Jacob do Bandolim foi um dos mais controversos nomes da música popular brasileira. Reinventou o instrumento que lhe deu sobrenome artístico, sendo até hoje considerado um de seus maiores nomes. Tinha fama de conservador – musicalmente falando – e, no entanto, foi um dos grandes revolucionários da música instrumental praticada no Brasil. Para comprovar tudo o que afirmo basta ouvirmos sua obra-prima, o disco Vibrações, lançado em 1967, recheado de clássicos do choro, entre composições autorais e de mestres como Pixinguinha e Ernesto Nazareth.
Em 1979, 10 anos após seu falecimento, a Camerata Carioca, do maestro gaúcho Radamés Gnattali – então com o violonista maranhense João Pedro Borges em sua formação –, prestou-lhe as devidas homenagens em Tributo a Jacob do Bandolim, em que a formação voltava a executar a Suíte Retratos (com seus movimentos, os “retratos”, homenageando Pixinguinha, Ernesto Nazareth, Anacleto de Medeiros e Chiquinha Gonzaga, pilares do choro). Desde então, homenagens a Jacob, sempre merecidas, não pararam de acontecer.
Hamilton de Holanda, herdeiro musical, por vezes apontado como sucessor, talvez o maior revolucionário do instrumento após o mestre, brasiliense inventor do bandolim de 10 cordas, reverencia-o no ousado Jacob 10zz [Deck, 2018, disponível nas plataformas digitais], disco do Hamilton de Holanda Trio – o bandolinista é acompanhado por Guto Wirtti (contrabaixo acústico) e Pretinho da Serrinha (percussão). O grupo venceu o Grammy Latino de melhor disco de música instrumental por Samba de Chico, dedicado ao repertório de outro craque da música brasileira, o “parente” Chico Buarque de Holanda.
Neste novo trabalho a ousadia começa já no título: o 10 poderia referir-se à nota que o disco merece, mas alude ao número de cordas do bandolim de Hamilton, revelando o flerte com o jazz, exalando uma modernidade sem firulas e sem perder a brasilidade.
O álbum – por enquanto disponível apenas em formato digital, ganhará versão em vinil, em breve – foi lançado mês passado, por ocasião das comemorações do Dia Nacional do Choro, 23 de abril, homenagem a Alfredo da Rocha Viana Filho, o Pixinguinha.
Jacob 10zz traz 10 faixas assinadas por Jacob do Bandolim, longe de se limitar ao óbvio ou de se pretender um best of. Para termos ideia, as músicas mais conhecidas do disco são Bole bole e Assanhado. Mas “mais conhecidas” é modo de dizer: Hamilton de Holanda e seus parceiros de empreitada dão uma roupagem completamente nova e inusitada às criações jacobianas que parecemos estar diante de algo completamente novo. E estamos. Entre diversas pérolas, destaque para Forró de gala, peça pouco conhecida.
Além das 10 da lavra do homenageado, comparecem Naquela mesa, composta por seu filho Sérgio Bittencourt quando da morte do pai – e eternizada na gravação de Nelson Gonçalves –, e Serenata Jacarepaguá, do próprio Hamilton de Holanda, alusão ao bairro em que Jacob morou, em cuja casa organizou memoráveis saraus e onde hoje há uma Lona Cultural Municipal com seu nome. Uma curiosidade é que a música foi composta no estúdio, na hora da gravação.
Jacob Pick Bittencourt, nome de batismo do homenageado, completaria 100 anos no próximo dezembro. Jacob 10zz é o lançamento digital antecipado de um dos discos que comporão um box dedicado ao repertório do carioca, com lançamento previsto para este ano.
Os caminhos de Bárbara Eugenia e Tatá Aeroplano já se cruzavam havia algum tempo. Artistas de trajetórias distintas, ano passado chegou o momento de registrarem esse encontro: gravaram e lançaram juntos o álbum Vida ventureira [2017], coleção de delicadezas que agrega elementos de rock rural, folk, psicodelia e punk, com a sonoridade ora remetendo a Zé Rodrix, ora a Kraftwerk, em 12 faixas cerzidas por bucolismo.
Tatá Aeroplano já comparou o (seu) ofício de fazer discos à produção orgânica de vegetais: em pequena escala, sem preocupação com a grandeza dos números, mas com a qualidade e alimentando uma fatia importante da população. Múltiplo, já esteve à frente das bandas Cérebro Eletrônico e Jumbo Elektro, e se divide entre ele mesmo e o personagem Frito Sampler, que já assina dois álbuns de sua vasta discografia.
Após sua estreia em 2010, com Journal de Bad, Vida ventureira é o segundo, digamos, casamento musical de Bárbara Eugenia. O primeiro foi o álbum Aurora [2014], dividido com Chankas, guitarrista da banda Hurtmold. Sua Coração, faixa que abre É o que temos [2013], integrou a trilha sonora da novela global Velho Chico. Foi em seu segundo disco, aliás, que a parceria com Tatá Aeroplano começou: deles, ela gravou Eu não tenho medo da chuva e não fico só.
Produzido por eles com Dustan Gallas, Junior Boca e Bruno Buarque (os cinco assinam os arranjos coletivos), Vida ventureira é um disco que simula um road movie, sobre um casal que cai na estrada. “A vida ventureira é a vida ao Deus dará/ é vida pé na estrada/ mania de jogar/ as coisas lá pro alto e se mandar”, avisa a letra da faixa-título. “Jogados nesta saga/ viemos descobrir/ novos horizontes/ pra se sorrir”, continua.
Os versos iniciais de As asas são escadas pra voar – “se eu te contar o que eu sinto/ você vai me dizer que também já sentiu desse jeito” – dialogam diretamente com os de Petróleo do futuro – “Ah, se eu soubesse lhe dizer/ o que eu sonhei ontem à noite, você ia querer/ me dizer tudo sobre o seu sonho também” –, do primeiro disco da Legião Urbana [1985].
Em Pro mundo virar shopping uma crítica feroz, mas bem humorada, à sociedade de consumo, máquina azeitada por preconceitos, antenada com o noticiário, citando o Nobel de Literatura Hermann Hesse e o lendário Flávio Basso, por sua alcunha mais conhecida, Júpiter Maçã.
Tatá e Bárbara vivem em São Paulo. Vida ventureira é uma espécie de escape: um disco que exala tranquilidade e doçura em contraponto à violência e ao corre-corre da metrópole. “O verde das matas nos dá/ calma, coragem, sentido pra continuar”, entrega O verde das matas.
Tanto ele quanto ela se preparam para lançar discos novos este ano. Enquanto isso, estão na Europa, onde iniciaram ontem (22), a Portugal e Galícia Tour, com shows em cidades como Coimbra e Lisboa, entre outras, serviço completo no e-flyer abaixo. Avisem os amigos d’além mar!
Escrevi sobre Afastamento, terceiro disco solo de Juliano Gauche, para o site do Itaú Cultural. Para tanto, conversei com o artista capixaba radicado em São Paulo. A quem interessar possa, eis o papo:
Juliano Gauche em foto de Haroldo Saboia
Afastamento começa com Silmar Saraiva, homenagem a uma figura de tua terra natal. No release do disco, Jotabê Medeiros comparou a faixa a um épico dylanesco. Gostaria que falasse um pouco mais sobre o personagem e a comparação. O Saraiva era de uma turma um pouco mais velha que a minha. Ele, Seliomar Lobão, Adalberto Albino, Kim Kaveira… foram esses caras que fizeram minha cabeça, em Ecoporanga. Eles são meus ídolos, meus santos. E a música fala disso: de indivíduos que se machucam atrás de experiências transformadoras, das respostas difíceis, da verdade, da liberdade, e de um povo mecanizado, repetitivo, frio, guiado por sistemas de falsas seguranças. Acho que o que o Jotabê quis colocar é que Silmar Saraiva se encaixa nos moldes das canções longas do Dylan que também citam personagens em seus títulos.
