A nordestinidade de Alexandra Nicolas

Fotosca: ZR (10/12/2016)
Fotosca: ZR (10/12/2016)

 

Não há nada que Alexandra Nicolas faça sem capricho e verdade. Talvez isso explique a demora de sua estreia no mercado fonográfico, acontecida apenas em 2013, com Festejos [Acari], inteiramente dedicado ao repertório de Paulo César Pinheiro, quando já contava quase 20 anos de carreira.

Aquele disco, inconscientemente talvez, já apontava na direção do Nordeste, região à qual ela dedica o repertório de Eu vou bulir com tu, show com que tem percorrido praças públicas de São Luís. Ela faz questão de afirmar(-se), logo no início do espetáculo: “Para quem não me conhece, eu sou Alexandra Nicolas, cantora ma-ra-nhen-se!”, diz, escandindo as sílabas.

É tamanho o cuidado e o carinho com que a cantora prepara seus espetáculos que a coisa não acaba – tampouco começa – no espetáculo em si. Quem já viu, percebe isso em “detalhes” como o figurino – dela e da banda que a acompanha – o palco, a luz, o som. Parece óbvio dizer isso, mas não é.

Sua entrega no palco é total, valendo-se de recursos aprendidos em formações em canto – no que a formação acadêmica em fonoaudiologia certamente ajuda –, dança e teatro. O verbo-mote do show, do título da música de Antonio Barros e Cecéu, é traduzido ao longo do espetáculo, quando ela bole com músicos, com público, com o marido-produtor, dedicado, jogando nas 11, atento a cada detalhe, vendendo discos, trabalhando desde muito antes e até muito depois do show, para que tudo aconteça com perfeição.

Era a sexta apresentação da temporada, espécie também de testes para o repertório do disco. A banda, cada vez mais afiada: Wendell Cosme (cavaquinho, guitarra e direção musical), Nataniel Assunção (bateria), Wanderson Silva (percussão), Carlos Raqueth (contrabaixo), David Ginja (sanfona), João Neto (flauta), Rony e Gil (vocais) – lenda viva da música brasileira, o maestro Zé Américo Bastos subiu ao palco e assumiu um teclado em Bulir com tu, quando Alexandra continuou cantando, agora dançando com Carlinhos de Jesus, outra lenda viva do Brasil. Este agradeceu a oportunidade de voltar a São Luís, lembrando a importância de Zé Américo no início de sua carreira.

Ontem (10), Alexandra transformou o Espigão Costeiro da Ponta d’Areia em pista de dança, com boa parte do público “bulindo” o esqueleto em um tapete vermelho estendido em frente ao palco – havia bailarinos profissionais para quem quisesse se arriscar, mas dançaram casais, crianças e, em determinada altura do espetáculo, o bailarino Carlinhos de Jesus desceu para dançar com a plateia. “Eu estou cumprindo minha promessa, trouxe Carlinhos de Jesus para dançar com vocês”, declarou Alexandra, após anunciar a participação especial – ele protagoniza com ela o videoclipe de Bulir com tu, primeira música de trabalho de seu novo disco, a ser gravado e lançado ano que vem.

Com seu carisma e bom humor, Alexandra Nicolas provou, no Dia Internacional dos Direitos Humanos, que todo mundo tem o direito de ser feliz. E quem passou pelo Espigão na noite de ontem o foi, ao menos na cerca de hora e 15 minutos de sua apresentação. 10 de dezembro é também o dia do palhaço e ao cantar Leque moleque (Alceu Valença), ela trocou o “Valença-ça” da resposta à pergunta, na letra: “e o palhaço quem é?/ Alexandra!”.

Outros destaques da noite foram Maria, Mariazinha (Aloísio Ventura), Espumas ao vento (Accioly Neto), Forró do beliscão (João do Vale/ Ary Monteiro/ Leôncio), O segredo do coco (João Madson) e, como o Maranhão se espraia entre o Nordeste e o Norte, numa deliciosa “confusão” geopolítica e cultural, No meio do pitiú (Dona Onete) e o Carimbó do macaco (Pinduca), a saideira, em que botou a banda para tocar – e Carlinhos de Jesus para dançar – a música paraense em ritmo de reggae, samba e arrocha. “Me arrocha, Carlinhos! Martin, eu te amo!”, declarou, para diversão da plateia.

Frito Sampler volta à carga

Alter-ego de Tatá Aeroplano, personagem acaba de lançar Cosmic Damião, seu segundo disco. Criador/criatura conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos

Cosmic Damião. Capa. Reprodução
Cosmic Damião. Capa. Reprodução

Num ano de tantas tragédias, o Cérebro Eletrônico anunciou o fim da banda. Cada um de seus integrantes, agora, toca sua carreira solo. Exceto Tatá Aeroplano. O vocalista toca suas carreiras solo: ele lançou este ano seu terceiro disco, Step psicodélico, e acaba de sair o segundo disco de seu alter-ego Frito Sampler: Cosmic Damião [à venda em seu site, onde também pode ser baixado gratuitamente].

À primeira leitura ou audição, pode soar óbvio, mas o trocadilho é genial. Chega a ser irritante que ninguém tenha pensado antes em Cosmic Damião para título de qualquer coisa. “Foi um lance muito louco, surgiu do nada. A gente compôs a música e no fim do dia eu disse: “isso é cosmic alguma coisa”, e a Julia [Valiengo, da Trupe Chá de Boldo, que encarna a personagem Grace Ohio nos discos de Frito Sampler] arrebatou: “Cosmic Damião”. O nome Cosmic Damião veio de uma maneira cósmica e natural mesmo, revela Tatá Aeroplano/Frito Sampler em entrevista exclusiva a Homem de vícios antigos.

Cosmic Damião traz algumas semelhanças em relação a Aladins Bakunins, o disco de estreia de Frito Sampler: a presença de Julia, inclusive na capa, que traz só o nome do personagem (e não o título do disco), o canto em uma língua inventada, a psicodelia. “O que rolou foi que quando fechou o show de lançamento [do disco Aladins Bakunins] em agosto de 2015, eu me reuni com o Moita Mattos [guitarra], o Marcos Till [contrabaixo], o Pedro Gongom [bateria], Otávio Carvalho [sintetizadores] e a Julia [voz] pra fazer o show. No primeiro encontro pro show de lançamento, em vez de ensaiar o novo disco, em uma tarde surgiram quatro novas canções arranjadas de maneira coletiva, entre elas Cosmic Damião, Smashing Funkin, Amsterdam Hippie Hunters e Haribo Honey Moon”, conta.

“Esse disco foi mais coletivo que o anterior, mais amplificado também: mais banda, tanto que o Frito batizou a banda como Hippie Hunters”, continua, emendando um comentário sobre o estado de espírito que é encarnar Frito Sampler: “eu sempre gostei de escutar todo tipo de música, coisas do Brasil e coisas de fora, mas não aprendi a falar nem entender a língua inglesa. Desde pequeno eu compus letras em português com melodias. Em 1995 eu compus minha primeira canção com uma melodia em palavras de origem inglesa, mas sem nexo nenhum, e desde então em meio as canções com letras em português, surgem algumas em “embromation”. Então com o Frito Sampler, eu consigo dar margem a essa viagem de fazer uma música que cause sensações sem necessariamente dizer algo, ter uma letra ou contar uma história. Quando Aladins Bakunins ficou pronto eu fiquei um tempo no sítio onde passei parte da minha infância e me deixei levar pela natureza totalmente. Durante as bandas que eu tive, uma coisa que me incomodava um pouco, era uma certa vontade da galera de fazer música cantada em inglês, pensando em comunicar com o mundo, ou pedir pra eu colocar uma letra em inglês numa canção “embromation” para ter sentido. Eu sempre achei nada a ver querer falar com o mundo numa língua que não é nossa. Eu sou simples: não sei falar inglês e não vou aprender mais [risos]. Mesmo porque sempre amei e escutei canções cantadas em outras línguas que não conheço e isso me traz sensações indescritíveis de conexão e compreensão cósmica. Inconsciente Ativado. A maior parceria do Frito Sampler é com o Paulo Beto [Anvil FX] e a banda Zeroum, onde criamos desde 2006 dezenas e dezenas de canções, passamos por fases diversas, eu sempre cantando coisas sem sentido”.

