[Íntegra da entrevista publicada hoje noAlternativo, O Estado do Maranhão]
O escritor e jornalista Xico Sá, autor convidado da 7ª. Feira do Livro de São Luís, falará ao público sobre jornalismo, literatura e futebol, temas da palestra que fará dia 2 de outubro no Teatro João do Vale auditório da Faculdade de Arquitetura. Na entrevista concedida aO Estado ele abordou ainda cinema, a viagem que fará à Espanha, a obra de Bruno Azevêdo e arriscou um palpite sobre a ascensão do Sampaio Correia à série B
ZEMA RIBEIRO ESPECIAL PARA O ALTERNATIVO
Nascido no Ceará, formado jornalista em Pernambuco, Xico Sá há muito está radicado em São Paulo. Já desfilou seus textos, dos mais elegantes da literatura e do jornalismo brasileiros, por veículos como Veja, Folha de S. Paulo, Playboy, Trip, TPM, V e muitos outros.
É autor de livros tão diversos como Nova Geografia da Fome – parceria com o fotógrafo Ubirajara Dettmar, que percorreu os caminhos iniciais do Programa Fome Zero no Brasil –, Modos de Macho e Modinhas de Fêmea, Se um cão vadio aos pés de uma mulher abismo, Catecismo de Devoções, Intimidades e Pornografias e o mais recente, Big Jato, espécie de autobiografia inventada que virará filme em breve (leia um trecho).
Também se aventura com a mesma elegância e desenvoltura por terrenos difíceis como o consultório sentimental – o que fez no Saia Justa, do GNT, e continua em seu blogue, hospedado no site da Folha de S. Paulo – e na crônica esportiva – aos sábados os leitores da mesma Folha deliciam-se com seu inconfundível jargão, “amigo torcedor, amigo secador”.
Outras aventuras de Xico dão-se ainda no campo da música e do cinema. O jornalista é parceiro de bandas como a mundo livre s/a e estrelou videoclipes de Sidney Magal [Tenho] e Junio Barreto [Passione], além de ter feito pontas como ator em filmes como Crime Delicado (baseado no livro homônimo de Sérgio Sant’anna) e O cheiro do ralo (baseado idem em Lourenço Mutarelli).
Convidado da 7ª. Feira do Livro de São Luís, Xico Sá estará numa mesa mediada por este jornalista, no Teatro João do Valeauditório da Faculdade de Arquitetura (Rua da Estrela), dia 2 de outubro (quarta-feira), às 18h. Ele falará sobre Literatura, jornalismo e futebol. Por e-mail, o candidato a galã da 7ª. FeliS concedeu a entrevista a seguir a O Estado.
O Estado do Maranhão – Quais as expectativas para um retorno à São Luís, desta vez, finalmente, na condição de autor convidado do maior evento literário do Maranhão? Xico Sá – Voltar à São Luís é bom de qualquer jeito. Até quando eu viajava ao Maranhão apenas como repórter, para trabalhar, já era bom, imagina agora, quando poderei trocar uma ideia com os leitores e, quem sabe, conquistar novos olhos e atenções para minhas crônicas e livros. Não vejo a hora.
Big Jatoé um romance que funcionaria bem também como um livro de contos. Em tempos de redes sociais, em que as linhas que dividem palco e plateia, formadores e consumidores de informação estão cada vez mais tênues, você é um dos que joga nas onze: é Jornalista com J maiúsculo, cronista esportivo, consultor sentimental, ator e galã. Como diz o título da biografia do Simonal escrita por Gustavo Alonso, também convidado da 7ª. Feira do Livro de São Luís: é preciso ter suingue pra não morrer com a boca cheia de formiga? Só o suingue salva. Minha história sempre foi assim, uma viração danada, tenho a peleja nordestina n´alma. Já fui de tudo nessa vida: vendedor de passarinho, garçom, porteiro de cabaré, vendedor, fiscal de trânsito no Recife etc. Agora essa vidinha burguesa tá é uma moleza. Doce de mamão com coco. Gosto dessa embolada de fazer de um tudo ao mesmo tempo. Coisa de artista moderno [risos].
Seu mais novo livro é mais ou menos uma autobiografia inventada, isto é, mescla realidade e ficção em torno de um caminhão limpa-fossas, o personagem título. Nessa salada literária eu penso em cinema, no que você já atuou como roteirista e ator. Big Jato daria um ótimo filme, concordas? Rapaz, o livro foi adaptado e será filmado no próximo ano pelo diretor Claudio Assis [de Febre do Rato, Amarelo Manga etc.]. O roteiro está pronto e agora só falta um pouco ainda da grana, mas já vai entrar em fase de captação.
Sua passagem pela FeliS é uma espécie de última escala no Brasil. Fale um pouco do que vai fazer na Espanha [o autor viaja para lá logo após a 7ª. FeliS]. O que trará de lá na mala e no bolso? Tenho uma ligação muito forte com a literatura picaresca espanhola, muito parecida com tudo que a gente faz no Nordeste em matéria de narrativa. Do cordel ao mar das nossas histórias orais. No Big Jato uso muito desse traço. Estou indo para uma pequena temporada estudar esse tema na Espanha. No próximo ano, no entanto, vou para ficar um ano.
Você assinou a quarta capa dA Intrusa, de Bruno Azevêdo e já o apontou como o maior escritor em atuação no Brasil. Na 7ª. FeliS ele lançará Baratão 66 [nota do blogue: a hq será lançada somente em novembro], graphic novel em que uma casa de depilação durante o dia funciona como puteiro à noite. O que acha da ideia, seja na ficção seja na realidade? Bruno Azevêdo é um dos maiores, sem dúvida, talvez o mais moderno e invocado dos nossos narradores, com múltiplos recursos e uma formação que junta o erudito, o popular e toda a bagaceira do que se convencionou a chamar de brega no Brasil. Ainda não me curei ainda da paixão pelA Intrusa e o cara já me lasca esse Baratão 66. Acompanho com prazer e curiosidade a trajetória desse rapaz.
Amigo torcedor, amigo secador! Sua palestra na FeliS tem como tema “Literatura, jornalismo e futebol”. Nestes campos, quais são as suas principais referências, seus escritores, redatores e jogadores de cabeceira? Tem saído coisa muito boa na literatura contemplando o universo do futebol. O que mais me empolgou ultimamente foi o livro Páginas sem Glória, do Sérgio Sant´Anna. Genial o conto homônimo sobre um craque amador que experimenta o sucesso rápido no Fluminense e depois cai em desgraça de novo no subúrbio carioca. Ando às voltas com um personagem de futebol no romance que estou escrevendo. Não é obrigatoriamente um livro sobre futebol, mas o personagem principal é um angustiadíssimo goleiro na hora do gol, como na canção do Belchior.
