Livreiro do Maranhão quer realizar um dos sonhos da “menina da capa”

O rosto é familiar, quer você adore, quer você odeie o MST. A imagem não ficou restrita à capa do livro. Correu mundo. Virou quase sinônimo do Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais Sem Terra, que conta com a simpatia e o apoio deste blogue em suas lutas.

Há alguns dias ganhou repercussão nas redes sociais, a partir de matéria publicada na Folha de S. Paulo, o fato de a menina da capa ou a menina da foto ou a menina do livro, como ficou conhecida, ser ainda uma sem-terra, 16 anos depois de lançado o Terra, com fotografias de Sebastião Salgado, pela Companhia das Letras.

A matéria é boa, apesar do problema (da grande mídia de que dona Folha faz parte) de usar o verbo “invadir” em vez de “ocupar” para se referir às ações do MST na luta pela reforma agrária no Brasil.

Em determinada passagem do texto Joceli Borges, hoje com 21 anos, diz ter dois sonhos: um lote de terra e dois exemplares do livro cuja capa estampou aos cinco. Um para ela, outro para seu pai.

O livreiro José Arteiro, um dos proprietários da livraria Linha do Equador (Av. dos Holandeses), hoje, em seu perfil no Facebook, informa ter comprado dois exemplares usados do livro na Estante Virtual: “Vou doar os dois livros que ela pediu, um para seu pai e outro para ela. Fiquei comovido com o pedido”, desabafou.

Arteiro está tentando contato com a menina para providenciar o envio. Quem tiver informações escreva para arteiromuniz@hotmail.com

Feira na Praia – Entre os próximos dias 30 de agosto e 2 de setembro, sempre das 16h às 22h, na Av. Litorânea (Calhau), próximo ao parquinho, diversos livreiros de São Luís realizarão uma Feira do Livro, a exemplo do que já fizeram em shopping centers e paisagens outras da capital maranhense. Oportunidade de comprar livros a preços promocionais curtindo a brisa (já que banho de mar, nem pensar!).

Adler São Luís no Papoético hoje (26)

Logo mais às 19h quem participa do Papoético é o compositor Adler São Luís. Ele lança o livro Substância rara (poemas, Linear B Gráfica e Editora, São Paulo, 2012) e faz show na ocasião, com participações especiais de  Ângela Gullar, Chico Saldanha,  Daffé, Joãozinho Ribeiro, Josias Sobrinho, Smith Junior e Uimar Cavalcante.

A apresentação será uma grande jam, um reencontro de amigos, aproveitando a passagem do artista pela cidade que lhe dá nome artístico — atualmente São Luís mora em São Paulo, onde está gravando disco novo, provisoriamente intitulado Repente de repente.

Debate-papo semanal articulado pelo poeta e jornalista Paulo Melo Sousa, o Papoético tem como palco o Restaurante Cantinho da Estrela (Rua do Giz, Praia Grande, em frente à Praça Valdelino Cécio). O couvert artístico para o show de Adler São Luís custa apenas R$ 5,00. A produção não informou o valor do livro.

Concurso – O Papoético está com inscrições abertas para seu concurso de fotopoesia. Mais informações na aba homônima neste blogue.

Réquiem para ex-amigos

uns são tadeu
outros são tavares

uns claramente encastelados
outros nebulosamente cínicos

uns entrincheirados em barricadas caseiras
                                                       com medo do mundo

outros colecionando dinheiro debaixo do travesseiro

uns recolhidos e tristes
envergonhados dos sonhos esquecidos

outros na desova do renascença
secando lagoas e bumbando tambores de plástico

uns bebendo red label 12 anos baleado
outros matando a sede com guaraná jesus enferrujado

uns com dentaduras de ouro e sorrisos de porcelana
outros com panças de nervos acumulados

uns usando cintos de couro de cobra
outros visitando zoológicos imaginários

uns escrevendo em jornais de um só leitor
outros relendo bulas de remédio da última gastrite

uns fingindo que escrevem pelo pavor da página em branco
outros vomitando diarreia de versos banalizados

uns suando diariamente em esteiras e bicicletas
que não saem do lugar
outros babando em sua camisa polo lacoste

uns puxando o saco do chefe de plantão
outros lambendo suas próprias botas e feridas

uns engomando a toga do judiciário
outros se afogando entre pagodes e abadás

uns banhando em piscinas cobertas de lama azul piscina
outros mergulhando no cinza do rio anil

uns fumando baseado e rindo sem graça
outros cheirando coca e esmurrando vidraça

uns esmagando desejos em nome da dúvida
outros alisando máscaras diante do espelho

uns se entupindo de vaidade
outros cansados de procurar a verdade

uns se atolando no beco da bosta
outros se atirando no beco do precipício

uns de costas
outros do edifício

uns assim
outros assado
frente a frente
lado a lado

uns tadeu
outros tavares

filhos
do mesmo rei
da mesma lei
da mesma laia
filhos
do mesmo palácio
do mesmo paletó
da mesma saia

uns são poucos
outros nem tanto
cada um por si
todos contra todos

pelos quatro cantos da cidade
( s a l v e – s e   q u e m   p u d e r )

até que morram uns e depois os outros

(texto escrito em algum dia do ano 2004)*

*como indicou o autor, o poeta Celso Borges, em seu belo Belle Epoque (2010) | limitações do wordpress impedem-me de ao menos imitar a disposição do poema na página impressa, mais um motivo para dizer aos poucos mas fieis leitores: comprem o livro!