Numa cena em que todo mundo toca com todo mundo, o segundo disco solo de Frito Sampler é uma realização coletiva, envolvendo um punhado de talentosos artistas. Tatá Aeroplano/Frito Sampler comenta a feitura do disco: “eu chamei o Gongom e o Moita Mattos depois de um show em que vi os dois tocando com a Juliana Perdigão [cantora e jornalista]. O Moita e o Gongom super sintonizados e improvisando ao vivo. Eu pensei que essa sintonia  ia dar muita liga, já que a Julia e o Gongom são da Trupe Chá de Boldo também. Do Marcos Till sou fã faz tempo. Adoro o Tigre Dente de Sabre e a sonoridade que ele consegue trazer da música eletrônica, tocada com muito sentimento, e o Otávio Carvalho [Vitrola Sintética], produziu comigo o primeiro [disco do] Frito e tocou nesse também, fez sintetizadores e mandou baixo em duas canções. Levantamos as canções em poucos ensaios, tem o DNA de todo mundo nelas: solos do Moita, riffs do Till, ideias do Gongom, linhas de baixo do Ota, melodias e vocais da Grace, ops, Julia! Levamos essa naturalidade toda pro estúdio e gravamos tudo ao vivo”.

Ele segue comentando o processo de gravação: “a gente fez uma pausa no primeiro dia de ensaio, já tinha pintado Smashing Funkin e Cosmic Damião. Daí eu fiquei brincando no Microkorg [um tipo de teclado] e o Till chegou com o Gongom. Eu disse pro Till, “manda uma levada no baixo, tipo “Caçadores de hippies em Amsterdam”, surrealismo biritisco fumacê”, e aí nesse dia rolou a canção Amstedam Hippie Hunters, que tem mais de 10 minutos. Foi um prazer criar coletivamente. No fim desse dia alguém disse “Frito Sampler & The Hippie Hunters”, é algo que remete aos anos 1960, 70 e 90, é bem ligado a essas décadas esse momento”.

Pergunto-lhe o que ativa o Frito e como os que o cercam, fora dos discos e shows, ou ele mesmo, sabem em determinados momentos estarem falando com Tatá Aeroplano ou Frito Sampler – dúvida que era também do repórter. “O que ativa o Frito é a liberdade de pensamento e expressão, uma ligação com a ingenuidade, a infância e também com a política. De não fazer questão de cantar e querer se conectar com o mundo cantando uma língua que não seja a nossa. Me sinto conectado espiritualmente quando as músicas chegam via Frito. Não sei explicar direito, às vezes nos shows incorporo mesmo, é uma coisa louca. O Frito é um personagem que não interfere nos discos autorais cantados em português [de Tatá Aeroplano]. Nós vamos envelhecer juntos, e para cada disco que eu fizer [idem], o Frito vai fazer um dele. É o pacto que eu fiz comigo mesmo acerca disso [risos]”.

Diante do verbo “incorporar”, pergunto se há algo de religioso no Frito. “É uma religação com o ancestral, o que vem antes da religião, mas conectado com a natureza, o sagrado. Sentir, sentir a lua. Fishing Neil Young foi composta numa pescaria: peguei uma traíra imensa nesse dia, limpei e preparei para toda a família comer. Isso é religioso pra mim”.

Os títulos de algumas faixas de Cosmic Damião trazem referências explícitas a Neil Young e Smashing Pumpkins. Ele cita outras: “Fishing Neil Young é porque no dia eu estava pescando, na época escutando-o diariamente. Smashing Funkin nasceu em cima de um riff do Marcos Till, que remete aos anos 90, aí lembramos do Smashing… Haribo Honey Moon tem algo de Mutantes ritalístico [a fase com Rita Lee] no ar, Cosmic Damião já é um axé, Lauren To Heaven é a resposta de Lou Reed para o Oh! My Lou [música gravada pelo Cérebro Eletrônico] que o Frito emplacou no Vamos Pro Quarto [quarto disco da banda]. Em Lauren To Heaven, o Lou pede para Lauren ir visitá-lo cosmicamente. São as viagens loucas do Frito!”.

Como ele havia citado a política no ativar o Frito, indago-lhe sobre o atual momento político por que passa o país. “Vivemos um momento político que é de tirar o sono. Dá tristeza e raiva ver o que fizeram com a Dilma e como as coisas têm caminhado desde então. O mundo virou a chavinha total pra direita. Consumir e destruir, destruir e consumir, é o que a nova ordem prega: mais carros, mais dívidas, força motriz para alimentar o capitalismo desenfreado com que não compactuo. Há tempos que escolhi um modo de vida mais simples. Não tenho carro, ando muito a pé, uso os transportes públicos e raramente pego um táxi. É possível viver com muito pouco, sim. Nos últimos anos eu fiz essa escolha. É uma mágica  e tem a ver com o zen budismo tudo isso. Evito gastar grana com as empresas estabelecidas, compro quase tudo de que preciso de pequenos produtores rurais e artesãos. O que eu ganho com minhas discotecagens, shows e vendas de discos, essa graninha que entra, dou de volta aos pequenos produtores. Como músico sou um pequeno produtor e me organizei pra ser assim, um ser orgânico e simples. Então, consigo diariamente passar por esse momento em que vivemos e encontrar cada vez mais pessoas que compartilham desse mesmo ideal em que vivo”, finaliza.

Ouça Cosmic Damião (Frito Sampler/ Moita Mattos/ Marcos Till/ Pedro Gongom/ Julia Valiengo):

A revolução do BR 135

Dois recordes quebrados, shows históricos, a Praia Grande reocupada com arte e coros em uníssono: “Fora, Temer!”

Isqueiros e celulares acesos para Liniker. Foto: Laila Razzo/ BR 135
Isqueiros e celulares acesos para Liniker. Foto: Laila Razzo/ BR 135

Em seu quinto ano, o Festival BR 135 superou todas as expectativas e parece que qualquer coisa que se diga dele soará clichê – inclusive isto.

Colocando São Luís na rota do circuito brasileiros de festivais, alguns longevos, outros tão ou mais novos que o “nosso” BR, como é simplesmente abreviado – e chamar o BR de nosso é mais que legítimo! –, mas já demonstrando vigor – e aí já disputamos as atenções de igual pra igual.

Se não, vejamos: que outro/s festival/is brasileiro/s consegue/m reunir numa mesma edição Nação Zumbi, Di Melo e Liniker e os Caramelows, para ficarmos apenas nos headliners, já que havia outras ótimas atrações na programação?

“A única saída é o aeroporto”, dizia um jocoso Tom Jobim, sobre a situação brasileira, noutros tempos. 52 anos depois do golpe que implantou a ditadura civil-militar no Brasil, um novo golpe, político-jurídico-midiático, destituiu a presidenta Dilma Rousseff, legitimamente eleita, para ascender o vice-decorativo ao posto de presidente-decorativo.

Mas por que falar de política em um texto sobre cultura, mais especificamente sobre um evento cultural? Se você ainda se pergunta isso, das duas uma: ou apoia os golpistas ou está muito por fora.

Os malungos da Nação Zumbi e um primeiro recorde quebrado. Foto: Laila Razzo/ BR 135
Os malungos da Nação Zumbi e um primeiro recorde quebrado. Foto: Laila Razzo/ BR 135

Já na primeira noite de BR 135 – batizado com o nome da única entrada e saída de São Luís por via terrestre –, a de quinta-feira (24), as atrações foram unânimes em compartilhar do grito da galera: um mar de gente – outro clichê – entoava o coro de “Fora, Temer!”, com a recíproca verdadeira de bandas como Venga Venga (um duo de djs), DuSouto e Nação Zumbi. Estes, encerrando a noite inaugural, quebravam um recorde de público do festival. Há quem fale em 10 mil pessoas na Praça Nauro Machado e arredores.

“Estamos fazendo o podível e o impodível e nada é impodível para o imorrível”, gracejou Di Melo, outro pernambucano, lenda vivíssima – chegou a ser dado como morto, depois reapareceu –, cujo álbum de estreia passou anos esquecido até tornar-se cult e cantado a plenos pulmões pelo ótimo público que lotou a Praça da Criança na segunda noite de festival (quinta-feira, 25). Aqui cabe um elogio também à banda local que o acompanhou.

“Foram só 40 minutos de ensaio, estes músicos são maravilhosos”, derramou-se ao se referir a João Paulo (contrabaixo), Rui Mário (teclado), Fofo (bateria), Hugo Carafunim (trompete), Danilo Santos (saxofone) e João Simas (guitarra). Com todos os presentes cantando seu repertório de cabo a rabo – mesmo as poucas músicas de Imorrível, disco lançado este ano, nem se sentiu falta de backing vocals, para repetir o refrão “calma, calma, calma, calma, calma!”, de A vida em seus métodos diz calma, da estreia Di Melo, de 1975.

Por falar em atrações locais, a noite central foi também a “noite do empoderamento feminino”, quando o palco da Nauro Machado – difícil falar em palco principal – foi totalmente das mulheres: Nathália Ferro, Tássia Campos, Núbia e Lei di Dai mandando a real.