Este ano o Sampaio Correia sobe? Tomara Deus. Merece pela performance que mantém desde o ano passado. Estou na torcida boliviana e bolivariana.
Ou: uma feira também se faz com um tiquinho de improviso.
Logo mais às 18h, na Galeria Valdelino Cécio, rebatizada Espaço Nauro Machado para a #7felis, no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, participo de um Café Literário com o poeta pernambucano Fabiano Calixto, autor de Música possível [CosacNaify/ 7Letras, 2006] e A canção do vendedor de pipocas [7Letras, 2013], entre outros. Imensa honra, apesar do susto com o convite em cima da hora, para substituir um convidado faltoso por motivo de força maior. Conversaremos sobre “Blogues e criação literária”.
[Íntegra da entrevista publicada hoje noAlternativo, O Estado do Maranhão]
Jornalista, poeta e letrista de música, Ademir Assunção fará três participações na 7ª. Feira do Livro de São Luís. Com nove livros publicados, um cd lançado e outro a sair ainda este ano, ele concedeu entrevista exclusiva a O Estado do Maranhão
ZEMA RIBEIRO ESPECIAL PARA O ALTERNATIVO
Jornalista, poeta e letrista de música, Ademir Assunção tem nove livros publicados: LSD Nô (poesia, 1994), A Máquina Peluda (prosa, 1997), Cinemitologias (prosa poética, 1998), Zona Branca (poesia, 2001), Adorável Criatura Frankenstein (prosa, 2003), A Musa Chapada (com Antonio Vicente Pietroforte e Carlos Carah, poesia, 2008), Buenas Noches, Paraguaylândia (poesia, Assunção, Paraguai, 2009), A Voz do Ventríloquo (poesia, 2009) e Faróis no Caos (coletânea de entrevistas, 2009). Em 2005 lançou o cd Rebelião na Zona Fantasma, com participações dos parceiros Edvaldo Santana e Zeca Baleiro. Tem inéditos um cd – que lança ainda este ano – e quatro livros – três de poesia e uma coletânea de reportagens publicadas em diversos veículos. Alô, editores do meu Brasil!
Já ganhou alguns prêmios com sua produção, mas não é o tipo de cara que espera por bons ventos ou tempos de vacas gordas: o lance dele é o mar bravio, em que se mete a largas braçadas e pernadas, cara e coragem. Para lançar seu primeiro disco, por exemplo, à época, vendeu um carro. Para selecionar as 29 entrevistas de Faróis no Caos, passou dois meses isolado em uma praia.
Formado na Universidade Estadual de Londrina, o autor, convidado da 7ª. Feira do Livro de São Luís, passou pelas redações da Folha de Londrina, O Estado de São Paulo, Jornal da Tarde, Folha de S. Paulo, Marie Claire, Veja São Paulo, além de frilar por outras: Revista dos Bancários (SP), O Tempo (Belo Horizonte), Gazeta do Povo (Curitiba), A Notícia (Joinville), Cult, IstoÉ, Revista Educação e Caros Amigos. Quando o jornalismo, sobretudo o cultural, começou a ficar careta ele caiu fora – um de nossos mais interessantes jornalistas está exilado das redações.
Ademir Assunção fará três participações na 7ª. FeliS: dia 28 de setembro (sábado), às 18h, no Auditório da Associação Comercial do Maranhão (Praça Benedito Leite), com mediação deste jornalista, ele profere a palestra “A farsa da big mídia e as revistas fora do centro: uma outra história”. Domingo (29), às 19h30min, apresenta-se no recital Poesia no Beco, no Beco Catarina Mina (Praia Grande), acompanhado do guitarrista Marcelo Watanabe. Dia 30 (segunda-feira), às 16h30min, divide um Café Literário com o também jornalista e poeta Eduardo Júlio. “Poesia rima com rebeldia: Leminski, Torquato e cia. Ilimitada” é o tema da conversa, que acontece na Galeria Valdelino Cécio (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande).
Em entrevista por e-mail a O Estado, Ademir Assunção falou de poesia, jornalismo, música, revistas literárias, sua trajetória, redes sociais e da expectativa por sua primeira visita à São Luís do Maranhão.
ENTREVISTA: ADEMIR ASSUNÇÃO
O Estado do Maranhão – Ano passado você lançou o livro de poemas A voz do ventríloquo e a coletânea de entrevistas Faróis no caos. Sua trajetória parece desde sempre marcada por essa, digamos, vida dupla: a poesia e o jornalismo. Em que sentido um e outro se ajudam e completam e/ou atrapalham? Ademir Assunção – Fui em direção ao jornalismo movido pelo interesse pela linguagem poética. Peguei um período em que era possível praticar um jornalismo bem mais instigante do que o atual. Era possível desenvolver um estilo, ou vários estilos de escrita, e discutir questões relevantes com mais profundidade. Sempre fui fascinado pela página grande de um jornal, com todas as suas possibilidades criativas, desde a linguagem gráfica, fotográfica, até a própria escrita. O jornalismo me ajudou a criar uma disciplina e a procurar uma poesia mais impura, mais misturada ao cotidiano. E o estudo da tradição poética me ajudou a praticar um jornalismo mais criativo, enquanto foi possível. Embora sejam linguagens e meios bem diferentes, procurei contaminar um ao outro, levando uma consciência poética ao jornalismo e trazendo um pouco das impurezas da linguagem jornalística para a poesia.
Poesia “é saber usar a língua para extrair gemidos, uivos e palavras obscenas das mulheres mais vagabundas”. Esta é a resposta que você deu ao também poeta Edson Cruz, em O que é poesia? [2009], livro que ele organizou. O que mais é poesia? E levando em conta essa definição, você arriscaria um chute? Há muitos ou poucos poetas por aí? Bons ou ruins? Não gosto da poesia como algo puro, uma espécie de virgem imaculada no alto de um pedestal. Prefiro a poesia que vai para o meio da rua, que lambe as feridas dos trombadinhas, que se deixa violentar por tudo o que é humano, que se arrisca aos altos voos mas que tem consciência de que o asfalto é duro é áspero. Como diria Nietzsche: “de tudo o que se escreve, aprecio somente o que é escrito com o próprio sangue.” Sim, há muitos poetas que escrevem com essa fúria e essa urgência. São esses os que mais me interessam.
A mediocrização do jornalismo cultural brasileiro te obrigou a um exílio voluntário. Entrevistas como as reunidas em Faróis no caos estão cada vez mais raras na chamada grande mídia. Neste aspecto, uma volta ao passado parece mesmo impossível? Nada é impossível e o tempo não é linear como pensamos. É possível que a qualquer momento surja uma nova tribo de jornalistas que encare o exercício da escrita e da informação de maneira apaixonada e ousada, e não apenas como uma profissão, onde “quem pode manda e quem tem juízo obedece”. Para mim, isso é uma total falta de juízo. É preciso também que as condições se apresentem para que essas mudanças aconteçam. Quanto ao meu exílio, não foi tão voluntário assim. Passei períodos difíceis, sem grana, sem conseguir trabalho em jornal ou revista algum. Mas nunca estive disposto a vender o que tenho de mais precioso: a minha inquietação.
