Berrando no terreiro alheio

O bumba meu boi surgiu no Maranhão ou no Piauí? Ou em outro lugar?

ZEMA RIBEIRO

“O meu boi morreu/ que será de mim/ manda buscar outro, maninha/ lá no Piauí”. A quadra popular me vem imediatamente à cabeça quando o Overmundo me alcança com a encomenda de uma matéria que aborde as discordâncias entre maranhenses e seus vizinhos do Piauí em relação ao bumba meu boi – diriam os segundos que o folguedo teria origem lá; afirmam os primeiros que bois como os nossos só existem aqui, como se de bumba boi tivesse falado Gonçalves Dias em seu célebre poema Canção do exílio.

O primeiro comentário que faço é com minha esposa: “Eu nunca ouvi falar nem em boi no Piauí, quanto mais que o boi teria surgido lá”, ela afirma, aqui o boi como sinônimo de bumba meu boi, a manifestação cultural, não aquele que vai ao matadouro e berra menos que o homem, como na máxima de Torquato Neto, o ilustre piauiense da Tropicália: “Leve um boi e um homem ao matadouro. Aquele que berrar mais é o homem, mesmo que seja o boi”.

Como a bandeira maranhense idealizada pelo poeta Sousândrade, o bumba meu boi traz elementos das três raças que constituíram o povo do Maranhão: o negro, o índio e o branco. Para o folclorista Luís da Câmara Cascudo, “o bumba meu boi surgiu no meio da escravaria do nosso país, bailando, saltando, espalhando o povo folião, suscitando grito, correria, emulação. O negro, que desejava reviver as folganças que trouxera da terra distante, para distender os músculos e afogar as mágoas do cativeiro nos meneios febricitantes de danças lascivas, teve participação decisiva nessa criação genial, nela aparecendo dançando, cantando, enfim, vivendo. Os indígenas logo simpatizaram com a ‘brincadeira’, foram conquistados por ela e passaram a representá-la, incorporando-lhe também suas características. O branco entrou de quebra, como o elemento a ser satirizado e posto em cheque pela sua situação dominante”.

Cláudia Márcia Ferreira organizou o livro Festas populares brasileiras, onde aponta as denominações que a ‘brincadeira’ ganha no país: “Folguedo de origem ibérica, difundiu-se por todo o Brasil. Está presente nos mais variados festejos dos ciclos junino, natalino e carnavalesco, com denominações diferentes. Tem as seguintes variantes: boi-bumbá (Amazonas e Pará); boi-de-reis (Acre, Ceará, Paraíba e Espírito Santo); boi-calemba (Rio Grande do Norte); boi surubim (Ceará); boi malhadinho ou boi-pintadinho (Rio de Janeiro); boi ou boizinho (São Paulo e Rio Grande do Sul); e boi-de-mamão (Pernambuco e Santa Catarina). Como bumba-meu-boi ocorre nos estados do Maranhão, Piauí, Pernambuco, Alagoas e a Bahia”.

Domingos Vieira Filho, que hoje batiza importante Centro de Cultura Popular localizado na Praia Grande, um dos três bairros do Centro Histórico da capital maranhense, afirmou: “É quase certo que nos veio a folgança através dos negros escravos que saindo da Bahia atingiram o Maranhão através do Piauí. Em terras maranhenses se acrescentou de novos elementos num processo comum ao folclore, e se diferenciou da brincadeira do boi na área do Nordeste açucareiro, embora conserve muitos pontos em comum no que concerne ao fio temático e à personália”.

O folclorista maranhense seria taxativo ao afirmar que “não existem mais dúvidas quanto às origens históricas desse folguedo dramatizado que resiste ao passar dos anos”. Menos, seu Domingos, menos. As respostas, entre brincantes ouvidos por este repórter em um arraial, não reconheciam o Piauí como possível origem para o bumba meu boi e algumas tiravam um Parnaíba de sarro com os vizinhos. “Boi no Piauí? Não! Lá seria bumba meu bode”, “Se o boi começou no Piauí e hoje eles não têm nada, os maranhenses trouxeram tudo pra cá. É meio sem rumo isso do boi ter começado lá” e “Pode até ser, ter boi lá hoje, ou mesmo ter começado lá. Mas tudo que tem no Piauí no Maranhão tem melhor” eram as respostas mais comuns.

Originário do Maranhão ou do Piauí, o primeiro provável registro sobre o bumba meu boi na imprensa brasileira vem de Pernambuco e data de 1840. Foi feito pelo Pe. Miguel do Sacramento Lopes Gama, que editava O Carapuceiro, um dos pioneiros na crônica de costumes do país – não confundir com o colunismo social insosso que se lê por aqui, aí e além. Em A estultice do bumba-meu-boi, de 11 de janeiro daquele ano, o frei mestre criticava a ridicularização da figura de um sacerdote entre os personagens do bumba pernambucano e criticava a sociedade em geral por conhecer mais de novelas que da Bíblia.

Definido em seu cabeçalho como um “periódico sempre moral e só per accidens político”, assim terminava o texto do jornal naquela data: “Mas como há de se proibir o bumba-meu-boi, se dona Mariquinhas, dona Teté, dona Canexa, dona Chiquinha, dona Belinha, dona Faustolina, dona Fandangolina, dona Galopinda, dona Caxuxolina gostam tanto deste precioso divertimento? Alardeamos os nossos progressos de civilização, e ainda aplaudimos o bumba-meu-boi, folguedo que, sobre o que tem de imoral, pode-se chamar o non plus ultra da estupidez e da tolice! Não sei quando tomaremos juízo”.

As principais críticas recebidas pelos grupos de bumba meu boi no Maranhão dizem respeito à sua parintinização: se outrora eram formados por pessoas das comunidades em que os bois estavam inseridos e/ou se formavam, atualmente é adotado certo padrão de beleza, com índios “sarados” e índias “malhadas”. O termo diz respeito à cidade de Parintins, no Amazonas, onde os bois bumbás mais se assemelham às escolas de samba cariocas que aos bois maranhenses.

Na região amazônica a disputa é ferrenha, com apenas dois grupos – Caprichoso e Garantido – brigando pelos títulos, ano a ano. Por lá a lata de coca-cola, originalmente vermelha, já chegou a ser pintada de azul para satisfazer uma das torcidas. É algo mais acirrado que Vasco e Flamengo, Grêmio e Internacional, ou para ficarmos aqui por nossas fronteiras, Sampaio e Moto ou River e Flamengo do Piauí.

No Piauí, embora o número de grupos seja maior, há também o caráter competitivo no período junino. É o que nos informa o Proparnaíba, sobre o São João 2011, cujo título ficou dividido entre os bois Garantido e Rei da Boiada. No Maranhão não há competição entre grupos – nem mesmo quando estes se encontram nos louvores dedicados a São Pedro (29) e São Marçal (30 de junho) – o máximo que acontece são desafios, em que um cantador tira uma toada de improviso em desafio a outro, de outro batalhão – como são denominados por aqui os grupos de bumba meu boi.

Para Andréa Oliveira, jornalista que escreveu Nome aos bois: tragédia e comédia no bumba-meu-boi do Maranhão – de onde laçamos várias citações ao longo desta reportagem – a polêmica Maranhão-Piauí acerca do folguedo não existe: “Isso é mais aquela venha mania de querer colocar Maranhão e Piauí como rivais em tudo”, afirma. “Não creio que os piauienses se arvorem a querer a paternidade do bumba meu boi. E nós, no Maranhão, às vezes podemos achar que somos os pais da manifestação por que ela é o que há de mais representativo em nossa cultura popular, como no Piauí o são as quadrilhas. É impossível precisar onde surge o bumba meu boi, que ganhou características diversas, sendo incorporado de diferentes maneiras em diversas culturas. Com diferentes nomes ele está presente em diversos estados do país”.

Se o bumba meu boi nasceu no Maranhão, no Piauí ou em outro lugar, pouco importa: é polêmica para mesa de bar – ou para aquelas cervejas tomadas em pé arraiais afora. O que importa são o brilho e a beleza das festas juninas – no Maranhão, no Piauí ou em qualquer canto do país. Polêmica por polêmica o saudoso Antonio Vieira, compositor maranhense de primeira grandeza, subido há pouco mais de dois anos, alimentava a de que o carimbó é uma invenção do Maranhão roubada pelos paraenses. Mas essa já é outra história – pra boi dormir?

[Materinha que escrevi pro número 2 da revista Overmundo]

Política de Saúde no Maranhão

Jean Marie Van Damme, da Associação de Saúde da Periferia (ASP/MA), é mais conhecido por João Maria, o aportugueesamento ou, antes, abrasileiramento do nome do padre belga que já conta décadas de Maranhão e é um dos grandes conhecedores de suas realidades social, política e econômica, que ele mesmo, ao longo de tantos anos de trabalho, tem buscado modificar/melhorar.

Batiza este post título de artigo assinado por ele, que tem tido, de ontem pra cá, boa repercussão em listas de e-mails, redes sociais e na tribuna da Assembleia Legislativa, evocado pelo deputado estadual Bira do Pindaré (PT).

