O horizonte musical comum de Kleber Albuquerque e Rubi

Contraveneno. Capa. Reprodução
Contraveneno. Capa. Reprodução

 

Os caminhos musicais de Kleber Albuquerque e Rubi começaram a se cruzar há 20 anos, quando o segundo ouviu o primeiro disco do primeiro e foi procurar o lendário Mário Manga (ex-Premeditando o Breque) para produzir também seu disco de estreia.

Suas estradas continuaram se cruzando ao longo da carreira, com um participando de discos do outro (Kleber é um dos principais compositores do repertório de Rubi), além da participação comum em trabalhos de artistas como Zé Modesto.

No fim do ano passado estrearam o show Contraveneno, batizado por parceria de Kleber com Flávvio Alves, poeta-produtor à frente da Sete Sóis, que lança os discos da dupla, e com que passaram por São Luís em outubro passado. O show virou disco. Era o horizonte comum que faltava em suas trilhas.

O clima intimista e delicado do show foi transposto para o registro, gravado ao vivo no estúdio Parede Meia. Rubi (voz e violão requinto) e Kleber Albuquerque (voz e violão), que assina o projeto gráfico do disco, são acompanhados por Mário Manga (violoncelo) e Rovilson Pascoal (guitarra e violão).

Kleber Albuquerque é um dos mais sensíveis e talentosos compositores de sua geração e Rubi está entre os melhores cantores do Brasil, quando se conjugam suas qualidades vocais e a seleção de repertório.

Poderiam ter optado por fazer um disco com o melhor destes 20 anos, mas talvez isso soasse óbvio demais. Entre as músicas de seus repertórios a mais conhecida é Ai (Kleber Albuquerque/ Tata Fernandes), já gravada por ambos: “Deu meu coração de ficar dolorido/ arrasado num profundo pranto/ deu meu coração de falar esperanto/ na esperança de ser compreendido”, diz a letra.

Procura no Google e Geração (ambas de Kleber Albuquerque) completam a parte mais conhecida do repertório, ao lado do choro Cerol e da faixa-título, gravadas no disco Outras canções de desvio, de Flávvio Alves, parceiro de Kleber Albuquerque em ambas.

O gosto pela chamada música caipira é outra praia comum da dupla, evidenciada pelos registros plangentes de Castelo de amor (Nenzico/ Creone/ Barrerito), do Trio Parada Dura, que abre o disco, e Eta nóis (Luli/ Lucina).

Kleber e Rubi mostram que suas antenas captam ainda sinais tão distantes quanto os do pernambucano Juliano Holanda (de quem gravam Sem tempo) e a argentina Maria Elena Walsh (Como la cigarra).

A quem não conhece o trabalho de Kleber Albuquerque e Rubi, Contraveneno é ótima porta de entrada. A quem já conhece, há provas de que a safra de inéditas mantém o nível que pavimentou suas estradas – comuns: a caymmiana Milonga da noite preta e o hilariante reggae Papai Noel tomou gardenal (ambas de Kleber Albuquerque), que conta as aventuras de um bom velhinho que se cansa dos sininhos de natal e se aventura por outros ritmos na Jamaica e no Brasil.

Do repertório do Premeditando o Breque, Lava rápido (Wandi Doratiotto) fecha Contraveneno. Uma homenagem aos vanguardistas-paulistas, competentemente representados no disco por Mário Manga. Muito justa: afinal de contas, foi com ele que tudo começou.

Single dá pistas do novo disco de Marcos Magah

Cantor lança duas faixas em show nesta sexta-feira (21) no Odeon; disco novo sai em agosto

O cantor e compositor Marcos Magah lança nesta sexta-feira (21), às 21h, em show no Odeon Sabor e Arte (Praia Grande), o single Devolva meus discos do Odair José/ Tito (O que morreu esmagado por uma geladeira). Os ingressos, à venda no local, custam R$ 20,00.

As faixas não estarão no repertório de O homem que virou circo, terceiro disco de Magah, que será lançado em agosto. “Estas duas músicas indicam um caminho do que vai ser esse álbum. Eu não gosto de me repetir. Eu lanço uma coisa, eu não revisito. Esse single indica por que caminho nós vamos mais ou menos andar”, adianta.

Magah classifica Tito, parceria com o poeta Celso Borges, que participa da faixa, como “um xaxado psicodélico”. A música conta a história real de um homem que, como entrega o subtítulo, morreu esmagado por uma geladeira. Já Devolva meus discos do Odair José marca a estreia de Magah como intérprete – a música é uma parceria de Inácio Araújo e Leide Ana Caldas, de Os Carabinas, banda que abre a noite – que terá ainda discotecagem de Hugo Bodansky.

Para Magah, trata-se de “um típico clichê brega clássico”, dando mais pistas do que vem por aí. Ele conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.

"Tá cheio de artista chilique por aí, eu não sou desse tipo". Foto: Marco Aurélio
“Tá cheio de artista chilique por aí, eu não sou desse tipo”. Foto: Marco Aurélio

Você vai lançar um single, com duas músicas, revivendo a tradição de antigamente, dos compactos, neste caso antecedendo um disco cheio. Como você avalia esta, digamos, volta às origens da indústria fonográfica?
Eu acho que o vinil é uma espécie de “a volta dos que não foram”. O vinil nunca foi totalmente abandonado. Eu, particularmente, sou colecionador de vinil. Agora, falando concretamente sobre essa coisa de ele estar vindo e as pessoas se interessando, comprando, a indústria lançando, eu acho que a indústria está tentando no meio dessa confusão toda em que se transformaram as gravadoras e o mercado de música, tentando se reinventar, tentando encontrar um jeito de que isso possa continuar sendo consumido. Eu, quando vi aquele negócio de cd, nunca comprei essa ideia, tudo muito pequenininho, a parte gráfica perde muito. Eu sabia que o vinil, como um grande guerreiro, ia continuar vivendo. Eu acho maravilhosa essa volta do vinil, acho fantástico.

Tito é um personagem verídico e sua morte, esmagado por uma geladeira, de fato ocorreu. Gostaria que você comentasse um pouco este personagem, a ideia da homenagem e a parceria e participação especial do poeta Celso Borges.
Eu só falo o que eu vi. Tito, de fato, morreu esmagado por uma geladeira, por mais absurdo que isso possa parecer. Era um cara que trabalhava lá em Bacabal, em caminhão de mudanças. É uma cena meio maluca, surreal. As pessoas acham que uma pessoa não pode ser esmagada por uma geladeira. Claro que pode. Uma geladeira velha, sem gás, ela pesa. A geladeira da minha vó, pelo amor de Deus, eram uns quatro homens para carregar. Brinca também com esse universo, das coisas antigas que eu via na casa da minha vó. É uma homenagem minha ao Tito, um cara por quem eu tinha muito carinho, e ele por mim. A geladeira também pode ser vista como a realidade, essa realidade dura que a gente vive, que te esmaga. Todo dia a gente morre esmagado pela geladeira da realidade, uma realidade cada vez mais monstruosa, onde a vida se mostra cada vez mais dura, as pessoas mais duras, tudo está mais duro. A sensação dessa coisa do politicamente correto parece querer botar uma fleuma, uma pluma por cima disso, mas a realidade é muito complicada. A realidade é a geladeira, caindo por cima da gente todo dia. Eu comecei a pensar nessa música em São Paulo, quando eu estava com Celso. Celso Borges tem se mostrado um parceiro, é o parceiro mais ativo que eu tenho hoje, é a pessoa com quem mais eu faço música, com quem mais eu bato papo, peço ajuda, encho o saco dele. A gente começou a pensar em São Paulo. Chegando aqui, perto de gravar, a gente finalizou. Hoje a gente se chama de Tito um quando olha o outro [risos], “e aí, Tito? E aí, Tito?”. Celso é um parceiro, um amigo querido que eu fiz. Eu era um fã, que virou amigo, que virou parceiro. Já dá pra bater a biela com um pouquinho de orgulho [risos].

Devolva meus discos do Odair José também é, então, autobiográfica? Há algo de inspiração buarqueana aí, com o cantor sendo o teu Neruda?
Na verdade Devolva os meus discos do Odair José é a primeira vez que eu gravo uma canção que não é minha, de todo, de eu pegar e fazer tudo. O Inácio e a Leide certo dia me mostraram essa música no apartamento deles. Eu produzo muito, pra gravar música dos outros é complicado. Mas quando eu ouvi, eu falei: “ei, eu vou gravar essa música”, e eles não acreditaram. Eu peguei e gravei. É uma composição da Leide e do Inácio. É uma brincadeira com o Chico Buarque, “devolva o Neruda que você me tomou e nunca leu” [de Trocando em miúdos, parceria com Francis Hime]. É uma brincadeira que na verdade é uma sacanagem com o Chico Buarque, uma provocação.

Você se encontrou com Odair José recentemente, quando ele passou por São Luís para um show. Ele aprovou a homenagem e gravou imagens para um clipe teu. Conte um pouco mais desse encontro.
A gente se encontrou aqui em São Luís, ficamos de papo, foi uma experiência maravilhosa. Odair é um ser humano que vive em outro nível. Tu aprende tanto convivendo com um cara com uma alma como aquela ali. Odair é um ídolo, eu fiquei impressionado com o ser humano, com a figura dele. Parecia que eu tinha encontrado uma entidade. Nossa conversa foi muito sincera e muito aberta, por que nenhum dos dois está disposto a pagar de artista chilique [risos]. Tá cheio de artista chilique por aí, eu não sou desse tipo, quem me conhece sabe disso, e Odair com toda sua grandeza não tem isso. Foi ótimo! O que mais me impressionou, além da figura dele, foi o fato de ele dizer pra mim que já conhecia meu trabalho, que gostava, e que adorou a música do Odair José, ele disse que morria de rir da parte do Neruda. Como ele já conhecia meu trabalho, a conversa andou por outro nível. Ele falou que ia no youtube escutar, eu fiquei lisonjeado. Eu lembrei de mim aquele molequezinho que amava Odair José, e de repente eu estava do lado do cara. Ele ficou feliz com a homenagem. Em relação ao clipe nós estamos vendo isso. Isso e outras novidades que talvez venham por aí. Eu acredito que o Odair vá participar, sim. A gente vai fazer um clipe lindo em homenagem a esse gigante da música brasileira. Foi um encontro espiritual [risos], digamos assim.

