Prazeres e Parangolé

Uma das primeiras aquisições que fiz em sebos este ano foi o pequeno volume de contos Zicartola e que tudo mais vá pro inferno!, do mestre João Antonio. Na Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH) estávamos às voltas com as discussões sobre o Baile do Parangolé, evento que este ano chega à sua quinta edição, celebrando os 35 anos de atuação da entidade.

Tudo era urgente, para ontem, quando finalmente decidimos botar o bloco na rua, isto é, realizar mais uma edição do evento. O que o livro tem a ver com isso? Bom, não havia tempo nem dinheiro para contratarmos um artista ou agência de publicidade para a campanha de divulgação do Parangolé. Assim, ao ver a capa e as primeiras páginas de Zicartola, tive o estalo: é isso!

Salvei algumas reproduções de pinturas do sambista (tudo a ver com carnaval) Heitor dos Prazeres e revelei fotos delas e de casarões e janelas do centro histórico da capital maranhense. Com tudo em mãos, tesoura, durex, um scanner e meus conhecimentos quase nulos de corel draw me permitiram chegar ao que chamei de “arte” para a divulgação do Parangolé, partilhando-a com a coordenação da SMDH e aguardando comentários, sugestões e críticas.

A arte foi aprovada, recebi alguns elogios, que são de todos nós, e o 5º. Baile do Parangolé acontece daqui a pouco, às 19h, no Bar do Porto, na Praia Grande. Honra enorme em fazer parte dessa família e dessa história, só posso celebrar com os amigos e as amigas que se fizerem presentes, desejando vida longa à SMDH, que sua atuação por aqui, sobretudo no presente contexto, parece que ainda se fará necessária por bastante tempo.

Para sempre o bom e velho vinil

Você já comprou um disco ou um livro pela capa? Certamente já, julgando os poucos mas fiéis leitores pelo blogueiro, como cabe ao bom julgador, como reza o dito popular.

E uma festa? Você já comprou uma festa pela capa?

Não precisava se tratar do encontro de dois talentosos DJs, não precisava se tratar da primeira vez de um deles na do retorno de um deles à Ilha, não precisava o repertório ser diversificado, tocado apenas de vinis, não precisava um monte de coisa, mas está tudo lá.

Os DJs Franklin e Marcelinho da Lua se encontram na festa Ya´Ya High-Fi, organizada pelo segundo, que já recebeu mais de 50 dê-jotas de todo o mundo, em um culto ao bom e velho bolachão.

Mas não carecia nada disso, ao menos não antes. Na hora h, sim, tudo o que a festa não deixará faltar: boa música, descontração, animação. Antes, carecia apenas esta imagem abaixo, pra deixá-los convidados ao baile, que promete.

Sabe aquele livro ou disco que você compra pela capa e acerta, pois o conteúdo é bom?

Filipeta-maranhao

Amor e dor é rima óbvia. Essa festa, não

Os cotovelos gastos no balcão do bar, o ombro do garçom amigo encharcado do nosso pranto. A agulha risca o vinil como a navalha, afastai as navalhas!, quer riscar os próprios pulsos. A carta de amor só vale se escrita com sangue. E o amor, você sabe o que é ter um amor, meu senhor? E viva Lupicínio Rodrigues, que ano que vem completaria 100 anos, mestre maior na arte de musicar a dor de cotovelo.

Sarau de Bailados do Laborarte acontecerá sexta-feira (12)

Espécie de extensão do período junino em São Luís, o Sarau de Bailados promovido pelo Laborarte já é tradição. Desde 2011 realizado em maio, o baile popular acontecerá em 2013 como um lava-pratos do São João. A festa é capitaneada pela cantora Rosa Reis, pesquisadora dos ritmos de nossa cultura popular, e este ano tem, além de seu show, uma apresentação do cantor maranhense Tião Carvalho, radicado em São Paulo.

O repertório passeará por bumba meu boi, coco, carimbó, cacuriá, ciranda, maracatu, tambor de crioula e muito mais. A festa acontece nesta sexta-feira (12), às 21h, na sede do Laborarte (Rua Jansen Müller, 42, Centro). Os ingressos já estão à venda no local.

“O público vai ter um repertório dançante, o que torna o espetáculo participativo. A ideia é que todos entrem na roda pra dançar com gente, conhecendo e experimentando as peculiaridades dos ritmos maranhenses. No final, é o público quem constrói o espetáculo conosco”, promete Rosa Reis.

