Feliz ano velho [Brasiliense, 1982; Alfaguara, 2015], de Marcelo Rubens Paiva, que li no início da adolescência, foi um livro fundamental para meu interesse por literatura. Era um relato autobiográfico tendo por mote o incidente que o colocaria para sempre numa cadeira de rodas, mas sem perder o bom humor e dialogando com outras artes, sobretudo a música. Finalmente um livro não era chato como em geral eram os que líamos na escola por obrigação. Merecidamente virou um best seller, com sucessivas reedições.
Meninos em fúria. Capa. Reprodução
Com vários títulos na bagagem o escritor, dramaturgo e jornalista, colunista de O Estado de S. Paulo, acaba de lançar, a quatro mãos, com Clemente Tadeu Nascimento Meninos em fúria: e o som que mudou a música para sempre [Alfaguara, 2016, 220 p.], livro que remonta à gênese da banda Inocentes – fundada e liderada por Clemente, hoje também vocalista e guitarrista da Plebe Rude, em paralelo –, pioneira do movimento punk no Brasil.
Não se trata de uma biografia, é mais um livro de memórias, contada por testemunhas privilegiadas da história. Clemente, ex-bancário e ex-vendedor de guarda-chuvas, era o frontman da banda que acabou por influenciar nomes como Gilberto Gil, que em 1983 lançou Punk da periferia, obviamente detestada pelos punks de então.
A prosa de Marcelo Rubens Paiva tem uma leveza que a distancia da objetividade e “imparcialidade” jornalísticas. Ele dá voz a familiares, parceiros, produtores e todos que rodeavam Clemente e os Inocentes, além do próprio – as falas de cada autor estão bem delimitadas em Meninos em fúria.
De quando o punk era assunto das páginas policiais dos jornais, época em que o movimento não tinha consciência de e era sempre associado à depredação e violência entre seus próprios integrantes, gangues de bairros diferentes, à assinatura de contrato com uma grande gravadora, colado ao boom do brock, quando enfim ganham as páginas de cultura, a participação dos Inocentes em shows e festivais ao lado de ídolos como Sex Pistols e Ramones, a falta de tato para lidar com o star system, além de toda a conjuntura da época – abertura, fim da ditadura, manutenção da censura, governos Sarney e Collor etc. –, nada escapa ao olhar e memória atentos da dupla.
Não é um livro saudoso. O punk continua vivo e seu espírito libertário e anarquista é hoje necessário. “E tudo parecia calmo e andando em direção a um final feliz quando, em 2016, fomos novamente atropelados pela história. O país entra em convulsão, a luta pelo poder trouxe fatos bizarros de volta, a manipulação de massa, uma perigosa e volátil arma política, está sendo usada sem escrúpulo nenhum, a Justiça se transformou em instrumento de vingança, totalmente parcial e claramente partidária”, anota Clemente, atestando a plena saúde do punk.
The 42nd St. Band – Romance de uma banda imaginária. Capa. Reprodução
Renato Russo ainda era apenas Renato Manfredini Jr. quando, entre 1975 e 76, com de 15 para 16 anos de idade, recluso em seu quarto por conta de uma epifisiólise, rara doença óssea, escreveu The 42nd St. Band – Romance de uma banda imaginária [Companhia das Letras, 2016, 221 p.; org.: Tarso de Melo; tradução: Guilherme Gontijo Flores; leia um trecho]. O nome da banda tem origem no endereço do bar Stonewall, palco de um massacre a LGBTs, que o cantor já havia homenageado em seu primeiro disco solo, The Stonewall Celebration Concert [1994].
O livro é uma espécie de diário da banda, como se um fã recortasse revistas e jornais sobre os ídolos e guardasse os recortes em uma pasta. Há entrevistas, formações, discografia, cronologia. O futuro líder da Legião Urbana constrói seus personagens inclusive do ponto de vista psicológico, uma prova disso é o comportamento dos integrantes da banda que dá título ao livro durante as entrevistas.
Renato Russo demonstra profundo conhecimento sobre a música pop mundial. Sua banda – Eric Russell, protagonista de The 42nd St. Band, é seu alter ego – tinha Jeff Beck (ex-Yardbirds) e Mick Taylor (ex-Rolling Stones), misturando personagens reais a personagens imaginários.
O mesmo acontece com faixas gravadas pela banda. No livro, Let me die in your footsteps é de Russell (e não de Bob Dylan) e Close the door lightly (when you go) é de Dylan (e não dos Smiths). Há vários outros exemplos e fica explícito a adoração da banda imaginária – e do autor – por Beach Boys, Stones, Beatles, Dylan.
Há algo de premonitório na obra. Renato Russo acabaria sendo um dos maiores nomes do pop rock brasileiro em todos os tempos e o livro relata (ab)uso de drogas, shows lotados, turnês bem sucedidas, amor e ódio da crítica especializada e mortes trágicas – entre os membros das várias formações da The 42nd St. Band, John Robbins morre de overdose aos 45, John Buck em um acidente de avião aos 62, e Eric Russell de câncer de pulmão aos 67 (Renato Russo morreu há 20, aos 36, de complicações decorrentes do vírus da aids). Aloha, título de uma música de A tempestade [1996], último disco lançado pela Legião Urbana com Renato Russo ainda vivo, já aparece no romance, como uma das faixas gravadas pela The 42nd St. Band.
É um romance fragmentário, montado a partir de anotações (em inglês) deixadas por Renato Russo em diversos cadernos, que muito provavelmente não seria publicado se ele ainda estivesse vivo. Como os diários de sua passagem por um rehab – Só por hoje e para sempre – Diário do recomeço [Companhia das Letras, 2015, 168 p.; org.: Leonardo Lichote] –, The 42nd St. Band – Romance de uma banda imaginária ajuda a compreender a mente inquieta e o espírito criativo de um dos maiores artistas surgidos no Brasil na segunda metade do século passado.
Uma subversiva no fio da história. Capa. Reprodução
O jornalista Emilio Azevedo lança na próxima quarta-feira (14), às 19h, o livro Uma subversiva no fio da história [2016, Ed. do autor; revisado por este blogueiro], um conjunto de nove reportagens sobre a vida e o legado de Maria Aragão, uma das mais importantes personagens da política no Maranhão no século XX.
Embora tenha elementos, o livro não se configura uma biografia. Foi escrito entre 2007 e 2009 e repousou numa gaveta até ser retomado pelo autor, este ano. Ele confessa: tinha críticas quanto à obra, para o qual os nove textos foram escritos. Depois de mais cinco meses de trabalho, uma espécie de reconciliação entre criador e criatura permite que a segunda chegue ao público agora.
A noite de autógrafos será movimentada: o Teatro João do Vale (Rua da Estrela, Praia Grande) receberá show da cantora Tássia Campos – com o mesmo título do livro –, além de esquetes do Gamar – grupo de teatro amador formado nas dependências de uma escola que leva o nome da médica comunista – e de Maria Ethel, cuja “encarnação” de Maria Aragão em A besta-fera é um hit do teatro local.
Emilio Azevedo parte de um exercício difícil: humanizar Maria Aragão, relendo-a e recontando-a para além da execração – os que a detestavam e tratavam-na por puta, besta-fera e que tais – ou da beatificação – os que a adoravam e consideravam-na uma espécie de santa. É a essência humana que move o jornalista através de suas nove reportagens, embora ele mesmo confesse tratar-se de um livro de fã.
Tendo Maria Aragão como personagem central e fio condutor, Emilio refaz um pequeno pedaço da história do Brasil e do Maranhão, ao abordar a época e a conjuntura em que a “médica comunista” – longe do clichê – realizou sua militância, sua ação subversiva. Estão lá Luiz Carlos Prestes, o PCB, a ditadura militar, a Igreja Católica, as oligarquias. É um livro ousado de um autor que não teme assumir-se de esquerda, num tempo em que há quem ouse dizer não existir mais esquerda ou direita – estes, sabemos de que lado estão.
A antropóloga Maristela de Paula Andrade, no prefácio de Uma subversiva no fio da história, defende a adoção do livro por escolas. “Esses heróis fabricados, artefatos políticos, ganharam bustos em praça pública e lugar certo, inquestionável, na formação escolar das crianças e da juventude. Foram heróis da classe dominante, dos que detiveram o poder em cada conjuntura histórica, mas inventados e cultuados como defensores de todos. Por que não contar aos jovens brasileiros a história de pessoas como Maria Aragão, que lutaram por igualdade, justiça, liberdade, por um mundo melhor para os explorados e oprimidos?”, indaga a professora da UFMA.
O questionamento é pertinente em tempos de golpe, quando tantos outros saem às ruas reivindicando uma intervenção militar. Emilio Azevedo mostra a atualidade do legado de Maria Aragão, mais que médica ou comunista, uma mulher que educava pelo exemplo. Sempre é tempo de aprender.
Emilio Azevedo conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.
O jornalista Emilio Azevedo conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos. Foto: Altemar Moraes/ Vias de Fato
Uma subversiva no fio da história é seu terceiro livro, todos com uma posição à esquerda, o que é uma dificuldade do jornalismo, hoje. Qual a importância do jornalista assumir que tem lado? Tem toda importância. É uma questão de honestidade com o leitor. Recentemente vi uma palestra do Caco Barcellos [na 10ª. Feira do Livro de São Luís], onde ele falava do jornalismo declaratório e de um outro jornalismo que eu não lembro agora como ele definia, um jornalismo imparcial, neutro, um jornalismo essencialmente informativo. Não sei como ela define o jornalismo feito por William Bonner, Alexandre Garcia ou Arnaldo Jabor. A verdade é que acho impossível você trabalhar com jornalismo e dissociar de uma posição política. A pauta já é ideológica, o veículo em que você trabalha é ideológico. O aspecto ideológico de uma reportagem nasce a partir da pauta, do lugar onde ela é publicada, veiculada. Se você faz um bom jornalismo dentro da Rede Globo, no geral você está referenciando, legitimando o mau jornalismo que a Globo faz. As coisas estão associadas. Eu não acredito em imparcialidade, sempre disse isso, escrevendo ou em mesas de debate. O jornalismo pode ser honesto e desonesto, mas será sempre essencialmente ideológico, político. Você pode ser honesto no seu fazer jornalístico, deixando clara sua posição. O leitor não é idiota, ele sabe filtrar os excessos porventura cometidos.
Quando você diz que alguém como Caco Barcellos, dentro da Globo, em vez de ser uma exceção, referenda o mau jornalismo praticado pela emissora, você não acredita em reserva moral ou que outro nome se queira dar para isso? Uma exceção, o fato de ele estar lá significando poder fazer o jornalismo que ele pratica chegar a mais gente? Eu não vou dizer que ele está certo ou errado em trabalhar na Globo. Todo profissional tem que trabalhar e pagar suas contas. Não entro nesse tipo de patrulhamento. O problema é vestir a camisa do patrão. É tirar onda de bom moço e sair em defesa dos interesses da família Marinho. A merda tá bem aí. Nessa palestra, especificamente, Caco Barcellos pisou na bola ao dizer o seguinte: “pra todo mundo que fala mal de mim ou do veículo em que eu trabalho”, no caso, a Globo, “eu digo: “faça melhor!””. Encaro esse papo como uma piada de mau gosto. É certo querer tirar da sociedade a possibilidade de criticar um veículo que é uma concessão pública? É um ponto de vista completamente equivocado. Tem que ter muita crítica a todos os veículos, aos que são concessão pública, no caso das emissoras de TV e rádio, e também aos que não são. Uma coisa é a crítica, outra coisa é a agressão, a violência, a estupidez. A crítica é saudável. No caso dessa palestra específica, ele pediu que não criticasse a Globo, que fizesse melhor. A Globo tem rios de dinheiro. E de onde vem esse dinheiro, quem patrocina? Se ele tem estrutura pra chegar às três da manhã, na frente de todo mundo, com 10 carros, alguém está pagando essa conta. Isso não sai do bolso do Caco Barcellos, isso sai do bolso da empresa que tem patrocinadores x, y e z. Tudo isso tem que ser levado em conta. Qual o interesse do patrocinador? É só de vender seu produto?
Às vezes não fazer melhor que a Globo não é falta de vontade, há muita gente aí disposta. Essencialmente é: quem paga a conta? Quem financia a Globo? A Record? A Veja? Todas as empresas têm interesses políticos.
Este é um ponto essencial: se as pessoas assumissem os patrocinadores, às vezes seria mais rápido e fácil descobrir de que lado os veículos estão, ideologicamente. Isso é pouco debatido. Pouco se interessa por quem paga a conta.
Você está à frente, há sete anos, do Vias de Fato, que tem uma postura de independência, com seus parcos financiamentos, mas com uma postura ideológica clara. De algum modo isso dialoga com a experiência de Maria Aragão na Tribuna do Povo. A Tribuna do Povo de Maria Aragão, de algum modo foi ou é inspiração para o Vias de Fato? São momentos distintos, projetos distintos. E uma coisa, essencialmente, os distingue: o projeto da Maria era ligado a um partido. Com toda dificuldade financeira, com todo isolamento, um isolamento à esquerda, mas tinha uma relação com o comitê central do partido, tinha esse tutor, que ficava no Rio de Janeiro. No caso do Vias, ele não é ligado a nenhum partido, nem é centralizado por ninguém. Trata-se de outro momento histórico, completamente diferente no que se refere à organização do campo progressista. A utopia hoje parte de um desejo de pluralidade e horizontalidade, onde todo mundo é passível de crítica, inclusive a própria esquerda. Agora, em relação às dificuldades operacionais, os dois são parecidos.
