Por que O Brasil é bom é tão bom

O Brasil é bom. Capa. Reprodução
O Brasil é bom. Capa. Reprodução

 

O André Sant’Anna é filho do Sérgio Sant’Anna, mas querer explicar todo seu talento pela genética pode diminuí-lo. Os dois são dois dos maiores contistas brasileiros em atividade, o que mostra que Deus é injusto: como pode tanto talento numa só família? Coisa assim só se viu, talvez, na família do Caetano e da Bethânia. Ou na família Sarney, mas esta não fez nada de útil pelo Brasil ou pelo Maranhão, apesar de tanto tempo no poder. Esta última família seria uma espécie de família de anti-talentosos. Mas o que importa mesmo, aqui, agora, são os Sant’Anna. Na verdade, o Sant’Anna, o André. E seu livro novo, nem tão novo assim, já com quase um ano de lançado, O Brasil é bom [Companhia das Letras, 2014, 190 p., leia um trecho] – o título do livro –, o Maranhão é uma província e às vezes o, digamos, crítico, pode demorar a ler e resenhar coisa ou outra. Está lá, embalado por aquele prato com uma banana espetada por um garfo, o Campo de batalha 5, óleo sobre tela de Antonio Henrique Amaral, de 1974, a prosa elegante e mui característica de um, repito, dos maiores contistas brasileiros em atividade. Sim, o André, que já havia provado isso em livros como Inverdades [7Letras, 2009], Sexo e amizade [Companhia das Letras, 2007] e O paraíso é bem bacana [Companhia das Letras, 2006], mesmo este último sendo um romance. O André, que é escritor, mas também mexe com música e publicidade, sabe utilizar muito bem a ironia, ou vocês não notaram isso a começar pelo título? O Brasil é bom tem um conto chamado O Brasil não é ruim, que ele enxerta o texto inteiro com vários “nãos” para terminar por dizer a verdade. Começa assim: “Os deputados brasileiros não são vagabundos, não ganham quase vinte e cinco mil reais por mês mais uma série de ajudas de custo como passagens aéreas, casa, comida, roupa lavada etc., não passam só três dias da semana em Brasília, onde não atuam somente em causa própria, comprando e vendendo favores e outras paradas que não os tornariam cada vez mais ricos ilicitamente”. E termina assim: “Por isso é que o Brasil é bom”. O primeiro conto do livro, Deus é bom Nº 8, começa tirando uma onda com Lula e a guinada à direita dos governos petistas. O presidente é Cristo e Judas negocia com o centrão e o livra da crucificação, mas o afasta de todos os ideais que moviam o partido antes do mesmo chegar ao poder. É claro que o André Sant’Anna adverte que “os personagens e as situações desta obra são reais apenas no universo da ficção; não se referem a pessoas e fatos concretos, e não emitem opinião sobre eles” e aí está outra coisa muito interessante na prosa de Sant’Anna, o André, de mesclar ficção e realidade e tornar pessoas reais personagens de ficção, tipo a Glória Peres, no conto inicial, que quando “Jesus nasceu num barraco bem pobrinho […] falou: esse menino vai se chamar Jesus. Jesus Cristinho”. Ou o George Harrison que ele foi. Todo mundo foi, um dia, na infância, um ídolo. O beatle aparece em vários contos, os últimos do livro, A história da revolução, A história do rock, A história do futebol e A história da Alemanha. No penúltimo, dedicado a Sérgio e Ivan Sant’Anna, “quando o futebol foi inventado, em 1969, o George Harrison era de Belo Horizonte, e no prédio dele, na escola dele, na rua dele as pessoas ou eram Atlético ou eram Cruzeiro. O primo do George era Atlético. O George era o Tostão do Cruzeiro”. Há ainda contos intitulados O futuro vai ser bom, Nós somos bons, O brasileiro é bom e Amor à pátria. Tudo ironia pura, fina ironia. Duas aspas, o começo e o fim deste último: “Porque eu sou assim: a nível de futebol, a pátria em primeiro lugar”. “A nível de futebol, o que importa é o sangue”. Comentário na rede sobre tudo o que está acontecendo por aí ironiza o discurso de ódio da classe média e da polícia sobre militantes e movimentos de defesa dos direitos humanos. Antológico, este conto mereceria transcrição integral, mas fiquemos com uns trechos, apenas, até para vocês se interessarem pela parada, digo, a prosa do André Sant’Anna, e comprarem o livro – e lerem, que é o que realmente importa: “A culpa é toda do direitos humanos, que vem aqui se meter no Brasil e não cuida dos problemas deles mesmos, desses países que se acha. Porque lá todo mundo faz o que quer, faz terrorismo, fuma drogas, anda pelado com os seios de fora e até faz sexo com homens do mesmo sexo. […] Aí, quando vem um bandido e pega o seu carro no farol e dá um tiro na sua cara, você que é um cidadão de bem, com a sua família, o que é que acontece? Vem o direitos humanos e protege os bandidos e quer que a gente que é homens de bem, que não temos direitos humanos nenhum, fique quieto vendo os estupradores todos levando boa vida lá na cadeia, comendo comida que a gente paga e até levando mulher lá prá dentro, prá fazer sexo. […] Brasileiro não precisa nada desses gringos. Esses gringos é que fazem esses terrorismos. Pode ver que aqui no Brasil não tem terrorismo, não tem terremoto nem nada disso. […] Os gringos vêm aqui e ficam querendo botar esse direitos humanos aqui prá soltar os bandidos todos da cadeia. Mas eles lá prendem bandido de menor. Lá na terra deles pode até pena de morte. Só aqui é que não pode porque os gringos do direitos humanos não deixa. […] Eu sou igual o velho lobo Zagallo, totalmente verde e amarelo”. Na história mais longa do livro, Lodaçal, um par de amigos tem várias vezes seu futuro interrompido, sempre de maneira trágica, tudo narrado com a categoria futebolístico-literária de André Sant’Anna, mineiro que hoje vive em São Paulo e talvez não torça pelo Fluminense, como o pai dele, não sei. Toninho e Chiquinho, os personagens, se alimentam, entre outras coisas, de papel higiênico usado. Há sexo, drogas, violência, “o Toninho engolindo os próprios dentes, a visão toda turva, mas pelo menos não saiu pedaço de cérebro pela orelha, coisa que ia acontecer se o Chiquinho deixasse o Toninho nas mãos dos cidadãos de bem”. É irônico, e talvez por isso engraçado, que a ficção de André Sant’Anna revele tão bem o Brasil cotidiano, com seus problemas, sua ignorância, seus preconceitos, o que deveria ser papel da imprensa, mas esta, na maior parte do tempo e das vezes, prefere praticar ficção para agradar aos patrões, e o André é competente também ao escrever não-ficção, que eu já li, aqui e acolá. “Vou dizer uma coisa pra você, uma coisa que, no país da Copa do Mundo, dos Jogos Olímpicos e das instituições de espancar crianças seria considerado uma blasfêmia absoluta: a Alemanha é muito melhor do que o Brasil. Pode crer.”, termina o livro A história da Alemanha, o livro escrito e publicado antes da Copa do Mundo de 2014, antes da reeleição de Dilma Rousseff, antes, portanto, do panelaço e do “impítima”. Qual a capa de seu livro – quem vê de longe e ligeiro pensa em retrato, mas é uma pintura – o que André Sant’Anna faz é pintar um quadro – futurista? – do Brasil, um Brasil em que a Lei de Murphy devia ser artigo da Constituição. É por isso que a literatura de André Sant’Anna é tão boa!

