16, este, filho do cirurgião, sentem-se ambiguamente atraídos. São momentos de descobertas e revelações cruas e, talvez por isso mesmo, poéticas. O pai de Alex, o biólogo Kraken, interpretado por Ricardo Darin, merecidamente um dos melhores e mais conhecidos atores argentinos em todos os tempos, até então desconhecia as reais intenções de seus visitantes, chegados a convite de sua esposa (Suli, interpretada por Valeria Bertuccelli), o que tornará mais forte a ligação entre pai e filha/o, na altura em que a vida lhes dá novas lentes para enxergar o que é “normal”.

O filme é baseado em um conto de Sergio Bizzio, que assina o roteiro com a diretora, filha de Luis Puenzo, cujo A história oficial, de 1985, foi o primeiro filme latino-americano a ganhar o Oscar de melhor filme estrangeiro – curiosamente, o segundo (e são os únicos até aqui) seria o também argentino O segredo de seus olhos (2010), de Juan José Campanella.

XXY integra a programação da II Mostra de Cinema Trans, organizada pelo Fórum de Mulheres Maranhenses, que será aberta hoje (22), às 19h, no Cine Praia Grande (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande). Os ingressos, a preços promocionais, custam R$ 5,00, à venda no local, e a atividade integra o mês da Campanha Internacional pela Despatologização das Pessoas Trans. A programação acontece até sábado (24, veja completa ao final do post).

O blogue conversou com exclusividade com a ativista transfeminista Hailey Kaas. Após a sessão inaugural da mostra, ela participa de debate com a ativista trans Andressa Sheron. Além da exibição do filme Teste da vida real, a noite contará ainda com performance de Andrezza Maranhão.

Hailey Kaas, que também é tradutora, está em São Luís desde a tarde de ontem (22), quando participou de reunião do Fórum Maranhense de Mulheres. Indaguei-lhe o porquê de ela sempre grafar um asterisco após usar a palavra trans e tive este link recomendado. Leia a conversa.

A ativista trans Hailey Kaas, em foto de seu perfil no facebook
A ativista trans Hailey Kaas, em foto de seu perfil no facebook

 

ENTREVISTA: HAYLEY KAAS

O que é transfeminismo?
Resumidamente, transfeminismo é uma corrente feminista orientada para as questões das pessoas trans*. Ele nasce da necessidade das pessoas trans* para se organizar em torno de pautas feministas, assim como para demandar inclusão e participação e no feminismo mainstream que historicamente só representou e representa um único tipo de mulher considerado universal, a mulher branca, heterossexual, magro, de classe média, cisgênera. Percebemos que havia necessidade de nos organizarmos em uma corrente separada que desse conta de discutir nossas questões específicas ao mesmo tempo que seríamos aliadas das pautas hegemônicas do feminismo, que, inclusive, ressoam muito com as nossas próprias, como direito ao próprio corpo, igualdade de gênero, combate ao machismo e ao binarismo de gênero etc.

O conceito é recente e você uma das primeiras teóricas do assunto. Isso torna tudo mais difícil?
É difícil na medida em que você se vê sozinha lutando contra uma grande resistência dentro e fora da academia e dos espaços militantes que acreditam que o transfeminismo é desnecessário ou separatista. Além disso, é sempre mais difícil falar de algo que ninguém nunca ouviu falar e que consequentemente não consegue perceber ou entender como necessário.

O que é mais difícil: lutar contra o machismo generalizado ou contra a transfobia partindo de feministas?
Eu poderia dizer que é igualmente difícil lutar contra o machismo dentro da esquerda, por exemplo. Temos uma tendência a pensar os movimentos sociais e a esquerda como isentas de homofobia, bifobia, lesbofobia, transfobia, machismo, racismo etc., quando na realidade, como parte da sociedade, também somos influenciados ideologicamente para todos esses comportamentos e pensamentos preconceituosos. Parte da esquerda se acha eticamente infalível e impassível de reproduzir preconceitos. O mesmo vale para certos setores do feminismo que são não somente transfóbicos, mas também racistas, homofóbicos, bifóbicos, lesbofóbicos etc. O problema está em não discutirmos isso achando que o “inimigo” está só “lá fora”, na bancada evangélica, por exemplo. Na realidade, quando discutimos e problematizamos esse tipo de coisa na esquerda só temos a ganhar e a aperfeiçoar a forma como militamos e como compreendemos os outros. Por outro lado, estar em espaços teoricamente seguros e da militância onde eu sei que serei hostilizada simplesmente por ser trans* por algumas feministas é de fato bastante desempoderador.

Em que medida o “cross-dressing” da cartunista Laerte contribui com a luta trans no Brasil? O que você acha da postura dela?
Acho que Laerte não pode ser regra e nem exemplo, afinal ela parte de uma posição que de longe não é o padrão da população trans*: branca e classe média. Por outro lado, sempre ganhamos quando temos representações de pessoas trans* que são mais críticas em relação às questões de gênero na mídia. Laerte tem mais bagagem feminista e de gênero porque também tem fortalecimento e estrutura econômica para tal. Isso não é errado ou uma crítica, apenas uma constatação de que a situação corrente das pessoas trans* é bem diferente da de Laerte.

