Um Lençóis Jazz e Blues Festival de inspiradas homenagens

Jota P - foto: Fabiana Serra/ Ascom Lençóis Jazz e Blues Festival
Jota P – foto: Fabiana Serra/ Ascom Lençóis Jazz e Blues Festival
Alice Caymmi e Eduardo Farias - foto: Fabiana Serra/ Ascom Lençóis Jazz e Blues Festival
Alice Caymmi e Eduardo Farias – foto: Fabiana Serra/ Ascom Lençóis Jazz e Blues Festival
JJ Thames com Igor Prado ao fundo - foto: Diana Melo
JJ Thames com Igor Prado ao fundo – foto: Diana Melo

Para deleite do público, Hermeto Pascoal (1936-2025) não foi o único homenageado da 16ª. edição do Lençóis Jazz e Blues Festival, encerrado ontem (1º.) na Avenida Beira-Rio, em Barreirinhas. À homenagem anunciada desde a identidade visual do evento somaram-se outras, a Maria Bethânia, Djavan e Nana Caymmi (1941-2025), nos shows de Luciana Pinheiro, Vanessa Moreno e Alice Caymmi, respectivamente.

O show de Vanessa Moreno não foi dedicado exclusivamente ao repertório do alagoano. Além de Djavan, acompanhada pelo guitarrista Tarcísio Santos, ela desfilou temas como “Refazenda” (Gilberto Gil), “Bananeira” (Gilberto Gil e João Donato), com direito a participação especial da flautista Morgana Moreno — que se apresentou ao lado de Arismar do Espírito Santo, num dos shows representativos dos “hermetismos pascoais”; o outro foi o do saxofonista Jota P, que integrou o grupo de Hermeto Pascoal por 10 anos.

O baixista, que estava na plateia vendo a apresentação, não se fez de rogado quando recebeu o convite de Vanessa e, com Morgana e o guitarrista, fecharam a apresentação com “Emoriô” (Gilberto Gil e João Donato).

Jota P (saxofone, flauta e flautim) estava acompanhado pelos jovens Luiz Gabriel (trompete e flugelhorn), Tom Sickman (guitarra), Gabriel Biel (baixo) e Luiz Gustavo Rocha (bateria) e abriu sua apresentação literalmente com “Xeque mate”, faixa autoral que abre seu ótimo “Baile dos língua preta” (2023) — na sequência, alguém da plateia se levantou e foi até ele, entregar-lhe uma peça de xadrez, que ele agradeceu dizendo que iria guardar com muito carinho o presente.

No bloco em homenagem a Hermeto Pascoal, Jota P tocou “Santo Antônio” (Hermeto Pascoal) e “Florescer” (Jota P), além de “Hermeto me avisou” (Jota P), segundo ele baseada em fatos reais. Sua inspirada apresentação no Lençóis Jazz e Blues Festival, marcada pelo clima descontraído e pela capacidade de improvisação, foi encerrada com outra autoral, outra homenagem, “Airto e Flora” — flores em vida ao casal formado pelo percussionista Airto Moreira e pela cantora Flora Purim —, que fecha o citado álbum.

Alice Caymmi fez um show comovente, “Para minha tia Nana”, de levar às lágrimas boa parte da plateia, acompanhada apenas pelo piano de Eduardo Farias. Já disse a que veio ao iniciar sua apresentação com “Resposta ao tempo” (Aldir Blanc e Cristóvão Bastos), seguida por “Acalanto” (Dorival Caymmi) — “essa meu avô compôs quando minha tia nasceu” — e “A noite do meu bem” (Dolores Duran).

Não faltaram “Atrás da porta” (Chico Buarque e Francis Hime), “Derradeira primavera” (Tom Jobim e Vinícius de Moraes) e “Sabe de mim” (Sueli Costa). Fez troça ao anunciar “Mentiras” (João Donato e Lysias Enio): “essa é da época em que ela [Nana Caymmi] era casada com João Donato (1934-2023), agora vocês tiram como é que era isso”.

Cantou ainda “Sem você” (Tom Jobim e Vinícius de Moraes), “Meu menino” (Danilo Caymmi), “Cais” (Milton Nascimento e Ronaldo Bastos), “Tens (Calmaria”) (Ivan Lins e Ronaldo Monteiro de Souza) — “ninguém conhece, mas é linda” —, “Dora” (Dorival Caymmi), “Só louco” (Dorival Caymmi) e “Suave veneno” (Aldir Blanc e Cristóvão Bastos). Fechou com “Não se esqueça de mim” (Roberto Carlos e Erasmo Carlos).