Cultura popular para crianças, do teatro ao conto

Lenita Estrela de Sá lança hoje (5) A filha de Pai Francisco – Bumba meu boi para crianças, no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho

A filha de Pai Francisco - Bumba meu boi para crianças. Capa. Reprodução
A filha de Pai Francisco – Bumba meu boi para crianças. Capa. Reprodução

 

A escritora Lenita Estrela de Sá lança hoje (5), às 19h, no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, seu livro A filha de Pai Francisco – Bumba meu boi para crianças, adaptação em prosa de uma premiada peça teatral de sua autoria.

O folclorista Américo Azevedo Neto, no prefácio da obra, elogia o trânsito de Lenita entre os gêneros, conclamando palmas para ela em ambos.

O livro é curto, como indica o “para crianças” do título, e vai além do bumba meu boi, servindo como uma espécie de porta de entrada para os pequeninos ao universo das lendas do Maranhão. Além do boizinho cuja língua é pretendida para a alimentação da gestante Mãe Catirina, estão lá a Mula sem cabaça e a Cavala canga, ilustrados por Salomão Jr. Um exercício importante, num tempo em que as crianças são cada vez mais cedo tragadas para o universo do virtual e dos joguinhos eletrônicos.

Outro aspecto que merece destaque nesta obra infantil de Lenita é sua demonstrada preocupação com o meio ambiente: o fazendeiro rico, além de tudo, polui o mangue de onde os moradores dos arredores de sua fazenda tiram sua alimentação, baseada em caranguejos, sarnambis e sururus. A história tem final feliz, com comida farta e festa.

O homem ao lado inaugura reedição da obra de Sérgio Porto

Companhia das Letras reedita obra do autor, cronista bem humorado, mais conhecido como Stanislaw Ponte Preta

POR ZEMA RIBEIRO
ESPECIAL PARA O IMPARCIAL

O homem ao lado. Capa. Reprodução
O homem ao lado. Capa. Reprodução

O homem ao lado [Companhia das Letras, 2014, 247 p., leia um trecho] apresenta um Sérgio Porto mais lírico, embora o bom humor permeie as crônicas ali selecionadas. O livro é a reedição de sua primeira coletânea de textos jornalísticos – isto é, publicados na imprensa [1958] – e A casa demolida [1963], que era uma versão ampliada do primeiro, incluindo as crônicas então selecionadas pelo próprio autor.

Sérgio Porto é o nome de batismo de Stanislaw Ponte Preta, multimídia antes do termo ser inventado: cronista, radialista, compositor, o bancário trabalhou ainda em teatro e televisão. Nasceu e morreu no Rio de Janeiro e é responsável por uma galeria de personagens conhecidos, como Tia Zulmira, Rosamundo e Primo Altamirando, além do antológico e – infelizmente – atualíssimo Febeapá [a edição mais recente saiu pela Agir em 2006], o Festival de Besteiras que Assola o País.

Também são de sua lavra ditados populares cuja autoria acabou diluída de tanta repetição. Para ficarmos em apenas dois exemplos: foi ele quem usou pela primeira vez a expressão “mais perdido do que cego em tiroteio”. Ou o “samba do crioulo doido”, de fato um samba-enredo composto por ele, hoje em desuso após o advento do politicamente correto.

Publicadas entre 1952 e 1956 em veículos como a revista Manchete e os jornais Diário Carioca e Tribuna da Imprensa, as 71 crônicas reunidas em O homem ao lado atestam a proficuidade do gênero e do autor. Tudo é assunto para a crônica e ele escreveu um sem número delas. “Direis que homem no banheiro não é assunto de crônica. Talvez, minha senhora, talvez. Depende do homem, do banheiro, do cronista”, escreve em A janela de Marlene (p. 153). Sabia o que dizia. E mais ainda: sabia como dizê-lo.

Ao lado de nomes como Otto Lara Resende, Millôr Fernandes e Paulo Mendes Campos – autores também reeditados pela Companhia das Letras –, entre outros, Porto foi um dos responsáveis por “consolidar a crônica como a manifestação literária mais fecunda e popular do país”, como afirma o jornalista Sérgio Augusto no texto de apresentação de O homem ao lado – ele, o curador da reedição da obra de Porto pela editora. Uma pena a brasileiríssima crônica ter perdido espaço, salvo raras exceções em jornais da metade de baixo do mapa do Brasil.

