Ex-feirante, dj e cozinheiro, Julio Bernardo, filho de feirante, nos brinda com uma minuciosa radiografia do ambiente das feiras livres, guiado por sua prodigiosa memória, em Dias de feira [Companhia das Letras, 2014, 189 p.; leia um trecho].
Da infância e adolescência passadas em feiras livres, o autor repassa biografias de feiras e feirantes, temperadas por saudosismo, ranzinzice, algum glamour e certa preocupação. Cada ingrediente é justificado.
É um livro recheado de saudades de um tempo que não volta mais, entre histórias hilariantes e trágicas. Mesmo sem perder o bom humor, até para contar as segundas, há críticas a fast foods, a comida super-higiênica – ao menos na aparência – de grandes cadeias de supermercado, à playboyzada consumidora de comida sem graça e, por extensão, ao capitalismo em si, já que na boa e velha feira livre mais valia a lei do fio do bigode. Daí o glamour: algumas situações – calotes, roubos e outros delitos –, eram resolvidos na base da violência, o que o autor aplaude. A preocupação dialoga com o saudosismo e reside no que nos reserva o futuro: o avanço das grandes redes e sua produção em escala industrial acabando com pequenos comércios e seus atendimentos personalizados, o preparo de alimentos mais saudáveis e caseiros, de acordo com as preferências do freguês enquanto sujeito singular.
Dias de feira é engraçado, dedicado aos pais do autor, e nele é reconstruído o ambiente das feiras livres, de sua montagem à hora da xepa, passando por feirantes e fregueses, relações estabelecidas, velhos truques para aumentar as vendas ou, às vezes, lesar donas de casa, embora a honestidade dos feirantes seja sempre exaltada por Julio Bernardo.
O bar é um caso à parte, com dados impressionantes sobre o alcoolismo dos comerciantes – ele não poupa sequer os pais, o que torna seu relato ainda mais verídico e, portanto, próximo do ambiente das feiras, prato principal destas memórias, apesar de o livro ser classificado como ficção na ficha catalográfica.
Apesar da vasta galeria de personagens e histórias, o livro não tem qualquer pretensão sociológica, antropológica ou coisa que o valha. No fiel da balança pesam as lembranças bem humoradas do autor em seus não poucos dias por detrás da banca.
O senhor agora vai mudar de corpo. Capa. Reprodução
O senhor agora vai mudar de corpo [Record, 2015, 111 p.], a frase-título abre o novo livro do pernambucano Raimundo Carrero, em que ele narra as aventuras da internação após um acidente vascular cerebral.
A ficção baseada em experiência real – o autor sofreu um AVC que o deixou com o lado esquerdo do corpo paralisado – remonta a amizade de Carrero com o escritor Ariano Suassuna e sua relação com o Movimento Armorial.
Uma das obsessões do Escritor é Dostoievsky, um dos autores de sua predileção, e a literatura como um todo. Outras referências aparecem ao longo do texto, como Kafka, que justifica mesmo o suicídio de um amigo-personagem.
Escrita em terceira pessoa, a novela apresenta como principal obsessão do autor-protagonista o corpo e suas relações – Cristo, sombras, fezes, luz etc. –, que dão nome aos capítulos (cenas) e as inevitáveis consequências da velhice, diante das dúvidas cruéis pós-AVC: conseguirá o Escritor continuar escrevendo? Estará ficando abobalhado? Tem motivos para temer a morte? À noite as aranhas tecem a negra mortalha com que será conduzido para a morada eterna, pensa.
Perguntas e pensamentos que povoam a cabeça do protagonista, sempre acompanhado de sua esposa, médica, em quem tem plena confiança, com quem dialoga permanentemente buscando a calma e o equilíbrio necessários para superar a situação – fora da literatura, Carrero ainda busca a cura completa.
“O corpo é a única certeza que nos acompanha desde o nascimento até a morte”, a justificada epígrafe de Clarice Lispector. No caso de Raimundo Carrero o corpo é a própria literatura.
Passeios pela História e Cultura do Maranhão. Capa. Reprodução
Hoje (12), às 19h, no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande, o escritor Wilson Marques lança uma caixa de livros reunindo sua produção infantil. O projeto, Passeios pela História e Cultura do Maranhão, reúne os livros Touchê: uma aventura pela cidade dos azulejos, Touchê: uma aventura em noite de São João, Quem tem medo de Ana Jansen?, Touchê e o segredo da serpente encantada, Touchê e a Rafa em A revolta de Beckman e Touchê e a Rafa em A invasão francesa e a fundação de São Luís.
Cinco mil exemplares da caixa serão doados a faróis da educação e escolas comunitárias de São Luís, mas quem chegar ao lançamento, hoje, poderá comprá-la ao preço promocional de R$ 20,00 – isso mesmo. O autor cita a importância da Lei Estadual de Incentivo à Cultura – a caixa tem patrocínio da Cemar, através do mecanismo público – ao possibilitar a doação e a venda a preço de custo das obras.
Sucesso de público, adotadas em várias escolas particulares de São Luís e em escolas públicas em São Paulo, as novas edições das obras de Wilson, embaladas na caixa que ele lança hoje, são ilustradas por Kirlley Veloso, egresso do mercado publicitário que montou seu próprio estúdio, hoje atendendo diversas empresas.
A noite de lançamento de hoje contará com apresentação do grupo Xama Teatro, encenando Histórias da Ilha, peça baseada nos livros Touchê: uma aventura em noite de São João, Quem tem medo de Ana Jansen?, Touchê e o segredo da serpente encantada.
É também o início de uma comemoração de 10 anos de parceria entre o autor e o grupo. Eles realizarão 24 caravanas literárias lançando a caixa, sempre com a encenação da peça, bate-papo literário e a entrega das obras a bibliotecas, incluindo o BiblioSesc, uma biblioteca móvel do Sesc/MA – parceiro do projeto – instalada em um caminhão.
O André Sant’Anna é filho do Sérgio Sant’Anna, mas querer explicar todo seu talento pela genética pode diminuí-lo. Os dois são dois dos maiores contistas brasileiros em atividade, o que mostra que Deus é injusto: como pode tanto talento numa só família? Coisa assim só se viu, talvez, na família do Caetano e da Bethânia. Ou na família Sarney, mas esta não fez nada de útil pelo Brasil ou pelo Maranhão, apesar de tanto tempo no poder. Esta última família seria uma espécie de família de anti-talentosos. Mas o que importa mesmo, aqui, agora, são os Sant’Anna. Na verdade, o Sant’Anna, o André. E seu livro novo, nem tão novo assim, já com quase um ano de lançado, O Brasil é bom [Companhia das Letras, 2014, 190 p., leia um trecho] – o título do livro –, o Maranhão é uma província e às vezes o, digamos, crítico, pode demorar a ler e resenhar coisa ou outra. Está lá, embalado por aquele prato com uma banana espetada por um garfo, o Campo de batalha 5, óleo sobre tela de Antonio Henrique Amaral, de 1974, a prosa elegante e mui característica de um, repito, dos maiores contistas brasileiros em atividade. Sim, o André, que já havia provado isso em livros como Inverdades [7Letras, 2009], Sexo e amizade [Companhia das Letras, 2007] e O paraíso é bem bacana [Companhia das Letras, 2006], mesmo este último sendo um romance. O André, que é escritor, mas também mexe com música e publicidade, sabe utilizar muito bem a ironia, ou vocês não notaram isso a começar pelo título? O Brasil é bom tem um conto chamado O Brasil não é ruim, que ele enxerta o texto inteiro com vários “nãos” para terminar por dizer a verdade. Começa assim: “Os deputados brasileiros não são vagabundos, não ganham quase vinte e cinco mil reais por mês mais uma série de ajudas de custo como passagens aéreas, casa, comida, roupa lavada etc., não passam só três dias da semana em Brasília, onde não atuam somente em causa própria, comprando e vendendo favores e outras paradas que não os tornariam cada vez mais ricos ilicitamente”. E termina assim: “Por isso é que o Brasil é bom”. O primeiro conto do livro, Deus é bom Nº 8, começa tirando uma onda com Lula e a guinada à direita dos governos petistas. O presidente é Cristo e Judas negocia com o centrão e o livra da crucificação, mas o afasta de todos os ideais que moviam o partido antes do mesmo chegar ao poder. É claro que o André Sant’Anna adverte que “os personagens e as situações desta obra são reais apenas no universo da ficção; não se referem a pessoas e fatos concretos, e não emitem opinião sobre eles” e aí está outra coisa muito interessante na prosa de Sant’Anna, o André, de mesclar ficção e