Paulinho da Viola e o Elogio do Amor. Capa. Reprodução
Intérprete de Paulinho da Viola – de quem gravou Para ver as meninas em Canção brasileira – A nossa bela alma [1992] – Eliete (Eça) Negreiros propõe outra interpretação para a obra do príncipe do samba em Paulinho da Viola e o Elogio do Amor [Ateliê Editorial, 2016, 146 p., R$ 41,00], obra não à toa dedicada a, entre outros, Arrigo Barnabé – cujo antológico Clara Crocodilo [1980] tem incidental de Paulinho da Viola –, ícone do movimento a que se filia, a Vanguarda Paulista.
No livro, a cantora e filósofa se propõe a analisar a representação do amor na obra do compositor, quase nunca incluído em galerias de gigantes da música popular brasileira por apequenarem-lhe no rótulo de sambista. Divide o estudo em três partes, “o amor breve”, “o amor e a melancolia” e “o amor feliz”, para arrematar com “educação sentimental”, afinal de que trata o repertório do compositor, provocando a aproximação entre a obra do portelense e as ideias de pensadores como Montaigne, Walter Benjamin, Platão, Aristóteles, Roland Barthes e Sêneca, entre outros, recorrendo também a pensadores nacionais tão fundamentais quanto Marilena Chauí, Nuno Ramos, José Miguel Wisnik e Luiz Tatit.
“Mas longe de mim querer traçar uma ainda que breve história da felicidade, no pensamento, na literatura ou na canção. O que irei fazer é ver como a questão da felicidade aparece nas canções de Paulinho da Viola, como ela foi colocada por alguns poetas e filósofos e buscar as afinidades entre as suas canções e a nossa tradição ocidental amorosa”, afirma.
Eliete Negreiros faz um profundo mergulho em músicas mais ou menos conhecidas, como Coisas do mundo, minha nega, Foi um rio que passou em minha vida, Num samba curto, Onde a dor não tem razão, No velório do Heitor, Bebadachama, Eu canto samba, entre muitas outras, sem esquecer que “outro aspecto importante em sua obra é a presença do choro, não só em composições instrumentais, como Choro negro, Abraçando Chico Soares e Sarau para Radamés, mas também na composição de canções. Os sambas de Paulinho da Viola têm uma melodia muito elaborada, herdeira da tradição do choro. Sua iniciação musical se deu pela escuta dos maiores tocadores de choro brasileiro, Pixinguinha e Jacob do Bandolim, em saraus que aconteciam em sua casa”, afirma a autora sobre o filho do saudoso violonista César Faria, integrante da formação original do mítico Conjunto Época de Ouro.
A obra de Paulinho da Viola aproxima-se também – num paralelo dos tipos de amor que contém – das de Cartola, Nelson Cavaquinho e Lupicínio Rodrigues, de quem é intérprete, entre outros.
“O sambista só sabe que nada sabe, mas que deseja saber, que ama o saber. Nesta medida, nesta canção, o poeta é filósofo, é alguém que ama a sabedoria, que a deseja e que se dedica a isso através da canção. Cantar aqui se apresenta, pois, como um modo de refletir sobre si mesmo e sobre o mundo, um modo de buscar o conhecimento. Cantar, neste sentido, é filosofar”, anota sobre Coisas do mundo, minha nega, reflexão que de resto cabe perfeitamente na elegância que permeia o conjunto da obra de Paulinho da Viola.
“A canção popular brasileira se insere aqui como grande instrumento de autoconhecimento, de conhecimento, de dilatação e de intensificação da vida, quero dizer, como grande veículo de educação sentimental e estética da maioria dos brasileiros”, ao menos aqueles que já ouviram Paulinho da Viola – que nunca mais será simplesmente ouvido, isto é, ouvido do mesmo jeito, após a leitura de Paulinho da Viola e o Elogio do Amor.
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Ouça Coisas do mundo, minha nega (Paulinho da Viola):
Antes de ser pai, meu interesse por música infantil era quase zero. Julgava o nicho de uma tremenda pobreza (letras pobres, arranjos idem etc.), o que não me despertava o menor interesse. Exceções havia, é claro, casos da Arca de Noé, de Toquinho e Vinicius, e de Os Saltimbancos, trilha da peça homônima, formada por versões de Chico Buarque para composições de Luiz Enriquez Bacalov e Sergio Bardotti, entre poucos outros.
Com algum atraso, no início dos anos 2000, o amigo Glauco Barreto apresentou-me aquele que considero um dos melhores discos de música infantil já produzidos no Brasil: Monjolear [1996], dos irmãos mineiros Dércio e Doroty Marques, cujos trabalhos “adultos” eu já conhecia e apreciava – em Erva cidreira [1980], ela gravou Chico Maranhão (Arreuni) e Sérgio Habibe (Cavalo cansado); em Fulejo [1983], ele gravou Cesar Teixeira (Namorada do cangaço).
José Antonio tem microcefalia e um ano e três meses e entre todas as experiências maravilhosas que me tem proporcionado está a revisão do repertório infantil. Desde a gravidez de Graziela intensifiquei a compra de discos de música infantil – com a desculpa de Homem de vícios antigos de presentear o que estava por vir, as recomendações de pediatras de ouvir música desde a barriga etc.
Não sei o que José Antonio vai ser quando crescer, nem se vai detestar música como João Cabral ou detestar poesia como João Donato. Não prevejo nada: tento fazer o melhor possível, o que inclui deixá-lo livre – sem condená-lo a ser como eu, o que seria uma grande crueldade, como já disse o amigo tetra-pai Jotabê Medeiros, com quem sempre aprendo bastante, para além do jornalismo.
O fato é que, desde a barriga, e desde antes, se isso for possível, meu filho sempre ouviu muita música. Do que eu ouvia em casa e no carro, entre minhas preferências e o que chega para resenhar, até os sambas que lhe cantava acalentando – o que gerou um comentário bem humorado do amigo também pai Fernando Matos: “com o pai cantando sambas, sem dúvidas o menino será roqueiro”.
Na crônica Dormir é para os fracos [Folha de S. Paulo, 19/7/2015], compilada em Trinta e poucos [Companhia das Letras, 2016], Antonio Prata, maior cronista brasileiro em atividade (sorry, Veríssimo!) e também pai, lista “catorze constatações a partir da paternidade”, incluindo: “11) Galinha Pintadinha é a imagem da Besta. 12) Galinha Pintadinha é uma bênção divina.”, referindo-se, obviamente, ao poder hipnótico que a azulzinha tem sobre os bebês – por isso o sarro de Diego Freire me fez gostar tanto mais de Bumba, nosso boi [Empíreo, 2016].
Digo, pois, sem falsa modéstia: José Antonio passou incólume por Galinha Pintadinha, amém! Se sobra na tela, até vê, sem reclamar – como o pai vendo, sei lá, uma Ana Maria Braga, por exemplo. Não ligo naquele canal, naquele horário, mas se tem alguém vendo não é necessário instaurar um conflito familiar.
Este texto não é ou se pretende um tratado sobre bom gosto musical infantil (ou adulto). Mas sabemos que, como em qualquer nicho, o que é melhor às vezes fica escondido pela mídia, cujo interesse, antes de informar, é simplesmente vender. José Antonio vê muito Palavra Cantada, Tiquequê, Grupo Triii, Partimpim (a persona “infantil” de Adriana Calcanhotto), o Zoró de Zeca Baleiro e a Arca de Noé (com grandes nomes da MPB interpretando composições de Toquinho e Vinicius), entre outros.
Um exercício a que me proponho é eliminar a barreira – se é que ela existe – entre música adulta e música infantil e os exemplos acima são ótimos. Brinco de aterrorizar minha esposa dizendo que ouvindo o que ouve na infância, o menino será admirador de Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção e Premeditando o Breque – que eu adoro e ela detesta! –, entre outros.
Fora o terrorismo conjugal, faz sentido: a Palavra Cantada, por exemplo, é formada por Sandra Peres e Paulo Tatit, este, ex-integrante do Grupo Rumo, outro nome fundamental da chamada Vanguarda Paulista. Aqui e acolá pintam parcerias com Arnaldo Antunes, além da participação do ex-Titãs em músicas, bem como Mônica Salmaso – outro nome cuja voz agrada bastante adultos que apreciam boa música. No que a dupla é craque: fazendo música para crianças, não se despreocupa da qualidade nas letras, melodias e arranjos, mesmo quando estão apenas interpretando alguma cantiga de roda ou tema de domínio público.
A seguir, 12 (+2) clipes musicais infantis, escolhidos entre o lobby de José Antonio (suas preferências) e o que mais agrada este pai coruja entre o que ele vê.
Cuida com cuidado (Paulo Tatit e Zé Tatit), Palavra Cantada
Esta chegou a integrar minha lista de melhores videoclipes de 2016, na tradicional eleição do site Scream & Yell – não fosse José Antonio, provavelmente eu nem a conheceria
O pinguim (Toquinho, Vinicius de Moraes e Paulo Soledade), Chico Buarque Meu sogro é professor de matemática aposentado. Brinco com José Antonio dizendo que este é o clipe do avô dele
O gigante (Angelo Mundy), Tiquequê
Um grupo bastante interessante em um videoclipe realizado pelo mesmo estúdio que produz a Galinha Pintadinha (viram? É possível!)
