Qualquer maneira de amor vale a pena mesmo?

É impressionante como tudo em certa família tem cheiro de falsidade. Começo pelo fim: quem assina uma carta de amor com uma rubrica e abaixo coloca seu nome por extenso? Ora, se há, de fato, alguma intimidade entre remetente e destinatário, este saberá reconhecer a letra, o garrancho, a rubrica daquele. Mas nem é disto que quero falar.

Ao tomar conhecimento da carta de amor que o presidiário Jair Bolsonaro escreveu para Michelle, a primeira coisa que me veio à cabeça foi “Os brutos também amam” (1972), sucesso de Agnaldo Timóteo composto por Roberto Carlos e Erasmo Carlos, também o título brasileiro de “Shane” (1953), faroeste de George Stevens, adaptado do livro homônimo (1949) de Jack Schaefer.

Adiante fico sabendo que a carta é de novembro passado e penso que se só foi revelada agora há algum cálculo para isto — não esqueçamos que estamos em ano eleitoral e o legado bolsonarista permanece em disputa, dentro e fora da família.

No que passo a pensar em Tom Zé e sua maravilhosa “Burrice” (espécie de releitura de sua “Sabor de burrice”, de 1968), o 13º. defeito dos operários terceiro-mundistas musicalmente elencados em “Com defeito de fabricação” (1998): “refinada, poliglota/ anda na esquerda/ anda na direita”.

Bingo! Michelle revela uma carta de amor escrita pelo marido às vésperas de trocar a prisão domiciliar pelo xilindró de luxo e caímos feito uns patinhos, compartilhando e quiçá até achando bonitinho e romântico — inclusive este cronista, que se não compartilha a imagem do tal “bilete”, perde aqui seu tempo em comentá-lo. A gente não aprende mesmo.

Outro dia uma amiga comentou, entre preocupada e zelosa, que eu expunha demais minha vida pessoal nas redes sociais. Agradeci sinceramente o gesto e disse que a ideia era inspirar: a gente vive bombardeado full time de tanta notícia ruim que é preciso soprar aos quatro ventos este amor verdadeiro que sinto e canto em verso e prosa por Diana (oportunidade que nunca perco, nem mesmo se dada pelo falso Messias).

Não disputo espólio político de ninguém nem sou candidato a nada, sequer a síndico do prédio em que moro, tampouco sou sommelier do amor alheio, mas tomo a licença poética para um adendo a “Paula e Bebeto” (1975), clássico de Milton Nascimento e Caetano Veloso: “qualquer maneira de amor vale a pena”, exceto aquela que só pensa naquilo: votos. “Todas as cartas de amor são ridículas” (Fernando Pessoa), mas algumas são mais ridículas que outras.