1º MÊS
– Completo hoje trinta dias e confesso que já estou farto de ouvir “bilu-bilu” o dia inteiro na minha cara. Por que os adultos não falam direito, fazem voz esquisita e fanhosa, se sabem que não entendo nada do que dizem e muito menos falando assim?
2º MÊS
– Percebo que estão todos apreensivos, suas caras mudam de expressão depois que abrem o jornal e comentam que o preço do leite vai subir, não sei por que essa preocupação se o leite que tomo é de graça e é a mamãe que fornece. Se o leite subir até que é bom, porque a mamãe pode ficar rica.
3º MÊS
– Quero esclarecer que quando molho a fralda choro muito, mas é por causa da despesa que estou dando, sei como está difícil arranjar empregada pra lavar todo dia. Outra coisa que me chateia e não posso reagir é quando as visitas dizem que sou a cara do pai, no princípio eu não ligava, mas agora que já vi a cara do papai não gosto muito.
4º MÊS
– A vovó tem mania de ficar me balançando no colo e pensa que durmo por causa disso, mas não é não, é que fico tontinho e desmaio. A mamãe passa o dia inteiro lendo livros pra saber como cuidar de mim, mas os livros são tão diferentes que quem sofre sou eu, pois ela fica sem saber o que fazer.
5º MÊS
– Não gosto quando a mamãe insiste em tirar a minha chupeta e o papai diz que é melhor do que botar o dedo na boca. O que me incomoda não é nem a falta de chupeta nem do dedo, é a discussão na minha cara.
6º MÊS
– Não gosto do meu pediatra porque todo mês receita um monte de sopas que eu detesto e um monte de remédios que quem detesta é a mamãe. Só gosto daqueles ferrinhos que ele traz na malinha, mas toda vez que seguro um pra brincar ele tira da minha mão e enfia na minha garganta.
7º MÊS
– Quanto às mamadeiras, acho bom entenderem de uma vez por todas que quando não quero tomar, não adianta ninguém insistir nem me passar de mão em mão pra cada um tentar uma vez. O problema não é trocarem as pessoas – é trocarem o leite, que eu conheço o gosto.
8º MÊS
– Aqui em casa todos acreditam nos livros que ensinam “como cuidar do bebê”, mas nenhum médico nunca me consultou do que gosto e do que não gosto, pois quando eles escreveram seus livros eu nem tinha nascido. Seguir estatística é nisso que dá: quem entra pelo cano sou eu.
9º MÊS
– Não adianta ficarem dizendo na minha cara “mamã” e “papá”, porque o certo é “mamãe” e “papai”. As pessoas grandes ensinam a gente a falar errado porque acham que é mais engraçadinho – depois eu sei o que acontece, de tanto a gente falar errado eles acabam mandando a gente pra escola pra aprender a falar direito.
10º MÊS
– Coisa que não gosto é quando chegam visitas, entram no meu quarto pra ver se estou dormindo e ficam falando baixinho que estou acordado, depois vem outro e diz que estou dormindo, depois vem outro e diz que acha que estou acordado – ninguém se manca, pois com todo mundo cochichando não consigo dormir.
11º MÊS
– Muito constrangedor é quando deixo a sopa no prato, só pela cara da mamãe já sei que o preço dos legumes subiu de novo. Coisa que não entendo é que todo mundo concorda que não se deve bater numa criança, mas bem que de vez em quando me dão umas palmadas. Não quero crescer nunca, acho gente grande muito nervosa.
12º MÊS
– A maior emoção da minha vida foi quando consegui ficar de bruços, porque esse negócio de ficar deitado de costas é muito bom mas é pro papai. Agora estou engatinhando e ouço dizer que muito breve começarei a andar. Eles não perdem por esperar: assim que eu começar a andar, saio de casa.
*
Leon Eliachar (1922-1987), in O homem ao zero [Editora Expressão e Cultura, 1967]
Carlo Kadish, protagonista de Eu, cowboy [Editora Oito e meio, 2015, 165 p.] e alter ego de seu autor, Caco Ishak, é um loser de nascença, um antibeat, um beat brasileiro.
O livro narra suas venturas e desventuras, regadas a bastante sexo, álcool, ritalina, citações literárias, cinematográficas, musicais e uma grande incapacidade em lidar com relacionamentos – inclusive sua filha, a quem o livro acaba por render uma bela e comovente homenagem em meio ao caos do submundo que é sua geografia.
Um viajante que não sai do lugar, uma ida ao México que nunca se concretiza, lembranças da infância, brigas, a prosa de tirar o fôlego do leitor, o autor um poeta com dois livros publicados – Dos versos fandangos ou a má reputação de um estulto em polvorosa (2006) e Não precisa dizer eu também (2013), ambos pela 7Letras –, este romance curto sua estreia na ficção.
Ecos de Bukowski, quarta capa de Mário Bortolotto e Sérgio Rodrigues, generosa orelha de Marcelino Freire, que “o homem, que, nesta terra miserável,/ mora entre feras, sente inevitável/ necessidade de também ser fera” (Augusto dos Anjos).
Falar em maldição é facilitar as coisas. “Meu hype quero todo em dinheiro”, diz a certa altura, num destes petardos dispostos aqui e ali, ao longo do texto, que te ficam martelando a cabeça, zunindo entre os ouvidos.
Uma dessas, “as primeiras lápides com #hashtags”, o jornalista Jotabê Medeiros usou de título num texto seu sobre o Bar do Léo: foi durante a Feira do Livro de São Luís, ano passado, de que ele e Caco Ishak participaram e onde se conheceram. A frase foi dita lá, o poeta-romancista nos brindando com uma avant-première do livro que hora nos chega às mãos.
