Em um vídeo de divulgação de seu novo disco, Mônica Salmaso afirma não se tratar de uma dissertação de mestrado sobre a música caipira ou coisa que o valha. “Sou tabaréu, sou capiau, sou caipira”, anuncia o verso inicial da faixa-título (Breno Ruiz/ Paulo César Pinheiro), que abre Caipira [Biscoito Fino, 2017, R$ 33,90] – com citação de A lenda do caboclo (Heitor Villa-Lobos), mas engana-se quem pensa que o tema é tratado ali como o é em geral: como sinônimo de atrasado ou subdesenvolvido.
Graças à tecnologia as barreiras entre urbano e rural estão cada vez mais diluídas. É claro que o chapéu de palha que a cantora usa na capa do disco, o jarro com flores em uma bancada na capa do encarte e bordados em suas páginas evocam um Brasil interiorano, remetendo a certo bucolismo, ou, como ela canta em Minha vida (Vieira/ Carreirinho): “eu trago na lembrança quando era criança/ morava na roça e gostava da troça/ do munjolo d’água, da casa de tábua” – a música é cerzida apenas pela sanfona de Toninho Ferragutti e pela viola caipira de Neymar Dias, craque do instrumento, com ele capaz de mais lances geniais que seu xará em campo.
O repertório de Caipira é afetivo. Estão lá grandes mestres da música caipira, a exemplo de Marco Antonio Vilalba, o Passoca (de quem ela regrava Sonora garoa, que encerra o disco, acompanhada apenas pelo piano de André Mehmari) e Zezinho da Viola (A velha), mas seu trunfo está em justamente não se prender a rótulos. É sublime, por exemplo, sua regravação para Bom dia, rara parceria de Nana Caymmi e Gilberto Gil. Ou para Água da minha sede (Dudu Nobre/ Roque Ferreira), em que Mônica Salmaso (voz, tambor, caxixi, palmas) é escoltada por Teco Cardoso (flautas e palmas), Nailor Proveta (clarinete), Neymar Dias (viola caipira) e Robertinho Silva (djembe, caxixi, ganzá, pandeiro e palmas).
A arregimentação é de uma sofisticação ímpar. Em Saíra (Sérgio Santos), a voz de Mônica Salmaso é emoldurada apenas pelo violão do compositor, em participação especial, e pelo piano de André Mehmari. Outra grata surpresa do disco é a regravação da trágica toada Feriado na roça, do sambista Cartola. Açude verde (Sérgio Santos/ Paulo César Pinheiro) é outro ponto alto do disco, inspirada declaração de amor: “O meu peito era o nordeste/ era de seca e peste/ era do coisa ruim/ mas o céu mudou de brilho/ chuva em pé de milho/ foi teu olho em mim/ engordurou o capim/ deu broto de alecrim”, começa a letra.
O sucessor do ótimo Corpo de baile (2014), com repertório inteiramente dedicado à parceria de Guinga e Paulo César Pinheiro, reaproxima Mônica Salmaso do Maranhão. Se a capa e encarte de Noites de gala, samba na rua (2007), seu disco dedicado ao cancioneiro de Chico Buarque, eram enfeitados por fotos da capital São Luís, neste novo disco aparece Alvoradinha, música da tradição oral das caixeiras do Divino do Maranhão.
Caipira é também o título de um álbum antológico de Rolando Boldrin, lançado em 1981, com diversos clássicos da música caipira. Apresentador de tevê e exímio contador de causos, ele é saudado no encarte como “convidado especialíssimo” em Saracura três potes (Candido Canela/ Téo Azevedo), que canta com Mônica Salmaso. Papa no assunto, abençoa seu enveredar pelo terreno. A música fala de uma ave comum em áreas alagadas do Brasil, mas se bem pensarmos, poderia mesmo estar falando da cantora: “seu canto tem a mistura/ de alegria e tristeza/ é flauta que Deus lhe deu/ pelas mãos da natureza/ à tardinha nos comove/ qual canto da Ave-maria/ muitas vezes nos encanta/ quando vem rompendo o dia”, diz trecho da letra.
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Veja a cantora em Água da minha sede (Dudu Nobre/ Roque Ferreira):
Há alguns anos uma enquete da revista Rolling Stone Brasil elegeu Acabou chorare (1972), dos Novos Baianos, o melhor disco da música brasileira em todos os tempos. A história é por demais conhecida: após uma estreia mais roqueira em Ferro na boneca (1970), a trupe de Moraes Moreira, Luiz Galvão, Baby Consuelo, Pepeu Gomes, Paulinho Boca de Cantor e companhia deu uma guinada rumo à brasilidade após uns encontros com o papa João Gilberto.
O conterrâneo (de Juazeiro, como Galvão) já havia revolucionado a música mundial como um dos inventores da Bossa Nova, com seu violão e seu canto sui generis. Ao encontrar o bando em um apartamento no Rio de Janeiro apresentou-lhes Assis Valente, compositor de sucessos de antigos carnavais, já falecido. A ele, os Novos Baianos somaram cavaquinho, bandolim e percussão: nA Cor do Som da comunidade hippie Jacob do Bandolim caiu no rock, Jimi Hendrix no choro.
“Chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor”. O Brasil pandeiro do também baiano (de Santo Amaro) abre o que viria a se tornar um clássico – não à toa o bom público presente ao Fanzine Rock Bar na noite de ontem (14) cantou a íntegra de seu repertório a plenos pulmões. A Calabar, banda responsável pelo belo tributo, não se limitou a Acabou chorare.
A influência de João Gilberto não pararia por ali, no entanto. A faixa-título também tem seu dedo: Moraes Moreira e Luiz Galvão escreveram-na após ouvir a história contada por aquele a quem Caetano Veloso já se referiu como “melhor do que o silêncio”. Bebel Gilberto, filha de João, então uma criança, havia caído e chorou. Depois de superar a dor e enxugar as lágrimas, mandou em um latim infantil e particular: “acabou chorare”, inspirando o baiano de Ituaçu e seu parceiro de Juazeiro.
Surgida mais ou menos recentemente, a banda Calabar havia se notabilizado no cenário ludovicense ao estrear com um show-tributo ao mítico Transa (1972), de Caetano Veloso, que contava entre outros feitos com o violão de Jards Macalé e o trazia primeiro registro fonográfico de Angela Ro Ro, que toca gaita em Nostalgia (That’s what rock’n roll is all about), faixa que encerra o álbum.
O nome do grupo é inspirado na peça de teatro musicada Calabar: o elogio da traição (1973), de Chico Buarque e Ruy Guerra. Se “tradução é traição”, como atestam experts no assunto, está explicada a química no palco: não há cavaquinho ou bongô, por exemplo, é como se os Novos Baianos decidissem refazer Acabou chorare com a pegada de Ferro na boneca.
A Calabar é formada por Fernando Marques (contrabaixo, um monstro que parece ter saído de uma banda inglesa), Fernando Moreira (bateria), Paulo Muniz (guitarra e violão), Rômulo Rodrigues (guitarra) e Cláudio Leite Filho (voz, filho de Cláudio Leite, famoso na noite da Ilha sobretudo pelas releituras de Chico Buarque), e ontem contou com o reforço de Jéssica Góis (voz), que já havia feito uma apresentação inteira com a Pédeginja, um dos shows de abertura da noite, que teve ainda Marcos Magah e Tiago Máci (que este repórter não viu) – rouca por volta das duas da manhã, bateu o recorde de Juninho Paulista, que em 1994 disputou duas partidas pelo São Paulo Futebol Clube no mesmo dia.
O show da Calabar refez a íntegra do repertório de Acabou chorare – a banda não se preocupou com a ordem das faixas no disco, o que certamente seria óbvio demais, nem com os vocais masculinos e femininos divididos entre Moraes Moreira, Paulinho Boca de Cantor e Baby Consuelo. A faixa-título, por exemplo, no disco interpretada por Moreira, foi relida por Jéssica Góis no show de ontem. É preciso ter personalidade para certas ousadias.
Ainda que fora da ordem, um show apenas com o repertório de Acabou chorare seria curto e a Calabar espraiou-se por outras fases da carreira do grupo, lembrando clássicos como Samba da minha terra (Dorival Caymmi) e Na cadência do samba (Ataulfo Alves/ Paulo Gesta/ Matilde Alves), mais heranças joãogilberteanas.
“Mais um, Bahia”, pede o hino do tricolor baiano, cuja letra é emendada, em Cosmos e Damião (Luiz Galvão/ Moraes Moreira) ao Bim Bom de João Gilberto (ele de novo!), ao que a Calabar mixou, ao vivo, A rã (João Donato/ Caetano Veloso), Quando você chegar (Luiz Galvão/ Pepeu Gomes) e Bananeira (João Donato/Gilberto Gil).
Outra extra que não está em Acabou chorare, Dê um rolê (Luiz Galvão/ Moraes Moreira), recentemente abertura de novela na interpretação de Pitty, e seu mantra “eu sou amor da cabeça aos pés” era um pouco o resumo da comunhão das almas apreciadoras de boa música presentes ao Fanzine, reverenciando o frescor de um disco lançado há 45 anos. Não à toa, a festa, encerrada com Preta pretinha (Luiz Galvão/ Moraes Moreira), se chamava Baile tropical.
A pianista Rose Mary Fontoura e o Instrumental Pixinguinha. Foto: divulgação
Um bom público se fez presente ontem (7) ao Cine Praia Grande (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande), onde, pouco depois das 18h aconteceu mais uma edição do projeto Concertos Sesc Partituras.
O grupo já existe há 27 anos, embora sua formação tenha variado desde então e a história é bastante conhecida: formado nos corredores da Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo (Emem), o Instrumental Pixinguinha foi o primeiro grupo maranhense a dedicar um disco inteiramente ao choro: Choros maranhenses (2005) reúne composições de seus integrantes e pérolas de mestres já falecidos, todos nascidos no Maranhão.
O repertório do concerto foi executado sem amplificação, apenas com o som natural dos instrumentos, como é a proposta original de projetos como o Concertos Sesc Partituras e o Sonora Brasil. Dividido em duas partes, a apresentação, no primeiro momento, revezava os integrantes do Instrumental Pixinguinha em duos com a também professora da Emem Rose Mary Fontoura, como na valsa Zinha (Patápio Silva), que abriu o espetáculo com ela acompanhada pela flauta de João Neto – na sequência, outra composição de Patápio Silva com a mesma formação, Serenata d’amore.
Raimundo Luiz (bandolim) e Domingos Santos (violão sete cordas) executaram Rios (Paulinho Martins). “Carlos Gomes, um dos maiores compositores brasileiros em todos os tempos”, reverenciou o professor Raimundo Luiz, ao duetar com Rose Mary Fontoura em Al chiaro di luna.
