Um sábado chuvoso e choroso

Foto: Rose Panet

 

Apesar do clima chuvoso, um bom público prestigiou a apresentação do Instrumental Pixinguinha, ontem (24), no Auditório Itapecuru do Centro Cultural Vale Maranhão (Rua Henrique Leal, 149, Centro).

João Neto (flauta), Juca do Cavaco, Raimundo Luiz (bandolim), Domingos Santos (violão sete cordas) e Nonatinho (pandeiro) tinham, todos, diante de si, o Caderno de partituras – Choros maranhenses, organizado pelo flautista Zezé Alves, membro emérito do grupo, também professor da Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo (EMEM), em cujos corredores o Pixinguinha se formou ainda no final da década de 1980.

“O único da formação original é Domingos. Ele costuma dizer que é o dono do conjunto”, gracejou Juca, mantendo a marca bem humorada das apresentações do grupo. Mais adiante, brincou com a plateia: “vocês já repararam que tem dois caladinhos aqui, não é? Mas eles vão falar já já”, disse, referindo-se a Domingos e Nonatinho, no que o violonista retrucou: “tu já falou o que eu ia falar”, referindo-se ao fato de Juca ter feito os comentários anunciando o choro Miritibano, de sua autoria, a segunda da apresentação. O título é o gentílico de Miritiba, antigo nome do município de Humberto de Campos, onde o autor nasceu.

João Neto, Juca e Raimundo Luiz revezavam-se nas explicações entre as músicas, ora comentando autorias, ora contando histórias sobre as composições, determinados contextos, dando um ar didático ao concerto. “Muito obrigado pela presença de todos vocês, apesar do clima chuvoso”, agradeceu Juca. Neto emendou: “é um sábado chuvoso e choroso”.

A apresentação do Pixinguinha, penúltima da temporada 2017 do programa Pátio Aberto, do CCVM (provavelmente transferida de lugar em virtude da chuva), foi aberta com Nova república, do saudoso advogado e cavaquinhista Francisco de Assis Carvalho da Silva, o Six, também gravado pelo grupo em Choros maranhenses [2006]. Se o Regional Tira-Teima é o mais longevo grupamento de choro em atividade no Maranhão, o Pixinguinha foi pioneiro: seu disco de estreia foi o primeiro inteiramente dedicado ao gênero por estas plagas.

O Caderno de partituras por que se guiavam ontem é uma espécie de ampliação do repertório do disco, este composto por choros autorais e choros de autoria de mestres do gênero, já então saudosos, caso por exemplo de Um sorriso, de autoria do rosariense Nuna Gomes.

Chorinho da Beatriz (Domingos Santos) “foi a música com que participamos da Mostra de Música Sesc Onde Canta o Sabiá, apesar de ser uma música instrumental”, revelou João Neto. Na sequência foi a vez de Luar do sertão (Catulo da Paixão Cearense). “Cearense era sobrenome mesmo, ele era maranhense”, riu Juca, cujo cavaco evocava uma viola, dando certo ar caipira à execução da música. No meio dela ele soltou um “vocês!”, encorajando o público a cantar o refrão: “não há, oh, gente, oh, não, luar como esse do sertão”. “Com um coral desses, a gente nem precisa de cantor”, elogiou o cavaquinhista.

Após tocarem Viajando para Carajás (Zé Hemetério), Juca revelou terem alterado a ordem do set list. “Era para termos tocado a que vamos tocar agora, os nomes das cidades são até parecidos”, fez a plateia rir, ao anunciar De Cajari pra capital (Josias Sobrinho) e perguntar para João Neto: “de quem é essa música?”, ao que o flautista respondeu, rindo também: “de titio” – para quem não sabia, sim, João Neto é sobrinho de Josias Sobrinho.

Juca derreteu-se em elogios ao choro Elegante (Raimundo Luiz), cheio de nuances. “É uma das que eu mais gosto de tocar”, emendou João Neto, no que o cavaquinhista relembrou o Prêmio Universidade FM de melhor música, conquistado pela composição em 2006, ocasião em que o quinteto recebeu também o troféu de melhor disco instrumental. Cabe lembrar que durante muitos anos foi o Pixinguinha também o responsável pelo espaço dedicado ao choro na noite ludovicense, quando ocupavam semanalmente o palco de um bar, hoje extinto.

Ontem ao luar (Catulo da Paixão Cearense) antecedeu Lembro-me de você assim (Juca do Cavaco). “Essa música eu fiz quando a gente estava gravando o disco. Houve uma ocorrência na família, meu sogro faleceu. Era uma pessoa animada, dançante, eu sempre lembro dele desse jeito”, revelou o autor. “É difícil falar mesmo”, completou, a emoção travando a garganta, o sentimento percebido pelo público em comunhão.

A sequência formada por Candiru (Zezé Alves e Omar Cutrim) e Choro axixaense (José Maria Fontoura) garantiu também um passeio pela brejeirice e malemolência do lelê e do bumba meu boi de orquestra, manifestações culturais típicas da região do Munim, particularmente os municípios de Rosário e Axixá, num diálogo saudável entre o choro e estes ritmos.

Catulo da Paixão Cearense ainda voltaria ao repertório, com Flor amorosa (parceria com Joaquim Callado), que antecedeu Chora cavaco (Juca do Cavaco). Antes de tocarem a saideira, o grupo mais uma vez agradeceu a presença do bom público. João Neto anunciou: “para fechar, uma de Cesar Teixeira. Esse choro é a cara dele, enrascado, cheio de passagens harmônicas e melódicas complexas”. Terminaram a noite, após pouco mais de uma hora de apresentação, com Conversa fiada.

A certa altura, Juca havia gracejado que o grupo havia ensaiado seis meses para aquela apresentação. “Seis meses e um dia, não vamos mentir por um dia”, emendou João Neto, também rindo. Brincadeiras à parte, o fato é que poucas vezes, por aqui, o choro foi tratado com tanto esmero, em execuções impecáveis. Uma apresentação como a de ontem demonstra que também em se tratando do gênero o Maranhão não deve nada a outras praças brasileiras.

O embaixador

Foto: Rose Panet

 

Radicado há mais de três décadas em São Paulo, onde mantém as tradições maranhenses com o Bumba meu boi de Cupuaçu, no Morro do Querosene, o que lhe ensejou o merecido título de cidadão paulistano, outorgado há alguns anos pela Câmara Municipal da capital paulista, Tião Carvalho, maranhense de Cururupu, subiu ao palco do Buriteco Café (Rua Portugal, Praia Grande), ontem (23), para um show em que passeou por repertório autoral e clássicos de autores maranhenses.

“Muito obrigado pela presença de todos vocês”, agradeceu Tião, reafirmando o prazer de cantar no Maranhão, para maranhenses, após abrir sua apresentação com Dona tá reclamando (Domingos Minguinho), gravada pelo Cupuaçu em Toadas de bumba meu boi [Núcleo Contemporâneo, 2000].

Tião estica sua presença na ilha: ele veio participar do desfile do bloco Bota pra moer, na segunda-feira gorda de carnaval (12), capitaneado pelo Criolina, formado por Alê Muniz e Luciana Simões, em cujo Radiola em transe, disco mais recente da dupla, sua A menina do salão dialoga com A mulher mais bonita do mundo (Tião Carvalho), lançada por Tião em seu solo de estreia, Quando dorme Alcântara [Por do Som, 2003], também presente ao repertório de ontem. Além de ontem no Buriteco, ele anunciou nova apresentação na próxima sexta (2 de março), às 22h, no Laborarte (Rua Jansen Müller, 42, Centro).

Quando cantou De Teresina a São Luís (João do Vale e Helena Gonzaga), a flauta de Zezé Alves puxou O trenzinho do caipira (Heitor Villa-Lobos) como incidental. O flautista deixou seu microfone às pressas para salvar o óculos – que Tião Carvalho carregou mas não usou durante o show –, de ser pisado, enquanto o músico trocava o cavaquinho pelo triângulo.

A banda se completava com João Simas, que tocava sua guitarra com as pernas em posição de lótus na cadeira, a gaúcha Mariele Costa (percussão) e Erivaldo Gomes (percussão) – este o único abrigado ao lado de Tião no pequeno tablado do Buriteco.

Com um disco inteiramente dedicado à obra de João do Vale [Tião Canta João, Por do Som, 2006], o pedreirense foi dos mais presentes ao set list da noite: Baião de viola (João do Vale e Flora Matos) evoca as belezas (e de forma poética as misérias) de sua cidade natal, trazendo em si a típica sabedoria que lhe valeu o epíteto de “poeta do povo”.

Quando cantou a toada Itamirim (Chico Saldanha), Tião lembrou-se que foi ele quem gravou a música no elepê de estreia de Chico Saldanha, de 1988. “Se não me engano é Itamirim o nome do elepê”. O disco leva apenas o nome do compositor, mas o equívoco é compreensível: a última faixa do lado A foi o maior êxito do disco e é, até hoje, um dos maiores da carreira do rosariense.

Tião cantava e contava histórias: o samba Pantanal (Tião Carvalho) alude a um bar que frequentava, e Canção de ninar (Tião Carvalho), que começa como anuncia o título e torna-se um samba, foi feita para sua filha, “quando ainda estava na barriga”.