Hoje ele lança Eu, cowboy no Chico Discos (Rua Treze de Maio, 289-A, altos, esquina com Afogados, Centro), às 19h30, com entrada franca. A noite de autógrafos será embalada pela discotecagem do Vinil Social Clube.
“Sempre me senti forasteiro. Aprendi a me comportar como um. A me safar como um. Nem sotaque eu tinha. Mais fácil pra mim”, afirma, logo na primeira página. Goiano radicado em Belém desde os cinco, na sequência do lançamento ele já embarca de volta ao exílio “em seu apartamento”.
Encontrei Diógenes Moura anteontem, no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho. Instantes antes, no Teatro Alcione Nazaré, naquele espaço, eu assistia à solenidade de lançamento da 9ª. Feira do Livro de São Luís (de 2 a 11 de outubro próximo), quando o fotógrafo Márcio Vasconcelos me avisou de sua presença.
A ele fui apresentado pelo poeta Celso Borges, de quem já havia recebido, por e-mail, um release sobre um sarau coletivo que terá lugar hoje (6), no Cine Praia Grande, às 20h.
Diógenes Moura presenteou-me com seu livro Fulana despedaçou o verso (2014), caprichada edição da Terra Virgem. Reconheci a personagem na capa, pernas cruzadas, um seio à mostra, cigarro na mão, sentada sobre uma colcha aveludada, com um estranho cão de porcelana a mostrar os dentes. Eu podia estar enganado, mas conferindo a ficha técnica, tive a certeza: “Claudia Wonder!”, exclamei, para o autor discorrer rapidamente sobre a amiga, falecida há pouco mais de quatro anos.
“Ela era maravilhosa! No show O vômito do mito [em que se lançou como cantora, na década de 1980], no Madame Satã [mítico clube paulistano], ela cantava e se deitava em uma banheira de sangue. Ela morreu da doença do pombo [criptococose]. Eu odeio pombos. Perdi dois amigos em questão de meses por causa da doença do pombo”, revelou.
O livro bonito de Diógenes, capa dura, não se folheia da esquerda para a direita, como convencional, mas de baixo para cima, como um bloco de anotações – “Do lado de dentro tudo é confidencial”, adverte a lombada. Só há texto nas páginas ímpares, os versos são desperdiçados, trocadilho infame com o título. “No centro do pátio a velhinha olha o azul e degola os pombos” numa passagem. Noutra, a musa amiga e seu citado show são personagens: “Claudia Wonder viva, fleuma de fumaça na parede do museu de arte moderna. O vômito do mito”, escreve.
Sua prosa é milimétrica, concisa, elegante. Seus personagens percorrem um submundo marcado pela passagem das horas – o que pode soar óbvio, mas creiam, não é –, recheado de citações pop. Não esqueçamos que Diógenes Moura foi curador da Pinacoteca do Estado de São Paulo, transformando seu acervo num dos mais importantes da América Latina.
Com o monólogo Carne é sangue – imagens para uma consciência humana, Diógenes Moura lança hoje, em São Luís, Fulana despedaçou o verso. “Como não sou muito de palestras e mesas redondas, esse é um formato onde posso me expressar como escritor, curador de fotografia, editor e sobre a vida e a morte, literatura e imagem, desejo e voragem, sexo, drogas e sobre quem nasce num corpo errado, quem não sabe nada de si mesmo”, afirma o artista, no material de divulgação.
Carne é sangue é fruto de mais de 10 anos de pesquisas sobre fotografia e literatura. O monólogo já foi apresentado em diversos palcos do Brasil e da América Latina. Durante o espetáculo, o texto de Diógenes Moura dialoga com a projeção de fotografias de Ana Carolina Fernandes, Ana Mocarzel, André Cypriano, Antoine D’Agata, Cesário Triste, Claudia Guimarães (autora da foto da capa de Fulana despedaçou o verso), Dóris Haron Kasco, Eliott Erwuitt, Loren McIntyre, Mario Cravo Neto, Marlene Bergamo, Monica Piloni, Monica Vendramini e Wagner Almeida.
A Diógenes, no entanto, não bastam estas companhias: Carne é sangue une-se à poesia de Ferreira Gullar, que terá fragmentos do Poema sujo interpretados pela atriz Áurea Maranhão – a exposição fotográfica Visões de um Poema sujo, de Márcio Vasconcelos, segue em cartaz no Museu de Artes Visuais (Rua Portugal, Praia Grande). Acompanhado do baterista Isaías Alves, o poeta Celso Borges apresenta o recital Língua lambe lambe.
Serviço
O quê/quem: Monólogo Carne é sangue – imagens para uma consciência humana e lançamento do livro Fulana despedaçou o verso, de Diógenes Moura + performance de Áurea Maranhão com trechos do Poema sujo, de Ferreira Gullar + recital Língua lambe lambe, com Celso Borges e Isaías Alves Quando: hoje, 20h Onde: Cine Praia Grande (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande) Quanto: R$ 10,00
Nesta quarta (15), às 19h, é a vez de a Livraria Leitura (São Luís Shopping) recebê-la em noite de autógrafos. Na ocasião, será encenado o Mundo imaginário de Juju Carrapeta, personagem de O baile das lavandeiras.
Fruto de sua tese de doutorado na PUC/SP, livro de Adriano Sousa será lançado em duas noites de autógrafos em São Luís
Poética de Júlio Bressane: Cinema(s) da Transcriação. Capa. Reprodução
Em Poética de Júlio Bressane: Cinema(s) da Transcriação [Educ/Fapesp, 2015, 234 p.], sua tese de doutorado, Adriano Sousa aprofunda o mergulho na obra do cineasta, já abordada em sua dissertação de mestrado, Devir-deserto no São Jerônimo de Júlio Bressane: poética tradutória e cartografias da cultura (2005), ambos os trabalhos defendidos na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP).