Depois foi a vez de ela ficar sozinha no palco e interpretar duas peças de “uma mulher que eu admiro bastante, uma mulher à frente de seu tempo”, como enfatizou ao anunciar Chiquinha Gonzaga e suas Atraente, mais pulsante, e Tamoio, de andamento mais lento, como ela mesmo indicou – a confessada influência é perceptível na maestria de suas execuções.
O dueto de bandolim e violão sete cordas se repetiu no baião Minha terra, de Jorge Cardoso – bandolinista que é uma das atrações da temporada 2017 do projeto RicoChoro ComVida na Praça, cuja edição inicial acontece no próximo dia 20 (sexta-feira), às 19h, no Anfiteatro Betto Bittencourt, no mesmo Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, tendo como atrações o dj Pedro Sobrinho, o Regional Deu Branco e o encontro de gerações de Josias Sobrinho e Tiago Máci, voltamos à nossa programação normal.
Outra peça de Chiquinha Gonzaga encerrou o primeiro bloco da apresentação: o Candomblé, de visível influência africana, executada por Rose Mary Fontoura (piano), Nonatinho (pandeiro) e João Neto (flauta e pífano).
A segunda parte do concerto concentrou-se em uma pequena amostra do repertório de Choros maranhenses, único disco do Instrumental Pixinguinha lançado até aqui. “Estas músicas, nossas, ainda não estão no site do Sesc, mas nós já estamos providenciando. Aí qualquer um vai poder executar”, anunciou Raimundo Luiz, referindo-se ao acervo do site Sesc Partituras, em que está disponível para download a maior parte das peças executadas no concerto de ontem.
O quinteto começou por Lembro-me de você assim, feita por Juca do Cavaco em homenagem a seu falecido sogro – ele cumprimentou a esposa, na plateia, antes do início da execução –, tocando, na sequência, Miritibano (Domingos Santos), choro autobiográfico – o título é o gentílico de Miritiba, hoje Humberto de Campos, no interior do Maranhão, terra natal do autor –, e Elegante (Raimundo Luiz), antes da qual o pedagógico Juca do Cavaco fez deferências à Rádio Universidade FM, “a 106,9”, enfatizou a frequência, em cujo prêmio anual a música foi vencedora há alguns anos e por cuja frequência vai ao ar, nas manhãs de domingos, o Chorinhos e Chorões, do qual Juca é ouvinte assíduo e virou bordão, apresentado por Ricarte Almeida Santos, “um dos maiores batalhadores pelo choro em nosso estado”.
Talvez o momento de maior emoção do concerto tenha sido a execução, pelos seis músicos, do belo Choro axixaense, do compositor José Maria Fontoura, pai da pianista e autor da melodia do hino daquele município da região do Munim – a letra do hino é da poeta Mary Silva Fontoura, sua mãe.
Rose Mary Fontoura e o Instrumental Pixinguinha foram aplaudidos de pé por uma plateia em êxtase. Ainda de pé, a pianista anunciou o bis: Chiquinha Gonzaga voltava a aparecer, com Gaúcho, com a pianista novamente acompanhada do grupo completo. Um fecho sublime para um concerto de repertório brasileiríssimo, que dá algumas provas a quem porventura insista em duvidar: há plateia para a música que não encontra espaço em grandes meios de comunicação; vivos ou falecidos, nossos mestres não devem nada a ninguém em termos de qualidade; e é preciso investir cada vez mais em projetos/espaços de fruição como o Sesc Partituras.
O público maranhense tem reencontro marcado com Rita Benneditto na próxima sexta-feira (8), aniversário de São Luís, ocasião em que a artista fará um show dentro da programação do Governo do Maranhão pelos 405 anos da capital. Ela sobe ao palco do Espigão Costeiro da Ponta d’Areia às 21h.
Como seu conterrâneo Zeca Baleiro, Rita também está completando 20 anos de carreira fonográfica em 2017: seu primeiro disco foi lançado em 1997, com produção dele e Mário Manga (ex-Premeditando o Breque), e repertório que incluía Antonio Vieira, Carlos Careqa, Márcio Greyck e Vital Farias, entre outros.
Em entrevista exclusiva a Homem de vícios antigos, por telefone, ela comentou o repertório do show, o início da carreira, influências, a importância do Maranhão em seu fazer artístico, as parcerias com Jussara Silveira e Teresa Cristina, novos projetos, a mudança de nome artístico e, assunto inevitável nestes tristes tempos, política.
Foto: Marcos Morteira
Você é uma das artistas maranhenses mais bem sucedidas nacionalmente, ao lado de Alcione e Zeca Baleiro, mas por outro lado faz poucos shows por aqui. A que você acha que se deve essa ausência e qual a sensação de reencontrar o público maranhense numa ocasião como o aniversário da capital do estado? Eu lamento muito que eu vá muito pouco a São Luís, que é a minha terra. Eu acabo tendo que concordar quando muita gente diz que santo de casa não faz milagre [risos]. Eu gostaria de ir sempre, uma ou duas vezes por ano, no calendário de festas de São Luís. É meu porto seguro, é o lugar onde eu comecei, são minhas referências, onde eu formatei toda minha história. Eu tenho um trabalho de pesquisa muito grande com a cultura popular brasileira, e especialmente a cultura do Maranhão. Eu sempre digo em qualquer lugar onde eu vou, que o Maranhão, junto com Pernambuco e Bahia, é a tríade máxima do Nordeste e da cultura. É o alicerce, por que as tribos africanas, o povo africano, o povo que se deslocou para essas regiões, o povo negro e ameríndio, tem um poder muito grande, concentrou um poder muito grande e estabeleceu uma cultura muito forte. Mas geograficamente o Maranhão se prejudica um pouco, por que não está muito próximo desses eixos aqui onde as coisas normalmente funcionam mais. Eu lamento muito que eu não consiga. Quando eu vou eu tento fazer um show no teatro, as pessoas acabam nem indo, meu ingresso custa 80, 60 reais, elas querem pagar 400 reais num desses caras aí. O Nordeste tem uma cultura popularesca muito grande, um consumo de sofrência e popozão [risos], eu não tenho como questionar, eu tenho um trabalho específico. Eu lamento que eu vá muito pouco a São Luís, eu me ressinto disso, mas tá tudo bem, a gente quando vai, vai feliz. Minha expectativa, sempre que eu vou, é maravilhosa, por que eu vou encontrar o público maranhense, eu vou fazer o melhor de mim cantando coisas minhas, coisas da minha terra, ainda mais quando é uma festa tão especial como o aniversário da cidade, por que concentra um número maior de pessoas, é público, é de graça, de graça entre aspas, por que nós pagamos impostos [risos].
Falando nisso, o que o público pode esperar em termos de repertório? Que banda te acompanha? Fale um pouco do show. Na verdade eu tou com uma banda agora um pouco reduzida, um trio, power trio mesmo, bateria, baixo e guitarra. É o Ronaldo Silva, que é filho do Robertinho Silva, que é um grande músico, percussionista, baterista, o Pedro Dantas, que é meio maranhense, carioca, foi criado aí no Maranhão, é baixista, toca hoje com a Lucy Alves, com a Vanessa da Mata, garoto novo e muito bom, e o Fred Ferreira, que é guitarrista aqui do Rio de Janeiro, está comigo já há um tempão, faz a direção. Eu reuni na verdade músicas de vários de meus trabalhos, não dá para fazer tudo, é apenas um show, tem outras atrações, o espaço dos shows serão divididos entre as pessoas que vão se apresentar [além dela sobem ao palco Carlos Gomes, Cláudio Fontana, Criolina e Tom Cléber]. Eu reuni canções de meus discos anteriores, Filhos da precisão, de Erasmo Dibell, Divino, que é meu com Zeca Baleiro, tem De mina, de Josias Sobrinho. Eu quero cantar Ilha bela, tem um tempão que eu tenho vontade de cantar, que é do Carlinhos Veloz e ele faz uma homenagem linda a São Luís do Maranhão, Tambor de crioula, de Oberdan e Cleto Jr., as coisas do Tecnomacumba, que todo mundo curte e gosta, Cavaleiro de aruanda, Moça bonita, Deusa dos orixás, estou pensando em fazer um reggae mais clássico, o Police and thieves, que foi um dos primeiros reggaes que eu ouvi, do Junior Murvin, quando eu morava na Cohab. Eu reuni várias coisas, quero fazer um show dançante, a gente vai estar na rua, na beira da praia, quero fazer uma festa bem legal. Vai ter reggae, vai ter macumba [risos], vai ter balada. Eu espero agradar meu público maranhense, eu não tenho o que dizer, nem reclamar, eu me sinto muito bem recebida pelo público do Maranhão. Mesmo indo pouco aí eu sei que as pessoas gostam de meu trabalho e a gente tem que ir na luta, fazendo, trabalhando, sempre com amor e alegria.
Tua carreira começa colada com Zeca Baleiro, vocês lançam os discos de estreia juntos, o teu primeiro produzido por ele com o Mário Manga, mas passado algum tempo vocês se descolam. Foi um processo natural esse afastamento? Ou é um afastamento só ilusório, vocês não se afastaram? Como é essa relação, hoje? A gente ficou muitos anos muito juntos, unha e carne. Eu sempre digo que eu sou a voz das canções de Zeca Baleiro [risos], e que ele é meu compositor, por que a gente tem realmente uma afinidade musical muito grande e também afetiva, nós somos do mesmo estado, a gente cresceu em São Luís. Eu acabei indo pra São Paulo, depois acabei convencendo-o a ir a São Paulo para morar, ele foi quem dirigiu meu primeiro show no Maranhão, o Cunhã, depois quando ele foi pra São Paulo ele acabou participando junto com Mário Manga da direção do meu primeiro disco. É uma pessoa extremamente presente no meu trabalho e eu tenho muito orgulho disso. Mas o tempo e o fato de ele ter ficado em São Paulo e eu ter vindo morar no Rio, isso naturalmente afastou a gente, afastou bastante. A gente tem pouco contato, porém, sempre que a gente tem contato é sempre amoroso, é sempre com afeto e boa memória das coisas. Agora mesmo ele me convidou para participar aqui de uma noite de forró que teve na Fundição Progresso. Foi ótimo nosso reencontro, a gente cantou várias músicas juntos. Sempre que a gente pode estar junto, a gente está, mas não mais como era antigamente, aquela coisa bastante presente e constante como era no período em que a gente se conheceu e no período em que eu morei em São Paulo. Acho que é natural, ninguém se perdeu, mas ninguém está mais tão próximo, a vida vai seguindo, a gente com ela, e as coisas vão mudando naturalmente. Mas eu tenho muito amor e muito respeito a Zeca, ao trabalho dele e tudo o que a gente viveu junto.
Ele acabou de lançar um álbum digital de duetos iniciando as comemorações de 20 anos de carreira, que é uma marca que você também atinge agora em 2017, do ponto de vista fonográfico. Vocês já tinham carreiras antes, mas o marco que se considera para efeito de comemoração, como ele me disse em uma entrevista, é o lançamento do primeiro disco. Você está preparando algum trabalho específico para celebrar este marco?