Lúcido, oportuno e esclarecedor o texto de João Maria. Leia a íntegra no blogue do Tribunal Popular do Judiciário.

Interrompemos nossa programação

Hoje à noite falei por cerca de duas horas com alunos da disciplina Jornalismo Cultural, ministrada pela professora Joanita Mota, da UFMA, sobre minha atuação, experiências, influências etc., etc., etc.

Estava vendo Flamengo e São Paulo na tevê, secando a ambos, quando um sms me alcança: a queridamiga Micaela me avisava que o Criolina havia levado, no Prêmio da Música Brasileira, o troféu de melhor álbum, por Cine Tropical. É o segundo ano consecutivo que o título fica com maranhenses: em 2010 quem levou foi Zeca Baleiro, pelo duplo O coração do homem bomba.

Eu, que havia resmungado no post anterior, digo o seguinte: é aquela coisa: o prêmio não é o fim, mas se ele vem… bem vindo! Eu não podia deixar de interromper minha programação, vencer o cansaço e dar a notícia.

No Maranhão isso se chama “quebrar a castanha da língua”.

Longa vida ao Criolina, a música do Maranhão está em festa!

A violência e a impunidade, a culpa e o cinismo

EDITORIAL
DO VIAS DE FATO

Um show de cinismo! Foi isso que alguns maranhenses assistiram, no último dia de 13 de junho, por volta das 19 horas, quando o jornal da TV Mirante (ligada à rede Globo) informou que, naquele dia, “vândalos entraram na sede regional da Comissão Pastoral da Terra (CPT), reviraram e quebraram tudo”. A matéria reconheceu o fato de haver membros da coordenação local da CPT ameaçados, mas, deixou no ar a possibilidade de ter sido um assalto. Uma rápida fala do Padre Clemir também foi veiculada. E ponto final.

A matéria confundiu muito mais do que explicou. Ela serviu, principalmente, para os donos da emissora (grupo Sarney) tentar passar para a opinião pública que não têm nenhuma relação com os tais “vândalos”, quando, na verdade, estes são os eternos capangas de latifundiários, protegidos pelo mesmo grupo Sarney, os cínicos donos da mesma TV Mirante.

Estamos falando de um fato dramático. No ano de 2011, em pleno século XXI, a sede da Comissão Pastoral da Terra (CPT), no Maranhão, localizada no centro da capital, em São Luís, foi invadida durante a madrugada do dia 13 de junho. E esta invasão é resultado do clima de violência e de total impunidade vivido num Estado onde a oligarquia/máfia de José Sarney, o presidente do Senado Federal, continua mandando – e promovendo desmandos – no INCRA, no Tribunal de Justiça e no Governo do Estado.

A notícia realmente importante é que a CPT, ao lado de lavradores quilombolas ameaçados de morte, esteve participando da coordenação de um acampamento feito na Praça Pedro II, em frente à sede do Tribunal de Justiça e do Palácio dos Leões, indo em seguida para a sede do INCRA, no bairro do Anil. O acampamento durou entre os dias 1º e 10 de junho e denunciou a violência e a impunidade, colocando o governo Roseana e o grupo Sarney entre os principais responsáveis por este problema do Maranhão.

O que não pode ser escondido é o fato de dois padres da CPT e 19 lavradores ameaçados, terem feito greve de fome, durante o acampamento do INCRA, para chamar a atenção para o problema da impunidade e da violência no Maranhão. A greve foi suspensa junto com o acampamento no dia 10 de junho e, nas primeiras horas do dia 13, a sede da CPT foi invadida.

É fundamental registrar – junto com a notícia da invasão da sede da Pastoral – que estes lavradores e os dois padres só suspenderam a greve e desocuparam a sede do INCRA, quando uma Ministra de Estado assumiu o compromisso de vir ao Maranhão para ouvi-los. E neste caso, tem que ser dito que, apesar do governo Dilma andar de braços dados com a máfia maranhense, apenas uma autoridade federal poderia resolver o impasse.

Para os acampados, os representantes do Governo Roseana não valem um Cibazol. Prova disso é que quatro secretários de estado assinaram um documento endereçado a eles e a proposta foi recebida com indgnação, considerada ridícula, com ninguém levando a sério o documento assinado por Conceição Andrade (Secretária de Desenvolvimento Agrário), Claudett de Jesus Ribeiro (Secretária de Igualdade Racial), Luiza de Fátima Amorim Oliveira (Secretária de Direitos Humanos) e Aluízio Guimarães Mendes Filho (Secretário de Segurança).

A oligarquia/máfia tem o poder para segurar e manipular processos em diferentes tribunais, indicar ministro de Estado e eleger seus apadrinhados na base do abuso de poder político e econômico. Porém, vem de longe o fato de todo este poder ser colocado contra a população do Maranhão, especialmente, contra os mais pobres, caso de trabalhadores rurais (lavradores), ameaçados há décadas pelo avanço do latifúndio, da grilagem de terras e da violência no campo. As organizações populares pagam um preço alto por ficar ao lado das vítimas dessa estrutura de poder.

Hoje, a grande imprensa, controlada pela oligarquia-máfia, só fala em desenvolvimento e em grandes projetos. Sobre a violência no campo e seus verdadeiros responsáveis, o assunto é tratado, por esse mesmo sistema de comunicação, como se o problema fosse na lua.

Nos últimos anos, após a volta de Roseana ao governo, aumentou no Maranhão o número de assassinatos no campo. O Poder Executivo (com o auxílio de figurinhas carimbadas do Judiciário) acoberta os mandantes desses crimes. Os casos ocorridos recentemente em Açailândia e São Vicente Férrer (noticiados em edições anteriores deste jornal) são escandalosos e estão aí para provar o que estamos afirmando.

O Maranhão sobrevive sob o manto da impunidade. O poder institucional do Estado está a serviço do crime organizado. No caso da terra, as instituições defendem os interesses dos grandes grileiros. Com isso, o latifúndio se esparrama e o clima de barbárie se instala em várias regiões. Isso já foi dito outras vezes neste jornal. E será repetido, sempre que for necessário.

Em 2009, tocaram fogo em uma associação de lavradores quilombolas da Baixada e o governo de Roseana não apurou as responsabilidades. Em 2010, mataram o presidente dessa mesma associação (Flaviano Pinto Neto) e, até hoje, os mandantes estão soltos. Outra liderança da comunidade do Charco, conhecido como Manoel do Charco, vive sob a proteção da Força Nacional. E agora, em 2011, a residência do vice-presidente da mesma associação, Almirandir Pereira, foi alvejada com três tiros. Por último, invadiram a sede da Comissão Pastoral da Terra, localizada em plena Rua do Sol, no centro de São Luís.

E a TV Mirante diz que a Policia vai investigar. É mesmo? E Roseana? Quer que investigue? E Sarney? E João Alberto? Estão todos preocupadíssimos com o caso de “vandalismo”? É o cúmulo do cinismo!

O caso da CPT merecia (no mínimo!!!) uma entrevista com o secretário de segurança do Estado. Quanto à secretaria de Direitos Humanos essa não adiantaria ouvir, afinal, ela efetivamente não existe, só servindo para distribuir umas “medalhas” no final do ano.

Encerramos lembrando que, em julho de 1969, José Sarney assinou a Lei de Terras do Maranhão e abriu as portas do estado para os grandes grileiros, tumultuando o processo de regularização fundiária e provocando êxodo rural e violência no campo. Em 2011, a oligarquia-máfia criada por ele (com Roseana no papel de porta estandarte) fala em desenvolvimento e de grandes projetos, mas, na verdade, permite que os ladrões de terras (travestidos de empresários e pecuaristas) atuem como se estivessem no século XIX.

Mas, havia uma vantagem naquele tempo. Pois, no século XIX, os coronéis, chefes dos pistoleiros, não tinham uma emissora de TV para confundir a opinião pública e acobertar, cinicamente, os verdadeiros culpados pela violência e pela impunidade.

Paço do Lumiar: Todos os Santos em conflito

O vídeo tem alguns problemas de edição, mas vale a pena ver pela coragem de quem luta e resiste, buscando seus direitos, tendo que enfrentar tudo e todos, os “poderosos”, a “inteligência” da polícia. E acreditem, poucos mas fieis leitores: isso é mais comum do que supõe nossa vã filosofia. Que existam mais Paulões por aí!

Doc de Murilo Santos tem pré-lançamento em Alcântara, hoje

A alcunha de “divino artista”, usada por Murilo Santos para definir Antonio de Coló, protagonista de seu mais novo documentário, cabe também a ele. O cineasta e professor universitário tem no amor com que realiza suas coisas o segredo de seu sucesso.

E entendam sucesso aqui, caros leitores, num sentido mais amplo, esqueçam o mundinho podre das celebridades: Murilo Santos ainda consegue fazer supermercado em paz, sem ter que parar a cada passo ou dois para dar autógrafos e não é retuitado ad infinitum a cada bobagem que diz no tuiter – onde nem sei se ele tem conta.

O sucesso de Murilo Santos reside em chegar onde ninguém chega, em mostrar o que ninguém mostra, na dignidade e prazer com que faz isso. Há coisas que só estão na memória desse craque do documentário brasileiro – como muitos outros em outras artes, infelizmente ainda pouco conhecido lá fora, apenas por ter nascido e escolhido viver no Maranhão.