Lindo lago do amor (Gonzaguinha), Adriana Partimpim
Música de adulto em belo videoclipe de roupagem infantil
Ciranda da bailarina (Chico Buarque), Adriana Partimpim
Para adultos e/ou crianças Chico é gênio! Pena que os filhos de pais de direita demorarão mais a perceber
Bolacha de água e sal (Sandra Peres e Paulo Tatit), Palavra Cantada
Saquem a pegada rock’n roll que agrada o menino. Talvez a piada de Fernando Matos não fosse apenas uma piada
Eu sou um bebezinho (Paulo Tatit), Palavra Cantada
Sem chiliques, José Antonio!
O ornitorrinco (Zeca Baleiro e Tata Fernandes), Zeca Baleiro
Entre os bichos esquisitos do maranhense há uma girafa regueira e uma onça pintada, entre outros
Rato (Paulo Tatit e Edith Derdyk), Palavra Cantada
Letra longa, cerzida a valsa e choro, mostra o capricho das produções da dupla
A Galinha d’Angola (Toquinho e Vinicius de Moraes), Ivete Sangalo
Clássico infantil originalmente interpretado por Ney Matogrosso
O ar (O vento) (Luiz Enriquez Bacalov, versão de Toquinho e Vinicius de Moraes), Boca Livre
Apesar do erro teórico, garante a diversão dos adultos. Sempre ouvi um ditado, ainda bem que nunca comprovado, que diz que “quem ri de peido caem os dentes”
História de uma gata (Luiz Enriquez Bacalov e Sergio Bardotti, versão de Chico Buarque), Nara Leão e Miúcha
Da trilha sonora de Os Saltimbancos. Há várias músicas com gatos – estes seres que adoram jazz – como protagonistas dos videoclipes
Bônus track
Completado o top dúzia, mais dois clipes animados. Não são infantis, mas José ficou quietinho vendo as novidades. Um prêmio para papais e mamães que se renderam aos encantos da boa “mpbaby”, aguentaram textão e perdoaram o clichê publicitário do título, vocês merecem!
Burn the witch (Radiohead), Radiohead
De A moon shaped pool, disco mais novo dos ingleses
The girl in the yellow dresses (David Gilmour e Polly Samson), David Gilmour
Clipe sensacional e jazz classudo do ex-Pink Floyd, aqui acompanhado pelo The Julian Joseph Quintet
Teve ótima receptividade mês passado o anúncio, pelas redes sociais, do Bloco do Baleiro, em que o anfitrião maranhense terá como convidados o paraibano Chico César e a paraense Fafá de Belém, além dos DJs Ademar Danilo e Jorge Choairy.
Os poucos que contrariaram o coro questionavam o pagamento dos cachês dos artistas, inventando uma falsa oposição entre a presença de três artistas renomados nacionalmente e a manutenção de manifestações da cultura popular, como escolas de samba e blocos tradicionais, entre outros.
Procurada pelo blogue, assim manifestou-se a Secretaria de Estado da Cultura e Turismo do Maranhão (Sectur), em nota: “o evento é realizado pelo Governo do Maranhão e pela Prefeitura de São Luís com o patrocínio da Skol, através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão. Pela parceria, o Governo do Maranhão ficou responsável pelos cachês dos artistas, a Prefeitura de São Luís pelo trabalho de bloqueio de vias e ordenação do trânsito, e a Skol pela produção do bloco”. A questão parece encerrada.
Nome fundamental no cenário da música popular brasileira ao menos nos últimos 20 anos – quando lançou Por onde andará Stephen Fry? [MZA, 1997], seu disco de estreia –, Zeca Baleiro é maranhense para além da geografia: ao longo de duas décadas de carreira tem sido um verdadeiro embaixador da arte e cultura maranhenses, produzindo discos, fornecendo composições e/ou participando de trabalhos de artistas locais, nomes entre os quais podemos citar – com o risco de esquecer muitos outros –, Antonio Vieira, Bruno Batista, Celso Borges, Chico Saldanha, Criolina, Flávia Bittencourt, Joãozinho Ribeiro, Josias Sobrinho, Lena Machado, Lopes Bogéa, Patativa, Rita Bennedito (antes Ribeiro) e Rosa Reis.
A realização do Bloco do Baleiro será certamente mais uma importante contribuição de Zeca à cultura do Maranhão. Ele conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.
Foto: Rama de Oliveira
Como surgiu a ideia e como foram as negociações para a realização do Bloco do Baleiro neste carnaval em São Luís? Esse é um projeto antigo que eu e Samme Sraya, prima querida e produtora atuante no front cultural de São Luís, planejamos fazer há tempos. Mas só agora estamos tendo a chance de concretizá-lo. A ideia é fazer um grande baile num caminhão, uma “jardineira”, como os que deram origem aos trios elétricos, num circuito entre as praças da Casa do Maranhão e Maria Aragão. Um baile onde cantaremos de tudo, não só músicas “de carnaval”, mas música dançante em geral, de Tim Maia a Reginaldo Rossi. Será uma experiência, algo inédito, uma tentativa de aproximar o nosso show/bloco da tradição do carnaval de rua maranhense, ao invés de copiar modelos de carnavais de outros estados. Uma festa popular e gratuita. O único critério para entrar no cordão será estar fantasiado.
A principal força do carnaval da capital maranhense é a tradição do carnaval de rua, com suas diversas manifestações. Você passou a infância e a adolescência em São Luís. Quais as suas principais lembranças do período momesco na ilha? Gostava muito de ver os blocos, os fofões, mascarados de rua… Nunca fui um grande folião, mas gostava de ver a festa. Tive um vizinho querido, o poeta e jornalista Paulo Nascimento Moraes, que saía todo domingo de carnaval fantasiado de fofão pelas ruas do Monte Castelo, uma figuraça. É uma lembrança muito lúdica e bonita que eu tenho da festa. E lembro também de alguns sambas-enredos antológicos, que quero homenagear no Bloco, como Haja Deus, da Flor do Samba, de Chico da Ladeira e Augusto Tampinha, e Bodas de ouro, de Zé Pivó, da Turma de Mangueira.
O Bloco do Baleiro terá como convidados Chico César e Fafá de Belém. Como será a participação deles e o que você diria a quem, por preconceito, torcer o nariz, dizendo tratar-se de artistas não identificados diretamente com o carnaval? A quem torcer o nariz, sugiro que fique em casa, vendo o carnaval do Rio pela Globo. Mas para quem quiser se juntar a nós e celebrar com alegria, irreverência e música o carnaval, digo que venha. Eu, Chico e Fafá somos artistas identificados com o ritmo, a dança, a alegria. Isso deveria bastar. Mas, como diria Dias Gomes, quem abre caminho enfrenta as cobras.
São Luís parece despertar finalmente para experiências bem sucedidas como o carnaval do Recife, isto é, abrindo o leque, ampliando as possibilidades e realizando um carnaval verdadeiramente multicultural? O carnaval de Recife é um grande exemplo de como a festa do carnaval pode servir de palco pra todo tipo de música ou manifestação cultural. Já toquei lá em mais de 10 edições, e sempre tem música pra todo gosto. Na mesma noite você pode ter shows de Ira!, Nação Zumbi, Zélia Duncan, Spok Frevo Orquestra, Elza Soares, Alceu Valença, rap, samba, frevo, rock, blues, tudo junto. E isso é lindo como proposta cultural.
Sua presença na programação do carnaval de São Luís tem um quê de afetividade, tendo em vista você ter nascido aqui, a evocação das memórias de que você já tratou. O que você e seus convidados estão preparando para o Bloco do Baleiro? Sim, tem um quê de afetividade, de culto da memória também. Ainda vamos ensaiar, mas a ideia é dar um giro pela música dançante brasileira, do carimbó ao funk, do brega ao reggae. Estou preparando versões divertidas de clássicos da música pop também. O importante é louvar a alegria de viver num tempo tão obscuro como este em que vivemos.
Assista O abadá, versão bem humorada de Zeca Baleiro para Ob-la-di, ob-la-da (Lennon/McCartney), dos Beatles:
O pernambucano Siba é um artista em constante processo de reinvenção. Entre meados dos anos 1990 e 2000 liderou o Mestre Ambrósio, banda que ajudou a consolidar o movimento manguebit. Com o fim do grupo, formou, com músicos da zona da mata pernambucana a Fuloresta do Samba. Só depois estreou em carreira solo, com Avante [2012], um bem-humorado disco de tons autobiográficos.
Em 2015 lançou De baile solto (seus discos solo e com a Fuloresta estão disponíveis para download no site do artista), com letras em geral com conteúdo político de grande força. Em Marcha macia, que abre o disco, por exemplo, criticava a tentativa de ingerência do poder público de mexer nas tradições dos maracatus em Pernambuco, com que trocadilha o título do álbum.