A homenagem de Alice a Nana superou questões políticas que mantiveram afastadas sobrinha e tia nos últimos anos, num espetáculo que nada tem de oportunista e que demonstra que a Caymmi, como qualquer família brasileira, não está imune a eventuais divergências.

O festival foi encerrado com a apresentação vibrante da americana JJ Thames acompanhada da Prado Brothers Band, que colocou boa parte do público para dançar no gargarejo. A programação de alto nível dificulta o exercício de eleger apenas um como melhor show.

*

A reportagem se hospedou na Pousada e Ponto de Cultura Sítio Paraíso do Caju, onde foram realizadas as jam sessions do Lençóis Jazz e Blues Festival este ano.

A força do longevo Quinteto Violado, atualmente um sexteto, a rigor

O Quinteto Violado no palco do Teatro Sesc Napoleão Ewerton, ontem (15) - foto: Zema Ribeiro
O Quinteto Violado no palco do Teatro Sesc Napoleão Ewerton, ontem (15) – foto: Zema Ribeiro

Ver o Quinteto Violado ao vivo no palco é confirmar o que atestou Gilberto Gil há mais de 50 anos: eles fazem o free nordestino, abreviando e aludindo ao free jazz, a sonoridade encorpada do grupo com liberdade total para a improvisação e para aglutinar elementos da música popular, da música erudita e de folguedos da região nordestina, celebrada pelos seis músicos no espetáculo “Sertão”, apresentado ontem (15), em São Luís, no Teatro Sesc Napoleão Ewerton.

Não, você não leu errado (como um deles disse, ontem, durante o show: vocês não estão vendo errado): com o reforço do violeiro Waleson Queiros, um “viola heroe”, o Quinteto Violado é, atualmente, um sexteto, o que só reforça o groove de seu free.

Em entrevista exclusiva a este repórter, Marcelo Melo, voz e violão firmes aos 79 anos, ressaltou a disciplina como elemento fundamental para eles terem chegado onde chegaram. O cantor, compositor e violonista é o único remanescente da formação original, com o grupo tendo chegado aos 54 anos de estrada — há 10 não vinham à São Luís.

O grupo se completa com Dudu Alves (voz e teclado), Deri Santana (flauta), Sandro Lins (baixo) e Roberto Medeiros (voz e bateria). Em determinados pontos do espetáculo todos têm a oportunidade de exibir seu virtuosismo aos instrumentos. No bis, quase uma jam session, o improviso uniu temas que foram de “Baião” (Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira) a “O trenzinho do caipira” (Heitor Villa-Lobos, Ferreira Gullar e Edu Lobo).

Elegantemente vestidos em roupas cujos tecidos bordados fazem referência ao gibão de couro tornado famoso por Lampião (1898-1938) e Luiz Gonzaga (1912-1989), os músicos estavam super à vontade no palco, entre o repertório, causos, histórias da trajetória e um depoimento gravado do segundo destacando a importância do Quinteto Violado para a música brasileira (o que também tinha me antecipado Marcelo Melo).

Além de Gonzaga — “Asa branca” (parceria com Humberto Teixeira), “A volta da Asa branca” (parceria com Zé Dantas) e “Acauã” (de Zé Dantas, sozinho) —, o repertório trouxe temas autorais — “Vaquejada” (Toinho Alves, Marcelo Melo e Luciano Pimentel), “Palavra acesa” (José Chagas e Fernando Filizola) —, além de nomes como Gilberto Gil — “Lamento sertanejo” (parceria com Dominguinhos) —, Milton Nascimento — “Notícias do Brasil (Os pássaros trazem”, parceria com Fernando Brant —, Alceu Valença — “Morena tropicana” (parceria com Vicente Barreto) —, e Paulo Diniz — “Pingos de amor” (parceria com Odibar) —, entre outros. A última antes do bis foi “Leão do Norte” (Lenine e Paulo César Pinheiro), uma espécie de síntese da nordestinidade.

Merece destaque também a menção ao paraibano Geraldo Vandré, cuja importância Marcelo Melo destacou, lembrando do encontro com o conterrâneo na França, quando ajudou-o a gravar “Das terras de benvirá” (1973), seu último álbum. “A ditadura militar não gostava de suas músicas e ele, como muitos intelectuais, foi obrigado a se exilar”, lembrou, para ouvir gritos de “sem anistia!” da plateia, e depois cantar “Pra não dizer que não falei as flores (Caminhando)” e “Disparada” (parceria com Théo de Barros).