Ou nas memórias, que ele tem muitas: a sua própria, que ele exercita em longos e prazerosos papos por telefone ou quando nos encontramos pessoalmente – ou quando me responde um e-mail quilométrico onde resgata grande parte da história do cinema no Maranhão –, ou seus muitos HDs, onde ele armazena um sem número de filmagens e fotografias que ele realizou e sabe que um dia usará.

Murilo documenta o Maranhão há pelo menos 40 anos, quando participou da fundação do Laboratório de Expressões Artísticas, o Laborarte, de onde se desligaria depois. Semana corrida, poucos mas fieis leitores, vocês devem ter acompanhado o trabalho deste blogueiro na cobertura do Acampamento Negro Flaviano, talvez nem dê tempo de vocês pegarem a lancha para Alcântara, ‘tá em cima da hora, sei: mas lá, hoje (11), às 21h, na Igreja do Carmo (após a missa), acontece o pré-lançamento de Divino Artista: Antonio de Coló, novo doc de Santos (cujo release que recebi por e-mail colo logo abaixo da peça de divulgação), selecionado em edital da Secretaria de Cultura do Estado do Maranhão na gestão Jackson Lago/Joãozinho Ribeiro.

Este, aliás, é outro segredo do sucesso de Murilo: o devolver aos retratados seus retratos. Parece simples, parece básico, mas há documentaristas e fotógrafos incapazes deste gesto, ao mesmo tempo tão pequeno (para quem retrata) e tão grande (para quem é retratado). Viva Murilo Santos!

Divino Artista – Antônio de Coló | Documentário de Murilo Santos | 30 minutos
Apoio:  SECMA (Edital de Apoio à Formação, Produção e Circulação Cultural/2008)

Antônio do Livramento Boaes Tavares, o Antônio de Coló, faz altares e centros de mesa da Festa do Divino Espírito Santo em Alcântara. Também prepara as salas das cerimônias nas casas de festa. Sua preferência pelo estilo que denomina genericamente de “barroco”, faz sua obra espelhar símbolos, ícones da cultura e visualidade de seu habitat, a histórica cidade de Alcântara no Maranhão.

Antônio é também mestre-sala da Festa do Divino Espírito Santo, ou seja, aquele que conduz as diferentes etapas do ritual. Antônio é um dos filhos de Seu Coló, que foi artesão e mestre-sala da Festa do Divino até o final da vida.

O documentário mostra um pouco do universo de nosso personagem: sua história de vida e seu talento nas artes visuais. Narra uma faceta da festa do Divino Espírito Santo sob o ponto de vista de um mestre-sala, trazendo uma nova abordagem acerca do tema.

Acampados decretam greve de fome

18 lideranças quilombolas e simpatizantes iniciaram greve de fome na manhã de hoje (9) no Acampamento Negro Flaviano.

De costas para a plenária e de frente para as autoridades e lideranças que compunham a mesa de trabalhos, 18 lideranças quilombolas revezavam-se entre o sentar e o deitar, tendo decretado greve de fome na manhã de hoje (9). O gesto extremo foi o meio de chamar a atenção dos governos para os graves problemas enfrentados por diversas áreas em conflito no Maranhão.

Com a presença fixa de cerca de cem quilombolas de 40 comunidades, o Acampamento Negro Flaviano, que ora ocupa as instalações do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária no Maranhão, teve início no último dia 1º. de junho, quando realizou diversas atividades e manifestações pacíficas em frente às sedes do judiciário e executivo estadual, ambos na Praça D. Pedro II, no centro da capital maranhense.

“Estivemos lá, na porta do Palácio [dos Leões], na porta do Tribunal de Justiça, mas precisamos vir e ficar aqui por dez dias”, contabilizou um dos manifestantes ao fazer uso da palavra nesta tarde. Representantes das secretarias estaduais de Direitos Humanos, Igualdade Racial e Justiça e Administração Penitenciária estiveram no auditório do Incra, fazendo promessas sem data para cumpri-las, após a passagem de representantes da Secretaria de Promoção de Políticas de Igualdade Racial da Presidência da República no dia anterior (8). Há inclusive a de que seja publicado um decreto para orientar os procedimentos a serem tomados pelo Iterma para a regularização fundiária – previsto com base sabe-se lá em quê para ser assinado em 15 de julho.

“Estão sendo feitas diversas promessas, mas que estrutura se criará para isso? Com que recursos? Como garantir o registro de boletins de ocorrência em delegacias onde não há delegados? Quem sofre ameaça no interior não virá à capital fazer denúncias. A ouvidoria agrária está criada desde 2009, mas nunca saiu do papel. Se será de fato criada, que estrutura e recursos terá? As coisas não acontecem, apesar do repasse de recursos do governo federal. Promessas acontecem agora a partir da pressão. O governo parece querer apenas se justificar perante a imprensa e ao governo federal. O governo estadual tem responsabilidades a cumprir”, questionava Pe. Inaldo Serejo, coordenador da Comissão Pastoral da Terra no Maranhão.

O Maranhão tem 59 quilombolas ameaçados de morte nas cerca de 170 áreas em conflito no estado, de acordo com dados do caderno Conflitos no Campo 2010, publicação da CPT/MA. O estado ocupa o primeiro lugar em mais esta trágica estatística.

Lideranças do acampamento afirmaram que “não sairão daqui de mãos abanando”. A ministra dos Direitos Humanos Maria do Rosário deve vir à São Luís para uma rodada de negociações – ela encontra-se no Pará, onde se reunirá com representantes da CPT no estado para tratar dos recentes assassinatos de lideranças camponesas.

O estabelecimento de prazos urgentes para a inclusão dos ameaçados de morte no Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos, a realização de audiências públicas para discutir as áreas quilombolas em conflito no estado, o estabelecimento de grupo de trabalho para propor os procedimentos de titulação das áreas quilombolas e a instalação de escritório da Fundação Cultural Palmares em São Luís estão entre as diversas reivindicações dos acampados.

Entre as lideranças em greve de fome estão o Pe. Clemir Batista, da CPT de Pinheiro/MA, e Almirandir Costa, do quilombo Charco, em São Vicente de Férrer, palco do brutal e covarde assassinato de Flaviano Pinto Neto, que batiza o acampamento, em outubro do ano passado. Indagado se notava alguma evolução nas negociações ao longo dos dias, o segundo não hesitou em afirmar que tudo não passava de “enrolação do governo”.

 [Materinha escrita na condição de assessor de comunicação da Cáritas Brasileira Regional Maranhão e Sociedade Maranhense de Direitos Humanos, já publicada anteriormente no site da segunda e no blogue do Tribunal Popular do Judiciário; antes, a SMDH já havia publicado também uma nota de apoio ao Acampamento Negro Flaviano]

Sobre anjos musicais

O cantor e compositor Bruno Batista acaba de lançar Eu não sei sofrer em inglês, seu segundo disco. Via Facebook ele conversou com o Vias de Fato.

Maranhense nascido em Pernambuco, Bruno Batista (foto) já morou no Piauí e no Rio de Janeiro antes de cravar residência em São Paulo, onde vive hoje. Na terra de São Sebastião gravou seu primeiro disco, que levava apenas seu nome no título, Bruno Batista (2004), elogiado pela crítica. (Re-)gravado por nomes como Cecília Leite, Cláudio Lima e Lena Machado, é um dos principais nomes da cena musical contemporânea do Maranhão.

Na terra da garoa Bruno Batista gravou seu segundo disco, o belíssimo Eu não sei sofrer em inglês (2011). Se no primeiro disco já eram surpreendentes suas elaboradas letras e melodias, neste segundo o cantor e compositor se supera. “O primeiro era um disco sem pretensão nenhuma”, afirma modesto o jovem de fã-clube cada vez maior.

O novo disco ainda nem estava pronto e só chegou às lojas pouco antes deste número do Vias de Fato, já neste maio. Pode ser encontrado nas lojas Poeme-se (Rua João Gualberto, 52, Praia Grande) e Playsom (Tropical Shopping), além do Bar do Léo (Hortomercado do Vinhais) – onde a reportagem tentou encontrá-lo por duas vezes, conversa adiada diante de problemas na agenda ou do artista ou do repórter.

“Esse jogo não pode ser um a um”, diria outro poeta da canção. O desempate aconteceu via Facebook: pelo site de relacionamentos, entre os dias 7 de abril e 11 de maio, Bruno Batista concedeu a entrevista abaixo ao Vias de Fato.

ENTREVISTA: BRUNO BATISTA
POR ZEMA RIBEIRO

Vias de Fato – Quando é que, de fato, Eu não sei sofrer em inglês será lançado? Bruno Batista – O Eu não sei sofrer em inglês, que já deveria ter sido lançado no fim do ano passado, deverá chegar nas lojas no início de maio [chegou]. O atraso todo se deu no processo de mixagem, que se prolongou além do previsto. Atualmente ele ‘tá na fábrica e, só pra não deixar dúvidas: há realmente um disco no forno, chamado Eu não sei sofrer em inglês, que, muito em breve, estará circulando por aí . Não é lenda urbana, não [risos].