Pra festejar em silêncio é uma declaração de amor a Sil Ramalhete, sua esposa e produtora? Que papel tem ela no som que você vem fazendo desde o disco solo de estreia? Pergunto pela declaração que ela postou por estes dias em uma rede social, ela comenta algo sobre interferir em teu som. Pra festejar em silêncio é sobre o amor em tempos de guerra. Foi inspirada pelo Grande Sertão: Veredas. Nela, eu projeto minha vida com a Sil, nossa travessia entre o mesmo sistema que vou frisar aqui o tempo todo, nossa militância aberta contra esse sistema, nossa vontade de fugir dessas armadilhas… Temos um mundo próprio, ultrarromântico, onde construímos tudo juntos. Tudo que eu faço é cantar esse mundo que a gente vive nele.
Pelas temáticas, Longe, enfim e Dos dois, são as músicas que mais diretamente dialogam com o título do disco, Afastamento. Do que você buscou se afastar nesse disco? O afastamento está em todas as músicas do disco. Principalmente o afastamento do indivíduo do seu meio. Como também o afastamento do indivíduo de si mesmo. Na Dos dois há o tradicional afastamento entre parceiros. E na Longe, enfim o afastamento é a fuga da realidade através da energia sexual. Não teve uma busca por afastamentos necessariamente. Só me dei conta de que esse movimento é muito comum ao meu redor. E tem um efeito estranho. Meio duplo. Afastamentos trazem frieza, vazios; mas também alívios, ar, outras forças. Foi isso que mapeou o disco.
Em se tratando de um deslocamento, sempre que nos afastamos de algo nos aproximamos de outro algo. Assim, do que você se aproximou neste terceiro disco? Acho que me aproximei mais de mim mesmo. Comecei este trabalho muito subdividido. Era membro de uma banda. Era intérprete das coisas do [Sérgio] Sampaio. Trabalhos com personalidades diferentes. E em nenhum deles eu me expressava plenamente. E é isso que eu estou buscando desde o primeiro disco. Talvez por isso tanto deslocamento. Pra me achar. E acho que estou conseguindo. Como diz o refrão: com uma pequena ajuda dos meus amigos.
Tua voz de autor é única. Mas já é meio que uma tradição a cada disco você trazer uma música de um parceiro, neste disco Tem dia que é demais, parceria com Gustavo Macacko. Fale um pouco de parceiro e parceria. O Macacko é um dos meus parceiros mais antigos. Ele foi um dos que me receberam em Vitória quando fui morar lá. Fizemos muita coisa juntos. Muitos shows. Uma banda que só tocava Raul [Seixas]. Produzi o primeiro disco solo dele. E numa de suas passagens por aqui, fizemos a Tem dia que é demais.
Dos cachorros sisudos, faixa que encerra o disco, é a mais diretamente relacionada à violência dos dias em que vivemos, sob a égide de um golpe e a iminência do retorno à ditadura. A seu ver, é impossível para o artista, hoje, se alienar? Só se for um artista conservador de boas com o sistema. Maconheiros como eu, que não gostam de igreja, nem de televisão, e principalmente de ordens militares, vão ter um pouquinho de problema pra ficar quietinho alienado.
A meu ver, Afastamento é um título natural para um disco teu, cuja vida, de algum modo, é feita de afastamentos: primeiro de sua terra natal, ao se aventurar por São Paulo, depois de Sérgio Sampaio, ídolo a quem chegou a dedicar um disco inteiro de covers. Esse seria apenas um comentário, não necessariamente uma pergunta, aí eu aproveito para emendar: qual a tua relação com Roberto Carlos e Rubem Braga, para citar outros capixabas famosos, adorados e motivos de orgulho para os conterrâneos? Do Roberto eu gosto do projeto como um todo, aquelas gravações, aqueles arranjos, a ousadia dos primeiros discos, o Erasmo, o perfeccionismo, a grandeza. O Rubem tem aquela violência bonita, aquele jeito de sofisticar com palavras simples. Tentei absorver o melhor que pude dos dois também.
A exemplo de seus discos anteriores, Afastamento também foi disponibilizado para audição e download gratuito. O que te motiva a distribuir tua obra gratuitamente? Alguma convicção, sinal dos tempos ou a impossibilidade de lutar contra isso? É aquela coisa. Quando é de graça o produto é o consumidor. Ou algo assim. Mas quando a pessoa se conecta à minha música, ela agrega valor ao meu trabalho com um todo. Continua tudo refém dos números. As moedas é que são outras.
Além da banda que tradicionalmente te acompanha, afastamento conta com a participação especial dos guitarristas cearenses Edson Van Gogh [de Jonnata Doll e Os Garotos Solventes] e Fernando Catatau [do Cidadão Instigado], quase onipresente em se tratando da música pop contemporânea que vale a pena. Como se deram essas amizades e presenças no disco e como foi trabalhar com eles? Conheci o Catatau desde que a Sil começou a trabalhar na produção do Cidadão Instigado. Vi o disco Fortaleza nascendo. A primeira vez que ouvi foi com ele cantando o disco em cima das bases gravadas, tipo karaokê. Muito emocionante. E desde o início ele foi me apresentando coisas e mais coisas. Mostrando referências de toda espécie. Durante o processo de gravação do [Nas estâncias de] Dzyan, eu já consultava muito ele. Trazer ele pro disco foi muito natural. E o Vang Gogh eu conheci na casa do Catatau também. Começamos a conversar lá e não paramos até hoje. A gente interrompe e quando se encontra, volta do mesmo lugar. Há anos.
[baita honra e responsabilidade escrever este release a pedido de Cláudio Lima]
Cada mesa é um palco é um verso de Bis, bolero de Cesar Teixeira, que dá título ao segundo disco do cantor Cláudio Lima, lançado em 2006, dividido com o pianista baiano radicado nos Estados Unidos Rubens Salles.
A música conta a história de um artista entre o ofício e o amor e o verso evoca diversas leituras. Cada mesa é um palco foi o título escolhido para o show que Cláudio Lima (voz), Rubens Salles (piano) e Luiz Cláudio (percussão) apresentam no próximo dia 9 de junho (sábado), às 20h, no Buriteco Café (Rua Portugal, Praia Grande). Os ingressos – à venda no local – custam R$ 20,00.
A curiosidade é que o disco nunca teve show de lançamento. “Posso dizer que vou finalmente lançar meu segundo disco, depois de ter lançado o terceiro”, diverte-se Cláudio Lima, que além de Cada mesa é um palco, lançou também Cláudio Lima (2001) e Rosa dos ventos (2017).
Os discos de Cláudio Lima são profundamente marcados pelo flerte com a música eletrônica e com uma criteriosa seleção de repertório. Ao disco – e ao show – Cada mesa é um palco comparecem nomes como o citado Cesar Teixeira, além de Bruno Batista, Tom Zé, Luiz Gonzaga, Herivelto Martins e Tom Jobim, entre outros.
O show reunirá no palco três virtuoses: Cláudio Lima é hoje reconhecidamente um dos maiores intérpretes da música popular produzida no Maranhão, tendo-se aventurado com desenvoltura como compositor em seu disco mais recente; Rubens Salles é pianista aclamado internacionalmente, com sua mistura de jazz, world music e a ginga brasileira, com os discos Munderno e Liquid Gravity Plus na bagagem; e o paraense radicado no Maranhão Luiz Cláudio é um de nossos mais requisitados percussionistas, atualmente desenvolvendo um trabalho solo, já tendo emprestado seu talento ao trabalho de nomes como Cesar Teixeira (Shopping Brazil), Ceumar (Dindinha), Lena Machado (Samba de Minha Aldeia) e Zeca Baleiro (Vô Imbolá), entre muitos outros.
O espetáculo terá apresentação única, aproveitando a passagem de Rubens Salles por São Luís. O set list será focado em Cada mesa é um palco, mas Cláudio Lima passeará pelo repertório de seus outros discos, lembrando músicas como Black is the color of my true love’s hair (tradicional canção folk, gravada por Nina Simone), do primeiro, além de umas poucas que não figuram em seus discos, caso de My valentine (Paul McCartney). Ao longo da apresentação haverá espaço também para Rubens e Luiz Cláudio exibirem seu virtuosismo, num diálogo-duelo entre piano e percussão.