Grupos políticos e estrutura oligárquica no Maranhão

“A disputa política no Maranhão veio perdendo, ainda na segunda metade do século XIX, a característica de simples lutas entre famílias. Um setor político passou a controlar as instâncias de decisões, porém cada vez mais dependente do centro político nacional e submetido a suas pressões na regulagem das disputas. Apesar de atrelado socialmente aos grandes proprietários rurais, o seu locus de atuação, as relações com o aparelho do Estado e com o governo central, favoreceu a configuração de valores de identificação de grupo, sintetizados no interesse em manter o monopólio das funções de mando. Assim, é no espaço da mediação entre instâncias do sistema de poder e entre interesses privados e o Estado, que os grupos políticos se movimentam, sedimentam interesses próprios e comandam o processo de oligarquização da política”.

Flávio Reis, professor do Departamento de Sociologia e Antropologia da UFMA, na quarta capa de seu Grupos políticos e estrutura oligárquica no Maranhão (2007), esgotado. Este blogue orgulhosamente disponibiliza a raridade, leitura obrigatória, para download.

O lugar dos livros

“Na minha biblioteca tem os livros que estão comigo desde a adolescência e os chamados livros do coração, aqueles que li e tenho a esperança de reler, e ainda aqueles que comprei a partir de desejo muito forte de ler, mas que ainda não tive oportunidade de começar. Acredito que existe um tipo de livro que você precisa em determinada época. Essa obra exige uma adequação, um momento e uma hora exata para a leitura. Às vezes, você pega um livro, abre, lê duas ou três páginas e não prossegue. Depois de cinco ou seis anos, você abre aquele mesmo livro e se apaixona, lê até o final. Isso aconteceu comigo diversas vezes. Então, hesito em me livrar dos livros.”

“Sou leitor profissional, faço crítica para jornal e, por esse motivo, entrei na lista de envios das editoras. Sem pedir, recebo até 25 livros por semana em casa. E isso acaba virando um problema porque não é a toda hora que você consegue encontrar tempo para organizar e mesmo fazer uma triagem de tantos volumes.”

“Três prateleiras da minha estante quebraram por excesso de peso, e os livros estão espalhados por diversos pontos do apartamento. Comecei a fantasiar que, uma hora ou outra, o piso também vai ceder e serei responsável pela morte da família do andar de baixo, onde, inclusive, tem uma adolescente que berra o dia inteiro. Mas, apesar disso, tenho tudo bem organizado na cabeça. Se alguém precisar de um livro da minha biblioteca, é só perguntar que eu encontro. A minha organização é totalmente afetiva, não tem lógica. Na sala, devo ter uns cinco mil livros. Meu criado-mudo está uma calamidade. Outra fantasia que tenho é de morrer soterrado pelos livros do meu criado-mudo, onde deve ter uns 200 livros.”

“Traduzi para a Cosac Naify, o livro Paris não tem fim (2007), do Enrique Vila-Matas, mas eu não conhecia o autor. Depois disso, ele veio ao Brasil para participar de um evento literário, circulou e concedeu entrevistas. É comum perguntarem a um autor estrangeiro se ele conhece a literatura brasileira e, para a revista Época, ele respondeu o seguinte: “Conheço a Clarice Lispector, o Dalton Trevisan e o grande Joca Terron”. Fui o único que mereceu um adjetivo. Peguei o exemplar da revista e procurei o expediente para ver se não tinha algum amigo meu fazendo piada. Não tinha. Meses depois, recebi uma ligação telefônica de uma repórter da revista Época, a mesma que tinha entrevistado o Vila-Matas, para falar sobre um outro assunto. Perguntei a ela se o escritor catalão tinha dito aquilo mesmo. Estava em dúvida. Afinal, ele poderia ter dito “o grande Dalton Trevisan, Joca Terron” e, na edição, por descuido, o “grande” teria se aproximado de meu nome. Mas a repórter garantiu que a frase era aquela mesma e, confesso, fiquei muito feliz porque o Vila-Matas é um autor que admiro.”

“A maior probabilidade é que um livro não seja escrito. As exigências da sobrevivência, o cotidiano, tudo, absolutamente tudo, atuam contrariamente ao seu desejo de escrever. Sobrevivo da minha imagem como escritor, atuando no jornalismo, com crítica, no mercado editorial, por meio de traduções e palestras. Há todo um sistema relacionado ao universo do livro. Mas não sobrevivo diretamente da minha ficção.”