É a primeira vez que Wellyson [Melo, produtor de Z de vingança] toca contigo em palco, não é?
É a primeira vez. Os meninos ficaram maravilhados com a técnica dele. Os meninos da banda estão tipo assim: “pô, esse cara é desse planeta?”. Ele está tocando teclados e efeitos. Ele toca todos os instrumentos, pra tu ter uma ideia. É a primeira vez que a gente toca junto, assim. Ele vai estar também no show do dia 6 [de maio], do Marcelo Nova [Magah abrirá o show do roqueiro baiano no Fanzine Rock Bar]. Ele veio para o Maranhão e está louco para se incorporar ao negócio da banda. “Magah, eu não quero só gravar, eu quero tocar contigo!”. É um gigante, é como se ele passasse um verniz naquela loucura toda. É um arranjador, de fato, um cara com uma formação. Não sei o que esse cara viu no meu som, até hoje eu sou encabulado com isso.

Cláudio Lima lança em maio disco novo, Rosa dos ventos, com duas músicas tuas. É um dos grandes cantores brasileiros em atividade. O que significa para você tê-lo como intérprete?
Claudio Lima é um dos grandes cantores brasileiros. Está lançando um álbum fantástico, eu tenho escutado direto. Pra mim é uma honra. Quando eu escuto ele cantando minhas músicas eu fico feliz pra caramba. É um grande amigo. É um cantor fantástico, eu tenho a maior admiração, como intérprete, como pessoa. Quero que ele cante mais músicas minhas. E vem aí um discaço. Claudio está com um trabalho fora de série na mão. Vamos aguardar!

Odair José foi censurado pela ditadura militar brasileira. Recentemente a banda Alafia, ao se apresentar no Cultura Livre, na TV Cultura, sem o consentimento da idealizadora, curadora e apresentadora do programa, Roberta Martinelli, teve trecho de uma música em que criticam Doria e Alckmin, censurado. Como você avalia o atual momento político e cultural brasileiro?
Eu vejo o passado, com o seu lado mais nefasto, visitando o presente. A gente está vivendo uma época, coisas que talvez há quatro, cinco anos, nós não imaginássemos que fossem voltar. A História é assim, não é retilínea, é uma cobra que se esgueira e às vezes morde o próprio rabo. A gente está vivendo esse mar revolto, essa confusão toda dentro da política, às vezes vendo artista sendo censurado, em pleno 2017. Eu sempre fui muito [interrompe-se], quando eu escutava “nós temos uma democracia constituída, e tal, tal, tal, sedimentada, com bases sólidas”, eu nunca acreditei muito nesse discurso. Você não pega 30 anos de ditadura, que acabou engessando essas instituições políticas de maneira geral e vê amadurecerem assim. Esses 30 anos de ditadura ainda não foram vencidos. Então a gente fica vendo essas voltas, uns Bolsonaros, uns oportunistas, esses momentos de crise, a História tem provado isso pra nós, de discursos mais conservadores, acabam voltando e dando um viés para a História inimaginável. Essa da censura é terrível. Existe um lado que eu vejo como importante e salutar da questão: a polarização do discurso. Eu acho que dessa confusão toda vão sair coisas melhores, vamos amadurecer essa polarização. Eu acredito no atrito, tem que ter o atrito para que as coisas avancem, se não fica todo mundo escovando o dente de todo mundo. Eu acredito que desse atrito a gente pode colher frutos e avançar como sociedade, e aí sim, de fato, sedimentar valores humanitários, tentar levar a humanidade pra frente. A polarização do discurso às vezes é necessária. A gente fica preocupado, como artista, como cidadão, a gente está de olho e não pode esquecer que somos partes ativas da História, precisamos estar ligados. Mar revolto, mar revolto total. Vamos torcer para que daí consigamos avançar de fato. Em todas as áreas, não só na artística. A gente vê um judiciário completamente maluco e capenga, confusão política dos infernos, é um momento realmente complicado. Mas eu acho que o caos é o prenúncio de um novo tempo.

Encruzilhadas poéticas

Outras canções de desvio. Capa. Reprodução
Outras canções de desvio. Capa. Reprodução

 

Outras canções de desvio [Sete Sóis, 2016] é trabalho de meticulosa ourivesaria. O disco, assinado pelo poeta Flávvio Alves, reúne poemas seus musicados por Kleber Albuquerque (Cerol, Orquídea cósmica, Teus olhos meus, Contraveneno e Desvio), Du Gomide (Quase lá), Carlos Careqa (Às traças), Richard Serraria (Mantra), Gabriel Schwartz (Novo amor antigo), Assis Medeiros (Em vão) e Fred Martins (Dois). Em uma faixa-bônus Kléber Albuquerque canta trecho de poema de Fernando Pessoa: “dorme, que a vida é nada!/ Dorme, que tudo é vão!/ Se alguém achou a estrada,/ achou-a em confusão,/ com a alma enganada”.

Nas 12 faixas a fina flor do que se convencionou chamar de nova MPB. Além dos compositores citados, cantores e instrumentistas surgidos no cenário nacional a partir de meados da década de 1990. Daniel Groove (Cerol), Kléber Albuquerque (Quase lá, Teus olhos meus, Mantra, Novo amor antigo e o trecho do poema de Pessoa), Carlos Careqa (Às traças), Fred Martins (Dois), Renato Braz (Orquídea cósmica, em dueto com Fred Martins), Aline Nascimento (Contraveneno, em dueto com Kléber Albuquerque), Ceumar (Desvio) e Elaine Guimarães (Em vão) emprestam sua voz aos poemas de Flávvio Alves, acompanhados por Rovilson Pascoal (contrabaixo, cavaquinho, guitarra, violão, ukulelê, teclado, violão 12 cordas, teremim e loops rítmicos), Gustavo Souza (percussão), Luque Barros (violão sete cordas), André Bedurê (contrabaixo em Contraveneno), Simone Sou (percussão em Desvio), Luiz Gayotto (percussão e percussão vocal em Novo amor antigo) e Estevan Sinkovitz (guitarra em Dois).

Desde aquela época, esta constelação tem sido responsável pelo lançamento de discos primorosos, parte deles pelo selo Sete Sóis, cujo principal nome por trás é justamente Flávvio Alves, que, ao agradecer a Kleber Albuquerque, em texto no encarte, afirma: “sem ele este trabalho não existiria, seria um dos tantos arquivados em minha gaveta”. A julgar pela beleza deste, não hesitamos em afirmar: é preciso desengavetar. Nome que mais aparece no encarte de Outras canções de desvio, o cantor e compositor assina também seu projeto gráfico, à altura da beleza do conteúdo – também pelo Sete Sóis, Kléber Albuquerque acaba de lançar um disco dividido com o cantor Rubi, intitulado justamente Contraveneno [2017], produzido por Flávvio Alves, cujo show passou pela Ilha ano passado.

Aos que julgam discos – e livros – pela capa, não se enganarão os que se arriscarem por ela, que aí começa a beleza deste disco: a ilustração de um violeiro numa encruzilhada – um dos possíveis desvios do caminho – é do escritor e desenhista Lourenço Mutarelli. A ele e sua esposa Lucimar, Flávvio Alves dedica Dois: “tudo tem sua vez/ mas toda vez/ vem depois de nós dois”, “posso ouvir teu olhar/ posso ver tua voz” e“tudo tem um talvez/ mas com você/ tudo é certo demais”, diz a letra.

Basicamente são canções de amor, mas nada há de piegas em Outras canções de desvio, disco que levanta o astral e o polegar positivamente e com rara categoria para responder à questão batida: letra de música é poesia? “De toda farsa imensa sempre em cada dia/ Nada ultrapassa a força bruta da poesia/ Em meio à massa a moça fica mais bonita/ é frágil a louça, ágil a fantasia”, diz a letra de Às traças.

Outro exemplo?: “era tanta magia/ no olhar da poesia/ raspas de luar/ mel de melodia”, em Teus olhos meus. Mais um?: “que haja sempre uma rede no alpendre da ilusão/ um novo verso no ventre universo/ e um maço de canção/ um novo verso no ventre universo/ pra tanto tropeço e decepção”, em Mantra. Deleitem-se e tirem suas próprias conclusões.

Uma orquestra na contramão

Foto: Francisco Colombo
Foto: Francisco Colombo

 

Regida pelo maestro Thiago Santos, a Orquestra Sinfônica da Universidade Federal da Paraíba (OSUFPB) encerrou ontem (10), em São Luís, sua bem sucedida Temporada 2017 – Tournée Nordeste (como grafado no programa), que passou por Mossoró/RN, Fortaleza/CE e Teresina/PI.

A inclusão da capital maranhense no circuito marca o início das comemorações dos 10 anos do curso de Licenciatura em Música da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), que abrigou o concerto, apresentado para um público de mais de 500 pessoas, num auditório que não por acaso leva o nome de Paulo Freire – que não por acaso também, abrigou, na manhã de ontem, um Concerto Didático, com a presença de cerca de 300 alunos de escolas públicas de São Luís.

A OSUFPB caminha na contramão, numa época em que orquestras sinfônicas são fechadas pelas batutas de gestores públicos, aqueles cujo slogan “não pense em crise, trabalhe” vale apenas para os outros, aqueles que pouco se importam com políticas públicas de cultura, preocupando-se tão somente com o sucateamento e a consequente privatização de instituições e espaços públicos.

“A orquestra não é só da Paraíba. É de todos nós. De todos que pagam impostos e às vezes nem sabem que o dinheiro está financiando uma orquestra”, declarou o professor Ulisses Carvalho da Silva, vice-diretor do Centro de Comunicação, Turismo e Artes da UFPB.

O percurso da orquestra paraibana, com seus mais de 20 músicos contratados, neste contexto, poderia representar um luxo, mas é bem mais que isso: é uma necessidade. Um dos resultados práticos do “correr trecho” é o anúncio, por parte da Universidade Federal do Piauí (UFPI), da profissionalização de uma orquestra de alunos que já existe por lá, conforme nos revelou o compositor Adeíldo Vieira, assessor de comunicação da OSUFPB. Quantos dos presentes ao concerto de ontem, qual este repórter e o fotógrafo que o acompanhava, não nos perguntamos por que ainda não temos uma Orquestra Sinfônica no Maranhão?

No palco, o concerto foi de uma beleza ímpar, homenageando, além dos 10 anos do curso de Licenciatura em Música da UFMA, os 90 anos de Ariano Suassuna e os 130 anos de Heitor Villa-Lobos, dois ferrenhos nacionalistas, apaixonados pela cultura popular, cujos elementos foram incorporados às suas obras na literatura, teatro e música.