realidade e tornar pessoas reais personagens de ficção, tipo a Glória Peres, no conto inicial, que quando “Jesus nasceu num barraco bem pobrinho […] falou: esse menino vai se chamar Jesus. Jesus Cristinho”. Ou o George Harrison que ele foi. Todo mundo foi, um dia, na infância, um ídolo. O beatle aparece em vários contos, os últimos do livro, A história da revolução, A história do rock, A história do futebol e A história da Alemanha. No penúltimo, dedicado a Sérgio e Ivan Sant’Anna, “quando o futebol foi inventado, em 1969, o George Harrison era de Belo Horizonte, e no prédio dele, na escola dele, na rua dele as pessoas ou eram Atlético ou eram Cruzeiro. O primo do George era Atlético. O George era o Tostão do Cruzeiro”. Há ainda contos intitulados O futuro vai ser bom, Nós somos bons, O brasileiro é bom e Amor à pátria. Tudo ironia pura, fina ironia. Duas aspas, o começo e o fim deste último: “Porque eu sou assim: a nível de futebol, a pátria em primeiro lugar”. “A nível de futebol, o que importa é o sangue”. Comentário na rede sobre tudo o que está acontecendo por aí ironiza o discurso de ódio da classe média e da polícia sobre militantes e movimentos de defesa dos direitos humanos. Antológico, este conto mereceria transcrição integral, mas fiquemos com uns trechos, apenas, até para vocês se interessarem pela parada, digo, a prosa do André Sant’Anna, e comprarem o livro – e lerem, que é o que realmente importa: “A culpa é toda do direitos humanos, que vem aqui se meter no Brasil e não cuida dos problemas deles mesmos, desses países que se acha. Porque lá todo mundo faz o que quer, faz terrorismo, fuma drogas, anda pelado com os seios de fora e até faz sexo com homens do mesmo sexo. […] Aí, quando vem um bandido e pega o seu carro no farol e dá um tiro na sua cara, você que é um cidadão de bem, com a sua família, o que é que acontece? Vem o direitos humanos e protege os bandidos e quer que a gente que é homens de bem, que não temos direitos humanos nenhum, fique quieto vendo os estupradores todos levando boa vida lá na cadeia, comendo comida que a gente paga e até levando mulher lá prá dentro, prá fazer sexo. […] Brasileiro não precisa nada desses gringos. Esses gringos é que fazem esses terrorismos. Pode ver que aqui no Brasil não tem terrorismo, não tem terremoto nem nada disso. […] Os gringos vêm aqui e ficam querendo botar esse direitos humanos aqui prá soltar os bandidos todos da cadeia. Mas eles lá prendem bandido de menor. Lá na terra deles pode até pena de morte. Só aqui é que não pode porque os gringos do direitos humanos não deixa. […] Eu sou igual o velho lobo Zagallo, totalmente verde e amarelo”. Na história mais longa do livro, Lodaçal, um par de amigos tem várias vezes seu futuro interrompido, sempre de maneira trágica, tudo narrado com a categoria futebolístico-literária de André Sant’Anna, mineiro que hoje vive em São Paulo e talvez não torça pelo Fluminense, como o pai dele, não sei. Toninho e Chiquinho, os personagens, se alimentam, entre outras coisas, de papel higiênico usado. Há sexo, drogas, violência, “o Toninho engolindo os próprios dentes, a visão toda turva, mas pelo menos não saiu pedaço de cérebro pela orelha, coisa que ia acontecer se o Chiquinho deixasse o Toninho nas mãos dos cidadãos de bem”. É irônico, e talvez por isso engraçado, que a ficção de André Sant’Anna revele tão bem o Brasil cotidiano, com seus problemas, sua ignorância, seus preconceitos, o que deveria ser papel da imprensa, mas esta, na maior parte do tempo e das vezes, prefere praticar ficção para agradar aos patrões, e o André é competente também ao escrever não-ficção, que eu já li, aqui e acolá. “Vou dizer uma coisa pra você, uma coisa que, no país da Copa do Mundo, dos Jogos Olímpicos e das instituições de espancar crianças seria considerado uma blasfêmia absoluta: a Alemanha é muito melhor do que o Brasil. Pode crer.”, termina o livro A história da Alemanha, o livro escrito e publicado antes da Copa do Mundo de 2014, antes da reeleição de Dilma Rousseff, antes, portanto, do panelaço e do “impítima”. Qual a capa de seu livro – quem vê de longe e ligeiro pensa em retrato, mas é uma pintura – o que André Sant’Anna faz é pintar um quadro – futurista? – do Brasil, um Brasil em que a Lei de Murphy devia ser artigo da Constituição. É por isso que a literatura de André Sant’Anna é tão boa!
Sérgio Sant’Anna é o melhor contista brasileiro em atividade. A quem porventura discordar da afirmativa, recomenda-se urgentemente a leitura de O homem-mulher [Companhia das Letras, 2014, 183 p.; leia um trecho], seu mais recente volume dedicado às histórias curtas.
“Conto é tudo aquilo que chamamos conto”, diz a célebre definição de Mário de Andrade. Daí que esta obra de Sérgio tenha contos de duas páginas até O homem-mulher II, que encerra a antologia, com suas 44 páginas, na linha tênue entre o conto e a novela. Ou o roteiro cinematográfico.
Eis aí, aliás, uma espécie de baliza particular para avaliar a qualidade de um livro de contos: quantos deles dariam bons filmes? Sérgio que é autor, por exemplo, de Um crime delicado [1997], romance que originou Crime delicado [2005], de Beto Brant, tem ao menos quatro contos cinematográficos em O homem-mulher: os contos-títulos, que abrem e fecham o volume (o primeiro uma organizada versão cut-up do segundo, como se Sant’Anna guardasse o melhor – e mais trágico – para o final), Lencinhos – comovente sem perder o erotismo, uma das marcas de sua literatura – e As antenas da raça – que seria ainda melhor se terminasse no “suicídio” da protagonista, sem o autor (tentar) entrar na “psicologia” de uma barata.
Os contos-título contam a história de Adamastor Magalhães – ou Fred Wilson, ou ainda Zezé –, paraense que se veste de mulher no carnaval e vai ao Rio de Janeiro tentar a vida como ator, para terminar de forma trágica. Lencinhos narra a paixão de um cinquentão por uma vendedora de lenços cujo marido definha vítima de câncer. As antenas da raça relata o suicídio acidental da embaixatriz Berenice Azambuja, que resulta da vaidade e orgulho bestas da dita grã-finagem. Em O conto maldito e o conto benfazejo e Prosa Sant’Anna reflete sobre o ofício de escritor. Clandestinos revela um adultério. O torcedor e a bailarina relata a paixão instantânea de um torcedor cujo time é derrotado na final de um campeonato por uma bailarina que toma a tela após uma zapeada deste torcedor – que logo esquece a derrota e o mundo ao redor. E há ainda 11 outras histórias, para deleite do leitor, iniciante ou mais acostumado à pena elegante do mestre carioca.
O sexo, a violência, o futebol e a morte, obsessões deste torcedor do Fluminense, estão presentes. E há mesmo um conto – Amor a Buda – em que o autor comenta a “escultura Tentação (Tangseng e Yaojing), de 2005, do chinês Li Zhanyang”, que ilustra a capa e O homem-mulher.
Autor profícuo e consagrado, Sant’Anna iniciou sua premiada carreira literária há 45 anos, com os contos de O sobrevivente (1969), a que se seguiram quase vinte livros entre contos, novelas, romances, peças de teatro e um de poesia [Junk box, de 1984]. Venceu quatro vezes o prêmio Jabuti e é pai do também escritor André Sant’Anna – que a julgar pela qualidade da obra que vem construindo, herdou muito do pai.
A pergunta que não cala ao encerrarmos um livro monumental como O homem-mulher é: como um autor há tanto tempo na estrada consegue soar original? Determinados temas são como marcas de sua prosa, mas a forma como Sant’Anna os aborda soará sempre singular. Para ele, parece, a literatura é a própria vida, que começa com sexo e termina com morte – longe de querer, aqui, entregar o ouro ao bandido. Repete-se a recomendação com que se abre esta resenha: a quem não conhece, o volume serve também como uma bela porta de entrada à obra do autor.
De novo-baiano a tribalista: personagem fundamental da música brasileira, Dadi lança livro em que relembra sua participação em momentos marcantes nos últimos 40 anos
Meu caminho é chão é céu. Capa. Reprodução
Eduardo Carvalho nunca foi conhecido por seu nome de batismo, apelidado desde a infância, mesmo em casa, de Dadi. Mais que testemunha, o baixista é personagem privilegiado de momentos marcantes da música brasileira nos últimos 40 anos. Ele próprio adverte não ser um escritor, mas “um músico que teve a sorte de participar de alguns momentos maneiros da música brasileira”.