Sobre o encontro do trio no palco, Cláudio Lima relembra: “foi Luiz Cláudio quem me apresentou a Rubens Salles, em 2003, em São Paulo. A gente tentou montar uma banda, foi o começo de tudo. A banda acabou não dando certo e pouco tempo depois veio o Cada mesa é um palco”. É a primeira vez que os três artistas se apresentam juntos.
Alterando o verso final da música que dá título ao segundo disco de Cláudio Lima, podemos antecipar do show Cada mesa é um palco: quando a noite terminar e a cortina fechar, todo mundo vai pedir bis.
Serviço
O quê: show Cada mesa é um palco Quem: Cláudio Lima (voz), Rubens Salles (piano) e Luiz Cláudio (percussão) Quando: dia 9 de junho (sábado), às 20h Onde: Buriteco Café (Rua Portugal, Praia Grande) Quanto: R$ 20,00 (ingresso individual)
O cantor e compositor Bruno Batista disponibilizou hoje o primeiro webclipe de uma série de cinco canções que em alguns meses irão compor um EP do artista. Para um amor em Paris, de sua autoria, é a única regravação da série – a música foi lançada originalmente em Eu não sei sofrer em inglês (2011).
Para a regravação, Bruno Batista contou com a participação especial de Rita Benneditto (voz). Acústico e em clima intimista, o dueto foi acompanhado por Guilherme Kastrup (percussão) e Mário Manga (violoncelo, violão e produção musical), marcando também um reencontro: em 1997, ao lado dela e Zeca Baleiro, o ex-Premeditando o Breque foi um dos produtores do disco de estreia da maranhense, quando ela ainda assinava Rita Ribeiro.
A música é recheada de referências: o título evoca o Paulinho da Viola de Para um amor no Recife, remete, pelo uso bem colocado de expressões estrangeiras, a músicas como Samba do approach e Babylon, ambas de Zeca Baleiro, Tem francesa no morro (Assis Valente) e Cabrochinha (Paulo César Pinheiro e Maurício Carrilho), além de citar textualmente o Alceu Valença de La belle de jour (que por sua vez citava o Luis Buñuel de A bela da tarde, no título da película em português). Entre as citações, comparecem ainda o Bernardo Bertolucci de O último tango em Paris e o Jacques Brel de Ne me quitte pas. A direção do webclipe é de Alessandra Fratus.
Uma por mês, Bruno Batista disponibilizará ainda Quedê, com participação especial de Lívia Mattos, Fire Babylon (parceria dele com Alê Muniz e Luciana Simões), com o duo Criolina, Duvido (parceria com Celso Viáfora), com Celso Viáfora e Fabiana Cozza. A quinta música, também inédita, está ainda por definir, segundo o artista.
Previsto para setembro, o EP será lançado apenas em formato digital. A série de webclipes tem patrocínio de TVN, através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão.
Carlos Careqa é um dos artistas mais incompreendidos, e consequentemente injustiçados, do Brasil. Problema do Brasil.
“Feito às próprias custas. Este disco não recebeu nenhum incentivo fiscal”. O recado no encarte atesta a necessidade de fazer música, fina ironia e um eco de Itamar Assumpção, a quem Careqa dedica Morrer ainda vai ser um bom negócio, faixa que, citando verso do próprio Itamar, encerra Todos nós [Barbearia Espiritual Discos,2018], seu novo álbum.
“Mas a canção me fez refém por uma vida inteira. Me casei com a música. A musa de todas as horas. Difícil analisar o próprio trabalho assim de chofre, mas quero deixar rastros pelo caminho percorrido. Alguém vai escutar”, anota em texto no encarte. Azar o dos que não o fizerem.
Marcio Nigro (violões, teclados, contrabaixo) é citado nominalmente por Careqa neste mesmo texto, como aquele “que entende um pouco minhas propostas e transforma tudo em algo mais mastigável”. O núcleo central do disco se completa com Thiago Big Rabello (bateria) e Luiz Guello (percussão).
Fernanda Takai canta com Careqa na divertida Karma Wall, com metade da letra em inglês, sobre um carnaval no Japão. Em Canção de autoajuda (parceria com Delia Fisher), destila ironia sobre o que comumente é considerado sucesso. “Eu vou fazer uma canção de autoajuda/ uma canção que seja fofa/ uma canção que seja muda”, provoca a letra.
A faixa-título ganha os reforços de Luiz Amato (violino) e Fabio Tagliaferri (viola) ao versar sobre uma contradição característica de nossa época: a solidão em tempos de hiperconectividade. A bela letra de Mãe não é tudo (parceria com Chico César) louva a dedicação das mulheres a seus filhos em qualquer tempo e circunstância.
“Enquanto você faz mil acordes/ para explicar sua canção/ a minha única intenção/ é repousar meu coração”, Careqa puxa o cartão de visitas em Da bolacha ao farelo, faixa que abre Todos nós. Quem o acha complicado certamente o faz sem tê-lo ouvido. “Alguém vai escutar”. Hora apropriada para ser esse alguém.
A cantora paulista Malu Maria disponibiliza hoje (3), via Tratore, nas principais plataformas digitais de música, o disco Diamantes na pista, com nove faixas, todas de sua autoria, produzido por ela e Tatá Aeroplano (que participa de algumas faixas, entre vocais, violão e teclados).
Malu Maria, que além de compor e cantar, toca flauta e percussão no disco, é acompanhada da banda Diamantes: Carlos Gadelha (guitarra), Eristhal (contrabaixo), Gustavo Souza (bateria) e Otávio de Carvalho (sintetizadores). Diamantes na pista tem ainda participações especiais das cantoras Laya Lopes, Kika e Laura Wrona.
Escrevi cantora aí em cima, mas ela não é apenas cantora, multiplicidade que se reflete nas composições. Formada em Comunicação e Artes do Corpo pela PUC, Malu Maria é fundadora do Teatro de Bolso do IV Mundo e apresentadora do programa Tranbordando o Copo (no youtube). Ela assina a arte e a capa de Diamantes na pista.
Homem de vícios antigos ouviu em primeira mão e fez um faixa-a-faixa simultâneo à audição, grande desafio, enorme responsabilidade.
Música de pista, mas orgânica. Um convite à dança e ao sonho. Se essa rua fosse minha, “esparramando diamantes na pista”, verso de Diamantes na pista, faixa que abre e dá nome ao disco de estreia da cantora Malu Maria.
Doctor Strangelove tem uma pegada psicodélica, retrô/futurista, homenagem ao filme de Stanley Kubrick lançado em 1964, ano em que por aqui começava aquela outra ditadura.
A percussão e o baixo que abrem Estrada remetem a Ando meio desligado, dOs Mutantes, cuja sonoridade, de resto, permeia o clima do disco, mais para saudável influência que para imitação.
Calcado na eletrônica, Devires é um quase-frevo, “meu sapato é o chão/ meu chapéu é o céu/ meus braços são pra voar”, instiga a letra, um convite ao sacolejo, jogue-se!
Amores ao mar é pura entrega. Voz e violão dialogam a sós na abertura da faixa, do verso “alimentar o gozo sem dissimular”. Malu Maria é autêntica num tempo em que originalidade é artigo vendido em série, em geral gato por lebre.
“Sem você eu fico triste/ mesmo com tudo azul/ o corpo, o copo, o coração/ sugar blue”, começa Circo para todos, bateria evocando o tarol de bandinha de coreto de cidade do interior, como a anunciar a chegada da trupe. A faixa homenageia ainda o Cine Jóia, outrora cinema, palco de shows musicais na capital paulista.
Na também dançante Jardim do Éden Malu Maria junta samba, maracatu e guitarrada. “Quero nada além/ do que essa nossa paz/ dançar com você/ nesse Éden e nada mais”, derrama-se, romântica.