O autor perpassa a filmografia de Bressane observando-lhe aspectos sem isolá-los, fugindo do que tem sido mais óbvio à crítica e à própria academia, lançando novos olhares sobre o conjunto bressaniano. Observa, na obra do cineasta, o intercambiar incessante entre linguagens distintas, sobretudo a literatura a música e a pintura.
Não à toa sobressaem-se títulos como Brás Cubas (1985), O mandarim (1995), Miramar (1997), Dias de Nietzsche em Turim (2001) e Filme de amor (2003), entre outros.
Adriano Sousa está escoltado por nomes importantes da comunicação e semiótica no Brasil, como Jerusa Pires Ferreira, diretora do Centro de Estudos da Oralidade da PUC/SP, que avaliza na quarta capa: “Tendo em Haroldo de Campos um intercessor, penetrou no âmago de muitas questões”. E continua: “Cercado de competências, da presença tutelar e mágica do cineasta, do diálogo com seus pares, para quem a arte em si se impõe e confirma, Adriano Sousa conquista um lugar apropriado para falar de tudo isso. Tenho, portanto, muitas razões para celebrar a presença do livro […], mais do que uma tese de doutorado”.
“Vivenciamos os filmes de Bressane e a escrita de Adriano como um corte que irrompe no automatismo do cotidiano, provocando estranhamento em meio a encantos mil”, anota a documentarista e psicanalista Miriam Chnaiderman no texto que apresenta a obra. Antes ela indaga: “Como escrever sobre Júlio Bressane e ser fiel à ruptura que o cineasta propõe?”. “Propor um trabalho que seja a poética da poética bressaniana, mas que continue bressaniana. É o desafio que surge. Que a escrita seja também transcriação, como o cinema de Júlio Bressane”, continua.
Segundo Adriano, o próprio “termo transcriação no lugar de tradução intersemiótica […] remete diretamente à complexidade de “traduzir o intraduzível””. Respondendo à pergunta inaugural de Chnaiderman, o que o autor faz é justamente deslocar as rupturas cinematográficas de Bressane para a literatura – para além da academia.
Adriano Sousa lança Poética de Júlio Bressane: Cinema(s) da Transcriação em duas noites de autógrafos em São Luís. Hoje (19), às 19h, no Chico Discos (Rua Treze de Maio, 289-A, Altos, esquina com Afogados, Centro); e dia 22 (segunda-feira), às 17h, no Auditório A do Centro de Ciências Humanas (CCH) da Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Na ocasião haverá um bate-papo do autor com as presenças dos professores Luís Inácio (Filosofia), Junerlei Dias (Comunicação) e Flávio Reis (Sociologia e Antropologia). Ambos os eventos têm entrada gratuita.
Até a abertura dos cursos de música das universidades Estadual e Federal do Maranhão a Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo, fundada em 1974, foi, durante muito tempo, responsável pela formação da quase totalidade de nossos músicos em atividade. Durante um bom período foi também questionada com base em uma equação simples: se a maioria dos músicos ali formados iria atuar com cultura popular, em carreiras solo ou em grupos, por que a base do currículo era erudita?
As coisas vêm mudando pouco a pouco, mas partindo dessa premissa, a musicista Camila Reis Brito lança hoje (17), às 19h, no Laborarte (Rua Jansen Müller, 42, Centro), com entrada franca, o livro Cantigas Divinas [Laborarte, 2015, 41 p., distribuição gratuita, disponível para download no site do projeto], conjunto de partituras de músicas executadas por caixeiras, na Festa do Divino Espírito Santo e no Cacuriá – dança tipicamente maranhense originada na festa e coreografada em seu encerramento. O livro será distribuído gratuitamente a escolas, bibliotecas e instituições de ensino de música.
Filha de dois expoentes da cultura popular do Maranhão, o ator e diretor Nelson Brito e a cantora Rosa Reis, Camila, qual os pais, membro do Laboratório de Expressões Artísticas (Laborarte) e brincante do Cacuriá de Dona Teté, pioneiro e mais famoso grupo da dança, indagava-se o porquê de nunca ter visto, no currículo de sua formação musical, peças – do Divino e do cacuriá – que faziam parte de seu círculo de convivência na cultura popular.
Daí surgiu a ideia de Cantigas Divinas, realizado pelo Laborarte com patrocínio da Fundação Cultural Palmares e Ministério da Cultura, em que ela e o cantor, compositor e professor Gustavo S. Correia transcrevem 20 partituras de músicas bastante conhecidas de foliões e “folioas” do Divino (e do cacuriá). A obra é ilustrada por Layo Bulhão, coordenador do Festival de Arte Contemporânea do Maranhão e da revista Insight Photo.
As cantigas são apresentadas “em linguagem infantil e didática com o objetivo de possibilitar que estas músicas façam parte de trabalhos de iniciação musical e de fazer um registro destas em formato de partitura”, afirma a autora na apresentação do livro. O livro de Camila deve interessar não só a maranhenses, já que a Festa do Divino Espírito Santo é uma manifestação de catolicismo popular presente em todo o território nacional.
Nas páginas de Cantigas Divinas estão contemplados um breve histórico acerca da festa, de quem a faz, do cacuriá, além de um glossário. Nas partituras estão cantigas de todas as fases dos festejos. O leitor ou músico, como se em procissão, passeia por versos que emocionam, como “meu Divino Espírito Santo/ a vossa capela cheira/ cheira cravo, cheira rosa/ cheira flor de laranjeira” (de Cheira flor de laranjeira), a músicas tornadas hits pela saudosa voz de Almeirice da Silva Santos, mais conhecida pela alcunha de Dona Teté. Quem não já cantou (e/ou dançou) o Choro de Lera, Passarinho verde, Mariquinha, Jacaré e Jabuti? Todas as músicas do livro são de domínio público.