Sapaiada (Xavier Negreiros e Marquinhos Mendonça), com seu refrão envolvente, botou o público para acompanhar nas palmas, um dos grandes momentos do show – não foram poucos. Quando dorme Alcântara (Tião Carvalho) evoca outro bar, em São Luís, onde Tião e uma turma iam tocar e à meia noite viam as luzes da cidade, do outro lado da baía, se apagarem, quando o gerador era desligado, à época. Invariavelmente ouvia-se o comentário: “Alcântara dormiu”. “Com essa música eu participei do último grande festival promovido pela Rede Globo. Estive em três, primeiro acompanhando Giordano Mochel, depois acompanhando Ubiratan Sousa, e por último já com uma música minha”, contou, revelando parte da nobre linhagem artística a que pertence.

Cantou o Fogo de palha de Josias Sobrinho. Quando lembrou que dele havia gravado Dente de ouro em Quando dorme Alcântara – à venda ontem, bem como Tião canta João –, o público pediu o clássico. “Não estava no roteiro, mas nós vamos ter que fazer”, nem Tião nem a banda titubearam e o público cantou junto.

De sua irmã Ana Maria Carvalho, parceira do Boi de Cupuaçu, trouxe Até a lua, que emendou com Lua cheia (Bulcão e Godão), clássico de outro boizinho, o Barrica. O passeio musical de Tião foi até Cajapió (Erivaldo Gomes). Na sequência atacou com um medley de inéditas: Coco da minha sinhá (Tião Carvalho) e Coco das meninas (Graça Reis).

“Vamos fazer a saideira, lembrando essa figura que foi muito importante pra minha carreira, é pra mim uma espécie de madrinha musical. Todas as gravações que ela fez dessa música”, começou, referindo-se a Cássia Eller, que popularizou o samba Nós (Tião Carvalho).

Aos insistentes pedidos de “mais um”, Tião virou-se para a banda, sinalizando que atenderia. A noite foi fechada com um medley de João do Vale: Uricuri (Segredos do sertanejo) e Carcará, ambas em parceria com José Cândido.

Embaixador da cultura popular do Maranhão em São Paulo, onde vive, e por onde andar, ontem Tião Carvalho contrariou o dito popular: santo de casa faz milagre, era o que atestavam os rostos satisfeitos do público, mesmo a parte que ficou em pé, na calçada, do lado de fora do Buriteco.

Terra musical de todo mundo: um papo com Vitor Ramil

Campos neutrais. Capa. Reprodução

 

Este mês, na Emaranhado, coluna que assino mensalmente no site do Itaú Cultural, escrevi sobre o ótimo Campos neutrais [Satolep, 2017], disco novo de Vitor Ramil, com quem conversei sobre.

A seguir, a íntegra da entrevista.

Retrato: Marcelo Soares. Divulgação

Homem de vícios antigosCampos neutrais dialoga com outras fases de tua carreira, mas não soa saudosista, embora revisite ídolos confessos como os Beatles e Bob Dylan, entre outros. É um disco aberto, embora a milonga ainda seja o eixo central. Você concorda? Como o definiria?
Vitor Ramil
– À parte a citação explícita a Strawberry Fields Forever, Beatles sempre aparecerá subliminarmente na minha música, bem como na música de todo mundo, porque eles foram fundamentais, estruturantes. Dylan é um compositor que às vezes eu gosto de versionar. É um desafio prazeroso para mim, que gosto de lapidar e me excito com o aspecto lúdico desse tipo de trabalho. A milonga está menos presente como gênero que como atmosfera e conceito em Campos Neutrais. Tens razão, o disco remete a algumas experiências dos meus discos anterior, mas o vejo fundamentalmente como um ponto a que cheguei depois de muita reflexão e muita prática. Considero o mais bem produzido, tocado, cantado, gravado etc. Fui muito criterioso, inclusive ao me sentir o mais livre e espontâneo possível durante as gravações. Trabalhei com figuras muito afinadas com a minha linguagem. A unidade é marcante no resultado. Tudo soa muito coeso, os arranjos, as performances.

É também o disco em que você mais se abre a parceiros. Como é colecioná-los e trabalhar com cada um/a deles/as? Da conterrânea Angélica Freitas, passando pelos nordestinos Chico César e Zeca Baleiro, até o paraense Joãozinho Gomes e o português António Botto, entre outros: a diversidade percebida no repertório de Campos neutrais se deve também a este leque de parceiros, não?
Sim, certamente. Essas parcerias foram acontecendo naturalmente ao longo do tempo. Com o Zeca já compus uma três musicas, com o Chico umas cinco. Mas são as primeiras colaborações nossas gravadas. Gosto muito do que conseguimos fazer juntos. Com a Angélica é um pouco diferente. Venho musicando a obra dela com o objetivo de gravar um disco dedicado à poesia dela, que é sensacional. O poema do Joãozinho musiquei depois de estar com ele em Macapá, e a canção nasceu pedindo tambores, aqueles tambores melancólicos do marabaixo. António Botto, quem diria, me fez compor um samba de corte clássico. É o inesperado das colaborações. Todas essas enriqueceram muito o disco e, de certa forma, justificaram a ideia dos campos neutrais como conceito do trabalho.

Em texto distribuído à imprensa você fala do projeto de gravar um disco inteiramente dedicado à poesia de Angélica Freitas, uma das poetas contemporâneas mais originais do Brasil. Sei que é cedo para falar em novo disco, Campos neutrais ainda tem uma estrada a percorrer e torço por que o show passe pelas terras de todos os parceiros, mas há previsão para a realização deste trabalho em parceria com ela?
Só não gravei ainda o álbum com a Angélica porque, depois de délibáb, dedicado às poesias de Jorge Luis Borges e João da Cunha Vargas, e de Foi no mês que vem, em que regravei 32 canções por ocasião do lançamento de um songbook, achei que precisava retomar minha trajetória autoral. Agora acho que o disco com poemas da Angélica pode ser a melhor escolha para um próximo trabalho, até porque o público já teve uma prova dessa colaboração com a música Stradivarius que está em Campos Neutrais, ou seja, nossos mundos já estão conectados.

Outro diálogo perceptível em Campos neutrais é o travado entre a estética do frio e certo calor nordestino, nortista, sobretudo a partir das parcerias com Chico César, Joãozinho Gomes e Zeca Baleiro. Você acredita que isto ajuda a te libertar de rótulos como os de “artista do frio” ou “dos pampas”, apesar de você ter inventado Satolep e viver nela?
Para quem olha superficialmente, talvez sim. O fato é que para mim não há essa oposição frio-calor. A estética do frio, em última instância, trata-se não de tentar estabelecer um conflito, mas de afirmar o sul-brasileiro através da imagem do frio, do frio tratado como símbolo de um lugar, do nosso clima de estações bem definidas (afinal de contas o Brasil, que se vê como “tropical”, nos associa ao frio) e como elemento de aproximação do sul do Brasil com Uruguai e Argentina. Quando falo em frio não estou defendendo uma racionalidade ou ausência de emoção. Longe disso. Falar em rigor, por exemplo, não é falar em rigidez. Há rigor em João Gilberto, há rigor em Elomar ou em João Cabral.

Você volta ao Dylan de Desire, vertendo Sara em Ana, como fez com Joey (Joquim), em Tango [1987]. O Dylan de 1976 é o seu preferido entre sua vasta discografia?
Sim, Desire é meu disco favorito do Dylan. Gosto também de Slow train coming, da fase religiosa, de onde versionei Um dia você vai servir a alguém (Gotta serve somebody). Costumamos escutar Dylan nas viagens de carro. Dylan, Miles [Davis], Alberta Hunter, Radiohead, Chet Baker ou Glenn Gould estão sempre conosco na estrada.

Palavra desordem é sobre os dias atuais, embora o verso “façam a revolução” evoque o oitentista RPM. É uma citação proposital? Você comprova a possibilidade de cantar sobre política sem soar panfletário. É um caminho urgente, possível e necessário no atual momento por que passa o Brasil?
Eu não me lembrava do “façam a revolução” do RPM. Se lembrasse, talvez não tivesse usado na música. Um sobrinho me chamou a atenção para isso e rimos muito. De fato, a retórica dessa música é revolucionária e ela pode ser interpretada desse modo, mas como um chamado à revolta profunda, não apenas política, feito às novas gerações. No entanto, o significado íntimo dela para mim é o de um chamado ao desassossego que fiz para mim mesmo. Eu tinha escrito uma letra que me pareceu muito obscura para um tema tão pungente e já um tanto complexo musicalmente. Achei a letra um pouco acomodada diante do desafio que a música exigia de mim. Então me indignei e cantei pra mim mesmo: “queimem os navios”…

Você canta em três línguas em Campos neutrais, o que tem a ver com a própria característica fronteiriça do Rio Grande do Sul evocada no título do álbum. O Brasil, vizinho de países de língua espanhola, em geral prefere cantar no inglês de terras distantes. Como você avalia esse distanciamento cultural do Brasil e seus pares do Mercosul, no sentido de que bandas argentinas, uruguaias etc., serem bem menos conhecidas por aqui que astros ingleses e americanos etc.?
O português e o espanhol respondem por essa fronteira do extremo sul. O inglês aparece como nas canções de toda parte. Os Beatles e a presença de sempre da cultura norte-americana e inglesa entre nós nos fazem volta e meia cantarolar em inglês. No caso do rock gaúcho, realmente o inglês é muito presente, ou foi. Algumas bandas ou artistas quando cantam português o fazem como se fossem estrangeiros cantando, com um certo sotaque. Acho engraçado. É que a influência do rock inglês dos anos 60 é imensa por aqui. Por que? Não sei. Talvez por ser uma região mais conservadora, onde o rock desde sempre aparece como afirmação e contraposição das novas gerações. Quando ao distanciamento do Brasil em relação aos países de língua hispânica, é mesmo muito grande. Lembro de quando vivíamos no Rio, nos anos 80. As pessoas lá achavam engraçado ouvir rock em castelhano, Charly Garcia, Fito Paez e poucos outros que chegavam. Riam. Enquanto isso, no Rio Grande do Sul, os mesmos artistas eram ídolos. A língua e a cultura nos afastam mutuamente. E também o preconceito, o aculturamento, esse eterno bater cabeça para o que vem dos países de prestígio. Na Argentina não é muito diferente. Lá um artista norte-americano obscuro e fraco tem muito mais chance de despertar interesse da mídia que um artista brasileiro obscuro e genial. Igualzinho ao Brasil.