A que se deveu a demora entre a estreia e este segundo trabalho? O primeiro disco, muito embora seja muito importante pra mim pessoalmente, não tinha nenhuma pretensão. A proposta inicial era apenas registrar aquelas canções, de uma forma cuidadosa, claro, com as minhas ideias na época. Mas o fato é que, a partir dele, eu peguei gosto pela coisa – a experiência em estúdio e a troca com as pessoas que ouviram o disco me contaminaram – e passei a considerar, realmente, seguir no terreno musical. Esse tempo sem gravar me permitiu conhecer mais profundamente o mundo da música no Brasil, a enorme quantidade de artistas independentes que faz um trabalho incrível, e me deixar influenciar por eles. Muito embora no Eu não sei sofrer em inglês haja canções feitas há nove anos, além de duas regravações, eu esperei a minha própria música se modificar e se estabelecer em mim pra fazer um novo registro.

Eu não ouvi todos os discos [título de uma das faixas do primeiro disco] não é, mas bem poderia ter sido o título de teu primeiro disco. Eu não sei sofrer em inglês, título do segundo, tem a mesma quantidade de letras daquela faixa que Ricarte Almeida Santos referenciou em artigo de relativa fama no meio jornalístico e intelectual da capital maranhense. Para além dessa coincidência, digamos, numerológica, que diferenças e semelhanças entre um e outro tu poderias apontar? Sério? Que coincidência maravilhosa [risos]. Não tinha atentado para isso. Mesmo. Na verdade, Eu não ouvi todos os discos deveria, sim, ter sido o nome do meu primeiro disco. Não lembro mais a razão de não tê-lo batizado assim. Muito provavelmente se deveu à tal despretensão de que falei. Mas o fato é que, se fosse hoje, esse teria sido o nome do disco. Tanto que é o nome do meu blog [o desatualizado http://www.batistabruno.wordpress.com]. Quanto ao outro ponto, vejo mais diferenças que semelhanças entre os dois álbuns. A começar pela concepção: enquanto aquele recebeu arranjos de um maestro sofisticado – e saudoso – Alberto Farah, este foi gravado em três sessões, com uma banda tocando ao vivo e sem conhecimento prévio das canções. Além disso, penso que também ficou flagrante a inclinação mais “pop” do trabalho, com maior espaço para guitarras, bateria, coros. Mas, sobretudo, acho que ter gravado em São Paulo, com essa geração muito especial de músicos que forma a atual cena paulistana, deu um sabor bem distinto ao disco.

Seu blogue anda meio parado. Como já aconteceu com outra experiência, de blogueiro do jornal O Imparcial, e como aconteceu com o próprio curso de Comunicação Social, que tu abandonaste sem concluir. Podemos dizer que tu abandonou tudo pela música? Ou o cantor e compositor Bruno Batista se conciliará em breve com as letras, passando a trabalheira de “parir” um novo disco? Acho que não tenho muita vocação pra blogueiro, né? [risos]. Mas o instinto jornalístico é muito presente em mim. Vou conciliar as duas coisas, sim, e tem novos projetos vindo por aí.

Sobre estes novos projetos, podes adiantar alguma coisa? Tenho conversado muito com o Pedro Henrique Freire [editor-chefe de O Imparcial] sobre um novo projeto jornalístico. É uma proposta bem legal, mas ainda não posso adiantar muita coisa. E, musicalmente, após passar esse primeiro momento de lançamento do novo disco, quero muito viabilizar o meu trabalho de músicas infantis, além de um grupo de baião. Este último é um desejo antigo, que recrudesce à medida que meu trabalho autoral vai se distanciando dos signos nordestinos. É meio louco isso, não? Mas é o que acontece.

Entre as feras que estão em Eu não sei sofrer em inglês, como foi chegar a nomes como Chico Salem e Marcelo Jeneci, ambos da banda de Arnaldo Antunes, mais Estevan Sinkovitz, da de Kléber Albuquerque, Guilherme Kastrup, que já tocou com Zeca Baleiro, que participa de regravação de Acontecesse, mais Rubi, Juliana Kehl e Tulipa Ruiz? Na verdade, tudo começou quando assisti ao Partimpim, da Adriana Calcanhoto. Lá tinha um percussionista que tirava som de tudo, com muita graça no palco. Foi assim que cheguei ao nome do Guilherme e o procurei pela internet. Mandei algumas canções, ele curtiu, e começamos a pensar no trabalho. Em princípio, ele iria fazer só as percussões mas, ao ouvir o disco Vol. 1, da Andréia Dias, percebi que ele também era um puta produtor e o convidei pra produzir também. Pra minha sorte, ele aceitou e convocou esse time maravilhoso. O curioso é que, exatamente nessa época, eu estava ouvindo muito o Ao Vivo no Estúdio, do Arnaldo, e entusiasmadíssimo com o Jeneci, o Chico Salem. Foi demais poder contar com todos eles. Quanto às participações, uma das coisas mais gratificantes desse disco foi poder dividir uma faixa com o Zeca. Ele sempre foi um dos meus grandes mestres, lembro de ter ouvido um milhão de vezes o [Por onde andará] Stephen Fry, o Vô Imbolá, e acho mesmo que, ele e o Chico César, foram os responsáveis por eu ter me tornado compositor. Isso em falar no prazer de conhecer o Rubi, um dos timbres mais especiais da música brasileira, a Tulipa, que é uma fofa e tem uma personalidade artística incrível. Ambos foram muito generosos e me emocionaram enquanto gravavam. Mas, talvez o mais bacana de tudo, foi a relação que construí com o Guilherme e o Chico. Depois de tanto tempo depurando o disco, burilando, refletindo acerca de todas as questões, ficamos amigos. São músicos fantásticos e pessoas raras.

As referências trazidas por ti, aqui, são bastante contemporâneas: Chico César e Zeca Baleiro não têm, ainda, 20 anos de carreira. Partimpim e Ao vivo no estúdio são discos novíssimos, embora estes conceitos estejam cada vez mais dissolvidos, em tempos de produção musical cada vez mais efêmera, onde tua música não se insere, obviamente, dado o apuro, a preocupação, o cuidado com cada detalhe. Teu blogue homenageia na definição Zico, Kusturika, Oscar Wilde e Waldick Soriano. Tarantino, Marley, Lennon, Bowie, Morris Albert, Bob Dylan, Joan Baez são outras personalidades que passeiam pelas letras de Eu não sei sofrer em inglês. Gostaria de citar outras influências e referências? Sim, eu citei algumas referências contemporâneas porque, atualmente, é o que tenho ouvido com mais frequência. Mas minha memória afetiva, inelutavelmente, me remete a Chico Buarque, Gilberto Gil, Geraldo Azevedo, Gonzaguinha, Amelinha, Egberto Gismonti, que era o que meu pai ouvia quando eu era criança. Minha casa sempre foi muito festiva e musical, e se consumia, fundamentalmente, música brasileira. Além disso, havia a casa da minha avó, em Teresina, onde passava as minhas férias ouvindo o violão dos meus tios, sobretudo o do meu tio Naeno. A minha maneira de tocar, meu dedilhado, advém dele. É um artista maravilhoso. Quando citei o Zeca como responsável por me tornar compositor foi, além de todo o entusiasmo e impacto que sua música causou em mim, ele ter provado que um artista saído dali, da cidade em que eu vivia, podia, sim, ser bem sucedido, construir uma carreira além muros. Mas, com relação estritamente à herança musical, o meu maior credor, provavelmente, é o Naeno. Um dos meus grandes desejos é, um dia, gravar um álbum só com suas canções.

Se teu primeiro álbum não tinha pretensões, podemos dizer que este segundo te consolida como cantor e compositor, além dos planos e sonhos para o futuro: um disco infantil, outro com canções de Naeno, de quem tu herdas também uma doce melancolia. Em que momento, antes do primeiro disco, tu te sentiste artista? E quando, talvez na feitura do segundo, tu pensaste em fazer deste o teu principal ofício? Na verdade, esta sempre foi uma questão pra mim. Antes do primeiro disco eu nunca me senti, de fato, artista. Não percebia em mim a necessidade de dialogar com as pessoas através da música, nunca tive um fascínio especial pelo palco ou encantamento pela carreira artística. Tanto que as canções que fazia ficavam restritas ao ambiente familiar e, não fosse a iniciativa dos meus pais e irmãos, talvez repousassem lá ainda hoje. Mas, para citar um momento importante, lembro de quando ouvi pela primeira vez a gravação de Já me basta, feita pela Cecília Leite. Ali percebi que eu tinha uma voz e que ela poderia encontrar eco em algumas pessoas. Foi, talvez, a minha primeira afirmação enquanto compositor.