Cantigas Divinas reúne em sua feitura as doses certas de necessidade, ineditismo, devoção e paixão. Um livro importante não só para os que fazem a cena da cultura popular do Maranhão, mas também para eruditos e mesmo àqueles que só cantam no chuveiro ou ninando as crianças.
Ex-esposa do vocalista do Joy Division traça retrato cru de seu relacionamento em biografia
Tocando a distância: Ian Curtis & Joy Division. Capa. Reprodução
Aos quase 35 anos do suicídio de Ian Curtis – recém-completados, no último 18 de maio; ele tinha 23 anos quando se enforcou – ganha tradução no Brasil a biografia Tocando a distância: Ian Curtis & Joy Division [Touching from a distance – Ian Curtis and Joy Division, tradução de José Júlio do Espírito Santo, prefácios de Kid Vinil e Jon Savage, Edições Ideal, 2014, 317 p.], escrita por Deborah Curtis, sua viúva.
O livro apresenta um relato sobretudo da relação de Ian e Deborah, sem poupar um e outro nem revelar detalhes desnecessários de sua intimidade. O texto equilibrado dela descortina tão somente o que é necessário para compreendermos a figura do vocalista do Joy Division e a aura mítica criada e alimentada em torno dele, sobretudo após o suicídio. Em resumo, a autora não faz do ex-marido santo nem demônio: ele é tratado como um ser humano – acima da média, como são os gênios.
O livro é dedicado à filha dos dois, Natalie, e traz depoimentos dos outros membros da banda: Bernard Summer (guitarra e teclado), Peter Hook (contrabaixo) e Stephen Morris (bateria), que após o precoce suicídio do líder vieram a formar o New Order. A obra remonta à adolescência dos Curtis, quando se conheceram – época em que ele já falava em suicídio –, até quando a fama do Joy Division começou a extrapolar a Inglaterra natal: Ian se enforca pouco antes da banda sair para sua primeira turnê pelos Estados Unidos.
O legado da banda é inquestionável e a carreira, apesar de curta, deixou obras-primas como Love will tear us apart, Transmission e She’s lost control. Influenciados por nomes como Sex Pistols, Velvet Underground e Iggy Pop – seu The idiot continuava girando na vitrola quando o corpo de Ian foi encontrado sem vida –, o Joy Division segue influenciando jovens mundo afora. Antes de se suicidar, Ian assistiu “Stroszek, de Werner Herzog, sobre um europeu vivendo na América que se mata em vez de escolher entre duas mulheres” [p. 160]
Originalmente publicado em 1995, e tendo inspirado o filme Control, de Anton Corbijn, em Tocando a distância estão registrados a inabilidade de Ian Curtis para com coisas práticas da vida de um adulto normal – por exemplo, dirigir, morar sozinho etc.; há um capítulo intitulado Decida por mim –, a oscilação de seu comportamento (ora carinhoso, ora agressivo), a certeza do sucesso (chega a abandonar empregos na certeza de que o Joy Division daria em algo), as crises epiléticas (muitos fãs julgavam serem apenas trejeitos de palco) e a bigamia – Deborah admite a fraqueza à época, mas documenta o caso do músico com a jornalista Annik Honoré (falecida ano passado).
Deborah cita, mas não publica, a longa carta deixada a ela por Ian por ocasião de seu suicídio, o que bastaria para provar que, longe de caça-níqueis, seu relato é um desabafo necessário, profundo, emocionante e corajoso.
A edição brasileira traz ainda letras gravadas e inéditas de Ian Curtis, escritos inacabados do artista, lista de shows do Joy Division, um pequeno álbum fotográfico e uma minuciosa e surpreendente discografia (listando, às vezes, coletâneas em que a banda comparece em apenas uma faixa). Continue Lendo “Um relato honesto e emocionante”
Vivendo Teatrodança – Investigações de uma artista maranhense para crianças de qualquer idade. Capa. Reprodução
A história do Grupo Teatrodança se confunde com a própria vida da artista – difícil enquadrá-la em apenas um ramo das artes – Júlia Emília, que o fundou em 1985 e o dirige desde então. Mas seu envolvimento com as artes começa bem antes.
Hoje (26), às 19h, no Centro de Pesquisa de História Natural e Arqueologia do Maranhão (Rua do Giz, 59, Praia Grande, próximo à Praça da Faustina), ela lança Vivendo Teatrodança – Investigações de uma artista maranhense para crianças de qualquer idade [2015, R$ 20,00 no lançamento], publicado através da seleção no edital de literatura de 2014 da Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (Fapema), em que (re)conta parte dessa história. No lançamento Eline Cunha, Luciana Santos, Sandra Oka e Victor Vieira apresentarão intervenções originais sobre suas relações afetivas com o Grupo Teatrodança e temáticas da nova investigação em processo.
A própria Júlia Emília se apresenta, na orelha da obra: “Filha de família intelectualizada tive um pé na sapatilha clássica e outro nos terreiros das culturas populares maranhenses, sem populismo postiço”. Bem lhe traduz também um poema, não por acaso citado no livro, do dramaturgo alemão Bertolt Brecht: “Eu era filho de pessoas que tinham posses./ Meus pais puseram um colarinho engomado ao redor de meu pescoço/ E me educaram no hábito de ser servido/ E me ensinaram a arte de dar ordens./ Mas, mais tarde, quando/ Olhei ao redor de mim,/ Não gostei das pessoas de minha classe/ Nem de dar ordens, muito menos de ser servido./ E abandonei as pessoas de minha classe/ Para viver ao lado dos humildes”.