A Tribuna do Povo era um jornal de uma mulher só. O Vias de Fato tem mais mulheres, tem mais gente [risos].
O Vias de Fato talvez tenha mais gente, mas ainda é uma equipe pequena. Nesse sentido, que outras semelhanças e diferenças você apontaria? Semelhança é essa coisa do gueto, eu digo isso no livro, que a Tribuna do Povo é um jornal de gueto. Algumas pessoas fazem questão de dizer que o jornal de Maria não tinha nenhuma influência, mas o antropólogo Alfredo Wagner [Berno de Almeida] coloca a importância dele como uma fonte única naquele tempo. Aí acho que existe uma semelhança. O Vias está no gueto, assumidamente no gueto, mas também é, às vezes, fonte única para determinados assuntos, o que ninguém vai dizer, você vai encontrar lá, no Vias de Fato, o “panfleto” de esquerda. Aí tem um compromisso com a história, compromisso com o processo histórico. Os comunistas têm essa noção do processo histórico. O Vias, apesar de não ser marxista, também tem essa noção.
Emilio, você tem uma formação comunista, inclusive tem a mesma filiação partidária de Maria Aragão. Desde 2009 estou afastado do partido. Sobre o assunto, vejo muita gente que não é comunista, se dizendo comunista no Brasil. Eu sou o contrário: sou tachado de comunista, mas não me considero marxista-leninista. Acabei me filiando, há quase 15 anos, talvez um pouco menos, ao PCB, por uma questão tática. Diferente de hoje, na época eu tinha interesse em atuar em um partido e pelo fato de ser de esquerda, queria um partido à esquerda. A conjuntura me empurrou para o PCB. Me filiei circunstancialmente, fui ficando. Tenho muito respeito pelo partido, muitos amigos por lá, aprendi muitas coisas, mas essencialmente não sou marxista-leninista. Não gosto de me rotular. Tenho influências cristãs, de esquerda, marxistas, mais recentemente até anarquistas, mas isso não me rotula. Não estudei o suficiente para carregar rótulos. O mínimo que se espera de um marxista é que ele tenha lido toda a obra de Marx, mesmo que não tenha sido em alemão [risos]. Eu fui católico, hoje sou agnóstico. Quando deixei de ser católico, rompi com dogmas. Me parece que todos esses ismos têm dogmas. Então, você fica preso a um determinado dogma e a partir disso cria uma determinada camisa de força, acho ruim. É ruim mesmo entre os intelectuais, o que não é o meu caso. O sujeito passa a pensa a partir de ideias pré-estabelecidas. Acho melhor transitar, pegar uma coisa aqui, outra ali e raciocinar por contra própria. A generosidade não é exclusividade de um só filosofo ou profeta.
Por falar em comunista, acabamos de perder um ex-comunista, o Ferreira Gullar. Acho que Ferreira Gullar é ótimo como poeta e péssimo como político. Como poeta foi genial, como político se comportou como um oportunista qualquer. Fico à vontade para falar por que em 2001 fiz um artigo chamado A política suja de Ferreira Gullar. Este texto foi panfletado dentro de uma exposição que ele fez aqui em São Luís. A iniciativa da panfletagem não foi minha e eu não participei dela. Ele, um sujeito inteligente, não passou recibo. Não era o caso.
E Maria Aragão como personagem? Você tem uma abordagem que foge das duas mais comuns: os que não gostam, para quem ela era a puta, a besta-fera, ou os que gostavam e a colocam num altar, Santa Maria Aragão. Você tira Maria Aragão destes dois lugares, digamos, mais fáceis, tratando-a como uma pessoa comum, que fez o que fez. Você acha que faltam Marias Aragões no mundo? Não sei se consegui humanizar Maria Aragão. Tentei. Mas acho que, no fundo, o livro tem algo de exaltação. É um livro de fã. Tentei, já na última etapa do trabalho, retirar essa carga toda. Talvez o último capítulo, de alguma forma, critique o próprio livro. Meu amigo Wagner Cabral, que é historiador, não gosta de biografias. Meu livro não é uma biografia, são nove reportagens, mas sem dúvida é um recorte biográfico. Então, você acaba se apaixonando pela personagem, é uma coisa natural. Fiz um esforço de humanizar, não sei se consegui. Não digo isso no livro, mas acho que existem muitas anônimas iguais a Maria Aragão. Sem querer idealizar uma classe, te digo que nas camadas populares encontram-se muitas mulheres lutadoras, corajosas, generosas e solidárias. Na periferia de São Luís vi de perto o que exaltamos em Maria Aragão. Vi mulher apanhando e outra indo lá e se metendo no meio do casal, para defender a agredida. Vi isso mais de uma vez. Tem muita gente assim. E o grande desafio, no caso de Maria, é não beatificar, é não transformar em santa, é mostrar que é possível fazer como ela fez. Foi uma grande mulher, mas é possível ser como ela, fazer o justo, fazer o correto, cometer erros e acertar algumas vezes. Não aceitar injustiças. Saber escutar. Não desistir. Foi o que ela fez.
O nome que você pensou originalmente para este livro foi Maria Aragão no fio da história. Por que a troca para Uma subversiva no fio da história? Ao tratar de “uma subversiva” estou falando da própria Maria Aragão – que foi subversiva –, da ação política dela e do processo em que ela estava inserida. É também uma forma de estimular o debate em torno da subversão. Estamos precisando disso. São pessoas e ações subversivas, transgressoras, que andam a margem ou na contramão, que têm o poder de mudar o curso da história e melhorar as coisas. Normalmente o desejo de liberdade e a subversão caminham juntos.
Se não de mais Marias Aragões, você acha que hoje o Brasil precisa de subversão? Nos últimos anos, quando nosso país viveu sob o comando do PT e do lulismo, ficaram expostos conflitos que historicamente estiveram presentes na sociedade brasileira. Conflitos de valores, conflitos de origem política. Uns ligados às classes sociais e outros relacionado à moral e aos costumes. Neste contexto atuam setores elitistas e conservadores, acrescidos de fariseus e fascistas. Atuam também os que defendem direitos e/ou vivenciam discriminações seculares, neste caso os pobres, negros, mulheres, indígenas e homoafetivos. Isso vai além da disputa entre partidos ou desse maniqueísmo que reduz tudo a “coxinhas” e “petralhas”.
E o subversivo nesse contexto? Está presente em várias situações. Veja a atual ocupação das escolas e das universidades. É desobediência civil. É algo que subverte a ordem estabelecida. É uma desobediência saudável e necessária, diante dos abusos e da violência cometida pelo atual governo federal e pela maioria do Congresso Nacional. E essas ocupações estão sendo protagonizadas por jovens que vivem esses problemas históricos. São exatamente pobres, negros, mulheres e homoafetivos. Até onde vi, são eles que compõem a maioria desse movimento.
Você poderia dar outro exemplo? Hoje, no Maranhão, acho emblemática a ação dos indígenas da etnia Gamela, na região de Viana. Em meados do século XX eles foram considerados extintos. Agora, através de uma teia de povos e comunidades tradicionais, que reúne também quilombolas, eles se rearticularam e ocuparam três fazendas. Os Gamela entraram numa terra que é deles. E fizeram isso sem esperar pelo Estado, pela Justiça, por cartório, por burocratas ou pela Funai. Enfim, sem esperar por instituições que hoje, notoriamente, enfrentam sérios problemas de credibilidade. A questão envolvendo recentemente Renan Calheiros e o Supremo mostra bem isso.
Você falou também dos costumes… Este ano, no Rio de Janeiro, um garoto foi barrado na escola por que estava vestindo saia. No outro dia, todos os meninos da turma dele foram de saia e a escola teve que ceder. O caso repercutiu no país. Ouvi conservadores dizendo que estamos no “final dos tempos”. É interessante perceber que entre essas pessoas, muitos não se preocupam com a devastação ambiental ou com a miséria absoluta de parte da humanidade. É o modo de vestir de alguns que, para eles, indica “o final dos tempos”. Bem, mas diante do mesmo caso, os mais arejados disseram que trata-se apenas de uma roupa, de uma questão de liberdade individual e que cada um deve ter a possibilidade de se vestir como quiser. Diante de um tema tão simples, isso gera conflito e acirrados debates. Em São Luís, numa escola particular do Renascença, soube que uma menina foi impedida de entrar porque estava com um turbante. Houve repercussão nas redes sociais. O racismo, a misoginia e homofobia estão aí, mas a reação a essas antigas formas de violência, de alguma forma, tem crescido.
Emilio, você fez esse livro mais ou menos na época em que Jackson Lago foi governador. Foram dois períodos: 2007 a 2009 é o primeiro período. Em 2016 eu trabalhei ainda cinco meses nele.
Mas aí já foi uma fase mais de ajustes, revisão. A pesquisa em si foi lá atrás. Sim, 90 e tantos por cento da pesquisa foi feita nesse período.
Por que demorar tanto a finalizar e publicar? Em parte o projeto Vias de Fato me tomou muito tempo. Talvez este seja o motivo maior, mas eu também tinha algumas críticas ao livro e hoje eu tenho menos, graças ao trabalho que fiz este ano.
Todas aquelas reportagens são inéditas? Todas são inéditas. No capítulo das oligarquias, deve ter 10 a 12 laudas o capítulo todo, eu aproveito umas quatro de um artigo que saiu no Jornal Pequeno, em 2006.
Então quando você escreveu essas reportagens já estava pensando em livro. Sempre! Foram todas feitas para o livro. À exceção dessa introdução das oligarquias. Neste livro acabo juntando a fome com a vontade de comer. Ao mesmo tempo eu tenho admiração e respeito por Maria Aragão, mas é uma forma também de contar um pouco a história recente do Maranhão, a história recente do Brasil, falar de assuntos que eu adoro discutir e que eu acho que são importantes para essa geração saber, minimamente. Eu não sou historiador, sou jornalista, mas acho que um compromisso que o jornalista tem é de deixar registros para a história. Eu estou falando de uma história muito recente, uma coisa que não é história de historiador, é história de jornalista, que é de 40, 50 anos pra cá. As fontes estavam todas vivas ainda, são 51 entrevistas.
Mais que médica, mais que militante partidária, comunista, Maria Aragão foi uma educadora. Uma educadora que educava pelo exemplo. Essa coisa da educadora eu peguei no processo do livro, eu construí o último capítulo pensando no legado. Essa reportagem não estava prevista, acabou servindo como uma conclusão, esse legado da educação popular, como a esquerda chama, de formação, de educar pelo exemplo. Na minha avaliação está tudo relacionado. Maria Aragão teve uma vida ligada aos pobres e miseráveis, as periferias urbanas e também aos camponeses. Quando foi dirigente da CUT, no Maranhão, a hegemonia era de trabalhadores rurais. Antes do golpe de 1964, principalmente na década de 1950, ela também atuou junto à organização de lavradores. No plano moral, Maria Aragão foi vítima da violência de farisaicos e fascistas, que lhe chamavam pejorativamente de puta, pelo fato dela ter tido uma filha sem estar casada e por ter vivido com um homem sem passar pela igreja. E Maria foi pra cima dos hipócritas. Enfrentou. Ela não abaixou a cabeça diante das violências que sofreu.
No entanto, como você afirma no livro, ela não era feminista. Como me disse a professora Mary Ferreira, em entrevista para este livro, a vida de Maria Aragão representou, na prática, aquilo que as feministas defendem. E ela se aliou às feministas em várias ocasiões. Maria, a comunista, foi uma mulher livre, que não se submeteu a opressores. Agora em dezembro, num evento ocorrido em São Luís, promovido pelo Fórum Maranhense de Mulheres e que denunciou e debateu a violência contra a mulher, foi colocada uma polarização entre transgressoras e recatadas. Nesse debate, a vida de Maria Aragão, a subversiva maranhense, tem um grande valor pedagógico. Maria foi, de várias maneiras, transgressora. Subversão e transgressão normalmente caminham juntas.
Maristela no prefácio defende que teu livro seja adotado em escolas. Você tem essa pretensão, esse desejo? Não tenho nem pretensão nem canais [risos]. Quem sabe depois de morto [risos]. Uma coisa que eu quero fazer é debater esse tema, esse tempo, a partir de uma ação subversiva. Discutir hoje o que é subversivo à luz de Maria.
Deixa eu tentar fazer um exercício de presentologia, já que, como Maria já faleceu, não dá para fazer de futurologia: pelo teu mergulho na vida e no legado de Maria Aragão para a feitura do livro, como você acha que seria seu comportamento em relação ao momento político que o Brasil atravessa? É até um atrevimento. Certamente ela estaria contra o governo Temer, isto é uma obviedade. Seria contra os tucanos, isso é outra obviedade. Acho que ela teria críticas ao PT. Dizer mais do que isso eu não me atrevo. Não seria correto da minha parte.