A exemplo de Foi no mês que vem, seu disco anterior, Campos neutrais também tem um respectivo songbook e foi financiado a partir de crowdfunding, o financiamento coletivo pela internet. A seu ver, o songbook facilita a apreensão de seu repertório por músicos que se interessem por tocá-lo? E o financiamento coletivo é uma saída nestes tempos sombrios que o Brasil atravessa, não apenas no campo cultural?
No meu caso, o songbook se mostrou de extrema importância, porque poucos conseguiam tocar as minhas músicas. Meus acordes em geral não são convencionais e ainda uso afinações preparadas. Muitas vezes, tocar uma música minha com os acordes simplificados fere a essência da composição de um modo que não parece ser a mesma música. Depois dos songbooks tenho ouvido muita gente tocar super bem as minhas canções, mesmo que essas versões incorporem novidades. Quanto ao financiamento coletivo é uma grande alternativa de produção. É bom para o público e para o artista. Uma espécie de resistência. Nesses tempos em que o disco já não vende e que montar um grande espetáculo é coisa apenas para artistas muito populares que arrastam multidões, o financiamento coletivo ajuda a viabilizar trabalhos de qualidade. E como observaste, essa forma de resistência não se limita à cultura. Se espraia pela sociedade de muitas maneiras, atendendo a inúmeras demandas.

Você é de uma família de músicos, irmão de Kleiton e Kledir, pai de Ian Ramil. Este disco tem a participação de sua sobrinha Gutcha, cantando um samba – e aqui voltaríamos ao tema da diversidade, já abordado. Qual a sensação de ser um elo desta genealogia musical?
É uma sensação muito boa, de toda a vida. Não sei como seria viver numa casa sem “muita” música. Estamos montando agora um show em família, homenagem à minha mãe, Dalva, de 92 anos. Vão estar todos os que citaste acima, mais o Thiago Ramil, irmão da Gutcha e o João Ramil, filho do Kledir. Fui muito influenciado pelos meus irmãos e adoro o que estão fazendo Ian, Gutcha, Thiago e João. Quero envelhecer vendo a gurizada tocando na minha volta.

Legado beatle

How the Beatles changed the world. Frame. Reprodução

 

O fim dos Beatles caminha para meio século e a banda segue das mais – se não a mais – influentes no planeta em todos os tempos. Provas disso são suas músicas continuarem sendo regravadas ao redor do mundo e qualquer coisa que leve seu nome/marca vender como água (o que começou a acontecer ainda enquanto estavam juntos), sejam edições remasterizadas de seus discos de carreira, gravações inéditas ou raras ou até mesmo brinquedos.

Nada mau para um grupo cuja união durou menos de uma década.

Ao longo deste tempo os Beatles operaram algumas revoluções no fazer artístico, elevando a música pop à categoria de obra de arte. John Lennon, Paul McCarney, George Harrison e Ringo Star foram, sem dúvida, dos artistas mais documentados em todos os tempos. Em meio ao turbilhão, difícil um filme, uma reportagem, ou o que quer que seja, dizer algo novo sobre os fab four.

Não parece ser a intenção de How the Beatles changed the world [EUA, Inglaterra, 2017; disponível na Netflix], documentário de Tom O’Dell, que localiza a importância do fenômeno Beatles para a compreensão da década de 1960 e de tudo o que viria depois, em termos de música, cultura e comportamento – mesmo Rolling Stones, quase sempre apontados como rivais dos Beatles, num Fla x Flu musical sem sentido, The Doors e Beach Boys, para citar (apenas) outras bandas surgidas na mesma década, aconteceram a reboque do protagonismo beatle.

Através de entrevistas com críticos de música, pessoas próximas ao quarteto de Liverpool e trechos de entrevistas dos próprios Beatles, O’Dell aponta-os como precursores em se tratando da relação música e lisergia, de aproveitar ao máximo o que os estúdios oferecem (as limitações técnicas eram enormes nos anos 1960, sabemos) e no componente político: em visita aos Estados Unidos os Beatles foram pioneiros em abordar assuntos espinhosos à época, como a guerra do Vietnã, além de tirar onda com a própria rainha da Inglaterra.

A cena é conhecida, mas nos faz rir novamente: a um auditório lotado, Lennon manda: “para o próximo número precisamos da ajuda de vocês. As pessoas nos assentos mais baratos batam palmas; as demais, basta chacoalhar suas joias”. Close numa constrangida rainha da Inglaterra, volta a imagem a um John qual criança pego em travessura.

Outras revoluções beatle: a transmissão em cadeia mundial de tevê de All you need is love (com Mick Jagger e outros famosos na plateia), o fim das aparições públicas enquanto banda (quantas, hoje, não vivem de separar e juntar de acordo com as necessidades, sobretudo financeiras), as guinadas artísticas em discos fundamentais como Rubber soul, Revolver e Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band, além dos primeiros solo de John Lennon (uma trilogia com Yoko Ono, sua segunda esposa) e Paul McCartney – se hoje são corriqueiros discos solo de integrantes de bandas, nisso os Beatles também foram pioneiros, como haviam sido, no começo da carreira, ao decidirem gravar material autoral (o que não era padrão na época).

Recentemente Quincy Jones deu uma entrevista afirmando que os Beatles eram os piores músicos do mundo. Lembrou o Lobão da época em que vivia falando mal de Caetano e Gil. Ver How the Beatles changed the world lembrou-me o Oscar Wilde de A alma do homem sob o socialismo: “não é a obra de arte que tem que aspirar a se tornar popular; o povo é que tem que se tornar artístico”. Sob a égide do “mas é isso o que o povo gosta”, muitos artistas acomodam-se e ofertam mais do mesmo (ou menos do mesmo, se a ideia é facilitar); com os Beatles era diferente.

How the Beatles changed the world pode não trazer novidades, sobretudo aos beatlemaníacos mais ferrenhos; mas localiza o legado beatle num contexto de profunda transformação da cena pop no mundo. Para sempre.

“A vida tá pouca e eu quero muito mais”

O cantor Marconi Rezende. Foto: Anfevi Criação e Fotografias

 

Marconi Rezende comanda amanhã (9), a partir das 19h, o Bloco do Prazer, baile de carnaval batizado pela música de Moraes Moreira e Fausto Nilo, cujo verso “muito mais que o som da marcha lenta” é o slogan.

Mais conhecido por suas interpretações do repertório de Chico Buarque, Marconi Rezende, em entrevista exclusiva a Homem de vícios antigos, adianta o repertório da festa: “Não vão faltar as canções clássicas de carnaval, não só as marchinhas tradicionais, de salão, que vão ser executadas, uma boa parte só de forma instrumental pela banda. Eu vou cantar algumas delas, O teu cabelo não nega [de Lamartine Babo, João Victor Valença e José Raul Valença], Alá-lá-ô [de Haroldo Lobo e Nássara], as tradicionais, como a própria música que dá título à festa, Pombo correio [de Moraes Moreira, Dodô e Osmar Macedo], Coisa acesa [de Fausto Nilo e Moraes Moreira], Balancê [de João de Barro e Alberto Ribeiro]. Tem canções que eu adaptei para o carnaval, Proibida pra mim [do grupo Charlie Brown Jr., regravada por Zeca Baleiro] fica muito boa em levada de frevo, algumas canções de Chico eu adaptei, outras canções do rock nacional, como Exagerado, do Cazuza [parceria com Ezequiel Neves e Leoni]. [O baile] Tem uma característica de adaptação. Vou cantar umas de Zeca Baleiro e de outros maranhenses”.

Pergunto-lhe se a inauguração do Clube do Chico [Rua Uirapuru, 17, Calhau; entrada do Grand Park, primeira à esquerda], que abriga a festa de amanhã, melhora as perspectivas para produções dele e de artistas com quem mantém relações. “A intenção é essa, está sendo. Inauguramos, ainda é uma fase de observação, existem questões como a vizinhança, é uma área residencial. As perspectivas são sem dúvidas de melhoras, para mim e outros artistas, a intenção é juntar”.

A inauguração do Clube do Chico aconteceu com um show em homenagem aos 76 anos que a cantora Nara Leão teria completado no último dia 19 de janeiro, com a atriz Gisele Vasconcelos – que a interpretou em João do Vale – O musical, no Teatro Arthur Azevedo, no fim do ano passado. Marconi aponta para o futuro e anuncia produções que a casa receberá em breve. “O Clube do Chico é essencialmente Chico Buarque, mas não é uma coisa fechada, não é um Chico hermético [risos]. É um referencial, para outras coisas musicais que fazem parte de um contexto daquilo que eu acredito. Muita coisa pode caber no Clube do Chico. Minha intenção para essa fase atual é poder desenvolver projetos. Já temos algumas coisas quase agendadas, como por exemplo Zé Renato, praticamente fechado, para fazer em março, estamos acertando com Paulinho Pedra Azul”, revela.