&

Recebo em casa a 12ª. edição do Cândido, jornal da Biblioteca Pública do Paraná que, ao completar um ano, salta de 32 para 40 páginas dedicadas à literatura. O título deste post “trocadilha” O lugar da poesia, manchete de capa do mensal.

Leio as sete páginas com os melhores momentos de Joca Reiners Terron no Um escritor na biblioteca, e faço isso em voz alta nos trechos acima, para minha esposa, ao lado. Guardadas as devidas proporções, há um quê de Joca no blogueiro: minha modesta biblioteca, embora menor, faz minha esposa, exagero!, pensar no dia em que não poderemos entrar em casa de tantos livros (e discos e dvds), vivo da fama de blogueiro sem ganhar por isso, tendo que me virar entre assessorias e frilas, e minha citação, pelo admirado Jotabê Medeiros, em O Estado de São Paulo, em matéria sobre a subida de Nelson Jacobina, me fez sentir algo parecido com o que o autor de Sonho interrompido por guilhotina sentiu no episódio Vila-Matas.

Minha esposa vira e retruca, entre a ironia e a compreensão: “não vai te inspirar nesse cara!”

10 links para Cesar Teixeira

Em contagem regressiva, 10 links para os poucos mas fieis leitores (que convidarão outros muitos para lotar o Trapiche quando do acima) irem se aquecendo.

Discurso de Cesar Teixeira por ocasião de sua premiação com a comenda José Augusto Mochel, do PCdoB, como figura de destacada atuação em prol dos direitos humanos no Maranhão, ano passado.

A foto de Murilo Santos cujo detalhe serve de cabeçalho a este blogue, em que Josias Sobrinho e Cesar Teixeira fazem um par de violeiros em MaréMemória, peça do Laborarte baseada no livro-poema de José Chagas, em maio de 1974.

Antes da MPM, texto de Flávio Reis que viria a integrar seu Guerrilhas [Pitomba!/ Vias de Fato, 2012]; o artigo, originalmente publicado no jornal Vias de Fato, de que Cesar Teixeira é fundador, dá uma panorâmica na produção musical do Maranhão da fundação do Laborarte (1972) aos dias atuais; o compositor fundou também o Laboratório de Expressões Artísticas do Maranhão.

Para entender Cesar Teixeira, comentário de Alberto Jr. sobre Bandeira de Aço, show que o compositor apresentou ano passado no Circo da Cidade, publicado no jornal O Estado do Maranhão.

Caricatura de Salomão Jr. que enfeitou o texto acima.

Bandeira de Aço e êxtase, comentário deste blogueiro sobre o mesmo show.

A entrevista que Cesar Teixeira concedeu a Ricarte Almeida Santos e este blogueiro, no Chorinhos e Chorões (Rádio Universidade FM, 106,9MHz), antes do show de ano passado. Em quatro blocos, o programa traz amostra chorística da obra do compositor, em interpretações próprias e de grandes nomes da música brasileira.

Bandeira de aço, eterna, texto deste blogueiro que saiu no Vias de Fato de julho do ano passado, divulgando o show. Um ano depois, outro texto nosso sobre o show de 3 de agosto; o jornal chega às bancas e assinantes este fim de semana.

Cinco poemas de Cesar Teixeira publicados em um livro do poeta Herberth de Jesus Santos, o Betinho.

Hino latino (Oração favelense) (A Cesar o que é de Cesar), samba-enredo com três títulos, meu (letra) e de Gildomar Marinho (música), com que participamos (e fomos desclassificados na primeira eliminatória) do concurso da Favela do Samba quando a escola de samba ludovicense homenagearia o compositor.

Um blogueiro na biblioteca

Há quase um ano, salvo melhor juízo, tomei conhecimento do Cândido, jornal que a Biblioteca Pública do Paraná estava lançando à época. Fã confesso de Paulo Leminski, não resisti, ao ver uma caricatura sua na capa de estreia, a ligar para a BPP e ser simpaticamente atendido por um homem cujo nome não lembro agora.

Disse-lhe que era de São Luís, Maranhão, e que gostaria de receber o jornal. Ele anotou meu endereço e disse que meu nome não era estranho, que já havia lido meu blogue. Li o primeiro número do Cândido pela internet e este cuja capa é estampada pelo Leminski é o único que não tenho em minha coleção. O 2 demoraria a chegar e cheguei mesmo a pensar que aquela simpatia toda ao telefone havia sido apenas educação. O que não seria pouco.

Enganei-me, ainda bem. Mês após mês tenho recebido em minha casa um dos 5.000 exemplares de sua tiragem. Pode parecer bobagem, mas sinto-me honrado. Um jornal bonito, de capas coloridas e miolo em p&b, com conteúdo de primeira. Dedicado quase exclusivamente à literatura, já passaram por suas páginas nomes como Marçal Aquino, João Paulo Cuenca, Cadão Volpato, Sérgio Sant’Anna, Fernando Morais, André Dahmer, Joca Reiners Terron, Luiz Vilela, Luiz Alfredo Garcia-Roza e Reinaldo Moraes, entre muitos outros, para citar apenas alguns que me vêm à cabeça imediatamente, sem eu correr ali à bagunça das estantes para relembrar.