Estes elementos populares eram o fio que costurava o repertório do programa da apresentação de ontem. O concerto foi aberto com o Mourão, de Guerra-Peixe. O compositor carioca morou em Pernambuco e, mesmo sendo um “erudito”, realizou arranjos para cantores e compositores “populares” como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Inezita Barroso, Marília Batista, Baden Powell e Vinicius de Moraes, entre outros, demonstrando que estas linhas são bastante tênues.

Seguiu-se Toada e desafio (Arthur Barbosa), com os corpos dos instrumentos tornando-se set percussivo. À Fantasia para saxofone (Heitor Villa-Lobos) voltou a percussão nos corpos dos instrumentos, contando com as palmas marcando o ritmo, pela orquestra e plateia, além da participação especial de Arimatéia Veríssimo (saxofone soprano), coordenador da OSUFPB, que, não se fazendo de rogado e, seguindo o exemplo de Guerra-Peixe, apresentou a popular Duda no frevo (Senô), para delírio dos maranhenses.

À Serenata para cordas (Tchaikovsky), que, pelo programa encerraria o concerto, seguiu-se um bis com Serenata (Alberto Nepomuceno), peça e nome extras a dialogar com os homenageados pela OSUFPB nesta temporada.

Os músicos já haviam aplaudido, do camarim, quando o professor Ulisses os saudou, na abertura. Após serem aplaudidos de pé por mais de dois minutos pelo auditório Paulo Freire lotado, sentaram-se novamente ao fim da Serenata do cearense, como a anunciar um novo bis. Levantaram-se imediatamente, demonstrando que erudição e bom humor não precisam ser antagônicos.

No palco e fora dele, a OSUFPB e sua circulação pelo Nordeste se mostram necessárias, a arte dando sua contribuição no enfrentamento aos preconceitos de sempre a que estão submetidos os naturais da região, que assume um papel de vanguarda no enfrentamento da crise.

Azeda e sincera

Rita Lee: uma autobiografia. Capa. Reprodução
Rita Lee: uma autobiografia. Capa. Reprodução

 

Rita Lee: uma autobiografia [Globo, 2016, 294 p., R$ 44,90] não era a primeira incursão da ex-Mutantes e ex-Tutti-Fruti no mundo literário – a mais recente, Storynhas [Companhia das Letras, 2013, 96 p., R$ 39,90], ilustrada por Laerte, trazia pequenas histórias expandidas do sucesso que fazia no twitter. É bem escrita, apesar do miguxês típico das redes sociais, aqui a autora inventando novas palavras, acolá chamando todo mundo de fofo ou fofa, quase uma Hebe Camargo – outra que recebe o adjetivo ao longo da narrativa de capítulos curtos.

É inegável a importância e o pioneirismo de Rita Lee, 70 anos em 2017, para a afirmação feminina, extrapolando inclusive os limites do ambiente machista do rock – e de resto, da música brasileira de modo geral, ainda que vivamos em um país de cantoras. “O clube do Bolinha afirmava que para fazer rock “precisava ter culhão”, eu queria provar a mim mesma que rock também se fazia com útero, ovários e sem sotaque feminista clichê”, diz.

O livro segue uma ordem cronológica, da infância à aposentadoria – Rita Lee não grava ou lança disco novo desde Reza [2012] – e tem sacadas bem humoradas, sobretudo na parte inicial, dedicada ao casarão em que vivia com os pais e as irmãs.

A cantora e compositora não poupa sequer a si mesma e narra, nunca perdendo o bom humor, desde o estupro com uma chave de fenda que lhe tirou a virgindade a problemas com drogas, lícitas ou não, um aborto, passando por cirurgias das cordas vocais e hemorroidas, censura durante a ditadura militar, entre tantas aventuras glamourosas ou não, mais ou menos típicas do universo dos famosos, incluindo o casamento com Roberto de Carvalho, cujo namoro teve por cupido Ney Matogrosso, de cuja banda ele então fazia parte, e os dias que passou grávida na prisão – com direito a estardalhaço midiático, à época.

Os bichos de estimação (incluindo cobras e jaguatiricas) que teve ao longo da vida ganham destaque nas páginas da autobiografia de Rita Lee, que confessa ser a defesa dos animais a única bandeira que empunhou na vida.

“Numa autobiografia que se preze, contar o côtè podrêra de próprio punho é coisa de quem, como eu, não se importa de perder o que resta de sua pouca reputação. Se eu quisesse babação de ovo, bastava contratar um ghost-writer para escrever uma “autorizada””, afirma. Só se autocensura ao citar um episódio ocorrido em Aracaju, quando o texto do livro vem tarjado (portanto ilegível) ao longo de duas páginas.

Senhora de si, por vezes soa arrogante ou pretensiosa, mesmo quando quer posar de modesta, quando critica este/a ou aquele/a disco ou música de sua autoria. Noutras, deselegante e ressentida, sobretudo ao lembrar os tempos vividos com os irmãos Arnaldo Baptista – seu ex-marido – e Sérgio Dias, companheiros de Mutantes.

“Eu aqui apenas conto o lado da minha moeda com o distanciamento inverso ao dos críticos-viúvos que teimam interpretar a história como se soubessem mais do que quem, como eu, fez parte dela”, justifica-se, apontando os dedos para críticos e jornalistas como Carlos Calado, autor de A divina comédia dos Mutantes [Editora 34, 1995, 358 p., R$ 64,00].

A autobiografia de Rita Lee perpassa toda sua discografia, desde O’Seis pré-Mutantes, até o derradeiro solo, com opiniões da cantora sobre tudo – é bastante dura ao falar de Tecnicolor, gravado pelos Mutantes em Paris em 1970, e só lançado no Brasil em 2000, outra oportunidade em que alfineta Sérgio Dias, segundo ela o responsável pelo lançamento tardio do álbum renegado. Para ela, ele é um dos que não aceitam que aqueles bons tempos não voltam mais graças aos deuses da música, para quem lançamentos do tipo, e revivals como os shows no Barbican Theatre, em Londres, em 2006 (que viraram cd e dvd), em que Os Mutantes tiveram Zélia Duncan nos vocais, servem apenas para os velhinhos pagarem os geriatras.

Rita Lee: uma autobiografia é um livro gostoso de ler, que traz detalhes de bastidores de importantes períodos para a música brasileira, de pouco antes da Tropicália, passando pelo boom do rock nacional. Bem podia ser um pouco menos azedo, ou talvez a intenção seja mesmo essa, já que a polêmica em geral vende mais, podendo, portanto, significar mais grana para o geriatra. Uma coisa certamente não se pode dizer: que Santa Rita de Sampa – excomungada pela Igreja Católica – não tenha envelhecido com dignidade.

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Veja o clipe de Reza (Rita Lee/ Roberto de Carvalho), que dá nome a seu último disco:

Obituário: Serralheiro

 

Em torno da consolidação da cena reggae em São Luís há muito de lenda, hipérbole e imodéstia. Mineiro radicado no Maranhão desde a década de 1960, Edmilson Tomé da Costa, o Serralheiro – nome artístico herdado de sua antiga profissão, será? –, é um dos pioneiros na introdução do gênero jamaicano em festas em São Luís. “Serralheiro, Natty Nayfson e Ribamar Macedo”, declarou, falando de si mesmo em terceira pessoa, em entrevista ao jornalista Felipe Larozza, publicada há cinco dias.

Sem falar uma palavra de inglês, Serralheiro esteve em Londres 28 vezes e na Jamaica 17 vezes. “Sou o cara que tem mais coragem no mundo”, bravateou ao mesmo jornalista. “Não tem gente no mundo que goste do reggae como eu”.

O dono da mítica Voz de Ouro Canarinho – nome de uma de suas radiolas – era um colecionador inveterado, mas gostava de exclusividade – reza a lenda que ao comprar um disco, raspava os que ficassem nas lojas para que ninguém mais tivesse as músicas que tinha. Não repetia música em suas discotecagens. Uma que mereceu destaque foi sua aparição na Virada Cultural paulista, em 2011 (veja o vídeo que abre este obituário).

O DJ Tarcísio Selektah, que há alguns dias havia usado as redes sociais para solicitar doações de sangue a Serralheiro, manifestou-se sobre a perda. “O reggae nacional de luto. Faleceu em São Luís o DJ/radioleiro mais antigo do Brasil”, lamentou.

“Com profundo pesar comunico o falecimento do “Carrasco” Serralheiro. O reggae do Maranhão está de luto”, declarou o DJ Ademar Danilo usando outra alcunha pela qual era conhecido o discotecário, que chegou a ser seu parceiro na equipe África Brasil Caribe.

Especialista em reggae, o jornalista Otávio Rodrigues, o Doc Reggae, declarou: “Fico triste, porque era meu amigo, e lamento muito, porque parte da história se vai sem um bom registro” [leia depoimento completo e exclusivo no fim deste obituário].

Serralheiro faleceu hoje (29), aos 70 anos, em consequência de um acidente vascular cerebral (AVC) sofrido há cerca de um mês. Estava internado no Hospital Carlos Macieira. Que esteja com Jah! Como, aliás, sempre esteve!

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Assista trailer de Sintonizah, documentário de Lecuk Ishida e Willy Biondani (com depoimento de Serralheiro):

 

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A GENTE VAI FICANDO MAIS SOZINHO

OTÁVIO RODRIGUES

Doc e Serralheiro em 2004. Foto: Carol Bittencourt
Doc e Serralheiro em 2004. Foto: Carol Bittencourt

 

Conheci Serralheiro ainda em 1988, ano em que meu Cabral interior descobriu o Maranhão. Lembro que ele se recusou a posar pra uma foto, estava montando a radiola. “Ah, mas tô todo lambudo!” Meio que se apresentou dizendo que amava o reggae mais que tudo. “Gosto tanto de reggae que até dói no sangue”, disse, apontando as veias do braço. Eu não conseguia entender como aquele sujeito simples, quase rústico, de mãos grandes e com textura de lixa, conseguia ser tão refinado nas seleções musicais.

E com um apelido desses, que me levava a pensar nos artistas jamaicanos, que em sua maioria afirmam ter trabalhado como welders (soldadores) antes de iniciarem a carreira artística.

No dia em que deixei a Ilha, ele me apareceu com uma insuspeita fita cassete. “Gravei pra ti. Agora tu me manda umas pedras também.” A caminho do aeroporto, no fusca do Boaventura do Bairro de Fátima, coloquei a fita pra rodar e, ali de pronto, vi que a parada era séria (o Boaventura quase não me ouvia falar, só prestava atenção na fita). Com o tempo, estabelecemos um intercâmbio – mas com as regras dele. Eu enviava umas pedras do meu acervo, com total exclusividade, ou seja, eu não podia passar pra mais ninguém, nem tocar no rádio nem nada; e ele mandava umas dele também, que eu deveria manter no cofre e a sete chaves. Com o tempo, percebi que o acordo era imensamente bom pra ele, mas continuei com a brincadeira durante certo tempo – acho que, no fundo, eu adorava mesmo as cartinhas que vinham junto com o material.