Um espetáculo impecável que dá conta de reafirmar a importância da região Nordeste para a música e a cultura brasileiras, propósito de “Sertão” (que vai virar o próximo álbum do grupo), além da força do groove do free nordestino do Quinteto Violado. Vida longa!

“Só o que não se cansa é a gente se querer bem”

"Para viver um grande amor" (Vinícius de Moraes e Toquinho), às vezes é preciso olhar o retrovisor - foto: Zema Ribeiro
“Para viver um grande amor” (Vinícius de Moraes e Toquinho), às vezes é preciso olhar o retrovisor – foto: Zema Ribeiro

O título deste texto (ridículo, como toda carta de amor, não é, Fernando Pessoa?) é verso de “Nossa canção” (Ana Terra e Danilo Caymmi), sucesso de Nana Caymmi (1941-2025), não por acaso a música que abre a playlist “Depois daquela dança”, que alimentamos constantemente desde a dança que precedeu nosso primeiro beijo.

“O que fazer com este beijo represado há 20 anos?”, perguntei, ousado, logo após nossos lábios se encontrarem pela primeira vez. Tudo começou há 20 anos, na plateia de uma apresentação de Elomar — a música sempre presente — no finado Circo da Cidade (mais precisamente dia 19 de agosto de 2005), que assistimos em cadeiras lado a lado.

Apresentados por um amigo comum, eu me apaixonei, mas um coquetel de álcool, juventude (leia-se inexperiência) e lerdeza me impediu de perceber os sinais da reciprocidade, à época.

Como a vida é uma peça de teatro que não permite ensaios, “nossos destinos foram traçados na maternidade” (Cazuza, Leoni e Ezequiel Neves) — com distâncias geográficas e temporais mínimas: ela nasceu na Maternidade Benedito Leite e eu na Santa Casa de Misericórdia, ambas no Centro de São Luís/MA, com apenas 15 dias de diferença.

Mas desde o citado show de Elomar, quis o acaso que “as retas mais curvas que o mundo tem” (Chico Maranhão) nos provassem, na prática, a teoria de Vinícius de Moraes (1913-1980): “a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro nessa vida”.

Vivemos: acertamos, erramos, fomos felizes e tristes, pertos e distantes, mas sempre amigos, com gostos parecidos, posturas políticas semelhantes e vez por outra, entre “encontros e despedidas” (Milton Nascimento e Fernando Brant), nos esbarrando aqui e acolá, em agendas de “festa, trabalho e pão” (Gilberto Gil e Capinan), bem menos do que gostaria, é verdade, admito.

Mas já dizia Paulo Leminski (1944-1989), outro poeta-músico de nossa predileção: “um bom poema leva anos/ cinco jogando bola,/ mais cinco estudando sânscrito,/ seis carregando pedra,/ nove namorando a vizinha,/ sete levando porrada,/ quatro andando sozinho,/ três mudando de cidade,/ dez trocando de assunto,/ uma eternidade, eu e você,/ caminhando junto”.

É um poema sobre seu próprio ofício poético e sobre maturação, para além da poesia, também do amor: o nosso levou 20 anos para poder ser vivido plenamente. E está apenas começando, embora sempre estivesse ali, pulsando quietinho. “Ah, infinito delírio chamado desejo/ essa fome de afagos e beijos/ essa sede incessante de amor” (Gonzaguinha); “não dá mais pra segurar/ explode coração” (idem).

Quando nos conhecemos, logo apelidei-a, carinhosamente, “menina de olhos amendoados”, estas duas petecas cor de mel que me espelharam e abriram as portas da paixão, a primeira coisa que me chamou a atenção. “Quando vi você me apaixonei” (Chico César), para logo depois cantar o Djavan de “Um amor puro”: “te adoro em tudo”.

Quando nos reencontramos, até tentamos, mas foi impossível conter a explosão: “nós somos fogo e gasolina” (Carlos Rennó e Pedro Luís). Sempre me refiro à nossa história, que adoro contar, como “um caso de loucura e mágica” (Ritchie e Antonio Cicero).

“O futuro já sabia, mas a gente ainda não” (Barro e Ed Staudinger): a dona dos olhos amendoados é hoje, finalmente, a “dona da minha cabeça” (Fausto Nilo e Geraldo Azevedo).