Tua ideia de lançar o livro com o show de mesmo nome, Uma subversiva no fio da história, retoma uma tradição importante. Lembro O Pasquim, que era uma experiência de esquerda no jornalismo brasileiro e esta, com certeza, influencia o Vias de Fato, em uma determinada época encartava discos. O livro vai trazer encartado um show de Tássia Campos, cantando um repertório de revolucionários ou que Maria Aragão ouvia em casa. Tássia é uma das cantoras dessa “nova” geração da música do Maranhão muito competente, muito interessante, com uma postura ideológica alinhada a Maria Aragão. Como foi costurar essa noite de autógrafos? A ideia do show começa com o trabalho da Carabina Filmes. Começa no vídeo que eles fizeram para anunciar o lançamento de Uma subversiva no fio da história, a partir da visita que Tássia fez ao memorial Maria Aragão. O trabalho de [os cineastas] Leide [Ana Caldas] e Inácio [Araújo], somado à interpretação da Tássia, foi o primeiro ato, antes mesmo de chegar ao palco do teatro. No Brasil, livro impresso é coisa de elite. É um objeto caro e consumido por poucos. Ao misturar o livro com diferentes linguagens artísticas temos a possibilidade de popularizar o trabalho, ampliando a mensagem e sua função social. E é uma relação de mão dupla, pois livro também pode provocar. Em 2006, quando lancei O caso do Convento das Mercês, esse livro inspirou o Vale Protestar, movimento que juntou teatro e música e que projetou a personagem “Rosengana”, a partir de uma reunião de vários artistas, entre eles Cesar Teixeira, Kátia Dias, Moizés Nobre, Rejane Galeno, Nadnamara Rocha, Valberlúcio Pereira, Claudia Santos e Raimunda Lopez. Hoje, com Uma subversiva no fio da história, espero, junto com os artistas, fazer algo diferente de uma tradicional noite de autógrafos. O protagonismo deles amplia a proposta do livro, aumenta a provocação, aumenta o diálogo com a sociedade. Repito: livro, no Brasil, é uma coisa pra elite, uma coisa cara, pra uma elite intelectual, econômica. Não fiz livro pra intelectual, apenas. Eu respeito os intelectuais, mas não quero meu livro limitado a eles. Quero um livro que possa, minimamente, interagir com a sociedade, provocar a sociedade de alguma forma, conseguir cumprir uma função social mais ampla. Aí eu acho que música, cinema, teatro, tudo isso facilita a possibilidade de ampliar a função social do livro.
O Vias de Fato já produziu outros shows, por exemplo, o Tarja Preta, ano passado. Pois é, no ano passado, para comemorar os seis anos do Vias de Fato, o jornal organizou o Baile Tarja Preta, num processo que juntou pessoas da música, do teatro e do cinema. Naquele baile, por exemplo, o ator Lauande Aires fez uma leitura dramática junto com Rejane, tratando de temas comuns ao Vias. Hoje, o show inspirado no livro sobre Maria Aragão é consequência dessa mistura, que passa pelo Tarja Preta e já vem desde 2006. Agora, no dia do lançamento desse livro, teremos a apresentação de duas esquetes teatrais, antes da apresentação de Tássia. Uma com estudantes da Unidade Integrada Maria José Aragão, da Cidade Operária, e outra com a atriz Maria Ethel, com um trecho do espetáculo A besta-fera. E no show de Tássia haverá uma participação do cantor Claudio Lima, que vai interpretar composições de Marcos Magah.
Voltando um pouquinho, como Tássia entrou na história? Por uma questão de identidade. Os shows que ela montou a partir de Nara Leão, Sergio Sampaio, Belchior, algumas músicas que ela canta no show que faz junto com Camila Boueri e Milla Camões expressam essa identidade. Além do talento evidente, Tássia me remete a sensibilidade, inquietação, insubordinação. Uma subversiva no fio da história tem relação com isso. Eu e ela também nos tornamos amigos, mas a escolha para este projeto vai além disso.
A partir dessa constatação, de que forma você pensa em tornar o livro mais acessível, do ponto de vista do preço, da distribuição. Em termos de circulação a maioria dos livros hoje vai ter dificuldade. Principalmente em tempos de microcomputador travestido de celular.
Você pensa em disponibilizar o livro para download? Num segundo momento, sim. Nesta primeira etapa, preciso pagar o projeto, então preciso circular com o livro em 2017, dentro e fora do Maranhão. Em São Luís vou botar em bancas, livrarias, em alguns pontos da cidade, e circular, debater a questão da ação subversiva nesse tempo de hoje. Acho que publicar um livro hoje já é, por si só, um ato subversivo.
O poeta e o gato a quem dedicou o livro Um gato chamado Gatinho. Foto: Ana Carolina Fernandes/ Folhapress
“Um vento velho e urgente/ sobrevoa a tarde que embala/ o rio Bacanga em São Luís do Maranhão/ um vento, um pedaço dele, um susto, um sopro, um barulho,/ passa sobre mim e desarruma os cabelos/ que penteei em casa hoje de manhã cedo/ em frente ao espelho, testemunha do meu zelo inútil/ Enquanto isso, na Academia Maranhense de Letras/ velam o que sobrou do poeta Ferreira Gullar”.
Com ecos de Uma fotografia aérea, o poeta Celso Borges escreveu o poema acima em 2001. Gullar post mortem foi publicado em seu livro-disco Belle Epoque, lançado em 2010 no Cine Praia Grande, com show do autor, acompanhado da banda Restos Inúteis. Ao fim do poema, uma vela acesa no palco, a voz de Gullar ecoava, recitando trechos de Notícia da morte de Alberto Silva, outro poema de Dentro da noite veloz: “Eis aqui o morto/ chegado a bom porto/ Eis aqui o morto/ como um rei deposto/ (…)/ De barba feita, cabelo penteado/ jamais esteve tão bem arrumado/ (…)/ Enfim este é o morto/ agora homem completo:/ só carne e esqueleto/ Enfim este é o morto/ totalmente presente:/ unha, cabelo, dente”. A gravação está no sublime Antologia poética, em que Gullar é acompanhado por Nivaldo Ornelas e Egberto Gismonti.
Naquela noite de autógrafos, o próprio Celso Borges contou a ocasião em que escreveu o poema: “Novembro de 2001. Este é o cenário: estou sentado diante da televisão, ligo a TV e olho de frente o poeta Ferreira Gullar, abrindo o programa político do Partido da Frente Liberal [o então PFL, hoje Democratas, tinha à época a ex-governadora do Maranhão Roseana Sarney – hoje no PMDB – como pré-candidata à presidência da República]. Ele dizia: “ela pertence a uma nova geração de políticos, não só por ser mulher, então ela está se colocando diante do país como uma mulher que tem a capacidade de administrar a coisa pública, mas ela é de uma outra geração, de uma outra experiência de vida, de uma outra experiência social, e é o que a gente percebe, que é uma geração que não vem à procura de usar o Estado em seu benefício, que é uma geração com o sentido social de interesse público”. Levanto, desligo a televisão e escrevo este poema”, contou.
O poema de Celso Borges revela, antes de tudo, sua admiração por Ferreira Gullar (10/9/1930-4/12/2016), cujo Poema sujo [1975] acabou por empurrá-lo para a poesia. Ex-militante do PCB, o hoje imortal da Academia Brasileira de Letras acabou dando, nos últimos anos de vida, uma guinada à direita. Prova disso foi a coluna dominical que manteve desde 2004 na Folha de S. Paulo, desde sempre uma trincheira anti-Dilma (de quem foi contra o impeachment), anti-Lula, anti-PT, anti-esquerda. Particularmente incluí-o no rol de artistas de que era preciso separar vida e obra para não cair no ódio burro e cego das “pessoas de bem” que boicotaram Aquarius [filme de Kléber Mendonça Filho] por recomendação de outro jornalista de direita.
Resumindo: independentemente de suas opções ideológicas, Gullar fez grande poesia até falecer, hoje (4), no Rio de Janeiro, onde vivia desde os anos 1950. Foi merecedor de todos os prêmios e honrarias com que foi laureado em vida – e com que certamente continuará sendo a partir de agora. Chamá-lo simplesmente poeta é insuficiente, tamanha foi sua importância no campo das artes no Brasil: além de poeta, foi crítico de arte, ensaísta, cronista, dramaturgo, tradutor, artista visual, letrista de música popular. É dele a voz que narra Cabra marcado pra morrer [1984], filme de Eduardo Coutinho batizado por poema seu. A película foi perseguida pela ditadura militar – como seu locutor – e só foi finalizada 21 anos após seu início.
Na música, fundamental para tornar sua obra mais popular, foi parceiro de Heitor Villa-Lobos [O trenzinho do caipira, trecho do Poema sujo cuja Bachianas brasileiras nº. 2 ditava o ritmo da leitura], Milton Nascimento [Meu veneno, Bela, bela], Fagner [Traduzir-se, Contigo, Me leve (Cantiga para não morrer)], Caetano Veloso [Onde andarás?], Paulinho da Viola [Solução de vida (Molejo dialético)] e Moacyr Luz [Poema obsceno], entre outros. Seu maior êxito é Borbulhas de amor (Tenho um coração), sua versão para Borbujas de amor, do dominicano Juan Luis Guerra.
Recentemente reli o Poema sujo, por ocasião do lançamento (na última quarta-feira, 30/11) de Visões de um Poema sujo [2016], a última grande homenagem a Gullar em vida: uma releitura fotográfica de Márcio Vasconcelos para o livro que muitos consideram a obra maior do poeta – em janeiro o fotógrafo inaugura exposição em São Paulo. Encontrei um trecho em que ele cita a Rádio Timbira, onde atualmente, com a queridamiga Gisa Franco, produzo e apresento o Balaio Cultural – Márcio e Celso Borges foram os entrevistados do programa na última terça-feira (29/11).
O trecho diz: “(Se tivesse me casado com Maria de Lourdes,/ meus filhos seriam dourados uns, outros/ morenos de olhos verdes/ e eu terminaria deputado e membro/ da Academia Maranhense de Letras;/ se tivesse me casado com Marília,/ teria me suicidado na discoteca da Rádio Timbira)”. Celso Borges imediatamente lembrou que Gullar havia sido locutor da rádio, antes de ir embora de São Luís, de onde foi demitido por ter se negado a ler um editorial contra determinada greve.
Era atualmente o nome mais importante da poesia de língua portuguesa no mundo. Sua morte deixa um vazio impreenchível. “Tu de nada suspeitas/ e te preparas para mais um dia no mundo./ Pode ser que de golpe/ ao abrires a janela para a esplêndida manhã/ te invada o temor:/ “um dia não mais estarei presente à festa da vida”./ Mas que pode a morte em face do céu azul?/ do escândalo do verão?”, escreveu em Morrer no Rio de Janeiro [2001].
“Mas sobretudo meu/ corpo/ nordestino/ mais que isso/ maranhense/ mais que isso/ sanluisense/ mais que isso/ ferreirense/ newtoniense/ alzirense/ meu corpo nascido numa porta-e-janela da Rua dos Prazeres/ ao lado de uma padaria/ sob o signo de Virgo/ sob as balas do 24º. BC/ na revolução de 30/ e que desde então segue pulsando como um relógio/ num tic tac que não se ouve/ (senão quando se cola o ouvido à altura do meu coração)”, escreveu durante o exílio em Buenos Aires.
Antes, no mesmo Poema sujo: “Corpo meu corpo corpo/ que tem um nariz assim uma boca/ dois olhos/ e um certo jeito de sorrir/ de falar/ que minha mãe identifica como sendo de seu filho/ que meu filho identifica/ como sendo de seu pai/ corpo que se para de funcionar provoca/ um grave acontecimento na família:/ sem ele não há José Ribamar Ferreira/ não há Ferreira Gullar/ e muitas pequenas coisas acontecidas no planeta/ estarão esquecidas para sempre”.
Vivo para sempre em sua obra monumental, Ferreira Gullar está morto – o Governo do Maranhão publicou nota de pesar e decretou luto oficial – e infelizmente não é apenas mais um poema.
Ouça Ferreira Gullar em Notícia da morte de Alberto da Silva:
Jornalista de ciência, Diego Freire parte da mais conhecida manifestação da cultura popular do Maranhão, o bumba meu boi, para discutir a questão do bullying. O resultado é o belo livro-poema Bumba, nosso boi [Empíreo, 2016, 40 p.], verdadeira obra-prima da literatura infantil, ilustrado por Rogério Maroja, com trabalhos espalhados por revistas como Superinteressante, Recreio, Placar, Saúde e Playboy.
A dedicatória a Papete, um dos maiores embaixadores da cultura maranhense mundo afora, evoca o Boi de lágrimas, clássico de Raimundo Makarra, gravado pelo próprio Papete e tantos outros: “também sente dor, e boi também chora”, diz a letra. É um mote para entrar no debate.
O poema conta a história de Bumba, o boi preferido do fazendeiro, cuja língua desejada por Catirina, é arrancada por Pai Francisco para satisfazer o desejo da esposa grávida, tal qual no auto do bumba meu boi.
Mas no poema de Diego Freire, em vez de morrer e ser ressuscitado pela pajelança de índios e cazumbás, “Bumba acabou sem língua” e “passou por poucas e não tão boas com os outros bichos da fazenda, que caçoavam do jeito diferente como ele passara a falar”.
O autor extrapola o universo do bumba meu boi do Maranhão e propõe o diálogo da lenda central do auto da manifestação com outras lendas bastante conhecidas em todo o Brasil: o Saci, a Mula sem Cabeça e o Boitatá, “que, bem, nem boi é”.
As criaturas, que a princípio deviam assustar o protagonista Bumba, acabaram por se afeiçoar a ele, que afinal havia encontrado sua turma: “Mas Bumba sorriu em vez de gritar./ “Parece que enfim achei meu lugar!”/ É que Bumba viu que toda aquela “gente”/ era como ele: diferente”.