Cliques de craques

Documentos da Cultura: a Festa, a Dança, a Fé é o título da exposição de Carolina Libério, Jane Maciel e Ramúsyo Brasil, fotógrafos que integram o Núcleo de Pesquisa e Produção de Imagem (NUPPI), associado ao Instituto Federal do Maranhão (IFMA), cujo vernissage acontece nesta quinta-feira (11), às 18h30min, na Galeria de Artes do SESC Deodoro (Av. Gomes de Castro, 132, Centro). As 21 imagens que compõem a exposição foram realizadas entre 2009 e ano passado.

“Quem sabe o segredo de São Cosme é São Damião” (Baden Powell)

Os cliques do trio valorizam a importância do corpo e do movimento e não garantem distanciamento do objeto estudadobservado: câmeras em punho, olho mirando através das lentes, são também, ele & elas, partes integrantes da festa, da dança, da fé, da paisagem.

“Dança a nossa tribo/ dança o povo inteiro” (Lenine): o Bambaê de Caixa em Penalva

Movimento, vibração e pulsação são palavras fundamentais para compreender a opção estética da tríade: determinada imagem não está borrada ou tremida, mas quer eternizar em si, instantes além do clique em si (ou qualquer outra nota musical): um exercício de (quase) cinema (mudo). Engajamento é outra palavra que vale destacar: o do corpo que anda, dança, reza, corre atrás dos bombons de Cosme e Damião, e goza o divino & o mundano, o dos três fotógrafos com a cultura popular do Maranhão e com a fotografia, o do seu corpo ao ver os registros: impossível não se sentir lá (na festa, na dança, na fé clicada): engajamento é compromisso e você já tem, nesta quinta, um de primeira.

“Andar com fé eu vou” (Gilberto Gil): São Raimundo dos Mulundus

Estão registrados em Documentos da Cultura (amostras grátis as três imagens que ilustram este post) clubes de reggae, a festa de São Cosme e São Damião, a malhação de Judas, a dança do cacuriá, através de sua eterna rainha Dona Teté, a festa do Bambaê de Caixa (da comunidade do Pouso, em Penalva/MA) e a procissão e São Raimundo dos Mulundus (Vargem Grande/MA).

Amanhã tem Baile Perfumado

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Uma das atrações é a querida Eloína Reis, esposa do brother DJ Franklin. Boa pedida, promessa de bailindo.

Dois bailes de aperitivo aos poucos mas fieis leitores: o Baile Catingoso do Mestre Ambrósio, pra entrar no clima junino que a festa certamente terá, impossível fugir:

E o Baile Perfumado de Fred Zeroquatro na voz de Stela Campos, que batiza a festa, homônima ao filme de Paulo Caldas e Lírio Ferreira sobre Benjamim Abraão, o homem que clicou Lampião.

Ambos os bailes aqui exibidos são da trilha sonora deste clássico do cinema nacional. No youtube tem versão completa. Deixo um trailer:

Quem disse que carnaval não tem nada a ver com direitos humanos?

IV Baile do Parangolé festeja 34 anos da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH). A festa, gratuita, acontece sábado (9), no Porto da Gabi (Aterro do Bacanga)

Fundada em 12 de fevereiro de 1979, em meio às lutas contra a ditadura militar então vigente no país e pela anistia, a Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH) completa 34 anos na próxima terça-feira de carnaval.

Uma coincidência que não se encerra no calendário. O carnaval é, por excelência, a festa da fantasia. Temporada de puro êxtase em que as pessoas se desligam do mundo real, se esquecem dos problemas cotidianos e caem na folia, “pra tudo se acabar na quarta-feira”, como determinaria o poeta.

Esta fantasia já foi cantada em verso e prosa e poupo os poucos mas fieis leitores de outros exemplos. A luta por direitos humanos é constante e não conhece folga ou férias. Carnaval é cultura e cultura é direito humano fundamental, devendo assim ser entendido e garantido, sem restringir-se apenas à festa e sem dissociar-se de outros direitos.

Batizado pelo coco de Cesar Teixeira, sócio da SMDH e seu ex-assessor de comunicação, o Baile do Parangolé, hoje já cravado nos calendários cultural e carnavalesco de nossa ilha capital, tem sido um espaço/momento de celebração e reencontros entre militantes de direitos humanos, amigos e familiares. Embora nunca tenha se fechado, este ano abre-se ainda mais, já que não haverá venda de camisas e/ou cobrança de ingressos, graças ao apoio da Fundação Municipal de Cultura (Func) e do Porto da Gabi.

O autor do Parangolé é homenageado no traço de Djalma Lúcio, que, especialmente para a ocasião, desenhou o jornalista e compositor, autor de vasto repertório carnavalesco – sambas, frevos, marchas e outros gêneros do período, algumas de suas músicas certamente comparecendo ao vesperal.