No musical em que Gisele Vasconcelos interpretou Nara Leão, Marconi Rezende debutou no teatro: interpretou Chico Buarque e outros seis papéis. Pergunto-lhe sobre a experiência. “Foi exatamente essa palavra: uma experiência. Eu entrei como uma cobaia. Não que tenham me feito de cobaia, mas meu coração me fez sentir assim. Me entreguei às cegas a um negócio novo. Novo entre aspas, interpretar no sentido teatral é uma novidade, mas não deixa de ser algo que já estava vislumbrado na minha mente. Ao interpretar canções de fora da nossa realidade, a gente se transporta. Dessa forma, quando eu entrei, quando eu me inscrevi, a minha intenção era fazer Chico Buarque e cantar, somente. Mas o diretor me deu seis papéis, acho que ele queria que eu desistisse [risos]”.

Mas tu és motense ou só teu personagem?, pergunto-lhe, lembrando de uma cena ao final do musical, em que ele aparece trajando a camisa do rubro-negro maranhense. “Eu sou MAC [risos]”.

No Bloco do Prazer Marconi Rezende (voz e violão) será acompanhado por Adriano Cortez (trombone), Cláudio Lima (sax), Fernando Japona (contrabaixo), Ribão (bateria) e Ronaldo Rodrigues (bandolim). A noite terá ainda a discotecagem de Vanessa Serra. Os ingressos custam R$ 30,00. Reservas antecipadas podem ser feitas pelo telefone (98) 99988-9186.

Divulgação

Suave, excitante, empoderada e livre

Treta. Capa. Reprodução

 

Estas quatro palavras figuram nos agradecimentos que a baiana Marcia Castro faz no encarte de Treta [Joia Moderna, 2017], quarto álbum de sua carreira, o mais diferente entre todos.

A baiana é uma das vozes mais interessantes surgidas na música popular brasileira deste início de século – estreou em disco em 2007, com Pecadinho –, e quando falo em “voz” não me refiro exclusivamente a timbre, mas à persona artística como um todo, ao conjunto da obra.

Dizer, portanto, que Treta é o mais diferente entre seus álbuns, é dizer antes de tudo que Marcia Castro nunca fez um disco igual ao outro, mas, além disso, é dizer que é e se percebe artista – e mulher – livre para fazer o que quiser, como a protagonista de Ela é pan (Marcia Castro/ Marcos Vaz/ Rafa Dias/ Oz/ Chibatinha/ Raoni): “vou dar a letra/ a mina que chegou na parada/ não sabe se quer homem ou gata/ só quer ser o que é”, apresenta.

Livre para fazer um disco mais autoral – sozinha ou em parceria, assina seis das 10 faixas – e posar (para o fotógrafo Gui Paganini, sob direção do ítalo-brasileiro Giovanni Bianco) em ensaio sensual em preto e branco no encarte, sem tirar o foco da música. Alicerçado nas bases eletrônicas (beats, synths e arranjos) de Marcos Vaz, é um disco que certamente incomodará puristas de plantão.

É o disco mais feminista de Marcia Castro, com o repertório inteiramente voltado às liberdades da mulher, sem soar panfletário.

Marcia Castro não é de meias palavras, metáforas ou eufemismos. Os recados são claros, as mensagens explícitas. Em Noites anormais (Rafa Dias), que abre o disco: “esse seu balanço é de matar, maluca/ vem cá, não me faz pirar/ eu já tô na tua/ basta tu se entregar”. Na seguinte, Vulgar (Marcia Castro), que tem trecho da letra em inglês (e versão remix fechando o disco): “quero sua pele/ em minha pele/ quero sua boca/ tão vulgar/ vai ser assim/ que seja/ não tem ninguém/ tem pra ninguém/ só tu e eu aqui sentadas/ nesse mesmo sofá”.

Desce bum (Rafa Dias/ Oz/ Chibatinha/ Raoni), com percussão de Gustavo Di Dalva, flerta desbragadamente com a axé music: “ó menina linda/ favor não se esqueça/ pega na cintura/ pega na cabeça/ (…)/ desce assim sem vergonha/ desce bumbum”. Em Boneca (Marcia Castro/ Luciano Salvador Bahia) e Tensão (Marcia Castro/ Rafa Dias/ Oz/ Chibatinha/ Raoni), histórias de amores (marginais?), ambas emolduradas pela guitarra de Juninho Costa e percussão de Gustavo Di Dalva. “Na sua dança febril/ ela me impõe um compasso/ o que eu faço e não faço?/ não sei o que quer de mim/ mas sou do tipo que quer/ o que pro mundo é bagaço”, começa a letra da primeira; e “o meu cabelo duro/ desejo me domina/ senti um batimento forte/ me jogou pra cima”, a da segunda.

“Cada disco brota de um jeito. Esse surgiu da vida. Da minha vida”, entrega Marcia Castro também nos agradecimentos. E continua: “De histórias pessoais. De encontros, almas, acertos, desacertos. De tudo que nos torna demasiadamente humanos”.

Treta virou sinônimo de discussão, em geral infrutífera, sobretudo nas redes sociais. Intitulando este disco, ganha outro significado, com temas importantes trazidos à tona, embalados em uma guinada musical ousada de Marcia Castro. Quem não arrisca, não petisca, diz o dito popular.

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Veja o clipe de Baba no quiabo (Ava Rocha/ Gui Calzavara/ Mariana de Moraes/ Luciano Salvador Bahia/ Marcia Castro), performado por Aretha Sadick e dirigido pelo DJ Zé Pedro:

Criolina lança clipe antecipando o carnaval

O carnaval vem aí e o Criolina solta novo videoclipe na rede. A menina do salão (Alê Muniz/ Luciana Simões) ainda nem esfriou e eles já saem com Bota pra moer (Celso Borges/ Alê Muniz/ Luciana Simões), música que batiza o bloco (ou vice-versa?) que o casal Alê Muniz e Luciana Simões comandará na segunda-feira de momo (12).

O nome do bloco homenageia Bota pra moer, um dos “doidos antológicos” de São Luís, catalogado pelo saudoso e múltiplo Lopes Bogéa no igualmente antológico Pedras da rua [Sioge, 1988]. Antonio Lima, seu nome de pia, pernambucano de Caruaru, viveu na capital maranhense, onde protagonizou histórias hilárias. Era hábil em matemática, conseguindo dizer, de cabeça, em poucos segundos, quantos dias, meses e anos a pessoa tinha vivido até ali, a partir de sua data de nascimento. Outra habilidade sua era ler naturalmente um jornal. De cabeça pra baixo.

Mas folclórica mesmo ficou a história de quando se tornou porta-bandeira da famosa Greve de 51. São Luís ficou paralisada pela revolta popular contra a posse do governador Eugênio Barros. Bota pra moer puxava o bloco dos descontentes até o Palácio dos Leões, quando viu o aglomerado de policiais montados a cavalo e passou a bandeira a quem estava a seu lado, dizendo: “até aqui eu trouxe. Daqui pra frente, vocês arranjem um mais doido do que eu”.

O novo clipe do Criolina antecipa o clima do que o bloco promete para este carnaval. Bota pra moer, o bloco de Alê Muniz e Luciana Simões não é oportunista: o casal tem balançado o coreto desde que optou por viver em São Luís e produzir a partir daqui, dando uma contribuição fundamental para a organização e a profissionalização da cena musical, com o advento do Festival BR 135, produzido anualmente por eles. Homenageia uma figura folclórica da cidade. Garante o diálogo multicultural durante a folia, algo já destacado no carnaval recifense e inaugurado cá por estas plagas ano passado com o Bloco do Baleiro, sucesso absoluto de público e destaque incontestável do reinado de Momo de ano passado. E realizaram dois ensaios abertos e gratuitos do bloco, na Avenida Beira-Mar, no Centro da cidade.

“Queremos circo, queremos pão/ queremos a libertação”, começa a letra, que traz também a epígrafe da Akademia dos Párias: “loucos somos todos em suma/ uns por pouca coisa/ outros por coisa alguma”. E para não esquecer que o carnaval é também um momento político: “vai querer, vai querer/ bota pra moer/ vai querer, vai querer/ pra gente poder/ sem temer sem temer sem temer”, segue a letra, entre explícita e sutil.

Para o corredor da folia, o Criolina terá como convidados a Bateria da Favela do Samba, o bloco Fuzileiros da Fuzarca, a cantora Rosa Reis e o DJ Pedro Sobrinho, além da participação especial a cantora Elza Soares, entre o estrondoso sucesso de A mulher do fim do mundo [2015] – uma das faixas é intitulada Pra fuder (de Kiko Dinucci, de algum modo antecipando o diálogo com Bota pra moer) – e as gravações de Deus é mulher, novo disco que lançará este ano.

Para o videoclipe, o Criolina contou com as participações especiais de Rosa Reis, Lucas Santtana (que participaram do BR 135 ano passado), Chico César e Zeca Baleiro (que animaram o Bloco do Baleiro ano passado), acompanhados de João Simas (guitarra), Sandoval Filho (teclado) e Thierry Castelo (bateria). A direção do clipe é de Arthur Rosa França, com imagens (em São Luís) de Laila Razzo e direção de estúdio de Rovilson Pascoal (em São Paulo) e Alê Muniz (em São Luís).

Assista o videoclipe de Bota pra moer (Celso Borges/ Alê Muniz/ Luciana Simões):

Hilário e comovente

Foto: Zema Ribeiro

 

Goste-se ou não do ABBA, o grupo sueco está nos escaninhos da memória coletiva mundial: basta tocar um de seus hits no rádio para fazermos uma viagem particular no tempo, lembrando da infância, dos discos que nossos pais ouviam, ou de versões como Fernando, sucesso no Brasil com a paraguaia Perla.