Luciana Simões e Bruno Batista, antes de Alê Muniz subir ao palco e completar a participação do Criolina. Foto: Laila Razzo/ BR 135
Luciana Simões e Bruno Batista, antes de Alê Muniz subir ao palco e completar a participação do Criolina. Foto: Laila Razzo/ BR 135

Outros destaques locais foram a volta da Pedeginja, entre o repertório de Contos cotidianos, seu disco de estreia e inéditas, Beto Ehongue e os Canelas Preta, que aproveitaram os ótimos público e clima do Festival BR 135 para a gravação de um dvd ao vivo, e Bruno Batista, que apresentou novamente aos ludovicenses o show Bagaça, baseado no repertório de seu último álbum, com participações do casal Criolina (Alê Muniz e Luciana Simões, idealizadores e produtores do BR 135), de Léo Chermont (guitarrista da Strobo, banda paraense que faria show na sequência) e acompanhado de André Bedurê (contrabaixo), Gustavo Souza (bateria), Márcio Guimarães (guitarra) e Estevan Sinkovitz (guitarra).

Bruno Batista afirmou com todas as letras o que, de algum modo, todos tínhamos certeza: “o BR 135 é a coisa mais revolucionária que aconteceu na cena cultural do Maranhão nos últimos tempos”. Certamente referia-se ao conjunto Festival BR 135, que além dos shows promove feira criativa e intercâmbios os mais diversos, além do Conecta Música, evento paralelo que envolve debates, palestras, mesas redondas, oficinas, rodadas de negócio – sem falar na histórica roda de samba na Feira da Praia Grande, na tarde de sábado (26), reunindo Patativa e a Turma do Vandico.

Como anunciou Leminski, "essa noite vai ter sol". Teve, para Liniker. Foto: Laila Razzo/ BR 135
Como anunciou Leminski, “essa noite vai ter sol”. Teve, para Liniker. Foto: Laila Razzo/ BR 135

Mas o mais surpreendente ainda estava por vir: fechando a última noite de festival (sábado, 26), Liniker e os Caramelows fizeram um show para um público ainda maior que o da Nação Zumbi. Havia gente pendurada nas árvores. Um festival com dois recordes sucessivos quebrados não é qualquer festival.

Quando ela cantou Zero, acompanhada, obviamente, pela multidão, isqueiros e celulares se acenderam, quase antecipando em algumas horas a barra do domingo – na memória de quem esteve presente ainda não se apagaram.

[originalmente publicado nO Imparcial de hoje]

Barulho!

O imorrível Di Melo ontem na Praça da Criança. Foto: Marco Aurélio/ BR 135
O imorrível Di Melo ontem na Praça da Criança. Foto: Marco Aurélio/ BR 135

 

Barulho foi a palavra mais repetida por Di Melo ao longo de seu histórico show, ontem (26), na Praça da Criança (Praia Grande), na segunda noite da programação do Festival BR 135. Era uma saudação, referindo-se ao próprio som: “barulho para estes músicos maravilhosos!”, “barulho para todos vocês que vieram até aqui”.

O pernambucano esbanjou vitalidade, suingue e simpatia e não cansou de agradecer à produção do BR 135, leia-se o duo Criolina, Alê Muniz e Luciana Simões, pela oportunidade de se apresentar pela primeira vez na ilha.

Lenda vivíssima, a história é bastante conhecida: Di Melo lançou um excelente disco de estreia em 1975, mas o álbum demorou décadas para ser cultuado. O show de ontem foi majoritariamente baseado nesse repertório e o ótimo público cantou tudo junto a plenos pulmões.

Di Melo havia sumido do mapa e sido dado como morto. Reapareceu e assumiu a alcunha de Imorrível, título de seu segundo álbum, digamos, oficial, lançado este ano – o site do artista lista outros nove discos caseiros, feitos ao longo destes mais de 40 anos de carreira.

Ontem subiu ao palco trajando boina, óculos escuros e uma camisa com sua própria efígie – anunciando que na banquinha ao lado do palco era possível comprar camisas, CDs e LPs –, acompanhado de uma competentíssima banda local: João Paulo (contrabaixo), Fofo (bateria), Rui Mário (teclado), Hugo Carafunim (trompete), Danilo Santos (saxofone) e João Simas (guitarra). “Músicos maravilhosos, a gente teve 40 minutos de ensaio”, elogiou, tirando onda.

Além de Di Melo [1975] o repertório trouxe quatro músicas de Imorrível [2016]: Dioturno, que ele dedicou ao parceiro Waldir da Fonseca, recém-falecido (o outro parceiro é B.Negão, que no disco participa da faixa), Barulho de Fafá (na sequência de Se o mundo acabasse em mel, do disco inaugural, a música que também tem mel na letra: “Parei na filha da dona Emília e do seu Antônio/ ela é bonita e tem mel de abelha no olhar”, começa), Navalha e Milagre (quando tocou violão), agradecendo novamente ao público e à produção, tocando um reggae (parceria com Larissa Luz, que participa da faixa no disco) justo na Jamaica brasileira.

Não faltaram os hits Kilariô (que abriu e fechou a apresentação, a única do bis), A vida em seus métodos diz calma, Aceito tudo (Di Melo/ Vidal França), Minha estrela, Má-lida e Pernalonga.

Pouco depois da metade do show, Di Melo mandou, outra vez referindo-se ao entrosamento com a banda: “Estamos fazendo o podível e o impodível e nada é impodível para o Imorrível”. Está explicada a magia.

Parabólica nos paralelepípedos

Nação Zumbi na Nauro Machado, ontem (24). Foto: divulgação/ BR 135
Nação Zumbi na Nauro Machado, ontem (24). Foto: divulgação/ BR 135

 

Se a alguém restavam dúvidas sobre a consolidação do Festival BR 135 (veja a programação completa) no calendário cultural do Maranhão, a noite de ontem (24) tratou de dirimir. Em sua segunda passagem por São Luís, a primeira em um show gratuito, os pernambucanos da Nação Zumbi refizeram ao vivo o repertório de Afrociberdelia, um dos discos fundamentais do movimento manguebit, que completa 20 anos neste 2016.

Maior banda do Brasil em atividade, a Nação Zumbi demonstra um vigor ainda maior no palco – e qualquer um que conheça qualquer disco, com ou sem Chico Science à frente, sabe o peso da banda. Por falar em Chico Science, cujo falecimento também completa 20 anos no próximo fevereiro, sorte a nossa Jorge Du Peixe ter assumido os vocais e a banda ter continuado de ali em diante, sempre surpreendente.

Em geral elegantes, artistas costumam dizer que tanto faz tocar para 10 ou para milhares de pessoas. Mas sabemos que, geralmente, quanto mais público melhor. E o público de São Luís fez bonito: lotou a Praça Nauro Machado, na Praia Grande, para ver/ouvir os malungos. Arrisco dizer: estávamos diante de uma quebra de recorde, ao menos em se tratando do BR 135 – não ouso estimar a quantidade de público por pura inabilidade.

Em cerca de hora e meia de show, a Nação Zumbi mostrou o peso e a atualidade do repertório de sua mistura de africanidade, cibernética e psicodelia – a justaposição que dá título ao disco de 1996, considerado o 18º. melhor disco da música brasileira pela revista Rolling Stone Brasil.

Não faltaram clássicos para botar o público para cantar junto e dançar: Macô (Jorge Du Peixe/ Bid/ Chico Science), Samba do lado (Nação Zumbi/ Chico Science), Manguetown (Lúcio Maia/ Dengue/ Chico Science), Criança de domingo (Cadão Volpato/ Ricardo Salvagni) e Maracatu atômico (Jorge Mautner/ Nelson Jacobina). O bis extrapolou Afrociberdelia, lembrando Blunt of Judah Meu maracatu pesa uma tonelada, de Nação Zumbi [2002], e Quando a maré encher (Fábio Trummer/ Roger Man/ Bernardo Chopinho), de Rádio S.Amb.A. [2000]

Um satélite na cabeça, título de uma das faixas de Afrociberdelia, também lembrada ontem, se traduziu em um satélite por cabeça: todo mundo sintonizado. A antena parabólica na lama, um dos símbolos do manguebit, hoje parece fácil de ter sido fincada. Nos paralelepípedos do centro histórico de São Luís é mais difícil, mas a Nação Zumbi conseguiu.

Em tempos de golpe e dos sucessivos ataques à cultura brasileira, convém reafirmar a importância e a resistência do BR 135. Na noite de ontem, a primeira das três da programação, Venga Venga, a ótima DuSouto e a Nação Zumbi foram unânimes (e acompanhados pelo público) nas palavras de ordem (a hashtag) do momento: fora, Temer!

Um convite à felicidade

Confissões de camarim. Capa. Reprodução
Confissões de camarim. Capa. Reprodução

 

O Brasil é um país de cantoras e Blubell é uma das mais originais deste vasto universo entre as surgidas neste início de século. Quem tiver ouvidos, ouça: Confissões de camarim [2016], seu quinto disco de carreira, é uma confirmação disso.