A graça, o bom humor, o lirismo, a leveza e a elegância permeiam toda a obra de Porto, cuja reedição aparece em boa hora. “O sol entrava em suas frases por todos os lados”, atestou o escritor Barbosa Lima Sobrinho.

Bondes, traições, trajetos, quintais, lembranças da infância – muitas crônicas evocam a casa demolida que acabou por batizar-lhe um livro – vizinhas, corações partidos, sambas, boemia, jogo do bicho, repartições públicas, conversas ouvidas: tudo eram panos para as mangas de Sérgio Porto. Recortava “no violento sol da praia, pedaços dos jornais que lia sem parar, aproveitando o tempo. Pois era, como quase todos os humoristas brasileiros, um trabalhador braçal”, escreveu Millôr Fernandes em O Pasquim em outubro de 1970, num dos textos sobre Sérgio Porto trazidos no volume a guisa de posfácio – as coisas mudaram muito após quase 50 anos do falecimento do escritor e os humoristas já não são tão engraçados ou trabalhadores assim.

“De que morreu Sérgio Porto? Todos os seus amigos dizem a mesma coisa: do coração e do trabalho”, escreveu Paulo Mendes Campos na Manchete de 30 de novembro de 1974 – o  texto saiu em O mais estranho dos países [Companhia das Letras, 2013] e completa o “posfácio” de O homem ao lado, ao lado do texto de Millor Fernandes. Ao leitor só resta constatar que tanta vida e tanto trabalho valeram tanto a pena.

[O Imparcial, domingo, 1º. de fevereiro de 2015]

O homem-mulher reafirma Sérgio Sant’Anna como um grande mestre das histórias curtas

O homem-mulher. Capa. Reprodução
O homem-mulher. Capa. Reprodução

Sérgio Sant’Anna é o melhor contista brasileiro em atividade. A quem porventura discordar da afirmativa, recomenda-se urgentemente a leitura de O homem-mulher [Companhia das Letras, 2014, 183 p.; leia um trecho], seu mais recente volume dedicado às histórias curtas.

“Conto é tudo aquilo que chamamos conto”, diz a célebre definição de Mário de Andrade. Daí que esta obra de Sérgio tenha contos de duas páginas até O homem-mulher II, que encerra a antologia, com suas 44 páginas, na linha tênue entre o conto e a novela. Ou o roteiro cinematográfico.

Eis aí, aliás, uma espécie de baliza particular para avaliar a qualidade de um livro de contos: quantos deles dariam bons filmes? Sérgio que é autor, por exemplo, de Um crime delicado [1997], romance que originou Crime delicado [2005], de Beto Brant, tem ao menos quatro contos cinematográficos em O homem-mulher: os contos-títulos, que abrem e fecham o volume (o primeiro uma organizada versão cut-up do segundo, como se Sant’Anna guardasse o melhor – e mais trágico – para o final), Lencinhos – comovente sem perder o erotismo, uma das marcas de sua literatura – e As antenas da raça – que seria ainda melhor se terminasse no “suicídio” da protagonista, sem o autor (tentar) entrar na “psicologia” de uma barata.

Os contos-título contam a história de Adamastor Magalhães – ou Fred Wilson, ou ainda Zezé –, paraense que se veste de mulher no carnaval e vai ao Rio de Janeiro tentar a vida como ator, para terminar de forma trágica. Lencinhos narra a paixão de um cinquentão por uma vendedora de lenços cujo marido definha vítima de câncer. As antenas da raça relata o suicídio acidental da embaixatriz Berenice Azambuja, que resulta da vaidade e orgulho bestas da dita grã-finagem. Em O conto maldito e o conto benfazejo e Prosa Sant’Anna reflete sobre o ofício de escritor. Clandestinos revela um adultério. O torcedor e a bailarina relata a paixão instantânea de um torcedor cujo time é derrotado na final de um campeonato por uma bailarina que toma a tela após uma zapeada deste torcedor – que logo esquece a derrota e o mundo ao redor. E há ainda 11 outras histórias, para deleite do leitor, iniciante ou mais acostumado à pena elegante do mestre carioca.

O sexo, a violência, o futebol e a morte, obsessões deste torcedor do Fluminense, estão presentes. E há mesmo um conto – Amor a Buda – em que o autor comenta a “escultura Tentação (Tangseng e Yaojing), de 2005, do chinês Li Zhanyang”, que ilustra a capa e O homem-mulher.

Autor profícuo e consagrado, Sant’Anna iniciou sua premiada carreira literária há 45 anos, com os contos de O sobrevivente (1969), a que se seguiram quase vinte livros entre contos, novelas, romances, peças de teatro e um de poesia [Junk box, de 1984]. Venceu quatro vezes o prêmio Jabuti e é pai do também escritor André Sant’Anna – que a julgar pela qualidade da obra que vem construindo, herdou muito do pai.

A pergunta que não cala ao encerrarmos um livro monumental como O homem-mulher é: como um autor há tanto tempo na estrada consegue soar original? Determinados temas são como marcas de sua prosa, mas a forma como Sant’Anna os aborda soará sempre singular. Para ele, parece, a literatura é a própria vida, que começa com sexo e termina com morte – longe de querer, aqui, entregar o ouro ao bandido. Repete-se a recomendação com que se abre esta resenha: a quem não conhece, o volume serve também como uma bela porta de entrada à obra do autor.