É a este universo que nos conduz Mamma Mia!, “o musical baseado nos hits do ABBA”, como anuncia o programa. A peça tem direção musical de Paulo Cardoso, direção geral de Josué da Luz e coreografia de Rebeca Carneiro.

Com grande elenco – são 26 atores no palco – a Vertu Casa de Artes, após êxitos de público com A bela e a fera (três sessões esgotadas no Teatro Arthur Azevedo em 2015) e A família Adams (duas em 2016), encenou ontem (3), também para um TAA lotado, o musical com composições de Benny Andersson e Björn Ulvaeus – a metade masculina do ABBA, autores dos hits do roteiro. O grupo que se completava com Anni-Frid Lyngstad e Agnetha Fältskog, sendo o nome do grupo um acrônimo com as iniciais dos nomes de seus integrantes –, e versão brasileira de Claudio Botelho para o libreto de Catherine Johnson, já adaptado ao cinema em 2008, com direção de Phyllida Lloyd e Meryl Streep no papel de Donna Sheridan.

São duas horas de espetáculo, em dois atos, com a memória afetiva passeando por versões em português (são raros os números cantados na língua original) de sucessos radiofônicos como I have a dream, Honey, honey, Money, money, money, Chiquitita, Dancing queen, S.O.S., The winner takes it all e Waterloo, além da música que dá nome ao espetáculo, entre muitas outras.

Entre os números musicais costura-se a trama da comédia, de não poucos momentos de gargalhadas gerais: Sophie (Lara Sabbag), de 20 anos, mora com a mãe, Donna Sheridan (Jéssica Monteiro), dona de um pequeno hotel nas ilhas gregas, onde se passa toda a história. Lendo o diário da mãe, descobre que esta teve relacionamentos com três homens – Sam Carmichael (Leonardo Fernandes), Bill Austin (João Carvalho) e Harry Bright (Nestor Fonseca) – e, por conta própria, convida os três para seu casamento, a fim de descobrir qual deles é seu pai e ser levada até o altar.

Também merecem destaque as atuações hilariantes de Kerlys e Bricia Queiroz, que interpretam Tanya e Rosie, amigas de Donna, com quem tiveram uma banda na juventude, além dos Pedros Monteles (Sky, noivo de Sophie) e Danilo (Pepper, empregado do hotel de Donna).

Entre as angústias em torno da descoberta da paternidade de Sophie, muitas lembranças do passado vêm à tona, nesta comédia romântica que emociona e faz sorrir – nunca em doses pequenas.

Serviço

A Vertu Casa de Artes apresenta hoje (4), às 19h, no Teatro Arthur Azevedo (Rua do Sol, Centro), a última sessão de Mamma Mia! Os ingressos, à venda na bilheteria do teatro, custam entre R$ 25 e 40.

Jotabê Medeiros sobre Belchior: “creio que ele é único no mundo inteiro”

Belchior – Apenas um rapaz latino-americano. Capa. Reprodução

 

Lembrado em listas de melhores do ano e de mais vendidos, Belchior – Apenas um rapaz latino-americano [Todavia, 2017, 237 p.; R$ 49,90] foi sucesso absoluto de público e crítica em 2017. Um livro lido e discutido, debatido para o bem e para o mal – não demorou para uma irmã do biografado falar em tirar a obra, pioneira, de circulação.

O autor, Jotabê Medeiros, paraibano formado em Jornalismo na Universidade Estadual de Londrina, no Paraná, e radicado em São Paulo há cerca de 30 anos, sempre lembra, em entrevistas, os tempos de estudante, quando três discos lhe faziam a cabeça: Desire (1976), de Bob Dylan, A peleja do diabo com o dono do céu (1979), de Zé Ramalho, e Alucinação (1976), de Belchior.

Até que um dia, com a ousadia e o faro que lhe tornariam um dos maiores jornalistas culturais do Brasil, escreveu um texto sobre o clássico The wall (1979), do Pink Floyd, e enviou à revista SomTrês, de que Maurício Kubrusly era editor-chefe. Foi contratado e passou a receber uma caixa de discos por mês, para resenhar, sendo pago para isso. Unia o útil ao agradável, a fome à vontade de comer.

Da SomTrês passaria por diversas redações, com destaque para Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, onde passou mais de duas décadas, e CartaCapital, de que é editor de cultura, além do site de jornalismo musical Farofafá, ancorado no da revista fundada por Mino Carta, homem-escola. Já colaborou com revistas como Globo Rural e Helena, publicada pela Biblioteca Pública do Paraná. Antes de chegar às livrarias, Jotabê Medeiros publicou trechos de Belchior na Playboy e Piauí.

Começou a escrever a biografia de Belchior um ano e meio antes do falecimento do compositor cearense, ano passado, aos 70 anos, que pegou o país inteiro de surpresa. Jotabê estava na pista para localizar o artista, desaparecido há anos, mas uma surpresa desagradável, o falecimento de um irmão, adiou seus planos em uma semana e o tirou da jogada para sempre. A Jack, o irmão falecido, é dedicado o livro: “nosso Dean Moriarty, aquele que nunca cedeu à tentação de viver outra vida senão aquela que escolheu para si mesmo”, oferece.

Repórter incansável – por essas e outras é que encontrou Bob Dylan de casaco e gorro no calor de Copacabana, como contou em seu livro anterior [O bisbilhoteiro das galáxias – No lado b da cultura pop, Lazuli, 2013, 215 p.], com foto para comprovar, ao contrário de certo julgamento farsesco na história recente da política brasileira –, Jotabê Medeiros embarcou para a capital Fortaleza e Sobral, cidade natal do bardo, para cobrir o velório para a CartaCapital e colher mais histórias para a biografia, cuja escrita estava quase no ponto final. Com estas andanças, o livro acabou ganhando um novo e surpreendente capítulo final, Inmemorial.

Li Belchior – Apenas um rapaz latino-americano imediatamente quando de seu lançamento, sem saltar mesmo os capítulos que já havia lido publicados previamente na imprensa ou o trecho lido pelo autor quando de sua participação na Feira do Livro de São Luís em 2016, em que comentou a feitura da obra numa mesa que tinha por tema “A desaparição do artista na era da superexposição: como Belchior cantou antes o que viveria depois”, que tive a honra de mediar. Havia acompanhado inclusive a mudança de título: originalmente o livro se chamaria Pequeno perfil de um cidadão comum, aludindo à parceria com Toquinho, de 1979. Fez mais sentido: nem o perfil é pequeno, nem é comum o cidadão.

Uma resenha pura e simples certamente não daria conta de dizer algo novo ou relevante sobre o livro, meses depois: a mim, tudo parecia já ter sido dito. Em uma entrevista que vai além do livro, e não poderia ser diferente, Jotabê Medeiros conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.

Retrato: Renato Parada

Homem de vícios antigos – Jotabê, a ideia inicial de Belchior – Apenas um rapaz latino-americano era uma oficina, em que os inscritos escreveriam uma biografia coletiva, a partir de um curso ministrado por você. Em que momento e por que você decidiu seguir sozinho?
Jotabê Medeiros – De fato, a oficina que propus visava a uma pesquisa coletiva, uma ideia colaborativa que tinha a intenção de questionar o personalismo da figura do biógrafo. Mas foi um fiasco: não teve inscrições suficientes e fui obrigado a postergar. Àquela altura, minha pesquisa já tinha começado e eu estava disposto a escrever o livro de qualquer modo. Não tinha editora ainda, mas fui em frente. É do meu temperamento não recuar ante a primeira dificuldade.

A escrita da biografia começou com esta primeira dificuldade e terminou com outra: o falecimento de Belchior, que levou a mudanças no livro, que já estava praticamente pronto, quando você estava por encontrá-lo. Em que medida o livro seria outro, caso você tivesse conseguido entrevistar Belchior?
Eu imagino que Belchior mantivesse sua disposição de não falar sobre seus planos e sua análise da vida contemporânea. Ainda assim, eu gostaria de ter podido provocá-lo. Sempre quis fazer um texto que, mantendo a equidistância necessária, contivesse o frescor de um avistamento, uma fagulha de proximidade.

Sua biografia é magra, vai ao cerne da questão, sem se prender a firulas ou apelar para fofocas da vida privada. Você já demonstrou incômodo com biografias que ganham volume com elementos que nada acrescentam à compreensão da vida e obra de determinados biografados. Você tinha essa consciência ao escrever?
Sim, tive essa preocupação. Só incorporei à narrativa elementos que têm conexão com a construção de uma personalidade e de uma obra. Claro que é preciso atenção. Há escaninhos da vida pessoal da gente que parecem irrelevantes, mas na verdade não são. Revelam coisas, obsessões, contradições expurgadas. Mas examinei tudo com os olhos da descoberta, tanto a obra quanto o homem. Por isso não invoco a condição de expert, de especialista em Belchior. Eu segui suas pegadas, apenas isso. Por sinal, continuo seguindo.

Recentemente, após a publicação do livro, uma irmã falou em tirá-lo de circulação. A outros, que desconhecem a origem de teu interesse pelo artista e da pesquisa que resultou no livro, este pode parecer oportunista, o que sabemos que não é, já que lançado poucos meses após o falecimento do cearense. Afinal de contas: por que Belchior?
Meu livro teve início um ano e meio antes da morte do artista. Eu me dei conta de que ele era um dos raros outsiders da música brasileira. Tinha conseguido escapar de todos os consensos e panelinhas. Era íntegro e ousado, politizado e independente, solitário e cheio de amigos. Seu rompimento e consequente autoexílio reafirmaram sua singularidade. Creio que ele é único no mundo inteiro.