O poema conta uma história de superação, por um viés sui generis, o que demonstra que o auto do bumba meu boi é fonte inesgotável de metáforas para compreendermos melhor o mundo, nosso lugar nele e lutar pelo fim das injustiças sociais – afinal, não é disso que tratou o enredo junino desde sempre?
Para ser lido em qualquer época, não apenas por crianças, Bumba, nosso boi é um livro, no fundo, sobre “direitos humanos”, expressão em geral detratada pelos que insistem em sua abstração como uma espécie de entidade sobrenatural, generalizando órgãos e instituições como “defensores de bandidos”.
O grande trunfo do livro de Diego Freire reside bem aí: escolhe um tema, apresenta sua necessidade de debate e faz isso de maneira leve, longe, muito longe de soar panfletário. Sobra até para a hoje onipresente Galinha Pintadinha.
O autor, em foto de divulgação
Serviço
Diego Freire autografa Bumba, nosso boi na programação da 10ª. Feira do Livro de São Luís. Dia 13 de novembro (domingo), às 19h, na Casa do Escritor Maranhense, na Vila dos Livros (Praça da Casa do Maranhão). Toda a programação da FeliS tem entrada franca.
Para os leitores que, qual este resenhista, se maravilharam com o soberbo O homem-mulher [Companhia das Letras, 2014, 184 p.], a espera até que não foi tão grande: dois anos depois daquele grande livro, Sérgio Sant’Anna, gênio absoluto da narrativa curta no Brasil, lança O conto zero e outras histórias [Companhia das Letras, 2016, 173 p.; leia um trecho].
O carioca mergulha na própria memória para escrever os 10 contos do volume. No conto que dá título ao livro, a lembrança de sua passagem, adolescente, por Londres, entre “a tonteira do corpo e a emoção da transgressão”, ao tragar, com o irmão, o primeiro cigarro, um samba de Noel Rosa aprendido com o pai, o primeiro beijo e o primeiro namoro.
Flores brancas é um conto de amor e desamor, dos desgastes provocados pelo cotidiano, certa necessidade de aventura e sobre a amizade, essa delicada forma de amar. O protagonista, como foi o autor, é funcionário da Justiça do Trabalho e professor universitário.
A participação de Sérgio Sant’Anna, então um autor iniciante (havia estreado com Os sobreviventes, em 1969), no Programa Internacional de Escritores (International Writing Program), na Universidade de Iowa, Estados Unidos, é rememorada em Vibrações, narrativa fragmentada, feita de colagens de lembranças, mais de 40 anos depois. Sem caretice, o autor, ali chamado simplesmente pela inicial S, lembra escritores, poemas, casos, drogas e álcool – sempre com o bom humor que lhe é peculiar, lembra, por exemplo, que o programa era apelidado de International Drinking Program, devido aos rios de álcool ingeridos pelos participantes. O tema é retomado em Caminhos circulares.
No prefácio de 50 contos e 3 novelas [Companhia das Letras, 2007, 624 p.], José Geraldo Couto anota que conto é tudo aquilo o que Sérgio Sant’Anna deseja transformar em conto, parafraseando o “conto é tudo aquilo que chamamos conto”. No comovente A bruxa, neste O conto zero, o autor parte de uma situação prosaica, o inseto que batiza o conto, uma espécie de libélula, pousado em seu quarto com vista para o Cristo Redentor, para lembrar Clarice Lispector, musa que chegou a conhecer. Trata o inseto como se este fosse um sinal da presença do espírito da escritora. “De todo modo, muitas vezes fantasiei que voltava à sua casa e partilhava sua cama com ela. Mas não ouso escrever nenhuma vulgaridade sobre Clarice”, confessa.
O museu da memória, conto que encerra o livro, é uma espécie de síntese deste reencontro – embora saibamos que ele nunca se perdeu – de Sérgio Sant’Anna consigo mesmo. Ou melhor: um reencontro dele com suas origens, algo como “por que eu me tornei escritor”, onde surgem temas caros à sua ficção, como sexo, futebol e música.
“No museu da memória há a lembrança de quando eu tinha uns quatro anos, cortando-me com o aparelho de meu pai, ao imitá-lo fazendo a barba. Ah, quando terá começado este verdadeiro eu?”, finaliza.
Veloso, nome fundamental da cultura da Madre Deus. Foto: acervo Philippe Caruru
Nunca entrevistei Veloso. A última vez que o vi foi no Cafofo da Tia Dica. Na ocasião, presenteou a mim e ao compositor Cesar Teixeira, com quem eu bebia no bar por detrás da Livraria Poeme-se, na Praia Grande, com exemplares do mais recente disco da Máquina de Descascar’alho, agremiação carnavalesca que completou 30 anos no último carnaval.
Indaguei-lhe quanto custava e ele respondeu-me que o importante era fazer o disco rodar e tornar mais conhecida a música, o carnaval e a cultura da Madre Deus. O Fuzileiros da Fuzarca completava 80 anos e eu havia acompanhado Cesar, jornalista de formação, em algumas entrevistas.
A vida é a arte do encontro: nem Cesar escreveu sobre os 80 anos do Fuzileiros, com cuja velha guarda deve fazer um show em breve, nem eu sobre os 30 da Máquina.
Patrimônio madredivino, como nomes como Cristóvão Alô Brasil, Marciano, Henrique Sapo e Caboclinho, José de Ribamar Gomes Veloso (9/9/1948-13/8/2016) morreu ontem, aos 67 anos, vítima de cirrose hepática.
Artesão, compositor, percussionista, produtor, decorador e intérprete, trazia na memória sambas inéditos da velha guarda da Madre Deus, de nomes como os citados – parte desta riqueza se perde com ele.
Além da Máquina de Descascar’alho – que realizou um grandioso cortejo pelas ruas da Madre Deus em sua homenagem – Veloso fundou grupos como o Regional 310, Boi Barrica, Bicho Terra e C. de Asa. Era um dos agitadores do evento mensal Tezão de Velho, no Largo do Caroçudo, na Madre Deus – a edição de hoje foi cancelada em respeito ao luto da família, do bairro e da cultura popular maranhense.
Silvério Costa, o Boscotô, parceiro de grupos como o Regional 310 e a Máquina de Descascar’alho, lembra a importância do amigo. “Veloso estava sempre de bom humor, era querido por todos, por sua irreverência, suas histórias e ideias inovadoras. Com ele se vai um pedaço importante de nossa memória”, lamentou.
Autor de hits do carnaval do Maranhão como A laska e Barreira sanitária, parceiro de Erivaldo Gomes em Malementa, durante muito tempo hit bastante apreciado pelos frequentadores da semanal A vida é uma festa, do poeta-músico ZéMaria Medeiros, entre outras, Veloso deixou quatro filhos, entre eles o cavaquinhista Kauê Veloso.
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OBITUÁRIO: JOMAR MORAES
O escritor Jomar Moraes. Foto: Acervo O Imparcial
Faleceu na manhã de hoje o escritor vimarense Jomar Moraes (6/5/1940-14/8/2016), presidente da Academia Maranhense de Letras (AML) por 11 mandatos, autor de livros como Guia de São Luís, O físico e o sítio, Graça Aranha e Vida e obra de Antonio Lobo, entre outros.
Segundo informações, Moraes tinha problemas renais e durante a madrugada uma crise afetou seu coração. Há quase um ano ele doou sua biblioteca, com cerca de 40 mil volumes, à Universidade Federal do Maranhão (UFMA), instituição na qual formou-se bacharel em Direito e recebeu o título de Doutor Honoris Causa.
Jotabê Medeiros e o blogueiro na Feira do Livro de São Luís em 2013, quando ele lançou “O bisbilhoteiro das galáxias”. Foto: Talita Guimarães
Amanhã (23) em São Paulo, o jornalista Jotabê Medeiros reúne diversos amigos para celebrar a obra de Belchior, artista cearense de quem está escrevendo a biografia Pequeno perfil de um cidadão comum, título de uma conhecida canção sua, parceria com Toquinho.
E-flyer de divulgação do evento. Arte: André Kitagawa
“Eu tenho diversos amigos que partilham comigo essa paixão pela obra do Belchior e pela coerência artística dele. Me ocorreu que é legal manter uma obra como a dele, que está agora, talvez, um tanto quanto esquecida, pelo fato de que ele deu um sumiço, que seria legal reunir as pessoas que têm algo a dizer e fazer umas provocações. Os beatniks faziam muito isso, houve uma tradição uma época no mundo cultural, reunir as pessoas, o dadaísmo se reunia no Cabaret Voltaire, lá em Zurique, e lá eles realizavam suas provocações artísticas. A gente esqueceu um pouco essa tradição, tá tudo muito ligado a questões como showbiz, a realização de um show, achei até que essa coisa da extinção do Ministério da Cultura liberou um pouco pras pessoas fazerem ações coletivas sem fins outros que não a própria ação. Esse encontro, Invocação Belchior, é uma coisa assim, eu até brinquei, como tinha essa coisa lá nos beatniks, os belchniks vão se reunir no dia 23 aqui em São Paulo”, anuncia Jotabê.
Biógrafo e biografado têm trajetórias parecidas, como lembra Belchior na autobiográfica Fotografia 3×4, “pois o que pesa no norte/ pela lei da gravidade/ disso Newton já sabia/ cai no sul, grande cidade”, ele cearense de Sobral, Jotabê paraibano de Sumé, o primeiro desce para o eixo Rio-SP em busca de um lugar ao sol na MPB da época dos grandes festivais, o segundo forma-se em jornalismo em Londrina/PR e fixa residência em São Paulo, onde consolida-se como um dos mais importantes jornalistas culturais em atividade no país.
“Belchior tratou em algumas músicas da questão da migração, tem também entrevistas que tratam dessa coisa, o fato do cidadão migrante, principalmente do Nordeste, ser visto como um pária, às vezes, aqui no Sul, Sudeste, ser visto como um ser, eles fazem essa confusão, geralmente é o porteiro ou é o pedreiro, no Rio de Janeiro chamam todo mundo de Paraíba, aqui em São Paulo chamam de baiano, sempre com um tom meio agressivo, e o Belchior sentiu isso na pele e fez algumas músicas maravilhosas sobre esse sentimento. Eu sou migrante, mas vim beber pra cá pro Sudeste, conheço esse sentimento meio transversalmente, mas reconheço a grande poesia que nasce desse estado de preconceito. Belchior fez maravilhas, Fotografia 3×4 é a história de todos nós”, prossegue Jotabê.
A Belchiorgrafia em progresso e o evento de amanhã são exceções no noticiário relativo ao artista nos últimos anos, seu bigode grisalho tingido pelo marrom da imprensa sensacionalista, especulando sobre dívidas, motivações e até seu quadro psicológico. Jotabê trabalha com afinco, em meio a uma agenda intensa de compromissos profissionais, atuando como jornalista independente há pouco mais de um ano, escrevendo regularmente em seu blogue, no site Farofafá e no portal Uol.
“Seria ótimo poder falar com ele, cotejar alguns temas da obra dele, perguntar, por exemplo, eu tou tendo que ir a fontes, parceiros, para chegar, por exemplo, por que o desespero era moda em 73?, um verso famoso dele [de A palo seco]. O desespero era moda em 73 por que naquela época quem mandava no país era um general chamado Emílio Garrastazu Médici, era linha dura, a perspectiva para artistas e pessoas que eram vítimas da censura era muito dura, então ele cunhou esse verso em relação a esse período do Médici, e pouca gente sabe disso. Eu gostaria de falar com ele e perguntar para ele, diretamente. Não vai ser possível”, contenta-se.
Em 2016 Alucinação completa 40 anos. O disco de Belchior foi eleito o melhor da música produzida no Ceará, em enquete do jornal O Povo. Em outubro, o compositor completa 70 anos, quando deve ser lançado Pequeno perfil de um cidadão comum. “Vai estar na mão do editor daqui a um mês, então acho que sai. Tá previsto, vai sair”, garante. Segundo livro de Jotabê Medeiros, o aguardado sucessor de O bisbilhoteiro das galáxias – No lado b da cultura pop [Lazuli, 2013], será certamente um presente e tanto para Belchior, seus fãs e interessados em música e jornalismo cultural em geral.
Ouça o álbum Alucinação:
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O texto toma por base entrevista concedida por Jotabê Medeiros ao blogueiro no programa Conversa à Beira Mar da última quarta-feira (20), na Rádio Timbira AM (1290KHz).
É como se Miguel Del Castillo fosse um Nelson Cavaquinho da literatura: seus contos permeados de morte e separação, ele escolhido um dos 20 melhores jovens escritores brasileiros pela revista Granta.
Restinga. Capa. Reprodução
Em Restinga [Companhia das Letras, 2015, 127 p.; leia o conto-título], que dá título e abre o livro, a mãe da protagonista tem um último desejo antes de morrer: visitar a restinga da Marambaia, em conto que cita o Tom Jobim de Querida: “Longa é a praia, longa restinga, da Marambaia à Joatinga”.
“Começou as sessões um ano após a separação” e “Ainda não contou detalhes da separação na terapia” são frases que adiantam apenas em parte Olimpíadas. Empire State retrata um conflito entre irmãos com ecos bíblicos.
A Violeta que batiza conto sobre as ditaduras militares latino-americanas também morre. No texto se mesclam realidade, memória e ficção, português e espanhol.