Memórias de quem está em todas

De novo-baiano a tribalista: personagem fundamental da música brasileira, Dadi lança livro em que relembra sua participação em momentos marcantes nos últimos 40 anos

Meu caminho é chão é céu. Capa. Reprodução
Meu caminho é chão é céu. Capa. Reprodução

 

Eduardo Carvalho nunca foi conhecido por seu nome de batismo, apelidado desde a infância, mesmo em casa, de Dadi. Mais que testemunha, o baixista é personagem privilegiado de momentos marcantes da música brasileira nos últimos 40 anos. Ele próprio adverte não ser um escritor, mas “um músico que teve a sorte de participar de alguns momentos maneiros da música brasileira”.

Meu caminho é chão é céu [Record, 2014, 175 p.], seu livro de memórias, recém-lançado, é um agradável rememorar de fatos e causos de sua “trajetória-vida”, como escreveu o parceiro Arnaldo Antunes numa das diversas notas introdutórias ao livro, espécies de “bilhetes de recomendação”. Com o ex-Titãs avalizam a obra Marisa Monte, Roberto de Carvalho, André Midani, Jorge Ben Jor, Heloísa Carvalho Tapajós (a Losinha, sua irmã, que escreve o texto de apresentação e a quem o livro é dedicado), Caetano Veloso, Rita Lee e Moraes Moreira. A orelha é assinada pelo jornalista e crítico musical Antonio Carlos Miguel.

Estes nomes dão ideia da importância de Dadi para a música que se fez/faz no Brasil desde que os Novos Baianos a reinventaram com o antológico Acabou chorare [1972] – ele estava lá e de lá para cá, num momento ou outro, trabalhou com todos os citados.

“Éramos músicos melhores no palco que em disco”, diz, a certa altura, sobre A Cor do Som, de que foi membro por 10 anos – fora o período em que o grupo existiu “dentro” dos Novos Baianos. Dadi refere-se ao fato de gostarem de improvisar e seu livro pode ser lido assim: como sucessivas linhas de baixo numa apresentação ao vivo, as lembranças do músico parecem papo em mesa de bar, pela descontração, de improviso, já que o autor se deixa levar pelas próprias emoções – algumas vezes pede licença ao leitor para se adiantar num ou noutro ponto para contar uma boa história sobre determinado personagem. Como se não quisesse perder o fio da meada ou a oportunidade. Casos e causos emendam-se uns aos outros quando Dadi resolveu atender aos inúmeros pedidos: com tantas histórias colecionadas em tantos anos de carreira, ele tinha que escrever um livro.

Personagem da música O leãozinho [1977], de Caetano Veloso, Dadi revela que foi a audição de Samba esquema novo [1963], de Jorge Ben, que o fez decidir que queria ser músico. Tinha então 11 anos e com uma vassoura imitava acompanhar o mestre, com quem viria a tocar depois em discos igualmente antológicos.

Não faltam histórias do mítico Sitio do Vovô, espécie de comunidade hippie onde viveram os Novos Baianos e onde foram gestados discos fundamentais do grupo, de como foi chamado a integrar o time, de viagens dentro e fora do Brasil, de ônibus e aviões perdidos, de aventuras em terras estranhas, das decisões que o destino tomou para ele, de passagens meteóricas por grupos como Barão Vermelho e Tigres de Bengala. Sobre os bastidores que rememora, Dadi também adverte: “com certeza, deixei de contar outras várias maravilhosas histórias”.

A discografia ao fim do livro lista títulos básicos a quem quiser ouvir o instrumentista. Estão lá seus discos solo – Dadi [2005] e Bem aqui [2008] – e títulos seus com os Novos Baianos, Jorge Ben Jor, A Cor do Som, Tigres de Bengala, Barão Vermelho, Caetano Veloso, Marisa Monte, Tribalistas e Rita Lee. Faltam Otto, Zé Ramalho, Walter Franco, Maria Gadú, Péricles Cavalcanti e Nando Reis, fora discos em que ele toca outros instrumentos que não o contrabaixo.

[O Imparcial, ontem]

Mesclando realidade e ficção, Chico Buarque lança seu melhor livro

O irmão alemão. Capa. Reprodução

 

O irmão alemão [Companhia das Letras, 2014, 237 p., leia um trecho] é, de longe, o melhor romance de Chico Buarque. A começar pelo mote: a procura por um filho que Sergio Buarque de Holanda, seu pai, teve na Alemanha, em 1930, antes do casamento.

Compositor consagrado, Chico Buarque – que completou 70 anos neste 2014 – já é também, há algum tempo, nome prestigiado no universo literário, dentro e fora do Brasil. Em O irmão alemão ele mescla memória e autobiografia à pesquisa e ficção.

Notas ao fim do livro dão conta de quem foi Sergio Günther, o irmão alemão de Chico Buarque, “filho de Sergio Buarque de Holanda e Anne Ernst”, que “gravou um número incerto de discos, hoje fora de circulação”.

O livro é narrado por um professor de literatura – alter ego do autor –, que se diverte com o cometimento de pequenos delitos – Chico Buarque chegou a ser detido por um furto de automóvel na adolescência –, a boemia, em fazer a corte a moças desvirginadas por seu irmão mais velho e em fuçar cartas ocultas no interior dos livros da vasta biblioteca de seu pai.

As cartas, reais – com reprodução fac-símile de algumas ao longo da obra –, algumas escritas em alemão, dão conta da existência do personagem-título do livro, o que instiga a porção detetivesca de Ciccio, como é chamado o filho mais famoso de Sergio, a cujo amor pelos livros O irmão alemão presta merecido tributo – lê-lo é como mergulhar nas altas estantes do sociólogo, espalhadas pela casa inteira, cujas “paredes eram feitas de livros”. É quase correr os dedos nas lombadas dos incontáveis títulos de sua coleção.

Não à toa o novo romance de Chico Buarque é oferecido a Sergios: o pai e o irmão, ambos já falecidos, de quem o compositor-escritor se reaproxima, permitindo a seus leitores uma espiadela em sua vida privada – mas só o quanto ele mesmo permite ao descortiná-la, senhor absoluto da situação.