Sobre ela, assim se refere o poeta Ferreira Gullar: “Júlia é uma artista muito autêntica, trabalhando no resgate de um tipo de aproximação da cultura popular de maneira muito sensível”. O cantor e compositor Zeca Baleiro endossa: “É uma artista muito intensa, muito verdadeira”. O segundo musicou os versos de cordel do primeiro e ambos assinaram a trilha de Bicho solto buriti bravo, uma das investigações abordadas em Vivendo Teatrodança – longe de soar pedante, é realmente difícil classificar o trabalho de Júlia Emília como espetáculo de dança ou espetáculo de teatro. Simplesmente os rótulos não lhes comportam.
No livro, a autora remonta brevemente os 30 anos de história do Grupo Teatrodança, antes passeando por sua trajetória artística, confessando influências – Angel e Klauss Viana, Teresa D’Aquino, Stanislavski e Grotowski, entre outros – e vivências – o Teatro Ventoforte, o Centro de Criatividade do Méier, além do Laboratório de Expressões Artísticas do Maranhão (Laborarte) e do Estúdio Pró-Dança, entre outros. A obra se completa com os textos das investigações O baile das lavandeiras e Meninos em terras impuras e aborda desde a fundamentação das peças, elencos, apresentações, dramaturgias e partituras. Na música se misturam nomes como Apolônio Melônio – do bumba meu boi da Floresta, atualmente internado em estado grave –, Carlinhos Veloz, Chico Maranhão, autos do pastor maranhense e do pastoril pernambucano e, entre muitas outras referências, as bandas de pop rock R.E.M. e Coldplay. Também soam pelas páginas de Júlia Emília e palcos frequentados pelo Teatrodança, também devidamente listados na obra, os tambores de mina e crioula, o lelê de São Simão, a dança de São Gonçalo, a poesia da escritora Maria Firmina dos Reis e a lenda da serpente (ou a serpente da lenda), para citar algumas de nossas melhores tradições.
Mas não é – ou ao menos não deveria ser – só ao “povo” do teatro e da dança que interessa a obra de Júlia Emília (e do Grupo Teatrodança): ao longo destes 30 anos e, especificamente nas vivências abordadas em Vivendo Teatrodança, estão colocadas, de forma mais ou menos sutil, preocupações políticas e ambientais – a terceira investigação, “Meninos em terras impuras, dentro da noção de corpo ambiental foi escrito em 2011, para denunciar a degradação a que a área metropolitana da Grande Ilha está submetida”.
Retornamos ao texto da orelha, em que Júlia Emília admite não ter “vergonha de nascer em terra espoliada, de expor meus exercícios de aculturação, de registrar dramaturgias que nem sei se serão publicadas exatamente por acreditar que o texto eterniza a cena”. O lançamento de Vivendo Teatrodança é parte das comemorações de 30 anos do Grupo homônimo, que continuam ao longo de todo 2015 (e sobre as quais este blogue voltará, em momentos oportunos). Os que conhecem os trabalhos e batalhas do Teatrodança e de sua fundadora-diretora lhes desejarão vidas longas. Aos que não, terão hoje mais uma oportunidade. Cabe a pergunta: estão esperando o quê?
Contando 40 anos de carreira literária e fiel ao conto, o sergipano Antonio Carlos Viana aprofunda algumas obsessões em Jeito de matar lagartas [Companhia das Letras, 2015, 147 p.; leia um trecho]: a velhice, o sexo (ou a falta dele), a solidão, a morte. “Pode-se dizer que todos os seus contos giram em torno do corpo e suas vicissitudes”, adverte-nos Paulo Henrique Britto nas orelhas.
A muralha da China, que abre o volume, por exemplo, é sobre como uma vizinha ensaia seus filhos para uma mentira antes de (quase) noticiar a morte do marido e do filho da protagonista. No conto-título o sexo está nas entrelinhas, no sabor de descoberta entre as ocupações do fim da infância e começo da adolescência.
Em Florais a protagonista, após enviuvar, descobrirá algo inédito em se tratando de sexo. Em Lucy in the sky a mulher do título abre a porta a um desconhecido para torná-lo outro homem. E descobrir-se outra mulher. Em Balé, Aline nunca mais voltará a andar. Em Madame Viola faz escova progressiva, a mulher que batiza o conto torce ardentemente por tornar-se viúva, após ver uma notícia na televisão sobre um acidente de que presumivelmente seu marido teria tomado parte.
Paixão no delta relata o encontro de dois velhos, ela “68 anos”, ele “cabelos alvíssimos e espessos”, e a falta de memória dele para relatar o encontro. Dona Deusinha tem horror à morte e achou que seu casamento com seu Odilon “tinha tudo para não durar”, após a primeira noite com ele, nos fundos da funerária onde foram morar. Falecido o marido, em Cremação, a primeira coisa que a mulher faz é mudar-se para bem longe, ir em busca de uma antiga paixão da juventude e anunciar aos filhos o desejo de ser cremada.
Em Um traidor dona Maria Reina “faz sessenta anos, sozinha”. Em seu registro o escrivão esqueceu da letra g, ponto que ela descobriu depois, masturbando-se em uma cadeira com vista para o mar. Em Missa de sétimo dia um cliente deseja dar o último adeus a uma prostituta, sendo hostilizado por familiares da falecida.
O autor é cruel, mas extremamente humano, com senso de humor aguçado. Por vezes o que se chamaria humor negro em tempos menos politicamente corretos. Seus contos, sempre curtíssimos, nunca excedem o necessário. Ao longo das 27 breves narrativas de Jeito de matar lagartas vez por outra sentimos pena desta ou daquela personagem, mas, cruéis que também somos, quando em vez flagramo-nos com um sorriso no rosto.