Mais tarde, quando morei em São Luís, ele me virou a cara. Atônito, descobri por outros qual tinha sido a razão: eu reportara na revista Bizz a viagem que ele havia feito a Londres, levando uma fitinha com frases em inglês gravadas por Fauzi Beydoun: “Good morning!  I want to buy reggae records”, “I need a hotel” e outras básicas assim, pra que ele se salvasse em terras estrangeiras. Ficara ofendido com isso, não percebendo a admiração contida no relato. Demorou pra que fizéssemos as pazes.

Serralheiro morava na Rua da Salina, no João Paulo, lugar pouco percebido pela maioria, incluindo o poder público. Para um paulista classe média, caminhar por uma rua na qual o esgoto corre a céu aberto, como nos tempos coloniais, era uma experiência incomum. Imaginar que ali vivia um dos maiores DJs do Maranhão, um superstar, era uma incongruência sem tamanho. Na casa simples, repleta de discos fabulosos, eu pensava nas histórias que haviam me contado. Que Serralheiro costumava ir ao Rio e São Paulo atrás de discos e, quando encontrava algo realmente bom, comprava todas as unidades do mesmo álbum pra que nenhum outro gaiato tivesse acesso. E que, assim como Lee “Scratch” Perry fez com o próprio estúdio, um dia acordou e tacou fogo num monte desses ótimos discos. A esposa, ouvi dizer também, reclamava que a geladeira vivia vazia, que ele gastava tudo em reggae. Quem sabe a verdade?

Fico triste com a partida dele. Era meu amigo. Lamento ainda que sua história não tenha sido resgatada completamente, penso eu, e faço aqui um mea culpa. De onde ele vinha? Trabalhou com ferro mesmo? Como e onde começou no reggae? Guardarei pra sempre, porém, a imagem dele trabalhando de costas n’A Voz de Ouro Canarinho, manipulando o pause nos tape-decks durante toda a noite, quase sem olhar para o público, arrancando uivos de êxtase a cada tijolo.

A verdade é que, junto com Pai Euclides e o professor Carlos Lima, Serralheiro compunha meu panteão de santos maranhenses. O tempo passa, não tem jeito, a gente vai ficando mais sozinho. Descansem em paz, meu velhos.

Aprovados em vestibular destacam importância da oficina Trilhas e Tons

Cursistas com a trupe de Trilhas e Tons, ao fim da oficina em Viana, em outubro de 2016. Foto: divulgação
Cursistas com a trupe de Trilhas e Tons, ao fim da oficina em Viana, em outubro de 2016. Foto: divulgação

 

Há aproximadamente uma semana a Universidade Estadual do Maranhão (UEMA) divulgou o resultado de processo seletivo simplificado vestibular para cursos na modalidade Educação à Distância. As vagas estão distribuídas por 35 polos em todo o Maranhão.

A oficina Trilhas e Tons, coordenada por Wilson Zara e ministrada por Nosly, com assistência de Mauro Izzy, os três, músicos bastante reconhecidos no estado, já percorreu, desde 2013, mais de 30 municípios em todas as regiões maranhenses, sempre com apoio da Companhia Energética do Maranhão (Cemar), através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão.

Alguns dos aprovados no vestibular participaram da oficina e elogiaram a formação como um fator decisivo para o resultado positivo que alcançaram na seleção.

Caso de Emílio de Jesus Moraes, de Viana. “A oficina itinerante trouxe aos participantes uma forma prática e diferenciada de associar a música, no seu contexto teórico, com as características da música popular. Particularmente serviu de grande apoio e estímulo, pois a forma como o conhecimento musical foi repassado nos possibilita também desenvolver nossos próprios métodos de ensino. Cabe a nós, agora, com o decorrer da formação universitária e possivelmente quando estivermos lecionando a disciplina Música, utilizar também as técnicas demonstradas durante este curso, visando assim o melhor aproveitamento por parte de nossos futuros educandos”, declarou em perspectiva.

“Com certeza foi de grande importância a oficina Trilhas e Tons no meu processo de aprovação no vestibular. Essa oficina veio agregar conhecimentos que eu não tinha. Eu estudo música há um bom tempo, toco sax alto e violão e a oficina me fez ter um conhecimento ainda maior e me ajudou bastante na aprovação no vestibular”, destacou Rodrigo Batista Freitas, também aprovado no polo de Viana.

Natural de São Luís, Syldenilson Santos mora em Arari, polo para o qual foi aprovado no vestibular. Ele também apontou a importância da formação. “Ano passado eu participei da oficina itinerante Trilhas e Tons em Arari. As teorias abordadas no contexto educacional pelo professor Nosly foram de extrema importância e enriquecimento cultural-musical para mim. Mesmo não direcionadas especificamente para a prova, as aulas ministradas pelo professor Nosly abriram em minha vida um entusiasmo esplendoroso, com o sonho de ser aprovado e estudar mais esmiuçadamente a mais bela das artes”, declarou.

“O projeto Trilhas e Tons, além de aprimorar mais meus conhecimentos, veio na hora certa. Faltando dois dias para terminar a oficina veio alguém para falar sobre o seletivo da UemaNet, com vagas para licenciatura em música. O Nosly disse: “façam, pessoal, que vocês passam!”. Ele estava certo. Estou muito grato pelo projeto”, reconheceu José Manoel Lindoso Mendes, o Zeca, vianense que mora em Penalva onde tem uma pequena escola de música, aprovado para o polo Viana.

“Estamos no caminho certo ao educar com música, tendo o despertar para a cidadania como objetivo. Se a semente for bem plantada, o fruto será colhido”, finalizou Nosly, que se declarou contente com o bom desempenho dos cursistas no vestibular.

Gerô duplamente lembrado nos 10 anos de seu martírio

Foto: Ronald Almeida Silva
Foto: Ronald Almeida Silva

 

Há exatos 10 anos o artista popular Jeremias Pereira da Silva, o Gerô, foi torturado até a morte por policiais militares. A partir de 2008, por iniciativa da então deputada estadual Helena Heluy, o dia 22 de março foi instituído como Dia Estadual de Combate à Tortura.

No fim da tarde de 22 de março de 2007, Gerô foi supostamente confundido com um assaltante nas imediações da cabeceira da Ponte do São Francisco, no Centro da cidade. Ali começou seu calvário, que duraria algumas horas até o óbito. Gerô era negro. Escrevi um texto na ocasião, indignado com o acontecimento.

No ano seguinte, o Bloco Tradicional Pau Brasil, do bairro do Anjo da Guarda, homenageou o artista. O samba-tema Salve Gerô! (ouça aqui) tem música de Gigi Moreira e letra de Gigi Moreira, Jeovah França, Josias Sobrinho e deste blogueiro.

O episódio cujo desfecho trágico foi seu assassinato não era o primeiro nem o único em que Gerô foi vítima de racismo. Lembro-me de uma vez em que estávamos em um bar, na Praia Grande, e o artista foi arrancado à rua com seu violão. Supostamente buscando alguma droga, Gerô foi revistado de forma vexatória, ao tempo em que tirava onda dos policiais: “eu carrego é na mente”, gritava com sua voz peculiar, lutando contra as injustiças sem perder o bom humor.

Gerô publicou diversos cordéis com o pseudônimo Linguafiada. Nunca se furtou a denunciar a violência, opressão, racismo, desigualdade social. Sempre teve lado: o dos oprimidos.

Após sua morte, a então Secretaria de Estado da Cultura do Maranhão (Secma) lançou A peleja de Gerô, disco compilando gravações que havia deixado, entre as quais Canto de passarinho, parceria com o violonista Domingos Santos que, defendida por Fátima Almeida no Festival Viva de Música Popular de 1985, acabou por dar nome artístico a uma de nossas mais populares cantoras: Fátima Passarinho.

O martírio de Gerô e seu legado serão lembrados hoje (22), às 17h, no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho (Praia Grande), por iniciativa do cordelista Moisés Nobre, seu parceiro. O evento contará com exposição de objetos pessoais de Gerô, debate sobre direitos humanos, igualdade racial e combate à tortura, além de sarau poético-musical.

Entre os nomes confirmados estão os secretários de Estado Francisco Gonçalves (Direitos Humanos e Participação Popular), Gerson Pinheiro (Igualdade Racial), além de artistas como Joãozinho Ribeiro, Cesar Teixeira, Fátima Passarinho, Arlindo Carvalho, Gigi Moreira e Rosa Reis, entre outros.

Na próxima sexta-feira (24), às 18h30, Gerô será homenageado também na Faculdade Estácio, por iniciativa do poeta e compositor Joãozinho Ribeiro, professor da instituição, no evento As várias mortes de Gerô.

O debate contará com a presença de diversos docentes da Estácio, além de Moisés Nobre, Carlos Antonio (advogado do caso Gerô, que garantiu a indenização paga recentemente à família), o sociólogo e radialista Ricarte Almeida Santos, além deste que vos perturba. Ambos os eventos são abertos ao público e têm entrada gratuita.

Com gingado, Lira Neto conta histórias do samba

[O Imparcial, ontem]

Inaugurando nova trilogia, Uma história do samba: volume I (As origens), novo livro do autor das biografias de Padre Cícero e Getúlio Vargas, conta as histórias do início do samba e sua consolidação como gênero musical brasileiro por excelência

Uma história do samba: volume I (As origens). Capa. Reprodução
Uma história do samba: volume I (As origens). Capa. Reprodução

 

Autor das bem sucedidas biografias de Padre Cícero [Padre Cícero: poder, fé e guerra no sertão; Companhia das Letras, 2009] e Getúlio Vargas [Getúlio: dos anos de formação à conquista do poder (1882-1930); Companhia das Letras, 2012; Getúlio: do Governo Provisório à ditadura do Estado Novo (1930-1945); Companhia das Letras, 2013; e Getúlio: da volta pela consagração popular ao suicídio (1945-1954); Companhia das Letras, 2014] – trilogia que vendeu 250 mil exemplares – o escritor Lira Neto se põe agora a contar as histórias do samba em Uma história do samba: volume I (As origens) [Companhia das Letras, 2017, 342 p.; R$ 64,90], primeiro volume de uma nova trilogia.

Lira Neto acerta ao usar o artigo e o plural no título de seu novo livro: trata-se de uma história, sua versão, digamos, das origens do brasileiríssimo gênero musical, do qual até hoje é impossível falar no singular.