O resto é um piano ecoando ao longe, gemidos no quarto vizinho ou o cochilo do pai com um livro no colo e um charuto em uma das mãos.

Tim Maia: bom filme, apesar dos problemas do livro que o inspirou

 

Em Vale tudo: o som e a fúria de Tim Maia [Objetiva, 2007, 392 p.], de Nelson Mota, o cantor genial e doidão começa pesando 60 quilos em 1954 e termina com 120 em 1997 – morreria em 15 de março de 1998, e a última frase do livro trata justamente disso.

Maior problema do livro, essa cronologia do peso – por que por demais linear – é também o maior problema de Tim Maia [Brasil, biografia, 140 minutos], filme de Mauro Lima inspirado no livro do jornalista.

Talvez por que a vida de Sebastião Rodrigues Maia tenha sido, por si só, cheia de altos e baixos. Do menino entregador de marmitas ao primeiro lugar nas paradas com o disco de estreia, à prisão por roubos e posse de drogas nos Estados Unidos, à gravação de Roberto Carlos para Não vou ficar, à adesão do artista a seita Universo em Desencanto: está tudo lá.

Tim Maia, o filme, de fotografia inspirada, consegue resgatar o clima e o ambiente de uma época, percorrendo o que de mais importante aconteceu na trajetória meteórica do biografado, cuja vida curta – morreu aos 55 anos, vítima dos excessos a que se submeteu – mesclou, em iguais proporções, a genialidade e a doideira.

Um dos grandes trunfos do filme é justamente não optar por um ou outro Tim Maia, mas tentar mostrar que suas duas bandas se retroalimentavam – e às vezes entravam em curto-circuito.

Outra opção interessante é a história ser narrada por Fábio (Cauã Reymond) – Juan Zenón Rolón, cantor paraguaio radicado no Brasil, inicialmente padrinho de Tim na noite carioca, depois músico de sua banda –, autor de outro livro sobre o professor de violão de Roberto e Erasmo: Até parece que foi sonho: meus trinta anos de amizade e trabalho com Tim Maia [Matrix, 131 p.], lançado no mesmo ano do livro de Nelson Motta.

Personagem controverso, sobretudo depois das discussões sobre biografias não autorizadas – suscitadas sobretudo a partir da censura que impôs a Paulo César de Araújo e a Editora Planeta por Roberto Carlos em Detalhes –, o Rei, ainda antes de receber a coroa, é retratado de forma exageradamente caricata.

Por falar em biografias, Tim Maia é um capítulo importante da cinematografia brasileira de um gênero que, apesar de cada vez mais difícil de ser realizado, tem produzido bons frutos ao longo dos últimos anos.

Ramusyo Brasil em dose dupla

Arte: Ricardo Coutinho (Maca)
Arte: Ricardo Coutinho (Maca)

Hoje o professoramigo Ramusyo Brasil tem dose dupla de lançamento: às 20h no Cine Praia Grande (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande) ele realiza sessão de pré-lançamento de Maranhão 669 – Jogos de Phoder, um “filme de terror político”. A entrada é gratuita. Os ingressos devem ser retirados na bilheteria com meia hora de antecedência.

Na sequência, às 23h, no Porto da Gabi (Aterro do Bacanga), ele lança O reggae no Caribe brasileiro, fruto de sua tese de doutorado Reggae no Maranhão: música, mídia, poder, defendida em 2011 no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da PUC/SP. Sua pesquisa foi contemplada com prêmios de Melhor Tese de Doutorado da Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Ciências Sociais (Anpocs, 2011) e Melhor Tese de Doutorado da área de Ciências Humanas e Sociais (Fapema, 2012). O livro, financiado pelo edital de apoio à publicação da Fapema, sai pela editora Pitomba.

Arte: Ricardo Coutinho (Maca)
Arte: Ricardo Coutinho (Maca)

Obituário: Manoel de Barros

Zema Ribeiro
Zema Ribeiro

 

Desde que descobri a coincidência tive um orgulho meio besta de ter nascido no mesmo dia de Manoel de Barros. Como se dividirmos signo e data de nascimento nos desse alguma espécie de intimidade. Ele exatos 65 anos mais velho.

“O que é bom para o lixo é bom para a poesia”, aprendi com ele, que inventou coisas como o “abridor de manhãs”. “Tudo que não invento é falso”, o mantra me ecoa no juízo, aprendido em Só dez por cento é mentira, de Pedro Cezar, a ótima cinebiografia do mato-grossense.

Hoje o poeta virou passarinho e voou fora da asa. Sem mais a dizer – quisera ter escrito isso em “idioleto manoelês archaico” –, deixo-lhes um poema, que diz muito sobre si e sua obra.

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Bisbilhotando na #8Felis

O bisbilhoteiro das galáxias. Capa. Reprodução

O livro que abre este post merece atenção especial, inclusive deveria ser bibliografia das disciplinas de jornalismo cultural nas faculdades. Depois digo mais dele, num post específico.

Logo mais este que vos perturba debato o “jornalismo cultural nos bastidores da cultura pop” com seu autor, Jotabê Medeiros, repórter e crítico do jornal O Estado de S. Paulo, e aproveito para pegar meu autógrafo. Ele trouxe uns exemplares na mochila e lança esta coletânea de histórias de bastidores fartamente ilustrada, contando encontros, às vezes inusitados, com nomes como Bob Dylan, Axl Rose, Zé Ramalho e Manu Chao, entre muitos outros.

Vai ser às 16h, no Café Literário Odylo Costa, filho, no térreo do Convento das Mercês, na programação da 8ª. Feira do Livro de São Luís.

Amanhã estaremos entre os bastidores e a plateia de Edvaldo Santana.