Outros nomes que já te gravaram são Lena Machado e Cláudio Lima. O último, com quem já dividiste o palco em shows, assina o projeto gráfico de teu novo disco. Em tempos em que é possível baixar discos em qualquer esquina virtual, informação e um bom projeto gráfico são, a meu ver, fundamentais. O disco, além de aos ouvidos, precisa agradar aos olhos. Como foi dialogar com Cláudio Lima neste sentido, de dar a cara a Eu não sei sofrer em inglês? Trabalhar com Claudio é sempre um privilégio, é um dos artistas mais sensíveis que eu conheço. A arte gráfica é apenas uma de suas facetas. A de cantor, mais conhecida, dispensa comentários – é um dos melhores do país – mas, além disso, ele escreve, compõe e anda de monociclo [risos]. É de um perfeccionismo comovente, tende a ruminar muito antes de apresentar qualquer trabalho e eu compreendo isso muito bem. Já foi uma delícia poder dividir o show Hein – que fizemos em São Luís em 2008 – e ainda iremos gravar um disco juntos.

Dá para culpá-lo um pouquinho pela demora do Eu não sei sofrer em inglês? Brincadeira [risos]. E aqui o Vias de Fato, novamente, apresenta em primeira mão outro projeto de Bruno Batista: um disco com Cláudio Lima. Ficando no disco novo, vamos ao repertório: por quê abri-lo com regravações de Já me basta e Acontecesse, músicas de teu disco de estreia, a primeira agora ganhando uma levada bumba meu boi, ainda que deixando a tradição de lado, a segunda com participação especial de Zeca Baleiro? [Risos]. Dá sim, ele também tem culpa nisso. Quando fomos selecionar o repertório, acabei apresentando 18 canções para os produtores que iriam comandar o processo. Entre elas, Acontecesse e Já me basta. Pensei: “Já que estou encarando este como meu primeiro trabalho, por que não mostrar tudo o que tenho?”. Eles acabaram escolhendo as duas e, num primeiro momento, eu hesitei. Mas depois veio a possibilidade da participação do Zeca, a gravação de Já me basta foi um dos momentos altos daquele processo, passei a me entusiasmar com os novos arranjos. No fim, elas iriam abrir o disco numa, digamos, coincidência intencional.

Encarar Eu não sei sofrer em inglês como primeiro trabalho não significa renegar Bruno Batista, o disco de estreia, ou significa? E seguindo no faixa-a-faixa: e a faixa-título, soma de referências em música de ninar gente grande? Não, não. Tem a ver, apenas, com a tal despretensão que já mencionei. A faixa-título foi composta na bacia das almas, praticamente dentro da cabine de gravação. Ia gravando os takes e alterando a letra [risos]. Mas tinha tido a ideia uns dois anos antes e sabia que seria o título do disco. Tem uma candura na própria melodia que acabou contaminando o arranjo. Mas gostei da tua definição “música pra ninar gente grande”. Talvez seja isso mesmo, muito embora eu já recebido alguns e-mails do tipo “Bruno, meu filho, sempre que entra no carro, pede pra colocar aquela música do sofrer em inglês”.

A faixa seguinte, Tarantino, meu amor é uma desbragada declaração de amor ao ator, diretor e roteirista, certamente outra referência, um tango, digamos, impuro… Sim. Na verdade, antes de uma declaração de amor, é uma alegoria, uma sacanagem. Acho que tem a ver com ele. É um diretor que eu gosto muito e, na canção, trato de alguns temas que são caros a ele, como a personagem feminina, alguma violência e humor. Ele tem um humor sádico incrível. Originalmente tratava-se de um xote, que era pra dar uma coisa mais louca na canção – um sujeito tão cosmopolita como o Tarantino ser tratado num xote e chamado de “quentín”. Mas o arranjo tomou outro caminho com a banda e acabou, sim, transformando-se num quase tango. Quase.

Depois vem Vaidade, samba-choro modernoso de letra belíssima, com a participação de Rubi, uma das mais belas vozes do Brasil… Sim. A melodia deste samba foi composta em Recife há alguns anos. Lembrei dele quando estávamos selecionando o repertório e fechei a letra. De cara, sabíamos que ela seria uma faixa que teria participação especial, mas faltava definir quem convidar. Foi o Gui Kastrup quem sugeriu o Rubi e eu pirei na ideia. A gravação foi muito especial, o Rubi interpretou magistralmente e, ao final, sem que nos déssemos conta, estávamos todos chorando. Lindo e inesquecível.

Sobre anjos e arraias te devolve ao Nordeste, entre o Pernambuco de nascença e o Maranhão e Piauí da infância e adolescência… Sim, acho que é a faixa mais “nordestina” do disco. A influência pernambucana é mais consciente que atávica, uma vez que não lembro da minha vivência no Recife. Mas ouvi muito Chico Science e toda a geração do mangue beat. Tem o lance do acordeom, a percussão que assume o papel do baixo. Curioso é que essa canção foi criada para ter um único acorde, queria que ela soasse renitente, como um filho que não larga as saias da mãe. O arranjo final amenizou um pouco isso, o que, no fim das contas, acabou me deixando contente.

Quem é a Bonita? Na verdade, Bonita não foi feita especificamente pra ninguém. Partiu de uma imagem, do verso “Que te fez, Bonita!”. Depois, fui delineando a letra.

E Hilda Regina? Hilda Regina já foi inspirada numa amiga que adorava viajar, era castrista e fascinada por música cubana. Por isso, fiz uma salsa em que a personagem passeia pelo mundo.

Para um amor em Paris evoca dois compositores: Paulinho da Viola, por seu Para um amor em Recife e Zeca Baleiro, pela mistura de línguas da letra, o que já ocorria em Hilda Regina Sim, O título de Para um amor em Paris é uma alusão clara á obra-prima de Paulinho da Viola, uma de minhas preferidas da sua obra. Já o uso dos estrangeirismos tem ligação, sobretudo, com os poetas brasileiros modernos, como Jorge de Lima, que se valiam muito desse recurso.

Em Nossa paz, a participação especial de Tulipa Ruiz, personagem de um novo momento da música brasileira que merece ser descoberta por mais e mais gente, tal qual Bruno Batista, que devagarinho vai conquistando seu espaço… A Tulipa é, definitivamente, um novo momento na música do Brasil. Acho que há tempos não aparecia alguém com uma personalidade artística tão singular. E com tanto carisma também. Nossa paz é uma canção terna, cotidiana, que foi composta com essa intenção mesmo. Acho que acabou tendo uma boa aceitação porque muita gente se identifica com aquele sentimento.

E a mulher a quem você aconselha em Lia, não vá? É uma música otimista, esperançosa que, ao suceder Nossa Paz, cria certo momento de aconchego dentro do disco. A Lia, especificamente, não existe, mas talvez tenha inspirada numa antiga namorada que passou por um momento difícil.

E fechando o disco a densa e bela As cigarras As cigarras é meio tropicalista, rápida, esquizofrênica. É o único rock do disco e, por isso, foi até difícil encaixá-la. Quase não entra. Mas acho que ela, também por isso, acaba fechando bem os trabalhos.

Todas as músicas são assinadas por ti, o que também aconteceu no primeiro disco. Compor sozinho é uma opção? Acho que por muito tempo foi uma opção, sim, porque é mais fácil. Não há embate de ideias ou propostas. Mas, com o tempo, você acaba se tornando refém de si mesmo e ter parceiros que possam te desamarrar parece ser o melhor caminho. Tanto que já tenho algumas parcerias com o Chico Salem, Djalma Lúcio e, no próximo álbum, quero explorar bastante essas novas influências.

[Vias de Fato, maio/2011]

A lambança coroada de Natalino Salgado

FLÁVIO REIS*

Natalino Salgado assumiu a reitoria da UFMA em 2007, após dez anos à frente do Hospital Universitário, que expandiu e ao mesmo tempo enredou numa série de práticas clientelistas. Logo no início de sua gestão, pressionado pelo MEC e com atraso em relação à maioria das outras universidades federais, impôs a aceitação das regras do projeto de expansão do governo federal (Reuni) sem maiores discussões. E se assim começou, assim continuou. Era preciso não perder o bonde das verbas e promover as melhorias de que a universidade necessitava. Na verdade, estava dado o sinal para a sucessão de trapalhadas que culminaria numa reportagem do Jornal da Globo exibida nesta semana, integrando uma série especial sobre o ensino superior no país e cujo tema eram exemplos de abandono de instalações.

A cena é impagável, o repórter Rodrigo Alvarez está diante do Laboratório de Tecnologia Farmacêutica (LTF), completamente abandonado, devidamente fechado e não podendo ser aberto à reportagem senão com a autorização do reitor. Contactado pelo celular, ele responde de forma quase inaudível que não acha necessário autorizar a entrada, agradece e desliga o telefone com o repórter ainda na linha. Este se dirige em seguida ao prédio da faculdade de Farmácia, no centro da cidade, prédio tombado que está caindo aos pedaços (a exemplo de outro, mais exuberante e importante, onde funcionava o departamento de assuntos culturais) e vai ao Laboratório de Bioquímica Clínica, que encontra desativado. Instada a explicar a situação, a chefe do departamento fala que são sete laboratórios com um orçamento anual de R$ 10 mil! Ao final, vemos a palavra do reitor Natalino Salgado, o homem que, na intuição certeira do repórter, detém as chaves da Universidade Federal do Maranhão. Diz exatamente tratar-se de um prédio abandonado há quinze anos, com equipamentos enferrujados e que não havia necessidade de filmar nada lá, principalmente quando existiriam tantos “projetos estruturantes” nesta universidade que estava passando por “grandes transformações”. Perguntado se não achava que a falta dos laboratórios prejudicava a formação dos alunos, saiu com esta pérola: “eu não tenho nenhum estudo para avaliar as atividades dos nossos alunos depois de formados”. É de espantar, pois estamos falando de laboratórios para cursos de farmácia e bioquímica… poderiam não ser essenciais? E o reitor Natalino Salgado é médico, goza de bom conceito como urologista. A explicação para tal disparate parece estar no seu tão propalado “modelo de gestão”.