De baile solto foi o disco com cujo show Siba baixou na ilha no final de 2015, no Festival BR 135. Ele volta à cidade amanhã (10): se apresenta às 22h no Fanzine Rock Bar (av. Beira Mar, Praça Manoel Beckman, próximo à Delegacia da Mulher, Centro). Os ingressos custam R$ 40,00 (20,00 para estudantes com carteira e demais casos previstos em lei).
A produção local do show é novamente do BR 135, que pretende, ao longo do ano, realizar algumas apresentações, como a preparar o clima para o grande festival no Centro histórico – a edição de ano passado teve, entre as atrações, os também pernambucanos da Nação Zumbi.
Na apresentação de amanhã Siba (guitarra e voz) será acompanhado por Atife (guitarra), Thomas Harres (bateria) e Mestre Nico (percussão e voz). O artista conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.
Foto: José de Holanda
Qual a base do repertório do show desta sexta em São Luís? Esse show tem uma formação reduzida, é um quarteto que vai aí pra São Luís. São duas guitarras, bateria, percussão e vozes, e eu tenho usado este formato pra experimentar com repertório de vários momentos, desde a Fuloresta, do Avante, e também bastante coisa do De baile solto. Mas é uma formação que tá em metamorfose, sempre experimentando novas possibilidades, já tentando talvez apontar aí a direção para um novo projeto, esse ano ainda ou no ano que vem.
Em De baile solto você volta pela primeira vez em disco ao repertório do Mestre Ambrósio, com a regravação de Gavião. Qual a sensação da revisita? A música Gavião foi regravada no De baile solto por que ela tinha uma relação muito profunda com o repertório, primeiramente musical. O De baile solto é um disco muito marcado pela retomada da rítmica que eu sempre tive como principal no meu trabalho, que é a da música de rua de Pernambuco, e Gavião era uma das músicas mais importantes, pra mim, no Mestre Ambrósio. Sendo que depois a letra dela tomou uma dimensão muito particular. Em contraponto com as letras mais diretamente políticas do disco, Gavião acaba se ressignificando, ao lado das outras músicas, eu acho.
Você se consagrou como rabequeiro, no Mestre Ambrósio e na Fuloresta, mas na carreira solo se acompanha com guitarra. Há uma razão para a mudança? E qual a chance de a rabeca reaparecer? Com relação à rabeca eu considero o instrumento como uma ferramenta, somente. O instrumento não tem um valor em si, embora que o meio de onde ele vem ou a linguagem que ele representa pode sim agregar valor ou subtrair. No caso da guitarra, foi meu primeiro instrumento e eu precisei retomá-lo no momento onde eu carecia de mais recurso musical, que a rabeca é um instrumento, embora muito expressivo, também bastante limitado. Foi mais este motivo mesmo de retomar a guitarra, nenhum outro não, e até então tem sido meu instrumento principal.
Tua formação musical se dá entre ambientes urbanos e rurais e isto fica claro em tua música, sempre dançante. Há uma preferência? Há um lado com o qual você se identifique mais ou tudo se equilibra e se completa? Esse contraste de urbano e rural ele é um pouco falso, eu acho, hoje no Brasil. Especialmente na música que eu faço, que eu pratico, não dá mais nem pra falar em mundo rural na Zona da Mata norte, que é o berço desses estilos que são a base do meu trabalho. De um modo geral são estilos que já são urbanos há décadas. A grande diferença está no fato de eles serem classificados como cultura popular e daí são formas de expressão que costumam sofrer bastante preconceito e ocupar sempre um lugar inferior na qualificação, no nosso panorama cultural de modo geral. Mas o rural em si, ele já é coisa do passado.
Outra característica muito marcante de tua obra é o conteúdo fortemente político, notadamente este disco mais recente. Como você tem acompanhado o noticiário acerca do conturbado momento político que atravessa o Brasil? Eu acompanho o momento político do Brasil com muita preocupação, eu acho que é um momento muito pernóstico. As grandes forças mais reacionárias, o acúmulo de dinheiro e poder está se multiplicando e se reforçando de um modo assim assustador. Ao ver a versão da grande imprensa prevalecendo a gente fica com um sentimento de que a gente quase que perdia a oportunidade de ter construído um país melhor nos últimos anos aí. Continuo acreditando na possibilidade de o povo brasileiro de encontrar saídas, mas este realmente é um momento bem preocupante, que acho que vai reverberar negativamente por muito tempo ainda. A gente segue resistindo por que é a única maneira e cada um tem que encontrar o seu modo de escape, de saída, e tentativa de construir pelo menos pequenos modos de afirmação positiva dentro disso tudo.
Ronaldo Rodrigues, Luciana Simões e Christian Portela, da formação original da Bota o Teu Blues Band. Arte e fotografia: Laila Razzo/ Base SLZ
Não faltam atestados do parentesco entre blues e rock. Uma das provas mais recentes é a volta às origens dos Rolling Stones. Os roqueiros setentões voltam ao bom e velho blues em Blue & Lonesome, seu ótimo novo disco.
Há pouco mais de 20 anos em São Luís uma banda fez história na cena da cidade. Com seu nome incomum, a Bota o Teu Blues Band tornou-se lendária. Aproveitando a passagem do guitarrista Ronaldo Rodrigues pela Ilha, o grupo se reunirá para uma única apresentação nesta sexta-feira (27), no Fanzine Rock Bar.
A casa, definida no material de divulgação como “o mais novo local alternativo de São Luís”, iniciou suas atividades no último dia 14, com show da mítica Velhas Virgens. Em seu currículo já constam shows de Da Ghama (ex-Cidade Negra), Fauzy Beydoun e Cachorro Grande.
Gerente da casa, o músico Beto Ehongue (Canelas Preta, ex-Negoka’apor, ex-Som do Mangue), comenta a receptividade do público: “Foi maravilhosa. O público ficou fascinado com a casa, sua estrutura, acessibilidade, localização e principalmente com a proposta cultural da casa, que é de incluir São Luís no roteiro cultural do país, além de abrir espaço para a música feita por estas bandas”, contexto em que se insere esta reunião da Bota o Teu Blues Band.
Ronaldo Rodrigues, guitarrista da formação original, após uma temporada em Londres, acabou fixando morada no Rio de Janeiro, onde cursou o bacharelado em bandolim na UFRJ. Ex-integrante, em São Luís, de bandas como Palavra de Ordem e Som do Mangue, a partir da vivência musical na capital carioca, o músico acabou mais identificado com o chorinho. Mas nunca abandonou a guitarra. Ele comenta o prazer do reencontro com a cidade e com os amigos: “Sempre é muito bom rever os parentes e velhos amigos. Aproveito pra fazer algumas apresentações, como o evento Black & Tal, que realizo no Chico Discos e que se encaminha pra sua quarta edição [3 de fevereiro]. Dessa vez tem uma particularidade, que é reunir boa parte da Bota o Teu Blues Band, que fundei junto com os irmãos Burgue – Heremburgue e Indemburgo –, há 23 anos, pra fazer um show comemorando a amizade e o velho rock/blues. Pena eles não poderem fazer parte mas contaremos com Luciana Simões nos vocais e Christian Portela [guitarrista] que também fizeram parte da formação original”
“Está sendo uma divina nostalgia reviver a banda, o repertório. Apesar de quase não fazer parte do que toco hoje em dia, é prazeroso. Há muito tempo não tocava num projeto contendo o bom e velho rock e seu inseparável amigo blues [risos]”, continua.
Ronaldo anuncia a formação que subirá ao palco para este Bota o Teu Blues Band Revival e o que a banda está preparando: “Infelizmente Heremburgue e Indemburgo, baixo e bateria, respectivamente não poderão participar, mas nos deram o aval pra seguir adiante. Da formação original faremos parte eu [guitarra e bandolim], Christian Portela [guitarra, gaita e vocais] e Luciana Simões [vocais]. O repertório está baseado no que fazíamos há mais de 20 anos, muito blues e medalhões do hard rock lado B, como Iron Butterfly, Grand Funk Railroad, O Terço, Mutantes, entre outros… O baixo fica sob a batuta de Fernando Japona e a bateria de Thierry Castelo Branco”.
Entre os nomes, Japona acrescenta Cream e Deep Purple, e aponta novos rumos para a sonoridade da banda. “Ronaldo toca bandolim e curte choro, eu toco violão e curto folk, blues e samba. [Os arranjos] são funkeados, shuffles, traditional, soul, jazz! Progressivo também!”, lista.
A importância da Bota o Teu Blues Band é tamanha que Beto Ehongue destaca: “acho que foi o início do que chamamos da nova cena musical da cidade, contribuiu para o surgimento de outros grupos importantes da musica local atual”.
O hoje gerente do Fanzine Rock Bar conviveu musicalmente com Ronaldo Rodrigues: este foi guitarrista da Som do Mangue, cujo vocalista era aquele. “Ronaldo é multi, não só nos instrumentos, mas nas ideias, e era peça muito importante dentro do processo de criação do Som do Mangue, com uma bagagem imensa”, elogia.