Encanto. Capa. Reprodução
Pra te falar a verdade eu nunca fiquei muito ligada nessa coisa de tempo. Tempo no sentido “ah, 25 disso, 30 daquilo”, acho que o tempo é muito relativo em relação a isso. Eu não gosto de demarcar esse tipo de tempo pro meu trabalho, tudo é tão cíclico, tão permanente e impermanente, que eu prefiro ir fazendo as coisas. Como hoje as mídias mudaram muito, os discos físicos quase não vendem, a gente está tendo que se desdobrar em formas de lançamento. Eu sempre tive como ponto forte de meus trabalhos os meus shows, os meus projetos. Por exemplo o projeto Tecnomacumba começou sem disco nenhum, só depois de três anos lançado que eu fui gravar o primeiro registro dele em estúdio. Ele durou 12 anos em cartaz, muito em consequência dos shows que eu fiz. Eu estou muito mais envolvida com os shows, os projetos de shows, do que necessariamente os registros disso, o disco. A produção é muito alta e acaba não tendo retorno do investimento. Mas a gente tem que estar lançando, sempre. Eu estou optando por lançamentos pequenos, de EPs ou single, não necessariamente um disco de 14 músicas. Estou com dois projetos agora em cartaz, o Zabumba Beat, que eu estreei aqui em São Paulo em agosto, que é uma reverência aos tambores do Brasil, de norte a sul, especialmente a zabumba, que é um instrumento africano que está presente em vários ritmos brasileiros, especialmente os ritmos do xote, forró, que junto com a sanfona e o triângulo formam a trindade máxima das festas juninas do brasil. Zaumba Beat por que de novo eu estou explorando os timbres eletrônicos, as possibilidades todas que a tecnologia pode nos dar, ressaltar o som original dos tambores, os couros verdadeiros, grandes, ancestrais. É um show que deu megacerto, além do Ronaldinho Silva eu chamei o Donatinho, que é o filho do João Donato para fazer toda a parte eletrônica, dos sintetizadores. E paralelo a isso eu também estou com um projeto chamado Suburbano Coração, que é totalmente diferente, sou eu e o maestro Jaime Alem, que foi maestro de Maria Bethânia durante muitos anos. A gente sempre quis estar junto, sempre quis fazer um trabalho nosso, e a gente se juntou em voz e violão, viola, são instrumentos de cordas. A gente estreou no circuito Sesi, agora está indo pra São Paulo, está começando a rodar. São dois projetos que eu estou bastante envolvida no momento. Paralelo a isso eu continuo fazendo o que eu hoje chamo de Tecnomacumba Encantada, por que eu juntei o Tecnomacumba com o Encanto, estou fazendo este show com os dois discos de carreira misturados.
Adorei os nomes dos projetos, Suburbano Coração e principalmente Zabumba Beat. Eu abro o projeto com Urrou, de Coxinho, uma vinheta, depois engato ele no Mimoso, de Ronald Pinheiro. Eu vou costurando, minha ideia é ressaltar os ritmos. Mesmo que eu escolha músicas tradicionais, como músicas de Luiz Gonzaga, ou João do Vale, Coroné Antonio Bento, a ideia é ressaltar os ritmos brasileiros onde a zabumba é muito presente. Estou tentando com isso destacar mais a ritmia do Maranhão. As pessoas conhecem pouco a ritmia do Maranhão, por que o compasso do Maranhão é diferenciado do resto do país. Enquanto todo mundo trabalha em quatro por quatro, no Maranhão a gente trabalha em três [risos]. Todos os ritmos são ímpares, o tambor de mina, o divino, as pessoas talvez tenham dificuldade em assimilar um pouco isso. Parece besteira mas não é. Tem De mina, que é uma música que eu gravei no Encanto, de Josias Sobrinho, eu quis destacar justamente o ritmo do tambor de mina, mas eu gravei num gênero que é extremamente atemporal, que é o rock. Por que tudo é rock! Destacar isso de uma maneira sem perder o valor do ritmo, sem perder a força da mina, por que é tão rica a nossa ritmia do Maranhão, que eu não sei nem te dizer quanto. Então eu quero nesse Zabumba Beat destacar mais ainda o tambor de crioula, o boi de zabumba, aquele ritmo alucinante do sotaque de zabumba, de Pindaré, de uma maneira que possa chegar a todos os lugares do mundo. Não tou preocupada em ser purista, nem quero destruir o que é original, e o que é a célula mãe. Eu quero apenas destacar a ritmia do nosso estado que é fantástica.
O nome inevitavelmente me lembrou o Bumba Beat de Otávio Rodrigues, eu não sei se você lembra do programa de rádio. Sim, eu me lembro. Me lembro muito disso, do Doctor Reggae e o Bumba Beat dele. Eu não podia botar Bumba Beat por que já tinha marca registrada.
Falar em marca registrada, você mudou o nome, há cinco anos, de Rita Ribeiro para Rita Benneditto, com dois n e dois t. Como é que você avalia essa mudança hoje, passados estes anos. Mudou algo na própria Rita ou foi só o nome artístico mesmo? Menino, eu já assimilei, graças a Deus, muito rápido.
O público também, não? Muita gente do Brasil, de vários lugares, ainda me conhece por Rita Ribeiro. Eu não entrei em nenhuma paranoia por isso. Eu não fiquei neurótica, nem reclamando. Me chamam de Rita Ribeiro, eu digo “olha, agora mudou”, na boa. Acho que tem tempo para ser assimilado. Acho que o que me deu muita força, me respaldou muito na mudança de nome foi descobrir que eu não tinha um público qualquer, eu tenho um público extremamente fiel a meu trabalho. Não é mais nem fã, é fiel mesmo. As pessoas estavam mais interessadas na minha música, na minha voz, do que necessariamente no fato de eu ter trocado o nome. Tem gente que “ah, eu preferia Ribeiro”, “ah, mas Benneditto tá lindo”. Eu acho maravilhoso, quisera eu há muitos anos já ter pensado nisso, por que é o nome que está dentro da minha história toda, meu pai se chamava Fausto Benedito Ribeiro, eu nasci na cidade de São Benedito do Rio Preto, aí perto dos Lençóis, eu sou devota de São Benedito, o preto velho das almas de angola, que eu reverencio na umbanda brasileira, e Benedito quer dizer abençoado. É um processo realmente lento, eu preciso cada vez mais ir enfatizando, mas já está tão assimilado, muita gente já me chama de Rita Benneditto, muita gente já se identifica, tanto é que meu próximo trabalho, quando eu resolver fazer um disco novo, eu não sei quando, vai ser Benedito seja, o nome.
Você tá ótima de títulos, hein? [Risos] Ai, que bom! Rita Benneditto, Benedito seja, tem até música. Eu fiz uma brincadeira com um repentezinho com meu nome. Eu sei que é um processo, não foi fácil, construir uma carreira de 20 anos, com Rita Ribeiro e ter que mudar, você tem que ter muita coragem, muita segurança no que faz, e paciência para fazer essa transição. Graças a Deus eu tive tudo isso e depois de cinco anos eu posso dizer que estou cada vez mais Benedito seja.
A gente falou já um pouco de Zeca Baleiro, você citou no repertório que está preparando para o show nomes como Carlinhos Veloz e Erasmo Dibell, e agora nestes novos projetos o Ronald Pinheiro, o Coxinho. Antes de vocês saírem para São Paulo e você migrar para o Rio, aqui você trabalhou com gente como Cesar Teixeira, Chico Maranhão e Josias Sobrinho. Eu queria que você comentasse um pouco a relação com estes mestres e apontasse outros nomes da música do Maranhão que você admira, respeita, reverencia, enfim, que são importantes para tua formação. Olha, você já falou tudo. Na verdade esses caras são a minha escola, mesmo. Chico Maranhão, Sérgio Habibe, Josias Sobrinho, Cesar Teixeira. É uma galera que eu tenho um grande respeito, são grandes mestres mesmo. Sem falar nos outros mestres, que são anteriores a eles, que são Mestre Felipe, Leonardo, Pai Euclides, e tantos outros mestres onde eu bebi na fonte. Eu tenho uma bagagem muito grande de coisas muito boas e ricas do Maranhão. Eu tive que sair da minha terra, infelizmente num período em que a gente não tinha muita opção de viabilização do trabalho local, por que, como eu te falei, geograficamente fica um pouco deslocado e a gente precisa circular. Mesmo o Rio de Janeiro sendo o caos que é, e é realmente um caos, as pessoas têm uma ilusão às vezes que o Rio de Janeiro, por exemplo, é uma cidade onde tudo acontece, mas não é tanto assim. O caos impera aqui, é muita gente batalhando por seus espaços, mas é necessário, por que tá tudo muito próximo de tudo. Se você precisa de um contato, de viabilização de alguma coisa, as coisas acontecem, eu não sei te explicar. É uma dinâmica outra, natural, é uma cidade cosmopolita, é uma cidade com uma projeção mundial. Eu trago mesmo comigo, “trago no bolso um colar e uma bola de meia” [cantarola De Cajari pra capital, de Josias Sobrinho], eu trago essa referência muito grande, fica muito claro para o povo daqui o quanto eu sou reverente a estrutura musical da minha terra. A maneira que eu canto, meu canto é muito influenciado por esse compasso que eu te falei. Eu, por exemplo, gravando Encanto, eu gravei Santa Clara clareou, de Jorge Benjor, ela é uma música feita em compasso quatro por quatro, “Santa Clara clareooou” [cantarola], eu transferi pro ritmo da mina, o Benjor pirou, ficou enlouquecido com o arranjo, eu mudei o compasso dela, eu desestruturei para torná-la uma oração dentro do tambor de mina. A mesma coisa eu fiz com Água do Djavan, “água pra encher” [cantarola], que eu trouxe para o universo do divino espírito santo, eu tenho naturalmente uma forma de cantar diferenciada sob influência da ritmia do Maranhão. Por tudo que eu vivi, absorvi, por ter nascido aí, por ter esse negro dentro de mim, o negro maranhense, do Daomé, do Guajajara, por ter essa influência do nosso povo muito naturalmente na minha história. Como disse Itamar Assumpção, que fez uma música pra mim, tá na cara que tá no sangue. Então, esses caras me influenciaram muito, são mestres comprometidos com a palavra, com a poesia, são mestres que têm um compromisso com a história, sem falar nos poetas todos, maranhenses, que são fantásticos. Nossa terra é muito rica. Eu lamento ainda que não tenha havido uma projeção a nível nacional do poder cultural do Maranhão, de uma forma comercial, mercadológica, do nível de Pernambuco e Bahia, só pra dar um exemplo. O Maranhão tem um potencial absurdo, era para ter um calendário de atividades culturais durante o ano, era para ter um carnaval multicultural, um São João multicultural, era para ter um intercâmbio. Isso é só o que eu acho, eu não tenho fórmula para nada. Mas eu acho que a gente já deveria estar num nível, não só eu, Alcione e Zeca Baleiro, mas tantos outros com potencial tão grande quanto o nosso, ou até maior, que possa projetar mais ainda a nossa cultura, tornar o Maranhão mesmo um estado… o norte está se projetando absurdamente, com a referência muito do bumba meu boi do Maranhão, e a guitarrada, o tecnobrega, o norte está bombando no sul do Brasil, não é só o açaí não [risos]. E a gente precisa entender, precisa se unir mais, por que a Bahia funciona? Por que os baianos se juntam para projetar essa história toda pra fora.