De quando o samba ainda era uma denominação comum para festas, em vez de designar um gênero musical, até o início do primeiro governo de Getúlio, o autor passeia por diversos momentos e nomes fundamentais para a consolidação do samba como essa espécie de atestado de brasilidade em que se configurou.

Sem se pretender dono da verdade, o autor tem a ginga e a malemolência para entrecruzar diversos episódios e contar várias histórias deliciosas. Não é, no entanto, um livro menos sério, fruto de árdua pesquisa – notas e fontes somam quase 40 páginas.

O livro começa com o convite de Heitor Villa-Lobos, então diretor do Departamento de Música da Secretaria de Educação e Cultura do Distrito Federal – à época ainda o Rio de Janeiro – a Zé Espinguela para o resgate de um cordão carnavalesco.

Passa pelas parcerias inaugurais do maranhense Catulo da Paixão Cearense e João Pernambuco, pela fundação das primeiras escolas de samba, como a Deixa Falar – que viria a dar na Estácio de Sá – e a Estação Primeira de Mangueira, por Cartola, Carlos Cachaça e companhia, pela gravação de diversos músicos e músicas populares brasileiros a bordo de um navio, numa jogada de marketing e política de boa vizinhança americana, entre os quais estavam Cartola e a santíssima trindade da música brasileira: Pixinguinha, Donga e João da Baiana.

Uma história do samba: volume I (As origens) visita também a polêmica em torno de ter sido (ou não) o maxixe Pelo telefone [1916], de Donga, o primeiro samba – a música é considerada marco inaugural do gênero e em torno de sua data de gravação celebrou-se, ao longo de 2016, prolongando-se por este ano, o centenário do samba.

Conta deliciosas histórias sobre Noel Rosa – que trocou a medicina pelo samba, até morrer tuberculoso aos 26 anos –, outro nome fundamental para a popularização e “urbanização” do samba, Ismael Silva, Francisco Alves e Mário Reis – estes, dois dos maiores cantores de sua época, ganharam fama também como “comprositores”, isto é, pagavam para ter seu nome em parcerias em que não puseram nada além da voz, uma espécie de pedágio ou jabá, antes de esta acepção ter sido inventada.

Lira Neto foge da enfadonha linearidade, escreve como se sambasse, e, qual um passista na avenida, leva o leitor a Paris com Os Oito Batutas, naturalmente liderados por Pixinguinha, passeando depois pelas agruras que o grupo enfrentou em turnê pela vizinha argentina. Lembra ainda Sinhô, autor de Jura, tido como o Rei do Samba, que faleceu na miséria, vítima da tuberculose que venceu tantos artistas, além das primeiras competições entre as escolas de samba cariocas, organizadas pelo efêmero Mundo Sportivo, jornal comandado por Mário Filho – que viria a batizar o estádio do Maracanã.

Com pitadas de indispensável bom humor, Lira Neto acompanha as evoluções do samba neste curto período inaugural. Merecem atenção do leitor também o destacado papel da crítica e o racismo vigente à época. Ao fim da leitura, impossível não ansiar pelo/s próximo/s volume/s da trilogia Uma história do samba. Este primeiro já se configura obra imprescindível, não só sobre a história do samba, mas sobre a história da música (popular) brasileira.

Best of

Para Belchior com amor. Capa. Reprodução
Para Belchior com amor. Capa. Reprodução

 

O desaparecimento do compositor cearense Belchior tem causado verdadeira comoção aos brasileiros, de maneira geral. Sobram especulações sobre seus motivos, apesar de anunciados ao longo de sua obra, e homenagens. Discos como Belchior Blues [2012], que destaca a porção blueseira de quem disse que “um tango argentino me vai bem melhor que um blue” [em A palo seco, de 1973], e Ainda somos os mesmos [2014], organizado pelo site Scream & Yell, além de shows – o Encontrando Belchior, de Tássia Campos, e a releitura do disco Alucinação [1976] por Gero Camilo –, e até mesmo bloco de carnaval: o Volta Belchior, de Belo Horizonte/MG. Sem contar os gritos e a hashtag #voltabelchior, que se irmanam aos gritos e hashtag #foratemer, para protestar contra o atual estado de coisas no Brasil.

Lançado na altura do aniversário de 70 anos do compositor, completados em 26 de outubro de 2016, soma-se a este lote de homenagens Para Belchior com amor [Miragem Editorial, 2016, 96 p.], livro organizado pelo cearense Ricardo Kelmer reunindo 14 escritores conterrâneos – inclusive ele próprio – em textos para 14 clássicos do bigodudo mais querido do Brasil. Há contos, cartas, ensaios, memórias.

O conto de Claudene Aragão para Coração selvagem [1977] imagina um encontro seu com Belchior. Escondido num lugar óbvio, o compositor acede vê-la e falar-lhe, ocasião em que revela ter mais de 300 músicas inéditas. Em determinada passagem, o personagem Belchior afirma, sobre seu desaparecimento: “Todas as respostas sempre estiveram nas minhas canções. Fui preparando isso por muito tempo, e nas minhas composições fui deixando pistas sutis do meu plano […]. Não me perdi. Não fugi. Não me escondi. Me permiti viver como eu queria. Afinal de contas, não quero o que a cabeça pensa, eu quero o que a alma deseja”, citando trecho da composição revivida.

Também merece destaque o conto de Raymundo Netto, que recria, de forma bem humorada, o encontro de Belchior com policiais, como cantado em Fotografia 3×4 [1976]. Cai na brincadeira do nome inventado pelo compositor em entrevista aO Pasquim, quando entre várias lorotas, disse chamar-se Antonio Carlos Gomes Belchior Fontenele Fernandes – esparrela em que cai também o organizador, ao citar o falso nome de batismo na orelha e numa pequena biografia do homenageado ao final do livro. O verdadeiro nome de Belchior é apenas Antonio Carlos Belchior, como afirma o jornalista Jotabê Medeiros, que lança este ano Pequeno perfil de um cidadão comum, biografia de Belchior em que trabalha já há alguns anos.

A jornalista Ana Karla Dubiela parte das lembranças de um show de Belchior no campus da UFSC em 1984, quando ela estava em lua de mel em Florianópolis, para recontar A palo seco. “Quando fomos testemunhas do desespero que virou moda em 76, éramos adolescentes – e, com algumas exceções, os nossos desesperos eram outros. Pouco mais tarde, universitários, andávamos meio descontentes, é verdade, sem entender muito bem por que o ar era mais denso, os silêncios mais gritantes, as conversas cifradas”, lembra ela, que foi para o show, que “durou bem mais que as duas horas previstas”, “com os LPs debaixo do braço para pedir autógrafo”.

Alucinação [1976], por Thiago Arrais, e Apenas um rapaz latino-americano [1976], por José Américo Bezerra Saraiva, extrapolam o universo das canções escolhidas e do próprio compositor, espraiando-se por outras obras suas, de conterrâneos que buscavam o sucesso no mesmo período, e de artistas (da música ou não) com quem a obra de Belchior sempre dialogou. Com seu estilo peculiar Xico Sá recria Todo sujo de batom [1974] e Gero Camilo amplifica o drama familiar de Na hora do almoço [1971], enquanto Ethel de Paula, em Conheço meu lugar [1979], atesta: “eis que o nome Belchior, segundo o dicionário, significa exatamente isso: “Rei da luz. Rei luminoso”. Ou ainda o seu correspondente terreno, plebeu: “mercador de objetos usados; alfarrabista”. Um simples cantador das coisas do porão. Uma pessoa. E a palavra pessoa, nele, ainda soa bem”.

Ouça Alucinação, eleito por internautas e críticos do jornal O Povo, “o melhor disco cearense de todos os tempos”:

Caixa reúne álbuns clássicos de Cartola e compilação de parte menos conhecida de sua obra

O compositor mangueirense em fotografia de Walter Firmo de 1980, ano em que veio a falecer
O compositor mangueirense em fotografia de Walter Firmo de 1980, ano em que veio a falecer

 

Nome fundamental da música brasileira em qualquer tempo, Cartola foi um dos responsáveis pela popularização do samba, sendo um dos fundadores da Estação Primeira de Mangueira, uma das primeiras e até hoje mais populares escolas de samba do Brasil. Deixou ao menos dois discos definitivos, ambos batizados simplesmente com o nome do compositor, lançados pela gravadora Discos Marcus Pereira, em 1974 e 1976, respectivamente.

Como assim, Cartola só chega ao disco na década de 1970, se décadas antes havia ajudado a transformar o carnaval carioca? Pois é, a coisa se deu tardiamente, e ele já contava mais de 60 anos ao estrear no mercado fonográfico, após o escritor Sérgio Porto – ou Stanislaw Ponte Preta – descobri-lo lavando carros – já havia sido pedreiro, onde ganhou o apelido: usava um chapéu coco para proteger os cabelos contra a poeira das obras.

Depois da re/descoberta – já era um compositor apreciado em Mangueira – o produtor João Carlos Botezeli, o Pelão, responsabilizou-se pelo resto e a estreia de Cartola vendeu mais de 20 mil exemplares em poucos meses e é até hoje um dos mais bem sucedidos discos do catálogo de Marcus Pereira – que lançou mais de 100 discos ao longo de pouco mais de década de atuação, muitos deles inéditos no formato digital.

“Ele não só fundou a Estação Primeira como lhe deu o nome e as cores verde-e-rosa. Foi o seu primeiro diretor de harmonia”, afirma o jornalista Sérgio Cabral (não confundir com seu filho) no texto da contracapa do LP original. “Villa-Lobos […] era um grande admirador de Cartola e o convidou várias vezes para participar de espetáculos que promovia. Foi parceiro de Noel Rosa e seus sambas foram gravados por intérpretes como Francisco Alves, Mário Reis, Silvio Caldas, Carmen Miranda, Elizeth Cardoso e Paulinho da Viola. São muitos, portanto, os títulos de Cartola, o mestre de tantos compositores importantes (o próprio Paulinho da Viola o aponta como a sua grande influência)”, continua, destacando a importância do mangueirense.

Todo tempo que eu viver. Capa. Reprodução
Todo tempo que eu viver. Capa. Reprodução

“O sucesso de vendas e de crítica do LP de estreia de Cartola abriu as portas de um novo mundo para o sambista, que passou a fazer muitos shows por todo o país. Pela primeira vez, Cartola estava vivendo apenas de sua arte. Os mais de 50 mil LPs vendidos em menos de um ano também animaram a gravadora Discos Marcus Pereira a levar Cartola novamente para o estúdio”, aponta o jornalista e pesquisador musical Eduardo Magossi em texto no encarte da reedição do disco de 1976, que, ao lado da estreia e de Tempos idos, integra a caixa Todo tempo que eu viver [Universal, 2016, R$ 79,90], caprichada reedição que inclui fichas técnicas e textos das contracapas dos LPs originais.