Volto ao show de Elomar, tendo-o como um marco: 20 anos não são 20 dias. Pensei em escrever algo sobre tudo isto, aproveitando a efeméride, e dei de cara com um poema, escrito também há 20 anos, uma singela quadrinha, com algum poder de síntese, já estava tudo lá: “teus olhos, duas pedras raras/ me deixam mudo/ com tua beleza me calas/ e se sou teu, tenho tudo”.

*

para Diana Melo

Ilha, 20 de agosto de 2025

Duas noites sublimes em São Luís

Vanessa Ferreira (contrabaixo acústico) e Arismar do Espírito Santo (baixo elétrico) na segunda noite do Festival Plural Instrumental
Vanessa Ferreira (contrabaixo acústico) e Arismar do Espírito Santo (baixo elétrico) na segunda noite do Festival Plural Instrumental
Amilton Godoy (piano) e Sidmar Vieira (trompete)
Amilton Godoy (piano) e Sidmar Vieira (trompete)

Arismar do Espírito Santo subiu ao palco muito à vontade, trajando um macacão jeans com uma camisa de estampa florida e sandálias havaianas. O despojamento no vestir traduziu-se na sonoridade apresentada por ele, com vocais a la Hermeto Pascoal, entre seu baixo sozinho, em duo com Vanessa Ferreira, e os escudeiros Eduardo Farias (piano) e Cassius Theperson (bateria)..

Era a segunda noite do Festival Plural Instrumental em São Luís, no palco do Teatro João do Vale. Extremamente tímida para falar – a timidez inversamente proporcional ao talento da instrumentista ao contrabaixo – Vanessa Ferreira conseguiu agradecer a oportunidade de estar ali, diante de um dos monumentos vivos do baixo e da música instrumental brasileira. É tocando com os grandes que você se torna um, ela demonstrou tocando, mais do que dizendo algo parecido.

A música de Arismar tem sabor, como quando ele contou a história de “Pitaia”, composta após a inspiração vir de um raio de sol, que atravessava a lona furada de uma barraca na feira, iluminando a fruta. Quem esteve no teatro lambuzou-se de som, um deleite.

No segundo show da noite outro encontro de gerações: Amilton Godoy, fundador do igualmente lendário Zimbo Trio, recebeu Sidmar Vieira, jovem trompetista, já senhor de seu instrumento, que não titubeou ao receber o convite para um duo de trompete e piano com o mestre.

Não esconderam a predileção por Johnny Alf (1929-2010), passeando também por repertório autoral, de Godoy, de quem Sidmar lembrou-se de ter se aproximado a partir de um concerto de piano e orquestra apresentado pelo pianista junto a uma orquestra jovem integrada pelo trompetista.

No preâmbulo de “Canção do Sal” (Milton Nascimento e Fernando Brant [1946-2015]), Godoy abriu um parêntese que fez a plateia gargalhar: “tudo que eu conto já faz muito tempo”, disse, para lembrar que fez o arranjo da música ali pelo fim dos anos 1960, quando Milton ainda não era conhecido e estava atrás de intérpretes para gravar suas músicas. “Nara Leão (1942-1989) não demonstrou interesse, Elis gravou e vocês sabem o que aconteceu depois com Milton Nascimento”, resumiu, antes de tocarem juntos o mesmo arranjo gravado à época pela gaúcha.

Após duas noites memoráveis em São Luís o Festival Plural Instrumental percorre ainda Parauapebas/PA, Rio de Janeiro/RJ e Belo Horizonte/MG. A programação completa pode ser acessada no perfil do festival no instagram.

As gratas surpresas de Roberta Campos

A cantora e compositora Roberta Campos. Fotosca: Zema Ribeiro

“Casinha branca” foi a segunda música cantada por Roberta Campos no show de ontem (8), no Teatro João do Vale (Praia Grande), em São Luís. Era a segunda apresentação da cantora mineira na capital maranhense, em sua primeira viagem até aqui.

O compositor Gilson (autor do hit, com Joram) é pouco falado, mas tem parcerias com Carlos Colla e Aldir Blanc, entre outros, e já foi gravado por nomes como Maria Bethânia, Roberto Carlos, Rosa Maria e Zeca Baleiro.

Era apenas a primeira grata surpresa de um show de voz e violão que cativou o bom público presente pela delicadeza do canto, repertório e simpatia da artista, ela mesma uma colecionadora de hits que vem enfileirando nas paradas das rádios brasileiras e trilhas sonoras de telenovelas.