O baile terá como atrações Chico Nô e a Turma do Vandico e certamente contará com canjas de artistas militantes que se revezarão entre plateia e palco. A escolha do band leader não se dá ao acaso: é também uma forma de reconhecer seu compromisso com as lutas dos movimentos sociais maranhenses.

Isso tudo é só pra convidar vocês pra festa!

A menina que conquistou o coração dos mestres do choro

[Release para Festejos, estreia em disco de Alexandra Nicolas]

Festejar é o destino de Alexandra Nicolas e de seus ouvintes

Maranhense estreia em disco com repertório de Paulo César Pinheiro

Festejos sai pela Acari, maior gravadora especializada em choro do Brasil

Márcio Vasconcelos

TEXTO: ZEMA RIBEIRO

“Eu cheguei sem ninguém saber que eu vinha”. Desde antes de nascer Alexandra Nicolas já era uma surpresa. Filha de mãe solteira, foi cúmplice da genitora, que escondeu a gravidez enquanto pode. O pai, músico e boêmio, ela só viria a conhecer aos cinco anos de idade. Foi criada por três mulheres – a mãe, a tia e a avó.

Sua mãe gostava de cantar e foi em uma tertúlia que seus pais se conheceram. Desde cedo a menina pegou gosto pela coisa. “Eu cantava desde criancinha. E eu não podia sair das rodas, que eles me chamavam: “agora é a vez da menina!”. E eu me lembro, muito nova, de cantar músicas de Nelson Gonçalves, Silvio Cesar, Elizete Cardoso, Clara Nunes, Rita Lee, Novos Baianos, Genival Lacerda, Elba Ramalho”, cita entre gostos passageiros e referências que permanecem até hoje.

Acreditando nos sonhos, a adolescente Alexandra chegou a largar o curso de Pedagogia e foi ao Rio de Janeiro estudar canto, dança e teatro. Sua mãe hospedou-a num pensionato, à época inviabilizando a carreira: “Todos os lugares em que eu podia cantar eram à noite e eu tinha que voltar para casa antes da meia noite”, lembra a cinderela de então.

Do pensionato para a música? Nem pensar! Alexandra só pode mudar-se para um apartamento quando passou no vestibular para Fonoaudiologia, profissão em que se formou e exerceu por pouco mais de 10 anos – a música sempre em paralelo, nunca de menor importância, a vida entre o consultório e os palcos. Após coordenar o curso de fonoaudiologia em uma faculdade particular em São Luís, ela deixou a profissão. Da música, afastou-se apenas para dedicar-se às primeiras infâncias de seu casal de filhos, hoje com sete e seis anos. Uma parada apenas temporária, embora ela não viva, ainda hoje, exclusivamente de música.

“Tudo o que fiz até hoje foi por necessidade, por amor, por que eu não consigo fazer nada que eu não pense em fazer bem feito”, diz, talvez explicando a demora em gravar o primeiro disco, Festejos. Mas nada na vida de Alexandra acontece por acaso. “Eu já gostava muito do Paulo César Pinheiro, principalmente suas parcerias com Mauro Duarte, Sivuca, João Nogueira. Vinha de alguns shows por aqui e estava com a ideia de fazer um em homenagem a Clara Nunes. Numa viagem ao Rio, meu amigo Celson Mendes mandou um e-mail para Luciana Rabello. Segundo ele, ela poderia me dar algumas dicas. De início não acreditei muito que ela fosse responder. Ela respondeu e me convidou para ver e ouvir o bandão da Escola Portátil. Algo incrível! Todos os alunos da Escola Portátil, 40 pandeiros, 15 cavaquinhos, 10 flautas etc., juntas, sob uma árvore, tocando ao mesmo tempo com [o baterista] Bolão de maestro”. Terminada a apresentação, Luciana levou-a para tomar um chopp na Visconde de Caravelas, em Botafogo. Era a rua em que ela tinha morado, e Amélia Rabello, irmã de Luciana, morava no mesmo apartamento que Alexandra ocupou em seus dias e noites cariocas. Sem saber, a anfitriã acabou escolhendo ainda a mesma mesa em que a maranhense costumava sentar vindo da faculdade.