Luz vermelha, clima de cabaré, mas sem fossa, Blubell estreita a aproximação com o universo do jazz, que permeia todo o disco, inteiramente composto solitariamente por ela – as exceções são Pretexto (de Pélico e toco.na.escuta) e A tardinha, parceria com Zeca Baleiro, cantada em dueto com o maranhense, inexplicável e infelizmente ausente da versão física do disco.

Vida em vermelho, que abre o álbum, é um abolerado ska com diminutivos de bossa nova: “ando acordando cedinho/ junto com os passarinhos/ e nem é porque o dia tá brilhando/ brilhando estão meus olhinhos”, canta, para deixar os ouvintes com um brilho bobo nos olhos.

“Diva é a mãe”, afirmou no título de um disco anterior [2013], mas é impossível não classificá-la assim. Canta em português e inglês com igual desenvoltura – em 2012, pelo ótimo Blubell & Black Tie, levou o Prêmio da Música Brasileira de melhor álbum em língua estrangeira –, acompanhada por Estevan Sinkowitz (guitarra), Daniel Grajew (teclados), Carlinhos Mazzoni (bateria) e Márcio Arantes (contrabaixo, guitarra, samples e produção) e Igor Pimenta (contrabaixo), a banda base, com aparições de Mário Manga (violoncelos em Another day e vocais em Bolero do bem).

Bolero do bem é uma anti-fossa: “essa ideia de louco/ de juntar trapos sem muito esperar/ dividir teto sem ir pro altar/ e não podia ser outro lugar/ agora esse é meu lugar/ pois eu sei/ que você só me faz bem”.

We’re all alone, como entrega o título, trata de solidão. Com adesão de Moustache e os Apaches, é cheia de referências – Bonnie, Clide, Al Capone, François Truffaut, Antoine Doinel, Brigitte Bardot e Emanuelle “estavam todos sozinhos”, diz a letra em inglês.

Para aplacar a solidão e a consequente tristeza, Confissões de camarim na vitrola. “Se a vida anda cheia de sombra/ vamos tratar de acender mais luz”, convida Blubell em No camarim, para em seguida afirmar, anti-bossa nova: “aqui no meu camarim/ não tem vibração ruim/ aqui tristeza tem fim sim”.

Veja o clipe de Vida em vermelho (Blubell):

#ocupafeira

Patativa e Turma do Vandico farão três horas de samba na Feira da Praia Grande, na programação do Festival BR 135

Há dois anos, em novembro, a compositora Patativa realizava um sonho: pelas mãos do conterrâneo Zeca Baleiro, lançava Ninguém é melhor do que eu, seu disco de estreia, que contou com participações especiais de Simone e Zeca Pagodinho, dois cantores de sua admiração, além do maranhense, idem.

Seu primeiro disco era há muito aguardado por um séquito de fãs e conhecidos que Patativa acumulou ao longo dos anos em que inventou e aprimorou o que ela mesmo chama de “samba de cachaceiro”, sambas de letras propositalmente curtas para evitar o risco do esquecimento numa manhã de ressaca.

Prestes a completar 80 anos, em 2017, quando lançará seu segundo disco, também produzido por Zeca Baleiro, Patativa esbanja, além do galho de arruda na orelha esquerda, uma saúde de ferro, de fazer inveja a muito jovem trabalhado na academia. Consultas e exames, aliás, contradizem a maledicência provinciana que lhe imputa o mal de Alzheimer – o HD privilegiado de Maria do Socorro Silva, nome de batismo da pedreirense, arquiva mais de 200 composições nos mais variados estilos, que o público conhecerá no sucessor de Ninguém é melhor do que eu, que privilegiou o universo do samba, vertente pela qual é mais conhecida.

A exceção, no primeiro disco, era Xiri meu, cacuriá malicioso, batizado pelo apelido maranhense dado à genitália feminina, que acabou por emprestar título a um documentário curta-metragem de Tairo Lisboa, que obteve algum êxito no circuito de festivais de cinema do Brasil. A música que fecha Ninguém é melhor do que eu é, no final das contas, um quase-samba de empoderamento feminino, que, no universo geralmente machista do samba, coloca as mulheres em seu devido lugar: fazendo o que quiserem, quando quiserem, com quem bem entenderem.

O Mercado das Tulhas ou Feira da Praia Grande, espécie de segunda casa de Patativa, que ela visita com frequência, tirando onda com feirantes, habitués e turistas, será o palco em que a madredivina dama estará à vontade, na companhia da Turma do Vandico, um dos mais longevos grupos de samba da Ilha.

A grande roda de samba e sorriso acontecerá no próximo sábado (26), a partir das 15h (a previsão é que siga até 18h), com entrada gratuita – a exemplo de toda a programação do Festival BR 135 e do Conecta Música, evento paralelo de formação e debates.

Patativa passeará pelo repertório de seu disco de estreia e do próximo (já gravado!), além levar ao público inéditas de seu cofo fundo e versátil de composições.

Há alguns anos o BR 135 e o Conecta Música ocupam com arte e discussões sobre seus rumos diversos espaços da Praia Grande, valorizando o patrimônio arquitetônico, cultural e humano. Alê Muniz, seu idealizador e organizador, ao lado de Luciana Simões, com quem forma o duo Criolina (que lança disco novo ainda este ano), reconhece o “formato de feira” do Festival, que este ano tem as ocupações culturais destes tempos temerários, mas não só, entre os temas de debate. Entrar na Feira, literalmente ocupá-la, é mais um acerto, que se soma a vários outros na estrada que o BR 135 já percorreu até aqui. Ainda mais com Pattaiva e a Turma do Vandico de cicerones.

Pré-festa

A banda Canal Raja em luau no Espigão Costeiro da Ponta d'Areia. Foto: Diego Chaves
A banda Canal Raja em luau no Espigão Costeiro da Ponta d’Areia. Foto: Diego Chaves

 

Semana que vem o BR 135 e sua programação paralela de debates e formação, o Conecta Música, ocupam diversos espaços da Praia Grande, no quinto ano do Festival que já consolidou seu lugar no calendário cultural do Maranhão.

Este ano, entre diversas outras atrações, estão confirmados shows com Liniker, Di Melo e Nação Zumbi, além do maranhense radicado em São Paulo Bruno BatistaHomem de vícios antigos voltará à programação em momento oportuno.

Hoje (17), às 20h30, no Bangalô Gastrolouco (Av. Litorânea, Calhau), acontece o lançamento oficial do festival, com as bandas Canal Raja e Telúricos (ambas participaram da edição do BR 135 ano passado), Forró Pé de Serra de Seu Raimundinho e discotecagem de Jards Zue.

“Além da música, nesta edição outras linguagens estarão nos palcos e na rua em um amplo painel de formas de expressão. Nossa ideia é mostrar que a estrada do festival está aberta para os artistas que resistem fora da indústria cultural tradicional”, explica Luciana Simões, realizadora do evento ao lado de Alê Muniz, com quem forma o duo Criolina – que lança disco novo ainda este ano.

Este blogueiro mediará um debate na próxima sexta-feira (25), às 16h30, no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho (Praia Grande). A mesa, “Jornalismo cultural além da “grande mídia””, terá Marcelo Costa (blogue Scream&Yell), Roberta Martinelli (TV Cultura e Rádio Eldorado, leia-se, Cultura Livre e Som a Pino) e Alexandre Matias (blogue Trabalho Sujo e Ecossistema da Música).

Comentários a respeito de Belchior

A cantora Tássia Campos. Foto: Quilana Viégas
A cantora Tássia Campos. Foto: Quilana Viégas

 

A cantora Tássia Campos apresenta hoje (11), meia noite, no Odeon (Travessa João Victal de Matos ou Beco da Pacotilha, Praia Grande), mais uma edição do show Encontrando Belchior. Desta vez, com a presença do biógrafo do cearense, Jotabê Medeiros (Farofafá), que na ocasião lerá um trecho de Pequeno perfil de um cidadão comum, livro que lança ano que vem – amanhã medeio a mesa “Jornalismo cultural: a desaparição do artista em plena era da superexposição (O caso Belchior: como ele cantou antes o que viveria depois)”, palestra que o jornalista profere na programação da 10ª. Feira do Livro de São Luís, às 20h, no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho (Praia Grande).

Tássia elege Coração selvagem como seu disco preferido entre os lançados pelo artista, que resolveu sumir do mapa há alguns anos. E Todo sujo de batom, terceira faixa do álbum, como sua predileta. “Embora Coração selvagem, que dá título ao álbum, seja um retrato fiel da minha vida”, confessa.

Ela, que já realizou tributos a nomes como Sérgio Sampaio e Novos Baianos, entre outros, sempre trata com reverência os artistas escolhidos para homenagear. Não é diferente com Antonio Carlos Belchior. “É um desafio cantá-lo para além do que já foi eternizado por Elis [Regina]. A métrica é difícil, não é uma tarefa simples cantar, mas sem dúvida são as mensagens em garrafas que Belchior mandou ao mar. Não envelhecerão nunca, assim como espero como artista permanecer me reinventando”, exige-se a recompositora, como afinal este modesto repórter chama os que, como Tássia, imprimem uma marca tão pessoal naquilo que interpretam, reinventando canções às vezes consagradas, como se as compusessem novamente.