Ex-feirante, dj e cozinheiro, Julio Bernardo, filho de feirante, nos brinda com uma minuciosa radiografia do ambiente das feiras livres, guiado por sua prodigiosa memória, em Dias de feira [Companhia das Letras, 2014, 189 p.; leia um trecho].
Da infância e adolescência passadas em feiras livres, o autor repassa biografias de feiras e feirantes, temperadas por saudosismo, ranzinzice, algum glamour e certa preocupação. Cada ingrediente é justificado.
É um livro recheado de saudades de um tempo que não volta mais, entre histórias hilariantes e trágicas. Mesmo sem perder o bom humor, até para contar as segundas, há críticas a fast foods, a comida super-higiênica – ao menos na aparência – de grandes cadeias de supermercado, à playboyzada consumidora de comida sem graça e, por extensão, ao capitalismo em si, já que na boa e velha feira livre mais valia a lei do fio do bigode. Daí o glamour: algumas situações – calotes, roubos e outros delitos –, eram resolvidos na base da violência, o que o autor aplaude. A preocupação dialoga com o saudosismo e reside no que nos reserva o futuro: o avanço das grandes redes e sua produção em escala industrial acabando com pequenos comércios e seus atendimentos personalizados, o preparo de alimentos mais saudáveis e caseiros, de acordo com as preferências do freguês enquanto sujeito singular.
Dias de feira é engraçado, dedicado aos pais do autor, e nele é reconstruído o ambiente das feiras livres, de sua montagem à hora da xepa, passando por feirantes e fregueses, relações estabelecidas, velhos truques para aumentar as vendas ou, às vezes, lesar donas de casa, embora a honestidade dos feirantes seja sempre exaltada por Julio Bernardo.
O bar é um caso à parte, com dados impressionantes sobre o alcoolismo dos comerciantes – ele não poupa sequer os pais, o que torna seu relato ainda mais verídico e, portanto, próximo do ambiente das feiras, prato principal destas memórias, apesar de o livro ser classificado como ficção na ficha catalográfica.
Apesar da vasta galeria de personagens e histórias, o livro não tem qualquer pretensão sociológica, antropológica ou coisa que o valha. No fiel da balança pesam as lembranças bem humoradas do autor em seus não poucos dias por detrás da banca.
O Papiros do Egito e a memória de dona Moema seguem vivos. Foto: ZR (25/4/2015)
Entre a costureira e o supermercado, subindo a Sete de Setembro, dei com o portão do Papiros do Egito aberto. A placa de venda continua lá, com o número de um celular e do velho 32310910 com o qual, vez por outra, perguntava a Moema Alvim, se tinha isso ou aquilo. “Fala alto, que eu sou surda!”, retrucava gritando, depois de um alô, para eu então aumentar o tom de voz, ser reconhecido e ela me responder se tinha e quanto era o livro ou disco que eu procurava.
Desci do carro e fui até lá. Um segundo portão é mantido fechado, por questões de segurança, e por um espelho que serve de retrovisor, dei de cara com Josilene, que há alguns anos abrira um sebo especializado em livros escolares, na Rua do Egito, a partir de uma cota da generosidade de dona Moema – também conheci sua ex-funcionária há mais de 20 anos, quando ainda menino comecei a frequentar o Papiros do Egito, cujo nome herdou da rua do primeiro endereço, no Centro, à época já funcionando na Rua dos Afogados, depois mudando-se para a Sete de Setembro, onde permaneceu até o falecimento da proprietária, em outubro passado. A última vez que havíamos nos visto fora justamente no velório e sepultamento da amiga comum.
Entabulei rápida conversa com Josilene, afinal de conta os vícios antigos são importantes, mas o supermercado não poderia esperar muito. Lembramo-nos de dona Moema. “Ela parecia uma adolescente, era só nesse negócio de face, direto”, ela comentou, lembrando o ativismo da professora aposentada na rede social. Rimos, saudosos. Ela me disse estar abrindo o sebo já há algum tempo [de segunda a sexta das 10h às 17h; sábados de 9h ao meio dia], cuidando de catalogar o acervo – até para avaliá-lo, já que pretende comprá-lo, junto com o casarão – e devolvendo as consignações aos donos. Dei-lhe parabéns, era importante a manutenção do Papiros do Egito aberto e, consequentemente, viva a memória de dona Moema. Desejei-lhe sorte e fiquei de aparecer com mais tempo e dinheiro. Esperei-a terminar um telefonema e pedi: “Deixa eu tirar uma foto tua, pra botar na internet e divulgar que estás abrindo o sebo”. Vaidosa, ela recusou-se, alegou estar descabelada. “Tira só do sebo”, devolveu, entregando-me a sacola com os três discos que catei, para não perder a oportunidade e o hábito.
Os parceiros no misto de ensaio e entrevista. Foto: Zema Ribeiro
Uma das parcerias mais recentes de Celso Borges e Nosly é A ceia do mundo, em que ambos musicaram poema de José Chagas, cantada pelo segundo, em disco produzido pelo primeiro com Zeca Baleiro em tributo ao poeta [A palavra acesa de José Chagas, de 2013], falecido meses depois do lançamento: “A esta mesa sozinho, eu me sento em vão./ Não bebo deste vinho nem como deste pão./ Falta-me convite para a paz da ceia,/ e humano apetite ante a comida alheia/ Eu busco outra mesa onde muitos estão,/ sob uma gula acesa de outro vinho e outro pão/ Mesa onde se permite uma fome tão forte,/ que nos dá apetite até para a morte”.