Nada na vida de Alexandra acontece por acaso. “Então você quer homenagear a Clara Nunes? Mas você gosta da cantora ou do compositor?”, indagou Luciana Rabello ao notar que nove das 16 músicas do roteiro eram de Paulo César Pinheiro. “Eu tenho certeza que Clara Nunes ia adorar este show se você pudesse transcender isso. Você precisa se mostrar como artista, sair de detrás dela. Eu recebo 80 e-mails por dia de gente querendo homenagear Clara”, aconselhou-a. “Paulinho [forma carinhosa como se referem ao compositor maiúsculo] tem mais de 2.000 canções. Se quiser eu te dou tudo inédito”, ofereceu.

Luciana Rabello acabou por descobrir a voz autoral de Alexandra Nicolas, mesmo esta não sendo compositora, e assumiu a função de diretora musical de Festejos. Mais que isso, se tornou amiga íntima, uma irmã querida e escolhida. “Ela foi uma bênção de Deus na minha vida”, diz a maranhense.

Tudo começou em Senhora das Candeias, show que ela apresentou duas vezes no Teatro Arthur Azevedo, em São Luís, e que batiza o projeto patrocinado pela Eletrobrás, através da Lei Rouanet de Incentivo à Cultura do Ministério da Cultura, que permitiu a feitura de Festejos, que sai pela Acari Records, a maior gravadora de choro no Brasil. Inicialmente ela recebeu uma fita com 20 composições de Paulo César Pinheiro: era o repertório do espetáculo. Para o disco, a amostra aumentou para quase 60 músicas, das quais 13 foram escolhidas, entre inéditas – a maioria – e regravações.

“Eu quero essas mulheres da festa!”, escolheu. “Todas as que Paulinho canta, elas são fascinantes, lindas e sensuais. É um amor puro! Elas possuem uma beleza que ninguém consegue ver. Quase ninguém consegue ver a beleza de uma lavadeira. Aí eu vi a verdade. Não era fantasia. Era palpável”. Alexandra começava a eleger o repertório de seu disco. Entre idas e vindas foram quase dois anos só na seleção do repertório, mergulhada de cabeça, corpo e alma.

“Paulo César Pinheiro é a pessoa mais leve que eu já vi na vida. Não sei de onde tira tanta simplicidade. Nem parece que existe, me deu o maior presente. Ele me deu a bênção e disse: “se você tiver que gravar um disco, quero que você grave aqui [no Rio de Janeiro]. Foi a partir daí que eu descobri verdadeiramente meu caminho”.

A partir de então, muitas idas e vindas na ponte aérea São Luís – Rio de Janeiro. Com ela festejam Adelson Viana (sanfona), Celsinho Silva (percussão), Dirceu Leite (flauta, picolo), Durval Pereira (percussão), João Lyra (arranjos, violão, viola), Julião Pinheiro (violão sete cordas), Luciana Rabello (cavaquinho e produção musical), Magno Júlio (percussão), Marcus Tadeu (percussão), Maurício Carrilho (arranjos, violão sete cordas), Paulino Dias (percussão), Pedro Amorim (bandolim) e Zé Leal (percussão).

Ao final de um processo de aprendizado, amadurecimento, risos, lágrimas e muita emoção, o próprio Paulo César Pinheiro definiu a ordem das músicas no disco e, acima de qualquer suspeita, escreveu sua apresentação: “acho que a maranhense conseguiu um belo disco. Abram alas pra ela que a festa começou”, para ficarmos com apenas um trecho.

Embalada pelo capricho do design de Raquel Noronha, a bolachinha é ilustrada por fotos de Márcio Vasconcelos, que captam Alexandra Nicolas, risonha e faceira, no sobrado em que nasceu o dramaturgo maranhense Arthur Azevedo, em 1855, uma segunda coincidência literária – a primeira é que Paulo César Pinheiro, apesar de nunca ter estado em São Luís do Maranhão, conhece-a bem a partir da obra de Josué Montello, e escreveu uma música que leva o nome da capital maranhense, faixa que fecha o disco.

Alexandra Nicolas sonha: “Eu quero fazer o Brasil cantar”. Nada na vida dela acontece por acaso.

FAIXA A FAIXAMárcio Vasconcelos. Festejos. Capa. Reprodução

1. Mironga (Paulo César Pinheiro): “É uma música que abrange todas elas [as mulheres], uma espécie de resumo
do disco. São os homens tocando tambor para as mulheres dançarem e festejarem. É uma música completamente
masculina, mas eu consigo ver a mulher nela, as mulheres que dançam ao som do tambor. Ele descreve, na verdade, a maneira de tocar, como se aprende a tocar um tambor. No final ele diz que tem mironga aí, ou seja, tem algo muito especial na maneira de tocar. “Tem quem bate e faz zoeira/ tem quem toca como quê/ quem comprou tambor na feira/ esse não sabe bater./ Foi no couro e na madeira/ que me disse um alabê/ tocador de capoeira/ não é de maculelê”. Então ele começa a fazer uma série de pontuações no ato de tocar tambor e as mulheres, como ele diz no texto que me apresenta, estão mirongando ao som do tambor. Mironga é uma festa!”