Sopa de letrinhas

Com vasta obra dedicada ao público infantil, Wilson Marques é o patrono da 8ª. Felis. Foto: divulgação

 

É bastante possível que mesmo entre não leitores, digo, aqueles que só leem por obrigação, a memória de algum livro bata forte se perguntarmos sobre a infância, tenha sido esta abastada ou não.

Ainda que os livros fossem castigos, num distante biblioteca do passado, a memória passeará entre Monteiro Lobato, Viriato Corrêa, Lewis Carrol ou Antoine de Saint-Exupéry, entre inúmeras outras possibilidades.

A literatura infantil é o tema da 8ª. Feira do Livro de São Luís, que neste 2014 tem como patrono o escritor Wilson Marques, pai do personagem Touché, que protagoniza diversas aventuras na capital maranhense, ajudando a contar e compreender um pouco de sua história, lendas e encantos.

O personagem de Cervantes por Picasso. Reprodução

O herói-mirim de Wilson Marques é conhecido de muitas crianças, uma espécie de amigo íntimo. Não por acaso o escritor é um dos mais conhecidos destas plagas, requisitado por plateias diversas que, agora, ganha merecida homenagem desta 8ª. Felis. O mercado o chamaria de best seller local.

Como a luta de Dom Quixote contra moinhos de vento imaginários, é inglória a luta de pais e educadores contra concorrentes reais a roubar dos livros nossas crianças: toda a tecnologia existente de diversões eletrônicas e cada vez mais portáteis parece empurrar a literatura para o campo do “chato” e do “desinteressante”.

É para ajudar a compreender e mudar este quadro – ou ainda, aliar as tecnologias (não por acaso tema da Felis passada) – que se propõem tema e patrono da Feira deste ano, evento já consagrado no calendário cultural da cidade de São Luís, não apenas por força da Lei que garante sua realização, constituindo-a em uma política de Estado.

Infância. Capa. Reprodução

“A primeira coisa que guardei na memória foi um vaso de louça vidrada, cheio de pitombas, escondido atrás de uma porta”, relembra Graciliano Ramos na abertura de um de seus clássicos, não por acaso intitulado Infância (1945). Pois não sabemos, mas num futuro que desconhecemos quando de nossas primeiras aventuras literárias, nossas lembranças terão cheiro e sabor, confundindo-se por vezes com a própria infância.

Como a memória olfativa e auditiva do músico João Pedro Borges, que sob o sol de meio dia saiu à rua para comprar um picolé, após o descanso de depois do almoço, o rádio espalhava a melodia de Coração que sente, valsa de Ernesto Nazareth, a música para sempre marcada pelo cheiro de sorvete, quando o menino enfiou a cabeça no carrinho para escolher o sabor. Não é literatura, mas bem poderia ser. Não é?

A paixão do poeta e jornalista Fernando Abreu pelos livros começou quando, ainda garoto, ficou incumbido de ajudar a cuidar da biblioteca de sua escola, em Grajaú. Ali se tornou um leitor voraz, hábito que o para sempre menino carregaria para sempre.

O livro das ignorãças. Capa. Reprodução

Ninguém traduziu melhor em poesia a aventura rumo ao desconhecido que são a infância e a própria literatura do que o poeta mato-grossense Manoel de Barros. A inventividade de sua poesia, o espanto ante o desconhecido – incluindo suas invencionices – dão a exata dimensão do quão bonito e agradável pode ser embrenhar-se em esquinas que não sabemos onde vão dar.

Sandiliche. Capa. Reprodução

Ronaldo Bressane, convidado da Felis do ano passado, acaba de lançar Sandiliche, um conto que remonta a um amigo imaginário do irmão. Nosso Viriato Corrêa conta que seu Cazuza apressou o amor aos livros por amor às calças. Explique-se: o protagonista de seu clássico desejava trocar as roupinhas de menina por calças de menino. E deu jeito de entrar cedo na escola, único rastro de civilização no povoado em que nascera. É assim que começa a sua história.

Cazuza. Capa. Reprodução
Isabel Comics! Capa. Reprodução

Bruno Azevêdo e Karla Freire, casal de escritores premiados, contaram os dois primeiros anos de sua filha nos dois volumes de Isabel Comics, que deixaram de publicar para que a menina não crescesse como uma personagem de HQ. Desconheço maneira mais original de tratar uma coleção de fotografias.

Nem tudo porém é alegria na infância. Há relatos trágicos e comoventes de infâncias perdidas, como no poema Paisagem feita de tempo, de Joãozinho Ribeiro: “debaixo da ponte há um mundo/ feito de gente esquecida/ crianças sonhando infâncias/ infâncias queixando a vida”. Ou nos registros “biográficos” dos protagonistas de Pixote – Infância dos mortos e Aracelli, meu amor, ambos de José Louzeiro, e Eu, Cristiane F., 13 anos, drogada, prostituída, de Kai Hermann e Horst Rieck.

Ler é viajar, é dar asas à imaginação, e a literatura nos permite ser criança, super-herói, mocinho ou bandido, poeta, índio, pirata, bicho, qualquer coisa. Aventure-se conosco!

[texto que escrevi pra revista da #8felis, distribuição gratuita pelos espaços da Feira, que segue até 9 de novembro no Desterro (Convento das Mercês e praças da Igreja e da Flor do Samba). Conheça a programação completa]

O rádio, Parafuso e eu

Começo de setembro passado, a trabalho em Brasília/DF, meu celular toca. Era Valéria Santos, produtora da Rádio Universidade FM. Disse-me rapidamente que estavam produzindo um Janela Cultural em homenagem ao mestre José de Ribamar Elvas Ribeiro, mais conhecido como Parafuso. De cara topei dar um depoimento e ela gravou na hora, pelo telefone. Ela tornaria a ligar, já que as operadoras de telefonia não ajudam e a ligação caiu.