Com a reação da plateia ela chegou a gracejar: “eu pensei em fazer uma competição entre as plateias de ontem e hoje”, estimulando o público a cantar junto e bater palmas, o que conseguiu sem maior esforço, muito à vontade no palco.

Entre os hits desfilados no show de cerca de hora e meia, “Todo dia”, trilha sonora da novela “Órfãos da terra” – gravada por ela no dvd com que celebrou seus 10 anos de carreira discográfica, em 2019 –, “Miragem”, faixa de “O amor liberta” (2021) – seu disco mais recente, que dá título ao show –, gravada com a adesão do Natiruts, e “Começa tudo outra vez”, do mesmo disco, parceria com Humberto Gessinger, gravada em dueto com o Engenheiro do Hawaii.

Outros covers se fizeram presentes ao set list da sexta-feira: “Não vá embora” (Arnaldo Antunes/ Marisa Monte) e “Quem sabe isso quer dizer amor” (Lô Borges/ Márcio Borges), lançada por Milton Nascimento em 2002 (no disco “Pietá”) e só gravada por Lô Borges no ano seguinte (em “Um dia e meio”). A cantora revelou sua relação com a música, que gravou em “Varrendo a lua”, seu disco de 2010: “é uma das músicas mais bonitas que eu ouvi nos últimos tempos e durante muito tempo cantei achando que era do Milton; só depois eu descobri que era dos irmãos Lô e Márcio Borges e depois eu mergulhei na leitura do livro do Márcio, “Os sonhos não envelhecem” [Histórias do Clube da Esquina, Geração Editorial, 2009], que eu recomendo também a todos vocês”.

Como boa mineira, Roberta Campos revelou-se também uma engraçada contadora de causos – e contou um real: “durante a pandemia eu fiz muitas lives, dei muitas entrevistas. Um dia eu estava gravando uma e a entrevistadora falou “o pai dela” e eu fiquei assim [faz cara de assustada]… Quando ela repetiu, ligou o alerta. E de novo: “ah, ela não fala no pai dela, mas o pai dela sempre fala nela nas entrevistas”. Eu pensei: meu pai está lá na roça, no interior de Minas… não que ele não pudesse dar entrevista, mas eu acho que eu estaria sabendo. Eu resolvi perguntar: peraí, quem é meu pai?”. Após as gargalhadas da plateia, ela continuou, repetindo a pergunta da entrevistadora: “ué, você não é filha do Nando Reis?”, fazendo a plateia rir novamente. “Ela achando que eu era filha do Nando Reis… em menos de um mês essa música completa 23 anos, essa música tem quase a minha idade”, completou, antes de cantar “De janeiro a janeiro”, que ela gravou com a participação especial do ex-Titãs, e ontem cantou em dueto com o maranhense Sfanio, ela tocando violão.

A participação especial revelou afeto mútuo. Ela o descobriu por acaso numa plataforma de streaming. Em meio ao isolamento social imposto pela pandemia de covid-19 passaram a se corresponder virtualmente. “Aí hoje eu me toquei: ei, o Sfanio mora em São Luís!”, comentou Roberta. “Eu recebi o convite por volta de duas da tarde, ela perguntando se eu aceitaria fazer uma participação especial no show, e eu não sabia o que ia cantar, nem nada, mas é claro que eu aceito”, ele revelou não ter titubeado. Na sequência, ela lhe passou o violão (havia outro numa estante, mas somente um foi usado ao longo de toda apresentação) e cantaram juntos “Covardia” – “a minha música preferida dele”, ela revelou –, do refrão “sentir é foda, né?/ sentir é foda/ dá logo a covardia/ e covardia mata”, que o público também cantou junto.

Outra história contada por Roberta Campos foi quando, ainda em 1998, antes de estrear em disco, mandou uma carta para Fernanda Takai, perguntando se podia enviar uma fita demo para o Pato Fu, banda que ela ouviu bastante na adolescência e por quem sonhava ser gravada. “Ela respondeu a carta à mão, eu tenho até hoje essa carta lá em casa”. Ela, John Ulhoa (guitarrista da banda e marido de Fernanda) e Ricardo Koctus (baixista), tornaram-se parceiros e o Pato Fu gravou “Eu era feliz” em “Não pare pra pensar” (2014). Ela cantou ainda “Abrigo” (Fernanda Takai/ Roberta Campos).