Você já era reconhecido como um dos mais importantes jornalistas culturais em atividade no Brasil. O sucesso do livro catapultou você a estrela de feiras e eventos literários em geral. Em que medida o jornalista ajuda e atrapalha o escritor e vice versa?
Acredito que o desafio é o jornalista aprender a se relacionar, como o escritor, com o seu leitor. Durante 30 anos, em redações, eu nunca soube quem era o meu leitor. Havia às vezes uma enxurrada de e-mails de leitores contrariados com uma crítica, uma reportagem, mas eles (os leitores) e eu nunca fomos apresentados. O livro aproxima, abre debate, derruba muros e fronteiras. Você é inquirido e pode se explicar. Eu não acredito no sucesso, acredito na consistência, na tarefa. Uma vez, finalista de um prêmio de jornalista, me perguntaram o que achava daquilo e eu respondi: “Jornalismo não é corrida de cavalos”. Ninguém ganha por chegar uma cabeça à frente. É preciso persistência, silêncio, concentração e fazer tudo de novo todo dia.

Outra característica que merece ser destacada em teu livro é o distanciamento da hagiografia. Como admirador confesso da obra de Belchior, foi difícil?
Creio que biografias laudatórias e chapas-brancas são um desrespeito para com o biografado. Se esse biografado é o Belchior, então é ainda mais desrespeito. Quando ele andou caminho errado, ele o fez pela simples alegria de ser [citando trecho da letra de Coração selvagem, de 1977]. Era um filósofo, um homem em questionamento contínuo de sua condição. Assim, nivelar sua existência por um padrão de homem médio, domesticado, inócuo, isso sim seria um desrespeito. A viúva de Belchior, Edna, deu um único depoimento após a morte do cantor em um teatro no Ceará. “Ele não era uma celebridade, era um artista renascentista”. Concordo com ela. O biógrafo seria um traidor se resumisse a sua vida a um corolário de fofocas – o contrário também seria uma traição, fazer dele um homem da família, um totem particular.

Fora Belchior, houve alguém que você gostaria de ter entrevistado para o livro e não conseguiu?
Acho que uma narrativa inclui os percalços e as negativas. Fagner não quis falar. Edna, a viúva, também não quis falar. Seus personagens, entretanto, estão colados à história quer eles queiram quer não. É como diz o maestro Ennio Morricone: os silêncios são parte integrante da música, não há música sem eles.

Também me chamou a atenção em teu livro a mistura de biografia com crítica musical, noutra demonstração do convívio harmônico do jornalista com o escritor em você. Além de contar sua versão da vida de Belchior, você analisa seus discos, sua obra. Foi algo consciente?
Pensei em criar uma biografia um pouco menos factual, com mais envolvimento, até alguma paixão. Sei que é perfeitamente possível fazer uma biografia empilhando fatos, não deixando nenhum de fora, mas creio que isso não me atrai. Não analiso todos os discos, ficaria chato e extensíssimo. Analiso os fundamentais, com alguma dose de informação nova sobre eles.

Após o ponto final, várias histórias já surgiram, como você compartilhou com os leitores em um texto para a revista Piauí. Você está colecionando estes causos? Pensa em fazer algo com eles, uma segunda edição ampliada?
Sim, estou colecionando esses causos. Já alimentei a fantasia de publicar um outro livro, A vida após a biografia, reunindo todas essas histórias. Mas ficaria feliz se pudesse, agora na segunda edição [prevista para março], acrescentar dois capítulos. Um deles seria somente para abrigar uma análise e a história de Baihuno [1993], o último álbum de inéditas de Belchior, cuja última canção se chama Até mais ver e é uma despedida (“Qualquer distância entre nós tornada em nada”). Além, é claro, de corrigir algumas coisas e acrescentar detalhes.

Sua vasta experiência no campo do jornalismo cultural me faz pensar em vários livros que você tem prontos na gaveta: uma coletânea de entrevistas, outra de reportagens, pelo menos, além da ficção A morte engarrafada, de que já publicou alguns capítulos em seu blogue, e deste A vida após a biografia. Noutras circunstâncias, Paulo César de Araújo fazendo escola [risos]. Seu livro de estreia conta causos a partir de fotografias de grandes nomes do pop em atitudes prosaicas. Você pretende publicar outros títulos?
Sim, é verdade. Os projetos às vezes são inevitáveis, noutras vezes completam um ciclo. O livro de reportagens seria uma espécie de balanço da carreira. Outro dia mesmo encontrei uma entrevista que fiz com Pierre Henry, compositor francês que morreu no ano passado. Creio que muitas delas têm alguma dose de atemporalidade, então daí a ideia. Mas é muito provável que, antes desses livros, eu publique uma obra para crianças. Tenho uma proposta e vou estudá-la.

Por falar em crianças, Belchior – Apenas um rapaz latino-americano foi escrito com você se equilibrando entre a paternidade de dois filhos pequenos, a editoria de cultura da revista CartaCapital e frilas outros. O quanto essa dose de intranquilidade inspira e bloqueia, ajuda e atrapalha?
Bom, comecei exatamente quando nasceu Tito, meu filho menor, agora com dois anos. Ele não tem culpa da escolha do pai: eu vinha de um longo período de imprensa diária e queria abraçar um projeto que fosse o contrário da rotina, uma reportagem sem deadline e sem títulos e fechamento padronizado. Confesso que muitas vezes escrevi em situação insalubre, com fraldas a trocar, almoço a fazer, faxina atrasada, louça empilhada. Agora, tudo parece que foi pacífico e tranquilo.

Entre os projetos para o futuro, alguma outra biografia?
Tive a intenção de escrever a biografia não autorizada de um outro grande outsider, Luiz Melodia. Mas, até agora, as tratativas para ter acesso a acervo e a parentes não evoluiu muito, e acho mesmo que não vão evoluir. Uma pena, porque Melodia já está merecendo um exame que o traga para o centro do debate público, como artista e testemunha de seu tempo.

Você, a propósito, escreveu talvez o melhor obituário de Melodia e obituários não deixam de ser pequenas biografias. Vivemos tempos de grandes perdas ou é o fluxo natural das coisas e sempre foi assim?
Sou um otimista crônico. Experimento as perdas e choro as perdas, mas prefiro pensar que os ganhos estão em curso e vão trazer grandes contribuições ao futuro. As coisas que permanecem são as coisas vividas com intensidade, ousadia, eletricidade. Os reacionários não deixam legados.

Isso vale, por exemplo, para episódios como o julgamento de Lula e seu entorno, como o ódio cotidiano praticado nas redes sociais, mas não só?
Acho que se estende à política, ao comportamento, a tudo. O julgamento de Lula foi uma vergonha não só para nosso tempo, para o Brasil, mas para a História da humanidade. Como não há exemplos precedentes de recuo do autoritarismo, creio que vai piorar. Mas vejo o esforço de civilidade dos intelectuais, dos artistas, dos homens de ação, e sei que é algo que não vai triunfar.

Voltando a Belchior, esses retrocessos todos que estamos vendo e vivendo, ele, “cantador das coisas do porão” [verso de Conheço meu lugar, de 1979], que dizia “nunca fazer nada que o mestre mandar/ sempre desobedecer, nunca reverenciar” [de Como o diabo gosta, de 1976], entre tantos outros versos, tem sua obra atualizada pelo triste contexto, não?
Na verdade, acho mesmo que ele anteviu todos os contextos, como convém a um grande visionário. Em Baihuno, seu derradeiro disco, ele canta sobre todos esses dilemas nacionais: “Trogloditas, traficantes, neonazistas, farsantes: barbárie, devastação/ O rinoceronte é mais decente do que essa gente demente do Ocidente tão cristão” [versos da faixa-título]. Ou então: “Diz, América que és nossa/ Só porque hoje assim se crê/ Há motivos para festa?” [de Quinhentos anos de quê?]. O disco termina com uma versão de um poema de Iessiênin, o poeta russo suicida que escreveu: “Sim, está decidido: agora não há mais volta”. Ele transformou o poema em Até mais ver, que é sua despedida de um mundo irremediavelmente corrompido. Era uma decisão extrema, especialmente para um humanista e otimista como Belchior.

França, Lapa, Ilha e adiante

Francês radicado no Brasil há 15 anos, Nicolas Krassik está em São Luís. Amanhã (26) ele participa de uma roda de conversa, cujo tema é “Um violino francês na música brasileira”. O bate-papo acontece às 16h, no Auditório José Ribamar Martins, na Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo (Emem, Rua da Estrela, 365, Praia Grande).

Sábado (27) é a vez do franco-brasileiro desfilar seu talento na última edição desta temporada do projeto RicoChoro ComVida na Praça, a partir das 19h. Ele será acompanhado pelo Trio Crivador, grupo de virtuoses formado especialmente para a ocasião: Luiz Jr. (violão sete cordas), Rui Mário (sanfona) e Wendell de la Salles (bandolim). O grupo terá ainda o reforço do percussionista Marquinho Carcará. A noite contará ainda com discotecagem de Jorge Choairy e participação especial da cantora Flávia Bittencourt. Tanto o bate-papo quanto o sarau musical têm entrada franca. O projeto é patrocinado pela TVN, através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão.

Nicolas Krassik já é brasileiríssimo. Seu primeiro disco, intitulado Na Lapa [2004], bairro que ajudou a recolocar no mapa boêmio e musical brasileiro, abre com Krassik de Ramos, de Eduardo Neves, trocadilho com outro famoso bairro carioca, o Cacique de Ramos dos pagodes de Beth Carvalho, de cujo convite para gravar em disco, ele lembra com carinho em entrevista exclusiva a Homem de vícios antigos.