Cândido, o nome do jornal, é homenagem a “Cândido Lopes, que hoje dá nome à rua em que está localizada a Biblioteca Pública do Paraná. Lopes fundou o jornal Dezenove de Dezembro, em 1854, o primeiro impresso paranaense”, aspas extraídas de Pelas calçadas da literatura, texto assinado por Guilherme Magalhães no nº. 10 (maio de 2012, p. 13) do citado jornal literário.

19 de dezembro é a data em que nasci, quase século e meio depois, coincidência que eu só viria a descobrir ao ter em mãos aquele número do jornal. Mas não seria a primeira: em maio passado minha esposa viajou à capital paranaense para apresentar um trabalho em um seminário de Direitos Humanos. Dois dias depois, às próprias custas s/a, juntei-me a ela para um turismo na cidade em que, para meu confesso espanto, Leminski é pouco lembrado. Antes da outra coincidência, volto a Guilherme Magalhães, no citado texto: “Por outro lado, figuras de proa da literatura paranaense dos últimos 50 anos também ainda não tiveram a honra de virar logradouro, o que pode denotar o distanciamento do tempo como um critério para as homenagens. Jamil Snege, Paulo Leminski (que virou nome de pedreira e de escola, mas não de rua) e Manoel Carlos Karam (que dá nome a uma casa de leitura) ainda não foram lembrados pelos políticos curitibanos, responsáveis por propor nomes a logradouros” (p. 13). Visitei a belíssima Pedreira Paulo Leminski e sua Ópera de Arame, além de ter comido e bebido na Manoel Carlos Karam, praça de alimentação do encantador Mercado Público Municipal, passeio que recomendo a qualquer turista, com pouca grana como eu ou não.

A outra coincidência conto agora. Chegando em Curitiba, calhou de o ônibus que me levou até o hotel parar justo em frente à BPP – hospedei-me bastante perto dela –; uma visita ao órgão público já estava planejada, ao menos em minha cabeça. Num sábado de maio pela manhã – sim, em Curitiba a Biblioteca Pública funciona aos sábados de manhã – apareci por lá e pedi para falar com alguém responsável pelo Cândido. A recepção me encaminhou a Tatijane Albach, que me dispensou enorme atenção e simpatia, levou-me para conhecer parte das dependências da BPP, que passava por reforma e tinha alguns setores fechados, e ainda me deu alguns presentinhos, além de apresentar-me alguns projetos.

O Um escritor na biblioteca, a plateia conversa com um escritor, com moderação de um jornalista, é uma reedição de projeto da década de 1980; os melhores momentos dos debate-papos têm sido reproduzidos Cândido após Cândido, devendo virar livro em breve; assim como deve ganhar reedição um livro já publicado com os participantes de há 20 e poucos, 30 anos.

Tatijane brindou-me ainda com um exemplar de Helena (ano 1, número zero, junho de 2012), revistão colorido de 114 páginas, anunciada na contracapa como “um pouco de muito da nossa cultura”, o nome, uma homenagem à poeta Helena Kolody. “A gente tem uma tradição de publicações com nome de homens, o Cândido, a Joaquim [revista editada há tempos por Dalton Trevisan]”, ela deve ter citado outros, “agora a Helena, uma mulher”, explicou anunciando a publicação trimestral da BPP.

Voltei ao hotel para guardar o pacote com Helena e alguns exemplares do Cândido antes de prosseguir o passeio com a esposa; Tatijane desceu as escadas e foi comprar pão de queijo para um café com que ajudaria a espantar o frio nem tão rigoroso assim que fazia aquela manhã em Curitiba.

Tatijane e o blogueiro, quando este visitou a BPP

Cadernos de passado e futuro

Michel Laub mistura autobiografia, ficção e memórias em sua novela Diário da queda

POR ZEMA RIBEIRO

A palavra Auschwitz aparece muito em Diário da queda [Companhia das Letras, 2011, 151 p.], quinto livro de Michel Laub. O autor esbanja talento para tratar de tema tão repisado na literatura e no cinema e ainda assim soar original.

Diário da queda, como entrega o título, é construído em forma de diário, não que saibamos o que o autor/protagonista estava fazendo tal dia e tal hora, mas pela estrutura, em notas breves, conduzindo uma deliciosa leitura.

Trata da descoberta de cadernos do avô e do pai e poderia ser a terceira geração de escritores de diário, tomadores de notas ou coisa que o valha, Laub construindo seu próprio diário a partir das experiências com as leituras dos anteriores, numa ficção confessional.