Natalino Salgado não deixou passar oportunidade de angariar recursos através da aceitação sem controle dos programas de expansão do MEC, prometendo dobrar o número de alunos da UFMA num prazo muito curto. Tratando das reformas patrimoniais, centralizou as importantes decisões da esfera acadêmica na Pró-Reitoria de Ensino, que passou a distribuir determinações, muitas vezes por cima de suas atribuições estatutárias, lá colocando um professor alheio aos quadros desta ou de outra universidade, no melhor estilo “cargo de confiança”. Paralelamente foram se esvaziando os conselhos universitários, de maneira que decisões de suma importância como a definição dos horários e do planejamento acadêmico quase foram alterados drasticamente de uma canetada, este último implicando em grande perda para as atividades de pesquisa. Já vimos este filme inúmeras vezes, um círculo restrito de professores burocratas transforma tudo em números e gráficos, trata a universidade como se fosse uma coisa só, desconhece seus problemas e nem quer ouvir as unidades, acha que tem um modelo ideal, que, no caso, é apenas tentar se ajustar de qualquer forma às metas acordadas com o MEC.

Nestes anos, tornou-se visível que muitas verbas apareceram. Os recursos captados vão a mais de 200 milhões. Sem saber de detalhes dos números, os olhos não param de perguntar como eles foram utilizados, quando vemos várias obras interminadas, algumas se arrastando há dois anos e outras claramente escandalosas, compreensíveis apenas dentro de uma visão da instituição como empresa, onde, como diz o velho ditado, a propaganda é a alma do negócio.

No final de 2008, ano em que os recursos do Reuni começaram a chegar, estava na abertura do Encontro Humanístico, naquela ocasião com a presença do professor Paulo Arantes, quando ouvimos estupefatos o magnífico reitor anunciar em seu discurso uma reforma dos banheiros do CCH, para aplauso da galera. Parecia um político em palanque de interior anunciando obras. Aquela cena dizia muito sobre o estilo em questão. A tal reforma atravessaria mais de um ano em execução e este seria o padrão comum. Elenco apenas aquelas com que deparo no cotidiano: a construção de um prédio pequeno destinado à pós-graduação das ciências humanas se arrastou durante anos; a reforma de banheiros do CCSo, já entrando no terceiro semestre; a incrível obra de antiengenharia que é a construção das rampas de acessibilidade no mesmo prédio, que também já está pelo terceiro semestre, e torna o prédio ainda mais quente quando talvez fosse mais barato instalar um elevador exclusivamente para este fim; a obra do pórtico de entrada, licitada no valor de 400 e poucos mil para entrega em três meses, já estando com pelo menos o dobro, além de todo o plano viário, pois parece que saíram arrebentando tudo ao mesmo tempo sem nenhum planejamento. Algo de importância óbvia para o funcionamento diário de uma instituição onde se movimentam milhares de pessoas é tratado com um simples “desculpem os transtornos” e pelo visto vai atravessar o semestre. O prédio Paulo Freire, foi “inaugurado”, com festa e presença do ministro, mas ainda está daquele jeito. Prédio que, diga-se, é a expressão da devastação ambiental promovida sem pena pela Prefeitura de Campus nestes anos. É coisa feita sem nenhuma perspectiva ambiental mais ampla, e que só fica bem mesmo nas imagens caprichadas das maquetes. O centro de convenções, a TV universitária, a concha acústica, a nova biblioteca central, a biblioteca setorial do CCH, o auditório central, a fábrica Santa Amélia, todas são obras que caminham muito fora dos prazos. Longe de ser um bom administrador, Natalino Salgado parece ser um mau gerenciador de recursos. A gastança, promovida principalmente através da Fundação Josué Montelo, com certeza não resiste a uma auditoria.

Atento ao que interessa nestes tempos de propaganda e espetáculo, o reitor tratou logo de ampliar a assessoria de comunicação da universidade, a ASCOM, transformando-a em autêntica agência de publicidade de sua gestão. E passamos a receber um jornal com vinte páginas, de que ele se orgulha da tiragem aos milhares, cheio de matérias falando de maravilhas, projetos em andamento e do mundo novo a vir, repleto também de fotos do reitor em setores e ocasiões diferentes. Existia ali clara obsessão com a construção de uma imagem de inovação e empreendedorismo. Recebemos mesmo um kit com dvd mostrando a Ufma como verdadeira potência rumo à excelência, um delírio só. Nos números, jogados em comparações soltas, parece interessante, mas na realidade cotidiana é outra coisa. Aí as instalações são inadequadas, os professores insuficientes, a biblioteca é muito ruim, as salas de aula quentes e desconfortáveis, as salas de projeção foram desativadas, laboratórios sucateados ou fechados, os terminais de computadores seguem insuficientes, não há espaços de convívio, tudo continua feio e destruído. Exemplos de compras mal feitas e desperdício existem aos montes, mas vou ficar com as centenas de bebedouros recentemente adquiridos com a voltagem imprópria.

Academicamente, a expansão à toque de caixa vem criando problemas e gargalos nos cursos, muitas vezes surpreendidos com decisões tomadas à revelia dos colegiados pela poderosa Proen, tendo que operar malabarismos, já cada vez mais difíceis de disfarçar, quando o número de disciplinas sem oferta aumenta e logo vai estourar. No departamento de sociologia e antropologia, por exemplo, que atende a toda universidade, foram cerca de trinta disciplinas sem condições de oferta no semestre em curso. Em dois ou três semestres a situação ficará insustentável. Os Centros continuaram anêmicos e quase sem função, como quer a reitoria e parecem concordar os respectivos diretores, que agem como se não tivessem sido eleitos e sim nomeados pelo reitor. Concordam com tudo e mais alguma coisa, não articulam os cursos e vão apenas tocando o expediente. A investida final é sobre os departamentos, que perderão qualquer autonomia na definição de suas atividades, ou deixarão mesmo de existir, o que já está em vias de ser sacramentado. A expansão da pós-graduação, por sua vez, é feita aos trancos, sem acomodações, com estrutura improvisada e, principalmente, de forma muito isolada, é cada qual por si. Em vez de tentar modificar nossas arcaicas instâncias de decisões no sentido de abrir para a própria comunidade a gestão da universidade, tomou-se decididamente o rumo inverso de concentrar decisões, esvaziar colegiados, uniformizar procedimentos, desconhecendo a realidade efetiva dos diferentes centros. Neste sentido, o “novo marco legal” de que falam desenha uma centralização ainda maior e totalmente contrária aos requisitos de diversificação, autonomia e participação, tornadas apenas palavras constantes nos outdoors.

Por fim, para deixar claro que não convive bem com crítica e opiniões incômodas, o reitor tratou de cooptar o Diretório Central dos Estudantes, com pleno êxito, sendo triste ver um antigo espaço de lutas servindo de agência da reitoria, e chegou a articular uma chapa para tomar a diretoria da Associação de Professores, quase obtendo sucesso na empreitada. Foi por inciativa desta última, aliás, através de ação junto ao ministério público, que finalmente tivemos no início deste semestre as eleições para diretores de centro e chefes de departamento, adiadas sem justificativa há quase um ano. Agiu de forma contrária, célere, quanto à consulta para reitor, processo atropelado com prazo exíguo para registro de candidaturas e poucos dias para campanha. Acima de tudo, era preciso impedir qualquer discussão. Assim, Natalino Salgado seguia em céu de brigadeiro, atropelando tudo, distribuindo em mala direta um luxuoso folder de sua candidatura, papel couche com várias fotos (tudo do que ainda será…) e gráficos, com a propaganda da “gestão de qualidade comprovada”, até a citada reportagem que o pegou no contrapé.

Enquanto se propõe a gastar meio milhão num pórtico de entrada, construir um centro de convenções com auditório de quatro mil lugares e outras prioridades, a reitoria deixa laboratórios e bibliotecas, departamentos e centros à mingua. Se o repórter fosse olhar as tais obras estruturantes encontraria a situação descrita de várias obras inconclusas e sempre com poucos trabalhadores à vista. Tudo fruto de uma forma de gestão que é a própria irracionalidade administrativa. Tal como os políticos, o reitor gosta de atender a pedidos, não trabalha com descentralização de decisões e de recursos, agindo efetivamente como “o homem que detém as chaves da UFMA”.