Você falou em multiculturalidade e intercâmbio. Em sua carreira você já dividiu discos com Teresa Cristina e Jussara Silveira. Eu queria que você comentasse um pouco as dores e as delícias desses processos. [risos] Quando a gente começa um projeto a gente tem sempre as expectativas de que ele seja o melhor possível, a gente quer, a gente acredita. As meninas são extremamente talentosas, cada um tem sua carreira. A ideia do projeto é minha, inclusive o nome, Três meninas do Brasil, meu pai tocava muito essa música pra mim, Meninas do Brasil, de Moraes Moreira [e Fausto Nilo], era eu e Teresa, a princípio, a gente acabou chamando a Jussara. Foi feito pela Manaxica Produções, que é meu selo fonográfico, produtora. A gente estava assim, aquela coisa, estávamos a fim de fazer. Ah, vamos fazer um disco de samba? Não, vamos fazer um disco que passe pela história do Brasil, contando coisas, referências minhas, de Jussara e de Teresa. Aí eu chamei o maestro Jaime Alem, foi meu primeiro contato com ele, nessa época ele estava envolvido demais com Maria Bethania, aí eu acabei envolvendo Maria Bethania na história, perguntei se ela não queria lançar o disco pelo selo dela, ela tem um selo chamado Quitanda na Biscoito Fino, o maestro fez a ponte, ela adorou o projeto, acabou que a gente gravou pelo selo dela. Foi um encontro feliz. A gente ficou dois anos só fazendo este projeto, a gente lançou o disco, fez shows, tinha sempre aquela dificuldade de conciliação de agendas, de cada uma ter seus projetos, sua carreira, acabava ficando conflitante, não casavam as datas, aí a gente resolveu encerrar. A gente já fez o disco, fez os shows, não conseguimos percorrer o Brasil todo, temos um disco aí lançado para a eternidade e um encontro nosso também marcado por um tempo. Foi muito bom. Depois eu gravei um outro disco com Jussara, lançado em 2014, chama Som e fúria, nós fomos para a Chapada Diamantina, é um disco surreal, sem comprometimento comercial nenhum, a gente queria fazer uma viagem pelos cantos matriciais brasileiros, onde a voz é o fio condutor, e a gente se meteu num sítio no Capão, na Chapada Diamantina durante 25 dias, produzidas por José Miguel Wisnik e Alê Siqueira, e saiu um disco assim que mais parece uma trilha sonora de um balé, de um filme. Eu particularmente gosto muito, uma viagem bem rica. Foi um desdobramento de meu encontro com Jussara, depois de Três meninas. Com Teresa a gente não realizou mais nada, com Jussara ainda deu esse fruto que é Som e fúria, a gente vai fazer show em novembro em São Paulo.
Além desse show no aniversário de São Luís, tua vinda te permite, dessa vez ou normalmente, passear, fazer coisas que você gosta no Maranhão? Em tua memória, o que você recomenda a turistas e nativos? O que não se pode perder em estando no Maranhão? Eu sempre dou um jeito de ir e tentar ficar um tempo. Eu vou ficar uma semana, estou louca para ir aos Lençóis, ficar pelo menos dois dias, tomar um axé daquela terra, daquele vento, daquela coisa toda, daquele portal. Pra mim os Lençóis são um portal, é uma riqueza, uma maravilha do mundo. Aquilo é um portal mágico, transcendente, você vai ali você se revê em todos os aspectos, como ser humano, você se redimensiona em todos os aspectos. Isso é uma coisa que eu pretendo fazer, pretendo também matar minha saudade da minha juçara, do meu banho de mar marrom, encontrar meus amigos, eu tenho observado que São Luís está com um movimento cultural bastante intenso, o Samba da Fonte, o reggae lá na Praia Grande, as coisas estão se movimentando, as pessoas estão se mexendo. A gente nunca foi de esperar por governo nenhum, sem desmerecer governo de ninguém, a cultura maranhense sempre foi independente nesse sentido, as pessoas sempre se reinventaram, as festas sempre aconteceram nas suas fontes. Se eu puder ir à Casa Fanti Ashanti eu vou, quero ver minhas amigas que eu amo. Quero ver se eu encontro Joãozinho [Ribeiro], Cesar Teixeira, meus queridos que eu gosto muito de estar junto. Tanta coisa que eu gostaria de fazer, ficar com a família, a família é enorme, sempre tem um evento, sempre a gente quer estar junto. É pouco tempo para fazer tudo que eu quero, mas eu quero usufruir o máximo que eu puder da minha terra e recomendo a quem vá a São Luís conhecer a cidade, a cidade é linda, o Centro Histórico eu não sei como está agora, a última vez que eu vi fiquei muito triste, estava muito detonado, isso me angustiou, mas a cidade continua com sua magia. Todas as pessoas que vão ao Maranhão, a São Luís, que voltam e me falam, ficam extremamente encantadas com o lugar, com a energia do lugar. E olha que a gente sabe dos problemas todos que nossa terra tem, as dificuldades todas. Eu não entendo por que reelegeram esse prefeito, um homem que não tem compromisso nenhum com a cultura, que não se identifica, não estimula, nem tem cuidado com a cidade. São coisas que eu não tenho resposta, só tenho a lamentar quando vou e vejo que a cidade fisicamente está abandonada, um patrimônio histórico desses jogado, sem nenhum cuidado. Também sei que tem muitas coisas boas acontecendo e eu quero só pensar nas coisas boas e nas mudanças. Acho ótimo que a gente esteja com outra administração no governo, por que isso nos tira um pouco daquela aura de poder oligárquico, que a gente vinha há 40 anos, acho que a mudança de poder é importantíssimo, para que a gente possa ter a capacidade de escolha, de avaliação. Então, eu acredito muito na minha terra, no potencial de minha terra e quero poder, na medida do possível, com meu trabalho, com minha voz, levar o Maranhão, para onde eu for.
Ainda falando um pouco das paisagens, dos pontos turísticos. Não sei se vai dar tempo ou se você vai passar por lá, faltou um que você cantou, com Edvaldo Santana, em seu último disco, você fez uma participação especial, em Ando livre. Ah, no [Bar do] Léo! Ah, eu quero ir. Você viu que música linda que ele fez? Linda aquela música, boleraço, maravilhoso. Eu falei: “cara, você fez essa música para eu cantar”. E ele disse: “foi”. E me botou pra cantar num tom altíssimo. Mas eu adorei, falei: “oh, que maravilha”. Mas eu vou lá sim, quero ir lá, inclusive para ouvir essa música com ele. Olha aí que lugar, que maravilha que São Luís tem, um lugar como esse. Aquele menino do Centro, também, como é?
O Chico Discos? Chico Discos também, que figura! Como é que essa figura construiu esse espacinho tão especial? Por isso que eu digo que o maranhense se reinventa. As coisas não param, as pessoas estão em movimento, precisam estar em movimento para que as coisas aconteçam. Aí é que o governo, as pessoas percebem que o movimento aconteceu. Mas eu acho o seguinte: mesmo vendo a dificuldade que todos os grupos culturais estão tendo no Maranhão, eu vi isso num São João em que eu fui, acho que ano passado, eu ainda vejo que os mestres estão ali na luta, na guerra, na batalha, para manter suas tradições vivas, por que não pode morrer, não tem como morrer. A gente tem que manter isso vivo na memória e no corpo dos jovens de hoje, para fazer a coisa continuar. É um trabalho bonito, e ficar pra história. “Maranhão, meu tesouro, meu torrão” [lembra o título da toada de Humberto de Maracanã].
Uma pergunta inevitável nestes tempos: você mora no Rio de Janeiro, onde a gente tem percebido de modo mais acentuado essa crise política e econômica, professores com salários atrasados, universidades correndo o risco de fechamento. Com que sensação você tem acompanhado ao longo do último ano e meio o noticiário político brasileiro? Cara, eu acho que nós estamos vivendo uma era do cão. Caótica e, sei lá, extremamente negativa e trevosa. Eu não sei por que tanto retrocesso, eu não sei como é que a gente pode avançar e a gente avançou, e depois retrocedeu de uma forma tão bruta. Ficou tão evidente que nós fizemos realmente uma situação ainda de escravidão, de subserviência, de ditadura, e na verdade estava assim um pouco camuflado por alguma teia que a gente não conseguia ver, mas que na verdade está enraizada demais na estrutura política e social brasileira. Realmente o pequeno grupo de empresários, gente que domina, a corte, pode-se dizer assim, ela não quer abrir mão de nada pelo povo, ninguém está interessado no povo, ninguém está interessado na melhora do país. Você vê, um cara desses ainda estar no poder, diante de tantas acusações, diante de tantas evidências, é por que ele não está sozinho, ele está com uma corja de abutres do mesmo nível dele, sustentando o processo que está lá. O Rio de Janeiro foi o estopim da história, a cidade está caótica, a violência voltou como uma onda imensa, assustadora, um tsunami, a gente dorme com rojões, tiros, parece assim que a gente está num desses países tipo Iraque, ou coisa parecida. A gente não sabe o que está acontecendo. Eu, graças a Deus, nunca sofri, nenhum tipo de violência, eu vivo realmente, posso dizer, até um mundo à parte dentro do universo carioca, mas eu vejo como é que a cidade está depredada, no sentido da insegurança das pessoas, do medo, do desespero, da revolta, da impaciência, da intolerância. Ninguém tem tolerância com nada, as pessoas estão se agredindo no meio da rua umas às outras. Isso está acontecendo num nível nacional e universal, mundial. Nós estamos vivendo momentos de grandes tensões mundiais, o planeta está realmente num processo de transmutação, é doloroso. A gente é uma transição, estamos passando por este processo de mudança, que a gente não sabe onde vai dar. Eu, como sou uma figura muito espiritualizada, eu sempre penso no melhor, eu sempre penso que todo caos gera mudança e é uma mudança sempre positiva, mas o processo está sendo muito doloroso, pra nós artistas, então, a gente tem sofrido baque assim brutal, sabe? De viabilização dos projetos, verbas despencando, até o sistema Sesc, que é um dos maiores sistemas culturais do Brasil, despencou nos orçamentos, os empresários locais não têm mais estrutura para levar os shows, os cachês caíram horrores, o Ministério da Cultura é uma coisa que a gente não sabe pra que serve nem o que é. Sucatearam a cultura brasileira. Em nível de criatividade, nós também estamos um pouco perdidos, o que está predominando hoje no Brasil, eu não estou aqui condenando nada, mas é o funk, o sertanejo e o brega, é só isso que a gente vê. Isso está sufocando a outra parte criativa da música, especificamente da música, tem muita gente fazendo coisa legal, mas tem oportunidade nenhuma, condição nenhuma de levar adiante, sem estrutura. Realmente é um momento extremamente delicado, não sei o que vai dar, não sei como é que a gente não consegue tirar esse cara, eu não vejo solução de ocupação. Ocupação pra mim é entrar naquele congresso e tocar uma bomba.