“As primeiras anotações nos cadernos do meu avô são sobre o dia em que ele desembarcou no Brasil. Já li dezenas desses relatos de imigrantes, e a estranheza de quem chega costuma ser o calor, a umidade, o uniforme dos agentes do governo, o exército de pequenos golpistas que se reúne no porto, a cor da pele de alguém dormindo sobre uma pilha de serragem, mas no caso do meu avô a frase inicial é sobre um copo de leite.” (p. 24).

O avô começou a tomar notas como uma enciclopédia sobre aquilo com que ia se deparando, um copo de leite, o porto, a pousada Sesefredo onde inicialmente se hospedou ao chegar ao país. O pai o faz como um exercício quando é acometido do mal de Alzheimer, como os habitantes da Macondo de Gabriel García Marquez, que anotavam nomes e funções de coisas para não esquecê-las.

Não há limites entre a autobiografia e a invenção na prosa de Laub: não sabemos onde começa e termina uma e outra. No fim das contas ele escreve uma bela carta/declaração de amor a uma quarta geração que vai chegar. Livro e autor merecem cada prêmio recebido até aqui.

[Essa nanoresenha (copyright by Joca Reiners Terron) saiu no Vias de Fato de junho. Leia o primeiro capítulo do livro aqui]

A história de joelhos

RUY CASTRO

RIO DE JANEIRO – Biógrafos, editores, juristas e demais interessados na liberdade de expressão reuniram-se ontem na Biblioteca Nacional para apoiar o projeto de lei do deputado federal Newton Lima Neto (PT-SP) propondo-se a corrigir os artigos 20 e 21 do Código Civil, que agridem justamente essa liberdade garantida na Constituição. Pelos ditos artigos, que pretendiam proteger as pessoas simples de exposições indevidas, as figuras públicas, inclusive as mortas, ganharam poder de autorizar ou não os livros que contam suas histórias.

Conheço bem essas “autorizações”. Uma semana antes da publicação de “Estrela Solitária – Um Brasileiro Chamado Garrincha”, em 1995, o advogado das herdeiras do jogador -sem ter lido o livro- telefonou para ameaçar a Companhia das Letras com um processo por danos morais e falta de autorização. “Mas”, acrescentou, “tem acordo…”. Que consistia no pagamento de US$ 1 milhão, na época, R$ 1 milhão.

Significa que, com uma “autorização” desse valor, podiam-se praticar quantos danos morais se quisessem e, no caso, o biografado fosse lamber sabão. Para não abrir um precedente fatal, a editora preferiu o processo, o qual resultou na proibição do livro por um ano, arrastou-se por outros 11 e foi danoso para todos, inclusive para as pobres filhas de Garrincha. Pela ferocidade do processo, que assustou muita gente, o craque deixou de inspirar muitos subprodutos que poderiam beneficiá-las.

Uma biografia se compõe do protagonista, de uns 20 personagens secundários e de 200 ou 300 terciários. Com a interpretação que a Justiça dá hoje aos artigos 20 e 21, qualquer um desses, por mais insignificante, pode alegar que “não autorizou” sua participação ou a de seu pai ou avô no livro, e partir para a extorsão.

A cada “autorização” pedida por um biógrafo, é a história do Brasil que rasteja e se humilha.

[Folha de S. Paulo, Opinião, hoje]

Italo Gondim em noite de autógrafos no Papoético

“Não sou poeta. O que fiz foi escrever alguns ‘causos’ reais e outros viscerais, por pura ludicidade. Minha vida foi muito pela metade. Pouquíssimas vezes iniciei e fui até o final das coisas. Adiava por puro medo e covardia. O livro desmonta tudo isso”.

Admirável a postura do psicólogo Italo Gondim, em uma terra em que muitos se dizem poetas, mesmo com nada de talento. Demonstra humildade e coragem, contrapondo-se ao medo e covardia citados no depoimento, ele que amanhã (14), às 19h30min, autografa seu Histórias de um louva-a-deus, no Papoético (Chico Discos, Rua de São João, 389-A, esquina com Afogados, altos do Banco Bonsucesso). Nos 50 poemas do livro, observações do cotidiano e impressões sobre a vida, ainda segundo o autor “sempre levando em conta o poder transformador da dor em pedra de toque para uma nova tentativa de força e coragem para viver positivamente”.

A produção não informou o valor do livro, que tem projeto gráfico de Leonildo Batista e capa de Érico Junqueira. A entrada é franca.

Poesia não é acessório

Poesia é necessário!

Há alguns dias li no blogue de Ademir Assunção este poema:

Homem-homenagem

Excelentíssimo senhor
Com diplomas,
comendas e louvor.
Aplaudido de pé,
todo condecorado.
Nos palanques
sempre um bom lugar
A ele é reservado.
Cidadão honorário
Verbete de dicionário
Patrono da turma
Já é nome de rua.
Na galeria de retratos
sua foto avulta.
Em suma, um grande
filho da puta.

É de Fabrício Marques, no recém-lançado A fera incompletude (Dobra Editorial). Como diria Flávio Reis, “bateu”. Escrevi, há alguns anos, sobre Dez conversas – diálogos com poetas contemporâneos, livro em que ele entrevista 10 do subtítulo, ele mesmo um (não, não tem uma autoentrevista lá).