Paranoá é outro conto povoado pela morte. A música volta a dar as caras, desta vez Stairway to heaven, do Led Zeppelin: “Naquela época cabia pouca coisa no disco. Acho que tiveram que parar a música do nada para fazer caber”, a narrativa termina abruptamente como supostamente a música.
Uma garota se lembra da babá – morta – enquanto passeia em um Cruzeiro. Leme, a narrativa mais curta do volume, é sobre desencontro – de algum modo, uma espécie de separação. Em Cancun, reencontro e fuga: um menino brasileiro de onze anos vai visitar no México o pai envolvido sabe-se lá com o quê. Ferido, o pai resolve voltar ao Brasil.
Duas gêmeas, o casamento e a separação de uma delas, outrora o marido era seu sócio, em Colônia. Em Arraial, em tempos de facebook, a tentativa de uma turma de amigos do tempo de colégio de se reencontrar no Recife.
O subtítulo anuncia na capa: “dez contos e uma novela”. Laguna, a novela que encerra o livro, acompanha as aventuras de um jornalista pelo Uruguai, com uma guia de museu recém-conhecida. É um passeio por paisagens e sensações, numa narrativa em que o abandono também se faz presente, como a música do Ratones Paranoicos, grupo oitentista de rock argentino. “No pierdas tiempo, nunca”, diz uma pichação catalogada no último texto de Restinga. Uma espécie de lição de que a vida é o que acontece enquanto a planejamos.
Aos 26 anos Mayra Fontebasso cursa o último período de Letras na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), no interior paulista. Natural de Itu, a mãe da Clarice ganha a vida mexendo ou produzindo textos alheios: “pesquisadores, professores universitários, advogados, jornalistas, escritores e políticos que querem textos e discursos mais bem elaborados” procuram a moça à frente da Leitura Profissional, onde escreve, edita, revisa e traduz.
Mayra é também contadora de histórias e diz gostar “de fingir que toco chorinho ao violão”. Ela segue sem se levar muito a sério: “descobri que estudo literatura e tento fazer isso a sério, mas falta dinheiro”, apresenta-se.
Raça nº. 13, 1929. Capa. Reprodução
Sua pesquisa de conclusão de curso é sobre “Os modernistas e a revista Raça (1927-1934)”, sob orientação do Prof. Dr. Wilton José Marques e, faz questão de frisar, apoio financeiro do CNPq. A publicação circulou na região no período assinalado.
Ela revela desde sempre se interessar “pela história do interior paulista e seus arranjos políticos pautados por interesses oligárquicos e perpetuadores de desigualdades que persistem até hoje”. Reside em São Carlos/SP desde 2008 e a partir de um estágio na Fundação Pró-Memória local passou a estudar a “falsa vanguarda” do movimento modernista Verde-Amarelo a partir de sua manifestação literária na revista são-carlense do final dos anos 1920.
Foi em meio a essa pesquisa que deu com os óculos em três poemas desconhecidos de Carlos Drummond de Andrade [1902-1987] publicados na Raça. É ela quem prefere, com razão, o termo “desconhecidos” em vez de “inéditos”, já que embora não constem de nenhum livro do autor, antologias ou estudos sobre sua obra, os poemas foram publicados na revista (leia-os ao final deste post). É um Drummond inocente, bem diferente do que reconheceríamos como um dos maiores poetas brasileiros do século passado, efígie das notas de cinquenta cruzados novos, homenagem póstuma da Casa da Moeda brasileira no final da década de 1980 – o verso da nota trazia o poema Canção amiga, musicada por Milton Nascimento em 1978.
Sobre os achados Mayra Fontebasso conversou com o Homem de vícios antigos.
A pesquisadora metendo os óculos nos perdidos de Drummond. Foto: Wilson Aiello
Como foi o seu grito de “eureka!” ao se deparar com os três poemas desconhecidos de Drummond? Na verdade as reações foram mais como “Quem é o charlatão se passando por Drummond?” e um “Ahhh, duvido que seja Drummond! Não tem nem o Andrade na assinatura…”. Acho que qualquer leitor do consagrado itabirano teria essa reação ao se deparar com os poemas. Eu, particularmente, conhecia a obra do poeta apenas a partir do livro Alguma poesia [1930]; além do mais, no periódico são-carlense que estudo – a revista Raça, publicada entre 1927 e 1934 – é comum vários colaboradores assinarem com pseudônimos, uma estratégia para evitar desafetos com leitores e para os editores ‘encherem’ as páginas da revista, já que provavelmente vários textos sem autoria e mesmo com nomes suspeitos eram produzidos por eles. Ainda, os poemas eram assinados por um “Carlos Drummond”, sem o Andrade, o que de início me chamou a atenção. Bastou a leitura de alguns títulos especializados, porém, para eu ter a certeza de que essa era uma assinatura do poeta muito utilizada ao longo dos anos 1920. Tirei a teima por meio do livro organizado pelo professor Antônio Carlos Secchin, chamado 25 poemas da triste alegria [CosacNaify, 2012], escrito por Drummond em 1924 e até então desconhecido. Nesse livro há um texto sobre os pseudônimos utilizados por Drummond, o que me levou à Bibliografia comentada de Carlos Drummond de Andrade minuciosamente organizada por Fernando Py, que fez um levantamento de toda a obra drummondiana publicada de 1918 a 1934 [2ª. edição, aumentada; Fundação Casa de Rui Barbosa, 2002]. Em nenhum destes livros os poemas da revista são-carlense apareciam, nem mesmo no Inventário do Arquivo Carlos Drummond de Andrade, que possui mais de dois mil itens aos cuidados da Fundação Casa de Rui Barbosa, encontrei qualquer referência aos poemas da Raça. Com esses livros foi que passei a conhecer o jovem Drummond que publicava principalmente no jornal republicano Diário de Minas. Inclusive suspeito que haja uma coletânea de mais de 140 poemas-em-prosa semelhantes a estes que encontrei em uma monografia defendida na UFMG que, infelizmente, não está disponível para leitura online em lugar nenhum e já virou um mito para mim. Preciso passar por Minas Gerais e correr atrás desse trabalho.
Você é estudante do último período de Letras. Sua pesquisa é sobre a revista Raça. Qual a abordagem de seu trabalho monográfico? Olha, a abordagem é a paixão em enxergar na literatura toda uma organização de pensamento sobre o que se falava e se escrevia em uma dada época. Vou tentar simplificar: gosto de pensar sobre como se relacionavam num determinado período a obra literária, no caso a revista Raça, o seu público leitor e a sociedade que permitiu que essa obra surgisse e circulasse. Dizem que essa é uma abordagem historiográfica, mas desconfio que esse seja o nome que deram para essas pessoas loucas como eu que amam papeis antigos e “fontes primárias” que nos fazem espirrar e que são um amontoado de peças de um quebra-cabeça que dificilmente poderá ser completado. Estudando a Raça tenho a oportunidade de entender melhor como pensava a ala mais conservadora do movimento modernista, aquela vinculada aos Verde-Amarelos como Cassiano Ricardo, Menotti del Picchia e Plínio Salgado, para citar alguns nomes que aparecem na revista. Consigo, então, olhar ao mesmo tempo para o movimento modernista a nível nacional conflitando-o com o dado local, com a recepção de suas ideias e com as articulações de intelectuais conhecidos com personalidades locais que possuíam um projeto de construção para um país, um projeto de nação calcado na definição do que seria justamente a “raça brasileira” em meio aos mitos do caldeamento e da mistura entre o que denominam – nessa ordem hierárquica –como bandeirantes paulistas, indígenas e negros. Na minha pesquisa pretendo delinear melhor quem são e como pensavam os escritores modernistas que contribuíram para a revista são-carlense, discutindo o projeto editorial que sustentava um projeto de nação para o Brasil. Já no TCC o tema Drummond será incontornável e vamos ver o quanto conseguirei me aprofundar na produção de juventude do poeta.
Os poemas de Drummond são ruins, o que é justificável: era então um autor bastante jovem e ainda desconhecido. Como você os localizaria dentro da obra do poeta? Acha que ele se envergonharia deles? Eu sou bem na minha, sabe? Sou mãe, lutei muito para chegar perto de concluir minha graduação, sempre tive que trabalhar para me manter na universidade, sei que não li nem um quinto do que deveria ter lido até agora para fazer o que faço… Aliás, suspeito muito do que faço e do que penso, e tenho certeza que esse badalo todo o Drummond é que criou só para se vingar de mim aumentando expectativas em torno da minha pesquisa [risos]. Certamente ele detestaria o que estou fazendo. Não gosto de dizer que os poemas são ruins, prefiro dizer que são imaturos, ingênuos, “manjados”; mas têm o seu encanto justamente por nos lembrar de que o Drummond não nasceu grande. Ele também seguiu modelos, idolatrou outros poetas, por vezes os imitou descaradamente até achar o seu próprio estilo e publicou essas “bobeiras de juventude” loucamente, passando a vida negando essas produções e tentando escondê-las. São poemas-em-prosa (ou prosa poética), um estilo de escrita usado por muitos poetas porque permite certa narração mais próxima à realidade ao mesmo tempo em que contém elementos poéticos como o ritmo e a métrica, as metáforas, as imagens resgatadas por meio da linguagem poética. Drummond escreveu muitos poemas-em-prosa, então não é uma novidade para os estudiosos, mas esses achados reforçam o que o pesquisador John Gledson apontou já nos anos 1980 [Poesia e Poética de Carlos Drummond de Andrade, Ed. Duas Cidades, 1981]: Drummond não nasceu moderno e passou por um processo de formação, embora ainda haja certa resistência a essa leitura. São poemas “penumbristas” porque se vinculam a uma tendência literária do período de transição entre os séculos XIX e XX no Brasil, pré-modernista, como chamam os especialistas. O Penumbrismo não chegou nem a ser uma “escola literária”, foi mais uma estética, um estilo calcado nos poetas franceses e italianos que tratavam de temas intimistas. No Rio de Janeiro, onde residiam escritores como Ronald de Carvalho, que inclusive cunhou o termo “penumbrismo”, essa estética era mais difundida. Nos anos 1920 o jovem Drummond lia muito Ronald de Carvalho e também Guilherme de Almeida, Ribeiro Couto e Eduardo Guimaraens, todos tributários dessa “atitude penumbrista”. Os traços simbolistas dos poemas que encontrei fazem referência a um Alphonsus de Guimaraens, por exemplo, muito lido e admirado por Drummond. São poemas com o “espírito” da época, “penumbristas” devido às várias reticências e ao tom melancólico e de solidariedade com um outro que não sabemos quem é; e “simbolistas” por evocar imagens como as “mãos soluçantes que dançam”, as “mãos viúvas que tateiam insones” etc. Em uma análise mais séria esses traços são vários e em um artigo futuro pretendo aprofundá-los.
A obra de Drummond vem sendo reeditada pela Companhia das Letras. Você é leitora de Drummond e de poesia em geral? Dele, qual o seu livro predileto? E quais são os teus outros poetas de cabeceira?
A pesquisadora tietando a estátua do poeta em Copacabana. Foto: acervo pessoal
Eu bebo prosa e transpiro poesia. Não sei se sou boa leitora, mas vou longe quando consigo tempo para ler e até brinco de escrever, nada sério. As reedições de Drummond sempre me deixam ansiosa. Quem dera o mercado editorial fosse mais robusto para os livros não serem tão caros, mas faltam leitores… Livros são caríssimos para mim! É raro eu conseguir comprar alguma edição nova, sorte que existem sebos e bibliotecas. De todos os livros do Drummond é A rosa do povo o que sempre me comove mais, me leva aos prantos e depois me faz rir, me dá um soco no estômago e depois me faz caminhar com fé. A ilustração da primeira edição desse livro logo estará na minha pele, só preciso arranjar tempo para terminar umas adaptações na arte de Santa Rosa [risos], vou colocar mais mulheres nela. Minha cabeceira da cama é um fuzuê. Um vai-e-vem de livros e desenhos e rabiscos… Tem coisa que nunca sai de lá e que nem sempre está em livro. É que tenho o hábito de transcrever o que gosto em pedaços de papeis que se espalham espontaneamente por toda a casa. Cotidianamente, para ficar só na poesia, me deparo com Carolina Maria de Jesus, Manoel de Barros, Patativa do Assaré e Hilda Hilst. Drummond fica sempre ali no cantinho, ele pesa em livro. Tem para todos os humores. Ana Cristina César, Adélia Prado, Cora Coralina, a Patrícia Galvão… Acho que parei no tempo. Olhando aqui ainda vejo um Cacaso de bolso e um Murilo Mendes praticamente impassível em suas letras prateadas.
E de nomes contemporâneos, em prosa ou poesia, você tem lido alguém? Alguém que tenha te chamado a atenção? Eu parei mesmo no tempo. Leio pouco ou quase nada contemporâneo, não por falta de influência, já que tenho uma porção de amigos que vive comentando várias obras. Gosto muito da escrita do [Milton] Hatoum, [Ariano] Suassuna, e de Paulo Lins, [Luiz] Ruffato, Marcelino [Freire]… Posso ir para fora do Brasil? Morro de amores pelo [José] Saramago… O restante eu realmente não tive meios ainda de sentar para conhecer além dos nomes e da fama.