Muito do conteúdo dos poemas de A voz do ventríloquo é uma crítica a essa sociedade do espetáculo e do consumo desenfreado, que vai mais a um show ou a um restaurante para postar a foto do artista no palco e da comida no prato que para apreciar um ou outro. A experiência parece só existir se compartilhada. Escrever é um exercício solitário, que vai na contramão disso tudo. Como você dosa o exercício de escritor com a exposição na medida que o mesmo deve ter, divulgando a obra, conquistando leitores? Sinceramente, nunca me preocupei em conquistar mais leitores. Sigo fazendo o que tenho que fazer. A escrita, para mim, é vital. Tenho tanto prazer em passar madrugadas escrevendo solitariamente quanto em subir em um palco e apresentar meus poemas com minha banda. É claro que tenho intenção de influenciar mais pessoas, de interferir no resultado do jogo, mas que isso aconteça sem concessões descabidas. A poesia é capaz de abrir o olho de muita gente. Não a encaro como um entretenimento. Não tenho nenhuma dúvida de que minha percepção seria mais pobre se não tivesse lido Uivo, de Allen Ginsberg, ou a tradução da Ilíada por Haroldo de Campos, para citar dois exemplos.
Além dos livros de poesia e prosa e da atividade jornalística, outra atividade sua é a música. Para você, há diferença na hora de compor uma letra de música ou escrever um poema? Apenas diferenças técnicas. No meu caso, a maior parte das minhas parcerias musicais nasceu de poemas já escritos. Poucas vezes escrevi poemas para harmonias ou melodias já prontas. Acho um equívoco pensar que a “grande poesia” só pode existir no livro. Itamar Assumpção, por exemplo, é um poeta de altíssima voltagem. Só que em vez de publicar livros, gravou discos. São meios diferentes, com possibilidades diferentes. Gosto muito do poema cantado de Gilberto Gil [Metáfora, do disco Um banda um]: “Na lata do poeta tudo nada cabe / Pois ao poeta cabe fazer / Com que na lata venha caber / O incabível.”
Depois de Rebelião na Zona Fantasma você está preparando um novo disco, fundindo poesia com rock e blues, numa experiência para muito além de recitar poemas com fundo musical. A banda que te acompanha se chama Fracasso da Raça, um belo nome que já traduz uma opinião, uma visão de mundo. Deste novo disco – como se chamará? – já tive a oportunidade de ver o clipe de Bang bang no sábado à noite e ouvir Lena [enviada por e-mail em primeira mão]. Em ambas estão referências fundamentais para tua literatura, como Bob Dylan, John Lee Hooker, Sérgio Leone. O que mais esperar? E qual a previsão de lançamento? Este novo disco, que se chama Viralatas de Córdoba e será lançado em novembro, está mais radical do que Rebelião na Zona Fantasma. Das 14 faixas, há apenas uma cantada, um blues interpretado pela cantora Fabiana Cozza. É um poema que Edvaldo Santana musicou, sem nenhuma alteração. Todos os outros são entoados, com ritmos, com modulações, com intenções de voz diferentes. Porém, meticulosamente encaixados em harmonias e compassos musicais. Como você frisou, não se trata de poemas falados com um “fundo musical” aleatório, improvisado. O processo de composição com os músicos Marcelo Watanabe [guitarrista que o acompanhará em Poesia no Beco, durante a 7ª. FeliS], Caio Góes e Caio Dohogne foi muito curioso. Os próprios compositores jamais haviam trabalhado desta maneira. Gravei também O Deus, parceria com Edvaldo Santana e Paulo Leminski e Nossa Vida Não Vale um Chevrolet, do Mário Bortolotto. Ambas são canções, originalmente cantadas, mas fiz uma versão falada (ou “entoada”, como prefiro). Em Chevrolet acrescentei o poema Eu Caminhava Assim tão Distraído, do poeta e dramaturgo Maurício Arruda Mendonça.
As revistas literárias e culturais são tema de uma das mesas de que você participa na 7ª. Feira do Livro de São Luís. Recentemente a editora Abril fechou a Bravo!, que apesar de já não ser como quando iniciou, ainda tinha alguma importância. É um sinal dos tempos? Ou sempre foi assim: a tesoura que corta o orçamento pega primeiro na cultura? Essa é a realidade do mercado editorial. Se uma publicação comercial não dá lucro financeiro, acaba sendo extinta. Não era um leitor assíduo da Bravo!, mas lamento seu fim. Particularmente, preferia que a Veja fosse extinta e a Bravo! continuasse.
Você é um dos editores da revista Coyote, que já conta 10 anos, 24 edições, um pequeno apoio da Prefeitura de Londrina e muita paixão e teimosia dos editores – a teimosia uma espécie de sal da poesia, tempero que não pode faltar. A meu ver é a mais importante revista de literatura do Brasil, hoje. Como surgiu a ideia e o que os leva a resistir? Rodrigo Garcia Lopes [também convidado da #7felis], Marcos Losnak e eu fizemos outras revistas antes, juntos, ou separados. A Coyote nasceu de uma necessidade nossa de mostrar autores, tanto do passado quanto do presente, que considerávamos importantes e que não víamos em outras publicações. E há uma particularidade da Coyote que as pessoas notam de cara: a linguagem gráfica. Para mim, Losnak é um gênio do design gráfico. Não entendemos a revista apenas como “suporte” para textos. A própria linguagem gráfica assume um papel de altíssima significância.
Que outras revistas literárias te fizeram e/ou fazem a cabeça? Várias, da Navilouca à Azougue. Muitas revistas surgiram nas últimas décadas, a maioria desapareceu, mas deixou contribuições importantes. Para citar algumas: Bric-a-Brac (Brasília), Orobóro e Medusa (Curitiba), Imã (Vitória), Ontem Choveu no Futuro (Campo Grande), Carioca e Inimigo Rumor (Rio de Janeiro), Pulsar (Teresina, se não me engano), Pajeurbe (Fortaleza) e Revista de Autofagia (Belo Horizonte). Há várias outras que me escapam à lembrança no momento.
Você conhece a Pitomba, editada aqui por Bruno Azevêdo, Celso Borges e Reuben da Cunha Rocha? Qual a Coyote, também tem periodicidade de-vez-em-quandal e é feita com pouquíssimo apoio, no fim das contas sai do bolso do trio mesmo. O que acha da publicação? Gosto do tom de provocação e irreverência da Pitomba. Cada poeta ou grupo de poetas traz suas referências críticas e criativas. É importante que elas apareçam, que causem atritos. Os atritos provocam movimento, abrem novos horizontes perceptivos.