Ela sobe ao palco do Odeon acompanhada da banda Os Joões dos comentários a respeito: João Simas (guitarra), João Paulo (contrabaixo), João Vitor (teclado) e Thiago Guerra (bateria) – fora o biógrafo, nascido João Batista em João Pessoa/PB, e a cantora, “moça de Joãozinho no cabelo”, como canta Vanessa da Mata.

Sobre as origens do espetáculo e as expectativas para o encontro com Jotabê Medeiros, ela comenta: “Quando Emilio Azevedo me atentou que eu devia fazer um show em homenagem ao Belchior, ele estava de fato sumido, meio esquecido. Entre a divulgação, o show e após os shows começaram a falar muito de Belchior, creio que pelo momento atual do país. Eu estava sintonizada com a obra dele já fazia um tempo, pelo preparo do show. Receber o Jotabê é mais uma mostra dessa sintonia. Queremos o Belchior de volta porque ele é muito importante”.

Ao repertório de Encontrando Belchior não deixarão de comparecer a música que dá título à obra em progresso do jornalista, além de “Paralelas, Comentário a respeito de John, Velha roupa colorida, Todo sujo de batom e Coração selvagem”, que ela cita, repetindo as preferências e citando algumas das mais conhecidas, sem dar pistas dos lados b que escolheu e sem vontade de estragar a surpresa de quem tem, via sua voz, um encontro marcado com um bigodudo que anda fazendo uma falta danada.

Divulgação
Divulgação

Serviço

O quê: show Encontrando Belchior
Quem: Tássia Campos e banda Os Joões dos comentários a respeito. Participação especial de Jotabê Medeiros, biógrafo de Belchior
Quando: hoje (11), meia noite
Onde: Odeon Sabor e Arte (Rua João Victal de Matos ou Beco da Pacotilha, Praia Grande)
Quanto: R$ 20,00 (metade para estudantes)

Goleada

Macalé, Zé Renato, Moacyr Luz e Guinga: quatro craques Dobrando a Carioca. Foto: Fernanda Torres/ Divulgação
Macalé, Zé Renato, Moacyr Luz e Guinga: quatro craques Dobrando a Carioca. Foto: Fernanda Torres/ Divulgação

Foi encerrado em grande estilo o III São José de Ribamar Jazz e Blues Festival, ontem (6), na cidade balneária terra do padroeiro. Jards Macalé, Zé Renato, Moacyr Luz e Guinga cantaram – os três primeiros revezando-se entre violão e percussão; o último apenas ao violão – para o ótimo público presente à praça da basílica.

Um público equilibrado entre moradores do lugar – uns sequer tiveram o trabalho de descer de suas calçadas, as cadeiras pelas portas da vizinhança do santo que dá nome a boa parte da população maranhense – e aqueles que fizeram de Ribamar uma espécie de cidade satélite cultural no último final de semana.

“É tão raro no Brasil, numa cidade do interior, as pessoas estarem ouvindo música popular brasileira à meia noite. Isso aqui é o futuro!”, vaticinou Moacyr Luz. Corroborando de sua profecia, passei a imaginar o que será esta produção de Tutuca Viana daqui a 10 ou 15 anos. O festival está no caminho certo, primando pela qualidade. Seu crescimento e continuidade depende de elementos externos: patrocinadores precisam acreditar que sua marca será vista por mais gente a cada ano, o poder público investir em estrutura (a sinalização da Estrada de Ribamar é precária, por exemplo) e o comércio local acreditar no potencial do evento (não há, na cidade vizinha à capital, um hotel com estrutura para receber os artistas – isto é, eles precisam se hospedar em São Luís, a mais de 30 km do local em que se apresentam). De todo modo, aposto que o São José de Ribamar Jazz e Blues Festival tem tudo para se transformar em uma nova Guaramiranga, talvez o maior evento do gênero hoje no Brasil, também realizado numa cidade do interior em um estado do Nordeste.

O repertório do quarteto no palco é completamente baseado no recém-lançado Dobrando a Carioca – Ao vivo [Biscoito Fino/ Canal Brasil, 2016], comercializado pela primeira vez ontem, em São José de Ribamar – disco e dvd haviam acabado de chegar da fábrica e puderam ser adquiridos pelos fãs que enfrentaram a fila após o show para cumprimentar o timaço.

A metáfora futebolística é plenamente cabível: são quatro grandes craques de nossa música e, não à toa, abrem o show com Um a zero (Pixinguinha/ Benedito Lacerda/ Nelson Angelo), ao final da qual Macalé sopra um apito e aponta para o centro do gramado imaginário à beira do palco, para delírio da plateia e gargalhadas de Zé Renato, posicionado a seu lado.

Ao final de Favela (Padeirinho da Mangueira/ Jorge Pessanha), há tempos presente ao repertório de Macalé, o mais performático do quarteto, ele simula um trombone, imitando o som do instrumento com a boca e movimentando as mãos como se o soprasse; depois, tira um revólver de brinquedo de um penico e simula um tiro na própria cabeça, numa crítica à violência que ainda domina os morros, berços de tantos bambas, alguns deles lembrados no set list de Dobrando a Carioca.

O show é, em sua maior parte dedicado ao samba, mas grandes momentos surgem também quando fogem do gênero, casos, por exemplo, de Vapor barato (Waly Salomão/ Jards Macalé), que fez a plateia cantar junto, e Toada (Zé Renato/ Claudio Nucci/ Juca Filho), idem.

Em Como tem Zé na Paraíba (Catulo de Paula/ Manezinho Araújo), imortalizada por Jackson do Pandeiro, Zé Renato tira onda consigo mesmo, ao entoar o verso final, “mas o diabo é que eu me chamo Zé”, ao que Macalé emenda, aproveitando a ocasião: “de Ribamar”.

Díficil escolher um ponto alto do show, em que os quatro permanecem o tempo inteiro no palco. São sublimes momentos como as interpretações de Moacyr Luz para Cachaça, árvore e bandeira (Moacyr Luz/ Aldir Blanc), merecida homenagem ao mangueirense Carlos Cachaça, com citação de Alvorada (Cartola/ Carlos Cachaça), de Guinga para Catavento e girassol (Guinga/ Aldir Blanc), imortalizada por Leila Pinheiro, e de Macalé para O mais que perfeito (Vinicius de Moraes/ Jards Macalé) e Acertei no milhar (Wilson Baptista/ Geraldo Pereira), samba de breque cuja quebradeira faz novamente Zé Renato gargalhar.

“Até pinico dá bom som/ se a criação é mais, se o músico for bom”, dizem versos de Chá de panela (Guinga/ Aldir Blanc), em que, novamente para deleite e delírio da plateia e novas gargalhadas de Zé Renato, Macalé percute o penico que esteve a seu lado (portando seus instrumentos de percussão) o show inteiro. A música que encerra o show (e o disco e o dvd) é uma homenagem a Hermeto Pascoal, com fundo tetra-autobiográfico: nunca é demais lembrar que estamos diante de quatro gigantes. O Um a zero do bis é placar pequeno diante da goleada que foi o III São José de Ribamar Jazz e Blues Festival e, particularmente, seu encerramento com este já antológico Dobrando a Carioca.

 

Um quarteto fantástico dobrando na praça da basílica

Dobrando a Carioca - Ao vivo. Capa. Reprodução
Dobrando a Carioca – Ao vivo. Capa. Reprodução

Em meio a suas carreiras solo e outros projetos, o espetáculo Dobrando a Carioca já é apresentado há 17 anos. Zé Renato, Jards Macalé, Guinga e Moacyr Luz se apresentam hoje (6), às 22h30, na programação especial que celebra os 70 anos do Sesc, encerrando o III São José de Ribamar Jazz e Blues Festival, na praça da Basílica do município. Produção de Tutuca Viana, o evento tem patrocínio da Vivo, através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão.

A ideia de Moacyr Luz, que convidou os demais, vingou e acabou enveredando pelo samba, faceta comum presente às obras dos quatro. A apresentação de hoje ganha um sabor especial: acabam de sair o cd e dvd Dobrando a Carioca – Ao vivo [Biscoito Fino/ Canal Brasil, 2016], gravado em dezembro passado no Teatro Sesc Ginástico, no Rio de Janeiro. São José de Ribamar será o primeiro município em que os fãs poderão adquiri-lo e pegar autógrafos.

O repertório equilibra-se entre temas autorais e músicas de artistas reverenciados pelo quarteto. Não faltam clássicos como Catavento e girassol (Guinga/ Aldir Blanc), Vapor barato (Waly Salomão/ Jards Macalé) e Toada (Zé Renato/ Claudio Nucci/ Juca Filho), sucesso do grupo vocal Boca Livre.