No dia em que o programa foi ao ar, eu estava novamente viajando. Hoje, com o amigo Alberto Jr., fui ao Santo de Casa, na mesma Universidade FM, falar com Gisa Franco no quadro Roda de Conversa sobre a relação entre a blogosfera e a difusão da música do Maranhão. O papo rolou agradabilíssimo. Reencontrei amigos e amigas e conheci Valéria pessoalmente. Ela me avisou que o programa dedicado a Parafuso estava disponível, na íntegra, no youtube.

Lembro que o lendário sonoplasta havia lançado recentemente, em concorrida noite de autógrafos no Bar do Léo, o livro Memórias de um Parafuso, de título autoexplicativo.

A quem interessar possa, aí está o programa:

Homens não podem fingir um orgasmo

Homens não podem fingir um orgasmo se não estiverem de pau duro — disse Sócrates a Xantipa, não sei exatamente em que circunstância. E disse mais: os homens não podem ficar de pau duro se não estiverem com tesão, mesmo tendo tomado alguma dessas pilulinhas mágicas cujo princípio ativo só funciona se turbinado por alguma dose de genuíno desejo sexual prévio. Tá na bula. Tá também no senso comum. O tautológico Conselheiro Acácio, personagem do Eça de Queirós que só dizia chavões e obviedades, poderia ter dito a frase. De pau mole, com certeza.

Já a mulher pode fingir um bom orgasmo a hora que quiser. Tanto a mulher do Conselheiro Acácio quanto todas as demais mulheres do mundo. Orgasmo animal, orgasmo lírico, orgasmo cósmico, a escolha é dela. E, se a trepada for apenas fonográfica, como nos antigos serviços de sexo por telefone, aí fica ainda mais fácil. Qualquer asmática em crise ou maratonista em fim de prova pode simular um orgasmo fonográfico espetacular sem nenhum esforço extra. A atriz e cantora Jane Birkin, que até onde eu sei não é asmática nem maratonista, não fez outra coisa diante de um microfone, uns cinquenta anos atrás, no Je t’aime, moi non plus, clássico romântico de bailecos, boates, hotéis de passe e das rádios dos anos 60. Nessa canção, a bela Birkin protagonizou um orgasmo sexual em parceria com seu então marido e espantalho particular, o compositor, ator, provocador, bebum e anarquista Serge Gainsbourg. Esse Gainsbourg, você sabe, é aquele sujeitinho feioso, baixinho, orelhudo e narigudo, do time do Belmondo. A feiura nunca o atrapalhou, nem lhe diminuiu o carisma, pelo contrário, e ele passou a vida colecionando beldades. Talvez sua frase mais conhecida seja: “A feiura é superior à beleza. A feiura fica, a beleza passa.”

Voltando ao Je t’aime, até hoje fico mexido ao ouvir o Gainsbourg fazendo a Birkin arfar seu orgasmo sonoro enquanto ele vai entoando com sua voz de bebum defumada em milhões de Gitanes sem filtro o grande verso da canção: Comme la vague irrésolue / je vais et je viens / entre tes reins… (“Como a onda irresoluta, eu vou e venho entre teus rins…”). Isso, em meio à melodia ultrarromântica desenhada com pungência no órgão elétrico. A melodia soava como a própria trilha da trepada que as vozes da Birkin e do Gainsbourg encenavam. Era como se o casal de gemedores apaixonados tivesse ido a um motel, ligado o FM e sintonizado justamente o Je t’aime, moi non plus, que passava, então, a ser a trilha sonora da fodelança real. Coisa fina e engenhosa, metalinguística e tudo mais, ouvida e apreciada por casais de quase todas as idades e classes sociais, sobretudo na hora do vamo-vê. Isso no Brasilzão jeca e conservador daqueles tempos, o mesmo que tinha visto se instalar a ditadura militar em 64. E com o Vaticano, ainda acatado cagador de regra na época, indicando o caminho do inferno a quem executasse ou apenas escutasse a música, sem falar no Gainsbourg e na Birkin, os protagonistas do pecaminoso ultraje, esses já com lote reservado na fornalha de Belzebu.

[trecho da crônica safada Catherine, Serge et moi, de O cheirinho do amor, que o grande Reinaldo Moraes lança daqui a 12 dias, o que, como qualquer lançamento seu (até mesmo não menos importantes textos na revista piauí, por exemplo), me deixa curioso e ansioso. Não é de meu feitio comentar aqui livros antes de lê-los, mas em se tratando de Reinaldo Moraes…]

Vanessa da Mata volta ao disco

 

Vanessa da Mata esbanja feminilidade ao esvoaçar vestidos coloridos no encarte de Segue o som, sétimo disco de sua carreira, de título apropriado para quem retorna de uma experiência literária bastante interessante, A filha das flores (2013), seu romance de estreia.

O disco abre com Toda humanidade veio de uma mulher, faixa de título feminista-criacionista cuja personagem é uma menina que quer se divertir e ser feliz.

A faixa título é outro papo de amigos: “relaxe seu semblante e pense no que está se metendo”, adverte outra mulher que, ao que parece, não quer um relacionamento mais sério. “Dramas são sempre enrolados/ tome mais cuidado/ não vá sem razão”, prossegue advertindo.

Em Não sei dizer adeus um ouvinte desavisado poderia pensar numa participação especial, já que a voz da cantora muda sob efeitos, um dos problemas do disco o excesso de ruídos e um dispensável remix da faixa título, que o encerra.

Depois do bom disco dedicado à obra de Tom Jobim – Vanessa da Mata canta Tom Jobim –, do ano passado, a mato-grossense continua mostrando por que a exigente Maria Bethânia escolheu-a para intitular um disco seu há 15 anos – A força que nunca seca (parceria com Chico César). Rebola nêga, qual a música de década e meia atrás, retrata outra mulher cuja “vida é muito dura” e os “sonhos são livres e ela só/ dá surra de amor nos filhos”

Cantando e compondo também em inglês – a regravação de Sunshine on my shoulders, sucesso de John Denver, e My grandmother told me (Tchu bee doo bee doo), um dos destaques do disco – ela cerca-se de músicos da nova e velha guardas em canções de amor e despedida: Fernando Catatau (guitarra), Kassin (contrabaixo, guitarra, sintetizador, teclado), Liminha (contrabaixo, guitarra, violão), Lincoln Olivetti (piano rhodes), Marcelo Jeneci (teclado) e Stephane San Juan (bateria, percussão), entre outros. Pode não ser seu álbum mais inspirado, mas traz diversos bons momentos.