Outro tema que você debaterá é relação entre poesia e rebeldia, passando por obras de Paulo Leminski e Torquato Neto, entre outros, poetas que também influenciaram teu trabalho, você um rebelde. Quem são os rebeldes de hoje, que nomes valem a pena e mereceriam uma indicação tua, a um amigo, dentro de uma livraria? É preciso situar o termo “rebeldia”, para que não se torne algo caricato. Atitudes rebeldes surgem da necessidade de se firmar outras maneiras de viver e de fazer as coisas. Elas são vitais para ampliar a percepção, as experiências, para não cair na vala da acomodação, do mais-do-mesmo. Espíritos rebeldes sempre existiram, no passado, no presente e existirão no futuro. A lista dos poetas vivos que mais me instigam não é pequena. Para citar apenas cinco deles, eis alguns que procuro acompanhar com grande interesse: Douglas Diegues, Rodrigo Garcia Lopes, Fabrício Marques, Celso Borges e Micheliny Verunschk. Mas há um punhado de outros, que podem se sentir incluídos.
Você participa ainda do Poesia no Beco, em um espetáculo de voz e guitarra, espécie de miniatura do que será o disco. Quais as expectativas para esta apresentação e em geral, nesta sua primeira visita à Ilha natal de Ferreira Gullar? O que vou apresentar em São Luis do Maranhão, com o guitarrista Marcelo Watanabe, é uma versão, digamos, mais descarnada das composições que estão nos dois discos, o Rebelião e o Viralatas. Não tem os arranjos, com bateria, baixo, backing vocais, percussão, que estão presentes nos discos. As composições serão apresentadas mais próximas da raiz, de como elas nasceram. Tomara que as pessoas se sintam estimuladas com o que vão ouvir. Quero aproveitar essa minha primeira viagem ao Maranhão para mostrar o que estamos fazendo e também conhecer o que os criadores daí estão aprontando.
– incorporando Clara Crocodilo e o Bandido da Luz Vermelha
assim falou Zaratustra
ao Recruta Zero: quem tiver de sapato
não sobra
office-boy com mortadela
na diarreia de dr. Phibes
Clarabela de biquíni
num anúncio de soda
sorrisos de latas de ervilha
e holofotes de esparadrapo
na sucursal
do Grande Frigorífico
enquanto estereofônicos repolhos
zombam de tudo isto
e nada disso
Desembucha, canalha!
gargalhadas de Rosebud
nos buchos do precipício
corta essa, nenhum grilo
esculhamba e avacalha
o Bandido da Luz Vermelha
aos gritos
de Clara Crocodilo
Durango Kid Alighieri
Perfume de Gardênia
uma lâmina no olho
e o cérebro equipado
para a próxima amnésia
*
Poema do Marcelo Montenegro, de seu Orfanato portátil [AtritoArt, 2003; Annablume, 2012, p. 52-53], que ele autografará na Ilha, em breve, bem como o mais recente, Garagem lírica. O poeta é um dos autores convidados da 7ª. Feira do Livro de São Luís. Este poema o blogue dedica ao professoramigo Flávio Reis.
José Barros Filho lança hoje (9), às 19h, no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho (Praia Grande), o livro Criminologia e modos de controle social no Maranhão no início do século XX.
A obra resulta de pesquisas junto a arquivos públicos maranhenses e de outros estados, visando identificar o modo como as instituições estatais, principalmente jurídicas e correcionais, incorporaram e legitimaram o saber criminológico para atuar na “prevenção ao crime” e no “controle de grupos perigosos”. O controle social do título, aliás, teria hoje outro significado.
Cabe aqui um chute, já que não li o livro ainda e as informações deste texto baseiam-se no release recebido: não me espantaria encontrarmos modus operandi parecidos em pleno início de século XXI, principalmente no Maranhão, mas não só, num tempo em que autores de telenovela internam compulsoriamente uma personagem por suposta dependência química.
O livro de Zé Filho, como é mais conhecido o autor, professor, bacharel em Direito e e mestre em Ciências Sociais pela UFMA, atualmente cursando o doutorado em Ciência Política pela UFRGS, estuda o tempo dos “menores”, dos “vagabundos”, dos “gatunos”, como até hoje a mídia vez por outra (ou quase sempre) trata àqueles que têm problemas com a lei, estou certo?
A pesquisa de Zé Filho teve apoio da FAPEMA e o livro sai às próprias custas s. a. Quem for ao lançamento poderá adquiri-lo, autografado pelo autor, por R$ 25,00.
Na capa, o retrato do “gatuno” Raimundo Timóteo dos Santos, refotografado para Criminologia do Livro Oficial de Registro de Gatunos, de 1926.
Digitalização de acervo e livro de partituras mostrarão outra porção de um múltiplo Leminski, cuja poesia foi recentemente reunida em livro
ZEMA RIBEIRO ESPECIAL PARA O ALTERNATIVO
A coleção de poemas que Paulo Leminski publicou em livros, inclusive póstumos, reunida em Toda Poesia [Companhia das Letras, 2013, 421 p.], bateu recordes: alcançou os 50 mil exemplares vendidos, soma nada desprezível para o mercado livreiro, e particularmente de poesia, no Brasil.
Leminski foi vários: poeta, publicitário, jornalista, tradutor, professor, judoca, romancista, contista. E músico. Revoltava-lhe, aliás, ser reconhecido apenas como letrista. Tinha razão: embora compusesse em parceria, e muito de sua obra musical ter surgido pelas mãos de parceiros que musicaram versos publicados em livros, o samurai malandro compunha letra e música.
Casos de Verdura, gravada por Caetano Veloso em Outras palavras [1980], e Luzes, gravada por Suzana Salles e Arnaldo Antunes, ela uma das Orquídeas do Brasil, banda de mulheres que acompanhou Itamar Assumpção – parceiro de Leminski – no triplo Bicho de Sete Cabeças [1993].
Não à toa, antes dos apêndices – orelhas, prefácios e tais – de Toda Poesia, lemos Notas sobre Leminski cancionista [p. 385], breve artigo assinado por José Miguel Wisnik – que já musicou tradução de Leminski. Entre as histórias que conta, aliás, está a de como Luzes chegou, através de recados ao telefone, aos ouvidos e mãos de Suzana e Arnaldo, num episódio que envolve, além dele, Alice Ruiz e Zé Celso Martinez Correa.
Wisnik diz que se o projeto de um Leminski músico não se concretizou plenamente, encontra na obra do ex-Titã sua mais perfeita tradução: a combinação entre o poema grafado na página do livro e a canção gravada no disco. Canção pop.