Meu caminho é chão é céu [Record, 2014, 175 p.], seu livro de memórias, recém-lançado, é um agradável rememorar de fatos e causos de sua “trajetória-vida”, como escreveu o parceiro Arnaldo Antunes numa das diversas notas introdutórias ao livro, espécies de “bilhetes de recomendação”. Com o ex-Titãs avalizam a obra Marisa Monte, Roberto de Carvalho, André Midani, Jorge Ben Jor, Heloísa Carvalho Tapajós (a Losinha, sua irmã, que escreve o texto de apresentação e a quem o livro é dedicado), Caetano Veloso, Rita Lee e Moraes Moreira. A orelha é assinada pelo jornalista e crítico musical Antonio Carlos Miguel.
Estes nomes dão ideia da importância de Dadi para a música que se fez/faz no Brasil desde que os Novos Baianos a reinventaram com o antológico Acabou chorare [1972] – ele estava lá e de lá para cá, num momento ou outro, trabalhou com todos os citados.
“Éramos músicos melhores no palco que em disco”, diz, a certa altura, sobre A Cor do Som, de que foi membro por 10 anos – fora o período em que o grupo existiu “dentro” dos Novos Baianos. Dadi refere-se ao fato de gostarem de improvisar e seu livro pode ser lido assim: como sucessivas linhas de baixo numa apresentação ao vivo, as lembranças do músico parecem papo em mesa de bar, pela descontração, de improviso, já que o autor se deixa levar pelas próprias emoções – algumas vezes pede licença ao leitor para se adiantar num ou noutro ponto para contar uma boa história sobre determinado personagem. Como se não quisesse perder o fio da meada ou a oportunidade. Casos e causos emendam-se uns aos outros quando Dadi resolveu atender aos inúmeros pedidos: com tantas histórias colecionadas em tantos anos de carreira, ele tinha que escrever um livro.
Personagem da música O leãozinho [1977], de Caetano Veloso, Dadi revela que foi a audição de Samba esquema novo [1963], de Jorge Ben, que o fez decidir que queria ser músico. Tinha então 11 anos e com uma vassoura imitava acompanhar o mestre, com quem viria a tocar depois em discos igualmente antológicos.
Não faltam histórias do mítico Sitio do Vovô, espécie de comunidade hippie onde viveram os Novos Baianos e onde foram gestados discos fundamentais do grupo, de como foi chamado a integrar o time, de viagens dentro e fora do Brasil, de ônibus e aviões perdidos, de aventuras em terras estranhas, das decisões que o destino tomou para ele, de passagens meteóricas por grupos como Barão Vermelho e Tigres de Bengala. Sobre os bastidores que rememora, Dadi também adverte: “com certeza, deixei de contar outras várias maravilhosas histórias”.
A discografia ao fim do livro lista títulos básicos a quem quiser ouvir o instrumentista. Estão lá seus discos solo – Dadi [2005] e Bem aqui [2008] – e títulos seus com os Novos Baianos, Jorge Ben Jor, A Cor do Som, Tigres de Bengala, Barão Vermelho, Caetano Veloso, Marisa Monte, Tribalistas e Rita Lee. Faltam Otto, Zé Ramalho, Walter Franco, Maria Gadú, Péricles Cavalcanti e Nando Reis, fora discos em que ele toca outros instrumentos que não o contrabaixo.
O irmão alemão [Companhia das Letras, 2014, 237 p., leia um trecho] é, de longe, o melhor romance de Chico Buarque. A começar pelo mote: a procura por um filho que Sergio Buarque de Holanda, seu pai, teve na Alemanha, em 1930, antes do casamento.
Compositor consagrado, Chico Buarque – que completou 70 anos neste 2014 – já é também, há algum tempo, nome prestigiado no universo literário, dentro e fora do Brasil. Em O irmão alemão ele mescla memória e autobiografia à pesquisa e ficção.
Notas ao fim do livro dão conta de quem foi Sergio Günther, o irmão alemão de Chico Buarque, “filho de Sergio Buarque de Holanda e Anne Ernst”, que “gravou um número incerto de discos, hoje fora de circulação”.
O livro é narrado por um professor de literatura – alter ego do autor –, que se diverte com o cometimento de pequenos delitos – Chico Buarque chegou a ser detido por um furto de automóvel na adolescência –, a boemia, em fazer a corte a moças desvirginadas por seu irmão mais velho e em fuçar cartas ocultas no interior dos livros da vasta biblioteca de seu pai.
As cartas, reais – com reprodução fac-símile de algumas ao longo da obra –, algumas escritas em alemão, dão conta da existência do personagem-título do livro, o que instiga a porção detetivesca de Ciccio, como é chamado o filho mais famoso de Sergio, a cujo amor pelos livros O irmão alemão presta merecido tributo – lê-lo é como mergulhar nas altas estantes do sociólogo, espalhadas pela casa inteira, cujas “paredes eram feitas de livros”. É quase correr os dedos nas lombadas dos incontáveis títulos de sua coleção.
Não à toa o novo romance de Chico Buarque é oferecido a Sergios: o pai e o irmão, ambos já falecidos, de quem o compositor-escritor se reaproxima, permitindo a seus leitores uma espiadela em sua vida privada – mas só o quanto ele mesmo permite ao descortiná-la, senhor absoluto da situação.
O resto é um piano ecoando ao longe, gemidos no quarto vizinho ou o cochilo do pai com um livro no colo e um charuto em uma das mãos.
Hoje o professoramigo Ramusyo Brasil tem dose dupla de lançamento: às 20h no Cine Praia Grande (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande) ele realiza sessão de pré-lançamento de Maranhão 669 – Jogos de Phoder, um “filme de terror político”. A entrada é gratuita. Os ingressos devem ser retirados na bilheteria com meia hora de antecedência.
Na sequência, às 23h, no Porto da Gabi (Aterro do Bacanga), ele lança O reggae no Caribe brasileiro, fruto de sua tese de doutorado Reggae no Maranhão: música, mídia, poder, defendida em 2011 no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da PUC/SP. Sua pesquisa foi contemplada com prêmios de Melhor Tese de Doutorado da Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Ciências Sociais (Anpocs, 2011) e Melhor Tese de Doutorado da área de Ciências Humanas e Sociais (Fapema, 2012). O livro, financiado pelo edital de apoio à publicação da Fapema, sai pela editora Pitomba.
Marcelino Freire voltou à Ilha. Premiado escritor, autor do ótimo Nossos ossos, entre outros, ministrou oficina de criação literária, pelo projeto Quebras, e de quebra participou da 8ª. Feira do Livro de São Luís.
Eu que sempre imaginei entrevistá-lo, acabei entrevistado por ele, baita honra e responsabilidade, para o quadro Reverbera, do Quebras. Outros personagens da cultura do Maranhão também foram entrevistados por ele, como Bruno Azevêdo e Celso Borges.
Com vasta obra dedicada ao público infantil, Wilson Marques é o patrono da 8ª. Felis. Foto: divulgação
É bastante possível que mesmo entre não leitores, digo, aqueles que só leem por obrigação, a memória de algum livro bata forte se perguntarmos sobre a infância, tenha sido esta abastada ou não.
Ainda que os livros fossem castigos, num distante biblioteca do passado, a memória passeará entre Monteiro Lobato, Viriato Corrêa, Lewis Carrol ou Antoine de Saint-Exupéry, entre inúmeras outras possibilidades.
A literatura infantil é o tema da 8ª. Feira do Livro de São Luís, que neste 2014 tem como patrono o escritor Wilson Marques, pai do personagem Touché, que protagoniza diversas aventuras na capital maranhense, ajudando a contar e compreender um pouco de sua história, lendas e encantos.
O personagem de Cervantes por Picasso. Reprodução
O herói-mirim de Wilson Marques é conhecido de muitas crianças, uma espécie de amigo íntimo. Não por acaso o escritor é um dos mais conhecidos destas plagas, requisitado por plateias diversas que, agora, ganha merecida homenagem desta 8ª. Felis. O mercado o chamaria de best seller local.
Como a luta de Dom Quixote contra moinhos de vento imaginários, é inglória a luta de pais e educadores contra concorrentes reais a roubar dos livros nossas crianças: toda a tecnologia existente de diversões eletrônicas e cada vez mais portáteis parece empurrar a literatura para o campo do “chato” e do “desinteressante”.
É para ajudar a compreender e mudar este quadro – ou ainda, aliar as tecnologias (não por acaso tema da Felis passada) – que se propõem tema e patrono da Feira deste ano, evento já consagrado no calendário cultural da cidade de São Luís, não apenas por força da Lei que garante sua realização, constituindo-a em uma política de Estado.