Baratão 66: ficção e realidade se confundem tanto quanto público e privado

[Vias de Fato, julho/2014]

Bruno Azevêdo e Luciano Irrthum colam discurso de Sarney filmado por Glauber Rocha para tirar sarro da cultura (política) oficial. Baratão 66 foi indicado ao troféu HQMix 2014.

Uma das capas de Baratão 66. Reprodução
Uma das capas de Baratão 66. Reprodução

 

Um quadrinista que não desenha. Eis uma boa definição para Bruno Azevêdo, que agora foi buscar o Luciano Irrthum para dar vida a Baratão 66 [Pitomba/ Beleléu, 2013, 190 p.], a estória de uma casa de depilação (de dia) que vira puteiro (à noite), o Baratão 69.

A dupla ilustra a história do Brasil profundo, onde puteiros viram extensões dos gabinetes, climatizados ou não, das administrações públicas, as putas espécies de assessoras especiais com sexto sentido e o sonho de fisgar um figurão destes e largar a vida “fácil”.

O livro traz a clássica referência à distinção entre ficção e realidade, o que em se tratando da nossa, torna qualquer linha entre uma e outra bastante tênue. Como o é, bem sabemos, principalmente em se tratando de Maranhão, a que separa interesses privados de interesses (de homens) públicos.

Luciano Irrthum desenha o roteiro ditado por Bruno Azevêdo, autor cujo romance A intrusa foi publicado em capítulos neste Vias de Fato. Com duas capas, a gosto do freguês, como as “estampas” de depilação que ditam moda, Baratão 66, impresso em roxo, apresenta a tragicomédia das pequenas cidades do interior do Brasil – embora o livro seja ambientado em São Luís do Maranhão, capital que delas não guarda lá muitas diferenças.

O traço “grotesco” de Irrthum ilustra a “boca suja” de Azevêdo. Reprodução

Esqueçam a moral e os bons costumes e preparem-se para entrar na rotina dos inferninhos, em uma aventura hilariante, seja pelo traço, propositalmente grotesco, como a traduzir os personagens do livro e de nossa política, seja pelo enredo – “com cu ou sem cu?”, “cu fiado a gente não faz”, “só quem dá cu sem aviso é qualhira”, ouvem-se aqui e ali das bocas sujas que povoam as páginas.

Personagens bizarros, malditos, marginais compõem o cenário: a proprietária da casa de depilação que espera pela volta do “falecido”, herói de guerra com quem sonha, um porteiro “viado” apaixonado pelo padre, pecador mais que as ovelhas de seu rebanho, um carteiro que entrega os catálogos da Piu Piu, franquia em que se tornará o Baratão 66, o governador, habitué da zona. Também aparecem em Baratão 66 Ribamar Willer, taxista fã de Waldick Soriano e música brega, incluindo Adailton e Adhaylton, dupla sertaneja que protagoniza Breganejo blues, outro livro de Azevêdo, além dO Monstro Souza, serial killer e loverboy, saltado das páginas de outra obra-prima do autor, que vai pedir emprego no Baratão.

Não sabemos mesmo o que é mais imoral: se os palavrões ou o discurso de posse de José Sarney quando eleito ao governo do Maranhão em 1966, captado pelas lentes de Glauber Rocha e colado por Bruno Azevêdo e Luciano Irrthum em determinada passagem de seu Baratão 66, numa alusão óbvia à película glauberiana que captou o discurso do então jovem bigodudo, Maranhão 66 – o trocadilho, como nada ali, é por acaso. No fundo, é como se o Maranhão fosse um imenso puteiro a céu aberto – com esgotos a céu aberto, ratos e baratas passeando entre nossos pés.

A política está presente, e Baratão 66 tira um sarro com a cultura dita oficial, infelizmente ainda não completamente democratizada. A HQ de Azevêdo e Irrthum não tem um centavo de dinheiro público.

Não é fácil classificar – isto é, enquadrar em um rótulo – Baratão 66, como de resto, a qualquer livro de Bruno Azevêdo, ele ao mesmo tempo bacharel em História, mestre em Ciências Sociais, professor universitário, músico e escritor. A HQ que assina com Luciano Irrthum demonstra uma série de influências, que passam por literatura, quadrinhos, música, história, cinema e política.

HQMixBaratão 66 concorre, este ano, em duas categorias do troféu HQMix, a mais importante premiação dos quadrinhos brasileiros: Publicação independente edição única e Novo talento (roteirista) – Bruno Azevêdo. O HQMix chega à 26ª. edição em 2014.

Novidades – Autor, editor e “contínuo” da Pitomba! livros e discos, Bruno Azevêdo atualmente trabalha na edição da fotonovela Nonato, meu tudo. Ainda em 2015 lançará Brega é tu, sua dissertação defendida no mestrado em Ciências Sociais da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), recentemente selecionada em edital da Fundação de Amparo à Pesquisa e Desenvolvimento Científico do Maranhão (Fapema). Fruto de pesquisa acerca da dita música brega em ambientes como choperias e serestas em São Luís, o livro terá pesquisa iconográfica assinada por ele e pelo fotógrafo Márcio Vasconcelos, que já havia colaborado com a edição de Onde o reggae é a lei, de Karla Freire, livro vencedor do Prêmio Cidade de São Luís, publicado pela Edufma com preparação editorial da Pitomba!