A Na Lapa seguiram-se Caçuá [2006], Nicolas Krassik e Cordestinos [2008], Odilê Odilá [2009], inteiramente dedicado a releituras instrumentais da obra de João Bosco, Nordeste de Paris [2013], também assinado com os Cordestinos, e Mestrinho e Nicolas Krassik [2016], dividido com o sanfoneiro. Ano passado ele lançou Antologia Nicolas Krassik – 15 anos de Brasil. Isso para falar apenas em carreira (mais ou menos) solo, fora as inúmeras participações em discos de artistas como Argemiro do Pandeiro, Chico Buarque, Chico Chagas, Edu Krieger, Gilberto Gil, Marcos Sacramento, Maria Gadu, Marisa Monte, Mu Carvalho, Pedro Luís, Pedro Miranda, Silvério Pontes, Yamandu Costa, Zé Paulo Becker e Zélia Duncan, entre outros.

Seu violino está na regravação de Namorada do cangaço (Cesar Teixeira), faixa de Batalhão de rosas, terceiro disco da carreira de Lena Machado, que a cantora maranhense lança ainda este semestre.

Foto: Elena Moccagatta

Homem de vícios antigos – Antes de sua apresentação, você participa da roda de conversa “Um violino francês na música brasileira”. O que será abordado durante a conversa?
Nicolas Krassik – A minha ideia é falar da minha trajetória, partindo da separação entre a música erudita e o popular, através do jazz, quais foram os desafios e as dificuldades, se livrar das partituras, desenvolver o ouvido, aprender a improvisar e procurar um swing diferente. Depois veio a descoberta da música brasileira, lá na França, aprendendo com os brasileiros de lá. Chegando ao Brasil, foram novos desafios, novas dificuldades, a descoberta mais profunda dessa cultura muito rica e muito diversa. Tive que aprender uma nova comunicação e espirito musical. Para tocar música brasileira, tem que se tornar um pouco brasileiro. Um violino é quase um detalhe, a pessoa é quem tem que se transformar e se adaptar.

Você está radicado no Brasil há década e meia. Como foi à época tomar a decisão de ficar?
Decidir ficar no Brasil foi fácil, quase óbvio. O difícil foi decidir viajar pro Brasil, nunca tinha viajado sozinho fora da França, somente a trabalho, foi um pouco assustador. Depois, quando vi tudo que estava acontecendo de bom comigo, no plano humano e profissional, tudo ficou bem claro.

Você já conhece São Luís? Se sim, quais as lembranças? E para esta sua vinda, quais as expectativas?
Acho que toquei em São Luís umas três vezes, a convite do meu amigo Mário Moraes, produtor apaixonado pelo samba do Rio de Janeiro. Eu lembro de um público muito caloroso e receptivo. Foi muito bom. Lugar lindo também. Só nunca deu tempo de conhecer os Lençóis. Imagino que essa nova oportunidade de ir para São Luís seja muito boa também, fico feliz dessa vez, de poder tocar com músicos da cidade, que sei que estão preparando esse encontro com muito carinho.

Qual será a base do repertório de sua apresentação?
Vamos tocar choro e forró, eu sou apaixonado por esses gêneros. Músicas minhas, do Sivuca, Dominguinhos e Jacob do Bandolim, entre outras.

Você já gravou com uma infinidade de grandes nomes da música brasileira. É possível destacar alguns momentos marcantes de sua trajetória?
Essa parte é delicada, foram mesmo muitos artistas. O primeiro convite veio da Beth Carvalho, pra gravar no cd Nome sagrado [2001, inteiramente dedicado ao repertório de Nelson Cavaquinho], depois gravei no dvd A madrinha do Samba. Essas duas participações foram essenciais para eu ganhar o meu “passaporte” pro mundo do samba. Outro grande encontro, um dos mais importantes pra minha trajetória, foi com Yamandu Costa. Gravei dois cds com ele e viajei o mundo inteiro. Devo muito a ele, aprendi muito, musicalmente e pessoalmente também. Não posso esquecer do Gilberto Gil. 10 anos depois de eu ter descoberto o cd Eu tu eles [2000, trilha sonora do filme homônimo, de Andrucha Wadington], ele me convidou para fazer parte do projeto Fé na festa [2010], onde o repertório era muito parecido. Esse disco tinha feito eu me apaixonar pela música nordestina. Tocar e viajar pelo mundo com esse artista incrível, foi uma aula de música e de vida, inesquecível.

No palco, você e o Trio Crivador terão a participação especial de outra maranhense, Flávia Bittencourt. Você já a conhece? O que pode dizer de seu trabalho?
Conheço e gosto muito da Flávia. A gente se conheceu no Rio e tive a alegria de gravar em dois cds dela. O primeiro foi um cd em homenagem ao Dominguinhos [Todo Domingos, de 2009], meu ídolo absoluto. O segundo, gostei muito também, gravei um xote com leitura mais moderna, elementos eletrônicos de muito bom gosto. Vai ser muito legal a gente poder se encontrar novamente e se apresentar juntos.

Quais os seus projetos para 2018?
Muitos projetos para esse ano, continuar o projeto Cordestinos, com novas composições e gravações, começar um projeto de duo com o violonista Gian Correa e tentar viajar mais pra Europa em busca de novas parcerias.

Melhores de 2017

Saiu hoje (17) a sempre aguardada lista de melhores do ano do Scream&Yell, um dos mais respeitados e longevos sites de cultura pop do Brasil, capitaneado pelo queridamigo Marcelo Costa. Pelo segundo ano consecutivo tive a honra de participar (a eleição do S&Y já conta 15 anos).

Contribuo em algumas categorias com meus votos sempre capengas. O resultado da votação final, com um time recorde de 126 votantes, quase nunca bate com meus pitacos, que de um modo ou de outro buscam levar em conta a questão regional, além de assumirem minhas falhas enquanto jornalista que cobre cultura (em São Luís) e, de algum modo, o fato de a ilha ser ainda distante (em relação, por exemplo, a cidades que recebem shows internacionais com maior frequência, entre outros aspectos), apesar da diluição dos conceitos de centro e periferia promovidos sobretudo pela internet – não à toa a votação é promovida por um site.

A seguir a lista com os votos nas categorias nas quais me atrevi a opinar. A quem quiser conferir os resultados de todas as categorias, lista de votantes etc., basta ir ao Scream&Yell. Para quem quiser lembrar minha lista com os melhores de 2016, aqui. Em tempo e modéstia à parte: sou o único jornalista maranhense a participar da votação.

MELHOR DISCO NACIONAL

Isca. Vol. 1. Capa. Reprodução

1. Isca – Vol. 1, Isca de polícia


2. Campos neutrais, Vitor Ramil

Tranqueiras líricas. Capa. Reprodução

3. Tranqueiras líricas, Marcelo Montenegro

Plano B. Capa. Reprodução

4. Plano B, Chico Saldanha

Rosa dos ventos. Capa. Reprodução

5. Rosa dos ventos, Claudio Lima

MELHOR SHOW NACIONAL

Foto: Zema Ribeiro

1. Baiana System, Festival BR 135, São Luís/MA

Foto: Laila Razzo

2. Quartabê, Festival BR 135, São Luís/MA

Foto: Zema Ribeiro

3. Eddie, Festival BR 135, São Luís/MA

Foto: Laila Razzo

4. Karina Buhr, Festival Elas, São Luís/MA

5. Carlos Pial, Lençóis Jazz e Blues Festival – Circuito São Luís, São Luís/MA

MELHOR FILME INTERNACIONAL

1. Star Wars: os últimos Jedi, de Rian Johnson

2. Neve negra, de Martin Hodara

3. Bye bye Alemanha, de Sam Garbarski

MELHOR FILME NACIONAL

Manuel Bernardino: o Lenin da Matta. Cartaz. Reprodução

1. Manuel Bernardino: o Lenin da Matta, de Rose Panet

2. Laerte-se, de Eliane Brum e Lygia Barbosa da Silva

Martírio. Cartaz. Reprodução

3. Martírio, de Vincent Carelli, Ernesto de Carvalho e Tita

MELHOR LIVRO

Belchior: apenas um rapaz latino-americano. Capa. Reprodução

1. Belchior – Apenas um rapaz latino-americano (Todavia), de Jotabê Medeiros

O risco do berro. Torquato, neto Morte e loucura. Capa. Reprodução

2. O risco do berro – Torquato neto Morte e loucura (ed. da autora), de Isis Rost

Anjo noturno. Capa. Reprodução

3. Anjo noturno (Companhia das Letras), de Sérgio Sant’Anna

Quelé, a voz da cor: biografia de Clementina de Jesus. Capa. Reprodução

4. Quelé, a voz da cor: biografia de Clementina de Jesus (Civilização Brasileira), de Felipe Castro, Janaína Marquesini, Luana Costa e Raquel Munhoz

Começa a envelhecer a mulher mais bela do mundo. Capa. Reprodução

5. Começa a envelhecer a mulher mais bela do mundo (Dubolsinho), de Sebastião Nunes

MELHOR MÚSICA NACIONAL

1. Adeus (Mestre Zió), Luiz Claudio ft Zeca Baleiro

2. Paçoca (Andreia Dias/ Anelis Assumpção/ Iara Renno/ Luciano Nakata Albuquerque/ Max B.O.), Curumin ft Andrea Dias, Anelis Assumpção, Edy Trombone, Iara Rennó e Max B.O.