Concordo. É preciso inverter aqueles polos daquelas duas bacias, nada se justifica mais, a gente está se repetindo nas redes sociais, todo mundo “fora, Temer!, fora, Temer!, Temer, fora!”, e nada acontece, eles estão cagando e andando pra gente: “fodam-se vocês, nós vamos fazer o que a gente quiser, nós vamos aprovar leis que a gente quiser, nós vamos fazer e acontecer aqui e vocês não vão dizer nada”, e a gente não está dizendo nada, a passividade do povo brasileiro está num nível que a gente diz assim: “vamos pra onde, gente?” Eu não sei o que fazer, sinceramente eu não sei o que fazer. Tem horas que eu me sinto tão impotente. A minha maneira de protestar é através da minha arte, é através do meu canto, chamando a atenção das pessoas para o que a gente pode fazer juntos, o que a gente pode mudar, o que a gente não pode desistir, mas é pouco, é muito pouco diante da situação que a gente está vivendo, é nada. Eu sempre digo assim: “o palco é um palanque, o artista, um militante”. A gente tem que continuar resistindo, mas tá danado, tá puxado, tá difícil. E essa mudança estrutural da política, uma democracia em que você é obrigado a votar, eu não entendo isso, nunca entendi por que você é obrigado a votar em uma democracia, que gera esse bando de candidatos que na verdade são um bando de gente que vem pendurada em outros, só pra ocupar espaço, esses salários exorbitantes desses caras. Nem partidos de esquerda, que a gente já nem tem mais, se dignam a diminuir esse valor desses salários. Isso aí é um gasto absurdo para o povo brasileiro manter esses caras lá, no nível que eles vivem e usufruem. Cara, tudo errado! Universidades sucateadas, saúde sucateada, a dignidade do povo sucateada. Olha, eu realmente não estou com palavras muito boas para te dizer em relação a isso.
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Veja Rita Benneditto em De mina (Josias Sobrinho):
Zeca Baleiro lança em todas as plataformas digitais nesta sexta-feira (1º. de setembro) o disco Arquivo_Duetos 1. Ao menos por enquanto o álbum não terá edição física. A compilação reúne 11 gravações que o maranhense divide com nomes nacionais e estrangeiros: em ordem alfabética, Alessandra Maestrini, Bernard Fines, Blubell, Dandara, Edgar Scandurra, Fagner, GOG, Higo Melo, Kana, Nicola Són, Paulo Monarco, Samantha Navarro, Susana Travassos e Wado (veja o repertório do disco e o clipe de Que amor é esse? ao final do post).
“Em 2017 meu primeiro disco completa 20 anos. Eu resolvi remexer nos arquivos que eu tenho e havia um material consistente, que valia a pena botar no mundo. Assim surgiu essa série de lançamentos, eu não sei quantos álbuns serão. A primeira ideia que surgiu foi o álbum de colaborações, de duetos, por que havia muitos. Coisas que fiz para trilhas de filmes, colaborações em discos de outros artistas, outros artistas que colaboraram em discos meus, projetos especiais. Nesse primeiro volume tem dois franceses, a uruguaia Samantha Navarro, a portuguesa Susana Travassos, a japonesa Kana, é um disco bem colorido, cheio de nuances, foi isso que me moveu a fazer essa coletânea. Dá para fazer pelo menos uns quatro álbuns com essas coisas de arquivos desses 20 anos”, revelou o cantor e compositor em entrevista coletiva concedida esta tarde, através do youtube.
Foto: Silvia Zamboni
O disco faz parte das comemorações pelos 20 anos de carreira de Baleiro, contados a partir do disco de estreia, Por onde andará Stephen Fry?, lançado em 1997. “Eu já trabalhava com música 10 anos antes, pode-se dizer que eu tenho 30 anos de carreira. Quando se fala em carreira geralmente se fala em carreira discográfica, essa fase anterior não conta muito, em termos gerais. Mas pelo menos desde 1987 eu trabalho com música profissionalmente, primeiro fazendo trilhas para teatro lá em São Luís do Maranhão. Eu tenho uma demo que talvez eu transforme num vinil, precisa de muitas autorizações. Foi a demo que gerou a gravação de meu primeiro disco”, continuou abrindo o baú.
É a primeira vez em 20 anos que um disco de Baleiro não terá edição física. Indago-lhe se é um sinal dos tempos ou um ponto fora da curva em sua carreira. “Sinal dos tempos, uma experiência. O artista tem que estar aberto para essas coisas. Eu sou dos mais apegados com o formato físico. Eu sou um colecionador, um cara que tenho apego pelo formato, pelo encarte, por ler as letras, mas você tem que se permitir certas experiências. Nem digo se moldar, pois não estou me moldando a nada. Quando surgiu essa conversa eu achei interessante, vamos ver até onde isso chega. Lançar uns dois ou três álbuns com material de acervo e ver até onde isso vai”.
Ele não prevê uma turnê específica para Arquivo_Duetos 1. “É um show difícil de levar para turnê, eu teria que levar pelo menos 11 artistas junto comigo. São 11 faixas, algumas com dois cantores. O que eu devo fazer é incorporar algumas dessas canções no repertório de meus shows, isso naturalmente vai acontecer. Mas uma turnê específica desse disco, não. É um retrato, um instantâneo de um período da carreira”, ponderou.
Lançamento de seu próprio selo, o Saravá Discos, Arquivo_Duetos 1 tem de jazz cigano (Que amor é esse?, dueto com Alessandra Maestrini) a rap (O peso da palavra, com GOG e Higo Melo), passando por versão em francês para composição de Baleiro (Le reste on s’en fiche, para Skap, com Bernard Fines). Indago-lhe algumas ausências sentidas, entre tantas notáveis parcerias. Ele responde mantendo a habitual elegância: “Infelizmente não dá para botar tudo. Alguns critérios você tem que criar. Um deles é a própria qualidade da faixa. Às vezes você até gosta da música, mas se não gostei da minha performance ali, é um critério. Não quero fazer durar este desconforto. Outra é quantidade: é uma limitação numérica. Mesmo sendo digital, não acho aceitável fazer 16 músicas. Tem que haver a perspectiva de um disco físico. 35, 40 minutos no máximo, que é o tempo que eu acho que as pessoas têm disponível. Os critérios são muito pessoais”.
Ele deu pistas do que os fãs podem esperar num segundo volume de duetos, já em vias de finalização, além de outros discos com faixas pescadas de seu baú. “O volume 2 terá as gravações que restaram e um terceiro volume de dispersas ou raras e dispersas, que foram canções que ficaram no meio do caminho. Por exemplo, gravei Baioque, do Chico Buarque, para a trilha da novela Joia rara, mas a música não foi aprovada. Eu fiz um rock e a expectativa era de uma coisa mais acústica, o briefing não foi bem dado. Eu li que o Roberto [Carlos] ia fazer um disco só com novos compositores, fiz uma canção e mandei. Tempos depois eu fiquei sabendo que a música não chegou às mãos do Roberto. Depois revi a demo e fiz ao vivo com meu pianista, o [Adriano] Magoo, e por que não? O Roberto não vai gravar mesmo [risos]. Sobras de estúdio, uma música do Tom Zé que eu gravei e não foi ao disco. Bem alinhadas dá para construir uma quase narrativa”, antecipou.
O primeiro single de Arquivo_Duetos 1 a ser disponibilizado no youtube foi Que amor é esse?, composto para a trilha sonora do filme O amor no divã, de Alexandre Reinecke, que Baleiro interpreta com Alessandra Maestrini. Narra a briga de um casal que se separa. Lembrei-me de Tua cantiga, de Chico Buarque, que antecipou Caravanas, seu novo disco, e rendeu ao compositor uma polêmica nas redes sociais e adjetivos como “machista” e “antiquado”. Perguntei ao maranhense se ele havia acompanhado a repercussão e sua opinião sobre o assunto. “Acompanhei com certa preguiça, achei falta de assunto. Polêmica nas redes geralmente é falta de assunto. É difícil você ver algo que vá fazer diferença em nossas vidas. É um verso inócuo, é um personagem. O poeta tem a liberdade da fala, abre as picadas para quem não tem essa voz. Se você começa a se vigiar demais, onde a gente vai chegar? Eu me preocupo, em certa medida. Eu tenho uma patrulha em casa, dois filhos adolescentes, que têm uma preocupação com o politicamente correto. Eu já não tenho nenhuma [risos]”, finalizou.
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Repertório de Arquivo_Duetos 1
Que amor é esse? – com Alessandra Maestrini
A tardinha – com Blubell
Corações ternos – com Nicola Són e Edgar Scandurra
Acontece amanhã (19), às 21h, na Praça dos Catraieiros (Praia Grande), de graça, mais uma edição do tradicional Tributo a Raul Seixas, show que Wilson Zara apresenta desde 1992 – a primeira edição, realizada ainda em Imperatriz, onde morava o ex-bancário, foi intitulada A hora do trem passar, nome de uma das faixas de Krig-ha, bandolo!, clássico da discografia do roqueiro, de 1973.
É o primeiro disco solo de Raul Seixas, lançado no auge da repressão militar no Brasil, então governado pelo general Médici. O baiano acabou exilado, retornando ao Brasil no ano seguinte, com o estrondoso sucesso Gita (1974).
Clássico do solo inicial, Ouro de tolo é lembrada diante do momento político turbulento por que passa o Brasil, sob novo golpe desde o ano passado. “A reforma trabalhista de Temer é o ouro de tolo do momento”, diz o material de divulgação do show de Zara, prevendo gritos ecoando a hashtag mais usada nas redes sociais desde março de 2016: fora, Temer!
Zara (voz e violão) será acompanhado por Mauro Izzy (contrabaixo), Marjone (bateria) e Moisés Profeta (guitarra e efeitos; é dele o clique do frontman que abre e ilustra este post). No cartaz surgem os nomes de diversos sindicatos locais, a demonstrar o quão antenado era Raul Seixas e o quanto seguem vivas sua música e filosofia.
“Quando eu compus, fiz Ouro de tolo/ uns imbecis me chamaram de profeta do apocalipse/ mas eles só vão entender o que eu falei no esperado dia do eclipse”, dispara em As aventuras de Raul Seixas na Cidade de Thor (1974), um recado direto aos milicos que o exilaram.