Ainda no blogue de Ademir, leio este, dele, de seu novo livro, A voz do ventríloquo (Edith), que recebi ontem, via Celso Borges, que encontrei na plateia de Chico Saldanha e Josias Sobrinho, no Chico Discos:

Bang bang no sábado à noite

um olho dois olhos um eco
um estampido morcego
estranho tiroteio de cego

garrafas estilhaçadas no saloon
caubóis saltando de lugar nenhum

balas chegando em câmera lenta
perfurando vísceras sem pedir licença

alguém vai tombar atrás do balcão
outro no banheiro não passa do chão

a face caída na poça de mijo
o jorro de sangue na testa um nojo

maluco faroeste ao vivo e em cores
sábado que vem num mocó da Travessa das Dores

leve a namorada e não esqueça das flores

Aí eu vejo o anúncio do lançamento de Garagem lírica e do relançamento de Orfanato portátil, de Marcelo Montenegro, de capas lindas e conteúdos idem. E lembro deste poema, que já postei aqui no blogue:

Gerúndio Jazz

Agora mesmo algum maluco
deve estar postando qualquer treco
genial na internet,
alguém deve estar pensando
em como melhorar aquele texto
enquanto lota o Especial
de vinagrete, perseguindo
obstinadamente um acorde
voltando da padaria.

Agora mesmo alguém
pode estar pensando
que guardamos só pra gente
o lado ruim das coisas lindas –
assim, trancafiado a sete chaves
de carinho – Alguém
pode estar sentindo tudo ao mesmo tempo
sozinho, assim brutalmente
sentimental, feito coubesse
toda a dignidade humana
num abraço tímido.

Agora mesmo alguém deve estar limpando
cuidadosamente o CD com a camisa,
pulando a ponta do pão pullman,
sentindo o baque da privada gelada,
perguntando quanto está o metro
daquela corda de nylon, trepando
no carro, empurrando o filho
no balanço com uma das mãos
e na outra equilibrando
a lata e o cigarro – Agora mesmo
alguém deve estar voltando,
alguém deve estar indo,
alguém deve estar gritando feito um louco
para um outro alguém
que nem deve estar ouvindo.

Agora mesmo alguém
pode estar encontrando sem querer
o que há muito já nem era procurado,
alguém, no quinto sono,
deve estar virando para o outro lado;
alguém, agora mesmo, no café da manhã
deve estar pensando em outras coisas
enquanto a vista displicentemente lê
os ingredientes do Toddy.

Marcelo é este grande poeta que faz poesia com qualquer coisa do dia a dia, já o chamaram “Manoel de Barros urbano”. Dá uma imensa alegria saber dos lançamentos, eu que acompanho à distância os trampos do cara, e me somo ao coro dos que ao longo do tempo se tornam chatos, com a mesma pergunta de sempre, “e o próximo livro, quando?”, desde que ainda se chamava Hemingway Hotel. Grande honra ter um exemplar autografado do esgotadíssimo Orfanato portátil, que me chegou num envelope junto com alguns poemas inéditos, em papeis que ainda tenho guardados. Já fiz encomenda da nova edição, seja, meras desculpas para justificar a aquisição de um livro que já se tem, pela capa ou pelo texto de apresentação da querida Angélica Freitas. Pra mim Angélica Freitas é Marcelo Montenegro de saias. E Marcelo Montenegro é Angélica Freitas de calças.

Uma vez quase nos trombamos, eu e ele, em Imperatriz, numa Feira do Livro em que a poeta Lília Diniz aceitou umas sugestões minhas e a gente levou pra lá nomes como Artur Gomes, Celso Borges, João Paulo Cuenca e Marcelo Montenegro. O trabalho me obrigou a voltar antes à São Luís e acabei não vendo, por exemplo, a leitura que CB e Marcelo fizeram de Fotografia aérea, de Ferreira Gullar.

Há tempos, aliás, Marcelírico me fala da vontade de trazer suas Tranqueiras líricas à Ilha. Livros novos são ótimo mote para trazê-los, ele, Ademir, Fabrício e tanta gente boa que tá se mexendo por aí, fazendo coisas bonitas como a que você, caro leitor, cara leitora, leu, só neste post. Imaginem as outras páginas dos livros! Sobre eles, aliás, volto a falar em breve. Por enquanto fiquem com Marcelírico dizendo o poema acima:

Palmas para Fabreu em Palmas

O poeta Fernando Abreu lança seu novo livro, aliado involuntário [Êxodus, 2011], na capital tocantinense, neste sábado (2):

Entrevista autêntica

Experiências de uma vida inteira me ensinaram uma regra jornalística verdadeiramente perturbadora: a qualidade de uma entrevista não depende do espírito e do saber do entrevistado e sim do grau de inteligência do entrevistador que leva a coisa para a impressão.