Também comparecem Pixinguinha (Um a zero, que abre o show, parceria com Benedito Lacerda, que ganhou letra de Nelson Angelo), Padeirinho da Mangueira (Favela, parceria com Jorge Pessanha), Manezinho Araújo (Como tem Zé na Paraíba, parceria com Catulo de Paula, sucesso de Jackson do Pandeiro) e Geraldo Pereira (Acertei no milhar, parceria com Wilson Baptista), entre outros.

Com o tempo espremido entre um último ensaio, num salão do hotel em que estão hospedados, e a saída para o almoço e a passagem de som, Homem de vícios antigos conversou com o quarteto. Em tempo curto, os quatro desataram a falar, esbanjando bom humor, tirando sarro uns com os outros, tornando quase desnecessárias as perguntas do repórter. A entrevista começou com uma declaração de Macalé.

Da esquerda para a direita: Zé Renato, Guinga, Moacyr Luz e Jards Macalé, o Dobrando a Carioca. Foto: ZR (6/11/2016)
Da esquerda para a direita: Zé Renato, Guinga, Moacyr Luz e Jards Macalé, o Dobrando a Carioca. Foto: ZR (6/11/2016)

Jards Macalé – Eu declaro a independência do Brasil.

Como é conciliar a agenda do Dobrando a Carioca com suas carreiras solo e outros projetos?
Zé Renato – A gente vem tentando incluir o Dobrando a Carioca na nossa história profissional, na nossa trajetória. A gente tem um carinho muito grande pelo trabalho, o que dá uma motivação maior ainda.
Moacyr Luz – Uma coisa que eu nunca pensei: o Dobrando a Carioca é um exercício de despojamento que cada um de nós tem. Cada um tem sua carreira solo, faz seus shows individuais, o Zé com as coisas dele, eu com meus sambas, o Guinga, o Macalé. Quando chega aqui a gente troca mais.

É um show devotado ao samba? Foi um desembocar natural?
Zé Renato – A gente exercita a percussão. O foco maior é no samba. Não foi feito com essa intenção. É samba assim, vamos considerar o Um a zero um samba do Pixinguinha. Tem samba-canção, Como tem Zé na Paraíba, tem música que foge.
Moacyr – Guinga é o cara que gravou com Cartola, As rosas não falam, gravou com João [Nogueira], Beth Carvalho, Clara Nunes.
Guinga – Compositor brasileiro que não gosta de samba não é compositor.
Moacyr – [para Macalé] Você fez o 4 batutas e 1 coringa [disco de intérprete de Macalé de 1987, dedicado ao repertório de Geraldo Pereira, Lupicínio Rodrigues, Nelson Cavaquinho e Paulinho da Viola].
Macalé – Sim.
Guinga – [para Macalé] Tem um elemento forte, virou disco [Jards Macalé canta Moreira da Silva, de 2001], o Moreira da Silva na tua vida.
Zé Renato – O Um a zero surge dessa ideia, a gente abre o show com Um a zero por causa dessa ideia de bater uma bola [a produtora Memeca Memeca Moschkovich adentra o salão com cds e dvds na mão].
Macalé [gritando] – Deixa eu ver! A gente sente saudade uns dos outros. Eu sinto saudades deles, eles dizem que sentem saudades de mim.
Zé Renato [para Moacyr Luz] – Você sente saudade do Macalé?
Moacyr [em tom de galhofa] – Não.
Guinga – [gargalhadas]
Zé Renato – [gargalhadas]
Macalé – Ele é um sincericida.
Guinga [rindo] – Eu odeio o Macalé. Nós estamos aqui para ver se a gente se mata. Quando Moacyr convidou a gente, isso é uma coisa engraçada, ele falou assim pra gente, “vê lá, vocês têm que ter paciência um com o outro”. Pô, criador de problemas zero [referindo-se a Macalé]. Nunca tivemos um problema. Nenhum problema.
Macalé – Como não? E quando a gente se desfez lá em Fortaleza?
Guinga – Você disse que ia seguir carreira solo [gargalhadas]. Esse filho da puta, saiu uma porrada de matéria em tudo quanto é jornal, com a foto dele na capa, ele ficou nervoso. Eu me lembro que foi muito engraçado, a gente estava no café da manhã e ele não se uniu com a gente.
Macalé – Mentira!
Moacyr – A gente tava no lobby do hotel e ele chega [imita Macalé puxando uma mala com rodinhas e gargalha]
Guinga – [gargalhadas] Dois dias depois a gente chega no Rio de Janeiro, tinha saído uma foto dele nos jornais, com a perna cruzada, com uma meia preta, quadriculada. Dois dias depois, quem está sentado no calçadão, pernas cruzadas, com a mesma meia da fotografia? Esse maluco! Eu digo, não é possível! Mas você pode perguntar uma coisa a ele: essa galera aqui, tudo amigo, não cria problema, tudo humilde. Não é, Macalé?
Macalé – [enfático] Não! [gargalhadas gerais]

Você também é um sincericida?
Macalé – Eu amo esses caras.
Moacyr – Outra coisa engraçada, a gente foi fazer o primeiro ensaio, fizemos o primeiro show, começamos a viajar e a primeira coisa que eu via era hotel e horário, pra não chegar atrasado. E eu falei: “Macalé, olha você!” E o Macalé todo dia chegava 20 segundos antes do horário [risos], “eu sou o primeiro, hein? Cheguei primeiro”.
Macalé – Hoje eu cheguei primeiro.
Guinga – Você só é indisciplinado artisticamente. Mas como homem, como cidadão, é super sério. Por que artisticamente você não tem vontade de ensaiar, você esquece o tom da música. Hoje quando você perguntou [imitando Macalé]: “lá menor ou si menor?” Eu ri muito por dentro. Eu digo: há 17 anos esse filho da puta toca essa música sozinho. Você tem defeitos e tem qualidades. A gente pode falar bem da gente?
Macalé – Agora vamos à entrevista.

Claro! Além de todos já terem vindo aqui com outros projetos, qual a relação de vocês com o Maranhão?
Guinga – Eu conheci João do Vale muito jovem. Eu era aluno de Jodacil Damasceno e ele tinha um assistente, João Pedro Borges. Depois eu passei a ter aulas com João e esses caras mudaram a minha cabeça em 180 graus, impressionante. Me mostraram a música brasileira que eu não conhecia, me mostraram o violão que eu não conhecia. Eu não sabia quem era Leo Brouwer [violonista e compositor cubano], eu me formando em odontologia. Esses caras foram muito importantes. Isso influencia minha música até hoje. Eu passei a tocar violão por causa deles.
Zé Renato – Meu primeiro contato com a música do maranhão foi o Popó [o compositor Cláudio Valente] e o Sérgio Habibe [compositor, de quem o Boca Livre gravou Boi danado], quando eles se apresentavam com o Papa Légua [músico], no show Mostração.
Macalé – Eu trabalhei uma vida com João do Vale no Opinião [show que o maranhense dividiu com Zé Keti e Nara Leão]. Eu fui casado com uma irmã de Turíbio [Santos, violonista], você quer mais relação do que isso? Eu toco num violão que foi de Turíbio, com que ele ganhou prêmio internacional na França. Até hoje ele pergunta: quanto você quer no violão? João Gilberto tentou roubar, mas eu recuperei. Ele foi fazer um concerto no Rio de Janeiro e estavam procurando um bom violão. Eu emprestei, com a condição de que no dia seguinte à apresentação o violão estivesse de volta no meu apartamento. Depois eu fiquei lendo as manchetes sobre o espetáculo, passaram dois dias e nada, eu fui bater no hotel. Comprei umas goiabinhas e fiquei comendo ali embaixo, até que apareceu o Otávio Terceiro [empresário de João]. Ele disse: “João adora goiabinha”. Ele subiu, entrou no quarto e trouxe o violão. Eu troquei meu próprio violão nas [aumenta o tom de voz] minhas goiabinhas [Zé Renato gargalha]. Nesse violão só tocaram Turíbio, Paulinho da Viola, João Gilberto e eu.

Passeando por jazz e blues sem perder o próprio estilo

Retrato: Ben Mendes

 

A primeira vez que ouvi Ceumar foi completamente por acaso: flanava pela Rua de Santana (Centro), quando entrei numa loja de discos hoje extinta e me deparei com Dindinha [1999], cuja capa, desenhada pelo artista pernambucano Romero de Andrade Lima, dava vida à protagonista da canção de Zeca Baleiro, que produziu seu disco de estreia, inspirada na morna Sodade (Armando Zeferino Soares), sucesso do repertório de Césaria Évora, a musa de pés descalços cabo-verdiana.

Até então eu nunca tinha ouvido falar em Ceumar ou em seu disco. Quando virei o cd, deparei-me, na contracapa, com os nomes de Zeca Baleiro, Josias Sobrinho, Itamar Assumpção, Sinhô, Luiz Gonzaga, Chico César, Jacinto Silva e outros. Era a senha: levei sem pestanejar.