Pelão e o diretor artístico Aluízio Falcão haviam deixado a Marcus Pereira no ano anterior e a produção do novo disco ficou a cargo de Juarez Barroso, que trabalhava no caderno cultural do Jornal do Brasil. Dino 7 Cordas, arranjador do disco anterior, foi mantido no posto.

Se, do primeiro disco, além de Dino, haviam participado da gravação músicos como Elton Medeiros (ritmo), Jayme Florence, o Meira (violão), Canhoto (cavaquinho), Copinha (flauta) e Raul de Barros (trombone), entre outros, o segundo trazia também Abel Ferreira (sax tenor) e Altamiro Carrilho (flauta), além de marcar a estreia em disco do violonista Guinga.

Se a estreia era completamente autoral, com algumas faixas assinadas em parceria, no segundo disco Cartola cantou sambas de sua lavra e de outros bambas. Considerado o oitavo melhor disco da música brasileira em eleição da revista Rolling Stone Brasil, o álbum de 1976 tem clássicos como O mundo é um moinho (Cartola), Sala de recepção (Cartola) – que Pelão arrependia-se de não ter incluído no repertório da estreia –, Preciso me encontrar (Candeia), Peito vazio (Cartola), Acontece (Cartola), Meu drama (Senhora tentação) (Silas de Oliveira) e Cordas de aço (Cartola). A inclusão do portelense Candeia e do imperiano Silas de Oliveira no repertório demonstra que as preocupações primeiras eram a beleza e qualidade dos sambas.

Hoje um clássico, Sala de recepção, foi composta em 1941 quando “Paulo da Portela, desgostoso com a escola que fundara, mudou-se para a casa de Cartola, na Mangueira. Queria mudar de escola, mas os mangueirenses convenceram-no do contrário: seu lugar era na Portela, para onde o levaram de volta, em comitiva. Sobre a permanência de Paulo na Mangueira, Cartola fez na época este samba, inédito e aqui apresentado em diálogo com Creusa [filha de criação de Cartola, ela também canta em Ensaboa]. O inimigo que, na Mangueira, “se abraça como se fosse irmão”, evidentemente é Pauo da Portela”, afirma em um faixa-a-faixa na contracapa do LP original o jornalista/produtor Juarez Barroso. Preciso me encontrar tem o fagote de Airton Barbosa, do Quinteto Villa-Lobos.

Se é bastante conhecido o repertório dos dois títulos inaugurais de Cartola, bem como de outros, lançados posteriormente, já fora da gravadora Marcus Pereira, a “surpresa” da caixa Todo tempo que eu viver reside em Tempos idos, que “compila toda a discografia avulsa de Cartola registrada durante os anos de 1967 e 1976 em discos de outros artistas e projetos especiais para gravadoras como Copacabana, Tapecar, Odeon, Discos Marcus Pereira, e até para uma série de fascículos da Editora Abril”, anuncia Eduardo Magossi em texto no encarte.

O jornalista, que assina a curadoria do lançamento, explica a origem da faixa que dá título ao terceiro disco da caixa: “ela foi composta em 1961 – ano em que Cartola voltava para a Mangueira depois de um afastamento de 21 anos – como candidata a samba-enredo da escola no carnaval. A música, contudo, que fazia um relato saudosista e poético da história das escolas de samba e do carnaval carioca, não foi escolhida, segundo a escola, por não ter elementos capazes de empolgar o público”.

“Pelos salões da sociedade/ sem cerimônia ele entrou/ já não pertence mais à Praça/ já não é samba de terreiro/ vitorioso, ele partiu para o estrangeiro/ e muito bem representado/ por inspiração de geniais artistas/ o nosso samba, humilde samba/ foi de conquistas em conquistas”, diz a letra da parceria com Carlos Cachaça.

A compilação inclui pot-pourris em que o compositor aparece ao lado de Clementina de Jesus e Elizeth Cardoso e Odete Amaral, Clementina de Jesus, Nelson Cavaquinho e Carlos Cachaça, além de gravações ao vivo de clássicos como Quem me vê sorrindo, O sol nascerá, Alvorada e Acontece. Traz ainda os sambas-enredo Vale do São Francisco, de 1948, e Chega de demanda, de 20 anos antes, “uma das primeiras composições de Cartola e o primeiro samba-enredo da recém-fundada Mangueira”, atesta Magossi.

Entre clássicos e músicas menos conhecidas, mas fundamentais para uma melhor compreensão do universo de Cartola, Todo tempo que eu viver é um mergulho indispensável na obra daquele que era considerado por Nelson Cavaquinho “o maior compositor da nossa música”, conforme declarou em entrevista a Sérgio Cabral.

Ouça Cartola e Creusa em Sala de recepção:

Praia Grande exibe hoje última sessão de Elis

De amanhã a quarta (22) será exibida a mostra Cinema por elas, com filmes dirigidos por mulheres e ingressos a preços promocionais

Andréia Horta encarna Elis à perfeição. Frame. Reprodução
Andréia Horta encarna Elis à perfeição. Frame. Reprodução

Elis [drama/biografia, Brasil, 2016], a cinebiografia da cantora gaúcha, emociona por diversos aspectos. Falar da trilha sonora é quase uma obviedade. O grande destaque é a atuação estonteante de Andréia Horta, no papel da protagonista: há ali uma entrega de tal maneira, que ela encarna a personagem à perfeição. É convincente e surpreendente, além de ousado: trata-se da estreia de Hugo Prata na direção cinematográfica, encarando logo um furacão cujo apelido era Pimentinha.

O filme se concentra entre a chegada de Elis Regina ao Rio de Janeiro para tentar o sucesso, no exato instante em que os militares tomavam o poder através de um golpe, até a morte da cantora, passando pelos casamentos e seus altos e baixos na carreira artística e na vida doméstica, além dos embates à direita e esquerda – Henfil (Buce Gomlevsky), cartunista dO Pasquim, desenhou-a cantando em um túmulo, quando a mesma, com medo, cantou nas Olimpíadas do Exército, a que acabou obrigada após críticas ao regime em entrevista a jornalistas durante uma turnê no exterior.

O cartunista e seu irmão Betinho, o sociólogo Herbert de Souza, então exilado, seriam homenageados em O bêbado e a equilibrista, parceria de João Bosco e Aldir Blanc, um dos maiores sucessos de Elis Regina até hoje.

Elis orbita em torno de personagens fundamentais para a carreira da artista: Ronaldo Boscôli (Gustavo Machado), Miéle (Lúcio Mauro Filho), Lennie Dale (Júlio Andrade), Nelson Motta (Rodrigo Pandolfo), Jair Rodrigues (Ícaro Silva) e César Camargo Mariano (Caco Ciocler), entre outros. É feliz ao reconstituir a atmosfera de uma época em que brigavam entre si a bossa nova, a jovem guarda e uma miríade de gêneros abrigada pela genérica sigla MPB, em cuja consolidação Elis Regina teve destacado papel, participando de festivais e programas de tevê.

Compositor que Elis Regina ajudou a projetar, Belchior abre e fecha o filme, com as interpretações da cantora para os clássicos Como nossos pais e Velha roupa colorida, ambas gravadas por ela no disco Falso brilhante [1976], após o sucesso da turnê homônima. Desaparecido há alguns anos, reside aí bela homenagem ao cearense – e mais um bom motivo de emoção para o espectador.

Elis terá sua última sessão no Cine Praia Grande hoje (15), às 18h. Os ingressos custam R$ 16,00 (metade para estudantes com carteira e demais casos previstos em lei).

A partir de amanhã (16), além da programação normal, entra em cartaz a mostra O cinema por elas, inteiramente composta por filmes dirigidos por mulheres – com ingressos promocionais a R$ 6,00 para todos/as –, que exibirá os seguintes títulos:

Amanhã (quinta, 16)
16h20: A cidade onde envelheço, de Marília Rocha
18h20: Às cinco da tarde, de Samira Makhmalbaf

Sexta (17)
16h20: As patricinhas de Beverly Hills, de Amy Hackerling
18h: Selma, de Ava DuVernay

Sábado (18)
16h: Olympia – Volume 1, de Leni Riefenstahl
18h: Point break: caçadores de emoção, de Kathryn Bigelow

Domingo (19)
16h20: Tomboy, de Céline Sciamma
18h: Encontros e desencontros, de Sofia Coppola

Segunda (20)
16h20: Pasqualino Sete Belezas, de Lina Wertmuller
18h15: Psicopata americano (versão da Diretora), de Mary Harron

Terça (21)
16h20: Um divã em Nova Yorque, de Chantal Akerman
18h: Fogo sagrado, de Jane Campion

Quarta (22)
16h20: Maldito coração, de Asia Argento
18h: Sessão Especial Coletivo Salé (entrada franca)

MPB-7

Quase 1.500 almas lotaram completamente ontem (11) o Centro de Convenções Pedro Neiva de Santana para prestigiar um histórico encontro de gigantes: MPB-4, Toquinho e Ivan Lins (por ordem de subida ao palco) trouxeram à ilha o espetáculo com que comemoram seus 50 anos de carreira, com produção local de Mário Moraes e Alegria Produções. Vinham de Teresina/PI, onde a apresentação foi cancelada por falta de público.

“50 anos da gente, mais 50 do Toquinho, mais 50 do Ivan Lins, que eu acho que esconde a idade, são na verdade 150 anos de música”, brincou Miltinho (voz e violão), após abrirem com De frente pro crime (João Bosco/ Aldir Blanc).

É um show descontraído, não há guerra de egos ou coisa que o valha. Estão todos irmanados em oferecer o melhor de si, em nome da música, com muito bom humor. “Espero que vocês aí gostem. Aqui no palco, podem ter certeza que adoramos”, continuou Aquiles (voz) – o grupo se completa com Paulo Malaguti (voz, teclado e percussão) e Dalmo Medeiros (voz e percussão, ex-Céu da Boca).

Destaque, na apresentação do MPB-4, para a sequência Chico Buarque, em que entoaram Yolanda (Pablo Milanés, versão de Chico Buarque), Apesar de você, Roda viva e Cálice (Chico Buarque/ Gilberto Gil).

A interpretação de Amigo é pra essas coisas (Aldir Blanc/ Silvio Silva Jr.), certamente uma das mais aguardadas da noite, foi algo sublime, de arrepiar, um show à parte.