A apresentação da Bota o Teu Blues Band olha para o passado, mas ao mesmo tempo aponta para o futuro. Ao menos o da relação da casa com a música produzida aqui. “Esta é uma bandeira forte da Fanzine, seja feita agora ou em outra época, e esse resgate da Bota O Teu é apenas o começo do que pensamos para a música local”, compromete-se Beto Ehongue.
Serviço
O quê: show da Bota o Teu Blues Band – com Luciana Simões e Os Carabinas Quando: sexta-feira (27), às 22h Onde: Fanzine Rock Bar (Av. Beira-Mar, Praça Manuel Beckman, próximo à Delegacia da Mulher) Quanto: R$ 20,00
Em Unknown pleasures [Cobogó, 2014, 112 p.; tradução: Gabriela Fróes], o jornalista Chris Ott, crítico de música com textos publicados em veículos como The Village Voice, pretende e consegue ir além da aura mítica construída ao redor da vida breve do genial Ian Curtis (1956-1980), que se suicidou aos 23 anos em maio de 1980.
No livro que leva o título e comenta o processo de realização do disco Unknown pleasures, do Joy Division, destaca, por exemplo, a importância do produtor Martinn Hannett para a moldura da sonoridade da banda, destacando e localizando a importância do grupo – que viria a desaguar no New Order com o suicídio de seu líder – tanto àquela época quanto visto em perspectiva, quase 36 anos depois do fim – o livro foi escrito em 2003, quando Curtis já contava mais de 20 anos de morto.
“Algo que sempre falta nas discussões sobre o trabalho do Joy Division é perspectiva. E só o tempo pode nos dar perspectiva. Por mais objetivo que alguém possa ser, e por mais distante que esteja da história, a música do Joy Division tem a mesma potência que qualquer droga: é esmagadora, entorpecente e certamente viciante”, anota Ott nos Agradecimentos, em que revela ainda que o “livro começou como um breve artigo chamado “An Ideal for Listening” [O melhor para se escutar], publicado originalmente no site Pitchfork”, do qual foi colaborador.
Na tentativa de ajudar a compreender a alma, mente e coração inquietos, intensos e criadores de Ian Curtis, o livro de Chris Ott se soma a Joy Division: Unknown pleasures [Unknown pleasures, tradução de Martha Argel e Humberto Moura Neto, prefácio de Edgard Scandurra, Seoman, 2015, 374 p.], do contrabaixista Peter Hook, e a Tocando a distância: Ian Curtis & Joy Division [Touching from a distance – Ian Curtis and Joy Division, tradução de José Júlio do Espírito Santo, prefácios de Kid Vinil e Jon Savage, Edições Ideal, 2014, 317 p.], de Deborah Curtis, viúva de Ian.
Unknown pleasures integra a charmosa coleção O livro do disco, que “traz para o público brasileiro textos sobre álbuns que causaram impacto e que de alguma maneira foram cruciais na vida de muita gente”, conforme texto de abertura do livro. Há, na coleção, volumes dedicados a The Velvet Underground and Nico (por Joe Harvard), A tábua de esmeralda, de Jorge Ben (por Paulo da Costa e Silva), Estudando o samba, de Tom Zé (por Bernardo Oliveira), As quatro estações, da Legião Urbana (por Mariano Marovatto), Electric Ladyland, de Jimi Hendrix (por John Perry) e Led Zeppelin IV (por Erik Davis), entre outros.
[Sobre Cronovisor – Renato Russo, de corpo e alma, Cine Teatro da Cidade de São Luís, sexta-feira, 20/1]
Foto: ZR (20/1/2017)
Costurado por depoimentos de Renato Russo (1960-1996) e projeções diversas, Cronovisor – Renato Russo, de corpo e alma é um passeio por grandes sucessos da Legião Urbana. O nome do espetáculo é tomado emprestado de uma máquina do tempo supostamente inventada por um padre italiano e destruída pela Igreja Católica século passado.
Samuca Luna, cantor e psicólogo, se apresenta sozinho no palco, acionando as projeções a partir de um laptop e cantando, ora acompanhando-se ao violão e por um par de bumbos acionados com os pés, ora por bases pré-gravadas.
O espetáculo funciona bem como tributo ao líder da maior banda de rock já surgida no Brasil, mas não vai além disso. Entre sucessos como Ainda é cedo, Geração Coca-cola, Meninos e meninas, Pais e filhos, Giz e Teatro dos vampiros, entre outras, informações por demais conhecidas da vida de um personagem bastante documentado, dado o interesse contínuo por Renato Russo, mesmo 20 anos após sua morte.
É um erro, aliás, afirmar, sobre uma das poucas músicas do roteiro não assinadas por Renato Russo, que ele tornou sua Hoje a noite não tem luar (versão de Carlos Colla para Hoy me voy para Mexico, de C. Villa, A. Monroy e M. Pagan, sucesso dos Menudos). A música é um hit póstumo da Legião Urbana, registrada durante um intervalo da participação do grupo no Acústico MTV – o show, gravado em 1992, o segundo da série no Brasil, só foi lançado em disco em 1999.
As outras músicas não assinadas pelo homenageado são o Opus 17, de Robert Schumann, que Renato Russo ouvia obsessivamente perto de morrer, e Love of my life (Freddie Mercury), hit do Queen, que Luna mescla a Os barcos. Em Por enquanto, uma homenagem a Cássia Eller (1962-2001), para delírio da plateia que lotou o Cine Teatro da Cidade de São Luís.
Antes de cantar Baader-Meinhof Blues, a projeção exibiu a estrela vermelha símbolo da organização guerrilheira alemã que dá título à música. Vestido numa camisa vermelha, Samuca tirou onda: “calma, gente! Não é a estrela do PT!”. Ao cantar Que país é este? a projeção exibiu as fotografias de todos os presidentes da república, incluindo os militares, com os respectivos mandatos, de Deodoro da Fonseca ao ilegítimo, cuja foto, acompanhada da legenda “atual” foi saudada por gritos de “Fora Temer!” em uníssono, coro que se repetiu para acompanhar a letra quilométrica de Faroeste caboclo.
Com Samuca Luna cantando, sobre bases pré-gravadas, Vento no litoral e Tempo perdido, mais dois hits da Legião Urbana, o show termina entre a sensação de missão cumprida, isto é, lotar o teatro e emocionar o público, e a falta de risco e ousadia a um mergulho mais profundo na vida e obra de Renato Russo, artista que sempre arriscou saltos sem medir distâncias.
A artista em figurino de Claudio Costa e Marcos Ferreira, no encarte de Rosa semba. Design gráfico: Amanda Simões. Foto: Márcio Vasconcelos
Rosa semba [2016, em CD e LP] é a metáfora perfeita para o canto de Dicy (que não usa o sobrenome Rocha para assinar seu disco de estreia). Semba é tanto a origem do centenário samba, gênero de música popular que é um dos sinônimos de brasilidade, quanto “música e dança de par tradicionais de Angola”, conforme o dicionário. A flor que precede a semba no título tem beleza, perfume e delicadeza inconfundíveis, mas a estes atributos somam-se os espinhos.
A voz bela e doce de Dicy está a serviço da denúncia social, o que extrapola inclusive sua carreira artística – com formação em comunicação e marketing, ela é assessora de comunicação do Centro de Cultura Negra do Maranhão (CCN/MA), entidade parceira na realização do disco, e da Rede Amiga da Criança –, sem fazer de sua obra mero panfleto ou coisa que o valha.
A negritude fala alto e as 10 faixas de Rosa semba remetem às origens do axé baiano, quando as letras do gênero ainda tinham um forte conteúdo político de acentuada denúncia social, sobretudo sobre a realidade da população negra habitante das periferias de Salvador e da Bahia, mas não só.
Um conjunto de composições de maranhenses reaproxima musicalmente o Maranhão da África ancestral. Voltando à faixa-título, seu subtítulo também ajuda a entender o conjunto, no feliz trocadilho de Beto Ehongue, seu autor: “Menina que Deus crioula”. “O samba que você me convidou estava bom/ não sei sambar mas ando pela rua de Nagô/ saúde no pé e boa da cabeça menina que Deus/ crioula/ Rosa semba”, diz a letra.
Acompanhada por Gerson da Conceição (contrabaixo e guitarra; voz em Jolie e Equinócio), Guillermo Caso (guitarra em Jolie), Isaías Alves (bateria), Javier Sirera (teclados), João Paulo Cardoso (contrabaixo), Josemar Reis (percussão em Jolie), Luiz Cláudio (percussão) e Marcos Lussaray (guitarra, violão, violão acústico, banjo), Dicy canta as coisas simples de seu lugar, entre lavadeiras na beira do rio (Lavadeira, de Beto Ehongue) e a cheia dos campos naturais da Baixada maranhense e o cotidiano de pescadores (Baixada, dela, em parceria com o marido-produtor Joaquim Zion, e Adeus campo, de Tataqui), além de exaltar a beleza da mulher negra (Neguinha do carrapatal, de João Madson e Gerson da Conceição, e Quem é essa nega, de João Simas).