Amando do espaço recomenda amar em qualquer lugar, qualquer caminho. Um sábio conselho nestes tristes tempos. “Salvem os amores delirantes”, diz a letra, quase a redundar – não deve demorar muito a serem considerados delírios o amor, a emoção, o encanto.
A delicadeza de Nosso eclipse fecha o disco, como se fechasse um ciclo. Tudo faz ainda mais sentido (embora nem precisasse, diante de tanta beleza), “pro mundo girar”, como um disco a girar, um mundo particular, um belo disco de estreia.
Um dos mais interessantes grupos surgidos após o boom do movimento MangueBit, o Cordel do Fogo Encantado lançou três discos fundamentais – o homônimo Cordel do Fogo Encantado (2001), O Palhaço do Circo sem Futuro (2002) e Transfiguração (2006, produzido por Carlos Eduardo Miranda e Gustavo Lenza) – e retirou-se de cena.
Com referências teatrais – o nome da banda é herdado de um espetáculo de sucesso de uma companhia cujos membros do Cordel do Fogo Encantado integraram – e da literatura de cordel – escancarada também no nome do grupo, a trupe unia vigor musical e cênico, nos registros em disco e nas apresentações ao vivo.
Viagem ao Coração do Sol. Capa. Reprodução
Num tempo em que a derrocada da indústria fonográfica é cada vez mais apregoada – apesar das controvérsias – e o consumo de faixas soltas em serviços de streaming é a onda do momento, é tamanha a ousadia de um disco como Viagem ao Coração do Sol (2018), quarto título da discografia do Cordel do Fogo Encantado, por sua unidade poética e sonora (longe da monotonia), algo que por si só já mereceria loas.
O novo disco, cujo título evoca 20 Palavras ao redor do Sol (1979), estreia da paraibana Cátia de França, transforma a banda em, além de interessante, necessária, ao cantar a liberdade e a esperança, artigos raros hoje em dia. Lirinha (voz), Clayton Barros (violões e voz), Nego Henrique (percussões e voz), Emerson Calado (percussões e voz) e Rafael Almeida (percussões e voz) mantêm a força que caracterizou a sonoridade e a po/ética do grupo, com Viagem ao Coração do Sol soando como o que de fato é: um disco antenado com o atual momento do Brasil e do mundo reais e da Interlândia ficcional, terra metafórica cantada na geografia particularíssima do disco.
O cearense Fernando Catatau (guitarra tenor, samples, teclados, coral e violão de aço), da instigante Cidadão Instigado, acaba por tornar-se membro honorário do Cordel do Fogo Encantado: o músico participa de quase todas as faixas.
O disco abre com O sonho acabou (Lirinha), poema nem de longe pessimista: “O sonho acabou. E só assim saímos de dentro da Terra em direção ao Sol. O mundo agora é esse: precisamos falar com a filha do vento, a que chamam liberdade”, diz, anunciando o roteiro de Viagem ao Coração do Sol.
“Liberdade/ (Mas quem te ensinou o caminho dos poetas?)/ Liberdade amor/ (O teu nome é pouco)/ Liberdade/ (Passarinho louco)/ Aquele rio é vermelho…”, Liberdade, a Filha do Vento (Lirinha) provoca os doentes de ódio, os que espumam ao ouvir palavras como a que dá título à música e/ou vermelho.
Pra cima deles passarinho ou Semente brilhante (Lirinha/ Clayton Barros/ Emerson Calado/ Nego Henrique/ Rafael Almeida) dialoga diretamente com o Mário Quintana do célebre “eles passarão/ eu passarinho”. Tem uma carga simbólica fortíssima que nos leva a pensar “nas flores vencendo o canhão”, embora outros, ao contrário do Cordel do Fogo Encantado, não tenham conseguido manter a coerência. “Vai, vai, vai/ Mais forte vai, vai/ No seu caminho/ Pra cima deles passarinho”, atiça a letra.
Conceição ou Do tambor que se chama Esperança (Lirinha/ Clayton Barros/ Emerson Calado/ Nego Henrique/ Rafael Almeida) enaltece a força de negros, mulheres, moradores das periferias brasileiras. Impossível não pensar em Conceição Evaristo e Marielle Franco. “Ninguém apaga a tua história/ Escrita por tuas guerreiras/ Na tinta negra da memória”, proclama.
Poema declamado com trilha, Eternal Viagem (Lirinha/ Clayton Barros/ Emerson Calado/ Nego Henrique/ Rafael Almeida) é um diálogo entre homem (Lirinha) e mulher (Nataly Rocha, em participação especial), cuja letra incorpora versos de Manoel Filó, de imagem poética fortíssima – “Todo dia o sol mata a madrugada/ toda tarde vai preso novamente” – a um verso que parece servir de síntese ao momento de trevas por que passa o Brasil: “a nossa sorte é ter coragem”.
A instrumental Cavaleiro das Estradas do Sol (Clayton Barros) conta com as participações especiais de Catatau e Manassés, num diálogo intergeracional de cearenses de raro talento e habilidade nas cordas, em homenagem ao percussionista Naná Vasconcelos, produtor do disco de estreia do grupo, numa espécie de volta às origens ou fechamento de ciclo. Não esquecer o passado é chave para a construção de um futuro melhor. O Cordel do Fogo Encantado fez o seu dever de casa.
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Veja o clipe de Liberdade, a Filha do Vento (Lirinha):
Homem de vícios antigos, este blogue, completa hoje (28) 14 ininterruptos anos no ar.
Em clima de retrospectiva, ligeira e possível, mas anunciando novidades, torno a duas mulheres sobre cujas obras já escrevi por aqui.
Titane canta Elomar – Na estrada das areias de ouro. Capa. Reprodução
A primeira, a cantora mineira Titane e seu disco mais novo, Titane canta Elomar – Na estrada das areias de ouro, sobre o qual escrevi para a coluna Emaranhado, no site do Itaú Cultural, e cuja entrevista publiquei cá no blogue. A novidade é que desde ontem o disco está disponível nas plataformas de streaming, vale ouvir.
A segunda, Monique Moraes, diretora e roteirista de Mulheres que transformam a ilha, em cuja sessão de estreia tive a satisfação de estar presente. A novidade é que o documentário está disponível no youtube para quem quiser ver/rever:
Aracy de Almeida – A Rainha dos Parangolés. Capa. Reprodução
Cronista de primeira linha e um dos artífices do samba, Noel Rosa (1910-1937) deixou vasta obra a despeito de ter morrido de tuberculose aos 26 anos.
Aracy de Almeida (1914-1988), sua maior intérprete, companheira de boemia, foi a responsável pela preservação da memória do Poeta da Vila nas décadas seguintes a seu falecimento.
Hermínio Bello de Carvalho, testemunha ocular de acontecimentos importantes do samba e da música popular brasileira, enciclopédia e lenda viva, produtor de rara sensibilidade – não à toa foi o descobridor de Clementina de Jesus, para ficarmos num único exemplo –, segue na ativa.
Foi ele o inventor do encontro de Marcos Sacramento (voz) e Luiz Flavio Alcofra (violão e arranjos) no espetáculo Aracy de Almeida – A Rainha dos Parangolés, que finalmente ganha o merecido registro em disco [Acari Records, 2018], ambos, a propósito, batizados por uma das alcunhas dadas à homenageada pelo próprio Hermínio.
O repertório não é dedicado exclusivamente à obra de Noel Rosa, embora ele seja o autor de nove das 17 músicas, registradas pela dupla (com a cuíca de Daniel Boechat em Triste cuíca [1935], de Noel Rosa e Hervé Cordovil, que abre o disco) em deliciosos medleys – somente Não sou manivela (Ary Barroso, 1953) e São coisas nossas (Noel Rosa, 1932) ganharam registro em faixas exclusivas.