Os tempos igualmente sombrios são outros e Raul Seixas, falecido 21 de agosto de 1989 – a data do tributo é sempre próxima –, é um dos que fazem falta para traduzir artisticamente este triste estado de coisas. Como Belchior, Cazuza e Sérgio Sampaio, para ficarmos em uns poucos exemplos de artistas proféticos a seu modo.
Diversão garantida no palco e na plateia, no Tributo a Raul Seixas, Zara e banda repassam boa parte do repertório do Maluco beleza. Nem precisa gritar “toca Raul!”.
E se é “fora, Temer!” o que o povo quer, fiquem com mais esta profecia do homenageado (de Rockixe, de 1973): “o que eu quero eu vou conseguir/ pois quando eu quero, todos querem/ quando eu quero todo mundo pede mais/ e pede bis”.
Sinais do sim [Universal, 2017], novo disco dOs Paralamas do Sucesso, encerra nove anos de espera dos fãs desde o último álbum de inéditas do grupo, Hoje (2009). Em 35 anos de carreira, o trio sempre se equilibrou entre temas pessoais e sociais, e este novo trabalho, otimista em tempos sombrios, segue essa linha, sem no entanto soar mais do mesmo.
Otimismo aqui não significa alienação. Medo do medo (João Ruas/ Capicua) toca o dedo em feridas contemporâneas: “é muito lucrativo/ que o mundo tenha medo/ medo da gripe/ são mais uns medicamentos/ vêm outros vírus/ reforçar os dividendos/ medo da crise e do crime”. A música, que tem a maior letra do disco, é de 2007 e é uma primeira (re)aproximação – no caso, com o rap e com Portugal – em um disco feito delas.
O trio em foto de Mauricio Valladares
Os Paralamas do Sucesso reaproximam-se da Nação Zumbi, com quem dividiram turnê pela Europa com Chico Science ainda à frente dos mangueboys. O disco tem participação especial de Pupillo (percussão em Contraste, assinada pelo trio) e produção do mago Mário Caldato Jr., que produziu Fome de tudo, da Nação Zumbi, em 2007, entre inúmeros outros trabalhos, de gente daqui e de fora.
Reaproximam-se dos hermanos latino-americanos, de cuja música sempre foram embaixadores – foram os primeiros a gravar Fito Paez por aqui, por exemplo. Em Sinais do sim aparece Cuando pase el temblor (Gustavo Cerati), do power trio argentino Soda Stereo. Há também uma reaproximação com o rock britânico, inspiração no começo da carreira, em Blow the wind (Herbert Vianna), com letra cantada em inglês.
Os Paralamas do Sucesso se reaproximam ainda de seus pares de geração. O trio ganhou de presente de Nando Reis (ex-Titãs) a desbragadamente romântica Não posso mais, em que se derrama: “se o amor é Deus/ rei de um reino/ água no copo/ prato e colher/ uma igreja ergo/ pra rendê-lo/ um poço cavo/ pra encontrar/ mar água lago/ o seu refresco/ vento bandeira/ a tremular/ flor que nasce/ da semente/ mente inventa/ circular/ eu não posso mais/ não posso mais/ não posso mais/ não posso mais viver/ sem você”, começa a letra.
E há ainda uma reaproximação com Gilberto Gil e o terceiro mundo, o que desde Selvagem? (1986) tornou Os Paralamas do Sucesso uma das mais interessantes bandas brasileiras surgidas no boom do chamado rock brazuca. O reggae Sempre assim fecha Sinais do sim com categoria.
A faixa-título (Herbert Vianna/ Bi Ribeiro/ João Barone), que abre o disco, a única em que se ouvem apenas os instrumentos do trio, é síntese: “Eu/ sei que teu coração é meu/ que algo em mim te convenceu/ de que o melhor está por vir”. Como diz a letra de Teu olhar (Herbert Vianna/ Bi Ribeiro/ João Barone), “longe dos clichês”, esbanjando versatilidade, Os Paralamas ofertam um disco do puro, bom e velho rock’n roll.
Trilhas sonoras que ganham vida própria após os espetáculos para as quais foram criadas podem ser citadas aos montes. Para ficar em poucas, lembremos as de Yann Tiersenn e Miles Davis para cinema, as de Chico Buarque para teatro e as criadas por nomes como Tom Zé, Arnaldo Antunes e Lenine para espetáculos de dança do Grupo Corpo.
É nesta categoria que se insere o primoroso trabalho da Barca dos Corações Partidos em Auê [Sarau, 2016]. A execução da trilha sonora original do espetáculo dirigido por Duda Maia reúne um time de músicos de primeira linha: Adrén Alves (alfaia, maracas, pandeirola, saxofone, voz), Alfredo Del-Penho (flauta, violão de aço, violão, violão sete cordas, guitarra, baixo, percussão corporal, voz), Beto Lemos (guitarra, guitarra com arco, baixo, rabeca, alfaia, zabumba, triângulo, pandeiro, mineiro, voz), Eduardo Rios (sanfona, saxofone, voz), Fábio Enriquez (alfaia, trompete, flugelhorn, voz), Renato Luciano (violão de aço, guitarra, trombone, voz), Ricca Barros (baixo, saxofone, cavaquinho, voz) e Rick De La Torre (bateria).
Todas as músicas são composições de membros do grupo. As exceções são A barca dos corações partidos e Madeixa, ambas de Moyseis Marques, a primeira em parceria com Bena Lobo, a segunda com Vidal Assis – exibindo a nordestinidade do versátil sambista carioca, a primeira um belo baião, a segunda um inspirado xote.
Direta ou indiretamente, A Barca dos Corações Partidos cita diversas brasilidades, contemporâneas ou não. Desde a guitarrada em Gerais (Renato Luciano) aos cantores da era de ouro do rádio em Sem perceber (Alfredo Del-Penho), evocados por Ricca Barros. Passa por títulos que dão pistas do conjunto da obra: Versim de amor (Renato Luciano), Remédio (Renato Luciano), Ciúme (Rick De La Torre), Saudade (Beto Lemos).
Recitado pelo autor, Doideira de amor (Eduardo Rios), destaque em um disco de repertório de alto nível, é um poema de fôlego que lembra o melhor Cordel do Fogo Encantado: “se a minha tão bela amada/ ocupar a minha mente/ de maneira totalmente/ com seu rosto sorridente/ executo o meu plano/ tão logo rapidamente// Uma mão vai no meu bolso/ encaixa no meu facão/ a outra acha o meu peito/ desabotoa o botão/ deixando o caminho livre/ pra minha morte de paixão// Corto sem dó a minha pele/ abro os ossos da minha caixa/ enfio uma mão lá dentro/ logo ela tateia e acha/ o troço que faz “tum-tum”/ que põe minha vida em marcha”. Visceral. Literalmente.
Dom de um amor só (Eduardo Rios) tem a modéstia dos apaixonados, como a se desculpar por isso, como a pedir licença para transbordar, e novamente evocando brasilidade – desta vez uma unanimidade nacional: “nunca serei Chico Buarque/ pra rimar bem sua beleza/ meus versos são simples e rasos/ mas vêm do fundo da minha tristeza”. Ali (Renato Luciano), pelo timbre do autor, fecha o disco remetendo ao melhor Oswaldo Montenegro.
Um grupo chamado Barca dos Corações Partidos que faz um disco chamado Auê pode parecer contraditório. Talvez seja. Melodias vibrantes, pra cima, em versos em geral sobre dores, fins, amores desfeitos… corações partidos. Resumo da ópera, da peça, da trilha: Lupicínios do século XXI, este timaço reinventa a fossa e sua música remenda corações partidos.
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Veja a Barca dos Corações Partidos em Saudade (Beto Lemos):
Foi mais fácil para a crítica e a indústria rotularem-no de maldito, como o fazem com qualquer um que não se enquadre a seus ditames. Ora, que ousadia, um negro descido do morro de São Carlos, Rio de Janeiro, não querer fazer samba. Ou não se limitar a fazer isso, destino natural de todo preto que se meta com música, ao menos era/é o que pensavam/pensam – e diziam/dizem – à época/ontem, hoje e sempre.
Consciente de seu papel e lugar, mesmo rotulado de maldito, Luiz Melodia (7/1/1951-4/8/2017) fez um dos discos fundamentais da história da música popular brasileira, daqueles que entram em qualquer lista de melhores em todos os tempos: Pérola negra, de 1973, era pura ousadia, desde a capa, pura ironia, desde o título.
Em 1971, nos lendários show e disco Fa-tal – Gal a todo vapor, Gal Costa lhe revelaria o talento ao Brasil, ao gravar justamente aquela que viria a ser a faixa-título de seu álbum de estreia. Além da tropicalista estão entre seus intérpretes Arnaldo Antunes, Barão Vermelho, Caetano Veloso, Cássia Eller, Elza Soares, Jards Macalé, Jussara Silveira, Maria Bethânia, Mart’nália, Pedro Luís, Renato Braz e Virginia Rosa.
Entre seus grandes sucessos estão Magrelinha, Estácio, Holly Estácio, Juventude transviada, Farrapo humano, Congênito, Fadas, Ébano e Presente cotidiano. Sua gravação para Codinome Beija-Flor (Ezequiel Neves/ Cazuza/ Reinaldo Arias) obteve grande êxito radiofônico, tendo integrado a trilha sonora da novela global O dono do mundo (1991). Entre as “flores em vida”, recebeu homenagens de Sérgio Sampaio e Itamar Assumpção, outros artistas, como ele, rotulados de malditos. O primeiro, com participação especial do homenageado, ofereceu-lhe Doce melodia (Luiz Melodia) (1982); o segundo, Quem é cover de quem? (1993).
Somente em 2007, com Estação melodia, ele dedicou um disco inteiro ao samba. Mas aí, independentemente de rótulos, já podia fazer o que queria – no fundo, sempre foi assim. Seu disco mais recente é Zerima (2014). Luiz Melodia tinha 66 anos e estava se recuperando de um transplante realizado para combater um câncer de medula.
É na apresentação do Coco de Tebei que o tema da edição 2017/2018 do circuito Sonora Brasil faz mais sentido: “na pisada dos cocos”. Estado reconhecido por ofertar ao Brasil grandes mestres do gênero, de Bezerra da Silva a Selma do Coco, passando pelo grupo Raízes de Arcoverde, o grupo que se apresentou ontem (30), na Casa do Maranhão, é diferente de tudo o que se poderia esperar.
O Coco de Tebei é dançado por casais e cantado por mulheres, tendo como marcação rítmica apenas seus próprios passos, isto é, os pés dos dançarinos “socando” o chão, herança do taipar de casas de pau a pique, em que doses de trabalho e diversão se misturam coletivamente. Nenhum instrumento acompanha seus nove integrantes: três casais de dançarinos e três cantadeiras – que também dançam.