O escritor João Paulo Cuenca em artigo na Folha de S. Paulo defende o “outing” de usuários de drogas e compara: “Ativistas costumam justificar a evasão da privacidade alheia por combater a hipocrisia num mundo onde gays são alvo de preconceito e violência”. Na sua opinião, pessoas famosas, sobretudo artistas e políticos, declarando publicamente sua orientação sexual ajudaria a combater o preconceito? Você concorda com o escritor neste aspecto?
Acho representatividade importante. Para as minorias marginalizadas é muito fortalecedor ver que existem pessoas como você lá fora, ganhando a vida sem estar nos empregos precarizados que a sociedade nos reserva. Por outro lado, representatividade não deve e nem pode ser o objetivo da militância, afinal temos uma presidenta e pouco se avançou nas questões feministas nesses últimos anos; ao contrário, há enormes retrocessos com a anuência do governo, inclusive.

A Lei Maria da Penha é um avanço na proteção à mulher, mas muitas vezes, mulheres sequer conseguem registrar queixas em delegacias, por conta do péssimo atendimento e da revitimização – em casos de estupro, por exemplo, é comum, infelizmente, a culpabilização da vítima. Em que medida essa legislação específica é importante no combate à transfobia e ao feminicídio?
As legislações são importantes, a meu ver, mais ou menos como a questão da representatividade: são importantes como marcos, como elemento de fortalecimento, de reconhecimento, mas são inócuas sem uma estrutura por trás e sem trabalho de base nas escolas e nos espaços de formação dos sujeitos. O machismo não é uma doença que acomete o sujeito, mas sim um projeto social ensinado às pessoas em todos os espaços de convivência e de formação.

Qual a sua opinião sobre a recente fusão dos ministérios de Direitos Humanos, Igualdade Racial e Mulheres em uma única pasta no âmbito do governo federal?
Sem dúvida alguma um retrocesso, fruto de um governo traidor de classe que governa com o capital. Os bancos continuam lucrando com recordes trimestrais e, no entanto, as medidas que atacam os trabalhadores e a austeridade vieram com força no primeiro ano do governo que havia prometido exatamente o contrário. Acredito que isso só vem provar que, de fato, não se pode ter um governo conciliador de classes porque no fim somente a classe dominante rica é privilegiada. Sou socialista e bastante crítica ao atual governo Dilma e aos movimentos que a defendem. Não podemos continuar a defender uma militância LGBT, feminista, antirracista ou o que quer que seja, senão por uma perspectiva socialista, uma vez que, dentro do capitalismo, estaramos sempre sujeitos a sermos “rifados” em prol do “bem maior”: o capital e seus mantenedores.

Outubro é o mês da Campanha Internacional pela Despatologização das Pessoas Trans. Em que consiste a campanha? Poderia falar um pouco sobre ela?
A campanha existe faz alguns anos e veio para divulgar o assunto e combater a patologização das identidades trans* materializada principalmente pela revisão do DSM que estava prevista para 2012. O DSM é um documento da Associação de Psiquiatria Americana (APA), que classifica e patologiza os comportamentos, incluindo a transexualidade. Esse documento tem uma força regulatória quase sempre soberana sobre as políticas de atendimento à saúde de pessoas trans*.

Você participa da Mostra de Cinema Trans em São Luís. Após a sessão de abertura, com a exibição de Teste da Vida Real, você debate o filme. Poderia falar um pouco sobre ele?
O filme é muito importante para ilustrar o impacto da patologização sobre nossas vidas. Ele traz uma abordagem bastante empírica de como os estereótipos trans* e o estigma que recaem sobre nós atrapalham nossas vidas, nos desumanizam e previnem nosso acesso aos espaços e principalmente ao sistema de saúde. Também mostra como os profissionais psi desconhecem completamente a questão da transexualidade e se guiam por estereótipos pré-estabelecidos sobre o que é ser homem ou mulher socialmente.

Programação

Hoje (22)
19h: Exibição do documentário Teste da vida real, de Florencia P. Marano | Performance de Andrezza Maranhão | Debate com Hailey Kaas (ativista e teórica transfeminista) e Andressa Sheron (ativista trans)

Sexta (23)

9h: Minha vida em cor de rosa (exibição para alunos de escolas públicas), de Alain Berliner
14h: Minha vida em cor de rosa

18h30: XXY, de Lucia Puenzo

20h: Hedwig – rock, amor e traição, de John Cameron Mitchell

Sábado (24)

18h30: Meninos não choram, de Kimberly Peirce

20h: Para Wong Foo, obrigada por tudo! Julie Newmar, de Beeban Kidron