Através de sua obra, Leminski permanece vivíssimo hoje. É inegável que a gravação de Verdura por Caetano tenha colaborado para sua popularidade na década de 1980, quando Caprichos e relaxos [1983] esgotou edições na saudosa Brasiliense, que teve como editor Luiz Schwarz, que devolve Leminski às estantes em Toda Poesia, e que lançou no Brasil autores fundamentais como Jack Kerouac e John Fante – este, aliás, traduzido por Leminski.
Leminski músico – No campo musical Leminski tem obra curta, mas nada desprezível. Só as duas aqui citadas já lhe garantiriam lugar no panteão de nossos grandes compositores, merecendo mais espaço no dial. Entre outras de sua lavra poderíamos citar rapidamente Custa nada sonhar, Dor elegante, Filho de Santa Maria, Vamos nessa (as quatro com Itamar Assumpção), Mudança de estação, sucesso dA Cor do Som, Promessas demais (com Moraes Moreira e Zeca Barreto), gravada por Ney Matogrosso, Polonaise (com José Miguel Wisnik, gravada pelo próprio), Além alma (com Arnaldo Antunes), O velho León e Natália em Coyoacán (com Vitor Ramil), Reza (com Zeca Baleiro) e O Deus (com Ademir Assunção e Edvaldo Santana).
Leminski com Caetano Veloso e Alice Ruiz, em Curitiba (1976)
Leminski colecionou histórias engraçadas envolvendo sua produção musical. Uma delas a citada revolta confessada quando queriam rotulá-lo simplesmente letrista. “Eu sou músico!”, bradava, revoltado. E sonhava com o dia em que todas as pessoas fossem músicos, tocassem algum instrumento.
Com a grana dos direitos autorais da gravação de Verdura, por Caetano Veloso, comprou um fusca verde, justamente batizado de… Verdura. Detalhe: Leminski não dirigia. Foi Leminski quem deu ao xará Paulo Diniz o título de uma de suas mais famosas músicas: Ponha um arco-íris na sua moringa. Era uma frase do Catatau, que estava escrevendo quando os dois moravam no Solar da Fossa. Diniz usou-a para intitular a música e o poeta, em homenagem ao amigo, retirou-a do livro.
Também é famosa a correção que o poliglota Leminski aplicou ao mesmo Paulo Diniz na construção da letra de Quero voltar pra Bahia, cujo refrão é em inglês: “I don’t want to stay here/ I wanna to go back to Bahia”. Mexer na letra e retirar o verbo duplicado, como queria Leminski, iria acabar com a métrica e a homenagem do baiano ao conterrâneo exilado acabou saindo com o erro com que a conhecemos.
A obra musical de Paulo Leminski será sua próxima porção a chegar ao público. Aprovado pelo Programa Petrobras Cultural, o projeto A obra musical de Paulo Leminski – um patrimônio cultural do Paraná e do Brasil prevê a digitalização das fitas cassetes deixadas por Leminski (contendo dezenas de canções inéditas) e a posterior organização de um livro de partituras com sua obra musical completa.
Sobre este e outros assuntos, em entrevista por e-mail, uma das responsáveis pela empreitada, a musicista Estrela Ruiz Leminski, filha de Alice Ruiz e Paulo Leminski, deu detalhes sobre a produção.
Poeta, musicista, professora: Estrela Leminski seguiu os passos do pai
“NÓS JÁ SABÍAMOS DA FORÇA DA POESIA DELE” ENTREVISTA: ESTRELA RUIZ LEMINSKI
A compositora, escritora e professora Estrela Leminski, filha do poeta, é responsável pelo resgate da obra do pai. Na entrevista, ela comenta essa fase da redescoberta do público em relação a grandiosa obra do pai.
O Estado do Maranhão – A Companhia das Letras publicou recentemente Toda Poesia, que reúne a obra poética publicada em livro por Paulo Leminski. A editora anunciou para breve a reedição de Vida, livro que reúne as quatro biografias que o poeta escreveu, de Bashô, Cruz e Souza, Jesus Cristo e Trotsky. Agora, a digitalização de fitas com músicas de Leminski e a produção de um livro de partituras com sua vasta obra musical foi recentemente selecionada num edital da Petrobras. Qual a importância de fazer Leminski, sempre vivo entre nós, voltar a circular? Estrela Ruiz Leminski – Acho que a resposta se justifica na tua pergunta. Tudo também se deve ao fato da gente ter se mobilizado para segurar as rédeas da obra dele. Resolvemos ir atrás de tudo que faltava fazer para a obra dele, tão múltipla, vir à tona! Nessa tua lista ainda falta pontuar a exposição Múltiplo Leminski, realizada em Curitiba, no MON [o Museu Oscar Niemeyer], que vai circular o país.
Quando o projeto foi apresentado já se tinha dimensão do tamanho da obra musical de Leminski? Ou as coisas foram sendo descobertas ao longo da jornada? O aspecto musical dele é uma empreitada minha. Eu cresci ouvindo essas músicas, ele cantava muito em casa, e depois sempre curti o que foi gravado. O público vai se surpreender com a variedade e com o lado cancionista da obra dele.
Lembro-me de uma entrevista [ao jornalista Aramis Millarch] em que Leminski mostrava-se indignado quando as pessoas o chamavam letrista, já que ele compunha letra e música. Na mesma entrevista, ele afirmava sonhar com o dia em que todas as pessoas fossem músicos, isto é, que tocassem algum instrumento ou cantassem. Você, que acabou seguindo os passos de seu pai, na música e na poesia, acredita que esse dia vai chegar? Sonha com isso? Além de ser compositora e escritora sou professora de música. É isso que eu busco. É uma inquietação minha. As pessoas têm que ter pelo menos o direito de compreender os contextos culturais musicais, ter ferramentas críticas ao que escutam. Isso não acontece e se agravou muito com a falta do ensino da música nas escolas.
O que achou da poesia de Leminski desbancar os tons cinzentos de uma literatura pobre em uma rede de livrarias? O boom do livro não foi surpresa, foi alívio. Nós já sabíamos da força da poesia dele, da atualidade. Para a gente é a sensação de que ele está começando a ocupar um espaço merecido há tempos.