Uma das primeiras parcerias é Proposta de quase eternidade [1984], deles com Zeca Baleiro, gravada pela cantora Rosa Reis em seu disco de estreia. “Era a época do show Um mais um, que Nosly faria com Zeca, a primeira vez que Zeca subia num palco”, recorda-se Celso Borges. “Eu vi esse poema publicado no jornal [O Estado do Maranhão, Celso à época era funcionário do Sistema Mirante], a gente acompanhava sempre, fim de semana rolava um poema, um poeta”, lembra Nosly.
Parceiros há 31 anos, eles apresentam neste sábado (25), às 19h, na Livraria Graúna [Rua Riachuelo, 337, telefone: (99) 35211873], em Caxias/MA, Palavra tem som, espetáculo com cerca de hora e meia de duração, misto de show musical e recital poético, com entrada franca. Na ocasião, autografarão livros e cds a interessados.
O blogue foi à casa de Celso Borges em uma tarde chuvosa da semana passada. Presenciou um ensaio – ou quase isso – bastante despojado, em que os parceiros brincavam entre si, tentavam lembrar letras e melodias de suas parcerias e respondiam a algumas perguntas, por exemplo, sobre como surgiu a ideia do show. “Pintou de um puxão de orelha que eu dei em Nosly, “poxa, a gente nunca fez nada em Caxias, tu é de lá”. O lançamento é um misto de show, recital e bate papo sobre nossa parceria”, antecipou Celso. A ideia é realizar apresentações em outros locais.
Palavra tem som é dividido em quatro partes: na primeira, Celso Borges diz alguns poemas, com intervenções de Nosly ao violão; na segunda, comentam suas parcerias, interpretadas por Nosly; na terceira, contam com a participação de um artista local [o nome não havia sido confirmado até o fechamento desta matéria]; na última, Nosly canta parcerias suas com outros poetas e músicos, entre as quais Noves fora, com Zeca Baleiro, Nome, com Olga Savary, Para uma grande dama, com Fernando Abreu, Voo noturno, com Sérgio Natureza, Sancho Dom Quixote, com Ferreira Gullar e Parador, com Gerude e Luis Lobo.
A tarde corre e a chuva para; as lembranças continuam: “Blues para um anjo torto foi nossa primeira parceria pelo Correio”, recorda Celso, que em seguida conta a história de uma letra que fez para a primeira filha de Nosly: “Gabriela é depois de June [outra parceria de ambos]. A história dela é linda. As histórias de minhas parcerias com Nosly são as mais lindas possíveis: eu fui para Belo Horizonte lançar um livro e estava em uma mesa na Universidade [Federal de Minas Gerais]. Conversando com a menina que produz, soube que ela era ex-namorada de Nosly, mãe de Gabriela, a primeira filha dele. Aí ela disse: “olha a foto dela” e eu vi a foto de uma menina de óculos, com sete anos. Quando eu vi aquele retrato eu fiz uma letra e mandei pra Nosly: “fiz pra tua filha”. [Cantarola/recita a letra:] “Menina que foi e veio/ carinha que vejo pelo meio/ pela frente, pelo dente, pela foto/ pelo fio do vestido de fivela/ eu sei quem é ela/ é Gabriela/ menina eu vi, viu?/ frente a frente/ distante tua fonte/ Belo Horizonte/ tua pele de princesa bela/ eu sei quem é ela/ é Gabriela/ a alma dela está ali/ sonhando além daqui/ daqui perto de mim/ como tinta numa tela de aquarela/ como boca num beijo de novela/ é ela que vai e vem/ colorindo seu estilo/ na berlinda linda das estrelas”. Em seguida Nosly se junta a ele, acompanhando a melodia ao violão.
Indago sobre a quantidade de parcerias e Nosly arrisca “que sejam umas 40”. “Muitas [estão] perdidas”, confessa Celso Borges. A já citada June é outra feita por correspondência. Ele relembra: “Nosly estava em Belo Horizonte, eu em São Paulo. Depois ele me liga: “CB, fiz a música”. Quando eu mandei a letra, eu já sugeri a incidental de Alegria, alegria [de Caetano Veloso; cantarola:] “por que não?/ por que não?”. Nosly complementa: “eu estava em casa estudando Sons de carrilhões, de João Pernambuco. Essa música, eu acho que foi um transe tão grande que hoje eu não me sinto capaz. Eu não conseguiria fazer essa melodia hoje. Na carta, é capaz de eu ter essa carta em casa, ele já sugeriu um aboio”.
Nosly afirma ter “um calhamaço, com parcerias, algumas inacabadas, com Gerô [o artista popular Jeremias Pereira da Silva, morto pela Polícia Militar em 2007], Zeca, Joãozinho [Ribeiro], Lobo [de Siribeira], Celso Borges. Tem mais de 10 anos que não abro, um dia eu mostro pra vocês”.
Celso Borges revela ter um punhado de fitas com parcerias deles gravadas e puxa da gaveta um hd externo, onde repassa, na tela de um laptop, nada menos que 83 parcerias, todas prontas, com Nosly, Zeca Baleiro, Gerson da Conceição, Chico César, Fagner, Otávio Rodrigues, Alê Muniz, Lourival Tavares, Mano Borges, Papete, César Nascimento, Tutuca, Djalma Lúcio e Madian. Empolgado, cantarola trechos de algumas letras e recita outras – em algumas tem mais dificuldade; talvez estivessem no rol das que ele já considerava perdidas.