Os arranjos caprichados de Alcofra e a interpretação vigorosa de Sacramento em um universo ao qual já está habituado – já havia gravado a faixa de abertura, por exemplo, no antológico Memorável samba [Biscoito Fino, 2003] – dão ideia da importância de Aracy de Almeida e seu legado para o samba e a música popular brasileira, embora costumeiramente ela seja lembrada simplesmente como uma jurada ranzinza de programas televisivos de calouros.
Aracy de Almeida – A Rainha dos Parangolés é um disco que faz justiça à sua memória e demonstra também a atualidade de inspirados cronistas, que versam sobre questões que ainda persistem no Brasil, que não consegue superar golpes e mazelas outras. Casos do Noel Rosa de Onde está a honestidade? [1933], sobre patrimônios sem origem em trabalho ou herança, e Século do progresso [1937], sobre o convívio brasileiríssimo de diversão e violência.
A alegria (apesar da miséria) do subúrbio é tema de Ganha-se pouco mas é divertido (Wilson Baptista e Ciro de Souza, 1941). Tenha pena de mim (Babahú e Ciro de Souza, 1937) torna ao tema da honestidade, essa espécie de atestado de otário em terra em que o crime compensa: “todos vivem muito bem/ só eu que vivo assim/ trabalho, não tenho nada/ não saio do miserê!”, lamenta a letra, arrematada pela perseverança (outra característica tão brasileira) do personagem em seguir no caminho certo: “eu vivo tão tristonho,/ fingindo-me contente/ tenho feito força/ pra viver honestamente”, finaliza.
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Confira interpretação ao vivo para um dos medleys do disco: Engomadinho (Pedro Caetano e Claudionor Cruz, 1942)/ Ganha-se pouco mas é divertido (Wilson Batista e Ciro de Souza, 1941):
Se música tem perfume, a de Lena Machado tem aroma de liberdade. As flores sempre marcaram presença em sua trajetória musical, iniciada em 2006, com Canção de Vida, título tomado emprestado de verso de Oração Latina, hino de Cesar Teixeira – compositor mais frequente no repertório de seus álbuns.
Em Samba de Minha Aldeia (2009), uma flor enfeitava o cabelo da moça da capa, a própria cantora. No aguardado Batalhão de Rosas (2018), as flores voltam ao centro das atenções. “Por meu destino encantado, eu vim/ venço o inimigo pra me sagrar/ os pés feridos de anjo noturno/ mas cheguei pra representar”, anuncia a letra da faixa-título, de Bruno Batista.
Vida e obra se confundem na coerência desta artista-cidadã, senhora de seus destinos, enquanto mulher e cantora, que tem dedicado seus trabalhos, nos campos social e artístico, a tornar o mundo melhor – ou ao menos mais leve o fardo da existência.
Após Canção de Vida, cujo repertório era dedicado a canções emblemáticas dos movimentos sociais brasileiros, e Samba de Minha Aldeia, inteiramente dedicado ao samba produzido por compositores maranhenses, Lena Machado alça, em Batalhão de Rosas, seu mais ousado desabrochar – em se tratando de arte tudo é possível, até mesmo uma flor desabrochar várias vezes.
Liberdade, palavra e sentimento tão necessários nestes tempos, é chave para entendermos o quão à vontade Lena Machado se sentiu para proporcionar a seu fã-clube – que certamente dirá que valeu a pena esperar (tanto) após ouvir o álbum – o prazer proporcionado por esta dúzia de canções, escolhidas a dedo, ouvidos, alma e coração.
Lena Machado grava gente daqui e de fora, entre músicas conhecidas e inéditas (Preta, de Fernanda Preta e Camila Cutrim, e Sete Ervas, de André da Mata e Zé Katimba), num passeio pelo Brasil e sua diversidade rítmica, em arranjos que deixam à mostra a herança ancestral da negritude africana com tempero latino que molda os ritmos da cultura popular do Maranhão, aqui tão bem desenhados por sua bela voz e emoldurados pelos inspirados arranjos de Wendell Cosme (cavaco, produção, direção musical e, com a cantora, seleção de repertório), Wesley Sousa (teclado, piano) e Israel Dantas (violão).
O time de músicos se completa, numa ponte São Luís-Rio de Janeiro, com Camilo Mariano (bateria), Jamil Joanes (contrabaixo), Jorginho do Trompete, JP (percussão), Marcelo Braga (saxofone), Pretinho da Serrinha (percussão), Rui Mário (acordeom) e Wanderson Silva (percussão), além dos vocais de Rohni Grato, Gil Costa e Cassiano Sobrinho, e as participações especiais de Nicolas Krassik (violino em Namorada do Cangaço, de Cesar Teixeira), Rogério Caetano (violão sete cordas em Caminho de Pescador, de Henrique Menezes, Flanelinha de Avião, de Cesar Teixeira, e Sete Ervas) e Yassir Chediak (viola caipira em Sete Ervas). À beleza musical se soma a do projeto gráfico, de Ronilson Freire, sobre fotos de Rivanio Almeida Santos, que capturam a cantora em meio às belezas naturais da praia do Caúra, em São José de Ribamar/MA.
Cabe destacar as compositoras mulheres – importante redundar, ainda mais no plural – de parte do repertório: Didã (Banca de Honestidade), Fernanda Preta e Camila Cutrim (Preta) e Alessandra Leão (Bom Dia).
“Deus brinca no mar maresia/ nadando num peixe e na pedra/ se brota semente não mente/ somente poeta e poesia”, diz a letra de De Deus (Bené Fonteles), sintetizando as reverências e referências ao sagrado – inserida aí a própria música – no trabalho de Lena Machado. “A noite é um quadro negro/ que ensina mais que a luz/ havia virtude em Judas/ havia vício em Jesus”, subverte a letra de Duas Ilhas (Zeca Baleiro e Swami Jr.), num disco em que a subversão é também uma marca, com as músicas quase sempre transformando-se (desabrochando?) durante sua execução, não raro hibridizando gêneros.
Sete Ervas, que encerra Batalhão de Rosas, resume o espírito do disco, a fé e a força (e a força da fé) da intérprete: “já falei que comigo ninguém pode/ sou pimenta, alecrim, manjericão/ quem tentar me atrasar leva sacode/ foi meu Pai quem firmou meus pés no chão”. Pés no chão e “a alma em pleno voo” (como na letra de Asas da Paixão, de Joãozinho Ribeiro, que abre o disco) e o coração “um passarinho solto” (como em Namorada do Cangaço).
Para cheirar com os ouvidos e perfumar a alma e o coração.
Nosly e Djalma Chaves percorrerão 10 municípios maranhenses com Andarilho Parador. Foto: Fafá Lago
Após uma turnê de sucesso que percorreu Imperatriz/MA e as capitais São Luís/MA, Belém/PA, Brasília/DF, Fortaleza/CE e Teresina/PI, realizada entre o fim de 2015 e o início de 2016, os músicos Djalma Chaves e Nosly retornam à estrada com Andarilho Parador, show que reúne no palco estes dois talentosos e versáteis artistas.
Desta vez, Andarilho Parador percorrerá 10 municípios maranhenses. A nova turnê tem início já neste fim de semana, quando os artistas percorrem Timon (28 de abril, às 21h, no Bar Sertão de Dentro – Av. Jaime Rios, 370, Parque Piaui), Caxias (29 de abril, às 19h, no Completo Turístico Memorial da Balaiada – Av. General Sampaio, 297-339, Cangalheiro) e Bacabal (1º. de maio, no Sesi – Rua Frederico Leda, s/nº., Centro). Neste último o show integrará as comemorações pelo Dia do Trabalhador. Ao público recomenda-se a doação de alimentos não perecíveis, que serão destinados às vítimas das enchentes no Maranhão.
No show, Djalma Chaves (violão e voz) e Nosly (violão, guitarra e voz) percorrem suas trajetórias artísticas, relembrando grandes sucessos seus, de conterrâneos, e nomes consagrados da música popular brasileira. A banda que os acompanha é formada por Murilo Rego (teclados e vocal), Rui Mário (teclados e sanfona), Mauro Travincas (contrabaixo), Sued Richarllys (guitarra) e Fleming Bastos (bateria). A produção é de Tatiana Ramos.