Antes de cantar “Minha felicidade”, tema de abertura da novela “Sol nascente”, agradeceu novamente a presença do público: “toda vez que eu voltar aqui espero reencontrá-los”, disse. “No meio da música eu ensino o refrão pra vocês, pra gente cantar junto”, e cumpriu mais uma promessa: “lembra aquele tempo amor/ onde a gente se encontrou/ foi ali que começou/ minha felicidade”.

Aos pedidos de mais um, voltou ao palco e no bis mandou “Quase sem querer” (Dado Villa-Lobos/ Renato Russo/ Renato Rocha), sucesso da Legião Urbana que ela regravou como single em 2018. Deu tempo ainda de “Varrendo a lua”, faixa-título de seu segundo disco, encerrando o show com um último exemplo de sua comunhão com o público ludovicense: “e eu que não queria mentir/ passei então a sorrir do seu lado/ e eu que sempre quis te seguir/ criei meu mundo, meu mundo ao teu lado”.

A geração Y (d)e Tom Zé

Vira lata na via láctea. Capa. Reprodução

 

 

Desde o disco manifesto do movimento tropicalista, em 1968, Tom Zé mostrou-se um dos mais férteis compositores daquela geração. Relegado ao ostracismo na década de 1980, foi redescoberto graças à garimpagem de David Byrne, que o devolveu a prateleiras de lojas de discos e a palcos, no Brasil e no exterior. Os episódios são bastante conhecidos.

Também o descobriram e redescobriram-no novas gerações de músicos brasileiros, seja através de regravações ou da influência confessa. De Com defeito de fabricação (1998) para cá, o iraraense tem mantido um intenso diálogo criativo com artistas mais jovens – Tom Zé conta 78 anos, com fôlego de adolescente.

Vira lata na via láctea [2014], seu disco mais recente, é recheado de exemplos, entre parcerias e participações especiais. A zombeteira Geração Y (GY), faixa de abertura, tira onda com o amor, as manifestações de rua e a tecnologia: “oh, oh, yes!/ wireless/ um ET/ dentro do HD/ mas, além disso/ o ambiente é compromisso/ porque já somos o pós-humano/ a nova turma antropomórfica do bando”, diz a letra da parceria com Henrique Marcusso.

Entre os destaques, Pour Elis, homenagem à Elis Regina, em que Tom Zé musica um texto de Fernando Faro – um dos homens de tevê mais importantes para a música brasileira –, cantada em dueto com Milton Nascimento. A pequena suburbana, que fecha o disco, é um marco: trata-se da primeira parceria do baiano com o conterrâneo Caetano Veloso, cantada em dueto com o próprio.

Parceria com Criolo, Banca de jornal, um “samba-editorialista”, como o classifica o próprio Tom Zé, em que divide os vocais com o rapper, é, de longe, a mais radiofônica, com a letra inspirada citando diversos jornais e revistas brasileiros: “Veja! Isto É – poca/ lenha/ no grande bate-boca/ e ainda escrevo/ uma Carta Capital/ para os Caros Amigos/ desta banca de jornal”.

Entre parcerias, composições e participações especiais, ainda comparecem ao disco Tiago Araripe (autor de A quantas anda você?), Elifas Andreato (parceiro em Salva humanidade), Marcelo Segreto (Filarmônica de Pasárgada, parceiro em Guga na lavagem; violão), Tim Bernardes (O Terno, parceiro em Papa perdoa Tom Zé; voz, guitarra, órgão, percussão), Kiko Dinucci (guitarra, violão, percussão), Rodrigo Campos (cavaco), Silva (programação), Tatá Aeroplano (Cérebro Eletrônico; apitos, brinquedos, coro) e Trupe Chá de Boldo (vocais e arranjos).

A depender dessas trocas, fusões e ousadias, no auge das juventudes – a própria e as alheias –, o garoto Tom Zé ainda vai (cada vez mais) longe.

Confiram Tom Zé e Criolo em Banca de jornal:

O futuro da censura

Entre lançamentos e reedições, outras obras podem ter o mesmo infeliz destino desta

Muito já se falou no assunto e eu só não vi mesmo a opinião do Lobão, que agora engrossa o coro de colunistas reaça da Veja. Em pauta as biografias e a censura prévia. Talvez o velho lobo esteja quieto por já ter escrito – com o grande Cláudio Tognolli – sua autobiografia.