Rosa semba tem ainda poema do chileno Pablo Neruda (1904-1973) musicado por Dicy (Se cada dia cai, extraído de Últimos poemas – O mar e os sinos, traduzido por Luiz de Miranda), e versão de André Gabeh para Ain’t no Sunshine when she’s gone (Bill Waters), que virou Não há nada em seu lugar, poderoso reggae que abre o disco, cerzido entre sons que irmanam África e Maranhão, ambos negros, nunca é demais frisar.
Equinócio (Eliseu Cardoso) é a síntese do som político de Dicy: música para dançar e pensar, um passeio musical e geográfico por cidades (negras) de Camarões, Costa do Marfim, Togo, Guiné, Níger, Guiné Equatorial, Gana e Tanzânia. Utópica e onírica, a música versa sobre o fim do racismo no mundo: “minha negra, minha preta meu amor/ dançai este tambor/ o continente negro dá o seu perdão/ ao mundo, a escravidão”.
Quase nunca me arrisco em listas de melhores do ano. Apesar dos olhos e ouvidos atentos ao que rola no mundo da arte/cultura/entretenimento, sei que ando longe de ter lido/ouvido/assistido a tudo, ou ao menos a maior parte, além do fato de o Maranhão ser um tanto fora de rota (apesar de louváveis esforços mais ou menos recentes) e as coisas (livros, discos, shows, filmes, peças etc.) demorarem (ou nem) a chegar(em) até aqui. O fato é que sempre acho que minhas listas estão aquém do que poderiam/deveriam ser. E nisto, certamente os poucos mas fiéis leitores concordarão comigo. E concordarão mais ainda os que discordarem da lista, vocês entendem.
O fato é que Marcelo Costa, um dos pioneiros do jornalismo cultural na internet brasileira, editor do Scream & Yell, convidou-me (baita honra!) para votar nos Melhores de 2016 de seu site. Ele esteve em São Luís em novembro passado, participando do Festival BR 135/ Conecta Música, ocasião em que mediei uma mesa com ele, Alexandre Matias (Trabalho Sujo) e Roberta Martinelli (Cultura Livre, Som a Pino).
Até o final de janeiro Scream & Yell publica seu resultado final, compilando os votos de cerca de 100 formadores de opinião de todo o Brasil – esta sim, a lista que vale a pena. Torno públicos, a seguir, meus votos, tendo deixado algumas categorias incompletas e outras sem preencher – ambos os casos frutos do exposto no parágrafo inicial.
MELHOR DISCO NACIONAL
Só vou chegar mais tarde. Capa. Reprodução
1. Só vou chegar mais tarde, Edvaldo Santana – O cantor e compositor de São Miguel Paulista já citava São Luís e o tambor de crioula na letra de Jataí, faixa-título de seu álbum anterior, com cujo show (no formato voz e violão) passou pelo Cine Teatro da Cidade de São Luís em novembro daquele ano. Neste novo disco volta a surpreender: o bolero Ando livre cita o Bar do Léo, que ele conheceu naquela viagem, e conta com a participação especial de Rita Benneditto. Mas ele não encabeça essa lista por puro bairrismo. Ouçam e entendam!
Tropix. Capa. Reprodução
2. Tropix, Céu – Perfume do invisível estava na trilha de Velho Chico, o melhor acontecimento da teledramaturgia brasileira em 2016. Orgânico e eletrônico, o disco tem produção do francês Hervé Salters (General Elektriks) e Pupilo (Nação Zumbi). Merece destaque a regravação de Chico Buarque song, da mítica Fellini.
Fábrica de animais. Capa. Reprodução
3. Fábrica de Animais, Fábrica de Animais – Não foi à toa “Fazendo do mundo um lugar mais legal pra viver” ter dado título à minha resenha do segundo disco da banda liderada por Fernanda D’Umbra, batizada por romance de Edward Bunker. Rock’n roll de alta voltagem poética.
Hóspede da natureza. Capa. Reprodução
4. Hóspede da natureza, Cátia de França – Disponível para download gratuito e legal na web, o disco novo de Cátia de França levou 10 anos maturando. Gravado em 2005, com músicos que tocaram com Cássia Eller, só foi lançado ano passado, revelando a força da autora de Kukukaya, gravada por Xangai e Elba Ramalho.
Bagaça. Capa. Reprodução
5. Bagaça, Bruno Batista – O quarto disco de Bruno Batista é o primeiro em que ele grava parcerias. Sempre que ouço o artista, em discos ou shows, me pergunto: quando é que Maria Bethânia e/ou Ney Matogrosso irão gravar suas canções?
MELHOR DISCO INTERNACIONAL
Day breaks. Capa. Reprodução
1. Day breaks, Norah Jones – O retorno da artista ao jazz.
You want it darker. Capa. Reprodução
2. You want it darker, Leonard Cohen – 2016 foi um ano de grandes baixas. A exemplo de Bowie, Cohen deixou um belo disco antes de partir.
Blue & Lonesome. Capa. Reprodução
3. Blue & Lonesome, Rolling Stones – Se o blues é o pai do rock, os vovôs Stones seguem na ativa com um belo disco na volta às origens.
Blackstar. Capa. Reprodução
4. Blackstar, David Bowie – A “necrofilia da arte” (como cantou o Pato Fu) em torno do camaleão ter previsto a própria morte não ofuscou (ainda bem!) a beleza e a importância de seu derradeiro registro.
I still do. Capa. Reprodução
5. I still do, Eric Clapton – Título autoexplicativo.
2. Di Melo, O Imorrível, Festival BR 135, Praça da Criança, São Luís – Outra noite mágica! O lendário Di Melo, pela primeira vez na ilha, acompanhado por instrumentistas locais. Show ao vivo não deixou nada a dever ao groove do disco inaugural de Di Melo, de 1975, um dos grandes álbuns do soul/funk brazuca. Apresentação misturou músicas daquele com faixas de O imorrível [2016], segundo álbum oficial de Di Melo.
Foto: Jotabê Medeiros
3. Tássia Campos, Encontrando Belchior, Odeon Sabor e Arte, São Luís – 2016 foi o ano do #foratemer e do #voltabelchior. O show que a cantora dedica ao repertório do cearense teve algumas edições. Esta, particularmente, contou com a participação especial de Jotabê Medeiros, que contou uma história, uma das muitas que conta/rá em Pequeno perfil de um cidadão comum, belchiorgrafia que publica este semestre. O jornalista esteve em São Luís participando da Feira do Livro, ocasião em que leu um trecho inédito do livro que está escrevendo.
Foto: Márcio Vasconcelos
4. Bruno Batista, Bagaça, Mandamentos Hall – “O melhor show de Bruno Batista (até aqui)”, anotei em texto sobre o show.
Fotosca: ZR
5. Alexandra Nicolas, Eu vou bulir com tu, Espigão Costeiro da Ponta d’Areia, São Luís – A cantora realizou sete apresentações em praças públicas de São Luís, com repertório baseado em ritmos consagrados no Nordeste, pitadas de duplo sentido e um pé também no carimbó paraense. Os shows serviram também de teste de repertório para seu segundo disco, provisoriamente intitulado Bulir com tu, que ela começa a gravar neste primeiro semestre, a ser lançado ainda em 2017.
Matheus Nachtergaele e Rafael Nicácio em cena de Big jato. Frame. Reprodução
2. Big Jato, de Claudio Assis – Baseado na autoficção homônima de Xico Sá, o filme tem Mateus Nachtergaele em dois papéis e a participação especial de Jards Macalé interpretando o príncipe Ribamar da Beira Fresca, espécie de louco da aldeia.
Lua em sagitário. Cartaz. Reprodução
3. Lua em sagitário, de Márcia Paraíso – Belo romance juvenil merece destaque por abordagem diferenciada em relação ao (quase) sempre criminalizado MST.
4. Trinta e poucos, Antonio Prata – Coletânea de crônicas publicadas na Folha de S. Paulo do melhor cronista em atividade no Brasil (sorry, Luis Fernando Veríssimo).
Os visitantes. Capa. Reprodução
5. Os visitantes, B. Kucinski – O autor confirmou seu nome entre os grandes da literatura brasileira já em seu livro de estreia (na ficção), K, de 2011. Os visitantes é uma espécie de errata literária: Kucinski faz um novo livro a partir de incorreções de obra anterior, com a ditadura militar brasileira como tenebroso cenário.
O MELHOR DA TV
Reprodução
1. Cultura Livre, TV Cultura – Roberta Martinelli conviveu alguns anos com Fernando Faro, o nome mais importante para a música na televisão brasileira. Após sete temporadas de resistência com o Cultura Livre, ela estreou o diário Som a Pino, na Rádio Eldorado e assina uma coluna com o mesmo nome nO Estado de S. Paulo. Martinelli é uma das mais atentas observadoras da cena musical contemporânea no Brasil. Fernando Faro não deixa lacuna e certamente se orgulha dos esforços e resultados da discípula.