2. Balacoxê de Iaiá (Paulo César Pinheiro): “Na hora em que eu li o título eu fiquei imaginando um bumbum enorme de Iaiá. Na verdade, Balacoxê veio por essa sensualidade, de cortar cana, da mulher, e eu fiquei fascinada, por que a maneira como Paulo cantou essa canção, o que eu ouvi, é como se estivesse na fala dele, essa mulher, Iaiá, que corta cana, que “bota a roda pra rodar/ eu só vejo esse desenho na cintura de Iaiá”. Foi uma canção em que eu me vi. Me perguntei, meu Deus, será que eu vou cantá-la eu vendo Iaiá ou eu sendo Iaiá? Eu acho que de todas que eu cantei, eu era a Iaiá. Tava em mim, passava por mim, essa história de “como eu vejo, com o punho nas cadeiras/ Iaiá fazer”. Essa descrição pra mim, essa mulher, essa Iaiá, ela é incrível”.

3. Passista (Paulo César Pinheiro): “Foi o primeiro refrão que me chamou muito a atenção: “seu povo já foi do cativeiro/ mas hoje que o samba é uma nobreza/ é ela que reina no terreiro/ do samba outra vez virou princesa”. Achei muito forte ele ter trazido como o povo dela sofreu e como hoje ela é uma rainha, comanda o samba na escola. Isso me fascinou, saber que tem muita gente que vai pra vê-la. O samba trouxe essa majestade pra ela”.

4. Coqueiro novo (Paulo César Pinheiro): “Foi a praia daqui. Uma homenagem à minha praia, à praia em que eu cresci, em que eu brinquei na areia e, lógico, às morenas do Cabedelo, na Paraíba, às quais ele se refere, que fazem acessórios com a palha do coqueiro, vivem disso. São mulheres sofridas, mas quando escuto, eu me vejo na praia, sombra, vento nos cabelos e água fresca. Uma valorização do trabalho dessas mulheres, transformando a palha em objetos, bolsas, cintos, acessórios femininos”.

5. Presente de Iemanjá (João Lyra e Paulo César Pinheiro): “Quando Luciana me mostrou ela falou de uma pessoa que tinha que dirigir os arranjos do disco, chamada João Lyra [que assina parte dos arranjos, violões e viola do disco]. A primeira vez que o ouvi cantando, fiquei fascinada por ele, com a alegria que ele põe na canção. E eu ouvi Presente de Iemanjá com ele cantando e me remete à fartura. Quando fala de “jogar a rede pro céu/ e a rede cai no mar/ o que cai na rede é peixe/ é presente de Iemanjá”, isso me vem como abundância, as mulheres tendo o que comer, os homens saem para pescar e trazem o pão de cada dia, o peixe para fazer o almoço. Eu me vejo numa vila de pescadores. Ele trouxe um arranjo fantástico com Toré de índio pra canção, ficou muito forte. Tem o canto pra sereia, por trás de tudo isso, que é muito marcante. Eu não cantei orixás no disco, mas cantei pra Iemanjá, que pra mim sempre foi uma mulher encantadora, embora eu de início não soubesse bem o que era um orixá. Eu sabia que ela vivia no mar e eu sempre lembro da Iemanjá da Ponta D’Areia toda vez que eu canto”.

6. Lavadeira (Wilson das Neves e Paulo César Pinheiro): “Paulinho me mostrou essa canção, eu já fascinada pelas mulheres, e ele não me contou que ia me mostrar. Eu tava na cozinha da casa dele, comendo, e ele colocando músicas, que ele adora. Quando eu ouvi isso na cozinha eu saí correndo pra sala, “Paulinho, o que é isso?”, e ele já com o sorrisão aberto, por que sabia que eu ia me interessar pela música. Pedi pra ele botar de novo, ele botou. Eu ouvi na voz da Andréia, que é uma cantora que gravou a música. A Luciana perguntou, “mas Alexandra vai gravar? Já gravaram!” E ele disse “não importa. A Andréia sumiu. É ela [Alexandra] quem vai fazer essa música aparecer”. É a canção mais cinematográfica do disco, descreve tudo o que uma lavadeira faz. É de uma sensualidade, de uma sensibilidade tão profunda. A lavadeira passa a ser uma deusa em vez de uma simples lavadeira. Luciana faz um cavaquinho que dói na alma, Mauricio Carrilho fez o arranjo perfeito e ainda criou um canto para a lavadeira: “Lá lá lá ia lá ia/ Madalena foi lavar” e vai embora”.