Infância. Capa. Reprodução
“A primeira coisa que guardei na memória foi um vaso de louça vidrada, cheio de pitombas, escondido atrás de uma porta”, relembra Graciliano Ramos na abertura de um de seus clássicos, não por acaso intitulado Infância (1945). Pois não sabemos, mas num futuro que desconhecemos quando de nossas primeiras aventuras literárias, nossas lembranças terão cheiro e sabor, confundindo-se por vezes com a própria infância.
Como a memória olfativa e auditiva do músico João Pedro Borges, que sob o sol de meio dia saiu à rua para comprar um picolé, após o descanso de depois do almoço, o rádio espalhava a melodia de Coração que sente, valsa de Ernesto Nazareth, a música para sempre marcada pelo cheiro de sorvete, quando o menino enfiou a cabeça no carrinho para escolher o sabor. Não é literatura, mas bem poderia ser. Não é?
A paixão do poeta e jornalista Fernando Abreu pelos livros começou quando, ainda garoto, ficou incumbido de ajudar a cuidar da biblioteca de sua escola, em Grajaú. Ali se tornou um leitor voraz, hábito que o para sempre menino carregaria para sempre.
O livro das ignorãças. Capa. Reprodução
Ninguém traduziu melhor em poesia a aventura rumo ao desconhecido que são a infância e a própria literatura do que o poeta mato-grossense Manoel de Barros. A inventividade de sua poesia, o espanto ante o desconhecido – incluindo suas invencionices – dão a exata dimensão do quão bonito e agradável pode ser embrenhar-se em esquinas que não sabemos onde vão dar.
Sandiliche. Capa. Reprodução
Ronaldo Bressane, convidado da Felis do ano passado, acaba de lançar Sandiliche, um conto que remonta a um amigo imaginário do irmão. Nosso Viriato Corrêa conta que seu Cazuza apressou o amor aos livros por amor às calças. Explique-se: o protagonista de seu clássico desejava trocar as roupinhas de menina por calças de menino. E deu jeito de entrar cedo na escola, único rastro de civilização no povoado em que nascera. É assim que começa a sua história.
Bruno Azevêdo e Karla Freire, casal de escritores premiados, contaram os dois primeiros anos de sua filha nos dois volumes de Isabel Comics, que deixaram de publicar para que a menina não crescesse como uma personagem de HQ. Desconheço maneira mais original de tratar uma coleção de fotografias.
Nem tudo porém é alegria na infância. Há relatos trágicos e comoventes de infâncias perdidas, como no poema Paisagem feita de tempo, de Joãozinho Ribeiro: “debaixo da ponte há um mundo/ feito de gente esquecida/ crianças sonhando infâncias/ infâncias queixando a vida”. Ou nos registros “biográficos” dos protagonistas de Pixote – Infância dos mortos e Aracelli, meu amor, ambos de José Louzeiro, e Eu, Cristiane F., 13 anos, drogada, prostituída, de Kai Hermann e Horst Rieck.
Ler é viajar, é dar asas à imaginação, e a literatura nos permite ser criança, super-herói, mocinho ou bandido, poeta, índio, pirata, bicho, qualquer coisa. Aventure-se conosco!
[texto que escrevi pra revista da #8felis, distribuição gratuita pelos espaços da Feira, que segue até 9 de novembro no Desterro (Convento das Mercês e praças da Igreja e da Flor do Samba). Conheça a programação completa]
Dona Moema, clicada pelo blogueiro, durante entrevista que me concedeu em 2006
Fui pego de surpresa pela notícia do falecimento da amiga Moema de Castro Alvim (22/8/1942-17/10/2014), professora aposentada da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) e sebista. Internada em decorrência de um problema na vesícula, veio a falecer, após 11 dias, vítima de infecção generalizada.
Foram mais de 20 anos de convívio, desde que, ainda menino, mudamos para a Rua de Santaninha (Centro) e comecei a frequentar seu Papiros do Egito, à época localizado na Rua dos Afogados – antes funcionou na Rua do Egito, daí o nome, e hoje está na Rua Sete de Setembro.
Lá adquiri meus primeiros vinis dos Beatles (e depois, grande parte de minhas modestas biblioteca e coleção de discos) e visitá-la era sempre um bom papo, exceto quando acabávamos por enveredar por política e eu silenciava por achar que não valia a pena arranhar a amizade – nascida em Pinheiro, ela admirava o conterrâneo José Sarney como político, no que divergíamos completamente.
Em uma ocasião entrevistei-a para um trabalho de faculdade, um texto para a disciplina Jornalismo em Revista, ministrada pela professoramiga Larissa Leda. Era sobre os sebos de São Luís. A equipe obteve uma boa nota com o trabalho, mas a entrevista que me concedeu dona Moema, como sempre a chamei, é ínfima percentagem do muito que conversamos, sobre tudo, nestas mais de duas décadas de convívio, compras e cadernos de fiado.
Vez por outra ela me apresentava a algum/a cliente e sempre destacava o fato – e só então me dava conta disso – de que eu nunca vendia livros ou discos lá; apenas os comprava.
Sua atividade de sebista começou para fugir de empréstimos sem futuro: aposentada da UFMA, colegas e alunos/as costumavam pedir-lhe livros de sua coleção pessoal, que quase sempre não voltavam. Para evitar aborrecimentos e perdas de amizades, montou o sebo.
Já há algum tempo o Papiros do Egito era somente um hobby, algo para ocupar a cabeça e não sucumbir aos males da idade. Moema partiu aos 72 anos. Ela se indignava com uma equação que não fecha: “nos últimos anos quantas faculdades se abriram em São Luís? E quantas livrarias fecharam?”, perguntou, me fazendo refletir sobre o assunto. Condenava o uso indiscriminado de xerox nos cursos universitários.
Com o movimento fraco do sebo, dedicava-se ultimamente a seu blogue e ao facebook, onde debatia com amigos e admiradores assuntos os mais diversos, de literatura a política, além de comportamento e história. Neste último tema ocupava-se em pesquisar a de sua cidade natal. Diversas vezes me contou entusiasmada de descobertas acerca de fatos e personagens do município da baixada, de cuja Academia de Letras, Artes e Ciências era membro.
O falecimento de dona Moema é dolorido golpe, sobretudo por que prevejo-o duplo: com ela deve morrer também o Papiros do Egito, um dos maiores e mais longevos sebos de São Luís. Sobre isso, espero estar enganado.
Vias de Fato entrevistou, por e-mail, dois escritores, um professor de Comunicação Social, uma cantora e um compositor sobre dois temas completamente ocultados pelo debate eleitoral no Maranhão (e no Brasil)
POR ZEMA RIBEIRO
16 de setembro de 2014, 8h31. Disparo um e-mail para mais de 50 destinatários, com cinco parágrafos explicando a ideia e sete perguntas.
O texto era esse aqui.
Abre aspas.
Se você recebeu este e-mail, certamente tem atuação nas áreas que pautam a pequena entrevista abaixo – comunicação e/ou cultura.
A entrevista coletiva – ao contrário do usual, um pergunta e vários respondem – está sendo enviada a várias pessoas, que responderão o que quiserem, como quiserem – só não vale usar pseudônimo. Pedimos apenas que o façam até a próxima sexta-feira (19), sem falta, para que possamos batucar a edição no fim de semana e fecharmos o próximo número do jornal Vias de Fato.
O modelo de questionário tem origem no Fluxo (a série de entrevistas Sociedade da informação), coletivo de jornalistas sediado em São Paulo. Lá eles trataram a política de forma mais abrangente e entrevistaram apenas escritores. Aqui, restringimos a pauta à cultura e comunicação e ampliamos o leque de entrevistados – escritores/as, cantores/as, compositores/as, instrumentistas, atores/atrizes, artistas plásticos/as, professores/as, jornalistas, produtores/as, djs etc., etc., etc.
A ideia é abarcar os problemas relacionados aos assuntos e tentar colocá-los na agenda eleitoral, que os esqueceu completamente, sobretudo no Maranhão, onde os temas carecem de debates urgentemente. Caso tenhamos esquecido de mencionar algum aspecto que você julgue importante, fique à vontade para fazê-lo.
Junto às respostas, pedimos ainda a gentileza de encaminhar uma foto, para usarmos na ilustração do material, e um pequeno currículo/biografia, de em torno de cinco linhas. Zema Ribeiro e o Vias de Fato agradecem antecipadamente a sua contribuição.
Fecha aspas.
O e-mail tinha o título “Entrevista: Comunicação e cultura ausentes da agenda nas eleições 2014”.