2. Baile do Baleiro, Canal Brasil – O maranhense Zeca Baleiro transformou em programa de tevê a ideia simples e eficiente de um show/festa em que se une a nomes das mais variadas gerações e estilos musicais para cantar suas memórias afetivas. Primeira temporada teve seis episódios e em seu palco nomes como Blubell, Wado, Odair José, Maria Alcina e Luiz Ayrão, entre outros, entre música e conversa. Que 2017 traga outra temporada, tão inspirada quanto.
Foto: divulgação/ Canal Brasil
3. Transando com Laerte, Canal Brasil – Nos últimos anos, Laerte deu algumas guinadas em sua vida/carreira, mostrando-se bastante competente em todas. No programa, explora sua veia de entrevistador e segue como a cartunista que melhor traduz a tragédia brasileira em tempos de golpe.
4. Velho Chico, Globo – A novela merece destaques pelo elenco, fotografia, locação e trilha sonora. Quase naufraga com a tragédia que levou Domingos Montagner, o Santo dos Anjos, um de seus protagonistas, que morreu afogado nas águas do Rio São Francisco, cujo apelido batizou a trama.
O duo Criolina acaba de lançar Radiola em transe [Sete Sóis], disco novo de inéditas, sucessor de Cine tropical [2009], há tempos aguardado pelo fã clube fiel de Alê Muniz e Luciana Simões. Nesse período eles optaram por tornar a morar em São Luís e produzir a partir daqui – Radiola em transe foi gravado em São Paulo, mas o show de lançamento aconteceu na capital maranhense, mês passado.
Nos anos que separam o segundo e o terceiro discos, o Criolina lançou o ep Latino-americano (aliviando a sede do fã clube) e o videoclipe da música homônima, em parceria com Bruno Batista, ampliando o leque de parceiros – em seu ótimo Bagaça, ele registrou outra parceria com o duo –, além de inventar e consolidar o Festival BR 135, incorporado ao calendário cultural do Maranhão e responsável por colocar definitivamente o estado na rota dos grandes festivais de música pop no Brasil. As 13 faixas de Radiola em transe são completamente inéditas – nada de Latino-americano foi requentado aqui.
Transe (Alê Muniz e Luciana Simões), que abre o disco, é um bom cartão de visitas: “na radiola ouço um disco tocando/ rock and roll, rock and roll/ e passa o tempo, a trilha vai mudando/ body and soul”, anunciam a que vieram. Radiola é tanto o apelido comumente dado a antigos aparelhos de som domésticos quanto aos paredões de caixas de som que embalam festas de reggae em todo o Maranhão. “E quando cai na pele/ o som se espalha, enraíza/ a música que bate, corta e não cicatriza/ um bom compositor não vira só um nome na camisa”, continuam, falando sobre os sentimentos que a música pode despertar.
Embalado em belo projeto gráfico (assinado por Amanda Simões, irmã de Luciana) de cores vibrantes, traduzindo literalmente os sons contidos nesta/e Radiola em transe, o disco aponta a importância do reggae para o cenário cultural do lugar de origem do casal musical e confessa a influência do ritmo jamaicano sobre sua obra – reverenciando Gregory Isaacs, Compacto 76 (Luciana Simões) é destaque, em repertório de alto nível. Dizer, no entanto, tratar-se de um disco de reggae é apequená-lo.
“Radiola em transe/ acionando pedais gigs e beats/ aplacando dores edemas artrites/ tocando pedras raggas baladas e hits/ em kombis fuscas mavericks”, aponta o manifesto do poeta Celso Borges (parceiro de Alê Muniz em Essa menina e Ponta verde, ponte sonora entre a ilha de São Luís e a África, repetindo a experiência de São Luís-Havana, parceria dos dois com Luciana, do disco anterior) no encarte, citando a gíria “pedra”, que define o reggae de qualidade nos salões da ilha, em cena que afinal, ele, jornalista então em início de carreira, teve papel crucial na consolidação, pelos idos anos 1980. “Radiola em transe/ regando o gogó do cantor/ na veia jugular do cantador/ batucando crioula mina terreiro tambor”, continua, citando outras influências – sempre ampliando o leque.
Alê Muniz (guitarra, violão e voz) e Luciana Simões (gaita e voz) são acompanhados por Gerson da Conceição (contrabaixo e backing vocal), Isaías Alves (bateria e backing vocal), João Simas (guitarra e backing vocal), Michelle Abu (percussão), Ricardo Prado (piano, teclados e guitarra), Rovilson Pascoal (guitarra, banjo, moog e sintetizador) e Serelepe (trombone) em disco feito também de paisagens, para além das fotos da dupla (assinadas por Márcio Vasconcelos) no encarte.
Radiola em transe passeia por terreiro, tambor de crioula, lelê (danças típicas do Maranhão), Jaracaty (título de uma faixa, parceria de Alê e Lu), Vila Itaqui-Bacanga, Camboa, bairros da capital maranhense, e Bequimão e Cururupu (municípios maranhenses que dão título a Rocksteady de Bequimão a Cururupu, parceria de Alê Muniz, Luciana Simões e Gerson da Conceição).
O disco presta deferências ainda aos compositores Tião Carvalho (nascido em Cururupu, radicado há 30 anos na capital paulista), cuja A mulher mais bonita do mundo mistura-se a A menina do salão (Alê e Lu), e João Madson (o Madinho, tio de Alê, falecido em fevereiro passado), homenageado em Goodby my fella (Alê e Lu), que encerra o disco.
Ao “se melhorar estraga”, jargão do homenageado final, anotado ao pé da curta letra da música, sobre o disco eu acrescentaria apenas: valeu a pena esperar.
Feliz ano velho [Brasiliense, 1982; Alfaguara, 2015], de Marcelo Rubens Paiva, que li no início da adolescência, foi um livro fundamental para meu interesse por literatura. Era um relato autobiográfico tendo por mote o incidente que o colocaria para sempre numa cadeira de rodas, mas sem perder o bom humor e dialogando com outras artes, sobretudo a música. Finalmente um livro não era chato como em geral eram os que líamos na escola por obrigação. Merecidamente virou um best seller, com sucessivas reedições.
Meninos em fúria. Capa. Reprodução
Com vários títulos na bagagem o escritor, dramaturgo e jornalista, colunista de O Estado de S. Paulo, acaba de lançar, a quatro mãos, com Clemente Tadeu Nascimento Meninos em fúria: e o som que mudou a música para sempre [Alfaguara, 2016, 220 p.], livro que remonta à gênese da banda Inocentes – fundada e liderada por Clemente, hoje também vocalista e guitarrista da Plebe Rude, em paralelo –, pioneira do movimento punk no Brasil.
Não se trata de uma biografia, é mais um livro de memórias, contada por testemunhas privilegiadas da história. Clemente, ex-bancário e ex-vendedor de guarda-chuvas, era o frontman da banda que acabou por influenciar nomes como Gilberto Gil, que em 1983 lançou Punk da periferia, obviamente detestada pelos punks de então.
A prosa de Marcelo Rubens Paiva tem uma leveza que a distancia da objetividade e “imparcialidade” jornalísticas. Ele dá voz a familiares, parceiros, produtores e todos que rodeavam Clemente e os Inocentes, além do próprio – as falas de cada autor estão bem delimitadas em Meninos em fúria.
De quando o punk era assunto das páginas policiais dos jornais, época em que o movimento não tinha consciência de e era sempre associado à depredação e violência entre seus próprios integrantes, gangues de bairros diferentes, à assinatura de contrato com uma grande gravadora, colado ao boom do brock, quando enfim ganham as páginas de cultura, a participação dos Inocentes em shows e festivais ao lado de ídolos como Sex Pistols e Ramones, a falta de tato para lidar com o star system, além de toda a conjuntura da época – abertura, fim da ditadura, manutenção da censura, governos Sarney e Collor etc. –, nada escapa ao olhar e memória atentos da dupla.
Não é um livro saudoso. O punk continua vivo e seu espírito libertário e anarquista é hoje necessário. “E tudo parecia calmo e andando em direção a um final feliz quando, em 2016, fomos novamente atropelados pela história. O país entra em convulsão, a luta pelo poder trouxe fatos bizarros de volta, a manipulação de massa, uma perigosa e volátil arma política, está sendo usada sem escrúpulo nenhum, a Justiça se transformou em instrumento de vingança, totalmente parcial e claramente partidária”, anota Clemente, atestando a plena saúde do punk.
Jonnata Doll não tem papas na língua. Seu “rock Fortaleza”, como classifica o som de seu grupo, Jonnata Doll e Os Garotos Solventes, não se limita ao rótulo. Ele não teme expor, em seu trabalho autoral ou em entrevista, sua relação com o universo das drogas, por exemplo.