Além dos três municípios deste fim de semana, até junho a turnê percorrerá ainda palcos em Barreirinhas, Pedreiras, Pinheiro, Rosário, Santa Inês e Vargem Grande, sendo encerrada em São Luís. Acompanhe a agenda na fanpage de Andarilho Parador.
“Estamos muito contentes em poder chegar, com este show, ainda mais perto do povo do Maranhão. Será literalmente uma grande viagem musical. João do Vale, um dos nomes lembrados no repertório, aprecia as paisagens numa viagem de trem numa conhecida música sua. Vamos fazer essa troca com o público: vamos apreciar essas paisagens que tanto nos inspiram e oferecer às plateias nossa melhor paisagem sonora”, comemora Djalma Chaves.
“Em time que está ganhando não se mexe. Em outros estados, outras capitais, a turnê Andarilho Parador foi exitosa. Estamos realmente muito felizes em poder proporcionar a nosso público querido estas apresentações, lembrando músicas nossas, de artistas conterrâneos, alguns nascidos em cidades pelas quais vamos passar, além, é claro, da alegria que é reencontrar estes parceiros de palco e vida, com quem tocar é sempre um enorme prazer”, completa Nosly.
O show Andarilho Parador toma emprestado os títulos dos discos mais recentes dos artistas: Andarilho, de Djalma Chaves, e Parador, de Nosly. A turnê tem patrocínio da Companhia Energética do Maranhão (Cemar) e Secretaria de Estado da Cultura e Turismo do Maranhão (Sectur), através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão.
Alguns dos convidados, gente graúda, que entende do riscado, apontam o caráter sui generis do violão de César Nascimento, em um dvd (e cd) misto de show (gravado ao vivo em estúdio), documentário, making of e antologia, não por acaso intitulado Violão de coreiro – A composição de César Nascimento e seu violão.
O dvd/cd passeia pela trajetória artística de César Nascimento, por acaso nascido no Piauí, mas maranhense de alma e música – e título concedido pela Assembleia Legislativa do Estado, bem como à sua música Ilha magnética, espécie de hino paralelo de São Luís (não registrada no dvd/cd), tornada bem cultural do Maranhão por decreto legislativo.
César Nascimento é também cidadão ludovicense, em título concedido pela Câmara Municipal de São Luís. Por aqui aprendeu a percussão maranhense como coreiro do Tambor de Crioula de Mestre Felipe, que difunde na oficina “Crivador, matraca e pandeirão – uma viagem pelos ritmos do Maranhão”, que ministra onde quer que seja chamado desde 1996.
Mais que um título do tipo best of, Violão de coreiro perpassa os mais de 30 anos de carreira de César Nascimento, contados a partir de sua participação no histórico LP do Festival Viva de Música Popular do Maranhão, em 1985. O dvd/cd alterna hits radiofônicos de sua autoria, músicas menos conhecidas e a inédita, antenada e bem-humorada You no tube também (parceria com Almino Henrique), sempre valorizando as nuances de seu violão, longe de didático ou hermético.
Apaixonado pelos ritmos da cultura popular do Maranhão, o artista transpôs para as seis cordas a polirritmia dos diversos sotaques do bumba meu boi, o frenesi contagiante do tambor de crioula e a pulsação do reggae, entre outras levadas.
Gravado entre Rio de Janeiro e São Luís, entre o estúdio Aldeia e as ruas, terreiros e arraiais, há um clima junino, evocado no cenário e nas locações, mas César Nascimento não realiza um projeto datado, “de estação”: é como se espichasse os festejos juninos para o ano inteiro – embora também a “composição” de que fala o subtítulo de Violão de coreiro não se restrinja ao período em que se celebram Antonio, João, Pedro e Marçal.
Por falar em divindades, César Nascimento acerca-se de grandes nomes da música brasileira para revisitar o repertório autoral do dvd/cd. Cacau Amaral, Camaleão, Fauzi Beydoun, Gerson da Conceição, Guilherme Mará, Ícaro Gaspar, Manassés, Nelson Faria, Pandeiro Repique Duo, Paulo Calazans, Renata Gaspar, Santiago Batera, Trio Cazumbá e Zé Américo Bastos (em ordem alfabética) comparecem entre o ofício musical, depoimentos e bastidores, dividindo com o anfitrião o set list de Violão de coreiro.
Entre as faixas de Violão de coreiro estão Catirina e o mar, em cujos versos César Nascimento une os universos da cultura popular do Maranhão com outras expressões artísticas como a pintura e o cinema, em citações de Salvador Dali, Caribé e Neville d’Almeida, entre outros, Reggae sanfonado, também pródiga em citações – Bob Marley, Luiz Gonzaga, Paulinho da Viola e o Bloco Tradicional Os Foliões –, Maguinha do Sá Viana (parceria com Alê Muniz), O radinho e Sapato pra todo pé (parceria com Vicente Telles), entre outras.
O verso inicial de Catirina e o mar (que abre o dvd/cd) é um convite: “ê, Catirina, venha ver a pintura que acabei de conceber”. É literalmente uma pintura este mosaico musical de um artista radicado há 18 anos no Rio de Janeiro, que tem dedicado vida e obra a fazer ecoar por onde anda os tambores do Maranhão – e para isso, está mais que provado, precisa apenas de seu violão. De coreiro.
Ficha técnica – Violão de coreiro tem direção, roteiro e montagem de Felipe Hutter, direção musical e coordenação geral de César Nascimento, gravação e mixagem de Gabriel Tauk, masterização de Alexandre Rabaço, direção de arte de Davi Theo e Raquel Theo (que também assina o cenário), produção de Mariana Musse, imagens de Felipe Hutter, Gregori Bastos e Milosz Wieckowski, produção executiva de Wilson Zara, finalização e autoração de Cartola Studio. Cd, dvd, show de lançamento e oficinas têm patrocínio da Companhia Energética do Maranhão (Cemar) e Secretaria de Estado de Cultura e Turismo (Sectur), através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão.
Serviço – O dvd/cd Violão de coreiro – A composição de César Nascimento e seu violão será lançado em show no Teatro Arthur Azevedo (Rua do Sol, Centro, São Luís/MA), dia 4 de maio (sexta-feira), às 21h. Os ingressos serão trocados por um quilo de alimento não perecível. A arrecadação será doada ao Lar Pouso da Esperança.
Cesar Teixeira, no bis, com seu batalhão pesado. Foto: Zema Ribeiro
Cesar Teixeira é um artista incomum e necessário. Na lida desde fins da década de 1960, quando suas primeiras composições foram ouvidas em festivais estudantis de música, o compositor (e cantor e jornalista e artista plástico e alguns etc.) lançou ontem (18), em show no Teatro Arthur Azevedo, o segundo disco de sua carreira, o já festejado Camapu.
O cenário adornado de palmeiras evocava os climas e ares nordestinos e rurais do disco, cujo título é nome de fruto agridoce outrora muito comum por cercas e quintais e atualmente vendido a peso de ouro em supermercados.
O show começou por Aves de rapina, toada nordestina que remete à Guerrilha do Araguaia – todo o repertório de Camapu foi composto nas décadas de 1970 e 80 – e demonstrava, de cara, a atualidade e o vigor da obra poética e musical de Cesar Teixeira, além da necessidade de que falamos abrindo este comentário.
Por falar em guerrilha, não faltaram, ao longo da apresentação, citações ao saudoso poeta Nauro Machado, através da repetição de um bordão seu, com que saudava os conterrâneos: “meu poeta, meu cabo de guerra”, dizia Cesar Teixeira aqui e acolá.