Foi paixão à primeira audição, o que aconteceu com muita gente e continua acontecendo até hoje: há quem descubra Ceumar e quem se apaixone ainda mais a cada disco novo. Ela não precisou de mais que Dindinha para mostrar a que veio: cantora, compositora (faceta que só revelaria em outros discos, depois), instrumentista, firmou seu nome entre os grandes da MPB em qualquer tempo.

A Dindinha seguiram-se Sempre viva! [2003], Achou [2006], dividido com o violonista Dante Ozzetti , Meu nome [2009], Live in Amsterdam [2010] e Silencia [2014].

Lançada por pequenos selos, a artista sempre fez o que quis, da seleção de repertório à arregimentação e arranjos. Uma artista livre. Mineira de Itanhandu, ganhou o mundo. Após uma temporada em Amsterdam, na Holanda, está de volta ao Brasil. Lá, chegou a gravar um álbum ao vivo, acompanhada do Mike Del Ferro Trio.

Após um hiato, ela reencontra-se com o público maranhense: na Praça da Basílica de São José de Ribamar, dia 4 de novembro (sexta-feira), ela se apresenta na noite de abertura do 3º. São José de Ribamar Jazz e Blues Festival, evento inteiramente gratuito, produzido por Tutuca Viana, com patrocínio da Vivo, através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão. No repertório, músicas de diferentes fases de sua carreira, inclusive Silencia, o mais recente de sua discografia. Por e-mail ela conversou com Homem de vícios antigos.

Retrato: Ben Mendes
Retrato: Ben Mendes

Há alguns anos você mudou de endereço, trocando o Brasil pela Holanda. Quais as principais vantagens e desvantagens da mudança?
Passei quase seis anos em Amsterdam, fiz muitos projetos bacanas e criei um pequeno público por lá. A vantagem de morar na cidade das bicicletas e canais foi mesmo a liberdade e facilidade de ir e vir. Mas sentia saudade de coisas simples, andar de chinelo (a maior parte do ano é frio) e comer uns quitutes mineiros. Em termos profissionais também há uma diferença grande, pois no Brasil já tenho um público cativo e que me acompanha há muito tempo. Voltei este ano para Minas e acredito que toda experiência lá fora me enriqueceu muito como pessoa e artista.

Você está na programação do 3º. São José de Ribamar Jazz e Blues Festival. Quem são os músicos que te acompanham e o que o público da Ilha pode esperar em termos de repertório?
O duo é formado por baixo acústico, meu sobrinho Daniel Coelho, que gravou o último álbum e tem feito muitos shows comigo, e Adriana Holtz no violoncelo, uma grande cellista que toca na Osesp [a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo] e nos acompanha em vários shows. Vamos tocar músicas do mais recente álbum, Silencia, e outras da carreira.

Através de nomes como Zeca Baleiro, que produziu teu primeiro disco, batizado por música dele, e Josias Sobrinho, de quem no primeiro disco você gravou duas músicas [Rosa Maria e As “perigosa”], o Maranhão sempre esteve presente em teu trabalho. Quais as expectativas e sensações a cada retorno por aqui?
Tenho muito afeto pelo público maranhense, desde as primeiras vezes em que estive aí. Trabalhei também com o grande percussionista Luiz Claudio Farias, que trouxe vários ritmos lindos para o som. Até hoje Dindinha é a canção que me arrebata. E as músicas de Josias são pérolas que pude conhecer através do Zeca. Tenho certeza de que será emocionante nossa participação no festival!

Já há planos de disco novo? O que você pode adiantar em relação ao assunto?
Estou compondo devagar, logo devo colocar mais foco nisto.

Desde o pioneiro Free Jazz no Brasil até festivais de jazz internacionalmente reconhecidos sempre aceitaram um pouco de tudo, em misturas bastante frutíferas. Na Holanda você chegou a gravar disco com o Mike del Ferro Trio, o que em tese credenciaria você ainda mais a este tipo de evento. Mas sua trajetória já uma prova de que vai mais longe quem não tem preconceitos nem se importa com rótulos. Qual o lugar de Ceumar?
Eu adoro o jazz e o blues. Fico muito feliz em poder transitar por estes estilos sem perder o meu próprio.

Ouça Engasga gato (Kiko Dinucci), com Ceumar:

Programação da noite de abertura do 3º. São José de Ribamar Jazz e Blues Festival:

Sexta-feira (4):

20h15: Marcos Lussaray e Quarteto
21h15: Ceumar
22h30: Jefferson Gonçalves e Kléber Dias

Amor sempre! E música!

Caixa de música. Capa. Reprodução
Caixa de música. Capa. Reprodução

 

Xê Casanova assina simplesmente Xê em seu primeiro disco solo, Caixa de música [2016]. No álbum ele escancara a devoção a Marcelo Yuka (ex-O Rappa), que produziu o trabalho, a começar pela capa, em que credita o produtor.

É um disco sobre o amor, otimista, de vibrações positivas, com mensagens como “amor sempre” e “que todos os seres, em toda a parte, encontrem a felicidade”, no encarte, esta última tradução do mantra “loka samastha sukhino bhavantu”, misto de incidental e epígrafe em Todas as cores, cuja letra diz: “surgem no céu as cores/ de um novo tempo/ levam meu sonho adiante/ um mundo diferente, sim/ mas sem preconceitos”.

Alessandro Fontanari Casanova, seu nome de batismo, paulista de Mogi das Cruzes, onde mora, distante cerca de 80 km da capital São Paulo, vai com frequência ao Rio de Janeiro, onde gravou Caixa de música – no home studio de Yuka, na Tijuca, Zona Norte do Rio –, de que assina sozinho seis das oito faixas – as exceções são Ano bom, de Rui Ponciano, e Deixa rolar, que Xê assina em parceria com Sandra Vianna e Tatiana Fernandes.

Caixa de música foi gravado por uma banda enxuta, com os músicos se revezando entre instrumentos: Xê Casanova (voz, violão), Marcelo Yuka (bateria eletrônica, programação eletrônica, vocalize, colagem, egg shaker), Jomar Schrank (contrabaixo, guitarra, teclados, escaleta, backing vocal) e Fred Inglez (guitarra, guitarra cítara, revers), além de Katunga (violoncelo em O batuque, Todas as cores e Ano bom), Felipe Sobral Loureiro (guitarra em Deixa rolar, Ano bom e Não precisa falar) e Wagner Bagão Dubalize (sintetizadores e contrabaixo em Não abala).

Xê Casanova conversou com Homem de vícios antigos sobre o disco, o encontro com Marcelo Yuka, otimismo, amor e política.

O artista em foto de divulgação

Caixa de música é teu disco de estreia? Como foi sua gestação?
É meu primeiro disco solo. Já tive outras bandas [Tribo Brasil e Colomi], mas este é um disco em que me aventurei, eu que sou de Sampa, de Mogi das Cruzes, em ir pro Rio de Janeiro, a procura de algo “novo”, algo que me renovasse. E acabei tento um encontro com o Marcelo Yuka, que quis fazer esse trabalho. Demorou cinco anos essa gestação. Porque era só pra gravar no estúdio do Yuka, porém ele gostou das músicas e acabou sendo o produtor e tocando em todas as faixas, então só dava pra gravar quando ele tinha tempo, ele me chamava e eu ia pra casa dele gravar.

Parece-me até um som diferente de tudo o que eu conhecia do Yuka, sobretudo nO Rappa. Essa adoção dele por teu som acaba demonstrando a força de tuas composições, não acha?
Exatamente. Yuka curtiu a minha verdade, o simples. Você sabe o quanto ele é um grande poeta e tantas outras coisas. Isso que ele fez comigo, de gravar, se você pensar bem, é uma parceria. Poderia eu colocar que o disco é do Xê e do Yuka, mas eu não quero isso. Só a força, como você bem disse, da assinatura dele, é pra mim um divisor na minha carreira.

Caixa de música é um disco carregado de otimismo. Desde as composições até mensagens no encarte, como “amor sempre”, que lemos logo ao abrir, e o “loka samastha sukhino bhavantu”. Nestes tristes tempos que o Brasil vive, o quanto é necessário de otimismo e realismo para sobrevivermos?
Ufa, irmão! Eu acredito que o AMOR [maiúsculas dele], explicar essa palavra “amor” fica muito vaga, piegas, não sei como dizer. Quando comecei a praticar ioga, há sete anos, eu fui entendendo que o amor muda, transforma, e que se você pensar no amor de servir, deixar ser servido, olhar pro próximo, cachorro, inseto, água, sei lá, as coisas mudam. Pois bem, tô eu tentando, sempre, pinta a oportunidade de ir pro Rio encontrar o Yuka, eu sem banda, sem saber o que fazer. Pensei: é o amor me mandando a porra da parada. Fui. Se fosse antes não sei se acreditaria em mim, entende?