7. Roda das sete saias (Roque Ferreira e Paulo César Pinheiro): “Eu ouvi cantada por Roque Ferreira, em uma das minhas viagens ao Rio, me apaixonei pela festa. Ela tem oito minutos, é um samba de roda fantástico. Fala das festas populares, tudo o que é cantado nas rodas das festas. Imagina um festejo acontecendo num terreiro, numa casa de festa… os grupos se formam a partir das afinidades: uma roda de samba aqui, uma caixeira tocando ali. Versos que surgem dessas afinidades da festa compondo um samba de roda com a música de Roque Ferreira, a letra de Paulo César Pinheiro e o arranjo de Maurício Carrilho. Eu costumo dizer que não sinto os oito minutos. Termino de cantar e pergunto: “vixe, já foi?” Ela foi uma música muito eleita aqui na minha terra. Fiz uma sessão com os compositores para ouvirmos o disco e muita gente gostou dela, por que ela é forte, ela lembra a gente, ela é muito Maranhão, é nossa…”

8. Coco da canoa (João Lyra e Paulo César Pinheiro): “Eu sou apaixonada por coco. Eu fui atrás de outro coco. Eu já tinha um coco no disco, acho um ritmo que mexe muito comigo. Quando eu era pequena, eu ia para a Rua Grande, e tinha uma cega que cantava um coco com um chocalhinho. Eu cresci com o coco muito presente na minha vida, mamãe sempre cantava em casa. Eu busquei mais um coco e como eu já tava encantada com o trabalho do João Lyra, com a alegria que ele emprega nas coisas, foi uma das canções que eu trouxe. Ela fala de um flerte na praia, de uma mulher faceira que não sabemos bem se é uma mulher ou uma sereia encantada. Gostei muito desse coco meio embolado, gostoso demais”.

9. Coco (Paulo César Pinheiro): “O coco é uma paixão. Ele é um trava-língua e a Luciana me mandou como um desafio para uma fonoaudióloga [risos]. Quando eu ouvi, pensei: “não vou conseguir cantar nunca!” É muita coisa e tudo muito rápido. Quando cantei e vi que o teatro todo cantou de novo… eu ensinei apenas uma vez e quando cantei a segunda parte todo mundo riu de tão embolado que tudo fica… e lindo… Fala de quebrar o coco, das quebradeiras de coco, a maneira como quebram o coco, que fazem a roda. Eu ia muito pra Pinheiro passar férias e comia muito coco babaçu. E pra mim não valia comer coco babaçu guardado, que mofa. Eu queria ver era ver o coco babaçu tirado por dona Mariazinha, que trabalhava na casa de meu pai, e a gente ia lá para um cantinho do quintal, debaixo duma árvore, quebrar coco”.

10. Bisavó Madalena (Wilson das Neves e Paulo César Pinheiro): “Foi outra pescaria. Paulinho já atrás dos seus tesouros guardados e ele tentava falar para mim como era a canção. Mas como não vou me apaixonar por uma música que fala da bisavó de Wilson das Neves? Que rodou o Brasil inteiro, que era dançarina de primeira e rodou o país dançando todos os ritmos e era boa de gogó, de samba, de bumba meu boi… quando ouvi fiquei encantada pela música. Wilson já gravou e eu não resisti, por que ela dá um resumo dessa matriarca que recebe esse festejo. E eu pretendo abrir o show com ela”.

11. Soberana (Wilson das Neves e Paulo César Pinheiro): “Wilson das Neves novamente. Essa música eu me lembro de Paulinho, ele não só me mostrou, mas ele dançou, me mostrando como eu devia fazer no palco com minha saia. Foi a maneira mais poética, mais romântica, mais soberana que eu vi um homem falar de uma mulher. Eu acho que qualquer mulher no mundo dava qualquer coisa para ser essa mucama à qual ele se referiu. Ela “nunca foi mucama de qualquer laia”. É a música que mais mexe comigo no disco. É a minha música! Eu sou apaixonada… As pessoas perguntam “qual é a música de trabalho?” Eu só digo Soberana. Eu sei que existe essa mulher, até por que eu sei de muitas mulheres que são soberanas. Mas você chega a duvidar, de tão incrível que ela é, você se pergunta, “é tudo isso?”, por que sempre escapa algo, ela é incrível”.