A entrevista real

Shalom, sr. Tola’at Shani. Meu nome é Ben. Fui mandado aqui pela redação. Procurá-lo. Quer dizer: para uma entrevista.”

“Sente-se, jovem. Estou às suas ordens.”

“Nada mau, sua barraca. Tem classe. Palavra. Tem porão?”

“Ao que eu saiba, tem.”

“E ainda tem jardim na frente. Cabanas deste tipo custam caro, não é?”

“É verdade.”

“Pois é. Como já disse, estou aqui para entrevistá-lo sobre o romance histórico que escreveu. Foi o senhor mesmo que escreveu, não é?”

“Acabo de terminar a obra.”

“Ótimo. Então, o senhor já acabou o romance. Como se chama?”

Tu és pó.”

“Por que me trata por “tu”, de repente?”

“É o título do meu novo livro.”

“Ah, sim. Certamente fará um enorme sucesso. Como todos os seus livros. O senhor só tem escrito sucessos.”

“Faço o possível. Mas se o consigo, isto se deve aos leitores.”

“Palavras de ouro. E por que, sr. Tola’at Shani, escreveu aquele pó, ou melhor, aquele romance ou o que quer que seja, quero dizer, por que escreveu o livro? Justamente agora?”

“Por favor, seja um pouco mais claro.”

“Certo. Para mim, não faz diferença. Quero dizer, o que queria saber é: de que trata a coisa?”

“Se entendi bem, o senhor quer conhecer o enredo da minha mais nova criação.”

“O enredo, correto. Eu já disse isso.”

“Não vai fazer anotações?”

“Não preciso. Guardo na cabeça. Tudo. Inclusive o enredo. O que é o enredo?”

“Meu romance descreve um panorama das fraquezas e paixões humanas. Passa-se durante a Segunda Guerra Mundial. Seu herói é um soldado da Brigada Judaica. A jovem e bonita filha do prefeito de uma cidadezinha no sul da Itália apaixona-se por ele.”

“O senhor disse “soldado”. Na história ocorrem certamente umas pancadarias de primeira, não?”

“Como é?”

“Pancadarias, quero dizer, lutas.”

“Certamente, descrevo algumas ações militares, porém só de passagem. Trata-se, principalmente, do conflito interno, provocado pela guerra cruel, na alma do nosso soldado.”

“O que quer dizer “nosso soldado”? Soldado de quem?”

“O soldado do romance.”

“Ah, isso. O senhor devia ter sido mais claro. Então, o que é que há com ele?”

“No peito desse soldado trava-se uma luta entre seu fervente patriotismo e seus sentimentos de ódio contra a guerra desumana.”

“Quem ganha? E que quadro é esse?”

“Que quadro?”

“Aquele, na parede, ali.”

“Não é quadro, meu jovem, é meu diploma.”

“Diploma. Muito bem. Um diploma de quê? Não importa. Então, seu livro sobre a Itália é uma história verdadeira?”

“Até certo ponto. O cenário é autêntico, mas a história propriamente é uma variação sobre o tema da Antígona, de Sófocles.”

“Do quê?”

“Sófocles. Um autor de tragédias grego.”

“Já ouvi falar. O senhor tem toda a razão. Mas o senhor já disse algo contra a guerra.”

“Antígona era filha do rei Édipo.”

“Claro. Édipo. Aquele da psicanálise. Nada mau. É esta, então, sua story, não é?”

“A story tem, forçosamente, caráter local. Mas sua mensagem é universal. Uma espécie de levantamento da situação da nossa época. O amigo não quer mesmo fazer umas poucas anotações?”

“Para quê? Eu me lembro de tudo. Não se preocupe. Mais alguma coisa?… Ah, sim: creio que o senhor está transbordando de alegria, não é?”

“Por quê?”

“Quando alguém termina de escrever algo, não deve transbordar de alegria?”

“Hum. É possível. Creio que sim.”

A entrevista publicada

TRANSBORDANDO DE ALEGRIA!

É o que diz o autor do romance O aspirador de pó, numa entrevista exclusiva para nosso colaborador.

O conhecido escritor Tola’at Shani me recebeu no seu lar, para uma entrevista exclusiva. Ocasião: a publicação de seu novo romance, para o qual o autor vaticina um estrondoso sucesso.

Estou sentado diante do poeta, em seu estúdio mobiliado com extremo bom gosto. Observo seu perfil de linhas pronunciadas, a figura esbelta, os dedos finos, nervosos. Pela janela, pode-se apreciar a vista do bairro. É tardinha.

Tola’at Shani: Gosta da minha casa?

Eu: Nada mau.

T. Sh. (orgulhoso): Tem jardim na frente, três cômodos e meio e água encanada. Casas assim são muito, muito caras.

Eu: Dá licença de perguntar sobre o enredo de seu novo romance?

T. Sh.: Com prazer. Há um major na Brigada Judaica, pois a história se passa no estrangeiro, num domingo. E há muito tiroteio e outros choques. Em suma, uma tremenda confusão. Há ainda uma jovem filha na cidade italiana, uma figura quase clássica, como se fosse estrela de cinema. Ela tem um caso com um rapaz, um escritor, um que anda sonhando, um sonhador, por assim dizer, um bailarino-no-sonho…

Eu: É um de nossos soldados, não é?

T. Sh.: Correto. Em casa ele ainda é universitário, o soldado, e estuda uma porção de coisas. Mas agora, como soldado, caiu num conflito, quer dizer, numa rivalidade pela moça. Ela se chama Shula…

Eu (interrompo): Um instante, prezado amigo. Shula. Isso soa como tragédia grega.

T. Sh.: Correto. Acertou em cheio. E essa moça, como é seu nome?, é contra a guerra e louca por… por…

Eu: Édipo?

T. Sh.: Exato. Construí a coisa assim, para formular o complexo diretamente da tragédia de Sypholux. Eu devia ter dito ao senhor que nosso soldado tende um pouco para a “coluna-do-meio”, o senhor me entende. Mas não o demonstra. Além do mais, a história é verdadeira.

Eu: Pode-se dizer que se trata de um balanço da época atômica?

T. Sh. (surpreso): O senhor acha?

Eu: Sem dúvida.

T. Sh.: Está bem. Eu não costumo dar muitas voltas para chegar ao assunto. Lá, na parede, o senhor vê meu diploma.

Eu: Magnífico, Tola’at Shani.

T. Sh.: Diplomas não se ganham sem mais nem menos, o senhor sabe. Mais alguma coisa?

Eu: Uma última pergunta: o senhor está feliz por ter terminado O aspirador de pó?

T. Sh.: Estou transbordando de alegria.

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Efraim Kishon, Como aborrecer um guarda (p. 15-18). 3ª. ed. São Paulo: Círculo do Livro, 1988.

De novo: qualquer semelhança com o jornalismo cometido pela maioria absoluta de nossos jorna(l)is(tas) não é mera coincidência.

UFMA errou de Flávio

Como já é sabido dos poucos mas fieis leitores deste blogue, o professor mestre FLÁVIO ANTONIO MOURA REIS lança hoje, em debate com os professores Flávio Soares e Wagner Cabral, seu mais novo livro, Guerrilhas.

O último, via tuiter, alertou: a UFMA errou o Flávio. Numa lambança (para lembrar título de artigo de Reis que ficou de fora de Guerrilhas sobre a gestão de Natalino Salgado), googlaram Flávio Reis (o certo é este, dona UFMA!) na página do CNPq/Lattes e acharam Luis Flávio Reis Godinho, professor doutor.

A turma errou até o título do livro: vejam que está no singular, no parágrafo inicial.

No ringue do pensamento

Ao escrever sobre Guerrilhas (2012), de Flávio Reis, quando o classificou acertadamente como “figura de exceção entre nossos pensadores e professores”, Reuben da Cunha Rocha abriu um leque que pode e deve ser ampliado quando somamos ao “homem magro de fala digressiva”, dois outros professores do naipe: Flávio Soares e Wagner Cabral.

Pugilistas do pensamento, o trio se encontra numa mesa-ringue tendo por mote o lançamento (detalhes na imagem que abre o post), na UFMA, do citado livro, “coletânea de artigos publicados por Flávio Reis na imprensa maranhense ao longo da última década”, o sucessor de Grupos políticos e estrutura oligárquica (2007) e Cenas marginais (2005).

Bancado pelo bolso do autor, como os anteriores, Guerrilhas foi publicado no início deste ano, com os selos da editora Pitomba! e do jornal Vias de Fato, sem trazer qualquer referência à universidade onde seu autor dá aula – a contribuição radical aos debates em torno dos assuntos que aborda e sua visão aguçada, por si só já justificariam a publicação pela própria UFMA, mas Flávio é um dissidente ácido e prefere a liberdade de outros caminhos.

REIS, SOARES e CABRAL, como são chamados em citações acadêmicas, vão certamente distribuir socos no status quo, seus modos de ver/rever o Maranhão porradas certeiras, diretas, no estômago, sobretudo dos acostumados a velhas famas, por vezes injustificadas e ufanistas.

O mito francês e a dança dos historiadores, O Maranhão bárbaro e sua miséria historiográfica, Oligarquia e medo, O nó-cego da política maranhense, A política do engodo e o engodo da política, para citar títulos de alguns artigos de Guerrilhas, violência urbana, jornalismo, poesia, cinema, música, literatura e psicanálise serão munição para este debate “peso”, expressão quase sempre usada por Flávio Reis para definir algo muito bom, extraordinário, seja um disco, um livro, um filme ou um aluno acima da média.

A pauta certamente se ampliará e os três professores darão conta do recado, imperdível, eu diria. Roubando mais um par de aspas de Reuben – tirando o “peso” aí de cima, são dele as outras ao longo do texto –, que qual este blogueiro, tem no autor de Guerrilhas um de seus heróis, cabe repetir: “É chegado o tempo do arsenal contra o repertório”.