O retorno de Leminski às livrarias dá um gás no culto ao poeta, mas ele sempre teve um grande número de leitores, admiradores, fãs, seguidores. Enfim, de gente que consome e faz circular sua obra. O poeta e jornalista Ademir Assunção, que já organizou uma exposição sobre a vida e a obra de Leminski, teve dificuldades, por exemplo, para publicar uma entrevista de Raul Seixas em Faróis no Caos [Edições Sesc-SP, 2012, 407 p.], coletânea de entrevistas que ele fez ao longo de quase 30 anos de atividade jornalística. A entrevista de Leminski está lá. Como você, enquanto herdeira, lida com a obra de seu pai? Tem um aspecto de ser herdeira que é o fato de ser artista. E ainda por cima artista auto-produtora. Por um lado batalho mesmo que cada vez mais gente tenha contato com a obra dele como um todo, mas por outro não faço isso na ingenuidade. Conheço o caminho da roça e como negociar as coisas. A burocracia que isso envolve é chata, mas é necessária. Não vou julgar as famílias que por algum motivo causem entraves. De qualquer forma, sei que essa dinâmica, sendo parceira na empreitada com minha mãe e irmã [Aurea Leminski], dividindo as tarefas, tem dado cada vez mais certo.
Livro reúne textos do poeta sobre jazz, escritos quando de sua passagem como diplomata por Los Angeles. Entre artigos e inéditos e publicados em revistas da época, poeta foi pioneiro em apresentar gênero aos brasileiros
POR ZEMA RIBEIRO ESPECIAL PARA O ESTADO DO MARANHÃO
Vinicius de Moraes completaria 100 anos em outubro próximo. Foi um homem de muitas paixões e é daqueles artistas cuja vida não se dissocia da obra. Sobre o amor, ele mesmo disse, no Soneto de fidelidade, um de seus poemas mais conhecidos: “que não seja imortal posto que é chama/ mas que seja infinito enquanto dure”.
Uma das paixões de um dos inventores da bossa nova é esquadrinhada em Jazz & Co [Companhia das Letras, 2013, 152 p.], livro que reúne textos seus sobre o gênero musical americano, de que o poetinha tomou conhecimento durante sua estada em Los Angeles como vice-cônsul, seu primeiro posto diplomático, em meados da década de 1940 – pré-bossa, portanto.
Tomar conhecimento é mesmo isto que o leitor deve estar imaginando: ver com os próprios olhos, ouvir com os próprios ouvidos, em discos também, mas principalmente ao vivo, em boates, teatros, jams. O jazz surgira um pouco antes, mas estava em pleno desenvolvimento e é isso que deliciosamente nos relata Vinicius no volume organizado por Eucanaã Ferraz, que também assina seu prefácio.
Inéditos – Há artigos inéditos, textos publicados em revistas nacionais – Diretrizes, Flan, Sombra e Vanguarda –, em que um pioneiro Vinicius tentava traduzir ao leitor brasileiro o que é(ra) o jazz, relatos de jam sessions que presenciara, poemas, e o prefácio de Jazz Panorama, de Jorge Guinle, livro inaugural sobre o gênero no Brasil. Em Olhe aqui, Mr. Buster, pergunta ao personagem do título, justificando sua volta ao Brasil, mesmo o cargo lhe prevendo ainda mais um ano, mesmo amargando o prejuízo financeiro que lhe daria a volta ao Brasil: “O Sr. sabe lá o que é um choro de Pixinguinha?”
O formato do volume imita um compacto e é dividido em três partes: Jazz Jazz, onde soa mais, digamos, didático, e onde estão os textos mais compridos, sobre as origens do jazz e do spiritual; Jazz & Cinema e Jazz e a América, onde estão os poemas. Vinicius remonta aos tempos coloniais, escravidão e racismo para explicar como o jazz se consolidaria como a autêntica música americana e conta como o blues foi fundamental para a aparição do jazz.
Vinicius de Moraes cria uma intimidade com o leitor, como se não o lêssemos, mas tomássemos uns uísques com ele, que nos relata suas aventuras jazzísticas. O livro cobre um curto período: logo o poeta-diplomata voltaria ao Brasil e ajudaria a inventar a bossa nova – o que, fica mais claro agora, teve muito a ver com sua estadia americana e o jazz sorvido in loco.
O livro, no entanto, não deve ser alvo da curiosidade apenas de cats, como são chamados os aficionados pelo gênero. O relato que faz da jam, presenciada por ele, graças ao convite do músico amigo Zé Carioca – sim, o personagem de Walt Disney foi inspirado nele –, é de uma leveza e graça certamente perseguida por muito crítico de música por aí. Como, aliás, o livro inteiro.
[O Estado do Maranhão, Alternativo, 29 de agosto de 2013]
A maior Feira do Livro que São Luís já teve. É o que promete a curadoria do evento, coordenada pelo poeta e jornalista Celso Borges. “Trata-se de uma feira de retomada. Foi visível o abandono do evento em suas últimas edições. É também a primeira Feira com convidados internacionais”, adianta.
Auxiliam-no nos trabalhos de curadoria o escritor Alberico Carneiro, o poeta Josoaldo Rego e o jornalista Zema Ribeiro. “São três figuras ligadas ao universo literário: Alberico é editor de um importante suplemento literário, o Guesa Errante, e também um autor de ficção; Josoaldo é um poeta respeitado nacionalmente; e Zema tem praticado a crítica literária num cenário infelizmente hostil”, justifica.
A 7ª. Feira do Livro de São Luís (Felis) acontecerá entre os dias 27 de setembro e 6 de outubro, em diversos espaços da Praia Grande, no Centro Histórico da Capital: Morada dos Artistas, Univima, Teatro João do Vale, Praça Nauro Machado, Beco Catarina Mina, Praça Valdelino Cécio, Centro de Cultura Popular Domingos Vieira Filho e Centro de Criatividade Odylo Costa, filho (incluindo o Cine Praia Grande, o Teatro Alcione Nazaré e a Galeria Valdelino Cécio), entre outros.
O tema da 7ª Feira é “Livro e leitura: do impresso ao virtual sem perder a poesia”, que, segundo Celso Borges, busca “tratar de questões como a convivência do objeto livro, o livro de papel que alguns temos tanto prazer em tocar e ler, com os formatos digitais”. Mas as diversas palestras, mesas redondas, oficinas e lançamentos de livros abordarão diversos outros temas.
O poeta em frente à sua efígie na praça que leva seu nome
Patrono – O poeta Nauro Machado é o patrono desta edição, que homenageia ainda o poeta Catullo da Paixão Cearense, por seus 150 anos de nascimento, o escritor Aluísio Azevedo, por seus 100 anos de falecimento, o poeta Salgado Maranhão, maranhense há muito radicado no Rio de Janeiro, e a folclorista Zelinda Lima, que como todos terá um espaço batizado com seu nome, onde será exposta a relação da literatura com a gastronomia.
A cerimônia de abertura será realizada no Centro de Criatividade Odylo Costa filho, a partir das 18h30min de 27 de setembro, com a presença de autoridades. Em seguida, o poeta Ivan Junqueira ministra a palestra “A obra de Nauro Machado no contexto da poesia brasileira”, que será mediada pelo também escritor Ricardo Leão.
Benjamin Moser proferirá a palestra “Que mistérios têm Clarice?”