O espetáculo como um todo, não podia ser diferente, era uma espécie de antologia ao vivo. Não à toa surgiu Toquinho, violão em punho, atacando de Tarde em Itapuã (Toquinho/ Vinicius de Moraes). Ainda com o MPB-4 no palco desfilou seu repertório infantil: A casa (parceria com Vinicius de Moraes), Ar (O vento) (idem), A bicicleta (Mutinho/ Toquinho), O caderno (Toquinho/ Mutinho) e Aquarela. Em meio a tudo isso, O pato (Toquinho/ Vinicius de Moraes), com direito a incidental de Miltinho imitando a voz do Pato Donald ao entoar Ninguém me ama (Antonio Maria). “O pato tá fodido!”, gracejou ainda no timbre do personagem da Disney.

Discípulo de Paulinho Nogueira, Toquinho reverenciou seus mestres do violão, incluindo Gente humilde (Garoto; a música depois ganhou letra de Chico Buarque e Vinicius de Moraes) no repertório. Não esqueceu também seu primeiro sucesso: Que maravilha (parceria com Jorge Ben). Tampouco deixou de fora Samba de Orly, outra parceria “adulta” com Vinicius de Moraes.

Antes de sair do palco, anunciou Ivan Lins, que seria acompanhado, na percuteria, por outra lenda viva da música brasileira, o que garante a sigla-soma do título desta resenha: João Paraíba, integrante do mítico Trio Mocotó – que gravou com Jorge Ben no início da carreira, e com o jazzista Dizzy Gillespie, cujas sessões, por anos desaparecidas, renderam o ótimo Dizzy Gillespie no Brasil com Trio Mocotó, gravado em 1974 e lançado apenas em 2010.

Pouco depois de subir ao palco, Ivan Lins reclamou do excesso de luzes de celulares apontados em direção ao palco. Alegou desconcentrar-se e pediu a compreensão da plateia. Em sequência, pouco ligando para se a plateia atendeu ou não a seu apelo, passeou por repertório autoral, incluindo, entre outras, Abre alas, Lembra de mim e Madalena, além de Sou eu (parceria com Chico Buarque). A plateia foi ao delírio.

Foi um show recheado de histórias engraçadas, muito bem humorado. Toquinho, por exemplo, lembrou de quando o compositor e cronista Antonio Maria se passou por Vinicius de Moraes ao encontrar uma mulher muito bonita num avião, lendo um livro do poetinha – não havia no livro foto de seu autor e Maria morria de medo de aviões. Levou a mentira até o fim, tendo saído com a mulher, a quem convidou para jantar. Ao encontrar Vinicius, contou: “você broxou!”.

Ivan Lins lembrou-se de quando, entrevistado por Alcione, Tom Jobim respondeu que a única saída para a música popular brasileira era o aeroporto – resposta que ele não mudou apesar da insistência da direção da emissora. “Era um tempo em que a Globo ainda tinha programas de tevê dedicados a boa música. Mas isso foi há muito tempo”, afirmou, entre o lamento e a galhofa, para aplausos da plateia.

Lembrou-se também de Cauby Peixoto, gravando um “difícil” como “difíxil”, como se imitasse o Jorge Ben de Por causa de você menina, o “você” pronunciado como se grafado com x. Lembrou-se até de Latino, que gravando uma participação em um disco, foi advertido várias vezes pelo diretor: “você desafinou”, seguido de “está fora do ritmo”, “tem que ter sentimento”. Ao que o cantor retrucou: “eu sou só um: ou canto afinado, ou no ritmo, ou com sentimento”.

O apoteótico final reserva o encontro no palco de sete grandes artistas, passeando por Regra três e, no bis, Quem te viu, quem te vê, dos onipresentes Vinicius de Moraes (parceria com Toquinho) e Chico Buarque, respectivamente. “Noite de gala”, como (quase) diz a letra da saideira.

BASTIDORES

Passagem de som de 50 anos de música. Foto: Zema Ribeiro
Passagem de som de 50 anos de música. Foto: Zema Ribeiro

Pouco antes do show, Homem de vícios antigos foi até os camarins e conversou rápida e exclusivamente com os astros da noite

Homem de vícios antigos – Vocês têm uma relação com o Maranhão de longa data, desde que defenderam Gabriela, num festival em 1967, e depois gravaram Descampado verde, ambas de Chico Maranhão. Qual a sensação de visitar a terra de um parceiro das antigas? Vocês mantêm algum tipo de contato até hoje? Há algum número de Chico Maranhão previsto no roteiro?
Aquiles
– Não. A gente não canta há muito tempo Gabriela, nem Descampado verde. Descampado verde por acaso eu até ouvi recentemente a gravação. Eu falo com ele por facebook, ele disse que vai a São Paulo e a gente está combinando de se encontrar para tomar uma cachaça. Ele falou que vai para passar um tempo, tem umas coisas para fazer, e a gente vai se encontrar. A gente foi muito junto com ele, no início da nossa carreira, exatamente aquele festival, outros festivais, a gente andava junto, era uma turma de amigos que por acaso cantavam, faziam sucesso, a gente ficou bem próximo naquela época, depois cada um espalhou. A gente já veio algumas vezes, fazia tempo que a gente não vinha à São Luís e eu espero que para vir uma próxima vez não demore tanto.

Vocês estão comemorando 50 anos de carreira, começaram dentro de um período turbulento da história brasileira, a ditadura militar. Que paralelo vocês fazem com o momento político vivido no Brasil, hoje?
Aquiles
– Quando a gente começou a gente vivia sob uma ditadura. Agora a gente não vive sob uma ditadura, ao contrário, estamos em um regime democrático, mas existe uma crise política muito forte, que em alguns momentos parece até que não estamos em uma democracia. Mas o fato é que a gente está numa democracia e temos que descobrir jeitos de endireitar o que está torto, completamente torto.

Você tocou muitos anos com Papete, que nos deixou recentemente. Qual o lugar e a importância de Papete?
Toquinho
– Eu conheci o Papete e trabalhei com ele durante muitos anos. Fizemos tantos shows, fora do brasil, aqui. Papete era um dos melhores percussionistas do mundo. Ele tinha uma precisão incrível, matemática, parecia um cientista tocando percussão. Ele tocava tudo, eu fazia meus discos com ele. Eu queria fazer uma escola de samba, ele gravava toda a escola de samba, gravava o bumbo, depois o pandeiro, depois o tantã, repinique, ele fazia instrumento por instrumento, gravava tudo. Cantava muito bem, fez vários discos importantes, resgatando toda uma cultura popular, tanto daqui quanto de outras regiões do Brasil. Era um músico fantástico, trabalhou com pessoas importantes, não só comigo, com Vinicius, Almir Sater. Fiz uma turnê com ele, só violão e percussão na Itália, nós trabalhamos muito, gravamos muito, muitos discos. Eu tinha uma confiança enorme musical nele, como amigo também, claro. Dividimos vários momentos, não só no palco, mas no cotidiano, fizemos grandes investidas musicais. Meus discos quase todos foram gravados com a percussão do Papete. Era um dos maiores percussionistas do mundo, não só do Brasil. Acho que se ele tivesse ido para os Estados Unidos ele seria um percussionista como alguns brasileiros que estão lá e são conhecidos mundialmente. Ele seguramente estaria ali no nível desses grandes músicos, mas aqui no Brasil ele fez um trabalho muito bonito mesmo, vai deixar saudade e uma lacuna que não pode ser preenchida facilmente. Ou melhor, não vai ser preenchida à maneira dele. Ele tinha uma sensibilidade, uma precisão e uma sutileza para tocar que realmente eu não vejo em outros percussionistas até hoje.

Você ficou muito conhecido por Aquarela, há pouco na passagem de som você tocou O vento, A bicicleta. Tua obra vai muito além dessa faceta infantil. O fato de você ser mais reconhecido por ela te incomoda?
Toquinho
– Eu não concordo com isso, não acho que eu sou conhecido como música infantil. Acontece que essas músicas estão ficando mais que as outras. É um dos caminhos que eu segui. São gerações que estão passando e elas ficam novas para as crianças que estão vindo e vai ficando, de geração em geração. Essas músicas não estão morrendo. Tarde em Itapuã é uma geração que ouviu. Quando você pega Aquarela, A bicicleta, O caderno, os colégios estão fazendo festa de final de ano com elas. As crianças estão vendo essas canções como canções novas. O cara que tem 50 anos hoje cresceu ouvindo essas músicas, o filho dele, pode ser que ele já tenha netos. Na minha geração eu sou o único que tem essa vantagem. O que tem de gente, criança no shopping que vem me pedir autógrafo, às vezes a mãe quer o autógrafo, faz a criança cantar [risos]. Toda essa geração de 15 anos me conhece, pode conhecer o resto, mas vem por esse lado. Vem aqueles adultos falar comigo: “cresci ouvindo sua música” [risos]. [O disco] A Arca de Noé foi [lançado em] 1980, nós estamos falando de quase 40 anos. Aquarela é de 1983, são 33 anos. Quem tem 40 anos hoje, tinha sete quando ela foi feita. Isso que você ouviu [na passagem de som] é por que nós temos um momento no show só de música infantil. É de um show que eu faço com o MPB-4, nós resgatamos essa célula do show. Eu não posso deixar de fazer no show um momento lúdico. Eu tou pra fazer um show, uma produção grande, só de música infantil. Eu tenho quatro discos de música infantil, A Arca de Nóe [volumes] 1, 2, Casa de brinquedos e os Direitos da Criança [Canção de todas as crianças, de 1987], que é uma coisa reconhecida pela ONU. O público mais forte que existe é o infantil, ele carrega três quando vai assistir, leva mãe, pai, tia, avó.