Até aqui, de tudo o que foi dito, fico com Alceu Valença e Benjamin Moser. O grupo formado por Caetano Veloso, Chico Buarque, Djavan, Erasmo Carlos, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Paula Lavigne e Roberto Carlos – perdoem se esqueço alguém – é simplesmente ridículo, a começar pelo nome: Procure saber é um exemplo de pura arrogância.

A meu ver, quem já foi vítima de censura não tem o direito de se tornar censor.

Existem biografias boas e biografias ruins, como tudo na vida. Mas não será a censura que fará este filtro de qualidade. Num momento em que está muito em voga a pauta memória, justiça e verdade, por conta da Comissão Nacional que, apesar dos limites, procura esclarecer crimes de lesa-humanidade cometidos pela ditadura militar brasileira, é no mínimo triste o comportamento da dita elite da emepebê.

Para além do interesse público, pra mim o buraco é bem mais embaixo. Agora censuram biografias. Já imaginou se num futuro próximo tentam censurar a literatura? Deliro? De jeito nenhum. Um ótimo exemplo é a clássica página 73 do Bregajeno Blues – Novela Trezoitão, de Bruno Azevêdo. Leiam-na e tirem suas próprias conclusões.

Este post vai com um abraço ao Paulo César de Araújo!

O maior segredo do Brasil é a tal da perna de pau do Roberto Carlos. Não pode comentar isso. É feio. É errado.

Podem reparar. Já viram isso em alguma revista? Programa de tv? Nada, não sai nada! É a informação mais subversiva do país. Entra governo, sai governo, aparece a nova promessa da música brasileira, morre a nova promessa da música brasileira, fulano chifra cicrano, Nelson Gonçalves abre o jogo, mas ninguém fala da perna de pau do Rei.

Maranhão 70

O discreto aniversário de 70 anos de Chico Maranhão, “um ser criador”.

ZEMA RIBEIRO

O compositor durante show no Clube do Choro Recebe (Restaurante Chico Canhoto) em 27/10/2007

Como era de se esperar, não houve estardalhaço midiático pelos 70 anos de Chico Maranhão, compositor tão importante quanto Caetano Veloso, Gilberto Gil, Milton Nascimento e Paulinho da Viola, outros ilustres setentões da senhora dona Música Popular Brasileira. Nem os meios de comunicação de Pindorama nem os timbira deram qualquer atenção à efeméride.

“Para mim é uma data como outra qualquer”, me diz o compositor ao telefone, em 17 de agosto passado. A afirmação não demonstra arrogância, mas simplicidade e desapego. Francisco Fuzzetti de Viveiros Filho, “nome usado unicamente para guardas de trânsito e delegados, com os quais ele não permitia a intimidade de seu verdadeiro nome – Maranhão”, como afirmou Marcus Pereira na contracapa de Lances de Agora (1978), há pouco mais de um ano descobriu um erro em seu registro de nascimento. “Nasci 17 e no registro consta que nasci 18; agora eu comemoro as duas datas”, diz. Avesso a comemorações, no entanto, o autor de Ponto de Fuga passou as datas em casa, lendo Liberdade, de Jonathan Franzen.

Puro acaso (ou descaso?), 17 de agosto foi a data em que o Governo do Estado do Maranhão anunciou a programação cultural oficial do aniversário dos controversos 400 anos de São Luís, em que figuras como Roberto Carlos, Ivete Sangalo e Zezé di Camargo & Luciano desfilarão pela fétida Lagoa da Jansen, os shows sob produção da Marafolia, com as cifras mantidas em sigilo, em mais uma sangria nos cofres públicos. Como outros artistas de igual quilate domiciliados na Ilha, Chico Maranhão ficou de fora.

“Quando eu tava em São Paulo [estudando Arquitetura e já envolvido com música, participando dos grandes festivais promovidos por emissoras de televisão, na década de 1960] e resolvi vir embora, muita gente me desaconselhou. Eu vim, sabendo para onde estava vindo. Sou feliz aqui, apesar de ver a cidade crescendo desordenadamente, de saber que daqui a algum tempo acontecerá aqui o que já aconteceu em São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Salvador: você não poder mais sair de casa ou por que não há espaço para seu carro ou por que você pode ser assaltado em qualquer esquina”, conta Chico, que revela estar com um disco praticamente pronto. “Estou esperando passar esse período de campanha eleitoral, em que os estúdios ficam todos ocupados para finalizar”.