“Será uma grande feira, qualitativa e quantitativamente. A Feira manterá o espaço para o comércio de livros, que sabemos que é importantíssimo, mas deixará de ser somente isto, como foi nos últimos anos. Muita gente interessante falando sobre temas tão diversos, muitos deles pela primeira vez em São Luís”, comemora o curador.
Poesia – A poesia tem especial destaque na programação. O Beco Catarina Mina será tomado por recitais de poesia e música. Deles participarão nomes como Ademir Assunção (A voz do ventríloquo), Marcelo Montenegro (Garagem Lírica), Rodrigo Garcia Lopes (Canções do Estúdio Realidade, cd), Fernando Abreu (aliado involuntário), Oliveira de Panelas, Bráulio Tavares, Artur Gomes, Alan Mendonça, Ricardo Corona (Curare), Lirinha, Lúcia Santos, Reuben da Cunha Rocha, Lilia Diniz e Adeilton Lima, entre outros.
“São Luís tem uma tradição poética bastante forte, portanto é natural que vários dos homenageados desta feira sejam poetas. Os convidados contribuirão com discussões em mesas redondas e palestras e aproveitando a passagem pela ilha também apresentarão seus espetáculos, como têm feito em seus locais de origem e Brasil afora”, anuncia Celso Borges, referindo-se a espetáculos de poesia que ocorrem em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro.
Outras linguagens – Engana-se quem pensa que a 7ª. Felis estará restrita ao tripé livro, leitura e literatura. “Já estaria de bom tamanho, mas vamos além”, provoca Celso Borges. A programação contará com shows musicais, esquetes, oficinas de dança, percussão e grafite. Entre os destaques estão o espetáculo Os operários da agonia, de Tácito Borralho, sobre a obra de Nauro Machado, e o show Bandeira de Aço 35 Anos, que homenageia um dos discos mais importantes da música brasileira feita no Maranhão. “Afora a programação que os próprios escritores com certeza irão armar, um circuito alternativo, paralelo, off-feira, durante suas estadas por aqui. Serão 10 dias bastante intensos, para ficar na história. Ao menos até a próxima feira”, finaliza.
O evento é uma realização da Prefeitura de São Luís, por meio da Fundação Municipal de Cultura (Func), correalização do Serviço Social do Comércio (Sesc/MA) e da Secretaria Municipal de Educação (Semed). E, tem apoio das Universidades Federal e Estadual do Maranhão, Associação dos Livreiros do Maranhão (Alem), Governo do Estado Maranhão, por meio da Secretaria de Estado da Cultura (Secma) e da Secretarias Estadual de Educação (Seduc) , e o patrocínio da Vale.
7ª. FELIS EM NÚMEROS: Mais de 100 autores convidados > 38 estandes > 36 palestras > 27 cafés literários> 25 saraus poéticos > 12 espaços culturais > 10 shows de música > 2 convidados internacionais
Victor lutou pela paz
em ravinas de pedra,
semeou lírios azuis
num céu em chamas,
dividiu com os pobres
seu coração de hóstia,
agora desce da cruz
que perfumou sua noite
e vai colher a aurora.
Cesar Teixeira
Faleceu ontem, aos 85 anos, o padre Victor Asselin. Na imagem acima o autógrafo que deu a minha esposa, quando do lançamento da segunda edição de seu fundamental Grilagem: corrupção e violência em terras do Carajás, livro que dedicou “A todos os lavradores que morreram na luta pela terra e a todos aqueles que ainda hoje residem no Maranhão e em todo o Brasil defendendo o direito de viver e de ser gente, ofereço os anos de trabalho e de esperança destas páginas”.
O poeta e tradutor Rodrigo Garcia Lopes é mais um autor confirmado para a 7ª. Feira do Livro de São Luís. Ele participará de um recital, ocasião em que lançará seu novo disco, Canções do Estúdio Realidade, e do Café Literário, quando debaterá com o escritor Reuben da Cunha Rocha o tema Tradução é traição?
Lopes já lançou o disco Polivox (poemas com trilhas, 2001) e os livros de poesia Nômada (2004), Visibilia (1996, 2004) e Solarium (1994), entre outros, além de Vozes e visões – Panoramas da arte e cultura norte-americanas hoje, que reúne entrevistas dele com Allen Ginsberg, Chick Corea, John Cage e William Burroughs, para citar apenas alguns. É dele também uma elogiada tradução de Folhas de relva (2004), de Walt Whitman. Lopes traduziu ainda Ariel (2007), de Sylvia Plath (com Cristina Macedo), e Iluminuras (1996), de Rimbaud.
Confiram o clipe de New York, de Canções do Estúdio Realidade.
Este blogue voltará a trazer novidades da 7ª. Feira do Livro de São Luís, com periodicidade de-vez-em-quandal. Acompanhem!
Neste sábado (20), às 18h, o escritor Bruno Azevêdo lança A intrusa [Pitomba/ Beleléu, 2013]. A noite de autógrafos acontecerá na livraria Leitura, no Shopping da Ilha. O livro, originalmente publicado em capítulos no jornal Vias de Fato, recria as tramas eróticas de romances de banca, encontrados por quilo em sebos, como Barbara Cartland, Bianca, Julia e Sabrina. Escrevi sobre aqui.
Promoção: deixe sua resposta para a pergunta que ilustra este post aí embaixo, na caixa de comentários. A que o blogue achar melhor leva um exemplar dA intrusa. Só valem respostas deixadas na caixa de comentários deste post até sexta-feira (serão desconsideradas respostas, ainda que criativas, engraçadas etc., deixadas nos comments de outros posts, facebook etc.). Sábado de manhã o resultado, por aqui mesmo.
Com a capa do livro Guerrilhas de avatar e o nome do amigo e professor Flávio Reis, um falso perfil no facebook solicitou a amizade deste blogueiro ontem. Não aceitei de cara e desconfiei, chegando a ler as postagens: textos publicados por ele no jornal Vias de Fato, além de peças de divulgação de seu terceiro livro, lançado em 2012. O fake chegou a receber boas vindas de alguns amigos (reais) desavisados.
Por e-mail, o autor dos recém-relançados Cenas marginais e Grupos políticos e estrutura oligárquica no Maranhão, afirmou: “é claro que não sou eu. Tem como avisar lá? É muito chato alguém ficar falando como se fosse você”.
O recado está dado: o fã de João Gilberto – para citar alguém que tem perfil falso no facebook – não está nesta nem em qualquer rede social. O blogue ia noticiar marcando o fake, mas parece que quem quer que estivesse por trás disso já desistiu da empreitada.