Crocodilo. Capa. Reprodução
Os Garotos Solventes são Leo Breedlove (guitarra), Edson Van Gogh (guitarra), Saulo Raphael (contrabaixo) e Marcelo Denidead (bateria). Em Crocodilo [2016], segundo disco de estúdio da banda, Jonnata Doll (voz, guitarra e violão) contou ainda com as participações especiais do conterrâneo Fernando Catatau (Cidadão Instigado, guitarra em Cigano solvente) e Dado Villa-Lobos (ex-Legião Urbana, guitarra em Swing de fogo e guitarra e violão em Quem é que precisa?).
Com o último e Marcelo Bonfá, participa da turnê que comemora os 30 anos de Legião Urbana [1985], primeiro disco da banda liderada por Renato Russo (1960-1996), de Será, Geração Coca-cola e outros clássicos do brock – Doll canta duas músicas no show e esteve em São Luís, quando a turnê passou por aqui, em junho passado.
Crocodilo é um álbum punk introspectivo, autobiográfico, com direito a um “glossário de gírias” locais, caso por exemplo de Gary, título de uma faixa: “arroz de festa, segura vela, o apaixonado que vira amigo da gata e não consegue ficar com ela”, aponta o encarte. A questão social também é abordada por Doll e Os Solventes: o turismo sexual é tema de Táxi. Engana-se quem pensa num álbum hermético ou “regional”.
Entre a correria das festas de fim de ano e a participação na turnê com os remanescentes da Legião Urbana, Jonnata Doll conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.
Foto: Nino Andrés
De onde vem o Doll de teu nome artístico?
Vem de um dia, há muito tempo atrás quando experimentei o medicamento haloperidol, é segura doido, fiquei travado, músculos retesados e escutando na cabeça dol, dol, dol, dol. Na época tava tentando achar um nome de guerra, aí coloquei mais um L para fazer referência a essa palavra que aparece muito dentro do punk, seja em nome de bandas ou músicas, mas também há motivos secretos…
A gente percebe muito fortemente o tema das drogas em tuas músicas, desde o nome da banda até mesmo ao título do disco, entre outras. Como você lida com a temática?
Eu vim de uma família evangélica pentecostal, aonde era 8 ou 80. Ou tu tava na igreja ou tava “desviado” afundado nas drogas e na cachaça. O resultado é que no início fazia questão de ouvir rock e não usar drogas. Uma vez a polícia me parou quando eu estava com minha primeira gang, os “jack legais”, e começaram a procurar drogas, bater, pressão psicológica, “tu é roqueiro e não usa droga, porra?”, me orgulhava de não usar. Até que minha amiga Érika, judia roqueira funkeira jornalista speedfreak, me convenceu a cheirar cola. Daí eu deslumbrei uma outra faceta da realidade, a noção de tempo se expandiu e daquele dia em diante percebi que só ouvir Pink Floyd e fechar os olhos não me levaria de volta àquele lugar. Virei um psiconauta autodidata, experimentei tudo que podia em diferentes contextos, sempre para ver como seria criar e apreciar arte sob efeito de algum alcaloide, até que encontrei a morfina e aí essa relação de experiência deu lugar a anos de vício, chegando até o fundo do poço, até conseguir sair, quando comecei a compor o Crocodilo isolado em um sítio e apaixonado por uma mulher estrangeira. Mas é isso, o homem tem que passar por experiências nessa vida que te tirem do lugar.
Como você classifica o som de Jonnata Doll e os Garotos Solventes?
Rock Fortaleza
A pegada punk se sobressai em Crocodilo, que conta com participações especiais de Dado Villa-Lobos e Fernando Catatau, músicos que têm uma história com este universo, além da produção de Kassin. De que modo eles influenciaram na sonoridade do disco?
Na verdade, tem a produção do [Yuri] Kalil também, que é nosso parceiro e já tinha produzido o primeiro disco. Táxi foi a única música que construímos em estúdio a partir de sugestões da dupla de produtores. No geral, a ideia era tentar chegar numa coisa mais crua, com sinths sujos e pedais fuzz, a ideia deles era trazer o espírito do show. Só que eu tava vindo do interior, de um sítio que pertence à minha família, aonde passei parte da infância e lá passei meses só com um violão e apaixonado, tentando entender a psicomagia, superar a relação de dependência com a morfina e eu cheguei com algumas propostas acústicas e letras mais voltadas para o interior. Daí o Crocodilo ter esse lado mais introspectivo, que não tem muito a ver com a ideia original dos produtores – pelo Kassin acho que seria mais esporrento. Mas eles curtiram esse punk de Cheira cola urbano ao lado da balada acústica Quem é que precisa?. Na época também trouxe elementos de música árabe, pois fazia dança do ventre com a esposa do Kalil, a incrível bailarina Lenna Beauty, que participa no disco [backing vocal na faixa-título] e eu tava apaixonado por uma espanhola, minha namorada que dançava flamenco. O Kalil foi importante para me ajudar a mergulhar nisso, pois ele tem um projeto musical com a Lenna, chamado Cearábia, do qual fui convidado, que é influenciado por músicas ibéricas e ciganas. Então é isso: Crocodilo é um disco de um punk junk mergulhando no amor por uma espanhola de sangue cigano andaluz
Crocodilo foi gravado em Fortaleza e seu encarte traz um dicionário de gírias usadas no Ceará. No entanto não se pode rotulá-los de som regional ou coisa que o valha. Como vocês lidam com as barreiras, sejam elas geográficas, culturais ou de qualquer ordem?
É um regional pós-moderno. A Fortaleza que eu vivi era uma cidade moderna, mas ao mesmo tempo provinciana, em que o senso comum era o forró eletrônico dominando tudo, ser cool era saber dançar forró e pegar meninas com uma dança de acasalamento. Mas para mim, que cresci lendo gibis, dançando Michael Jackson e ouvindo Elvis com minha tia doidona – aquela que aparece no clipe de Esqueleto e Rua de trás [ambas do álbum de estreia, de 2014]: Tia Zú –, juventude era outra coisa, tinha a ver com se rebelar e não aceitar aquele som medíocre e machista, que exultava o modo de vida consumista. Então o forró me influenciou na medida que eu o negava e me tornava mais rocker, mais maldito. Era um dos poucos caras que ouvia rock na escola e essa minoria, quase não havia garotas, se unia e o laço de amizade era muito forte, pois só a gente se entendia. Mais na frente eu percebi que radicalismos são por natureza burros, eles servem a revolução e a luta armada, por que naquele momento você tem que acreditar que preto é preto e branco é branco, mas isso não é a realidade, o mundo não é binário, é um fluxo e não importa aonde vamos chegar e sim seguir em frente.
Por falar em Ceará, no mesmo ano em que vocês lançam Crocodilo, Alucinação, de Belchior, considerado por muitos o melhor disco já lançado por um artista cearense, completa 40 anos. Que lugar ocupam nomes como Belchior, Fagner e Ednardo para vocês, seja na memória afetiva, seja enquanto influência ou referência?
Belchior… tenho mergulhado no trabalho dele desde que me mudei para São Paulo e até cantei ao vivo algumas músicas dele. Nos momentos de solidão e perrengue, ele é o cara que ensina, pois ele estava lá no Sudeste, sem dinheiro, na rua, nos anos 60. Belchior é um herói, a trajetória dele não se contradiz e acho o máximo ele ter ido embora. Escuto ele como escuto um irmão mais velho. Ele e o Catatau, este sim mais próximo, meu irmão de arte. A música deles me ensinou também a fugir do previsível, o que não é fácil com a pouca habilidade musical que eu tenho. O Ednardo tenho ouvido ultimamente e percebi que dos três ele é o mais enigmático e melancólico, embora a melancolia seja uma marca do cearense, nosso maracatu é lento e fúnebre. Eu e o Edson Van Gogh – moramos juntos em São Paulo – chegamos ao arranjo final de uma música nova ao ouvir o álbum O romance do Pavão Mysteriozo [1974]. Traduzir-se [1981], do Fagner, é o disco que tenho ouvido dele, que mistura as influências espanholas e ciganas, tem participação do Paco de Lucia e Camaron de la Isla, exatamente o som que eu ouvia na época em que compus o Crocodilo.
Você soa bastante autobiográfico em músicas como Ruth: “estou livre, mas realmente… eu não tou feliz!/ quebrei tudo na tua casa só pra não ter que quebrar minha cara no chão/ você me deu amor de verdade e eu retribuí com traição”. Em tempos de superexposição em redes sociais, o artista precisa, cada vez mais, ser sincero?
Eu faço assim por que os artistas que me tocam são assim. Talvez minha maior referência sejam os escritores beats William Burroughs e Jack Kerouac, assim como o carioca João do Rio. A minha maior musa é a experiência! O que seria de Lou Reed, Belchior se não fosse a experiência que te faz gozar e queimar? Agora tem vezes que dou lugar ao que observo na vida, as histórias urbanas, os lugares. O terceiro disco da gente vai ser sobre a nossa relação com São Paulo, os lugares… O Vale do Anhangabaú e as pessoas que moram embaixo do Viaduto do Chá que eu conheço quando vou comprar “chá” com eles, por exemplo.
Falando em sinceridade e exposição, como você lida com o universo das redes sociais e com a internet como um todo?