E já é possível responder quais são os seus planos após a conclusão do curso de Letras? Depois do curso de Letras eu pretendo ganhar dinheiro [risos]. Falando sério, não sei ainda se a carreira acadêmica é pra mim, pois embora eu ame pesquisar, os recursos para essa área de estudo são escassos. Gosto de agito cultural, de antropofagia literária e a coisa sempre me parece acomodada demais nas universidades. Adoro a ideia de dar aulas para jovens! Quem sabe algum projeto surja desse desejo de transformar as pessoas por meio da literatura… Talvez eu tente uma Pós-Graduação para continuar estudando o pensamento conservador na literatura brasileira, ou talvez eu parta mesmo para projetos e ajude a divulgar o que encontrei para estimular outros pesquisadores. Nesse rolo todo o certo é que continuarei trabalhando com revisões, traduções e aprimoramento de textos. Há oito anos tenho uma empresa nessa área, a Leitura Profissional, e meus clientes são pesquisadores, professores universitários, advogados, jornalistas, escritores e políticos que querem textos e discursos mais bem elaborados. Primeiro me formo, depois vejo onde hei de fincar minhas raízes.
Fac símile da página com os poemas perdidos do jovem Drummond. Reprodução
POEMAS PERDIDOS
Revista Raça, nº. 13, jun.1929, p. 32 – São Carlos/SP
Acervo de Octavio C. Damiano – Fundação Pró-Memória de São Carlos
[Ortografia atualizada pela pesquisadora. O poema compõe parte do corpus da pesquisa de iniciação científica Os modernistas e a revista Raça (1927-1934), empreendida por Mayra de Souza Fontebasso sob a orientação do Prof. Dr. Wilton José Marques (Departamento de Letras/UFSCar) e o financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Contato: leituraprofissional@gmail.com]
O poema das mãos soluçantes, que se erguem num desejo e numa súplica
Como são belas as tuas mãos, como são belas as tuas mãos pálidas como uma canção em surdina…
As tuas mãos dançam a dança incerta do desejo, e afagam, e beijam e apertam…
As tuas mãos procuram no alto a lâmpada invisível, a lâmpada que nunca será tocada…
As tuas mãos procuram no alto a flor silenciosa, a flor que nunca será colhida…
Como é bela a volúpia inútil de teus dedos…
O poema das mãos que não terão outras mãos numa tarde fria de Junho
Pobres das mãos viúvas, mãos compridas e desoladas, que procuram em vão, desejam em vão…
Há em torno a elas a tristeza infinita de qualquer coisa que se perdeu para sempre…
E as mãos viúvas se encarquilham, trêmulas, cheias de rugas, vazias de outras mãos…
E as mãos viúvas tateiam, insones, − as friorentas mãos viúvas…
O poema dos olhos que adormeceram vendo a beleza da terra
Tudo eles viram, viram as águas quietas e suaves, as águas inquietas e sombrias…
E viram a alma das paisagens sob o outono, o voo dos pássaros vadios, e os crepúsculos sanguejantes…
E viram toda a beleza da terra, esparsa nas flores e nas nuvens, nos recantos de sombra e no dorso voluptuoso das colinas…
E a beleza da terra se fechou sobre eles e adormeceram vendo a beleza da terra…
Burroughs [Veneta, 2015, 128 p.], de João Pinheiro, outro brasileiro de reconhecimento internacional, é um mergulho profundo na atormentada mente do escritor beat – o quadrinista já havia hqbiografado outro da geração, em Kerouac [Devir, 2011]. A impressão arroxeada do miolo da graphic novel lembra as provas mimeografadas da escola da infância.
“A linguagem é um vírus vindo do espaço”, determina um dos primeiros quadros da história. O big bang de William Burroughs (1914-1997) foi o assassinato de sua esposa Joan, numa brincadeira de de seu xará Tell.
A HQ retrata um Burroughs perseguido por fantasmas, escrevendo para fugir deles, seu processo criativo, o método cut up utilizado por ele, Mugwumps, drogas, alucinações, o famoso inseto de Kafka, sua bissexualidade, a interzona e o Almoço nu – levado ao cinema por David Cronenberg. Também estão lá a violência – sobretudo contra homossexuais – e a sociedade que a aplaude, aos gritos de “bandido bom é bandido morto”.
“Morfina, heroína, dilaudid, eucodal, pantopom, diocodid, diosane, ópio, demerol, dolofina, paufium… comi, cheirei, injetei, enfiei no reto… o método não importa, o resultado é sempre o mesmo: dependência”, revela a certa altura. “Foram 15 anos no vício. Aos quarenta e cinco anos de idade, me livrei da doença da dependência. (…) Registrei minhas alucinações em centenas de páginas que mais tarde seriam publicadas sob o título Almoço nu”, continua. E arremata: “A única coisa real sobre um escritor é o que ele escreve, e não a sua vida. (…) Sinto-me forçado à conclusão apavorante de que nunca teria me tornado um escritor… sem a morte de Joan”.
Burroughs é, em suma, a história da busca de seu protagonista, um artista que viria a influenciar gerações, por salvação através da literatura, sua única crença possível.
Vencedor de um grande prêmio literário, de repente Graciliano se vê entre os dilemas de quem passa a ter todo o tempo do mundo para gastar com apenas uma preocupação: escrever. O problema é uma espécie de bloqueio, criado também, talvez, justamente pelo excesso de tempo livre – e a consequente dificuldade para administrá-lo. A escrita, que deveria garantir a entrega de um próximo livro a um editor em determinado prazo, é dividida entre festas, álcool e sexo, tudo em doses exageradas.
O ano em que vivi de literatura. Capa. Reprodução
Graciliano é o protagonista de O ano em que vivi de literatura [Foz, 2015, 251 p.], de Paulo Scott, criador, como sua criatura, premiado: a Bolsa Petrobrás de Criação Literária garantiu-lhe a escrita de Habitante irreal [Alfaguara, 2011, 264 p.], com que venceu o prêmio Machado de Assis da Fundação Biblioteca Nacional em 2012, e o volume de poemas Mesmo sem dinheiro comprei um esqueite novo [Companhia das Letras, 2014, 80 p.] venceu em 2014 o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA).
O ano em que vivi de literatura poderia ser facilmente etiquetado como “autoficcção” – discussão e rótulo pelos quais Scott não nutre interesse. No volume não é possível distinguir que fatos foram realmente vividos pelo autor dos inventados por ele para sua personagem, que vive em geral rodeado de gente, mas constantemente sente-se solitário.
Parece contraditório, mas o que Graciliano busca é aplacar o vazio dessa solidão através de relacionamentos fugazes – alguns encontros são marcados pelas redes sociais. Os momentos de convívio com os pais não são bons e a aventura dele é também a busca de uma irmã que sumiu no mundo. Em alguma medida, o livro expõe ainda as entranhas do mercado editorial brasileiro.
O título brinca com outra contradição: justo no ano em que vive de literatura, Graciliano perde prazos e gasta o tempo com outras questões e simplesmente não escreve – embora a quem lhe fizesse a infalível pergunta sobre livro novo, sempre tinha uma desculpa, um enredo na ponta da língua, no que diferem criador e criatura.
Paulo Scott conversou com o Homem de vícios antigos. A entrevista foi além de O ano em que vivi de literatura. Ao anunciar, no chat de uma rede social, a intenção de realizá-la, antes de enviar-lhe o bloco de perguntas por e-mail, ele comentou: “o livro ficou pronto em 2014 e revisitá-lo em face de novos questionamentos é instigante”.
“Estou muito envolvido com o Marrom e amarelo, que é sobre racismo no Brasil”, antecipou. Seu próximo livro sai em 2017 pela Alfaguara.
Paulo Scott: “Um escritor precisa teimar, manter-se naquilo que acredita e continuar”. Foto: Foz Editora/ Divulgação
Em uma reportagem para a Revista da Cultura [Eu, eu mesmo e eu também, #100, novembro de 2015], que conta com depoimento seu, o jornalista Ronaldo Bressane aborda a questão da autoficção, no que você declara não acreditar. Talvez o charme seja a dúvida, a não distinção, mas o quanto há de autobiográfico e de invenção em O ano em que vivi de literatura? O que posso dizer a você, meu caro, é que não busquei com esse livro – que para mim é sátira (talvez intrincada demais, admito) – concretizar teoria, leitura acadêmica ou experiência estética sobre a confusão entre vida do autor e possíveis desdobramentos contidos na trama para induzir semelhança (e disso curiosidade) em relação à sua biografia, sua realidade. Suponho que leitores que acompanham minha trajetória – e tenham informação sobre o que significou eu ter colocado a produção literária e a leitura de obras literárias como prioridade durante um pouco mais do que sete anos – possam, em algum momento, antes da leitura do O ano em que vivi de literatura, imaginar (e esperar) a existência de revelação relacionada ao que foram esses dias, esses anos para mim. Contudo, não se trata disso. Não é também minha intenção – sobretudo em um projeto de romance executado em primeira pessoa – glamorizar aposta pessoal (que, no fundo, não passa de aposta pequeno-burguesa, mesmo se tratando, ou especialmente em razão disto, de escritor brasileiro, escrevendo em português em um país como o Brasil, onde as pessoas, no cômputo geral, nem sequer leem os seus escritores contemporâneos) que é escolha só minha e interessa só a mim.
Aliás, cabe o elogio: baita título! O livro narra o período em que o protagonista pode literalmente viver a partir de um prêmio recebido. Infelizmente, mesmo num universo literário mais profissionalizado, ainda é preciso esperar um prêmio para poder “viver de literatura”, já que a venda de livros ainda não o permite? Antes quero dizer que é uma grande alegria receber esse retorno positivo da sua leitura do livro. Pois é. Não temos um mercado literário forte no Brasil, um mercado que, em decorrência de quantidade expressiva de leitores, sustente um projeto de longo prazo de um escritor bancado exclusivamente pela venda de seus livros. Estou longe de conseguir me sustentar unicamente com os royalties obtidos pelas vendas dos livros que escrevi. Consegui me manter, de maneira simples, comedida mesmo, sem ter de recorrer a atividades fora do meio literário, por quase seis anos – nesses quase oito anos de exílio carioca. Isso aconteceu graças a um contexto (de sorte) de bolsas, prêmio, adiantamentos, de pagamentos advindos da venda dos direitos de adaptação de livros meus para o cinema, de convites para festas, feiras, festivais, viagens, programas literários que remuneram os autores, de convites para oficinas de criação literária, para palestras em universidades – isso tudo em um panorama econômico bastante favorável, ao menos aqui no Brasil. Não é algo com que se possa contar para sempre. Um prêmio literário que pague um valor importante, esteja-se falando ou não de autor profissionalizado, pode garantir alguns meses de vida integralmente voltada à produção literária, talvez um ano e alguns meses, se houver uma boa programação, dificilmente assegurará mais do que isso; e isso, entretanto, é muito melhor do que nada. Gosto de pensar que o livro trata do fim de um ciclo e do início de outro, de uma realidade no relacionamento entre leitores e autores que se transformou radicalmente com o avento da internet e das redes sociais (e, a partir disso, de uma época de decadência, mediata e imediata). Quando o programei e quando o escrevi, para tratar apenas de um dos aspectos possíveis dessa realização, ainda estávamos vivendo a onda de muitos eventos literários, eventos em grande quantidade e podendo bancar boa remuneração aos autores convidados, recebendo-os e paparicando-os, muitas vezes, de maneira como não se vê nos melhores eventos literários da Europa e da América do Norte, que são realidades que conheço um pouco.
É possível dizer que atualmente você vive de literatura? – não necessariamente de apenas escrever, mas de participar de eventos literários, ministrar oficinas, palestras etc. Não tenho mais como bancar esse meu “vivendo na corda bamba do mundo literário” sem comprometer a tranquilidade mínima que preciso para produzir, para ler tudo que preciso ler e para existir (especialmente em um país em crise). Ano passado peguei um trabalho fora do mundo literário para poder equilibrar as contas – penso que não é inoportuno o registro: moro no Rio de Janeiro, uma cidade que está se tornando cara demais e violenta demais. Neste ano que está iniciando, priorizarei uma vida com melhor qualidade, com doses menores de ansiedade no gerenciamento das incertezas financeiras, assumirei compromissos fora do universo literário anunciado na sua pergunta. No fundo, parece, será uma guinada drástica, embora não tão drástica como a cometida em 2008, quando deixei Porto Alegre e me transferi para o Rio de Janeiro. A ver.
Você tem formação em Direito. Atua ou atuou na área? O quanto ter que buscar a sobrevivência noutro campo atrapalha a produção literária e vice-versa? Só quem passou, de fato, pelo planejamento de buscar uma rotina de tempo integral para conseguir ler e escrever poesia e prosa ficcional na hora do dia que lhe parecer mais conveniente sabe o que significa uma ruptura dessa natureza, o que é ter de negociar com todo o tempo livre que você um dia idealizou. Nessa perspectiva, quase tudo que rompe esse estado ideal acaba atrapalhando sim, mas não é o fim do mundo. Ter um emprego paralelo, uma profissão paralela, não é necessariamente ruim – não acredito em regras absolutas, resisto sempre a fórmulas e receitas fechadas –, há muitos autores que para produzir com qualidade precisam ter tranquilidade, estabilidade profissional, mesmo que isso lhes custe uma redução grande do tempo disponível para ler e escrever textos literários. A produção literária poderá ser boa e relevante esteja o autor submetido, ou não, à rotina de um trabalho diverso da literatura. A vida, no grande arco da existência, e esta realidade não pode ser negligenciada, precisa ser viabilizada da maneira mais inteligente possível. Fora do meio literário, respondendo à primeira parte da pergunta, atuei profissionalmente na área do Direito, como advogado, consultor e professor.