20 de setembro de 2014, manhã. Esgotado o prazo estipulado, apenas cinco mensagens de retorno, com as devidas respostas: Bruno Azevêdo, Carlos Agostinho Couto, Tássia Campos, Herbert de Jesus Santos e Gildomar Marinho (na ordem da chegada de suas respostas).
Admito: não era um questionário de entrevista dos mais fáceis e curtos.
De acordo com as minibiografias enviadas, Bruno Azevêdo (também um dos entrevistados pelo Fluxo) é “escritor, editor e galã de fotonovelas. Escreveu O Monstro Souza, A intrusa, Breganejo Blues e mais cinco livros de ficção. Em novembro lança Em ritmo de seresta, sobre a seresta e a música brega no Maranhão”; Carlos Agostinho Couto é “jornalista e professor da UFMA. É editor da revista Cambiassu do Departamento de Comunicação Social da UFMA e, entre outras obras, publicou os livros Estado, Mídia e Oligarquia, pela EDUFMA e Onde está a Ideologia, pela editora Ética”; Tássia Campos é “cantora e musicista e comete impropérios desde 1986. Gosta de rap, sushi e cachaça e acredita/luta pelo bom e pelo justo no mundo”; Herbert de Jesus Santos “nasceu em São Luís, é jornalista, revisor literário e escritor (poeta, cronista, contista, novelista e romancista), e tem onze títulos publicados, além de diversos inéditos, e prêmios literários, além de jornalísticos. Egresso do Curso de Comunicação Social da UFMA, trabalhou em diversos matutinos locais, de repórter a editor-geral; e, atualmente, é colunista do Sotaque da Ilha, do JP Turismo, suplemento semanal do Jornal Pequeno”; Gildomar Marinho é “cantor, compositor e violonista e tem três discos gravados: Olho de Boi (2009), Pedra de Cantaria (2010) e Tocantes (2013). Atualmente está gravando o quarto, Mar do Gil, com previsão de lançamento para o primeiro semestre de 2015”.
Dois escritores, um professor de Comunicação Social, uma cantora e um compositor. Apesar dos poucos retornos, Vias de Fato – que agradece encarecidamente ao quinteto partícipe – ainda conseguiu alguma diversidade ao pautar dois temas absolutamente excluídos do debate eleitoral no Maranhão.
À/s entrevista/s, pois.
“O único tema que está sendo efetivamente debatido nessas eleições é deus e o filho dele, todo o resto é vírgula”. O escritor Bruno Azevêdo. Foto: Márcio Vasconcelos
Tanto na esfera federal quanto na estadual, os temas comunicação e cultura não entraram na agenda política de candidatos nem nos debates até aqui realizados. No entanto, são dois temas alardeados como fundamentais para o desenvolvimento do país ou de qualquer estado. A seu ver, qual o motivo do desinteresse por estas pautas? Bruno Azevêdo – Acho que o único tema que está sendo efetivamente debatido nessas eleições é deus e o filho dele, todo o resto é vírgula, nota de rodapé, nada me parece sair da boca dos candidatos que não seja a afirmação da existência de deus e sua adesão a essa existência. Isso certamente nos diz algo sobre a possível política cultural que teremos ao fim do pleito: um investimento cavalar em arte religiosa e um processo de esvaziamento de produtos e processos que possam gerar constrangimento religioso. Não sei quem vai perder as eleições, mas sei que o Nazareno vai ganhar e isso é um passinho pra frente na beira do poço, direto pra idade média. Fudeu. Carlos Agostinho Couto – Diante de tantas mazelas que o Estado brasileiro apresenta, é comum alguns temas serem deixados de lado no período eleitoral para que os candidatos possam tratar de promessas, assistencialismo e atendimento aos interesses dos que os apoiam. Cultura e comunicação estão entre esses temas. Agrava a situação o fato de que o controle dessas áreas é concentrado em poucas mãos, que não têm interesse em qualquer tipo de mudança. Excetuando-se os experimentos alternativos e verdadeiramente populares, as indústrias da cultura e a da comunicação pressionam os candidatos e partidos (com exceções, claro) que, temendo as reações dos grupos poderosos, desprivilegiam os assuntos e os tiram da pauta política. Tássia Campos – Analisando a realidade maranhense há um problema: os meios de comunicação são de políticos. As emissoras, jornais, falo dos de grande circulação e maiores audiências escolhem um lado. Logo é realmente delicado tratar da comunicação quando não temos ainda mídias livres abrangentes e focadas no código de ética do jornalismo, por exemplo. Já a cultura… acredito que nunca foi prioridade em nenhum governo, por isso a ausência de debate. O que é claramente um erro. Herbert de Jesus Santos – Por absoluta ignorância sobre o assunto da maioria das candidaturas, especialmente na parte que toca à cultura, muito abrangente para os miolos de quem só vê na frente ganhar eleição, a todo custo, e se dar bem depois. Por outro lado, acham que Comunicação é só botar um assessor para isso e pronto! Gildomar Marinho – Eu não diria desinteresse, diria interesse estratégico em afastar este tema do calendário eleitoral, sobretudo, pelo papel que os meios de comunicação exercem atualmente. Um tema delicado como o da comunicação, que no Brasil permite, em nome da liberdade de imprensa, a manutenção de verdadeiros latifúndios das comunicações não parece ser um tema atrativo para os candidatos mais bem posicionados e que têm nessas mídias seus principais pilares de sustentação. Quanto à cultura, percebo que o tema é colocado de forma transversal pela maioria dos candidatos, sendo mais uma vez tratada como um paliativo social à expansão do consumo de drogas e da violência. Consegui enxergar um debate mais audacioso no programa de governo do PSOL, que defende uma distribuição mais equilibrada de recursos, dentro de uma política que, ao menos, traz o tema cultura para uma posição mais evidente, não como um apêndice da educação ou do turismo, por exemplo, mas como um recurso estratégico, já que pode potencializar o nosso maior capital: o povo brasileiro.
“O controle dessas áreas é concentrado em poucas mãos, que não têm interesse em qualquer tipo de mudança”. O professor universitário Carlos Agostinho Couto. Foto: acervo pessoal
Após a morte de Eduardo Campos, a ascensão de Marina Silva levou Dilma Rousseff a convidar Juca Ferreira, ex-ministro da Cultura, a comandar o setor cultural de sua campanha. A dobradinha formada por ele e seu antecessor, Gilberto Gil, no MinC, goza de quase unanimidade no meio artístico. Qual a sua opinião a respeito do período e do que se viveu depois, no país? Bruno – Acho que se fez um belo trabalho em fazer gente rica ficar mais rica, que é a minha opinião geral sobre a política cultural no país. Ainda não consegui ver este processo de forma diferenciada, independentemente de quem sente na poltrona do poder. Não consigo enxergar uma política que faça o que se proponha: desenvolver através de iniciativas sistêmicas e pontuais a possibilidade de industrialização e mercantilização da arte brasileira [grifo do entrevistado]. Se o projeto não é esse, então a bagaça não passa de assistencialismo (e sou contra, que arte também é trabalho); se é esse, o Estado falha em manter em suas tetas artistas/produtoras que já possuem relações de mercado bem estabelecidas. Carlos – A política cultural do país teve alguns avanços, como o incentivo à produção audiovisual local e o reconhecimento de manifestações culturais regionais na esfera nacional. Não podemos deixar de reconhecer que – apesar da riqueza cultural do país – a pasta ministerial é considerada menor, de pouco peso, e serve a interesses pessoais, tanto quanto outras, como no caso do financiamento de fundações de interesse privado, como aconteceu no Maranhão. Tássia – Sei que houve avanços, foi nesse período que se iniciou a discussão das leis de incentivo, mas honestamente acompanhei muito pouco. Não tenho opinião formada. Herbert – Realmente, houve um movimento interessante nos mais variados setores culturais, no país. Agora, nem parece que há órgãos culturais com tamanha importância, talvez, com desvio de função, ocupando outras atividades. Gildomar – Isso denota uma diferença na condução da política de cultura entre os governos Lula e Dilma, para ficar nos presidentes que tentaram levar a sério esse tema. Tenho a percepção de que o Gil trouxe à esfera pública a sua carga pessoal de quem compreende e vivencia a cultura de forma humana, diversa, plural e, por que não dizer, empresarial, já que não se pode esquecer que o próprio Gil é uma grife com valor econômico. Essas características tornaram os diálogos (e havia diálogos) ricos, e dentro de um sentimento de valorização da cultura, com toda a diversidade que enriquece o Brasil. O que veio depois foi uma mecanização de processos e tentativas de profissionalizar o fazer cultural que permite, por exemplo, a destinação de R$ 4,5 milhões para um único artista apresentar-se em parcos eventos (pagos, diga-se), em contraponto à exclusão de milhares de projetos espalhados Brasil afora (ou adentro). A aproximação com o ex-Ministro Juca pode sinalizar uma boa notícia, se com ele vier uma política que, de fato, coloque a cultura como um valor estratégico para o país, que restabeleça o diálogo com a sociedade e que, de fato, retorne a cultura à pauta política. Aos que consideram cultura como custo, vemos o exemplo da “Mona Lisa”, cujo governo francês estuda vender para sanar suas dívidas. A arte salvando a economia. Quantos “Da Vinci”, “Gonzagas”, “Suassunas” se espalham por este país, aguardando uma chance de desenvolver seu potencial artístico? E quantos são abortados por falta de oportunidade? Considero um desperdício ver uma geração potencial sendo cooptada diariamente pela indústria cultural pela simples falta de oportunidade.