Eu uso para divulgar o trabalho dOs Solventes e cada vez menos por motivos pessoais. Também curto a pornografia caseira. Mas no geral tenho uma atitude conservadora com essa parada de selfies e coisas do tipo.
2016 foi um ano conturbado, do ponto de vista político. A palavra da vez foi crise. Qual o seu balanço pessoal do ano e quais as perspectivas para 2017?
Esse ano foi o ano que os conservadores levantaram a voz, por que até então, eles não precisavam, eles já estavam no poder. Agora que eles o tomaram outra vez, que o velho liberalismo econômico é apontado como solução, como se ele não estivesse sempre aí, tudo que é considerado descartável – arte e cultura – vai deixar de ter apoio da sociedade estabelecida. Meu plano em 2017 é tocar nas periferias, na rua, continuar realizando festivais independentes, como o festival Volume Morto, em São Paulo, e Fortaleza Cidade Marginal, em Fortaleza, para formar público, pois o artista só precisa de seu público e queremos agitar as cidades, divulgar o Crocodilo, viajar e brilhar na noite da América do Sul!
A pergunta “letra de música é poesia?” ainda é ouvida aqui e acolá e uma das respostas possíveis é o exercício de separar letra e música e verificar se a primeira tem força para sobreviver sem a segunda. Isto é: há casos e casos.
O exercício contrário, no entanto, quase nunca se faz. Sobrevive a música sem sua poesia, no caso de uma música originalmente com letra ser tornada instrumental? A resposta será parecida à do exercício anterior.
Em Sambantologia [Biscoito Fino, 2016], os bambas do Nó em Pingo d’Água recriam instrumentalmente nove temas de nomes seminais do samba. O único originalmente sem letra é Nanã (Moacir Santos e Mário Telles), que a rigor nem samba é.
Mas esqueçam os rótulos pois é justo o que fazem Celsinho Silva (percussão), Mário Sève (flauta e saxofone), Rodrigo Lessa (bandolim e violão de aço) e Rogério Souza (violão), com a adesão de Romulo Duarte (contrabaixo).
É um disco para celebrar o centenário do samba, cujo marco é a gravação de Pelo telefone (Donga e Mauro de Almeida) em 1916 e seu estouro no carnaval do ano seguinte. Não à toa é sua cadência amaxixada que abre o disco.
O título do álbum justapõe três palavras: samba, banto e antologia. Doutor em Musicologia pela Universidade de Tours, França, Carlos Sandroni assina um ótimo texto remontando às origens do samba, o gênero e a palavra, terreiro cheio de incertezas.
O Nó em Pingo d’Água – que tampouco tem este nome à toa – reprocessa outras pérolas das mais variadas vertentes, já que é impossível falar em samba no singular, tantas são as ramificações deste irmão do choro – terreno lembrado nas execuções do grupo, oriundo desta praia.
Obviamente não há pretensão do grupo em fechar a questão: uma antologia de samba poderia ocupar facilmente 10 discos. Ou mais. O exercício é justamente este: como dizer o máximo com o mínimo? São pérolas fundamentais para “a ascensão do gênero à condição de ícone sonoro do país”, como afirma Sandroni em uma passagem do texto do encarte.
Ismael Silva (autor de Se você jurar, em parceria com Nilton Bastos e Francisco Alves) configurou o “samba do Estácio”, qualificativo do samba que leva o nome do bairro carioca em que morava o compositor – Chico Alves, como era moda e seu feitio à época, certamente comprou sua parte na parceria. Ele comparece ao repertório ao lado de nomes como Dorival Caymmi (Samba da minha terra) e João de Barro (Copacabana, em parceria com Alberto Ribeiro).
Re/inventores do samba, Noel Rosa (Último desejo e Conversa de botequim, esta em parceria com Vadico) e Tom Jobim (Samba de uma nota só, em parceria com Newton Mendonça, e O morro não tem vez, com Vinicius de Moraes) são os únicos cujos nomes figuram mais de uma vez nos créditos.
O repertório coeso de Sambantologia é uma demonstração da grandiosidade da música brasileira. O trunfo do Nó em Pingo d’Água é não se acomodar, injetando frescor em um repertório que pode soar “batido” à primeira vista – nunca à primeira audição e às que se sucederem.
The 42nd St. Band – Romance de uma banda imaginária. Capa. Reprodução
Renato Russo ainda era apenas Renato Manfredini Jr. quando, entre 1975 e 76, com de 15 para 16 anos de idade, recluso em seu quarto por conta de uma epifisiólise, rara doença óssea, escreveu The 42nd St. Band – Romance de uma banda imaginária [Companhia das Letras, 2016, 221 p.; org.: Tarso de Melo; tradução: Guilherme Gontijo Flores; leia um trecho]. O nome da banda tem origem no endereço do bar Stonewall, palco de um massacre a LGBTs, que o cantor já havia homenageado em seu primeiro disco solo, The Stonewall Celebration Concert [1994].
O livro é uma espécie de diário da banda, como se um fã recortasse revistas e jornais sobre os ídolos e guardasse os recortes em uma pasta. Há entrevistas, formações, discografia, cronologia. O futuro líder da Legião Urbana constrói seus personagens inclusive do ponto de vista psicológico, uma prova disso é o comportamento dos integrantes da banda que dá título ao livro durante as entrevistas.
Renato Russo demonstra profundo conhecimento sobre a música pop mundial. Sua banda – Eric Russell, protagonista de The 42nd St. Band, é seu alter ego – tinha Jeff Beck (ex-Yardbirds) e Mick Taylor (ex-Rolling Stones), misturando personagens reais a personagens imaginários.
O mesmo acontece com faixas gravadas pela banda. No livro, Let me die in your footsteps é de Russell (e não de Bob Dylan) e Close the door lightly (when you go) é de Dylan (e não dos Smiths). Há vários outros exemplos e fica explícito a adoração da banda imaginária – e do autor – por Beach Boys, Stones, Beatles, Dylan.
Há algo de premonitório na obra. Renato Russo acabaria sendo um dos maiores nomes do pop rock brasileiro em todos os tempos e o livro relata (ab)uso de drogas, shows lotados, turnês bem sucedidas, amor e ódio da crítica especializada e mortes trágicas – entre os membros das várias formações da The 42nd St. Band, John Robbins morre de overdose aos 45, John Buck em um acidente de avião aos 62, e Eric Russell de câncer de pulmão aos 67 (Renato Russo morreu há 20, aos 36, de complicações decorrentes do vírus da aids). Aloha, título de uma música de A tempestade [1996], último disco lançado pela Legião Urbana com Renato Russo ainda vivo, já aparece no romance, como uma das faixas gravadas pela The 42nd St. Band.
É um romance fragmentário, montado a partir de anotações (em inglês) deixadas por Renato Russo em diversos cadernos, que muito provavelmente não seria publicado se ele ainda estivesse vivo. Como os diários de sua passagem por um rehab – Só por hoje e para sempre – Diário do recomeço [Companhia das Letras, 2015, 168 p.; org.: Leonardo Lichote] –, The 42nd St. Band – Romance de uma banda imaginária ajuda a compreender a mente inquieta e o espírito criativo de um dos maiores artistas surgidos no Brasil na segunda metade do século passado.
O percussionista Luiz Claudio. Foto: Rivanio Almeida Santos/ Chorografia do Maranhão
Em depoimento à Chorografia do Maranhão, série publicada pelo jornal O Imparcial, o percussionista paraense Luiz Claudio lembra a chegada por acaso à São Luís, onde acabou fixando residência graças a uma paixão: um tambor de crioula que ou/viu na Praça Deodoro.
Um dos mais renomados percussionistas do Brasil, Luiz Claudio já tocou com muita gente grande: Celso Borges, Cesar Teixeira, Ceumar, Chico César, Lena Machado, Rubens Salles e Zeca Baleiro, entre muitos outros, além da irmã Anna Claudia. Integrou ainda grupos como o Som da Lata – em que alunos, além de aprender a tocar percussão, confeccionavam seus próprios instrumentos a partir de materiais reciclados – e o Choro Pungado, um dos mais inventivos da cena choro do Maranhão, com sua mistura entre o gênero e ritmos da cultura popular do estado.
Hoje (15) o músico apresenta o show Encantaria no projeto Palco 42, do Laboratório de Expressões Artísticas do Maranhão, o Laborarte (Rua Jansen Müller, 42, Centro), com entrada franca. É um show solo de percussão, em que o músico exibe suas múltiplas facetas, tocando diversos instrumentos, de cajon a caixa do divino, passando por tambor grande, zabumba e maracá, entre muitos outros.
A percussão orgânica de Luiz Claudio é acompanhada por trilhas gravadas. É um mergulho profundo do músico pelos batuques, os instrumentos às vezes configurando-se extensões de seu corpo.
A apresentação acontece na Sala Cecílio Sá (Laborarte), às 19h. Na sequência, outra apresentação de peso: um dos maiores compositores brasileiros, Chico Maranhão relembra clássicos de sua trajetória, iniciada ainda na década de 1960.