A dança é praticada por agricultores e tecelões de Olho d’Água do Bruno, povoado de Tacaratu – até o nome da cidade é sonoro e parece ser marcado também pela pisada de seus dançarinos. Por vezes, ao longo da apresentação, a sonoridade me evocava um maracatu. Mas na maior parte do tempo, pensava na catira e no toré indígena. Outras vezes também pensei em samba rock, imaginando que certamente aqueles homens e mulheres poderiam dançar qualquer coisa.
As saias de chita, floridas e rodadas, remetem às coreiras do tambor de crioula. Elas calçam sandálias, que são arrastadas em determinadas músicas, num delicioso “chep chep”. Os homens calçam sapatos pretos, vestem calça e camisa em diferentes tons de azul e usam um chapéu de couro, parecido com os que Lampião e Luiz Gonzaga tornaram moda, só que brancos.
O Coco de Tebei tem um disco, de 2008, cujo título é Eu tiro o couro do dançador. Penso que é apropriado: treino dá ritmo de jogo. Tivesse me arriscado a acompanhar-lhes alguns passos era capaz de estar com os pés e panturrilhas doendo até agora – muitos dos presentes se arriscaram e como de praxe nas apresentações do circuito Sonora Brasil, desde a última sexta-feira, em São Luís, a de ontem também terminou com uma imensa roda, uma espécie de oficina informal.
Ao final, já na praça em frente à Casa do Maranhão, cumprimentei um de seus integrantes, que saíra para fumar. Parabenizei-o pela performance. Ele sorriu e agradeceu. Ao dar-lhe um amistoso tapa no ombro, senti a camisa grudada à pele pelo suor que imediatamente me encharcou a mão.
Serviço
A passagem do circuito Sonora Brasil por São Luís termina hoje (31). Às 19h, na Casa do Maranhão, com entrada gratuita, se apresenta o grupo sergipano Samba de Pareia da Mussuca. Em Caxias/MA, a programação do Sesc continua até quarta-feira, programação completa no post anterior.
Os integrantes do Coco de Zambê de Mestre Geraldo, entre tocadores, cantadores e dançadores, vindos de Tibau do Sul/RN, multiplicaram-se: um deles percorreu a plateia convidando o público à dança. Logo, praticamente todos os presentes integraram-se à animada roda nos jardins do Museu Histórico e Artístico do Maranhão (MHAM, Rua do Sol, Centro), ontem (28).
Era a estreia do circuito Sonora Brasil 2017/2018 em São Luís. Zambê é o nome de um dos instrumentos utilizados pelo grupo: um irmão do tambor grande de nosso tambor de crioula, com que identifiquei algumas semelhanças. Este tambor é também chamado de pau furado ou oco de pau e é o maior e mais grave dos instrumentos. Isto eu descobri lendo o belo catálogo distribuído pelo Sesc aos presentes. Compõem ainda a “parelha”, o chama, um tambor menor – para seguir no paralelo com o nosso tambor de crioula, equivaleria ao meião – e ainda uma lata de tinta, de 18 litros, percutida por um par de varetas. Todos tocados amarrados à cintura dos tocadores.
Não há mulheres no Coco de Zambê, embora as presentes entre o público não se tenham feito de rogadas e tenham participado, dançando, cantando os refrões e batendo palmas. Ao fim da apresentação, espécie de bis, a coisa se configurou numa oficina, com curiosos experimentando os instrumentos inusitados.
Sobre o Coco de Zambê, outra coisa que descobri lendo o catálogo foi que “há notícias de sua existência desde 1903, quando foi publicada no jornal A República, órgão oficial do governo do Rio Grande do Norte, a notícia cujo conteúdo repudiava com veemência a prática de um “samba” que acontecia na casa de um sujeito conhecido como Paulo Africano, no município de Tibau do Sul. Também Mário de Andrade, na década de 1920 faz, com entusiasmo, alusão à “brincadeira””.
A aproximação com o samba aí se dá pelo preconceito da época: era uma espécie de rótulo para qualquer ajuntamento de negros. Outras aproximações perceptíveis do Coco de Zambê se dão com o frevo e a capoeira – seus dançadores apresentam-se nus da cintura pra cima.
Mestre Geraldo, que dá nome ao grupo, foi fundamental para evitar o desaparecimento do Coco de Zambê, no fim do século passado. “Liderando um grupo familiar, retomou o zambê buscando fidelidade à sua prática tradicional”, também li no catálogo.
O grupo torna a se apresentar amanhã (30), às 19h, em Três Corações (Praça Salustiano Rego, Caxias/MA), com entrada franca.
Outros grupos de coco apresentam-se em São Luís e Caxias/MA, até a próxima quarta-feira. Veja a programação:
Casa do Maranhão (Praia Grande), 19h:
Hoje (29): Coco de Iguape (CE).
Amanhã (30): Coco de Tebei (PE).
Segunda (31): Samba de Pareia de Mussuca (SE).
Segunda (31), das 9h às 12h e das 14h às 17h: Oficina de Coco de Roda: da Pisada ao Verso, com Adiel Luna/PE. Vagas limitadas. Inscrições gratuitas pelo telefone (98) 3216-3830.
Três Corações (Praça Salustiano Rego, Caxias/MA), às 19h:
Amanhã (30): Coco de Zambê (RN).
Segunda (31): Coco de Iguape (CE).
Terça (1º./8): Coco de Tebei (PE).
Quarta (2): Samba de Pareia da Mussuca (PE).
Há vários pontos de interseção entre Carminho canta Tom Jobim [Biscoito Fino, 2016] e Até pensei que fosse minha [MP,B, 2016], discos mais recentes lançados pelos portugueses Carminho e António Zambujo, respectivamente. Ambos, de algum modo, são artistas de exceção: embora entre um círculo restrito, são conhecidos no Brasil, que em termos de música e artistas portugueses, com raras exceções, quase sempre para no Roberto Leal que serve de trilha sonora para danças portuguesas no período junino.
São dois dos maiores compositores brasileiros em todos os tempos relidos por uma das maiores intérpretes da terra de Fernando Pessoa e por um cantor e compositor idem bastante interessante. Ambos já haviam mostrado seus talentos em participações em discos de artistas do lado de cá do Atlântico.
Tanto no disco dela quanto no disco dele há participações especiais de brasileiros: Chico Buarque comparece a ambos (como intérprete e compositor), enquanto ela, além dele (em Falando de amor), recebe Marisa Monte (em Estrada do sol) e Maria Bethânia (em Modinha); já Zambujo tem, além do compositor tributado (em Joana francesa), Roberta Sá (em Sem fantasia) e a conterrânea Carminho (em O meu amor).
Até pensei que fosse minha. Capa. Reprodução
Em Carminho canta Tom Jobim, ela é acompanhada pela brasileiríssima Banda Nova: Paulo Jobim (violão), Daniel Jobim (piano), Jacques Morelembaum (violoncelo) e Paulo Braga (bateria). Em Até pensei que fosse minha – título tirado de um verso de Até pensei –, Zambujo é acompanhado por um time que mescla portugueses e brasileiros. Entre os virtuoses de cá estão Ronaldo do Bandolim, Zé Paulo Becker (violão) e Marcelo Gonçalves (violão sete cordas, divide com Ricardo Cruz a produção e assina a direção musical e arranjos), mais conhecidos como Trio Madeira Brasil, além de Marcelo Caldi (acordeom) e Paulino Dias (percussão).
Os tributos fogem do óbvio, vão além do superficial. As seleções de repertório, por exemplo, ultrapassam o mero “o melhor de”, e as releituras não desconstroem músicas já cristalizadas no imaginário do brasileiro. Em Carminho canta Tom Jobim, entre outras, Inútil paisagem, Triste, Sabiá, Luiza e A felicidade; em Até pensei que fosse minha, Futuros amantes, Injuriado, Cecília, Cálice, Januária, João e Maria, Tanto mar e Valsinha.
Com estes dois discos, Portugal redescobre um pequeno e importante pedaço de Brasil. Espero que o Brasil (re)descubra Portugal, para além deste comprovadamente talentoso par de artistas. E além: que o Brasil, cada vez mais, (re)descubra o Brasil.
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Veja o videoclipe de João e Maria (Chico Buarque/ Sivuca), com António Zambujo:
Como boa tropicalista, Gal Costa flertou com a Bossa Nova, tendo dedicado um disco ao repertório de um dos papas do movimento, Tom Jobim, Gal Costa canta Tom Jobim, de 1999.
A releitura de Jussara Silveira e Renato Braz, dois dos mais talentosos cantores de nossos tempos, para o repertório da baiana, uma das maiores em todos os tempos, está mais para Bossa Nova, pelos refinados arranjos e direção musical de Dori Caymmi – a produção musical é de Mario Gil e a direção artística de Luiz Nogueira.
Cabe dizer que o par de intérpretes não se acomoda em zonas de conforto: releitura é palavra que aqui faz sentido, indo além de mera regravação. Nada soa forçado. Eles já dedicaram discos ao repertório de mestres: ela, Canções de Caymmi, em 1998; ele, Silêncio – Um tributo a João Gilberto, em 2014. Tudo se liga.
O Bicho Gal, da série Fauna Brasiliensis, de Regina Silveira, na capa, é o mais próximo da “psicodelia” tropicalista a que chega Fruta gogoia – Uma homenagem a Gal Costa [Selo Sesc, 2017; R$ 20,00].
O disco é, além de uma reunião de músicos talentosos, um abrangente songbook brasileiro, e não poderia ser diferente em se tratando de um mergulho na discografia de uma das mais talentosas cantoras brasileiras em todos os tempos, de longeva carreira – já são mais de 50 anos desde o compacto de estreia, quando ainda assinava Maria da Graça, seu nome de batismo, em 1965.
As bases são executadas por Dori Caymmi (violão), Mario Gil (violão), Swami Jr. (violão sete cordas), Sizão Machado (baixo), Toninho Ferragutti (acordeom), Itamar Assiere (piano), Teco Cardoso (sax), Celso de Almeida (bateria) e Bré Rosário (percussão), além de um octeto de sopros, mais cordas, violas e violoncelos, que passeiam por um repertório que abrange do citado Tom Jobim (Estrada do sol, parceria com Dolores Duran, e Tema de amor de Gabriela) a Caetano Veloso (nome mais presente na discografia de Gal Costa e não por acaso também neste Fruta gogoia: Tigresa, Meu bem, meu mal, Baby, Não identificado e Força estranha), passando por nomes como Chico Buarque (Folhetim), Jards Macalé (Vapor barato, parceria com Waly Salomão), Luiz Melodia (Pérola negra), Lupicínio Rodrigues (Volta) e Dorival Caymmi (Só louco e Modinha para Gabriela), além de nomes menos conhecidos mas fundamentais, como Tuzé de Abreu (Passarinho) e Pereira da Costa e Milton Villela (Teco, teco).