O protagonista de O ano em que vivi de literatura chama-se Graciliano, nome de seu autor predileto. Fora o fato de serem gaúchos vivendo no Rio de Janeiro, quanto há de Paulo Scott na personagem Graciliano e o que mais te chama a atenção e/ou você admira e/ou persegue no alagoano Graciliano Ramos? Levei bom tempo para encontrar a personagem Graciliano. Era importante não concebê-lo como um modo de retransmitir (um truque para retransmitir) minha voz, minhas ideias, meu itinerário. Não me vejo nele, não me vejo no olhar de historiador dele, na solidão dele, nos excessos e idealizações dele, na impassibilidade dele quando retorna ao passado, quando refaz (relata) um ano específico da sua vida sem o temor de encarar o que fez de bom e o que fez de ruim (para si e para outros). Não costumo criar altares, tento não me fazer refém das cristalizações, dos espelhos, das certezas; mesmo que inicialmente isto pareça algo descabido, procuro dispensar o mesmo cuidado a texto de um escritor novato e desconhecido que dispenso a texto escrito por um Graciliano Ramos, por um Machado de Assis, por um Érico Veríssimo, por um Guimarães Rosa (que são figuras que admiro demais). Há, porém, nessa lógica de não canonizar, as afeições inexplicáveis, incontornáveis, os diálogos mentais, que desenvolvemos em relação a certas figuras; isso é forte quando penso em Graciliano Ramos – tem aquele modo de escrever e tem aquela impetuosidade complexa. Penso que, na linha da pergunta (possivelmente escapando da pergunta), a grande personagem, o grande centro da narrativa deste romance, seja a área imensa, purgatório da beleza e do caos (parafraseando Fausto Fawcett), chamada Rio de Janeiro conflitando com o rumo, não exatamente localizado, do protagonista, a mosca que caiu na armadilha da planta.
O livro aborda também a questão das redes sociais como palco do escritor, como forma de manter contato mais direto com leitores, editores, parentes e paixões. Como você observa a autopromoção se valendo destes canais? Disse em entrevista que foi publicada em novembro do ano passado em jornal brasileiro que as redes sociais aprisionaram a alma – o lado indômito da alma – dos poetas, porque acabamos, poetas e prosadores, cedendo à lógica da quantidade de likes; as editoras, a mídia e todos acabam cedendo a essa contabilidade. Se temos um estádio Maracanã de likes nas telas dos nossos computadores, nos visores dos nossos celulares, estamos bem, não importa a ousadia, a originalidade, a qualidade do que se produziu. Isso é bem fraco. Não há santos nas redes sociais; se você está nas redes sociais, você está sim se autopromovendo. Se você está nas redes sociais, você tem noção de que as “informações dos fatos” precisam ser aquecidas/reaquecidas a todo o momento para não serem esquecidas, para não perderem o peso, nesta avalanche diária de “informações dos fatos”. Não é de graça que as editoras no mundo todo estão induzindo (para não dizer obrigando) seus autores a terem contas no Twitter, no Facebook, no Tumblr, no sei lá onde, porque sabem que a constância, a presença constante na web, está se tornando a grande exigência para que algo se afirme, não desapareça na grande, e ininterrupta, corrida de cavalos na qual se transformou o contemporâneo. Tive, até agora, um número importante de retornos, por mensagens eletrônicas, destacando o decorrer da narrativa a partir do fenômeno das redes sociais – o editor da caixa de comentário do Facebook se tornou mais importante do que o editor Word –; penso que os leitores entenderam o que não está explicitado no livro (já que é um livro de lacunas). Estamos todos mais caretas e desfocados por conta disso, dos editores de texto das redes sociais serem mais importantes do que os editores de textos tradicionais; é um sonho de liberdade, porque, na realidade, estamos embarcados em um elevador que está nos levando cada vez mais para o fundo de uma prisão. Claro, não há dúvida de que estamos vivendo os primórdios de uma situação que mais para frente, mais para o futuro, deverá ser mais bem vivenciada, deverá ser assumida de forma mais madura.
Seu livro narra a vida desregrada de um autor com um fabuloso prêmio literário na conta bancária, em uma aventura regada a doses cavalares de sexo, álcool e festas, revelando também as entranhas do círculo literário/editorial brasileiro. Pode ser lido como sua contribuição para desglamorizar a “vida de escritor” como imaginada por leitores “reles mortais”? Penso que o livro narra o cotidiano de quem passa a ter todo o tempo livre para escrever – não é fácil negociar com esse espaço tão amplo. Ele está perdido e leva um tempo para perceber que está perdido, porque tem o deslumbre e tem a incapacidade de lidar com a nova situação, com a escolha, com os olhares e expectativas dos outros. É certo que a personagem Lenara, a jurada do concurso que colocou no bolso de Graciliano os 300 mil reais que mudariam sua vida, é a presença desencadeadora de certos questionamentos cruciais à trama do livro, mas a verdade é que todos os questionamentos, todas as buscas já estavam na cabeça de Graciliano, muito por conta da sua falta de resignação diante da sua rotina de professor de História, do seu relativo sucesso como escritor gaúcho, do seu relacionamento com o pai, com a ausência da irmã mais velha que, atrás de mais liberdade, desapareceu na vida. Escuto muito sobre os excessos do livro. Bem eles estão lá para acentuar algo, estados emocionais, pequenas tragédias – talvez a mais evidente seja a solidão. Não é gratuito isso dele fazer sexo demais, de se entregar a toda possibilidade que as redes sociais entregam de bandeja no seu colo; como já disse, ele está perdido. O próprio fato dele – um homem de 40 anos, portanto no auge da sua virilidade física e no auge da sua agressividade “bestial” adulta – estar sempre “pronto”, sempre tão facilmente excitado, faz parte dessa composição narrativa, dessa ênfase, dessa solução. Ele – homem, branco, hétero, com ótima educação, inteligente e sortudo – está eufórico, permanentemente excitado, isso é evidente, porque, sem desconsiderar o quanto está perdido, tem nas mãos o passe vip e está, por conta disso, solto feito um cachorrinho recém-nascido que ainda não compreendeu que não passa de um cachorrinho, na Disneylândia dos escritores brasileiros. Evidente que por ser tratar de uma sátira, de uma ficção, há ênfases que estão longe de certas realidades, da minha realidade e da realidade de tantos outros escritores e escritoras; prefiro pensar que essa realidade do livro, essa realidade constituída, é um dos seus méritos, haja, ou não, críticas agudas por trás de tudo que se apresentou. Quanto à desglamorização, o que posso dizer é: nunca acreditei nela, nunca me portei como alguém que aposta nela. No entanto, não pretendi (e não pretendo) fazer dessa minha postura uma cruzada – tenho receio enorme dos paladinos. Sei que todo escritor se deixa levar pelo canto da sereia – em altura ou outra, inebria-se com o próprio trabalho, com o próprio sucesso, com o próprio discurso, com a própria ambição –, e sei que depois a tendência é a de que ele consiga se recompor (alguns, raros, não conseguem abandonar a igreja da vaidade, mas eles e os seus egos, por si só, não são importantes). Nesses 15 anos que se passaram desde a publicação do meu primeiro livro, o História curtas para domesticar as paixões dos anjos e atenuar os sofrimentos dos monstros [Sulina, 2001, assinado sob o pseudônimo Elrodris], vi muita gente boa surgir, brilhar e desparecer, gente que desapareceu porque não tinha a determinação necessária. Não quero realizar diagnóstico, juízo, quero, talvez, é “transfigurar” um tantinho para mostrar como, às vezes, tudo que nos cerca é tão patético, e nós somos patéticos também. Para mim, em resumo, é uma questão de teimosia, um escritor precisa teimar, manter-se naquilo que acredita e continuar, tendo que negociar o tempo inteiro com a solidão. Certa vez conversando com jovem jornalista, pessoa tomada pelo deslumbramento de estar em um grande veículo da imprensa brasileira, pelo falso poder que a posição projeta, justo por estar naquele autoencantamento, falei algo como: cuidado que o teu super hype de jornalista especialista em literatura vai passar (a imprensa brasileira sempre demite) e os escritores que não vieram a passeio, independente de aplauso, continuarão carregando suas pedrinhas, continuarão escrevendo seus livrinhos.
Em boa hora ganha reedição o volume de contos Amar é crime [Record, 2015, 160 p.], de Marcelino Freire.
Dono de voz e ritmo particulares, a prosa do pernambucano radicado em São Paulo não poupa os personagens nesta galeria de desgraçados.
As narrativas são brutais, cruas, secas – o conto Ricas secas, por exemplo, é “livremente inspirado” no romance Vidas secas, de Graciliano Ramos, de que se vale de um trecho.
A “nova edição ampliada”, como nos alerta a contracapa, traz novas histórias em relação ao volume publicado em 2011 pela Edith Editorial. Ricas secas, por exemplo, aborda a crise hídrica paulista.
Em Amor e sangue, o prefácio assinado por Ivan Marques, é o próprio Marcelino Freire, de Rasif [Record, 2008], quem serve de epígrafe: “Cristo mesmo quem nos ensinou./ Se não houver sangue, meu filho,/ não é amor”.
“Oralidade: eis a palavra-chave. A literatura de Marcelino Freire é erguida sobre falas, frases roubadas, pedaços vivos do cotidiano e da miséria social brasileira, que ele recolhe com inteligência crítica, a exemplo do que ocorre em autores como João Antonio e Francisco Alvim”, atesta o prefaciador.
“Contos de amor e morte ou pequenos romances”, é o próprio autor quem define, num subtítulo informal, que não comparece à capa nem à ficha catalográfica.
Impossível não ser tocado pela tragédia da protagonista de Vestido longo, conto que abre Amar é crime: uma garota que, abusada sexualmente na infância, torna-se prostituta e sonha com a roupa que intitula a narrativa.
Em meio a essa prosa de agruras, violenta como os cotidianos que relata, há espaço para a poesia. Como no onírico Liquidação, em que dois carroceiros brigam por um sofá velho: de quem é? Quem viu primeiro? “Ele primeiro viu, repetiu. Ajeitou na noite anterior. Descansou o troço ali. Hoje, recolheria. Nem precisaria abrir crediário das Casas Bahia. De que maneira pagaria?”, rima a tragédia.
Em Irmãos e A última sessão, as igrejas evangélicas que tomaram o lugar de cinemas são panos de fundo para a crítica de Marcelino à fé enquanto engodo do povo. Num o protagonista, abandonado pela mulher, é confundido com um pastor; noutro, um velho, sem família, após sair do hospital, consegue achar o caminho até um cinema pornô que costumava frequentar e encontrar consolo em uma travesti. Mas o cinema já não mais existe.
Em União civil a homossexualidade é pautada. O conto é narrado como se o autor estivesse em uma mesa num evento literário ou ministrando uma oficina – universos do autor.
Seu companheiro de projetos, Jorge Ialanji Filholini – ambos estiveram na Feira do Livro de São Luís em 2014, ocasião em que ministraram oficinas pelo Quebras, patrocinado pelo Itaú Cultural –, assina as orelhas e atesta: foi aquele conto uma espécie de laboratório, “inspirador para o que viria: a “prosa-longa” do solitário e solidário primeiro romance, Nossos ossos [Record, 2013]”.
Amar é crime e a única pena possível para os que se apaixonarem pela prosa de Marcelino Freire é sair imediatamente à procura de outros livros do autor, “fundamental para a nossa literatura contemporânea”, como afirma Filholini na orelha.
Nana Queiroz não temeu envolver-se com personagens. O resultado é uma narrativa leve contando as histórias de um sistema brutal – e covarde
Presos que menstruam. Capa. Reprodução
A tragédia e os dramas particulares e coletivos vividos no sistema penitenciário brasileiro são, em alguma medida, bastante conhecidos. Sobretudo em tempos de rebeliões e mortes em massa, quando o tema, vez por outra, pauta o noticiário nacional.
A jornalista e ativista feminista Nana Queiroz mergulhou na realidade de diversas prisões do Brasil, abordando-as com um recorte inusitado: a vida de mulheres – inclusive gestantes e parturientes – tratadas como homens em prisões. O resultado é o comovente Presos que menstruam [Record, 2015, 292 p.], em que a própria autora torna-se personagem: chegou a ser presa por algumas horas diante da intransigência das autoridades penitenciárias.
Nana enfiou literalmente o pé na lama, envolveu-se, meteu a mão no bolso, emocionou-se. E conta diversas histórias a um só tempo brutais e emocionantes. Não é à toa o subtítulo “A brutal vida das mulheres – tratadas como homens – nas prisões brasileiras”.
A autora não torna nenhuma personagem santa, tampouco faz julgamentos – papel da Justiça, não de jornalistas, é sempre bom lembrar. Mergulha nas histórias, contando-as da melhor forma possível, utilizando-se de memória privilegiada (quase sempre era proibida de entrar com gravadores nas prisões) e texto leve (apesar da dureza e crueza do assunto abordado).
Mas engana-se quem pensa que a história acaba aí: Presos que menstruam deve virar filme ou minissérie em breve e tem levado Nana Queiroz a diversos debates país afora: quem sabe não seja o início de um novo momento da discussão sobre a realidade carcerária no Brasil? Leitura fundamental para gestores e operadores do sistema e aos que teimam em propagar a velha e surrada cantilena do “bandido bom é bandido morto”.