12. Ava Canindé (Paulo César Pinheiro): “Foi um Divino Espírito Santo que foi trazido para mim. Luciana mandou propositalmente, pois sabia que eu fui imperatriz na infância [em festejos do Divino, em Pinheiro, pagando promessas de sua mãe]. Eu sempre falo que vejo as mulheres indo para as festas do divino, as caixeiras, as arrumadoras da bandeira, e ela fala da simplicidade e da organização dessa festa. O dia a dia, como as pessoas se vestem, como chegam, descreve a cidade, a igrejinha. E João Lyra trouxe o que há de mais surpresa no disco, o arranjo dessa música. Para quase todos os músicos ela é a mais forte. João não conhecia a batida do Divino Espírito Santo, e no entanto ele trouxe sopros, viola. Ficou muito linda, simples, nostálgica. Para eu conseguir cantá-la do jeito que eu cantei eu me imaginava com João e Paulinho, em um morro bem alto, olhando lá de cima para esta cidade e cantando”.

13. São Luís do Maranhão (Paulo César Pinheiro): “A maneira como Paulo descreve o Maranhão, a impressão que a gente tem é a de que ele estava aqui, e de uma maneira também muito cinematográfica. Você consegue ver o boi de uma forma tão simples. Cantar minha terra foi uma honra, com a letra dele, então. E ele não conhece. Conhece através de Josué Montello e é capaz de conhecer até mais que eu, por que Paulinho quando vai em um assunto, ele vai fundo, vai além, muito além… Pra mim foi um presente, ele interferiu nesse arranjo, ele estava presente nessa gravação, acompanhou de perto [o saudoso parceiro João Nogueira era, até então, o último artista visitado por Paulo César Pinheiro em estúdio durante a gravação de um disco]. E nada como o nosso mestre Arlindo Carvalho para dirigir e dar esse toque de Boi de Pindaré. Ela fecha o disco, fecha com minha terra, fecha onde nasci, fecha com São Luís”.

Agenda carnavalesca: Cesar Teixeira

O compositor Cesar Teixeira se apresenta hoje (2), às 21h, no Viva Liberdade. Amanhã (3), às 22h, no Ceprama.

O artista é visto ao lado no traço de Djalma Lúcio, que cedeu esta caricatura para o material de divulgação do IV Baile do Parangolé, que acontece dia 9, às 14h, no Porto da Gabi (Aterro do Bacanga), com entrada franca. A festa, com apoio da Fundação Municipal de Cultura (Func) e Porto da Gabi, comemora os 34 anos de fundação da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH), entidade da qual Cesar Teixeira é sócio e ex-assessor de comunicação.

Autor da música que batiza o baile, ele completa 60 anos em 2013 e foi homenageado pela SMDH também em sua Agenda 2013.

Dia dos bruxos

31 de agosto não é dia das bruxas: é dos bruxos.

Uma vez fui a uma festa em que as atrações eram o mesmo trio titular de DJs anunciados na filipeta que abre/ilustra este post: Franklin, Pedro Sobrinho e Zod, em ordem alfabética. A eles, nesta, se soma o convidado Jards Zue.

Desta vez o palco é o Odeon, bar que foge à regra quase geral do mau gosto que toma conta da Praia Grande.

O mote da festa é celebrar antecipadamente os controversos 400 anos de São Luís, 400 anos de lendas, doidices e mistérios. É tanta doidice que o Odeon anuncia este grande encontro para 32 de agosto. Doidice? Eles sabem que o negócio vai amanhecer e muita gente nem vai querer saber de “quando entrar setembro”…

Das falácias dos 400 anos

Domingo, 1º. de maio do ano passado. 85 anos do jornal O Imparcial, que então estreava novo projeto gráfico. A capa do Impar, seu caderno de cultura, trazia uma entrevista que fiz com Sofiane Labidi, coordenador do programa São Luís 400 anos.

O tipo de entrevista de que saímos não botando fé. À época eu pensava, sobre os tais 400 anos: “falta pouco mais de um ano, a turma ainda tá perdida”. Na entrevista, o tunisiano radicado na Ilha declarava: o comitê estratégico organizador da grande festa de aniversário da “única capital brasileira fundada pelos franceses” (cf. Zé Raimundo) ainda não havia se reunido, ao mesmo tempo em que dizia (mentia?) que havia diálogo com o Governo do Estado do Maranhão.