Maranhão (1974)…

A obra musical de Chico Maranhão tem uma qualidade extraordinária e ao menos três discos seus são fundamentais em qualquer discografia de música brasileira que se preze: Maranhão (1974), do mais que clássico frevo Gabriela, defendido em 1967 pelo MPB-4 em um festival da TV Record, Lances de Agora(1978), de repertório impecável/irretocável, gravado em quatro dias naquele ano, em plena sacristia da Igreja do Desterro, na capital maranhense, e Fonte Nova (1980), da contundente A Vida de Seu Raimundo, em que Maranhão recria, a sua maneira, a barra pesada da ditadura militar brasileira (1964-85) e o assassinato do jornalista Vladimir Herzog, nos porões do DOI-CODI.

… Lances de Agora (1978)…

A trilogia é tão fundamental quanto rara: lançados pela Discos Marcus Pereira, os discos estão esgotados há tempos e confinados ao vinil. Curiosamente nunca foram relançados em cd, como os trabalhos de Canhoto da Paraíba, Cartola, Donga, Doroty Marques, Papete e Paulo Vanzolini, para citar apenas alguns poucos nomes produzidos e lançados pelo publicitário, que após mais de 100 discos em pouco mais de 10 anos, acabaria se suicidando, acossado por dívidas.

… e Fonte Nova (1980): a trilogia fundamental de Chico Maranhão

A estreia fonográfica de Chico Maranhão data de 1969. À época, seu nome artístico era apenas Maranhão e ele dividiu um disco brinde com Renato Teixeira, um lado para composições de cada um. Do seu já constava Cirano (que apareceria novamente em Maranhão e Lances de Agora), para a qual Marcus Pereira já nos chamava a atenção à qualidade literária desta obra-prima. “Este disco merece um seminário para debate e penitência”, cravou certeiro o publicitário na contracapa de Lances de Agora. Bem poderia estar se referindo à obra de Maranhão como um todo.

Formado em Arquitetura pela FAU/USP, na turma abandonada por Chico Buarque, a formação acadêmica de Maranhão, também Mestre em Desenvolvimento Urbano pela UFPE, certamente influencia sua obra musical, onde não se desperdiça nem se coloca à toa uma vírgula ou nota musical, em que beleza e qualidade são a medida exata de sua criação. “Na verdade, sou um criador, não me coloco nem como arquiteto nem como músico, sou um homem criador, o que eu faço eu vou fazer com criatividade, com qualidade”, confessou-me em uma entrevista há sete anos.

A obra de Chico Maranhão merece ser mais e mais conhecida e cantada – para além do período junino em que muitas vezes suas Pastorinha e Quadrilha (parceria com Josias Sobrinho, Ronald Pinheiro, Sérgio Habibe e Zé Pereira Godão), entre outras, são cantadas a plenos pulmões por multidões que às vezes sequer sabem quem é seu autor.

A reedição de seus discos em formato digital faria justiça à sua obra infelizmente ainda pouco conhecida, apesar de registros nas vozes de Célia Maria (Meu Samba Choro), Cristina Buarque (Ponto de Fuga), Diana Pequeno (Diverdade), Doroty Marques (Arreuni), Flávia Bittencourt (Ponto de Fuga e Vassourinha Meaçaba), MPB-4 (Descampado Verde e Gabriela) e Papete (Quadrilha), entre outros.

As palavras de Marcus Pereira, em que pese o número hoje menor de lojas de discos, continuam atualíssimas. A contracapa agora é de Fonte Nova: “‘Lances de Agora’, o mais surpreendente e belo disco jamais ouvido pelos que a ele tiveram acesso, nesta selva do mercado brasileiro onde, em 95% das lojas, encontram-se apenas 100 títulos de 20.000 possíveis. Esses 100 discos privilegiados todo mundo sabe quais são. Este ‘Fonte Nova’ é um passo além de ‘Lances de Agora’. Quem duvidar, que ouça os dois. Mas os seus discos são de um nível poético e musical que, no meu entender, não encontra paralelo na música brasileira”.

[Vias de Fato, agosto/2012]

Retrato em branco e preto

O jornal O Estado de Minas localizou o par de meninos que há 40 anos estampou a capa do Clube da Esquina, de Milton Nascimento e Lô Borges, disco fundamental em qualquer discoteca de música brasileira que se preze.

Tonho e Cacau: amizade que venceu o tempo

Via @AlbertoJunior. Leia a matéria completa.