Baiãozinho, na sequência, a demonstrar que apesar das tragédias e dos sucessivos golpes, é preciso festejar. A sanfona de Rui Mário, que também toca piano e assina a direção musical do disco e do show, será sempre destaque, em banda que se completou, ontem, no palco, com João Neto (flauta), “só está aqui por que é sobrinho de Josias [Sobrinho, produtor executivo do disco e do show]”, troçou o anfitrião, Wanderson Silva (percussão), Marquinhos Carcará (percussão), “que herdei do finado Papete“, Mano Lopes (violão sete cordas), Regina Oliveira, Raquel Ávila e Mairla Oliveira (vocais), além das intervenções de Jorlielson Lima (violoncelo) e da participação de Thaynara (violino).
A primeira convidada da noite foi Lena Machado, que cantou, com um arranjo mais amaxixado ainda Flanelinha de avião. “Eu gravei essa música no meu primeiro disco [Canção de vida, 2006], mas não fiquei satisfeita com o resultado. Agora eu gravei de novo no meu terceiro disco [referindo-se a Batalhão de rosas, que será lançado este semestre]. Tem Cesar Teixeira de novo!”, afirmou, comemorando a presença constante do compositor no repertório de seus discos. “Agora você não vai mais presa por que gravou música minha”, afirmou o dono da noite, lembrando as ditaduras de 1964 e 2016, que enfrentou e enfrenta, fazendo uso de uma das palavras-chave daquele momento histórico: liberdade. “Algo de que tanto precisamos, neste país escroto”, disparou.
“Este teatro foi erguido por mãos possivelmente ainda escravizadas. Aqui tem o suor de negros que trabalharam em sua construção. É um teatro popular, não é um teatro das elites”, mandou, sem disfarçar algum desconforto e nervosismo em estar naquele palco, longe de mise-en-scène. “Eu sou da zona, do botequim”, afirmou, citando lugares em que se sentia mais à vontade. Cantou a modinha Lua do mangue, cujo cenário é uma zona portuária, acompanhado apenas do piano de Rui Mário, do sete cordas de Mano Lopes e do violoncelo de Jorlielson.
O xote Juçara voltou à seara política, com sua letra que cita etnias indígenas (Guajajara e Guajá, na véspera do “dia do índio”) e heróis e heroínas da esquerda (Dandara, Victor Jara, Violeta Parra). Aqui e acolá ouviam-se gritos isolados de “Lula livre!” e “Fora Temer!”. “Eu agora vou chamar uma morena juçara”, fez trocadilho ao convidar ao palco Flávia Bittencourt, que interpretou a bela e dolorosa Dolores, gravada pela cantora em Sentido [2005], seu disco de estreia. No meio da interpretação, acompanhada apenas pelo mesmo trio de Lua do mangue, sentou-se no banco em que o compositor estava apoiando seu copo. Quase chorando, confessou: “é impossível cantar essa música sem se emocionar. Aliás, Cesar só tem música linda, não tem uma que se possa dizer mais ou menos. Lembro quando eu ia gravar meu primeiro disco, ele me passou uma fita k7, olha eu entregando minha idade [risos], e eu ouvia uma atrás da outra e foi difícil escolher. Eu gravei apenas duas, ficou um monte por gravar”.
Durante as entradas e saídas das participações especiais – que não duetavam com o autor do repertório da noite – Cesar Teixeira por vezes se atrapalhou com os microfones. Recebia de quem deixava o palco e usava-o, em vez do do pedestal, gerando reclamações de um ou outro, na plateia. A princípio, levou na esportiva, lembrando João Gilberto: “tem muito bêbado aqui”, fazendo rir a grande maioria do público presente. Diante da insistência, calou os que não entendiam a grandeza do momento: “tem gente que não entende que as palavras precisam ser usadas nos momentos certos”.
“Meu pai não me criou, mas era uma espécie de ídolo”, afirmou Cesar Teixeira referindo-se ao também compositor Bibi Silva. “Nos finais de semana ele me levava a programas de auditório em rádios. A gente andava ali pelos Apicuns [na região central de São Luís] e nessas ocasiões eu conheci uma grande figura”, revelou, chamando ao palco Célia Maria, que teve a enorme honra e responsabilidade de interpretar duas pérolas da porção sambista do compositor (a que ele deve dedicar o próximo disco, conforme anunciou na única entrevista de divulgação do show, que concedeu ao Chorinhos e Chorões de Ricarte Almeida Santos na Rádio Universidade FM): Lápis de cor, gravada por ela em Célia Maria [2001], seu único disco até aqui, e Das cinzas à paixão.
“Vou cantar aqui algo que fiz com meu pai. Esse refrão é dele”, anunciou antes de entoar a bela Toada de passarinho, um bumba meu boi sotaque de matraca. Depois era a vez do transe do boi de zabumba, com seu ritmo frenético: Cesar Teixeira cantou Boi de Medonho e em seguida chamou Rosa Reis para rodar a saia colorida e interpretar Mutuca, gravada por ela em Balaio de rosas.
Mairla Oliveira, filha de Regina Oliveira, ex-esposa de Cesar, afirmou ser inegável ter seguido a carreira musical. Abraçou-o, ao contar: “este homem foi meu pai por seis anos”. Depois tirou onda: “ele adorava um forró, minha mãe ia atrás, no Corta-Jaca, não era, Cesar?”. “Já fui bom disso”, respondeu gracejando e deixando o palco, onde ela cantou e dançou o Forró do Corta-Jaca. Na sequência o grupo Lamparina prestou-lhe homenagem, entregando um ramalhete. Ao abraço coletivo reagiu com um faceiro “isso é malandragem!”, para mais risos da plateia.
A interpretação do coco Camapu contou com a participação especial do mímico Gilson César, num diálogo com Cesar Teixeira sobre os vários nomes da fruta, citados na letra da música, que dá título ao disco. “Quando eu era criança eu chamava era canapum”, confessou, para gargalhadas da plateia, que em grande parte certamente se identificou com o “equívoco”. Aos versos iniciais “ê moço,/ que tu leva nesse cofo?”, com a banda reforçada pelo violoncelo de Jorlielson, Gilson desceu a plateia, com o cofo pendurado no ombro, distribuindo camapus imaginários aos presentes.
Cesar Teixeira interpretou a íntegra do repertório de Camapu. Única música interpretada por ele de seu disco anterior [Shopping Brazil, 2004], Namorada do cangaço foi cantada a plenos pulmões pela plateia, evocando as memórias de Waldick Soriano (1933-2008), ídolo citado na letra, e Dércio Marques (1947-2012), não citado, o primeiro a gravá-la [emFulejo, de 1983]. “Viva o cangaço!”, finalizou, de punho erguido.
“Depois de Lamparina, eu vou chamar um casal que rima, Criolina”, convidou Alê Muniz (único homem em meio às “mulheres de Cesar”) e Luciana Simões, responsáveis, há cinco anos, pela organização de um show que uniu artistas da jovem e velha guardas em tributo ao antológico Bandeira de aço [1978], em que Papete, graças aos esforços do publicitário e pesquisador Marcus Pereira, registrou em disco as primeiras composições de Cesar Teixeira, Josias Sobrinho, Ronaldo Mota e Sérgio Habibe. “O pai desse aqui tocava flauta comigo”, disse apontando para Alê, referindo-se ao flautista Célio Muniz, cujo sopro está registrado no choro Ray-ban, em Shopping Brazil.
“Vocês olhando daí pensam que é fácil, eu mesmo, pareço estar tranquilo, mas aqui por dentro está uma reviravolta”, comentou Alê Muniz sobre a emoção de participar daquela noite histórica. “Eu conheci Cesar Teixeira através do meu pai, que foi através de quem eu conheci Josias Sobrinho, Joãozinho Ribeiro e tantos outros, e foi o meu primeiro contato com essa música, essa cultura popular do Maranhão. Pra mim é uma imensa honra estar aqui, ainda mais por que essa música é um hino”, prestou as devidas reverências antes de cantarem – e dançarem – Bandeira de aço, com Luciana Simões hasteando um leque feito bandeira.
Em feitio de oração, a Ladainha de Alcântara ganhou os reforços do violino de Thaynara Oliveira e do violoncelo de Jorlielson Lima, com os percussionistas fazendo as caixas e as backing vocals empunhando bandeiras (vermelhas) do Divino.