Durante um tempo, já fora dO Imparcial, passei um tempo pensando na possibilidade de entrevistar novamente Sofiane Labidi. Para o Vias de Fato, para o mesmO Imparcial, para outro diário da capital ou simplesmente para o blogue. A entrevista eu faria por conta própria, sozinho, bloco, caneta, gravador, máquina fotográfica, gasolina. Entregaria o material pronto a quem quisesse publicar ou simplesmente postaria aqui. Nunca comentei a ideia com ninguém, o tempo acabou passando, São Luís está às vésperas dos controversos 400 anos, enfim, não rolou a reentrevista, cuja ideia básica seria simplesmente repetir-lhe as mesmas perguntas da entrevista publicada em 1º. de maio e checar se as respostas batiam ou divergiam, se algo havia evoluído ou dado passos de caranguejo.

Domingo, 5 de agosto de 2012. O mesmo Impar, do mesmO Imparcial, traz em sua capa matéria assinada por Samartony Martins: Prioridades do quarto centenário. Já cato o jornal com desconfiança: “ué, não deveria ser o quarto centenário a prioridade?” O sutiã do texto anuncia ajustes no programa São Luís 400 anos por conta da falta de recursos. Não é de se estranhar: seu próprio coordenador, em maio do ano passado, ainda não fazia ideia de quanto se gastaria na festança.

O repórter se empolga e chega a anunciar a contagem regressiva pelo relógio instalado na cabeceira da Ponte do São Francisco, no Centro da cidade, ridículo, diga-se, para “a maior festa dos últimos tempos realizada na cidade”. Eu seria mais cauteloso: uma coisa é o que os ludovicenses esperam; outra será o que terão, oferecido por Prefeitura Municipal ou Governo do Estado. Nunca “e”.

Anuncia-se “um grande show com um artista nacional”, mas não dão nome aos bois. Certamente ainda não sabem quem virá. Em cima da hora, qualquer grande artista nacional teria problemas com a agenda. E qualquer mudança é paga a peso de ouro, dinheiro público voando em asas de beija-flor. Boatos já ouvidos falam em Gilberto Gil, Maria Bethânia, Roberto Carlos. Talvez os três, concorrendo entre si, já que parte da programação seria da Prefeitura e outra do Governo do Estado.

“Mas nem tudo será somente festa. Sofiane Labidi informou que uma das conquistas mais importantes para atual gestão será apresentada como parte das comemorações. Na semana do aniversário da cidade, será lançado o Programa de Erradicação ao Analfabetismo em São Luís. A ilha será a terceira capital brasileira livre do analfabetismo”, novamente empolga-se o repórter em parágrafo que tomo a liberdade de copiar inteiro: são coisas bem diferentes lançar um programa e ele efetivamente vir a apresentar resultados. E mais: se João Castelo (PSDB), candidato à reeleição municipal quisesse, de fato, acabar com o analfabetismo, podia bem começar respeitando o calendário escolar: em São Luís há unidades de ensino básico em que, em pleno agosto, às vésperas da Ilha se tornar quatrocentona, o ano letivo de 2012 ainda não teve início.

Outro parágrafo na íntegra: “Com quase 100% das ações concluídas, Sofiane Labidi explicou que o fato do aniversário da cidade em pleno ano eleitoral não contribuiu para a execução do Plano de Ações Estratégicas do jeito que a coordenação imaginou, mas, nem por isso, deixará de ser grandiosa. A saída foi o fechamento de parcerias com o governo federal e iniciativa privada, uma vez que o governo do estado está também com uma programação de comemorações paralela à realizada pelo município.”

100% das ações concluídas? Que 100%? Que ações? Aniversário em ano eleitoral? Só perceberam agora? Em que mãos a Ilha está, hein? Roseana Sarney e cia. [barrica?] estão com uma programação paralela? Não me digam! Sinal de que o diálogo antes anunciado por Labidi nunca aconteceu.

Começa amanhã

e vai até domingo que vem:

Programação completa (grátis, sempre a partir das 17h, exceto onde se indica horário diferente): dia 4 (domingo): ritual da morte do Boi, com participação do grupo de pagode Toque Maneiro > dia 5 (segunda-feira): derrubada do mourão, com morte dos bichos e apresentações culturais de grupos da comunidade > dia 6 (terça): feijoada, a partir das 14h, e apresentações de grupos culturais, a partir das 20h > dia 7 (quarta): som mecânico na sede do Boi e apresentações de grupos da comunidade > dia 9 (sexta): seresta com o grupo Os Manos > dia 10 (sábado): apresentação do Boi Brilho da Terra e Tambor que Amanhece, a partir das 23h > dia 11 (domingo): Festa das Torcedoras com seresta ao vivo com o grupo Os Manos.