Duas candidaturas oposicionistas se apresentaram contra essa situação. A professora Cláudia Durans, do departamento de Serviço Social, e a professora Sirliane, do departamento de Enfermagem. O nome da professora Sirliane foi uma surpresa agradável, pelo acerto das bandeiras de campanha Gestão Pública, Democrática e Transparente, exatamente tudo o que Natalino Salgado não faz, e por sinalizar novamente, apesar do tempo exíguo e da articulação menor, algo que a candidatura do professor Chico Gonçalves há quatro anos trouxe, a esperança de que os professores, alunos e funcionários desta universidade percebam um dia que podem caminhar fora da canga imposta por círculos que vivem anos a fio trancados nas esferas da administração superior e pouco sabem do dia a dia da universidade, das pessoas que a compõem, de suas dificuldades e necessidades. Esses senhores de casaca vivem vendendo o faz-de-conta e para isto precisam mesmo de muita propaganda, entretanto, chega uma hora que algo de revelador escapa e a realidade fura o engodo publicitário. Foi o que aconteceu no caso dos laboratórios do curso de farmácia na reportagem do Jornal da Globo, que, num lance, pôs a nu a real qualidade da gestão do reitor Natalino Salgado.

*Flávio Reis é professor do Departamento de Ciências Sociais da UFMA. Publicou Cenas marginais (2005) e Grupos políticos e estrutura oligárquica no Maranhão (2007).

O legado de Judas

(…)

Ao presidente do Senado
nosso “grande” Zé Bigode
deixarei atos secretos
pois comigo ninguém pode.
Pra misturar com a gororoba
deixo óleo de peroba
pois com ele o Maranhão se fode.

(…)

“O melhor governo de minha vida”
diz o slogan inflamado.
Se este é o melhor governo
calcule agora os passados.
Por isso que o Maranhão
é nesta Federação
um dos piores estados.

Deixo pro aeroporto
da capital do Maranhão
uma nova estrutura
pra Roseana fazer a inauguração
e enganar o povo,
puxa saco e baba ovo
que gosta de esculhambação.

Para o doutor Macaxeira,
nosso vice-governador,
deixarei como herança
um prato cheio de cocô,
para comer com Monteiro,
seu fiel “cumpanheiro”,
que é do PT um traidor.

(…)

“Agora vai”, diz Castelo,
só ninguém sabe pra onde.
Que o trânsito está um caos,
isso ninguém mais esconde.
Vai pra puta que pariu,
cada rua vira um rio
e o povo que faça a ponte.

(…)

E dou para o Jackson Lago
já na hora da partida
os pêsames que Roseana
lhe trouxe na despedida.
É o abraço do carrasco
pois lhe tomaram o mandato,
a sua maior conquista.

Na verdade esse é o abraço
dado pela sucuri,
que machuca sua presa
para depois engolir.
Deixo uma dúzia de lenço
e um minuto de silêncio
para o povo refletir

(…)

Trechos d’O Testamento de Judas (Laborarte, 2011), de autoria de Camila Reis, Moizés Nobre, Samuel Barreto e Zeca Tocantins.

São Luís e o Maranhão estão desgovernados. Os problemas se acumulam ante a inércia dos gestores públicos. Os versos acima são versão bem humorada de parte destes problemas: seria cômico se não fosse trágico. Artistas cumprem seu papel; governantes, não. Onde vão parar estes trens descarrilados?

(Pior que a en)comenda

Um não encomendado texto longo para falar de solenidade idem e cansativa. Solidário ao evento e a alguns de seus convidados/homenageados, nada diz.

Solenidade marcada para as 19h, o repórter adentrou o recinto com quarenta minutos de atraso. “Já começou?”, perguntou, fingindo-se preocupado com a própria demora, a uma das garotas do cerimonial, que ocupavam-se em anotar os nomes de todos os que chegavam, saber quem ia receber comenda, representando que entidade, enfim.

A tardança do repórter deveu-se também, em grande parte, à dificuldade para encontrar estacionamento. O do hotel, completamente lotado, bem como os arredores de um lado e outro da avenida. Chegando ao salão que abrigaria o evento, um dos do Rio Poty Hotel (Ponta d’Areia), o disco de Luiz Jr. era o muzak do ambiente.

Com uma única caneta bic no bolso, o repórter consegue uma emprestada com uma amiga, de tinta azul, com as cores da bandeira do Brasil – pelo que os leitores já podem imaginá-lo também desarmado de máquina fotográfica e por isso este texto, quiçá tão cansativo quanto a cerimônia, não dispor de ilustração. O ambiente era barulhento, o burburinho de convidados mesclando-se ao corre-corre das meninas do cerimonial e equipes de tevês com câmeras, microfones e refletores, que colaboravam para a ineficácia do ar-condicionado.

Somente às 20h25min chega o vice-governador do estado, com burburinho e movimentação próximos ao palco aumentando. Três minutos depois o som é interrompido e um burburinho absoluto toma conta do salão. Uma criança chora. Às 20h33min tem início a fala do cerimonial. O tradicional pedido para que as pessoas deixem seus celulares desligados ou no silencioso e o anúncio da solenidade de entrega da comenda Ordem do Mérito da Defensoria Pública do Estado do Maranhão – que ontem (19), completava 10 anos.

A comenda foi instituída pela resolução número 2, de 3 de maio passado. Seria atribuída a pessoas físicas e jurídicas e instituições – juro que não entendi a diferença entre as duas últimas – que trabalharam ao longo da última década – e antes, no caso de algumas entidades, sobretudo da sociedade civil, que lutaram por sua implantação – pelo fortalecimento da DP e na defesa dos direitos humanos.

Ao som de música instrumental – volta o disco de Luiz Jr., com a faixa Urrou do boi (Coxinho), Aldy Melo de Araújo Filho, defensor público geral e demais membros do Conselho Superior da DP adentram o recinto.

O cerimonial compõe a mesa: Aldy Melo de Araújo Filho; Washington Luiz de Oliveira, vice governador do Maranhão; Antonio Arnaldo Alves de Melo, presidente da Assembleia Legislativa; Antonio Fernando Bayma Araújo, desembargador do Tribunal de Justiça; Luiz Fernando Moura da Silva, secretário chefe da Casa Civil; Fábio Gondim Pereira da Costa, secretário de estado de Planejamento, Orçamento e Gestão; Miguel de Almeida Lima, Chefe da DP da União no Maranhão; Helena Maria Cavalcante Haickel, Procuradora Geral do Estado; Maria de Fátima Rodrigues Travassos Cordeiro, Procuradora Geral de Justiça; Sérgio Vitor Tamer, secretário de Estado de Justiça e Administração Penitenciária; Denise Miranda Dantas, subdefensora geral da Defensoria Pública do Maranhão; Fabíola Almeida Barros, corregedora do órgão; Antonio Peterson Barros Rego Leal, presidente da Associação dos Defensores Públicos do Estado do Maranhão; Claudete de Jesus Ribeiro, secretária extraordinária de Estado da Igualdade Racial; Catarina Nunes Bacelar, secretária de Estado da Mulher; Luiza de Fátima Amorim Oliveira, secretária de Estado de Direitos Humanos e Cidadania; José Stélio Nunes Muniz, desembargador do Tribunal de Justiça; Ivanete da Silva Sousa, representante da sociedade civil; Pedro Freire, diretor presidente do jornal O Imparcial; e Aldir Dantas, diretor de jornalismo da TV Cidade.

Poupo os poucos mas fieis leitores dos qualificativos com que cada um/a foi apresentado/a. Seria tomar tempo demais de vocês. Na sequência – e aqui tento manter a ordem cronológica dos fatos – o Hino Nacional brasileiro foi executado por Alessandro Batista (voz), Rui Mário (acordeom) e Henrique Dualibe (piano). Os trabalhos foram decretados abertos por Aldy Melo. A mesma formação executou o Hino do Maranhão.

Não transcrevo o pronunciamento do defensor público geral, mas ele, em uma espécie de reprise do cerimonial cumprimentou a todos e todas da mesa, repetindo-lhes os nomes e cargos – tomando o tempo dos presentes como não quero tomar aqui o dos caros leitores. Sem mais, o trio interpretou Louvação a São Luís, de Bandeira Tribuzzi. Às 21h06min, brevíssima queda de energia interrompeu sua execução, sendo o Hino da capital maranhense retomado logo em seguida, do exato ponto em que foram obrigados a parar. A pequena microfonia que se sucedeu não o interrompeu novamente.

Em seguida, passou-se à entrega das comendas, mas a plateia não viu os homenageados, tantos eram os cameramen a cobrir o evento. Receberam-na a governadora Roseana Sarney, representada pelo vice; o próprio vice, Washington Luiz de Oliveira; Luiz Fernando Moura da Silva – e aqui passo a não repetir os cargos, que vocês já leram quando da composição da mesa –; Fábio Gondim Pereira da Costa; Luiza de Fátima Amorim Oliveira; Claudete de Jesus Ribeiro; Sérgio Vitor Tamer; Catarina Nunes Bacelar; Jamil de Miranda Gedeon Neto, presidente do Tribunal de Justiça, representado por Antonio Fernando Bayma Araújo, que recebeu também sua própria comenda, além da de Jorge Rachid Mubarack Maluf. Camila Guerreiro recebeu a de Antonio Guerreiro Jr., corregedor geral do Tribunal de Justiça. Mais comendas: para Antonio Arnaldo Alves de Melo; Maria de Fátima Rodrigues Travassos Cordeiro; Helena Maria Cavalcante Haickel; Miguel de Almeida Lima; Ana Flávia Melo Vidigal Sampaio, defensora pública geral do Maranhão (2006-2010).