Fruta gogoia foca um repertório antológico e diverso de Gal Costa, passeando por diversas fases de sua carreira. A bela e merecida homenagem é mais uma prova de sua profunda e definitiva influência sobre cantoras e cantores brasileiros e de seu lugar na preferência dos apreciadores de música brasileira.
Cantora se apresenta hoje (22) em São Luís e conversou com exclusividade com o blogue
Karina Buhr é dona de uma das mais coerentes trajetórias artísticas do Brasil. A artista está acostumada a multiplicidades: é cantora, compositora, atriz, ilustradora e escritora. Com a infância passada entre o Recife natal e Salvador, hoje radicada em São Paulo, é cidadã do mundo. Vida, obra e militância confundem-se, não se sabe onde acaba uma e começa outra, tão impregnadas estão entre si, retroalimentando-se.
Com três discos solo na bagagem, ela já conta mais de 20 anos de artes, embora setores mais preguiçosos da grande mídia tenham saudado seu “aparecimento” como “novidade”, quando ela lançou o disco solo de estreia, Eu menti pra você, em 2010. Em 2015, com Selvática, o mais recente, Karina teve a capa, em que aparece com os seios à mostra, censurada por uma rede social. Se a vida te der limões, faça uma limonada: o tiro saiu pela culatra, o disco e diversos temas caros à artista acabaram ganhando ainda mais visibilidade.
Naquele ano ela esteve em São Luís em duas ocasiões: autora de Desperdiçando rima [Fábrica 231/Rocco,2015], participou da Feira do Livro; pouco depois voltou para apresentar Selvática durante a Aldeia Sesc Guajajara de Artes. Hoje (22), ela volta à ilha para um show no Festival Elas, evento idealizado e realizado majoritariamente por mulheres que desde quinta-feira (20), ocupa o sempre simbólico Convento das Mercês (Desterro). Sua apresentação acontece no pátio interno, às 23h30.
De acordo com seu slogan, o Festival Elas “promove cultura e poder feminino”. Mais que apropriada a presença de Karina Buhr. Por e-mail, ela conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.
Foto: Priscilla Buhr
Cantora, compositora, atriz, ilustradora, escritora. Ser artista multimídia é um imperativo destes tempos? É possível separar as várias Karinas? Em que faceta você se sente mais realizada? Pra mim isso não é “desses tempos” nem uma necessidade no sentido de “tenho que fazer mais coisas pras coisas rolarem mais”. Sempre fiz essas coisas todas e a cada hora uma se destaca mais, embora a música tenha acabado ficando de frente mesmo. Não tem como separar uma coisa da outra e não vejo muito como realização, no sentido de me sentir bem com o êxito de uma ou de outra. Não são várias, é tudo eu, na saúde e na doença [risos].
Pernambucana nascida na Bahia e radicada em São Paulo. O cosmopolitismo parece ser outra necessidade, hoje em dia. O quanto ajuda e atrapalha ser mais pássaro que árvore? Isso é uma realidade da minha vida desde sempre, não sei como é ser de outro jeito. Meu pai nasceu na Bahia, minha mãe em Pernambuco e eu sempre pulei de Recife pra Salvador, sentindo as duas como minhas cidades. São Paulo veio pelo Teatro Oficina e acabei adotando como minha também. Não acho que ajude nem atrapalhe, só é assim. E gosto muito assim.
Quando do lançamento de Eu menti pra você [2010] você foi saudada como “revelação”, com parte da crítica ignorando sua participação, para citar apenas o campo musical, em grupos como o Eddie e o Comadre Florzinha. Como você avalia o episódio? “O que era velho no norte se torna novo no sul” [risos]. Tem a ver com Rio e São Paulo serem considerados O Brasil e o resto ser “regional” e também tem machismo aí. Essa coisa de “novas cantoras”, de não saberem muito bem como tratar mulheres que cantam e compõem, de uma necessidade de colocar todas as cantoras no mesmo balaio – com recorte social também, afinal as cantoras de funk são tratadas como setor à parte, como se os outros setores todos tivessem também relação uns com os outros –, de me tratar como “nova cena”. Não sou nova cena, tenho 43 anos e comecei a tocar (nos maracatus Piaba de Ouro e Estrela Brilhante) em 1994. Enfim, tenho muita história antes de 2010, mas tem esse fetiche ainda de “São Paulo descobriu agora então existe a partir de agora”.
Sua obra e atitudes têm engajamento: letras de música, conteúdo de textos e ilustrações, engajamento presencial e virtual em causas, por exemplo, o feminismo e o movimento Ocupe Estelita, no Recife, para citar apenas dois. Nestes tempos duros, caretas e conservadores, é impossível ser diferente, não? Pra mim isso também sempre foi uma realidade, de acompanhar de perto essas coisas e de dar opinião e botar mão na massa. Na verdade gostaria de botar bem mais a mão na massa, faço bem menos do que gostaria. Acho que, de um modo geral, somos muito apáticos na ação. Falamos demais e fazemos pouco de fato. Fosse diferente a polícia não tava exterminando pretos e pobres.
Capa de Selvática, censurada pelo Facebook. Reprodução
Quando do lançamento de Selvática [2015], seu disco mais recente, a capa foi censurada por uma rede social. A que você credita a caretice e o ridículo do episódio? Como reagiu? Ao machismo, de novo. Mulheres estão nuas em todos os lugares, mas sob um olhar machista. Se elas resolvem ficar nuas do jeito que querem aí já é vandalismo. Na verdade essa censura, que é uma grande merda violenta e cafona, acabou alavancando não só a capa do disco como começaram discussões maravilhosas em torno dela e sobre liberdade dos corpos das mulheres e isso foi precioso. Uma coisa ruim gerou uma maravilhosa. Fiquei muito emocionada com esse desfecho e vendo questões que eu colocava nas músicas que ninguém tinha escutado ainda sendo levantadas a partir da capa. O que aconteceu depois é que foi bem ruim. Se você procurar na imprensa o que saiu sobre meu disco vai ler basicamente sobre meus peitos na capa. Dos meus três discos foi o mais fraco de imprensa a respeito do conteúdo mesmo, das letras e tal. Tem sempre o “o disco tem temática feminista”, que é uma frase que não diz absolutamente nada a respeito das composições. No caso, a frase correta seria “é um disco de temática feminista comentado por uma imprensa machista” [risos]. A sorte é que as músicas tocaram as pessoas e o público sacou tudo a fundo e de uma forma linda.
Selvática tem uma pegada mais punk, longe, no entanto, de rotulá-lo e/ou à tua obra. Essa guinada é sinal da urgência dos tempos? Acho que não. Não sei [risos]. O tempo sempre foi urgente.
Em 2015 você esteve duas vezes em São Luís. Participou da Feira do Livro e pouco depois cantou na Aldeia Sesc Guajajara de Artes. Quais as impressões e lembranças da cidade e do público? Foi maravilhoso, apesar de corrido. Fico triste de só ir aí correndo, dessa vez vai ser de novo assim. Quero voltar com calma, me devo isso, quero muito, sempre quis, chegar, ficar, respirar São Luís e essa maravilha toda, os tambores, a dança, que me ligam tanto a esse lugar.
Qual a expectativa para o show no Festival Elas? Espero que seja massa, que vá um monte de gente e quem for fique feliz também e a gente faça junto esse show. É sempre junto, né, o que fazemos no palco reverbera em quem assiste e o que quem assiste sente e faz toca na gente também. Essa é a mágica da brincadeira. E que maravilha ser no Elas, com esse mote de feminismo, de mulheres ocupando todos os espaços, como deve ser.
Como você avalia a importância de um festival desse nível, feito principalmente por mulheres, destacando o protagonismo feminino? É muito importante! Que a ideia se espalhe sempre! Quanto mais mulheres juntas falando, realizando, se encontrando e trocando mais a gente avança, mas a gente se fortalece.
Do golpe que tirou Dilma Rousseff do poder passando pela escalação do ministério, gestos, atitudes e declarações, o governo do ilegítimo é muito machista. O Brasil retrocedeu bastante. Há luz no fim do túnel? A luz do túnel são as mulheres todas se organizando e agindo. É sintomático a primeira mulher presidente ser arrancada do poder. Mesmo enquanto ela estava lá isso era muito visível, o machismo todo, acompanhamos tudo, né, os discursos contrários a ela eram sempre com uma carga machista que impedia até de se ter contato com o que queria o problema real. Temos que lembrar também que mesmo com Dilma na presidência o machismo era reinante. Retrocedemos em muitas coisas e uma coisa muito grave foi ela sempre ter se colocado contrária a legalização do aborto, por exemplo. Uma tristeza muito grande vê-la se resignar e tratar o assunto dessa forma. Estamos falando de direitos humanos das mulheres e uma presidente mulher foi totalmente incapaz de tratar isso da forma que merecia e que é urgente. As mulheres seguem morrendo.
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Veja Karina Buhr em Eu sou um monstro (Karina Buhr) no Cultura Livre:
Foi a cantora Lena Machado, quando de sua participação, quem sintetizou o sentimento de quem compareceu ontem (20) ao Anfiteatro Betto Bittencourt (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande), quando Chico Saldanha lançou Plano B, seu mais recente disco, o quarto da carreira, em um show de bolso.
“Para mim é uma honra enorme estar aqui, participar deste disco, deste show. Este aqui é o Plano BDe Buriti”, afirmou juntando a faixa-título com a música que cantam juntos, num trocadilho feliz – o disco quase muda de nome durante a elaboração do projeto gráfico. “Saldanha é imprescindível, é dessas pessoas que se não existissem a gente mandava fazer de buriti”, afirmou a cantora, o feitiço a favor do feiticeiro.
Um bom público foi prestigiar o compositor. A cidade tinha diversas opções a custo zero, como seu lançamento. Muita gente conhecida se reencontrava na plateia, mas a animação geral não tirou a atenção do que realmente importava: o desfile do bom repertório de Plano B, em que Saldanha foi acompanhado por Marquinhos (bateria e percussão), Rui Mário (sanfona), Luiz Jr. (violão sete cordas e guitarra) e Marcão (contrabaixo).
Saldanha abriu com Clichês e passeou por Afeganistão, Ela só queria ser Ella, Ela se move, Remoto botequim, Choro de memórias. É impressionante, e não sei se digo isto por estar por dentro do processo (meu nome figura, baita honra, como assessor de comunicação na ficha técnica do disco), mas a impressão é a de já conhecer aquelas músicas há tempos. Como se já nascessem clássicas.
Ou no dizer de Flávio Reis: “Saldanha é um artesão. Demora, leva um tempo de um disco pra outro”, a média de intervalo é de 10 anos, “mas não faz besteira”. Eu fico realmente feliz de ouvi-lo tocar no rádio, além do Santo de Casa.
Única música do repertório de ontem que não figura em Plano B, Itamirim, daqueles clássicos que a maioria das pessoas canta sem conhecer a autoria, fechou a noite como se espera quando se toca um hino: todo mundo cantando junto.