3. As chuteiras do Itamar (Paulo Lepetit/ Vange Milliet/ Ortinho), Isca de Polícia

4. Choro de memórias (Chico Saldanha), Chico Saldanha

5. São Luís: variações líricas a partir de uma abertura de programa de reggae (Celso Borges/ Michael Riley), Claudio Lima

Covers de responsa

Foto: Dovilé Babraviciuté

 

“A Nação acende Radiola de clássicos”, anuncia a Nação Zumbi já na capa de seu álbum de covers, Radiola NZ Volume 1 – o que já deixa o fã clube em polvorosa: certamente vem um volume 2 aí, mas quando?

Radiola NZ. Capa. Reprodução

É disco curto – nove faixas – mas coeso: a banda não desmonta as faixas que relê, mas tem a pegada mangue, o peso da Nação.

Gilberto Gil, que gravou com a Nação Zumbi ainda nos tempos de Chico Science, em Afrociberdelia (1996), comparece ao repertório: é dele Refazenda, faixa que abre o disco unindo os tambores dos pernambucanos aos metais dos baianos da Orquestra Rumpilezz, liderada pelo maestro Letieres Leite. É como se a banda devolvesse uma gentileza, mais de 20 anos depois.

Causou frisson o anúncio, ano passado, do encontro, no Rock’n Rio, da Nação Zumbi com Ney Matogrosso, para um show baseado no repertório do Secos & Molhados. Uns gostaram, outros não, especulou-se sobre um disco do cantor com o grupo (como aconteceu em Vagabundo, que Ney assina com Pedro Luís e A Parede). Em Radiola NZ o encontro entre Ney e a Nação é eternizado em Amor (João Ricardo/ João Apolinário), que contrasta a leveza da letra (“leve, como leve pluma, muito leve, leve pousa”) e do canto de Ney com o peso da Nação, uma de suas marcas.

O disco reverencia ainda o ídolo soul Tim Maia (Balanço) – que já comparecia ao repertório do Almaz, projeto paralelo de Seu Jorge com o guitarrista Lúcio Maia e o baterista Pupillo –, Roberto Carlos (Não há dinheiro que pague, de Renato Barros, autor de muitos hits da Jovem Guarda), The Specials (Do nothing, de Lynval Golding), o muito censurado Taiguara (Dois animais na selva suja da rua), Beatles (Tomorrow never knows, de Lennon/McCartney), Marvin Gaye (Sexual healing, de Gaye com David Ritz e Odell Brown) e David Bowie (Ashes to ashes).

O repertório é quase inteiro de clássicos, músicas muito conhecidas e por vezes muito regravadas. Não deve ter sido fácil, mas a Nação Zumbi cumpriu com coerência o desafio a que se propôs, atraindo novos públicos para a própria banda e para os autores que releem.

Talvez a camisa 10, digo, a faixa 10 pudesse trazer um Jorge Benjor, outro ídolo confesso da rapaziada. Mas para isso Jorge dü Peixe e companhia têm outro projeto paralelo, o Los Sebozos Postizos, em que integrantes da Nação Zumbi dedicam-se a reler a obra do carioca.

Baile quer manter as tradições do carnaval brasileiro

Festa idealizada por Joãozinho Ribeiro terá presença de 15 artistas, entre intérpretes e instrumentistas

Célia Maria (à esquerda) solta o vozeirão durante ensaio, observada por Joãozinho Ribeiro (de chapéu). Foto: Hugo Carafunim

 

Sobre Joãozinho Ribeiro já afirmou Zeca Baleiro: um Quixote musical. Onde houver dois ou mais cristãos interessados em boa música, ali estará João. Dois é modo de dizer, que com apenas dois nem ele mesmo faz qualquer coisa. Seu espírito agregador sempre transforma qualquer empreitada sua em um grande acontecimento.

É o caso do Baile Allah-lá-ô no Ali Babá, que ocupa o restaurante especializado em comida árabe no próximo sábado (13), a partir das 17h. Na banda, os Arlindos Carvalho (bateria) e Pipiu (contrabaixo), Marcão (guitarra), Fleming (percussão), Gonzaga (sax), Gerson (trompete) e Walber Carvalho (voz), egresso de Nonato e Seu Conjunto. O time de intérpretes que se revezará no palco tem, além do idealizador e idealista Joãozinho Ribeiro, Célia Maria, Gabriela Flor, Rosa Reis, Josias Sobrinho, Cesar Teixeira, Celso Reis e Chico Neis. Os ingressos custam apenas R$ 10,00 e podem ser adquiridos no local.

“Carnaval é a festa brasileira da liberdade, dos reencantamentos artísticos e, por que não, da PAZ? “Bandeira Branca, amor”, com “tanto rei vestido de mendigo; tanto mendigo vestido de rei”, “procurei pela cidade, não achei o meu amor”, “antes que o Carnaval nos separe… te gruda no meu fofão””, afirma Joãozinho Ribeiro, antecipando alguns clássicos carnavalescos que comparecerão ao repertório, incluindo músicas autorais.

“Será possível reunir, ajuntar, compartilhar Ari Barroso, Nássara, Lamartine Babo, Noel Rosa, Braguinha, Cristóvão Alô Brasil, Caboclinho, Zé Pivó, Cesar Teixeira, Josias Sobrinho, Joãozinho Ribeiro e um rol de intérpretes do mais reluzente quilate, tais como Celia Maria, Rosa Reis, Celso Reis, além de um time de músicos de prima, sob a batuta destes dois patrimônios das nossas humanidades, Arlindo Pipiu e Arlindo Carvalho? Será o Benedito? Ou a Benedita?”, indaga-se/nos, provocador.

A festa promete, valorizando as melhores tradições do carnaval brasileiro. Joãozinho Ribeiro arremata, certeiro: “plena certeza de que a jardineira não terá motivação nenhuma para ficar triste…”.

À guisa de retrospectiva

[breve comentário nO Imparcial de hoje, com os destaques na Cultura do Maranhão em 2017, a pedido da queridamiga Patrícia Cunha; minha lista de melhores do ano ainda vem, a pedido de Marcelo Costa, para o listão do Scream&Yell, baita honra]

Manuel Bernardino: o Lenin da Matta. Frame. Reprodução

Prefiro apontar apenas destaques, por que a cultura por si só já é tão golpeada, que nas atuais circunstâncias merece ser valorizada toda iniciativa neste campo, com ou sem patrocínio, com leis de incentivo ou às próprias custas s/a, desde que nutrida de verdade e amor. Os destaques do ano são as produções gratuitas que ocuparam logradouros públicos, como o Festival BR 135, que, na contramão da crise nacional, dobrou sua duração, o RicoChoro ComVida na Praça, o Bloco do Baleiro no carnaval, o Festival Elas, o Lençóis Jazz e Blues Festival, entre outros, realizados com recursos garantidos através das Leis de Incentivo, além da Aldeia Sesc Guajajara de Artes e a Quinta do Reggae, na Praia Grande. Entre os lançamentos musicais, os discos de Chico Saldanha (Plano B), Claudio Lima (Rosa dos Ventos) e Pão Geral – Tributo a Tribuzi, reunindo vários artistas sob produção do incansável Celso Borges, que ainda presenteou a cidade com o livro São Luís em palavras, também reunindo vários nomes. Outro livro que merece celebração é O risco do berro: Torquato neto Morte e loucura, de Isis Rost. No cinema eu não poderia deixar de destacar Manuel Bernardino: o Lenin da Matta, da cineasta Rose Panet, que traz à luz um personagem pouco conhecido e bastante atual e, sob a égide do golpe, ainda conseguiu ser exibido em algumas tevês públicas e festivais, recebendo menção honrosa em Mumbai, na Índia. No teatro, o musical João do Vale – O gênio improvável foi um fecho com chave de ouro.

Bruno Batista lança hoje (27) em São Luís videoclipe de Caixa preta

Divulgação

 

Logo mais às 20h, de graça, no Cine Praia Grande (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande), o cantor e compositor Bruno Batista lança o videoclipe de Caixa preta (classificação indicativa: 14 anos), faixa de Bagaça (2016), seu quarto disco.

Este que vos perturba terei o prazer de mediar um papo entre o artista, o diretor Arturo Saboia, a produtora Luna Gandra e o ator Raffaele Petrini, diretor do Cine Praia Grande. Após a conversa e a exibição do videoclipe, uma after party com entrada gratuita aguarda o público no Chico Discos (esquina de 13 de Maio com Afogados, Centro), em que Petrini assume seu terceiro papel: o de dj da festa.

Com patrocínio de TVN, através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão, o videoclipe Caixa preta foi rodado em dois dias em um casarão do Centro Histórico ludovicense. É estrelado por Ana Carolina De Dea e Petrini e a equipe técnica se completa com Arturo Saboia (roteiro e direção), Luna Gandra (produção executiva/set), Elden Magrão (direção de fotografia), Cris Quaresma (direção de arte/figurino), Manoel (logger/drone) e Magaive (gaffer).

Nesta faixa de Bagaça, Bruno Batista (voz) é acompanhado por Rovilson Pascoal (violão e produção), Gustavo Ruiz (guitarra e synth), Meno del Picchia (contrabaixo), Felipe Roseno (percussões e percussões eletrônicas), Pedro Mibielli (violino), Glauco Fernandes (violino), Dhyan Toffolo (viola) e Marcus Ribeiro (violoncelo). O arranjo de cordas é de João Carlos Araújo.

Letra de Bruno Batista e música de Demetrius Lulo, Dandara e Paulo Monarco, Caixa preta é uma canção de amor com referências que vão de Caetano Veloso a Mestre Leonardo. Ouça e chegue cantando ao lançamento do videoclipe: