Como grupo ou individualmente a vida e a obra dos Beatles são por demais conhecidas em sucessivas edições, umas bem cuidadas, outras meros caça-níqueis. Até hoje, qualquer lançamento ou relançamento envolvendo os fab four rendem cifras incalculáveis, seja na música, literatura, teatro, cinema.
A graphic novel Lennon [tradução: Fernando Scheibe; Nemo, 2017, 151 p.; R$ 39,80; leia um trecho] aborda a trajetória de John Lennon sob um ponto de vista inusitado: sucessivas visitas do astro a uma analista.
Lennon se reencontra e enfrenta fantasmas do passado, desnudando-se no traço elegante de Horne Perreard e roteiro de Eric Corbeyran, baseados no texto original de David Foenkinos, autor do livro que deu origem à HQ.
Nada é novidade para beatlemaníacos médios – ok, a expressão é uma contradição em termos –, mas mesmo para estes, vale a pena conferir Lennon, narrado em primeira pessoa e de forma quase linear.
John Lennon revela a importância de Lewis Carrol para seu processo criativo, quando os desenhos de Perreard dão conta do onírico do autor, revela a podridão, mais que o glamour, do showbiz, e é ultrarromântico ao abordar o encontro de seu protagonista com Yoko Ono.
Em 18 sessões, um monólogo – só Lennon fala, nunca há a interferência de sua analista – dá conta da biografia daquele que, ao lado de Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr, formou o mais importante grupo musical de todos os tempos e revolucionou para sempre a música pop.
Mesmo sem acrescer novos dados à biografia do ídolo, Lennon teria fecho perfeito se acabasse na 18ª. sessão. O epílogo é óbvio ao encerrar o álbum com o assassinato de John Lennon, quebrando o ritmo a que o leitor se acostuma logo nas primeiras páginas.
Criolo já conta mais de 10 anos de carreira, contados desde a época em que ainda assinava Criolo Doido e era eminentemente rapper. De lá para cá lançou verdadeiros petardos da música popular brasileira contemporânea, extrapolando os limites do rap, sempre flertando com o samba, mas não só.
Neste meio tempo agradou medalhões como Chico Buarque (que devolveu homenagem em show), Milton Nascimento (com quem já dividiu o palco), Tom Zé (com quem gravou Banca de jornal em Vira-lata na via láctea, disco do baiano), Ney Matogrosso (que gravou sua Freguês da meia noite em Atento aos sinais) e Ivete Sangalo (com quem dividiu disco e show tributando Tim Maia).
Criolo já garantiu, pois, sua vaga entre os grandes. Artista oriundo da periferia e consciente de seu lugar e papel, não é de se acomodar em zona de conforto em geral ilusória. Depois de Nó na orelha (2011) e Convoque seu Buda (2013), discos em que seu rap dialogava com o samba e outros gêneros musicais, brasileiros ou não, ele lançou ano passado Ainda há tempo, que marcava um retorno ao rap puro, mas nunca simples.
Espiral de ilusão. Capa. Reprodução
Espiral de ilusão [Oloko, 2017; todos os seus discos podem ser ouvidos e baixados em seu site] talvez seja sua mais ousada guinada: um disco inteiramente dedicado ao samba. Tem de tudo, ingredientes consagrados desde sempre em rodas, discos e na obra de grandes bambas do gênero: amor, malandragem e denúncia social. Já nasce clássico, a começar pela capa, de Elifas Andreato, cujo talento já embalou Clara Nunes, João Nogueira, Martinho da Vila, Paulinho da Viola, Paulo Moura e Rolando Boldrin, para ficarmos em lista curta.
Se não, vejamos se a letra de Menino mimado não é metáfora perfeita para o triste momento político por que passa o Brasil, desde o golpe que tomou de assalto nossa democracia: “Então pare de correr na esteira e vá correr na rua/ veja a beleza da vida no ventre da mulher/ pois quem não vive em verdade, meu bem, flutua/ nas ilusões da mente de um louco qualquer/ e eu não aceito, não”, para arrematar, brilhantemente: “Eu não quero viver assim, mastigar desilusão/ este abismo social requer atenção/ foco, força e fé, já falou meu irmão/ meninos mimados não podem reger a nação”.
Filha do Maneco é crônica no melhor estilo Noel Rosa: um pai ciumento na favela, samba bem-humorado como o fino do poeta da Vila. Dolente, a faixa-título aborda uma desilusão amorosa, qual na ginga de Calçada: “Um belo dia, pensava que tava escrito/ era eu pra ela, ela pra mim, isso tá bonito/ esqueci de fechar uma porta e uma janela de uma outra casa/ toda verdade veio na minha calçada”.
Boca fofa emula a malandragem de Bezerra da Silva e o cagueta, personagem constante de sua obra – em tempos de delação premiada, faz todo sentido. Os temas – caguetagem e delação premiada, (quase) sinônimos –, voltam a aparecer em Cria de favela, que fecha o álbum: “Quem vai lucrar com essa patifaria/ é gente da alta na papelaria/ delação premiada jogo de poder/ e se for pra rua tentam me deter”.
Espiral de ilusão, o disco, é a prova de que é possível aliar a seriedade e a urgência de determinados temas caros e cruéis a alegria tipicamente brasileira, sambista. Artista com A maiúsculo, é também atestado de que Criolo pode enveredar por qualquer caminho mantendo-se coerente, instigante e interessante.
Compositor lança Plano B, quarto disco de sua carreira
Plano B. Capa. Reprodução
Chico Saldanha tem importância fundamental para a moderna música popular produzida no Maranhão. Para ficarmos em apenas dois bons exemplos: foi ele quem tocou, ao violão, para Papete, as músicas que viriam a emocionar o publicitário Marcus Pereira, que imediatamente tratou de garantir seu registro no antológico Bandeira de aço (1978); como integrante da primeira formação do Regional Tira-Teima, ao violão, acompanhou Chico Maranhão no igualmente antológico Lances de agora (1978), também lançado pela gravadora Discos Marcus Pereira. Os dois álbuns são considerados divisores de águas. O resto é história.
Consciente de seu papel e lugar, e sem afobação, o rosariense só estrearia em disco solo 10 anos mais tarde, no LP homônimo Chico Saldanha (1988), que traria ao menos um clássico de nossa música popular: a toada Itamirim, interpretada por Tião Carvalho. Antes, Saldanha já havia prestado reverência e registrado em disco, ao lado dos então também produtores Giordano Mochel e Ubiratan Sousa, as vozes e talentos singulares de Agostinho Reis, Antonio Vieira, Cristóvão Alô Brasil e Lopes Bogéa, no compacto Velhos moleques (1986).
Levou 10 anos entre a estreia de Saldanha e o segundo disco, Celebração (1988). A média se manteve entre estes e os títulos seguintes: Emaranhado (2007) e o recém-lançado Plano B (2017). Dois motivos parecem justificar tanta espera entre um e outro: o primeiro é que o advogado de formação realiza seus trabalhos às próprias custas; o segundo é o capricho com que ele mesmo cuida de cada detalhe. Modesto, ele cita a poeta polonesa Wisława Szymborska: “a imperfeição é mais fácil tolerar em doses pequenas”.
Plano B reúne algumas características comuns à carreira de Saldanha, sem que isso signifique mais do mesmo. Está lá sua versatilidade como compositor (sozinho ou em parceria assina as 11 faixas da bolachinha), passeando por balada, blues, reggae, xote, bumba meu boi, tango, choro e bolero, com pitadas de brega – “Chico sempre o aborda com uma ironia muito particular” – e “a lírica amorosa quase sempre presente”, como destaca o poeta Celso Borges em texto no encarte.
Entre os temas abordados comparecem o jazz (Ela só queria ser Ella), a guerra conjugal (na bem-humorada Afeganistão), a dor de cotovelo (a faixa-título, Fio desencapado, Mano a mano e Remoto botequim, que cita o Tango pra Teresa, de Evaldo Gouveia e Jair Amorim, além dos cantores de tango Carlos Gardel e Armando Manzanero), a São Luís de outrora (Choro de memórias), a dança (Ela se move) e o amor (De buriti), além de diálogos com o cinema (Pano rápido) e a música eletrônica (Clichês).
Participação especial mais constante dos discos de Saldanha, Zeca Baleiro comparece em Clichês, que abre o disco, muito além do que promete o título. Na faixa eles ligam os londrinos da Groove Armada com o madredivino Cristóvão Alô Brasil. Milla Camões faz o vocalize em Ela só queria ser Ella, invocando a homenageada. Nosly divide o vocal com Saldanha em Ela se move, parceria deles com Jamil Damous (cunhado de Saldanha que faleceu após as gravações), que cita os bailarinos Mikhail Baryshnikov e Rudolf Nureyev. Lena Machado fecha o time de participações especiais imortalizando um dito popular da região do Turi, no interior do Maranhão, em De buriti (Saldanha/ Jamil Damous).
O disco tem arranjos e direção musical de Luiz Jr. (guitarra, violão, violão sete cordas, viola caipira) e conta ainda com músicos como Daniel Cavalcanti (trompete), Kleuton (contrabaixo), Rui Mário (teclado e acordeom) e Wanderson Silva (percussão), entre outros. O projeto gráfico é de Amanda Simões, sobre peças artesanais (em fibra de buriti) de Vilma Rosane, fotografadas por Beatriz Maia.
Plano B é um disco delicado, comovente e vigoroso. A cada disco, Saldanha sempre nos leva a pensar que “valeu a pena esperar”. O título soa também como uma metáfora para alguém que passou a vida se dividindo entre o expediente das repartições e a música. Quem sabe agora, aposentado do plano a, não careçamos esperar tanto entre um Plano B e outro do artista – agora em tempo integral.
SERVIÇO
Chico Saldanha lança Plano B em show no próximo dia 20 de julho (quinta-feira), às 19h, no Anfiteatro Betto Bittencourt (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande), com entrada gratuita.
Terça à tarde, ou para ser mais charmoso, terça boca da noite. Há tempos eu devia a visita, o projeto já tem algum tempo. O Núcleo de Choro da Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo (Emem) toca às terças-feiras, a partir das 17h, no Buriteco (Rua Portugal, Praia Grande).
A formação, regida e acompanhada pelos olhos brilhantes do professor Nonatinho, de percussão, responde a algumas indagações preocupadas deste boêmio: onde tocam os músicos formados pelas escolas de música locais? Por que não há eventos não noturnos de música? (esta pergunta chegou a ser feita no programa de rádio que apresento com Gisa Franco, o Balaio Cultural, na Rádio Timbira AM, ao vivo, por telefone).
São vários/as alunos/as, revezando-se no palco. Isto é, em uma, são várias formações musicais distintas, todas primando pela qualidade de repertório e execução. Modestamente afirmo: vale a pena!
Adentrei o Buriteco, digamos, por acaso. Já conhecia a casa, de outras ligeiras passagens. Restou-me de um desencontro com um amigo e um (re)encontro com outros, esta (pretensão de) crônica inspirada, sempre, obviamente, por Paulo Mendes Campos e adjacências.
Ricarte Almeida Santos ia dar aula e não se furtou a tirar onda: como é que podia, em plena terça à tarde, encontrar uma mesa formada pelo arremedo de cronista, o cineasta Francisco Colombo, o sociólogo Igor de Sousa e a engenheira Clariane Natali? Só restava fazer uma foto para comprovar – afora o casal Bruna e Max, que após cumprimentarmo-nos sentou-se numa mesa mais ao fundo.
Volto a pensar em Paulo Mendes Campos e naquela crônica de viagem em que ele, não encontrando bar aberto, teima, sempre há, sempre há, encontrando um, mais de meia noite. Não era o caso, pouco passava de boca da noite, 18h, cedo, programa familiar, vão e levem as crianças.
O repertório, impecável, passeava por Pixinguinha, Jacob do Bandolim, Waldir Azevedo, Raul de Barros, Paulinho da Viola e Zezé Alves, entre outros grandes mestres. Uma armação de bumba meu boi ao lado do palco remetia ao período recém-encerrado, sob fortes chuvas fora de hora – Deus e São Pedro sabem o que fazem.
Não era acaso estarmos ali – Deus e São Pedro sabem o que fazem – e logo adentraram o recinto para somar-se às feras já presentes, e refiro-me ao palco, e não à plateia, o flautista João Neto, depois, e, antes, o violonista João Soeiro, aniversariante do dia, saudado com um merecido parabéns a você.
Pedi mais uma cerveja, sob protesto de meu companheiro de mesa. Aos garçons havia gracejado: eu fazia a reversão. Ele era um crente que eu havia convencido a beber após minha ladainha bebum.
Deixamos o recinto na contramão de onde eu havia estacionado: por solicitação da esposa, eu precisava arcar com as encomendas de uns Sousas. Incluí um para este que vos perturba, embora àquela altura, ainda não percebesse fome.
Sul e Branco são o par de discos recém-lançados por Luana Carvalho, que surgem juntos, em formato de cd duplo, mas funcionariam bem se lançados independentes entre si. Aliás, o conjunto ultrapassa os limites do formato álbum, em que se convencionou embalar um punhado de canções.
Branco. Capa. Reprodução
Sul e Branco são verdadeiros tratados artísticos, extrapolando o universo musical. Por seus encartes – com projetos gráficos e ilustrações de Diego Limberti – comparecem textos da própria Luana Carvalho, Gonçalo M. Tavares e Lenine, desenho de André Dahmer, artes plásticas de Tomás Cunha Ferreira, Kammal João, e poemas de Alice Sant’Anna, Eucanaã Ferraz, Sophia de Mello Breyner Andresen e António de Souza.
A cantora e compositora é filha de Beth Carvalho, mas a não ser pelo sobrenome que carrega, poderia prescindir do cartão de visitas. Isto é: não deveria ser necessário dizer de quem é filha para que se preste atenção ao talento. Não que seja crime ou pecado filha de peixe, peixinho ser: Luana Carvalho desponta madura. Entre outros filhos ilustres que comparecem aos discos estão João Cavalcanti (filho de Lenine), Davi Moraes (filho de Moraes Moreira) e Moreno Veloso (filho de Caetano), herdeiros cujos talentos também vão além do DNA.
“Tudo é samba” e seus trabalhos têm os dois pés no gênero, que moderniza sem desconfigurar. Luana canta e toca violão, escoltada pela banda base formada por Pedro Sá (guitarra, contrabaixo), Domenico Lancellotti (bateria, percussão, teclado e mpc) e Moreno Veloso (percussão, violoncelo), que com ela assina a produção fonográfica de Sul – e sozinho de Branco, disco em que a eles se somam Alberto Continentino (contrabaixo), Alexandre Caldi (flauta), Altair Martins (trompete), Bebê Kramer (sanfona), Bruno di Lullo (contrabaixo, teclado), Davi Moraes (guitarra), Lucas Vasconcellos (guitarra, contrabaixo), Marcelo Caldi (sanfona), Marlon Sette (trombone), Pedro Luís (violão e percussão), Rafael Rocha (bateria e mpc) e Ricardo Dias Gomes (contrabaixo e wurlitzer).
Sul é completamente autoral – ela assina sozinha suas sete faixas. Em Branco, à sua lavra juntam-se Lucas Castello Branco (Garupa, parceria com Luana Carvalho), Pedro Luís (Luz do âmbar e Indivídua, parceria com João Cavalcanti), José Chagas (Palavra acesa, poema musicado por Fernando Filizolla), Domenico Lancellotti (Ar para jantar, parceria com André Dahmer), Caetano Veloso (Força da imaginação, parceria com D. Ivone Lara, que participa da faixa cantando e abençoando). Gravados em Nova York, ainda há espaço para a brasileiríssima Luana Carvalho esbanjar latinidade na regravação de Paloma negra (Janney Marin/ Joaquin Aguirre/ Tomas Mendez/ Julio Reyes).
Por e-mail, Luana Carvalho conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos. Atenção, produtores!: ela começa a conversa revelando sua vontade de voltar ao Maranhão, que muito visitou acompanhando sua mãe em turnês na infância. Suas respostas só reafirmam o que atestam seus discos: é artista que já nasceu pronta. Mesmo quando aparentemente se esquiva, não desconversa: ela desconcerta.
Foto: Tati Domais
Sul e Branco são dois discos independentes e diferentes entre si, que funcionariam se lançados separadamente. Por que a decisão de lançá-los como um álbum duplo? Primeiro quero dizer que estou bastante feliz com esta entrevista. O Maranhão é um dos estados que mais gostava de ir quando acompanhava minha mãe em turnês na infância. Quero muito voltar aí. À pergunta: porque são dois organismos diferentes com o mesmo sangue. O Sul não existiria sem o Branco. Não no sentido cronológico natural de um trajeto, mas porque foi feito em estado de espera: enquanto o Branco corria pelas burocracias. Foi ouvir o Branco que me levou aos vazios onde construí o universo de composições do Sul. E por ser mais íntimo e o mais próximo de mim agora, era justo que chegasse primeiro. O Sul é o convite. O Branco é o endereço do baile.
Teus discos, aliás, ultrapassam o conceito de álbum, ao propor um diálogo entre diversas formas de expressão. Além da música estão lá a poesia, a prosa, as artes plásticas. Num tempo em que fala-se tanto na derrocada da indústria fonográfica e na morte do disco físico, é ousado valorizar tanto este suporte? Não ouso ousar. Porque não acredito em rupturas. Acho que tudo é fluxo e contínuo e já foi visto em algum lugar. É cíclico: o preto e branco levam ao excesso de cores e brilho que levam ao preto e ao branco, o objeto leva à nuvem que leva ao objeto. Hoje prefiro o preto e o branco, amanhã não sei. Quanto ao disco físico, preciso do equilíbrio dos sentidos; ouvir o disco, tocar no disco, o cheiro do disco, o manuseio das páginas de um encarte. Também adoro poder dar dois ou três cliques e ouvir um álbum inteiro ou fragmentado, não deixa de ter tato e há um desafio interessante aí. Tanto pro artista quanto pro ouvinte. Portanto não se trata de saudosismo. Mas o objeto ainda me toca, me dá a sensação de todo da obra, de estar mais próxima do que realmente queria o artista com aquele trabalho incluindo o peso, a textura. As coisas têm vontade. Gosto de me debruçar sobre as coisas, reverenciá-las. Toda vez que me refiro ao meu disco acabo dizendo livro. Talvez pelo desejo de um dia escrever um. Acho que a necessidade de aferir à coisa algum valor equivalente pode ser a causa deste ato falho. O disco Livro [1997] do Caetano tem um dos melhores títulos que já conheci, pena que não pensei nisso antes [risos].
Qual o peso e a responsabilidade de ser filha de Beth Carvalho? Tem cinco minutos ou a vida inteira?
E de ter a bênção de Dona Ivone Lara? Isso é o tipo do acontecimento que faz diferença todos os dias naquele instantinho em que abrimos os olhos e revemos a vida inteira. É uma honra que carrego no dorso aonde quer que eu vá.
Em algumas músicas você evoca a Mangueira, escola de sua mãe, mas o álbum é tingido do azul e branco da rival Portela. De que torcida você faz parte? Torço pelo carnaval.
Sua mãe é uma das maiores cantoras do Brasil em todos os tempos, mas quase nunca entra em qualquer lista do tipo, por ser rotulada de sambista. A seu ver, apesar dos avanços e da aceitação social que o gênero passou a ter ao longo dos anos, ainda há muito preconceito? Como diriam o João Gilberto e o Pedro Sá: tudo é samba. Mas infelizmente nem todo mundo tem a sensibilidade musical de um João Gilberto ou de um Pedro Sá. A subestimação do samba é uma implicação sociopolítica. Muito mais complexa do que sou capaz de analisar. O João costumava dizer que minha mãe é a maior cantora do Brasil. Era o que ele dizia. E como também disse Augusto de Campos: João é João, nenhuma perda. Por acaso hoje, quando escrevo, é aniversário dele [10 de junho]. Viva o samba! Viva João!
“Se minha mãe mandar eu obedeço”, você canta em Oxum, minha mãe. Era inevitável ser artista? Gostaria que você comentasse um pouco o ambiente familiar e esta escolha. Não era inevitável pelo ambiente familiar, podia ter desviado. É inevitável porque é o que mais gosto de fazer dos meus dias: música de toda poesia que percebo no mundo.
O que sua mãe achou dos discos? Acho que ela gostou muito dos discos. Sinto o respeito de uma veterana pelo meu trabalho, mais do que uma reação amorosa de mãe. Isso me dá muita alegria. Mas aí só você perguntando a ela.
Em Sul e Branco você se cerca de uma geração relativamente nova, talentosíssima e onipresente: os caras tocam com todo mundo. Como se deu essa escolha e como foi gravar com eles estes dois discos? Foi fácil e assustador. Porque os caras realmente entenderam tudo e isso facilita muito. E os caras realmente entenderam tudo e isso assusta mesmo. Muito por causa do Moreno, que soube me ouvir e conduzir tudo com profunda sensibilidade poética. Ele me emprestou a turma e eu nunca mais saí do pátio. Mas o caminho é mais complexo do que parece. Embora sejam realidades aparentemente próximas à minha, eu vim de longe para encontrá-los. E ainda bem que o fiz.
Suas releituras têm bastante personalidade, você imprime algo de autoral nas regravações que faz. É o caso, por exemplo, de Palavra acesa, do paraibano José Chagas, que acabou se tornando maranhense, já que foi aqui que viveu a maior parte de sua vida. Por que a escolha? Você conhece a obra de Chagas além desta música? Obrigada! Conheço e amo a obra de Chagas, sim. “Violeiro sem viola”. Homem da palavra de repente. Compartilhamos a paixão por telhados e ripas: o interesse no que acontece sob eles. Palavra acesa é um poema lindíssimo! Na versão musicada seus autores parecem ter sentido o poema – como dizia Chagas sobre as pessoas diante do mundo – antes de compreendê-lo. Por isso a beleza da canção. Sinto muito os movimentos das horas antes de compreender. E a música que faço é só por causa da poesia, no sentido amplo do poético; aquele avião que passa e meu dia nunca mais será o mesmo, o cheiro impregnante da tangerina e do café, a plataforma que se ergue no mar sem que eu tenha me dado conta, os instantinhos. Este grande versificador paraíba-maranhense foi fundo na humanidade, sabia a poesia do mundo apesar do poema, a poesia que está além do poema, e chegou a dizer que haverá um dia em que não haverá mais o poema, porque só a música é verdadeiramente necessária. Não sei se há razão nisso, mas certamente há poesia. E onde houver poesia, minha música será possível.
Talvez seja cedo para falar em próximo disco, mas quando formos falar dele devemos nos referir ao segundo ou terceiro disco de Luana Carvalho? Como vocês preferirem!
Não faz muito tempo, amigos, namorados e crushes – antes de a expressão existir – trocavam fitas cassetes com o que mais gostavam em termos de música. Hoje trocam links do youtube em profusão, através do whatsapp. Saudosistas podem afirmar que não há charme nessa instantaneidade toda, que bom mesmo era esperar sabe-se lá quanto tempo pelo grito do carteiro no portão. Neste caso, pouco importa o meio, vale mais a mensagem: o mais importante é o verdadeiro amor, como diria o compositor em título que, escrito pelos muros, acabou virando hit de redes sociais.
Tema mais cantado em todos os tempos, em prosa, verso e música, o amor é a espinha dorsal de Beijo estranho [Deck, 2017], novo álbum do Vanguart, banda mato-grossense formada por Helio Flanders, Reginaldo Lincoln, David Dafré, Fernanda Kostchak e Julio Nganga. No disco a banda conta com o reforço de Loco Sosa (bateria), além de diversas participações especiais, entre as quais destacam-se Jorge Helder (contrabaixo) e Thiago França (Metá Metá, sax e flauta em Quando eu cheguei na cidade).
O amor é pop e esparrama-se por cada faixa de Beijo estranho, longe da pieguice. São baladas facilmente assobiáveis, radiofônicas. Todas as faixas são assinadas por Flanders e Lincoln, sozinhos ou em parceria.
“Meu coração queimou devagar/ senti uma vontade subindo do chão”, a faixa-título (Flanders) abre o disco. Em Todas as cores (Lincoln), aconselham: “não vá se converter acreditando em mágoa/ não vá ter medo de se apaixonar primeiro”. O clássico Folhas de relva é citado em Felicidades (Flanders/ Lincoln): “o inferno é bom/ e o teu céu um sangue roxo/ quente eu sinto a tua relva/ Whitmânicas visagens!/ Não tenho medo”. O medo de amar é o medo de ser livre, diria outro compositor.
E o meu peito mais aberto que o mar da Bahia (Flanders/ Lincoln) é um título que diz tudo. Como o amor, não carece de explicação. “Quando eu chego em casa e você não está/ penso em te procurar mesmo sabendo que vais voltar/ se um dia foi diferente/ é porque tudo era diferente/ o teu amor me pôs de pé”, diz a letra, em melodia solar, quente. Como o amor.
De Beijo estranho poderíamos seguir transcrevendo trechos de letras. Mas as que trouxemos até aqui bastam para dar uma ideia de sua abordagem romântica, apaixonante – quem não conhecia a banda logo se toca do tempo perdido.
Os tempos são líquidos, o amor não. O Vanguart durará mais que as mensagens trocadas no whatsapp – o efeito de sua música nos corações apaixonados também. A dica é: para quem quer reconquistar um antigo amor, conquistar um novo amor ou se declarar para o crush, use Vanguart sem moderação.
Para quem não está convencido, um último exemplo: “Ardo/ sou um trem desgovernado/ que parte/ faiscando as tuas estradas/ sem pausa/ te conheço mais a fundo/ com calma/ tua risada, minha paixão/ me bate, queima, aperta, cheira, marca/ eu preciso de você/ (algo me faz lembrar, algo me faz querer)”, diz a letra de Eu preciso de você (Flanders).
Se o antigo compositor baiano já dizia que “quem não gosta de samba/ bom sujeito não é” e Beijo estranho não te ajudar na conquista, é melhor desistir: não vale a pena quem não gosta de Vanguart.
O poeta Celso Borges faz recital amanhã em Lisboa, Portugal. Foto: divulgação
“A poesia atravessa o Atlântico e eu tô nesse barco junto com Assis Medeiros”, postou o poeta Celso Borges em uma rede social. Descendente de portugueses, ele está em Portugal a passeio, realizando um sonho, conhecendo parentes e, como a poesia não descansa, aproveitará para realizar um recital amanhã (13), na Livraria Ler Devagar, em Lisboa, lançando seus mais recentes trabalhos: o livro O futuro tem o coração antigo e a revista Fúria, com ilustrações de Diego Dourado.
Na ocasião Celso Borges será acompanhado do também jornalista, compositor, cantor e instrumentista Assis Medeiros, que lança seu mais recente disco, Lamina.
Sobre a viagem e o recital, Celso Borges conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.
Tua ida a Portugal é a realização de um sonho e um (re)encontro com parentes, ancestrais, alguns dos quais você nem conhecia. Fale um pouco desta motivação em atravessar o oceano pela primeira vez. Na verdade eu já atravessei o oceano uma vez, em 1988, quando passei 25 dias fazendo um curso na França. Na volta, lembro que o avião fez escala em Lisboa, mas não descemos e fiquei olhando com a vontade presa no coração. Agora, finalmente poderei visitar a terra de meus pais e avós. Meu pai é de Braga, norte do país, e minha mãe do Porto. Vou ver tios e primos que não conheço a não ser por fotos. E andar pelo país, sentir o cheiro, o vento, a claridade e a beleza da sonoridade de uma língua que fala e canta diferente ali, com seu sotaque específico, sua música que cresci ouvindo.
Esta tua herança portuguesa já era apontada em músicas como Aldeia, gravada por Nosly, São Luís, por Claudio Lima, e na homenagem que te fizeram Sérgio Natureza e Kléber Albuquerque em Devoluto. Apesar da proximidade linguística com Portugal, conhecemos mais astros ingleses e americanos que nomes portugueses em qualquer arte. Parece que paramos em Roberto Leal. Você de algum modo acompanha a cena? Que nomes destacaria? A poesia portuguesa do século 20 é fantástica. Acaba que a gente fica sabendo mais de Fernando Pessoa, Mário de Sá Carneiro e alguns poucos do modernismo. Pessoa esmaga os demais, quase como o papel que Drummond representa na poesia brasileira. Mas isso vem mudando aos poucos. A gente já vê, aqui e ali, uma preocupação em conhecer mais os portugueses. Destacaria, por exemplo, Herberto Helder, que morreu há uns dois anos; Ruy Belo, Jorge Sena, Alberto Pimenta, António Rosa, Alexandre O’Neill. Na música conheço bem Sérgio Godinho, Pedro Abrunhosa, Ruy Veloso e a Carminho, que é uma fadista genial. Isso sem falar nos africanos, que são muitos também e que desconhecemos quase completamente. Precisamos aumentar esse diálogo, esticar essa língua linda que é o português.
Em recente recital na SMDH [Sociedade Maranhense de Direitos Humanos] você afirmou que “vive por causa da poesia”. Em uma viagem familiar e turística você aproveita para realizar um recital de lançamento de seus mais recentes trabalhos, o livro O futuro tem o coração antigo e a revista Fúria. É uma prova daquela afirmação, não é? A poesia é minha combustão, meu oxigênio, o que me move. Sem a arte e a literatura seria impossível suportar a realidade. E isso está dentro de mim mesmo quando a rotina e as obrigações cotidianas me mordem covardemente.
No recital de lançamento você será acompanhado por Assis Medeiros, músico e parceiro que lança seu disco Lamina, em terras portuguesas. Como vai ser este encontro no palco e qual a base do repertório? Assis é um parceiro raro, que toca, canta e compõe bem. Dividir com ele essa experiência no palco é uma honra. Vou ler entre 12 e 15 poemas, acompanhado por suas intervenções. Em outra parte do recital, A posição da poesia é oposição, que deve durar cerca de 30 minutos, ele vai cantar duas ou três canções, uma delas um poema de Augusto dos Anjos que ele musicou.
Desde seu disco de estreia, Achados & perdidos [2005], Curumin revelou-se um mago da música brasileira contemporânea: é o cara que sabe o que fazer em um estúdio, passeando pela diversidade rítmica pilotando diversos instrumentos. Seu quarto disco, Boca [Natura Musical, 2017, disponível para audição nos sites do cantor e do edital], aguardado sucessor de Arrocha [2012], é mais uma prova inconteste de seu talento.
Multi-instrumentista com presença constante em fichas técnicas de discos e shows de nomes como sua esposa Anelis Assumpção, Arnaldo Antunes e Céu, entre muitos outros, seu novo disco é alicerçado em programações eletrônicas pilotadas pelo próprio artista, que além de cantar, ainda toca bateria e teclados.
Seus fiéis escudeiros são os contrabaixistas e produtores Zé Nigro e Lucas Martins, que também se revezam entre guitarras, teclados, programações e vocais. Boca conta ainda com participações especiais de Beto Bellinati (voz em “O burguês que deu errado”, trecho do poema No slam resistência, de sua autoria), Russo Passapusso (BaianaSystem, voz em Boca pequena parte 1 e 2, de sua autoria – a primeira é de Curumin; Terrível também é parceria de ambos), Marcelo Jeneci (teclados em O atrito, de Curumin), Rico Dalasam (voz em Tramela, parceria sua com Curumin), as crianças Bento (sobrinho), Benedito e Rubi Assumpção (filhos do artista, vozes em Descendo, de Curumin), a rapper espanhola Indee Styla (voz em Boca cheia, parceria sua com Curumin) e Andrea Dias, Anelis Assumpção, Iara Rennó e Max B.O. (vozes em Paçoca, parceria de Curumin com os convidados, que tem ainda o cavaquinho e percussão de Rodrigo Campos).
O projeto gráfico é de Ava Rocha (arte, foto, capa), cantora filha do cineasta Glauber Rocha, e Ciça Lucchesi. Na capa, Curumin tem um olho na boca, como se regurgitasse ao mundo o que vê, “porque a boca fala aquilo do que o coração tá cheio”, como Veronica Ferriani adaptou a sentença bíblica para batizar um disco seu.
A boca, um dos “sete buracos da minha cabeça”, como enumerou Caetano Veloso em A tua presença morena, aparece constantemente neste novo trabalho de Curumin: “Dançando no beiço da boca da noite/ cai bem, cai bem” (em Bora passear, de Curumin, música-convite que abre o disco), nos títulos de Boca pequena parte 1 (“Corre a boca pequena/ a boca pequena/ a boca pequena”) e 2, Prata ferro, barro (de Curumin: “caio na boca do dia/ um bafo quente me engole”), Boca de groselha (de Curumin: “Boca de groselha/ me fala besteira”) e Boca cheia (“O recheio da sobremesa/ escorre pelos cantos de sua boca cheia”).
O cantor, compositor e multi-instrumentista em foto de Ava Rocha
Se Caixa preta, faixa de JapanPopShow [2008], sobre escândalos envolvendo malas e o rabo preso da indústria da notícia (é possível falar em empresas jornalísticas em tempos de “pós-verdade”?), segue atualíssima, Curumin, que em Boca assina as músicas de sua autoria com seu nome de pia, Luciano Nakata Albuquerque, volta ao tema, em Boca pequena parte 1: “Paletó, cordão de ouro/ amuleto e maleta recheada/ tá firmado o acordo/ […]/ entre o trono de rei/ e o banco dos réus/ passeia o neo coronel/ cheio de falsas bandeiras/ apertando maços de garoupa na carteira/ diabinho batucando no ombro/ ele samba na cara da sociedade”.
Artista antenado, Curumin traz mensagens políticas em seu disco, sem soar panfletário. Em Trecho de “O burguês que deu errado” o texto enfrenta machismo/misoginia, racismo e homofobia: “eu sou homem, branco e heterossexual. Teoricamente isso faz de mim um bosta”.
Em Paçoca lembra dos que têm fome: “Bota água na panela/ abre a tampa da cabeça/ que o guisado das ideias/ mata a fome do planeta// a barriga tá roncando/ mais que uma cuíca velha/ osso duro, samba torto/ e as cadeira quase quebra”, diz a letra.
Num país em crise, onde arte às vezes é tida como artigo de luxo, já que comer, necessidade básica, é prioridade, a música de Curumin é alimento necessário. Sustança para o corpo dançar, a alma transbordar e a boca cantar junto.
O voto popular deu a João do Vale o merecido título de maranhense do século XX. O cantor e compositor, um dos mais importantes do Brasil em todos os tempos, é tido como um dos pilares da música nordestina, ao lado de Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro e Marinês – que gravaram suas músicas.
Cantador de coisas simples, imortalizou em suas composições sua terra e sua gente. Minha história, comovente autobiografia musical, é um ótimo exemplo.
João do Vale – Mais coragem do que homem [Edufma, 1998], biografia escrita pela jornalista Andréa Oliveira, há muito está esgotada. Não é disputada a tapas e a peso de ouro em sebos simplesmente por que não se encontra.
Ela conviveu com o ídolo durante seus últimos anos. Após o sucesso no sul maravilha, João do Vale retornou para sua Pedreiras natal, no interior do Maranhão, para reencontrar a vida simples que tanto o inspirou, o pé no barro do chão, o dominó com os amigos na esquina, o Lago da Onça e a Rua da Golada, Mané, Pedro e Romão, imortalizados em clássicos como Pé do lajeiro, Pisa na fulô e a já citada Minha história.
João – O menino cantador. Capa. Reprodução
Apaixonada pela vida a obra de João do Vale, Andréa Oliveira volta a seu personagem no infantil João – O menino cantador [Pitomba!, 2017, 36 p.], em que busca contar para crianças a/s história/s do artista, valorizando sua infância.
“Era uma vez”, começa o livro, evocando a clássica abertura dos contos de fadas. O livro nasceu do desejo de Andréa Oliveira, autora ainda de Nome aos bois – tragédia e comédia no bumba meu boi do Maranhão (2003), de contar a história de João do Vale aos filhos, à época ainda crianças – entre a ideia e a publicação foram sete anos.
A autora mescla a precisão jornalística e seu compromisso com a veracidade dos fatos ao universo fabular. Garante às crianças, como ela declarou em entrevistas, os direitos à verdade e à fantasia, no que o próprio João do Vale foi um craque.
Em meio à narrativa de Andréa Oliveira, trechos de músicas de João do Vale (não há quem não se pegue cantando ao ler) e ilustrações do artista plástico Fernando Mendonça, cuja simplicidade certamente despertará o interesse das crianças em produzir suas próprias ilustrações, “completando” as originais do livro – o projeto gráfico é do cantor e designer Claudio Lima. Literatura, música e artes plásticas redescobrindo, para as novas gerações, a importância do autor de Estrela miúda e Na asa do vento.
A narrativa é linear, acompanhando João do Vale desde sua infância até o falecimento, passando por sua ida ao Rio de Janeiro, de carona em caminhões, o trabalho na construção civil, as primeiras gravações, o sucesso, a resistência à ditadura militar – do que o clássico Carcará é metáfora exemplar.
Mas engana-se quem pensa que a história tem final triste: a autora atesta, com razão, que João do Vale permanece vivo, prova disso é sua obra, até hoje cantada e assobiada por muitos, e este livro, cuja beleza e delicadeza reavivam a memória do artista – este realmente merece ser chamado de “popular” – e, além de comover os que já lhe conhecem, certamente despertará o interesse dos que porventura ainda não.
Num tempo em que em geral crianças interessam-se mais por celulares e tablets que por livros, João – O menino cantador tem também uma difícil tarefa de conquistar novos leitores. Que, curiosos, poderão voltar aos eletrônicos para descobrir João do Vale através do youtube e de outros aplicativos.
Serviço
A noite de autógrafos de João – O menino cantador, de Andréa Oliveira, acontece nesta quinta-feira (1º. de junho), às 18h30, na Sala de Exposições do Condomínio Fecomércio – Sesc/Senac (Av. dos Holandeses, Calhau). Haverá pocket show com Ivandro Coelho interpretando repertório de João do Vale. Publicado pela editora Pitomba!, o livro tem apoio do Sesc/MA
Ao contrário de shows em que, em geral, o uso de celulares e câmeras é proibido (em vão) pela produção, a plateia que assistiu Claudio Lima sábado passado (27), no Cine Teatro da Cidade de São Luís, foi das mais educadas que vi em muito tempo. E a colheita de imagens e posterior postagem nas redes sociais foram incentivadas, logo no texto de abertura, que anunciou a subida do cantor ao palco.
“Coloquem seus celulares no silencioso, mas não os desliguem: fotografem e filmem e postem nas redes sociais”, dizia o texto. Em seguida, solicitou, para gargalhadas da plateia: “este show está sendo gravado. Guardem manifestações como “lindo! Gostoso! Arrasou, qualhira!”, para os intervalos das músicas”. Pedido pronta e educadamente atendido.
Gritos de “lindo!”, “gostoso!” e “viado!” foram ouvidos ao fim da primeira música, Boi tarja preta (Celso Borges/ Alê Muniz). “Tá bom, gente! Já chega!”, pediu Claudio Lima entre a timidez ensaiada e o domínio absoluto da cena – sua performance nunca é exagerada, a serviço tão somente de sua voz, de dar ênfase ao que canta.
O show de lançamento de Rosa dos ventos coroava de forma brilhante uma ideia acalentada há ao menos cinco anos. O show seguiu à risca o roteiro do disco, à exceção de Lástima (Giovanne Chaves), que cantou sentado, acompanhado apenas pelo teclado de Rui Mário.
A inclusão da inédita comprova o que Claudio Lima disse em entrevistas de divulgação do show: já está catando repertório para um próximo disco. Em Rosa dos ventos gravou apenas nomes maranhenses – incluindo ele, em seu début como compositor – e quase apenas inéditas, a exceção justamente a faixa-título, já registrada pelo compositor, Bruno Batista – “mas eu cantei antes”, também frisou em diversas entrevistas, lembrando os prêmios de melhor música e melhor intérprete que ele e Bruno levaram, respectivamente, no Festival Viva 400 Anos de Música Popular, que em 2012 celebrou os 400 anos de fundação da capital maranhense.
Claudio Lima, que a exemplo de seus discos anteriores, assina o projeto gráfico de Rosa dos ventos, também era autor do belo cenário em que desfilou o repertório do disco, acompanhado por Eduardo Patrício (programações eletrônicas, bateria e percussão), Pablo Habibe (guitarra), Davi Oliveira (contrabaixo), Memel (guitarra), João Neto (flauta) e Rui Mário (teclado e sanfona).
Em Eu não sou refém da maioria (Claudio Lima) trouxe ao palco o bailarino Luciano Teixeira que, a princípio enrolado numa bandeira do Brasil, foi literalmente até o chão coreografando o funk. “É uma honra, pra mim, pra vocês, pra toda a equipe, podermos fazer arte em tempos tão sombrios”, disse o cantor em determinada altura do espetáculo. Fervorosamente aplaudido após cada música, não foi diferente após o comentário.
Após São Luís (Variações líricas a partir de uma abertura de programa de reggae) (letra de Celso Borges sobre melodia de Michael Rilley), Claudio Lima tornou a brincar com a plateia: “não precisam pedir bis. Ele já está institucionalizado. A gente vai sair e volta pra fazer”. Voltaram aos gritos de “mais um, mais um!”, prontamente atendido. Cantou Bis (Cesar Teixeira), de onde tirou o verso que dá título a seu disco anterior, Cada mesa é um palco (2006). Foi o único momento em que o cantor e os seis músicos estiveram todos juntos no palco ao mesmo tempo, quando Claudio Lima os apresentou ao público.
O disco e a figura escolhida para título apontam em todas as direções, norte, sul, leste, oeste. Rosa dos ventos, disco e show, e Claudio Lima aglutinam e distribuem beleza. Seu público não é refém da maioria e justamente por isso estava ali.
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Roteiro do show
1) Boi tarja preta (Celso Borges/ Alê Muniz)
2) Salomé minha dor (Fernando Abreu/ Marcos Magah)
3) Não seja burra, baby (Walquiria Almeida/ Claudio Lima)
4) Caminhos ocultos (Der wegweiser) (Franz Schubert/ Claudio Lima)
5) Pingão (Tiago Máci)
6) Parapapá (Claudio Lima/ Mário Tommazo)
7) Esmolas (Bruno Batista)
8) Não sou refém da maioria (Claudio Lima)
9) Melodia sentimental (Claudio Lima/ Mário Tommazo)
10) Lástima (Giovanne Chaves)
11) Só me resta regar tuas petúnias (Claudio Lima/ Marcos Tadeu)
12) Falta flauta (Claudio Lima/ Marcos Tadeu)
13) Nem os cadáveres sobreviverão (Marcos Magah/ Acsa Serafim)
14) Rosa dos ventos (Bruno Batista)
15) São Luís (Variações líricas a partir de uma abertura de programa de reggae) (Celso Borges/ Michael Rilley)
O lp Bandeira de aço, lançado pela gravadora Discos Marcus Pereira em 1978, catalisava experiências sonoras iniciadas anos antes pela turma que fundou em 1972 o Laboratório de Expressões Artísticas (Laborarte), em torno do qual orbitavam os “compositores do Maranhão” (inscrição que vinha abaixo do nome do intérprete na capa do disco) gravados por Papete.
As tais experiências contribuíram para a aceitação, pelas elites, de uma estética da cultura popular do Maranhão, que transitavam entre o sacro (a religiosidade, sobretudo do período junino) e o profano (as festas regadas a álcool), como de resto as festividades juninas – várias toadas registradas por Papete são clássicos cantados até hoje a plenos pulmões, por multidões, que muitas vezes sequer sabem os nomes de seus compositores.
A partir de Bandeira de aço Papete tornou-se uma espécie de embaixador da cultura popular do Maranhão mundo afora. O (ex-)publicitário Marcus Pereira, responsável por um mapeamento musicultural do Brasil de suma importância, creditou-lhe a tarefa de interpretar o conjunto de composições de Cesar Teixeira, Josias Sobrinho, Ronaldo Mota e Sérgio Habibe, que acabou configurando-se um divisor de águas na música produzida no Maranhão.
“Bandeira de aço firmou-se como um marco desta estética que estava sendo perseguida desde o início da década. A voz fraca de Papete ficou ótima, com um acento lamentoso. Ninguém cantou melhor Boi da lua e Catirina, por exemplo, para ficar nestas. Um disco histórico”, atestou Flávio Reis, professor do departamento de sociologia e antropologia da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), no artigo Antes da MPM (Vias de Fato, setembro/2011).
Maranhense de Bacabal, cantor e multi-instrumentista, Papete foi reconhecido internacionalmente como um dos maiores percussionistas de todos os tempos. Deixou seu nome em fichas técnicas de discos de artistas como Almir Sater, Chico Buarque, Clementina de Jesus, Dominguinhos, Eduardo Gudin, Erasmo Dibell, João Bá, Josias Sobrinho, Marília Gabriela (sim, a entrevistadora!), Osvaldinho da Cuíca, Passoca, Paulinho da Viola, Paulinho Nogueira, Renato Teixeira, Rita Lee, Toquinho e Verônica Ferriani, entre muitos outros.
Às vésperas do período junino, Papete nos deixou há um ano. Hoje, em São Luís, receberá duas homenagens – entre o sacro e o profano, digamos: hoje (26), às 19h, na Igreja Bom Pastor (Praça da Igreja do Renascença), será celebrada a missa de um ano pelo falecimento de José de Ribamar Viana (seu nome de batismo). E a partir das 20h, na Casa de Iaiá (Rua São Conrado, 71, Olho d’Água), diversos artistas e amigos se reúnem para celebrar sua obra e memória, em Um show para Papete, que reúne Alberto Trabulsi, Marconi Rezende, Milla Camões, Tássia Campos e Tutuca Viana, além da DJ Vanessa Serra. Os ingressos custam R$ 20,00.
Lançado originalmente em 1974, o único disco do Moto Perpétuo, que leva apenas o nome da banda, acaba de ganhar nova reedição em cd. O grupo, que tinha entre os membros Guilherme Arantes (teclado e vocal) antes da carreira solo, se completava com Gerson Tatini (contrabaixo e vocais), Cláudio Lucci (violões, violoncelo, guitarra e vocal) e os já falecidos Egydio Conde (guitarra solo e vocais) eDiógenes Burani (percussão e vocais).
Do quinteto, somente Guilherme Arantes alcançou sucesso de público, em carreira solo. Cláudio Lucci tocou em Façanhas (1991), de Arrigo Barnabé, e no disco de José Miguel Wisnik que leva seu nome (1992), e pôs a voz (coro) no discos A light at the end of the tunel (1992), de Celso Pixinga, e Ópera do malandro – ao vivo (2003), coletivo sobre a obra de Chico Buarque; Conde tocou em Ligação (1983), de Guilherme Arantes; e Burani tocou em Build up (1970), de Rita Lee, e nos antológicos Ou não (1973) e Revolver (1975), de Walter Franco.
O som progressivo do Moto Perpétuo dialoga com bandas como O Som Nosso de Cada Dia – que também chegou a ter Egydio Conde como integrante –, Som Imaginário e A Barca do Sol. A sonoridade do álbum também dá pistas do que viriam a ser os primeiros discos solos de Guilherme Arantes – que assina sozinho nove das 11 faixas de Moto Perpétuo.
Ao contrário do que possa indicar o título, no entanto, o álbum é curto: tem pouco mais de 37 minutos. A ideia da peça sem fim faz sentido, no diálogo da última faixa, Turba, com a primeira, Mal o sol. Aquela encerra: “bom dia, café com leite/ bom dia planalto/ que diabo o cinza desse asfalto”; enquanto esta começa: “A partir da cama num hotel de fronteira/ olhos de água céu e missa/ ao calor do dia ou à sua certeza/ mal o sol amarelecera no céu”.
Em seu terceiro disco, cantor revela-se também compositor. Rosa dos ventos será lançado em show no próximo dia 27 de maio
Rosa dos ventos. Capa. Reprodução
POR ZEMA RIBEIRO
Cada disco de Claudio Lima é único. O artista não repete fórmulas, se arrisca, ousa, nunca se acomoda em uma zona de conforto. É um dos mais talentosos cantores brasileiros em atividade. A cada disco, cuida de cada detalhe: da seleção de repertório – só canta o que lhe emociona – ao projeto gráfico: artista talentoso também nessa seara, já emprestou seus dotes a discos de Bruno Batista e Cecília Leite.
Isto talvez explique o grande intervalo entre um trabalho e outro: cinco anos de Claudio Lima (2001), a estreia, a Cada mesa é um palco (2006), dividido com Rubens Salles, pianista baiano radicado nos Estados Unidos, e mais de 10 entre o segundo e este Rosa dos ventos (2017), que lançará em show no próximo dia 27 de maio (sábado), às 20h30, no Cine Teatro da Cidade de São Luís (antigo Cine Roxy, Rua do Egito, Centro) – os ingressos antecipados custam R$ 20,00, à venda na Livraria Leitura (São Luís Shopping); no dia do espetáculo, R$ 30,00, na bilheteria do teatro.
A história de Rosa dos ventos, o disco, começa em 2012, quando Claudio Lima levou para casa o troféu de melhor intérprete no Festival Viva 400 Anos de Música Popular, que celebrou os 400 anos de fundação da capital maranhense. A composição de Bruno Batista, que gravou-a em seu Lá (2013), levou a estatueta de melhor música e com o dinheiro do prêmio, Claudio Lima começou a arquitetar o novo álbum, cuja realização se completou com o patrocínio do Centro Elétrico através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão.
Em Rosa dos ventos o artista debuta como compositor: sozinho ou em parceria, assina metade das 14 faixas, alicerçadas pelas bases eletrônicas de Eduardo Patrício, com quem divide a produção musical. A ele, com seus loops, efeitos sonoros, sintetizadores, baixo, marimba e programação de xilofone, somam-se João Simas (guitarra, baixo, teclado e loops de bateria), Pablo Habibe (guitarra e violão), Rui Mário (sanfona, piano e violoncelo), Roberto Chinês (cavaquinho e bandolim) e João Neto (flauta).
Há poema de Walquiria Almeida musicado (Não seja burra baby), versão de Franz Schubert (Der wegweiser virou Caminhos ocultos), o funk Não sou refém da maioria, cuja mensagem pode ser uma espécie de cartão de visitas do cantor, além de parcerias com Mário Tommazo (Parapapá e Melodia sentimental) e Marcos Tadeu (Só me resta regar tuas petúnias e Falta flauta).
O cantor em retrato de Alison Veras
Antenado, Claudio Lima reúne ao menos três gerações de compositores maranhenses na ativa, atestando a si mesmo como um “pescador de pérolas”, expressão que não à toa já intitulou disco de outro grande cantor brasileiro.
Rosa dos ventos abre e fecha com o olhar poético sui generis de Celso Borges sobre a cultura popular e a capital maranhense: a toada Boi tarja preta (parceria com Alê Muniz), em que dessacraliza o bumba meu boi, e a pedra de responsa São Luís (Variações líricas a partir de uma abertura de programa de reggae), versão para o clássico Shaperville, de Michael Riley.
Marcos Magah também comparece com duas músicas ao repertório: Salomé minha dor (parceria com o poeta Fernando Abreu) e Nem os cadáveres sobreviverão (com Acsa Serafim), ambas já testadas (e aprovadas pelo público) em shows de Claudio Lima. Quem também lhe fornece um par de pepitas é Bruno Batista: Esmolas e a faixa-título. O repertório se completa com o samba Pingão, de Tiago Máci, recheado de ludovicensidade, crítica social e fina ironia.
Claudio Lima faz música e é impossível rotulá-lo além disso. Sobre a demora deste Rosa dos ventos o que se pode dizer é que valeu a pena esperar. Ele afirma já ter repertório e já estar trabalhando no próximo disco, mas a letra de Não sou refém da maioria pode responder a eventuais cobranças mais apressadas: “não me queiram enquadrar/ em nenhum padrão vulgar/ onde eu tenha que concordar/ o meu molde se quebrou”.
Não é apenas cada disco de Claudio Lima que é único: ele próprio o é.
Juraildes da Cruz começou a despontar em festivais de música em 1976, mesmo ano em que Xangai lançava seu primeiro disco. Sua estreia fonográfica só aconteceria em 1990, com O cheiro da terra.
O baiano é um dos maiores intérpretes do tocantinense, responsável pela popularização de seu talvez maior hit, Nóis é jeca mais é joia – título de um disco que dividiram, lançado pela Kuarup em 2005 –, uma crítica a nosso complexo de vira-latas, com seu refrão direto: “se farinha fosse americana, mandioca importada/ banquete de bacana era farinhada”. A música venceu o Prêmio Sharp (hoje Prêmio da Música Brasileira) em 1998, na categoria melhor música regional.
Outras composições de destaque de Juraildes da Cruz são Dodói (gravada por Titane em Sá Rainha, de 2000), Quem ama perdoa (lançada por Genésio Tocantins e regravada por Xangai em seu disco mais recente), e Meninos (gravada por Dércio e Doroty Marques no antológico Monjolear, disco infantil de 1996), que parece traduzir sua sina: “quero acordar com os passarinhos/ cantar uma canção com o sabiá”, diz um trecho da letra.
Versátil, sua música pode tanto trazer crítica social quanto cantar o cotidiano de camponeses ou o amor, o mais universal dos temas. Tudo isto certamente comparecerá ao repertório de sua apresentação no próximo domingo (7), às 16h, no Sarau Sereno Cultura e Arte (Rua das Perçoeiras, 100, Quintas do São João), em São José de Ribamar, com ingressos popularíssimos a apenas R$ 10,00. A primeira visita do artista ao Maranhão aconteceu há mais de 10 anos. Ele conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.
Juraildes da Cruz se apresenta neste domingo em São José de Ribamar. Foto: divulgação
É a primeira vez que você vem ao Maranhão? Não, a primeira vez foi em 2005, pela Funarte [a Fundação Nacional de Artes, órgão vinculado ao Ministério da Cultura].
Naquela ocasião você chegou a passear, conhecer algo? Dessa vez que eu estive aí pela Funarte não tive a oportunidade de passear, conhecer o Maranhão, por que foi bem rápido.
Nessa vinda agora, com mais tempo, pretende conhecer? E da música do Maranhão, você já foi apresentado a algum nome? Há alguém de quem se lembre? Não sei se dará tempo, mas será uma boa oportunidade. Conheço Zeca Tocantins, Carlinhos Veloz, Zeca Baleiro…
Você começou a carreira na mesma época em que Xangai, no entanto tem uma discografia menor. A que você credita isso? Eu não comecei a carreira na mesma época; eu comecei muitos anos atrás, em 1976, 78, em festivais, participei do festival da Tupi, onde participaram vários ícones da música popular brasileira, na época começando, Oswaldo Montenegro, Elba Ramalho, Zé Ramalho, até o Caetano Veloso participou desse festival, Jackson do Pandeiro estava lá. Nós tivemos a oportunidade de participar desse festival, então aí que a gente começou. Eu comecei mesmo a partir de meu primeiro disco, que foi em 1990. O primeiro disco do Xangai foi em 1976 e o meu primeiro foi em 1990, então há uma caminhada já bem longa do Xangai, bem anterior à minha.
Suas músicas mais conhecidas foram gravadas por Xangai, Genésio Tocantins e Titane. O que estes parceiros e intérpretes significam para você? O Genésio Tocantins foi meu primeiro parceiro, a gente trabalhou juntos, passamos por vários festivais. Xangai foi meu maior incentivador, admira meu trabalho, grava músicas minhas até hoje, e a Titane também gravou uma música, Dodói, são pessoas assim, que ajudaram a semear a semente de Juraildes da Cruz.
Qual a base do repertório desta sua apresentação em São José de Ribamar? A base do repertório são algumas músicas mais conhecidas. Como é um público mais específico, tem músicas novas, músicas de reflexão, músicas com uma leitura de nosso tempo, nossa sociedade, e também ligadas ao lado espiritual.
Sua Nóis é jeca mais é jóia venceu o Prêmio Sharp, atual Prêmio da Música Brasileira. Passado algum tempo e após o sucesso da música, o brasileiro parece ainda não ter se livrado de seu complexo de vira-latas. Por que você acha que o brasileiro aprecia tanto e tenta imitar o que vem dali, às vezes pouco se importando com artistas e obras mais interessantes? Na verdade, os maiores meios de comunicação do Brasil são, nada mais, nada menos, do que uma central dos Estados Unidos em nosso país. Como já dizia Elomar, a maior ogiva nuclear que os Estados Unidos lançou no mundo não foi a bomba atômica, e sim o cinema, onde eles colocam, através do cinema, sua cultura, seu jeito de ser, a sua aparentemente melhor maneira, a melhor moda, entende? Então o Brasil não é diferente de outros países que são minados em sua cultura, em seus costumes, pela força da mídia internacional. O que parece que vem de fora sempre será mais bonito para quem não tem uma informação, quem ainda é provinciano, no sentido de valorizar sua cultura. Então, vamos sempre ter essa, melhor não dizer sempre, um dia poderemos ser mais originais e valorizar mais o nosso quintal, o que é nosso, o que é Brasil.
Você falou sobre a interferência americana na soberania nacional. Como avalia o atual momento político vivido pelo Brasil? O momento mostra um Brasil exposto, com todas as fraturas possíveis expostas, uma casa totalmente arrombada, sem dono e por isso mesmo sucateada de todos os lados. Realmente é o fundo do poço, só há uma alternativa: emergir, renascer. Acho complicado, pois não temos peças de reposição confiáveis. O ideal seria que novos no poder representassem mudanças, transformação pra melhor e que não fosse apenas um novo jeito de continuar sangrando o país.
Lembrando que este governo é machista, ano passado você venceu um concurso de músicas sobre a lei Maria da Penha. É uma preocupação tua, em teu trabalho, trazer sempre uma mensagem importante, de cunho social? Meu pensamento tem uma função crítica também, é com se [eu] fosse um sentinela, observador dos acontecimentos. O compositor tem essa oportunidade de retratar a sociedade e tornar acessível, trazer de forma mais clara o que está oculto aos olhos da multidão.
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Ouça Nóis é jeca mais é jóia (Juraildes da Cruz), com o autor:
O bigode mais importante da música brasileira nos deixou esta madrugada. Reprodução
“Se você vier me perguntar por onde andei/ (…)/ de olhos abertos lhe direi”: que falta faz um Belchior nestes tempos tenebrosos que vive o Brasil. Desaparecido há alguns anos, o bardo cearense faleceu esta madrugada em Santa Cruz do Sul/RS, destino final deste “jovem que desce do norte pra cidade grande”, “há tempo, muito tempo, que eu estou longe de casa”
O bigode mais importante da música brasileira já estava afastado de palcos e estúdios há alguns anos, mas é fato que sua obra nunca o deixou desaparecer por completo – o que não acontecerá nem agora, quando de sua subida – e nunca deixou de traduzir o Brasil à perfeição, “amar e mudar as coisas me interessa mais”.
“O passado é uma roupa que não nos serve mais”, mas parece que teimamos em usar, mesmo rota e apertada, que o diga o golpe em curso, que falta faz a mira do sobralense apontada para este estado de coisas, atendendo ao pedido de hashtags e blocos de carnaval: fora, Temer! Volta, Belchior! “Com fé em Deus, um dia/ ganha a loteria/ pra voltar pro norte”.
“O povo cearense enaltece sua história, agradece imensamente por tudo que fez e pelo legado que deixa para a arte do nosso Ceará e do Brasil. Que Deus conforte a família, amigos e fãs de Belchior. O Governo do Estado decretou luto oficial de três dias”, declarou o governador do Ceará Camilo Santana (PT) em uma rede social.
“Nossos ídolos ainda são os mesmos” e sexta-feira passada, quando Gildomar Marinho, radicado no Ceará, subiu ao palco para uma canja durante a apresentação de Wilson Zara no Buriteco Café, pedi-lhe que tocasse Conheço meu lugar, a minha preferida (escolha difícil) do repertório de Belchior: “o que é que pode fazer um homem comum neste presente instante?”.
Triste, me pego tentando sorrir de obituaristas que ainda caem na velha piada do quilométrico nome falso que Antonio Carlos Belchior (só isso!) inventou em entrevista à turma do Pasquim.
Mas “não há motivo para festa/ a hora é esta/ eu não sei rir à toa”. “Eu sou apenas um rapaz latino-americano sem dinheiro no banco” que gasta os poucos trocados com discos, livros e jornais. Agora sabemos por onde anda Belchior. Sua volta pode ser impossível. Sua permanência, não: “guarde uma frase pra mim dentro da sua canção”.
Que venham as homenagens, a mais aguardada, certamente, o lançamento da biografia Pequeno perfil de um cidadão comum, do jornalista Jotabê Medeiros, setembro que vem. “Mas o anjo do Senhor (de quem nos fala o Livro Santo)/ Desceu do céu pra uma cerveja, junto dele, no seu canto/ E a morte o carregou, feito um pacote, no seu manto/ Que a terra lhe seja leve”.