Vinicius de Moraes é tua maior saudade na música?
Toquinho
– Ele me dá saudade mais pessoal do que musical. [Quando] Ele morreu, um ano antes eu já estava trabalhando sem ele. Me dá saudade dessa hora, ele aqui tomando uísque, o que ele diria do Brasil hoje, seria muito bom ouvir a piada dele com o Tom Jobim, eram pessoas muito inteligentes. Faz falta isso, o que eles diriam de tudo, que músicas eu teria feito com ele esse tempo todo. Mas ao mesmo tempo eu esgotei com o Vinicius. Foram 10 anos, a gente morava junto, foram mais de 130 músicas, mais de 1000 shows. Chegou um momento que tinha que parar a parceria, ele foi embora na hora que tava madura já a coisa. Parece que ele me deu um aval para seguir a carreira sozinho, e foi um grande aprendizado com ele, que eu tou usufruindo até hoje, nós estamos falando dele até agora. Ele quem me passou esse lado infantil, esse lado lúdico, eu nunca pensei que eu fosse fazer música infantil na minha vida. Ele era muito mais jovem que eu, o tempo inteiro, eu era muito mais o fio-terra da relação, ele era o cosmonauta, o Vinicius era jovem, eu era muito mais velho. Eu comecei a musicar os poemas infantis dele, O pato, O pinguim, brincando, nunca pensei que a gente ia ficar disco. A gente gravou na Itália, a gente não tinha coragem de gravar no Brasil, essas cançõezinhas, a gente não tinha noção de como ia ficar. Na Itália estourou o disco, La casa [cantarola trecho de A casa em italiano]. Aí o Vinicius falou “vamos gravar no Brasil”. Chamamos vários artistas, que é A Arca de Noé, Chico, Milton Nascimento, todos toparam, foi um estouro, especial de televisão, Globo. A gente percebeu que tinha um caminho que estava aberto, era o blá blá blá, o refrãozinho, a gente começou a fazer isso de uma maneira mais séria, sem subestimar a criança. Tá dando no que deu. Estou com um trabalho muito bonito para fazer com o Elifas Andreato, que é A casa dos sonhos. São sentimentos que ganham vida e cada sentimento tem uma canção. O primeiro sentimento que eu fiz foi a mentira, é uma personagem maravilhosa, é ela quem canta. Tem muita coisa para se fazer no mundo infantil, eles me ensinaram muito, as crianças. É muito mais difícil você fazer música infantil, tem que ter humor, e ao mesmo tempo não subestimar a criança. Tem coisas que ela não entende que vai perguntar pro pai, aí o pai já tem que se interessar pela música. O caderno é um exemplo típico, é uma canção que as pessoas se emocionam até hoje. É uma canção infantil, mas ao mesmo tempo não é, você mexe no emocional da mulher, da menina, o caderno acompanha a gente desde os primeiros rabiscos, passando por várias fases. É infantil isso? Não sei, mas ficou sendo. Aquarela? Nunca foi música infantil, é uma música, só que as crianças adotaram, a publicidade da Faber Castell foi importante, tem 25 anos já, fazendo Aquarela, Aquarela, claro, as crianças adotaram isso, a coisa do lápis de cor. A vida é feita de circunstâncias, você não tem às vezes a intenção de fazer aquilo ou de dar a dimensão que ela assume, é a vida que faz isso, não sou eu. Eu só faço a música.

Você é um dos artistas brasileiros de mais prestígio internacional. Qual o segredo?
Ivan Lins
– Essa aceitação não sou eu só, é toda uma comunidade de compositores que mantiveram dentro de sua música as raízes brasileiras. O grande diferencial que tem nisso tudo é o fato de que nós temos raízes brasileiras no nosso trabalho e ao mesmo tempo, quer dizer, nós temos a influência da música clássica, do jazz, da música folclórica brasileira. Nós somos uma mistura e a forma como nós desenvolvemos essa mistura é que cria essa identidade. Nossa linguagem é completamente diferente da deles. Tem similaridade nos acordes, nas harmonias, mas nós temos uma maneira muito particular de compor, e eu estou inserido nisso. Minha forma de compor agrada muito a eles pelas melodias e harmonias. Minhas harmonias vêm de Antonio Carlos Jobim, vem de Milton, vem de Dori [Caymmi], Ravel, Debussy, basicamente, Carlos Lyra, são assim os mais importantes. E veio também do jazz, antes de começar a compor eu era pianista de jazz e bossa nova, nem cantava, só música instrumental. Essa mistureba toda, a gente tem uma maneira muito particular de processar as informações, a gente percebe que fora, em outros lugares, é o que os encanta, surpreende. O Brasil também tem uma coisa, nós não temos uma escola definida de música. O Quincy Jones falou uma vez uma frase que eu achei incrível: “eu fico impressionado como vocês fogem da didática harmônica que é ensinada nos conservatórios. Vocês, depois de um dó maior perfeito, colocam um si menor com sétima, nona, décima primeira, com a maior naturalidade e totalmente fora da didática, e fica lindo, e fica lindo” [risos]. Talvez até pelo fato de grande parte da gente não estuda música da maneira como a música é ensinada no primeiro mundo, nesses conservatórios. Brasileiro é muito intuitivo e isso é o que faz com que a gente crie essa identidade completamente diferente, e eles levam um susto.

Boca para os melhores ouvidos

Curumin em foto de Ava Rocha
Curumin em foto de Ava Rocha

 

A cantora Ava Rocha, filha de Glauber, assina a arte de Boca, quarto aguardado disco do paulistano Curumin, cantor, compositor, produtor e multi-instrumentista. O álbum é produzido por ele, Lucas Martins e Zé Nigro, dupla de baixistas (que se revezam noutros instrumentos) que o acompanha já há algum tempo.

Músico cujo nome comparece a fichas técnicas de artistas como Arnaldo Antunes, Céu, Itamar Assumpção, Lucas Santtana, Marcelo Jeneci, Rodrigo Campos, Rômulo Fróes, Walter Franco e Zélia Duncan, Curumin tem três bem sucedidos discos solo: Arrocha (2012), JapanPopShow (2008) e Achados e perdidos (2003).

O artista esteve em São Luís na edição de 2015 do festival BR-135, ocasião em que conversou com este blogue e fez o melhor show daquele ano em nossa modesta opinião. Boca já é um dos lançamentos mais aguardados da música brasileira neste primeiro semestre. O disco sai pelo programa Natura Musical, o que certamente garantirá seu download legal e gratuito.

As várias facetas do movimento mangueBit

A grande serpente. Capa. Reprodução
A grande serpente. Capa. Reprodução

Em A grande serpente – poéticas da criação no mangueBit [mantenho na resenha a grafia da autora; Fundarpe, 2014, 224 p.], Paula Lira faz um profundo mergulho na história do surgimento do mais recente movimento organizado da música brasileira, cujo boom se deu no início dos anos 1990, no Recife.

De múltiplas formações, a autora baseia-se em dois trípticos: a poética, a ciência (desde o nome artístico de seu principal artífice) e a mitologia do mangue, que ajudaram a fecundar e eclodir o movimento, além da diversão, diversidade e brodagem, elementos também fundamentais para o despertar da grande serpente.

Para um ludovicense que acompanhou com algum atraso a r/evolução do movimento – a partir de fins da década de 1990 –, é impossível não ler o livro sem fazer dois exercícios: o de lembrar as descobertas, à época; e indagar-se o porquê de, apesar de condições parecidas, do ponto de vista musical e da biodiversidade, algo parecido não ter acontecido em São Luís – a riqueza da cultura popular e as grandes áreas de manguezal, além do imaginário ao redor de lendas, incluindo também uma serpente adormecida nos subterrâneos da ilha.

O livro de Paula Lira é fruto de uma pesquisa de mestrado mas consegue tornar-se acessível ao leitor comum, de fora dos muros da universidade. Sem abrir mão dos rigores da ciência, o resultado é poético, como afirma o subtítulo, dando conta da complexidade e variedade do que foi/é o movimento mangueBit, para além da música e dos símbolos por que ficou mais conhecido, os caranguejos com cérebro e a antena parabólica enfiada na lama.

Por vezes como elemento partícipe, a autora acompanha festas, discos, moda – a partir dos primeiros shows de Chico Science, garotos adotam o chapéu de palha, apontando para a criação de uma estética mangue –, e entrevista nomes fundamentais do movimento, entre músicos – sobretudo integrantes da Nação Zumbi e mundo livre s/a, DJ Dolores – e gente de outras áreas –, o jornalista Renato L, ministro da informação do movimento mangue, e h. d. mabuse, ministro da tecnologia, sem nunca perder de vista o elemento diversão, a “greia”.

A pesquisa de mestrado ganhou adendos para tornar-se livro e é possível perceber uma r/evolução (das periferias) recifense/s a partir do movimento mangue: de quarta pior cidade do mundo para se viver, como apontava o noticiário da época, a uma cidade onde as coisas acontecem, apontando o desejo de uma inversão no fluxo migratório: em vez de jovens recifenses quererem sair para Rio de Janeiro e São Paulo, passa a acontecer o contrário. De música para se divertir – fazer o que se quer ouvir, mesclado ao do it yourself do movimento punk, também fonte de inspiração – a questionamentos sobre a realidade social, sem perder o ritmo, o elemento dançante, mas com diversidade, ao contrário do axé baiano. Nação Zumbi não é mundo livre s/a, que não é Eddie, que não é Mestre Ambrósio e versa-vice.

Aos mais de 20 anos de movimento, que deu à música brasileira discos hoje antológicos como Da lama ao caos [1994] e Afrociberdelia [1996], os dois primeiros da Nação Zumbi, ainda sob o comando do inovador Chico Science, morto precocemente em um acidente automobilístico no carnaval de 1997, passando pela estreia da mundo livre s/a Samba esquema noise [1994] – título fortemente influenciado pelo Samba esquema novo [1963] de Jorge Ben (depois Jor), cujo A tábua de esmeraldas [1974] é uma espécie de horizonte estético do movimento –, e Samba pra burro [1998], de Otto (não à toa ex-percussionista de ambas), seguiu-se a consolidação do Recife como metrópole não apenas musical brasileira, com resultados positivos em áreas diversas como cultura, turismo e patrimônio. “Um passo à frente” em relação à mpb de Geraldo Azevedo, Alceu Valença e cia. que antecedeu os mangueboys.

Não se pode desprezar também o fato de que Pernambuco é, hoje, o maior polo cinematográfico brasileiro, para o que já apontava também o início do movimento mangue, com cineastas como Paulo Caldas e Lírio Ferreira – diretores de Baile perfumado [1996], que conta a história de Benjamim Abraão, o homem que fotografou Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião. À trilha sonora comparecem expoentes do movimento, como Chico Science, Fred 04, Stela Campos e Mestre Ambrósio, entre outros.

Talvez seja impossível falar em mangue no singular, tamanha é a fertilidade do ecossistema e a contribuição à cultura brasileira dada pela turma de Chico Science e Fred 04 – talvez ainda não reconhecida como deveria. A edição de A grande serpente é importante pontapé inicial neste sentido, não à toa reconhecido como “o primeiro livro mangue” por Fred 04 ou “um livro para se ouvir” por Renato L: é caprichada, sem descuidar de qualquer aspecto: em um livro muito bem realizado do ponto de vista gráfico (a serpente perpassando as páginas), conteúdo fundamental para interessados na cena do Recife ou em música brasileira em geral.