“NUNCA HOUVE POLÍTICAS PÚBLICAS CULTURAIS NO MARANHÃO”. A cantora Tássia Campos. Foto: acervo pessoal
O Maranhão é sempre propagandeado como um dos estados culturalmente mais ricos do país. A indústria do entretenimento é das que mais geram divisas mundo afora. Na sua opinião, qual o motivo de o estado permanecer nas últimas posições do ranking quando se trata de indicadores sociais, na contramão do que se propagandeia? Bruno – Acho uma balela esse lance de “culturalmente rico”, que não há como medir isso. Geralmente esse título vem acompanhado de um ou dois símbolos de diversidade que se repetem infinitamente a despeito de outras possíveis realizações do lugar; é uma pecha, não um mérito. Não há indústria por aqui, nem mercado… talvez haja prum ou outro parafolclórico, pelas relações que estes estabelecem com o Estado via secretaria de cultura. Carlos – A cultura no Maranhão é rica – de folguedos à culinária, passando pela arquitetura e outras artes – mas excessivamente centralizada em alguns polos e sofre um processo danoso de controle político pelo qual um único grupo produtor de eventos indica os caminhos da área para todo o estado e praticamente monopoliza os recursos. Faltam descentralização, visão voltada também para a cultura da parte continental do estado e o fim dos benefícios por interesses estritamente pessoais. Tássia – NUNCA HOUVE POLÍTICAS PÚBLICAS CULTURAIS NO MARANHÃO [grifo da entrevistada]. Herbert – Só numa administração democrática, o gestor vai querer a cultura (colocando-se aí sua parceria com o turismo), quanto atividade lucrativa, em termos de autoestima popular, e de geração e distribuição de renda. Todos os outros segmentos, envolvidos no fazer que diverte e recreia, saem lucrando, financeiramente. O modelo do atraso nunca teria interesse em ver o comunitário, além do amor-próprio lá em cima, com mais recheio na poupança. Gildomar – De fato, a riqueza cultural do Maranhão é inquestionável, pela diversidade do seu povo, pela sua riqueza histórica e, vá lá, com uma forcinha do erário público que sempre arruma um jeito de manter vivas algumas festas tradicionais, mesmo com contradições e, por vezes, chocando com princípios e valores da sociedade contemporânea, a exemplo do que ocorre com a intervenção do Ministério Público, Juizado da Infância e outros órgãos de controle, sem contar a grande engenharia financeira para contemplar os diversos grupos, associações e grêmios nesse processo todo. O desafio é saber qual manifestação se mantém independente dos recursos públicos. Não faço apologia à retirada do apoio público, pois ele é fundamental. No entanto, sem uma política consistente, corremos o risco de mantermos os eventos apenas por mantê-los ou, numa dimensão sociológica, transformá-los ao sabor das exigências da atualidade até descaracterizá-los por completo como manifestação cultural. Isso sem contar o risco sempre presente do apadrinhamento, da privatização do recurso público. Aliás, algumas brincadeiras do Maranhão figuram como uma paródia, que beira o real, da relação social que insiste em atravessar os séculos. Por tal, vemos as figuras do padrinho, da madrinha, do ritual de poder e de uma relação de servidão que nos remete ao tempo que se quer representar. Como se o amo e os vassalos estivessem para sempre presos ao folguedo, por dentro da manifestação, e à realidade, por fora dela. Não há como fazer uma previsão, mas é um desafio pensar como seriam as manifestações tradicionais do Maranhão em um cenário onde todos tivessem acesso à educação, saúde, emprego e moradia, e independentes de padrinhos. Este, para mim, é o maior desafio, buscar uma solução que aproxime o desenvolvimento, mantendo a nossa identidade.
“[As gestões culturais federal, estadual e municipal] São de medíocres para inoperantes”. O escritor Herbert de Jesus Santos. Foto: acervo pessoalQuais as suas opiniões sobre as gestões culturais ora vividas no Brasil, no Maranhão e em São Luís? Bruno – A do estado é uma bela merda, e nem tem como não ser. Recentemente um grupo de artistas foi numa secretaria pedir auxílio pra participar de um festival e ouviu a desculpa de que “todo o dinheiro já tinha sido levado pra campanha”; isso é dito em tom de amizade, tipo “tô te dando um toque pra ti não perder teu tempo apresentando projeto”. Esse mesmo grupo (que vou chamar aqui de uma “cena”) conseguiu o apoio da Func [Fundação Municipal de Cultura] (tradicional geradora de patacoadas) porque o prefeito viu o show de uma das bandas e achou por bem apoiar a causa. É massa e necessário que a prefeitura apoie bandas que representam mais de 10% dos concorrentes num grande festival, mas a forma como o apoio ocorre mostra que a gente ainda não superou a pessoalização, e que não temos uma política de cultura que veja algum tipo de mérito por outras formas que não fazer umas centenas de pessoas cantarem em praça pública que aquela banda é legal na cara do prefeito. Chico Gonçalves [presidente da Func] me parece estar fazendo um bom esforço ali, tentando acertar mil pendências, vamos ver no que dá. Carlos – Percebem-se tentativas de mudança e de tratamento isonômico e republicano dos recursos para as áreas. Porém, enquanto a lógica permanecer a de submissão aos interesses da grande indústria da cultura, do patrimonialismo e compadrio regionais, pouco mudará. Tássia – Nunca trabalhei pro Estado ou pra prefeitura. Mas vejo na atual gestão da Func, por exemplo, um canal mais aberto pra possibilidades e diálogo. E não esperaria outra coisa de alguém como professor Chico [o presidente da Func é professor do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal do Maranhão]. É a prova de que estudo e preparo fazem muita diferença em qualquer gestão. Herbert – São de medíocres para inoperantes. Onde não se contempla, com o máximo destaque, a literatura entre os outros também relevantes setores, é pretender por o carro na frente dos bois. Procede a comparação, em nosso ambiente doméstico, de que, dentre planos editoriais e concursos literários, vários, até os 1990, só restando o Cidade de São Luís, da Func, precariamente, defasado em anos, a oferta maior seria para o circo, aliás, mais que o pão. Gildomar – Por estar atualmente morando fora do Maranhão, é difícil tecer uma opinião acerca da gestão cultural atualmente exercida no estado. No entanto, o que é publicado fala por si. À exceção de um breve espaço de tempo em que a cultura foi amplamente discutida no estado, o que percebo é uma nova parábola do bumba meu boi, onde a cada ano muda o couro, mas o boi é o mesmo. Sinto falta de uma política cultural no Estado que abranja a totalidade do seu território e, mais ainda, que garanta uma programação mais abrangente. Quando partimos para uma visão nacional, a percepção que se tem é que todo o esforço do Minc para capacitar os produtores culturais, mercê do esforço na criação dos Sistemas Municipais de Cultura, não surtiu os efeitos desejados de descentralização e interiorização dos recursos da cultura. Outro ponto de destaque foi a descontinuidade percebida nas gestões que seguiram as do Gil e do Juca.
“As concessões dos meios de comunicação foram desenhadas para a construção e manutenção dessa latimídia”. O compositor Gildomar Marinho. Foto: Paulo Caruá
No Maranhão, particularmente, é bastante complicada a relação entre governos e mídia. É possível vencer o latifúndio comunicacional, com grandes proprietários e capatazes dispostos a tudo para defendê-los, e avançar para uma efetiva democratização da comunicação? Bruno – É. Acho. Ocupando esses espaços. Não se trata aí de uma efetiva democratização, mas de um distúrbio possível, que também interessa. Carlos – No modelo que temos hoje, isso é impossível. Poucos controlam os meios de comunicação, a política regional, os recursos para a área cultural e de divulgação artística e ainda submetem os produtores culturais menos críticos à reprodução do modelo “me apoia que libero recursos”, o que faz as áreas de cultura e mídia andarem para trás. Possivelmente o avanço tecnológico (com mais gente com liberdade para veicular) e a democratização das ações (formas de participação e acesso a recursos, por exemplo) poderão alterar o quadro, mas seria outro modelo. Tássia – Sim! Existem outras formas de comunicação hoje sem ser TV, impresso e rádio. Hoje temos a internet. Existem outras vias para estabelecer uma rede de comunicação. Acredito que a internet será a responsável por uma reforma que vai construir uma comunicação mais democrática, com mais lados pra que as pessoas formem suas opiniões sem que sejam induzidas. Herbert – Só se houver, finalmente, um governo estadual democrático da cabeça aos pés. Gildomar – Não considero complicada esta relação. Pelo contrário, é por demais harmoniosa. Não só no velho estilo hay gobierno? estoy dientro [grifo do entrevistado], mas pelo fato de o quarto poder exercê-lo em níveis de países totalitários. É claro que a simbiose do serviço de utilidade pública, papel dos meios de comunicação, confunde-se no Maranhão com propaganda deliberada da cosanostra [grifo do entrevistado]. Considero complicada a relação da mídia maranhense é com a verdade dos fatos, pois ela confunde, persegue, bajula de forma despudorada, como se seu ombudsman [grifo do entrevistado] tivesse o condão de ser, parecer e fabricar a verdade apenas replicando o mantra dos seus patrões. Até mesmo a internet, que advoga para si o espaço da democracia da informação consegue ser ludibriada por blogueiros e fantoches que ganham a vida manipulando, requentando e, mesmo, inventando factoides para manter a si e sua “notícia” em evidência, não importando quanta aderência sua “verdade” tenha com a realidade. Não podemos perder de vista que as concessões dos meios de comunicação no Maranhão, aliás, no Brasil, foram desenhadas para a construção e manutenção dessa, perdão pelo neologismo, latimídia. Não por acaso, executivos e legisladores de então gozam de sua plena liberdade de expressão.
Se convidado pelo governador eleito, aceitaria o cargo de secretário de Estado da Cultura ou Comunicação? Em caso positivo, encararia o desafio em qualquer das seis possibilidades? Que ações desenvolveria ao longo de quatro anos de governo? Em que governo não aceitaria cargo de jeito nenhum? Bruno – Nem fodendo. Nenhum deles. Acho que a pessoa precisa ter algum tipo de distúrbio moral pra se dispor a ocupar certas posições, ou ter aversão ao trabalho, não sei, meu preconceito supera a razão nesses casos. Carlos – Gostaria muito de contribuir pragmaticamente com o meu estado e povo, principalmente nas áreas de ampliação de informações e direitos, mas não aceitaria cargo de secretário (também tenho clareza de que não seria chamado). Nunca trabalharia com os políticos conservadores que dominam o estado há décadas. Tássia – Nunca trabalharia pra quem quer que esteja envolvido com o grupo Sarney. Eu não sei responder ao restante da pergunta. É uma reflexão muito íntima. Só digo o que eu jamais faria [risos]. Herbert – Para a Cultura, não, onde os supérfluos intrusos são até mais contemplados que os genuínos valores maranhenses, em certos casos! Em Comunicação, só com uma equipe competente, nas assessorias setoriais, implicando não ingerência de dedos políticos na constituição do time. No da continuação da oligarquia, eu nem sequer seria convidado; num deles, já tive cargo de assessor-chefe, na Secom estadual, fazendo jus ao cargo e ao salário, funcionário de carreira, e, onde não queriam o melhor trabalho, colocaram, pelo ordenado, em meu lugar, um apadrinhado sem habilidade na área direcional e na profissão jornalística. Gildomar – O cargo de secretário só tem sentido dentro de um projeto maior, que enseje em uma mudança de atitude de poder. Uma nova cultura política, que aponte para a valorização do povo maranhense, que eleve sua autoestima ante si mesmo, ante seus vizinhos e ante o país. Isso passa por uma mudança, inclusive na estrutura hoje tão imbricada por parentes, amigos e amigos de amigos de um grupo que está há cinco décadas no poder. São duas gerações. Meio século de história. Não é uma mudança fácil. Isso requer um esforço político, técnico, acadêmico e um diálogo muito forte com a sociedade, além de ações assertivas. A cultura, parte com que mais me identifico, carece de um planejamento estratégico, plurianual, plural e que aponte para sua sustentabilidade, que permita potencializar a nossa riqueza cultural, garanta a democratização dos meios e equipamentos culturais e, mais importante, que nos faça sentir orgulhosos de nossa maranhensidade. Não almejo esse cargo, mas se eu fosse sondado por algum grupo para sê-lo, parece evidente que meu mais redundante NÃO teria endereço certo.
Você declara/ria voto? Em quem vai votar nas próximas eleições? Por quê? Bruno – Declaro: nulo. Carlos – Declararia e declaro, mas ainda não fechei a chapa. Ainda tenho dúvidas entre o voto de protesto, a abstenção, a anulação em alguns cargos, ou o voto pragmático em pessoas menos ruins. Tássia – Difícil, hein? Pela dicotomia, voto Flavio Dino governador. Deputado estadual não tenho; federal não tenho. Senador Haroldo Sabóia e presidente Dilma. Herbert – Nas majoritárias: para governador do Maranhão, em Flávio Dino, pela possibilidade de mudar o rumo dessa conversa da oligarquia (escorchante, exclusivista, antiprogressista etc.); para presidente da República, em Aécio Neves, por ter um plano consistente de governo, moldado em resultados concretos, em suas gestões no executivo mineiro; Dilma, o poste de Lula, sem nenhum tino gerencial, está esquentando o assento para este, a maior decepção republicana, por aliar-se aos que mais contestou e se corrompeu e corrompeu, para quem sabe o que é política correta e íntegra, e sem passar de uma farsa até em se achar estadista; Marina continua sonhando muito e é lenta para acordar. O Brasil não pode errar mais em quem já errou muito nem viu (que nem Lula nunca viu a sangria do dinheiro público no mensalão, etc.) o rateio entre os da velha política da mamata da riqueza do povo brasileiro na Petrobras; e em quem é mais dúvida que certeza. Gildomar – Voto Flávio Dino porque, apesar das múltiplas forças contraditórias em torno de sua candidatura, acredito na sua capacidade de trabalhar essa diversidade e criar um novo ciclo político no Maranhão. E que nossa capacidade e liberdade de transformar nos seja guia a um Maranhão livre e justo.
Bruno Azevêdo e Luciano Irrthum colam discurso de Sarney filmado por Glauber Rocha para tirar sarro da cultura (política) oficial. Baratão 66 foi indicado ao troféu HQMix 2014.
Uma das capas de Baratão 66. Reprodução
Um quadrinista que não desenha. Eis uma boa definição para Bruno Azevêdo, que agora foi buscar o Luciano Irrthum para dar vida a Baratão 66 [Pitomba/ Beleléu, 2013, 190 p.], a estória de uma casa de depilação (de dia) que vira puteiro (à noite), o Baratão 69.
A dupla ilustra a história do Brasil profundo, onde puteiros viram extensões dos gabinetes, climatizados ou não, das administrações públicas, as putas espécies de assessoras especiais com sexto sentido e o sonho de fisgar um figurão destes e largar a vida “fácil”.
O livro traz a clássica referência à distinção entre ficção e realidade, o que em se tratando da nossa, torna qualquer linha entre uma e outra bastante tênue. Como o é, bem sabemos, principalmente em se tratando de Maranhão, a que separa interesses privados de interesses (de homens) públicos.
Luciano Irrthum desenha o roteiro ditado por Bruno Azevêdo, autor cujo romance A intrusa foi publicado em capítulos neste Vias de Fato. Com duas capas, a gosto do freguês, como as “estampas” de depilação que ditam moda, Baratão 66, impresso em roxo, apresenta a tragicomédia das pequenas cidades do interior do Brasil – embora o livro seja ambientado em São Luís do Maranhão, capital que delas não guarda lá muitas diferenças.
O traço “grotesco” de Irrthum ilustra a “boca suja” de Azevêdo. Reprodução
Esqueçam a moral e os bons costumes e preparem-se para entrar na rotina dos inferninhos, em uma aventura hilariante, seja pelo traço, propositalmente grotesco, como a traduzir os personagens do livro e de nossa política, seja pelo enredo – “com cu ou sem cu?”, “cu fiado a gente não faz”, “só quem dá cu sem aviso é qualhira”, ouvem-se aqui e ali das bocas sujas que povoam as páginas.
Personagens bizarros, malditos, marginais compõem o cenário: a proprietária da casa de depilação que espera pela volta do “falecido”, herói de guerra com quem sonha, um porteiro “viado” apaixonado pelo padre, pecador mais que as ovelhas de seu rebanho, um carteiro que entrega os catálogos da Piu Piu, franquia em que se tornará o Baratão 66, o governador, habitué da zona. Também aparecem em Baratão 66 Ribamar Willer, taxista fã de Waldick Soriano e música brega, incluindo Adailton e Adhaylton, dupla sertaneja que protagoniza Breganejo blues, outro livro de Azevêdo, além dO Monstro Souza, serial killer e loverboy, saltado das páginas de outra obra-prima do autor, que vai pedir emprego no Baratão.
Não sabemos mesmo o que é mais imoral: se os palavrões ou o discurso de posse de José Sarney quando eleito ao governo do Maranhão em 1966, captado pelas lentes de Glauber Rocha e colado por Bruno Azevêdo e Luciano Irrthum em determinada passagem de seu Baratão 66, numa alusão óbvia à película glauberiana que captou o discurso do então jovem bigodudo, Maranhão 66 – o trocadilho, como nada ali, é por acaso. No fundo, é como se o Maranhão fosse um imenso puteiro a céu aberto – com esgotos a céu aberto, ratos e baratas passeando entre nossos pés.
A política está presente, e Baratão 66 tira um sarro com a cultura dita oficial, infelizmente ainda não completamente democratizada. A HQ de Azevêdo e Irrthum não tem um centavo de dinheiro público.
Não é fácil classificar – isto é, enquadrar em um rótulo – Baratão 66, como de resto, a qualquer livro de Bruno Azevêdo, ele ao mesmo tempo bacharel em História, mestre em Ciências Sociais, professor universitário, músico e escritor. A HQ que assina com Luciano Irrthum demonstra uma série de influências, que passam por literatura, quadrinhos, música, história, cinema e política.
HQMix – Baratão 66 concorre, este ano, em duas categorias do troféu HQMix, a mais importante premiação dos quadrinhos brasileiros: Publicação independente edição única e Novo talento (roteirista) – Bruno Azevêdo. O HQMix chega à 26ª. edição em 2014.
Novidades – Autor, editor e “contínuo” da Pitomba! livros e discos, Bruno Azevêdo atualmente trabalha na edição da fotonovela Nonato, meu tudo. Ainda em 2015 lançará Brega é tu, sua dissertação defendida no mestrado em Ciências Sociais da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), recentemente selecionada em edital da Fundação de Amparo à Pesquisa e Desenvolvimento Científico do Maranhão (Fapema). Fruto de pesquisa acerca da dita música brega em ambientes como choperias e serestas em São Luís, o livro terá pesquisa iconográfica assinada por ele e pelo fotógrafo Márcio Vasconcelos, que já havia colaborado com a edição de Onde o reggae é a lei, de Karla Freire, livro vencedor do Prêmio Cidade de São Luís, publicado pela Edufma com preparação editorial da Pitomba!
Não poucas vezes adentrei o Bar do Léo e dei de cara com sua figura muito animada, um copo de uísque sobre a mesa, às vezes uma garrafa inteira. Sempre nos cumprimentamos com um abraço efusivo e não era raro ele depois estacionar em minha mesa, entre suas idas e vindas ao banheiro, para continuar uma história iniciada ou explicar melhor algum detalhe. E histórias não lhe faltam.
José de Ribamar Elvas Ribeiro, popularmente conhecido como Parafuso, é uma lenda viva do radialismo maranhense, sua memória viva, não exagera quem o diz.
Sonoplasta, parte delas entregou em entrevista ao hoje presidente da Fundação Municipal de Cultura Francisco Gonçalves e o time de comunicadores que coordenou em pesquisa sobre a versão maranhense da fantástica guerra dos mundos, livremente inspirada em H. G. Wells.
As lembranças de Parafuso sobre este importante, controverso, lendário, curioso e, por que não?, hilário capítulo da radiofonia maranhense estão em Outubro de 71 – Memórias fantásticas da Guerra dos Mundos, livro organizado por Gonçalves que reconta a história do dia em que os marcianos invadiram São Luís.
Lembro que, quando escrevi sobre o livro para a revista Overmundo (donde, aliás, meio que cato a abertura deste texto), tentei entrevistar Parafuso por telefone. Foi a primeira vez em que ouvi falar de Memórias de um Parafuso, que à época nem sei se já tinha esse título, o livro que o mestre lança em noite de autógrafos no Bar do Léo, no próximo dia 2 de julho.
Sem perder a elegância nem a paciência, Parafuso advertiu-me que o que tinha para dizer sobre a “guerra dos mundos” estava no livro sobre o qual eu estava escrevendo (e que obviamente já havia lido). E que sobre outros assuntos ele diria num livro que estava escrevendo com suas memórias. “Aliás, o livro está pronto, falta revisão e dinheiro para imprimir”, confessou-me.
Tornei a encontrá-lo outras vezes, mas não a importuná-lo com perguntas do tipo “e o livro?”. Mas a notícia do lançamento de suas memórias me deixa bastante contente. E ansioso.
Entre as histórias de Parafuso certamente está a de seu apelido, conforme me contou certa vez: “eu era irrequieto e um dia na escola o professor [ou era um inspetor?] chegou e me viu sobre a carteira, sapateando. Ele botou o apelido: parafuso. Dizem que quando a gente se zanga é que o apelido pega. Eu nunca me zanguei e pegou, embora carrapeta fosse mais apropriado. Parafuso você bota ele ali, ali ele fica. Carrapeta, não…”
Ubiratan Teixeira perdeu ontem (15) a batalha que travou nos últimos meses contra um câncer no estômago. Nome fundamental para a literatura, o jornalismo e o teatro maranhenses, Bira, como era conhecido entre os íntimos e os nem tanto, deixa importante legado nas áreas em que atuou.
As áreas, em sua obra, aliás, não raro se confundiam. Transitava com desenvoltura por elas, às vezes mesclando-as. Suas crônicas em O Estado do Maranhão, jornal em que trabalhou desde a fundação, não raro deixavam o leitor na dúvida: o que ali havia acontecido de verdade e o que era pura invenção da cabeça mágica de Bira? A pulga na orelha do leitor que só os melhores cronistas conseguem plantar.
No teatro era autor e crítico. Seu grande Pequeno Dicionário de Teatro é obra que o torna merecedor de respeito em qualquer canto e se Bira não foi mais famoso ou conhecido (respeitado era e continuará sendo), certamente é por ter optado pela província. Seu conto Vela ao crucificado rendeu festejadas adaptações ao teatro, por Wilson Martins, e ao cinema, por Frederico Machado.
Encontros – Em 2007 sua novela Labirintos venceu uma das categorias do último edital para literatura lançado pela Secretaria de Estado da Cultura. Vez por outra, à época, ele ia à sede do órgão, na Praia Grande, saber do desenrolar das coisas para a publicação, prevista no regulamento do certame. Os poucos encontros que tivemos sempre foram muito agradáveis: Bira era muito educado, simpático e engraçado. Adorava ouvir suas lembranças de episódios hilários somadas às de José Maria Nascimento, Nauro Machado e Wilson Martins, gargalhadas às quais por vezes somei as minhas, quando eles se reuniam, para água, cafezinho e prosa, na sala que eu ocupava (naqueles idos eu chefiava a Assessoria de Comunicação da Secma). A burocracia emperrou e as obras vencedoras do edital lançado pelo governo Jackson Lago só foram publicadas no governo Roseana Sarney, quando o golpe judiciário tirou aquele do poder.
Ubiratan merece mais respeito. Foto: Murilo Santos
O Estado da lambança – Se por um lado a oficialidade, em notas de pesar e fotografias aos pés do féretro, parece lamentar realmente a perda de Ubiratan Teixeira, por outro sua memória parece já ameaçada: qual Tião Carvalho apontado como João do Vale, no Parque Folclórico da Vila Palmeira, órgão público estadual, o velho e saudoso Bira aparece, no mesmo “palco”, como Odylo Costa, filho, entre gente – inclusive o com quem lhe confundem – de sua mesma envergadura: Ferreira Gullar e Josué Montello. Nem comentarei a grafia do nome do jornalista que batiza outro importante órgão público estadual.
Homenagem – Ubiratan Teixeira já havia sido escolhido pela Fundação Municipal de Cultura como um dos homenageados da 8ª. Feira do Livro de São Luís, que acontecerá em novembro.
Outra grande perda – Em pouco mais de um mês, é a segunda grande perda para as letras maranhenses: seu confrade na Academia Maranhense de Letras (AML) José Chagas faleceu em 13 de maio passado.