A intrusa, de Bruno Azevêdo, presta homenagem crítica aos romances femininos de banca. Livro foi publicado em capítulos no Vias de Fato
POR ZEMA RIBEIRO
O Vias de Fato nunca temeu dar a cara pra bater. Assim foi, quando, finzinho de 2011, começo de 2012, resolveu ceder uma página sua à publicação de A intrusa [2013, 160 p., R$ 20,00], folhetim de Bruno Azevêdo que agora virou livro através de sua editora Pitomba (em coedição com a carioca Beleléu), que inventou para se publicar. “Só me tornei editor por que não arrumei um!”, já disse o autor em texto na imprensa local (Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante, Jornal Pequeno, 30 de junho de 2012).
A capa, em tons de rosa, com duas mulheres nuas na cama e um quinto braço a apalpar o corpo de uma delas, por sobre o título em tipologia inspirada em clássicos femininos de banca a exemplo de Barbara Cartland, Bianca, Julia e Sabrina, anuncia: “Uma envolvente história de amor, da qual nenhuma leitora sairá sem um suspiro, um momento qualquer de elevação ou um fugaz sentimento de pertencimento”. Ou como o autor – e faz-tudo na Pitomba – resume: “paixão e sedução para a mulher moderna”.
Se o jornal local – como apregoou outro jornal local, para não citar o nome do Vias de Fato em matéria sobre o livro – sofreu com as pedradas vindas de todas as direções – menos de um clube de reggae, assunto sobre o qual a Edufma publicou Onde o reggae é a lei, da jornalista Karla Freire, esposa de Azevêdo, com preparação editorial da Pitomba – o jornal não se acovardou e seguiu adiante, para ver onde aquilo ia dar, com o perdão do trocadilho. De um lado seus editores não tinham conhecimento do que aconteceria no próximo capítulo; de outro, o autor não sofreu qualquer influência com as opiniões que o jornal recebia de leitores e leitoras, fossem prós ou contra o folhetim.
Uma das ilustrações de A intrusa
Na contracapa, Xico Sá (autor de Modos de Macho e Modinhas de Fêmea e do Catecismo de Devoções, Intimidades e Pornografias, entre outros) reafirma o que já havia dito desde O Monstro Souza (2010), livro anterior de Azevêdo, sem contar a HQ Isabel Comics (2012), feita a quatro mãos com a esposa, retratando a vida de sua filha, dois aninhos recém-completados (o volume com as histórias do segundo ano deve ser lançado em breve, entre mil “projetos” – palavrinha surrada, mas vá lá – que ele desenvolve tudo ao mesmo tempo agora): “O monstro Bruno Azevêdo, este papaléguas, alcança, com este volume que ora lateja nas mãos da mulher moderna, a condição de nosso melhor escritor pícaro-mexicano. Que outro escriba seria capaz de erotizar o tilintar dos duralex? A pia de louça por testemunha de um tórrido amor engordurado”.
É isso mesmo e mais um pouco. Não julguem, ó apressados, ó apressadas, o autor de A intrusa por suas primeiras páginas, como o fizeram alguns leitores, algumas leitoras do jornal. Não é (só) sacanagem. O que faz A intrusa diferente dos títulos jogados às centenas mês após mês nas bancas de revista, dia após dia nos sebos?
“Pornografia é foder, foder, foder! Você abre uma porta, você fode; abre outra porta, fode. Você trepa com todo mundo! Isto é pornografia! Se houver amor, é erotismo”, como afirma Just Jaeckin, diretor de Emmanuelle, em uma das 12 epígrafes do livro, que manteve o texto original publicado no jornal – com uma revisão mais caprichada.
Bruno Azevêdo reprocessa o romance feminino de banca, apropria-se de sua gramática e o resultado é uma literatura que tanto agradará às costumeiras leitoras dos romances de banca típicos – cujos principais expoentes já foram apontados neste texto – quanto leitores e leitoras da chamada “alta” literatura, ou da literatura dita “séria” ou como se queira chamar qualquer literatura que não seja produzida em série – e em série podemos incluir os faroestes dos antigos bolsilivros (ainda circulam? Ou só em sebos?) como possível vertente masculina dos romances de banca (o que quase Bruno Azevêdo fez em Breganejo Blues – Novela Trezoitão, Pitomba, 2009). “Se o futebol é a telenovela do homem brasileiro, a telenovela é o futebol da mulher brasileira”, já rezava o saudoso Décio Pignatari.
Bruno Azevêdo escreveu um livro divertido, já lançado na Festipoa Literária, em maio, em Porto Alegre/RS, e este mês em São Luís, tendo por palco o salão de beleza e casa de depilação Dot Beauty. A obra, no entanto, não se encerra na diversão ou no erotismo puro e simples. Narrada em primeira pessoa por uma personagem sem nome, que se ocupa apenas de agradar a seu amado Wanderley. Ou simplesmente W, para as íntimas. Tanto agrada que aceita a intrusa, a personagem central, respondendo à pergunta feita nos primórdios do livro, “estará mentindo a mulher que disser nunca ter se perguntado: e se houvesse outra?”.
O século passado foi o auge da produção e venda em bancas do romance que ora Bruno Azevêdo reescreve, relendo, como ele mesmo indica em Seios túrgidos e membros intumescidos: sexo e literatura pornográfica para mulheres, longo artigo acadêmico que ele mesmo escreveu, provavelmente para tirar onda com a academia – e apresentou, já em 2013, em um Encontro de Estudantes de Letras, na UFMA. Assinado por Jessica Sweethorny, traduzido por Bruno Azevêdo. Ela é ele.
Vimos ou soubemos das conquistas que as mulheres tiveram num período da história recente – o autor de A intrusa é licenciado em História e mestre em Ciências Sociais pela UFMA. Se hoje em dia as mulheres já não precisam receber aulas de “prendas domésticas” ou se contentar com o piano para que se lhe aflore a feminilidade, enquanto espera “um homem pra chamar de seu”; se hoje em dia a maternidade é uma opção entre outras; se podem ter vários parceiros sem que na rua lhes apontem “a puta” ou coisa que o valha, por outro lado (vi)vemos a onda neoconservadora que assola o país, a reboque das cartilhas do politicamente correto imediatamente sacadas de qualquer carteira ou bolsa tiracolo ao primeiro sinal de qualquer ousadia que ameace a ordem vigente.
Antecipando-se a isso e à presença do deputado homofóbico e racista Marco Feliciano (PSC/SC) na presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara Federal, Bruno Azevêdo apresenta aos leitores e leitoras um romance homossexual, com direito a discreta citação de There is a light that never goes out, dos Smiths na voz de Morrissey, seu vocalista gay. Mas isso de romance gay é diminuí-lo: A intrusa é uma história de amor. E da liberdade que o amor exige.
Está nO Imparcial de hoje (18). O Seminarista, o “novo” livro de Rubem Fonseca, lançado em 2009, sobre o qual eu mesmo escrevi no comecinho de 2010. O mestre já lançou ao menos dois livros depois deste “novo”.