Nana Queiroz conversou com exclusividade com o Homem de vícios antigos sobre o livro, jornalismo independente, ativismo e a citada cantilena, reflexo do “ódio social”.
A jornalista e ativista feminista Nana Queiroz em foto de João Fellet
Presos que menstruam é um livro que garante dimensão humana a mulheres encarceradas, algo que falta na prática cotidiana do jornalismo que cobre esta pauta. A seu ver, onde reside o problema? Eu acho que isso não é um problema do jornalismo, é um problema cultural brasileiro. Eu até entrevistei a responsável pelo sistema penitenciário do Brasil, do Ministério da Justiça, há uns tempos, pr’uma reportagem para a revista Superinteressante sobre bebês encarcerados, e ela falou: “olha, você me desculpa, mas eu nem posso investir muito nesse setor, para melhorar a vida dessas crianças, por que o brasileiro tem tanto ódio no coração, que eles vão pegar pesado em cima do poder público se investir no sistema carcerário”. Por que existe um ódio social mesmo, a velha ideia do “bandido bom é bandido morto”. Essa, pra mim, é a raiz de todos os problemas, que se refletem, claro, na realidade das prisões, se reflete na mídia, se reflete na literatura. Não é à toa que só em 2015 a gente viu o primeiro livro com uma grande reportagem sobre o sistema carcerário brasileiro feminino. É uma questão a ser pensada, é uma questão de ódio mesmo, social.
Um dos grandes trunfos do livro é seu envolvimento com as personagens. De certo modo, você acaba tornando-se uma, por exemplo, no episódio em que ficou retida por algumas horas em uma penitenciária que visitava. O jornalismo precisa enfiar mais o pé na lama, sobretudo ao abordar temas tão difíceis? Olha, os jornalistas sempre enfiaram o pé na lama, nisso eu não tenho nenhum mérito a mais do que as outras pessoas que fizeram grandes reportagens por aí. O que eu acho que faço de diferente, e não sou precursora – Eliane Brum já vem fazendo isso há anos, por exemplo –, é a conclusão de que sentimento faz parte da realidade. Antes o jornalista tentava transmitir uma realidade fria, em que ele era ausente. Eu entendo, como entende, imagino, a Eliane Brum, que é minha grande ídola [risos], que jornalismo tem fatos, opiniões e sentimentos e cheiros e tatos e paladares e tudo isso. Então, isso foi o que eu tentei transmitir com a minha presença no livro, eu tou presente só pra falar de sentimentos, é só pra eu me botar no lugar do leitor que vai estar lendo. Eu também nunca cometi um crime, e estou me relacionando com mulheres que cometeram, eu tentei pensar como as pessoas poderiam se sentir como eu estava me sentindo. Isso faz parte dessa realidade, isso tem que ser discutido, principalmente quando você tá falando, tratando de uma questão que é praticamente invisível por conta do ódio social. A minha capacidade de chegar lá, ter empatia e amar essas mulheres é importante para que o leitor perceba que se ele estivesse lá, talvez ele também as amasse. E talvez valha a pena recuperar em vez de se vingar. Mesmo do ponto de vista puramente egoísta é mais inteligente para a sociedade. Uma mulher presa custa de 2 a 5 mil reais por mês, dependendo do estado. Uma mulher empoderada, capacitada, custa, sei lá, um curso no Senai [Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial] de mil reais por mês, durante um ano, e depois não custa nada. Sabe? É uma questão do tipo: será que a gente não quer recuperar e prevenir o crime em vez de punir, castigar e só se sustentar enquanto sociedade na base do olho por olho e dente por dente?
Como você custeou as despesas para realizar o livro e qual a maior dificuldade em escrever a obra? Como eu custeei as despesas? Com meu dinheiro, trabalhando [risos]. Ninguém me deu dinheiro nenhum. Eu fui fazendo essa pesquisa nas minhas folgas, férias, finais de semana, com meu próprio dinheiro. Quando a editora entrou eles me deram um pequeno adiantamento, mas a maior parte do livro já tava escrita, a apuração já tava feita. Claro que o adiantamento da editora superajudou, a editora é ótima, tem profissionais ótimos, a Record, mas grande parte foi tirada do meu bolso, como um ato de fé no projeto.
Seu livro deve virar filme ou série de televisão. Como estão as negociações? Sim. A gente viu já um edital em Brasília, de 100 mil, para fazer o piloto, agora a gente tá negociando para possíveis patrocinadores. A ideia é produzir o piloto primeiro, com toda liberdade criativa, de ideal e ética que a gente quiser ter, e depois ver que canais topam comprar o projeto do jeito que ele é. Esse ano a gente está investindo muito dinheiro pra que ele cresça, fazendo várias negociações com vários canais, e a ideia é começar a gravação lá pro fim do ano que vem, mesmo.
Seu relato humanizado é escoltado por pesquisas acadêmicas e obras em geral sobre a questão carcerária, embora ainda insuficientes. Em que medida você acredita que seu livro preenche uma lacuna importante sobre o assunto? Poxa, cara, relato humanizado. Eu sempre acredito que antes de ser jornalista eu sou ser humano e eu não acredito naquele mito de que eu tenho que tirar minha roupa de ser humano pra ser jornalista, sabe? Eu acho que, como aquele jornalista que eu conheci a história dele na época da faculdade, me marcou muito e eu decidi que nunca ia deixar de ser humana antes de ser jornalista. É um fotógrafo famoso [o sul-africano Kevin Carter, vencedor do Pulitzer em 1994], tava cobrindo a fome na África e fotografou uma criança no momento em que ela morria e um urubu descia sobre ela pra comê-la, e ele depois se suicidou de culpa por não ter ajudado aquela criança. Eu decidi que eu sempre ia ser o tipo da jornalista que põe a mão na lama, ajuda a criança e perde a foto, e depois, se der tempo, eu conto a história. Eu acho que seria uma história muito mais incrível, de como esse cara salvou essa criança, do que a fotografia da morte e da força da morte. Eu acho que é isso, esse é o relato que eu tento fazer, o relato do ser humano que acontece de ser jornalista e não do jornalista que eventualmente é ser humano.
Em torno de seu livro, campanhas têm sido deflagradas em diversos estados do Brasil em favor de mulheres apenadas. Em São Luís, o Coletivo Fridas realizou a campanha Ciranda de Afetos, em que arrecadou doações, sobretudo de kits de higiene e absorventes, e doaram a detentas, além de lhes proporcionarem momentos lúdicos. Ao escrever o livro você vislumbrava este engajamento? O que acha deste tipo de iniciativa? Nunca, jamais, nenhuma atitude que eu tive como jornalista ou como ativista eu pensei que as pessoas fossem se engajar o tanto que elas se engajaram. O Eu não mereço ser estuprada [campanha contra a culpabilização das vítimas de estupro] foi uma puta surpresa pra mim, o Presos que menstruam, por toda essa mobilização ao redor do mundo foi uma surpresa igual. Eu nunca imaginei, mas foi um acalento tão gostoso. Produzir esse livro me deixou derrotada, desesperançada. Ver que o mundo se preocupa, ver agora as pessoas se preocupando com as crianças presas, é para mim um acalento sem igual.
Você é editora da revista Az Mina, de temática feminista. A revista online também amarga suas dores e delícias. A importância da iniciativa compensa as dificuldades? Engraçado cê perguntar isso: hoje eu acabei de fazer um post, eu nunca trabalhei tanto, fui tão mal paga e fui tão feliz [gargalhada]: ô, se compensa! E compensa por que a gente tem um grupo de leitores crítico que não deixa a gente em paz. Eu adoro isso, sabe? Eu adoro esse clima de, tipo, “eu tou em cima, vocês não vão fazer merda!”. Isso é que devia ser o jornalismo em todo lugar, entendeu? Isso devia ser o jornalismo na grande mídia, isso é jornalismo! É tipo você fiscalizar o poder público, mas você ter o povo fiscalizando você, entendeu?. A gente não é o quarto poder pra ser o quarto poder, que é onipotente. A gente é o quarto poder fiscalizado pelo quinto, que é o povo. Eu acho incrível! A nossa redação é uma redação amorosa, em que o conceito de sororidade, que é esse conceito da irmandade entre as mulheres, chega a seus limites. A gente está sempre aberto a críticas, a gente fala umas com as outras, às vezes até para apontar defeitos, mas de maneira muito amorosa, então a gente tá construindo uma coisa especial, acima da média.
Seu depoimento à campanha #primeiroassedio, do coletivo feminista Think Olga, relatou um abuso sofrido aos cinco anos de idade, de um colega de infância praticamente da mesma faixa etária. Em que medida o sofrimento com a situação levou você ao ativismo em defesa dos direitos das mulheres? Eu nunca tinha tido coragem de falar desse sofrimento antes, em nenhuma outra entrevista, mesmo durante o Eu não mereço ser estuprada, e é duro pra mim. Eu acho que em muitos momentos eu não quis falar por que eu não queria que a minha história pessoal tivesse mais destaque do que a causa em si. E eu continuo não querendo. Mas eu partilhei o meu relato no Primeiro assédio, por que eu achei que o Primeiro assédio merecia engajamento, merecia que as pessoas contassem histórias que iam muito além do assédio para chegar ao estupro e ao abuso sexual severo, como foi meu caso, que me marcou a vida inteira e foi misturado com um quê de culpa cristã mal administrada e um pouco de fanatismo religioso, foi bem grave. Por que eu conto isso? Por que muita gente não sabe que se você for abusada por uma criança não significa que você não foi abusada. Você foi, as características de estupro estão todas lá. É como se você for assassinado por uma criança de sete anos não significa que você não morreu. Então, o estupro por uma criança de sete anos não significa que você não foi estuprada, é o meu caso. Eu, hoje, avalio que a culpa não foi dessa criança, mas dos adultos que estavam ao redor e educaram essa criança pro abuso, por conta de uma cultura extremamente machista, de uma casa que era muito machista, a dele, eu conheço a família dele. Eu [pausa] não sei, eu sei que essa pessoa se tornou um homem difícil de lidar, mas eu tento encontrar [algo] dentro do meu coração para transformar essa dor em construtividade, assim, na vontade de querer que isso não aconteça com outras pessoas, e isso me consola, sabia? Isso me consola.
Quadrinista tornado escritor, Lourenço Mutarelli entrou para a história: foi o primeiro escritor brasileiro a protagonizar a adaptação de um livro seu para o cinema, O natimorto [DBA, 2004; Companhia das Letras, 2009], após uma ponta em O cheiro do ralo, também adaptação de um sucesso literário seu.
O Grifo de Abdera. Capa. Reprodução
Em O Grifo de Abdera [Companhia das Letras, 2015, 264 p.; leia um trecho], Mutarelli realiza um interessante exercício literário ao brincar com várias faces de si mesmo. É um jogo de trocadilhos, desde a composição dos nomes dos personagens, anagramas que ganham vidas e histórias, de dar à vida aspectos de ficção, e de revelar segredos por trás dos bastidores do ofício de escritor – ou do quadrinista, muito mais trabalhoso e menos reconhecido, embora ambos, de algum modo, glamurizados.
Mutarelli tira onda até mesmo com sua fórmula de escrever romances: os protagonistas são sempre homens mais ou menos em sua faixa etária, levando vidas mais ou menos comuns, até um acontecimento surpreendente e uma guinada, confessa.
Suas obras, entre as realmente lançadas e fictícias, estão lá citadas. Amigos escritores, de verdade e inventados, tornam-se personagens: Paulo Lins, Marcelino Freire, Marçal Aquino, Ferréz, além de Raimundo Maria Silva, Oliver Mulato e Mauro Tule Cornelli, que “assinam” O Grifo de Abdera com Mutarelli, este último seu anagrama. Um deles é quem figura nas fotos de orelha e viagens do autor a eventos literários, dentro e fora do Brasil.
O livro é a história de um duplo, fabricado a partir da chegada, às mãos de um dos protagonistas, da moeda que dá título à obra. As obsessões continuam perseguindo o autor, entre citações – entre outros, William S. Burroughs e Kurt Vonnegut, que já tiveram os nomes inscritos noutras obras de Mutarelli –, diálogos ligeiros e certeiros, exigindo e prendendo a atenção do leitor, a vasta pesquisa – um personagem acometido de síndrome de Tourette repete frases grosseiras e, portanto, inoportunas em espanhol digitadas pelo duplo no tradutor do Google – e o entrecruzar de diversos enredos paralelos, a vidinha nada besta de professores, escritores e biscateiros.
É recorrente também a ideia de Mutarelli, personagem, retomar os quadrinhos. Dividido em três partes – O livro do fantasma, O livro do duplo e O livro do livro – O Grifo de Abdera é um presente aos fãs que o acompanham desde Transubstanciação [1991] e/ou aos recém-chegados. Após cinco anos do último romance – Nada me faltará [2010] – quatro do último álbum – Quando meu pai se encontrou com o ET fazia um dia quente [2011] – e três do volume único que reuniu a trilogia do detetive Diomedes [2012], o múltiplo Mutarelli mescla romance e quadrinhos (as 80 páginas centrais do livro) em uma obra que, além de agradar a leitores antigos e mais novos, certamente aumentará seu fã-clube. A pergunta, talvez óbvia, que não lhes calará é: quando O Grifo de Abdera será adaptado ao cinema?