“Essa aqui [In, gravada por Nosly no livro/cd XXI, de Celso, lançado em 2000] eu tinha feito a letra, um poema de amor [declama:] “te ponho dentro do poema/ entre vírgulas, parênteses/ tua pele passa/ e brilhas folha a folha/ te vejo entre aliterações e rimas/ teu corpo vivo/ nu no verso/ teu corpo verso, viva o verso/ no universo de teu corpo vivo”. Eu estava em Niterói, a segunda parte eu sabia [arrisca-se ao violão, cantarolando:] “o futuro não é delicado com a gente/ mas delicado multiplica-se nas páginas/ tu és o livro do mundo e ponto final”, eu fiz isso, mas eu não sabia fazer o começo”, remonta a feitura, esta com os parceiros lado a lado.
Os dois rememoram ainda Motor [gravada por Vange Milliet em Música, livro/cd de Celso, lançado em 2006] e Aldeia [parceria registrada em Parador, de 2011]. A primeira, realizada por e-mail; a segunda, uma morna com boi de zabumba: “eu fiquei vários dias ruminando isso [cantarola:] “as flores do norte perfumam/ juro que sei de onde vem”. Quando ele foi fazer o disco, eu cheguei, “tá quase pronta!”, Zeca gravou com ele. Ficou linda!”, derrete-se Celso.
Pergunto sobre a importância da parceria e ambos não escondem a admiração um pelo outro. “Eu tenho a sorte de ter parceiros muito musicais e Nosly não foge à regra. Hoje ainda conseguimos sentar e compor, conversar”, vibrou Celso. “Celso é um dos caras que mais incentivou a gente, lá no começo. Eu e Zeca, ele foi o primeiro cara que realmente nos impulsionou para a composição. A gente ficava acompanhando no jornal os poemas que ele publicava, a gente se identificava, gostava de ler. Ele despertou na gente essa coisa da composição. Nosso contato com o instrumento não era só o afã de tocar um pouquinho mais, passou a ser também o de compor, o de criar melodias. Depois ele fez um programa, Contatos imediatos, a gente ia, gravava, e ele botava no ar. Sempre estivemos muito próximos, embora depois eu tenha ido para Belo Horizonte, ele ficou aqui, depois eu fui para o Rio, ele para São Paulo, mas a gente nunca perdeu esse contato”, devolveu Nosly.
O senhor agora vai mudar de corpo. Capa. Reprodução
O senhor agora vai mudar de corpo [Record, 2015, 111 p.], a frase-título abre o novo livro do pernambucano Raimundo Carrero, em que ele narra as aventuras da internação após um acidente vascular cerebral.
A ficção baseada em experiência real – o autor sofreu um AVC que o deixou com o lado esquerdo do corpo paralisado – remonta a amizade de Carrero com o escritor Ariano Suassuna e sua relação com o Movimento Armorial.
Uma das obsessões do Escritor é Dostoievsky, um dos autores de sua predileção, e a literatura como um todo. Outras referências aparecem ao longo do texto, como Kafka, que justifica mesmo o suicídio de um amigo-personagem.
Escrita em terceira pessoa, a novela apresenta como principal obsessão do autor-protagonista o corpo e suas relações – Cristo, sombras, fezes, luz etc. –, que dão nome aos capítulos (cenas) e as inevitáveis consequências da velhice, diante das dúvidas cruéis pós-AVC: conseguirá o Escritor continuar escrevendo? Estará ficando abobalhado? Tem motivos para temer a morte? À noite as aranhas tecem a negra mortalha com que será conduzido para a morada eterna, pensa.
Perguntas e pensamentos que povoam a cabeça do protagonista, sempre acompanhado de sua esposa, médica, em quem tem plena confiança, com quem dialoga permanentemente buscando a calma e o equilíbrio necessários para superar a situação – fora da literatura, Carrero ainda busca a cura completa.
“O corpo é a única certeza que nos acompanha desde o nascimento até a morte”, a justificada epígrafe de Clarice Lispector. No caso de Raimundo Carrero o corpo é a própria literatura.
Passeios pela História e Cultura do Maranhão. Capa. Reprodução
Hoje (12), às 19h, no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande, o escritor Wilson Marques lança uma caixa de livros reunindo sua produção infantil. O projeto, Passeios pela História e Cultura do Maranhão, reúne os livros Touchê: uma aventura pela cidade dos azulejos, Touchê: uma aventura em noite de São João, Quem tem medo de Ana Jansen?, Touchê e o segredo da serpente encantada, Touchê e a Rafa em A revolta de Beckman e Touchê e a Rafa em A invasão francesa e a fundação de São Luís.
Cinco mil exemplares da caixa serão doados a faróis da educação e escolas comunitárias de São Luís, mas quem chegar ao lançamento, hoje, poderá comprá-la ao preço promocional de R$ 20,00 – isso mesmo. O autor cita a importância da Lei Estadual de Incentivo à Cultura – a caixa tem patrocínio da Cemar, através do mecanismo público – ao possibilitar a doação e a venda a preço de custo das obras.
Sucesso de público, adotadas em várias escolas particulares de São Luís e em escolas públicas em São Paulo, as novas edições das obras de Wilson, embaladas na caixa que ele lança hoje, são ilustradas por Kirlley Veloso, egresso do mercado publicitário que montou seu próprio estúdio, hoje atendendo diversas empresas.
A noite de lançamento de hoje contará com apresentação do grupo Xama Teatro, encenando Histórias da Ilha, peça baseada nos livros Touchê: uma aventura em noite de São João, Quem tem medo de Ana Jansen?, Touchê e o segredo da serpente encantada.
É também o início de uma comemoração de 10 anos de parceria entre o autor e o grupo. Eles realizarão 24 caravanas literárias lançando a caixa, sempre com a encenação da peça, bate-papo literário e a entrega das obras a bibliotecas, incluindo o BiblioSesc, uma biblioteca móvel do Sesc/MA – parceiro do projeto – instalada em um caminhão.