Terminado o primeiro bloco de comendas (sim, caros leitores, mais virão), pronunciou-se o vice-governador. Para justificar o não ter o que dizer, saiu-se com esta, que ele pescou de alguém cujo nome o repórter não anotou e já não lembra: “discurso é que nem saia de mulher: não pode ser muito comprido para não entristecer, nem muito curto para não assustar”. As palmas, ensaiadas e constrangedoras, pareciam ter sido encomendadas antecipadamente.

O secretário chefe da Casa Civil teceu loas a si mesmo, lembrando de um serviço que implantou quando prefeito de São José de Ribamar, uma espécie de DP municipal, ainda ativo, mesmo com a implantação de núcleo da DP naquele município da ilha.

Outros agraciados também tiveram fala. A de Helena Maria Cavalcante Haickel, lida por ela, era recheada de citações: um “nenhum dever é mais importante que a gratidão” (Cícero) juntava-se a frases de juristas, historiadores e até mesmo santos, com direito a “abre aspas” e “fecha aspas” quando convinha.

Ainda havia comendas a serem entregues e homenageados para recebê-las: José Stélio Nunes Muniz; a Ordem dos Advogados do Brasil – seccional Maranhão, representada pelos ex-presidentes José Caldas Góes (2004-2009) e Raimundo Ferreira Marques (1995-2003); a ex-corregedora da DP Rosimar Salgueiro, representada por Lauro Salgueiro; Ruy Eduardo da Silva Almada Lima, ex-procurador do Estado.

Às 21h55min a mesa é desfeita, permanecendo Aldy Melo Filho e demais conselheiros. Algumas autoridades vão embora, entre elas o vice-governador. Baba-ovos e quetais retiram-se juntos e o salão é esvaziado, não completa, mas consideravalmente.

Mais comendas são entregues: à Cáritas Brasileira Regional Maranhão, representada por seu secretário executivo Ricarte Almeida Santos; Centro de Defesa Pe. Marcos Passerine, por Maria Ribeiro da Conceição; Comissão de Direitos Humanos da OAB/MA, por Luis Antonio Câmara Pedrosa; Comissão Arquidiocesana de Justiça e Paz de São Luís, por Rosa Maria Pinheiro; Comissão Pastoral da Terra, por Pe. Inaldo Serejo; Conselho Estadual de Defesa dos Direitos do Idoso do Maranhão, por Marcos Passinho; Centro de Defesa da Vida e dos Direitos Humanos de Açailância, por Ivanete da Silva Sousa; Pedro Freire; Estevam Almeida, diretor do jornal A Tarde; José Ribamar Rocha Gomes, diretor do jornal Tribuna do Nordeste, representado por Celso Lemos Nunes; Gildo Moraes, diretor do jornal Correio de Notícias; Roberto Prado, diretor de jornalismo da TV Mirante, representado por Olívia Franse; Marília Sffeir, diretora de jornalismo da TV Difusora, representou Paulinha Lobão, chamada pelo cerimonial, sem diminutivo, de Paula Lobão; Kátia Ribeiro, vice-presidente da TV Maranhense; Zildeni Falcão, presidente da Rádio-TV do Maranhão; José Arnold da Serra Costa Filho, diretor executivo da Rádio Universidade FM; Luiz Augusto Nascimento, diretor da rádio comunitária Bacanga FM; Aldir Dantas, além da dele, recebeu também a comenda de Marco Antonio Vieira da Silva, superintendente da TV Cidade.

O repórter, já de calo no dedo, parou de anotar nomes. Mas a partir daí seriam entregues comendas a defensores públicos e servidores da DP. Entre estes e os acima listados, foram mais de cem comendas – faltaram coerência e critério para distribuí-las. O cerimonial pediu a servidores que porventura não tivessem sido chamados que se identificassem para recebê-las. Constrangedor. Precaução ou desorganização, ainda sobraram comendas – alguém aí quer uma?

O defensor geral declarou a sessão encerrada às 22h50min. O cerimonial convidou para um coquetel, que seria servido em um salão contíguo. O repórter, apesar do estresse e da fome, mandou ver apenas um copo de Fanta laranja antes de se mandar. Duas perguntas ecoavam-lhe na cachola: quando seria a próxima distribuição de comendas da DP? (não que ele queira ir à cerimônia ou ganhar uma, longe disso), e quando acontecer, ainda haverá a quem homenagear?

Aperreio na internet

Doc de Humberto Capucci e Doty Luz, Aperreio foi disponibilizado por sua produtora, a Café Cuxá Filmes, em duas partes, no Youtube (veja abaixo). Já escrevi sobre o filme nO Debate e no Vias de Fato.

Paródia é coisa séria

Com um terceiro CD no forno, Alberto Trabulsi concedeu entrevista a O Imparcial. Falou de seus trabalhos e abordou assuntos espinhosos.

ZEMA RIBEIRO
ESPECIAL PARA O IMPARCIAL

À redação de O Imparcial chegou o boato: Alberto Trabulsi (foto) estava com o baú cheio de novas paródias. Era preciso conferir. Sinal dos tempos, via Facebook, pegamos o seu contato de Messenger, por onde ele concedeu entrevista ao jornal. O boato não se confirmava, mas não íamos interromper a entrevista.

Cantor e compositor formado em Educação Física – e atualmente também acadêmico do 5º. período de Direito – Trabulsi completa 40 anos neste maio. Por cerca de uma hora e meia ele conversou com O Imparcial sobre arte, políticas públicas, gestão cultural e… paródias.

Paródias – “Eu faço todo ano, duas ou três, em média, para o bloco [Herdeiros do Aldemir] desfilar no carnaval. Mas só nesse momento. Tudo ficou mais conhecido depois do sucesso nacional de Wilson Vai [versão dele para I Will survive]. O público em geral não conhece. Só os integrantes do bloco. Tem pelo menos umas 20 que são desconhecidas de todos. São paródias de músicas conhecidas. Só troco a letra e às vezes dou um toque mais animado pra gente poder desfilar e dançar no carnaval, mas conservo o mais original possível.

Por exemplo: Você tinha…, em cima de Burguesinha, e Biba do cunovíneo, em cima de Mina do condomínio, de Seu Jorge fizeram sucesso, pois estavam em voga ano passado. São sempre músicas que estão fazendo sucesso, principalmente na TV, ou clássicos da música brasileira. Mas é preciso perceber uma coisa: todas têm duplo sentido porque a gente sai travestido sempre de mulheres. Outra que fez sucesso esse ano foi Eu quero é mostrar meu bofe na rua, em cima do clássico Eu quero é botar meu bloco na rua [do capixaba Sérgio Sampaio]”.

Trabalho sério – “As paródias são meu lado folião irreverente… que só funciona quando o carnaval se aproxima. O resto do ano faço minhas canções. São dois discos lançados [Antes que a poesia acabe, de 1998, e O silêncio, de 2002] e um no forno, precisando ser lançado”.

Maranhão: carnaval e São João – “Esses eventos [os períodos carnavalesco e junino] se transformaram numa corrida ao ouro. Há pessoas que se alimentam exclusivamente desses períodos e passam o ano inteiro reclusas, sem produzir nada de interessante em benefício da música e das pessoas que ainda querem a música como um alento prazeroso da vida.

Eu ando triste em pensar no destino dos artistas autorais do Maranhão, que se resumem apenas ao Maranhão, pois essa nem de longe é a mais viável via para o tão almejado sucesso”.

Os artistas e os poderes públicos – “O que acontece é que se vive na expectativa de o poder público fazer tudo pelo artista, mas o poder público deve estar em beneficio da população como um todo e apenas inserir a música, a arte, em um projeto maior. Não ficar apadrinhando uns e outros, porque isso exclui tanto o artista que está por vir, como o público que anseia por diversidades. Penso, utopicamente, num momento em que depois de tantas reviravoltas, a gente vai poder voltar às rádios, às praças, aos teatros”.

Uma paródia aos gestores, pelos 400 anos da Ilha – “Eu teria que fazer uma paródia de Geni e o zepelim [de Chico Buarque]ou mesmo de Faroeste Caboclo [da Legião Urbana, cita referindo-se ao tamanho das letras das músicas] para citar tudo que quero. Mas estou num projeto maior e mais audacioso, participando de um livro de fotografias de Meireles Jr., que irá retratar a cidade sobre todos os ângulos merecidos através de fotos e textos”.

Os 8 milhões da Beija-Flor – “Essa grana poderia ser aplicada em vários projetos, separadamente, com muito mais resultado social, que um dia de desfile. Mas o que acontece, e assim até concordo, é que se quisermos ser homenageados, temos que pagar. O carnaval é a festa mais popular do Brasil, logo é o maior outdoor também. Nós merecemos várias outras homenagens. Se parar por essa aí, vai ser um fiasco”.

[O Imparcial, 6/5/2011]