“Muita gente lembra de um samba que eu compus há algum tempo”, comentou Cesar Teixeira ao cantar, à capela, os versos “salve as mulheres da zona/ e as que choram na Praça de Maio”, de Poema sujo, o samba-enredo da Turma do Quinto em 1985, no que foi imediatamente acompanhado por parte do público.
O compositor agradeceu aos presentes pelas doações (os ingressos para o show foram trocados por um quilo de alimento não perecível), que serão destinadas a famílias carentes do Desterro, bairro do Centro Histórico da capital maranhense. “Lá, mulheres fundaram a Associação das Prostitutas do Maranhão, que realizou em setembro do ano passado um seminário nacional da categoria. São, em sua maioria, mulheres que criam os filhos sozinhas”, lembrou, antes de cantar a toada de bumba meu boi de orquestra que mais tem acalentado crianças no Maranhão desde sua primeira gravação, em 1978: foi acompanhado em uníssono pelo público em Boi da lua.
Ao se retirar do palco e ouvir os pedidos de “mais um”, voltou acompanhado de seu batalhão pesado. Entre músicos da banda, convidados especiais, equipe de produção e o parceiro de Sindicato do Samba Joãozinho Ribeiro, entoaram juntos outro clássico (este ainda não registrado em disco pelo autor): a tristemente atualíssima Oração latina, momento-síntese da comunhão entre palco e plateia numa noite que se tornaria histórica acontecesse o que acontecesse.
Faixa-bônus – Engana-se quem pensa que a festa acabou: sábado (21), a partir de meio-dia, no Bar do Léo (Hortomercado do Vinhais), Cesar Teixeira autografa Camapu, a quem interessar possa.
Poucas artistas nascem tão maduras quanto Alexandra Nícolas. Nascer é modo de dizer: até sua estreia fonográfica com Festejos [Acari, 2013] foram cerca de 20 anos de burilamento. O fato é que cinco anos após o debute, ela lança Feita na pimenta [2018, distribuição: Tratore], dando meia guinada.
Feita na pimenta. Capa. Reprodução
Festejos era dedicado ao universo do samba, embora com um pé no Nordeste e em seus ritmos característicos, em geral abrigados sobre o guarda-chuva do que se convencionou chamar de forró. Em Feita na pimenta ela pisa – literalmente – com os dois pés no salão, fazendo dançar agarradinho. Em comum entre os discos, o elogio ao universo feminino e à liberdade de a mulher ser e fazer o que bem entender. Como ela, que nos apronta esta maravilha.
O repertório é, como anuncia o título, apimentado, quente, vibrante. Como atesta em texto no encarte Zeca Baleiro, seu convidado em Teu (parceria dele com a lenda viva Anastácia): “Ouvir seu Feita na pimenta nos remete a um tempo de alegria e delicadeza da música popular, como se estivéssemos ouvindo o alto-falante de um arraial perdido na memória”.
Apropriadíssimo para o período junino, “Viva São João!”, como ela canta em Preta Chica (parceria de Roque Ferreira com Paulo César Pinheiro, autor da íntegra do repertório de seu disco de estreia, única faixa presente apenas no disco físico, não disponível nas plataformas digitais), Feita na pimenta é disco para ser ouvido em qualquer época. A faixa citada, a propósito, tem a letra tão hilariante que faz sorrir até mesmo o clarinete de Rui Alvim.
O repertório é alegre, faz dançar sem abrir mão de fazer pensar. Coco fulero (João Lyra e Zeh Rocha), que fecha o disco, primeiro single lançado, é antenadíssimo com o atual momento político vivido no Brasil. “Fulero voto mais não”, diz um verso, longe de pregar alienação nestes tempos.
A faixa-título, composta para a voz e a performance de Alexandra Nícolas por Marco Duailibe, é deliciosa e direta: “Menino tu não me atenta/ não mexe com quem tá quieta/ eu fui feita na pimenta/ sou mulher na dose certa/ eu sou palha com faísca/ sou fogo que não se apaga/ quando eu rodo minha crioula/ ninguém prende a minha saia”, diz a letra.
Alexandra Nícolas cavucou um repertório que, longe de soar saudosista, nos leva de volta a certa inteligência e delicadeza perdidas na música popular brasileira: duplos sentidos e trocadilhos com inteligência, emoldurados pelos arranjos inventivos de João Lyra, que toca violão, viola e guitarra e assina ainda a direção musical.
Na capa e encarte de Feita na pimenta, Alexandra Nícolas posa sorridente na comunidade quilombola de Itamatatiua, em Alcântara/MA, para fotos de Veruska Oliveira em projeto gráfico de Raquel Noronha, garantindo perfeita sintonia entre embalagem e conteúdo musical.
O sorriso da cantora transborda, como as pimentas malaguetas vermelhas com que contracena no tacho da casa de farinha da locação, e contagia: sua alegria é percebida no jeito de cantar, no registro da dúzia de músicas que compõe Feita na pimenta, e nas intervenções bem-humoradas que realiza aqui e acolá.
Ouvir o disco é criar intimidade imediata com Alexandra Nícolas, que canta cada vez melhor, como atesta a magistral interpretação de Chamego encantado, outra da lavra da dupla João Lyra e Zeh Rocha. “Olho no olho e chamego. Muito chamego”, como ela também escreve no encarte. Chamego, aliás, uma das palavras-chave do disco, seja o ritmo popularizado por Luiz Gonzaga (entre tantos outros abrigados sob o genérico rótulo de forró ou música nordestina), seja o sinônimo de namoro, carícia, excitação.
Alexandra Nícolas é maranhense e certamente motivo de orgulho para os conterrâneos, mas é artista que não cabe em rótulos, sequer geográficos. Canta para o Brasil e para o mundo, sem, no entanto, perder as referências do lugar de origem. Tanto que a Feita na pimenta comparecem os conterrâneos Betto Pereira (autor de Forrobodó e Tá pegando fogo, em que o forró conversa de igual para igual com o tambor de crioula) e César Nascimento (autor de Serenin, em parceria com Vicente Teles), ícones do que se convencionou chamar de música popular maranhense, há algum tempo, além de João Madson (O segredo do coco).
Mas as antenas de Alexandra estão apontadas para a frequência do que lhe dá alegria e prazer em cantar – talvez por isso ela faça tão feliz seu fã-clube, a atestar que a espera valeu a pena. Assim, coloca aqueles em diálogo com mestres como Anastácia (O sucesso da Zefinha) e João Lyra (Clichê de forró, em parceria com Adelson Viana), autores de faixas sobre o próprio universo do forró.
“Sanfoneiro toque toque toque/ toque toque toque/ pra gente dançar/ tua sanfona toca toca toca/ no meu coração” é o primeiro pedido que a cantora faz, em Sanfoneiro, toque, parceria de João Lyra com sua filha Joana Lyra. É também o primeiro reconhecimento ao talento do sanfoneiro Adelson Viana. Forró bom é forró bem tocado e além dos já citados, Alexandra Nícolas acerca-se de Antonio Rocha (flauta e flautim), Cassio Cunha (bateria), Cristóvão Bastos (piano elétrico e pad), Durval Pereira (percussão), Jamil Joanes (baixo), Rogério Caetano (violão sete cordas), Rui Alvim (sax alto e clarinete) e Zé Leal (percussão), além do coro de Ana Zinger, Jamil Filho, Marcio Lott e Viviane Godoy.
Forró bom é forró bem tocado. E neste caso, bem pensado. Bem dançado já é por sua conta!
Serviço
Feita na pimenta, o disco, tem patrocínio da Potiguar, através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão. Alexandra Nícolas está em turnê de lançamento e realiza os seguintes shows: hoje (13), no Clube dos Democráticos (Rio de Janeiro); amanhã (14), no Canto da Ema (São Paulo); e terça-feira (17), na Autêntica (Belo Horizonte), sempre às 22h.