Perfeitamente. A ioga te permitiu ouvir uma voz interior?
Sim. A de confiar. Tem dias que é difícil, mas é uma ferramenta, e quando eu encontrei o Yuka, a primeira coisa que ele falou, juro: “agora que sou um praticante de ioga, blá blá blá”. Cara! Eu não acreditei

Lembrei da história do encontro de Baby Consuelo [hoje Baby do Brasil] com o [contrabaixista] Dadi. Ela nunca o tinha visto e mandou: “você toca contrabaixo, não toca?”. O resto é história. Caixa de música é um disco enxuto, poucos músicos tocando, coeso, você assina quase todas as faixas. E o amor permeia o conjunto. Quais as doses de acaso, inspiração e trabalho?
Eu gravei todas as canções só voz e violão. O Fred Inglez, técnico de som, fez os beats no metrônomo, em cima do meu jeito de tocar e ponto. Em dois dias já tava pronta a base do cd, sem nome sem nada de ideias. Yuka gosta da madrugada, do barulho que o silêncio faz. Então começamos o processo, desses anos todos, amizade, cumplicidade, amor, cozinhar com ele, ser uma extensão de seu corpo na hora de fazer um rango do jeito dele. Tudo isso foi refletindo no disco, nas longas madrugadas, o respeito com minha música. Quando entrávamos no estúdio, era pra ficar no mínimo 10 horas, sem choro.

A faixa Não abala é o momento do disco em que você mais se aproxima da temática social que norteia o trabalho do Rappa, do Furto [grupos que Yuka integrou] e do Yuka. Ela não destoa do resto do disco, já que é impossível amar sem medo, concorda?
Pois é! Medo de ser livre, de escolher. Daí a ignorância e a inteligência. Batem cabeças. Me lembrei da musica do Beto Guedes [cita trecho de O medo de amar é o medo de ser livre, parceria de Beto Guedes com Fernando Brant]: “O medo de amar é o medo de ter/ de a todo momento escolher/ com acerto e precisão/ a melhor direção”.

E o que você tem a dizer a quem ousar criticar Caixa de música por ser um disco sobre o amor e, portanto, talvez dirão, piegas?
Pô, tá no direito. Eu sei que pra mim foi uma honra ser produzido por uma pessoa que  influenciou toda uma geração, um cara visionário, olhos atentos no futuro. Então, se o conceito que ele deu ao Caixa de música for classificado por alguns como piegas, eu aceito. AMOR SEMPRE! [maiúsculas dele].

Você visita com frequência o Rio de Janeiro, onde gravou seu disco. O que achou do resultado da eleição para prefeito lá? E em São Paulo?
[Risos]. Gravei na casa/estúdio do Yuka, na Tijuca, Zona Norte do Rio, bairro de tantos artistas, terra de Tim Maia. Na eleição passada o Yuka foi [candidato a] vice[-prefeito] do [Marcelo] Freixo, então já tava torcendo pra ele. Fiquei chateado sim com o resultado, mas acho que é um trabalho de formiguinha. O bispo papão é foda. Em Sampa? [gargalhadas]. Jura mesmo?. Dória Jr.? Não rola.

Ouça Caixa de música, o disco:

As conexões de som e sentimento

Conectar. Capa. Reprodução
Conectar. Capa. Reprodução

 

Uma leitura mais apressada, menos atenta, pode enxergar o convite: “vem conectar”. Não estará de todo errado. Mas ali está Wem Conectar [2016], nome do artista e título do disco, em cuja capa ele aparece, emoldurado por bela paisagem, sentado num cubo com seu nome/marca, com um fio caído do céu plugado – conectado – ao violão que empunha. O verbo-título transforma o “ar” em voo de pássaros.

Uma andorinha só não faz verão, sabemos, e ao abordar o universo das conexões, as humanas, sem mediação de máquinas, o disco de Wem soa como uma doce lufada de esperança no humano, na humanidade. Doçura, aliás, não falta. Outro ponto destas conexões que merece destaque é o fato da realização de Conectar ter sido possível graças a uma campanha de financiamento coletivo.

Wem é autor das 11 faixas de Conectar, somente as três iniciais com parceiros: Se eu te encontrar (com Chico Salem), a faixa-título e Nosso quarto (ambas com Amanda Basani). “As manchetes vão virar poema/ Marginal Pinheiros vira mar/ a televisão vira cinema/ roda de fogueira vira altar”, diz o otimismo escancarado da faixa de abertura. “A segunda vira sexta-feira/ a quaresma vira carnaval/ qualquer gafe vira gafieira/ bad trip vira alto astral”, continua, com o lendário Dadi ao contrabaixo e piano, o que conecta o artista a Novos Baianos, A Cor do Som e Tribalistas.

Em Antes, a voz de Wem é emoldurada pela companhia de Marcelo Jeneci, que além de cantar, toca piano e sintetizador. São artistas de timbres, estilos e doçuras parecidos – aliás, quem gostou dos dois discos solos de Jeneci certamente vai gostar também de Conectar, mais uma em um disco de tantas conexões.

As letras, com cifras para violão no encarte, tratam basicamente do amor – a melhor conexão possível. Wem (voz, violão, assovio, piano, guitalele, guitarra, cuatro, palma) é escoltado por – ou conectado a – Fabio Pinczowsky (guitarra, palma, violão, teclado), Ricardo Prado (sanfona, teclado, contrabaixo, palma, piano, guitarra), Guilherme Kastrup (bateria, percussão) e Bruno Buarque (bateria em Se eu te encontrar).

Nestes tempos botocudos, Conectar é um disco necessário e preciso. Como as constatações e o convite da faixa-título: “Não consigo te conectar/ mas não canso de te procurar/ sobra megabyte falta amor/ desencana desse servidor/ Chega a hora de dormir/ liga a tv pra se distrair/ queria tanto te conquistar/ larga desse celular e vem pra cá me amar/ Meu bem vem que tem/ um abraço um amasso é melhor/ que essa tela fria, vai na minha/ isso é alta tecnologia humana/ se enrosca na rede real do amor a dois”.

Veja o clipe de Solidão Jamais (Wem):

Vanessa Bumagny e o poder (do) feminino

O segundo sexo. Capa. Reprodução
O segundo sexo. Capa. Reprodução

 

Vanessa Bumagny toma emprestado do clássico de Simone de Beauvoir, o título de seu terceiro disco, O segundo sexo [2015], mas engana-se quem esperar encontrar ali um manifesto feminista ou coisa do tipo.

No entanto, esta discreta parceira de nomes como Chico César e Zeca Baleiro – que comparece ao disco em participação especial na faixa-título – demonstra seu empoderamento feminino, por exemplo, ao assinar, sozinha ou com parceiros, todas as faixas do disco.

Acompanhada de músicos como Adriano Magoo (sanfona, teclado), Érico Theobaldo (programação de bateria, bateria, baixo, guitarra), Fernando Nunes (contrabaixo), Roger Menn (guitarra, violão), Rovilson Pascoal (violões) e Zeca Loureiro (guitarra), entre outros, Vanessa Bumagny desfila toda sua versatilidade e talento.

O segundo sexo (Luiz Pinheiro/ Vanessa Bumagny) tem clima de new wave e lembra o pop do Metrô. “É duro ser o segundo sexo, o primeiro, o terceiro e todos os demais”, provoca a letra, para reafirmar, mais adiante: “é duro ser o primeiro filho, o caçula, o do meio e todos os demais”. Música alegre para tristes tempos: no fundo, é duro ser humano, hoje em dia.

Nada igual por aí evoca Cor de rosa choque (Rita Lee/ Roberto de Carvalho): “isso vermelho é sangue cuidado está vivo e pulsa/ quente como nunca se viu nada igual por aí”, diz a letra de Vanessa Bumagny, cujo arranjo é outro ponto do disco que nos leva a pensar em bons momentos do pop rock nacional oitentista. “Este disco é dedicado a quem escuta inocentemente como se fosse sempre a primeira vez”, a artista arremata no encarte provocantemente.

No repertório do sucessor de De papel [2003] – título que é o significado de seu sobrenome – e Pétala por pétala [2009] – batizado por parceria com Chico César, também gravada pelo parceiro – destacam-se ainda O que for melhor (Vanessa Bumagny), faixa que abre o disco com sua luminosidade musical, a valsa Você era meu sonho (Heloiza Ribeiro/ Vanessa Bumagny), A Carlos Drummond de Andrade, em que ela musica um poema do “anti-musical” João Cabral de Melo Neto, Tristeza só (Vanessa Bumagny), samba à base de baixo, guitarra e bateria, e Do meu jeito (Luiz Tatit/ Vanessa Bumagny), em que a protagonista parece fraquejar, mas no fundo é senhora de sua decisão.

Ouça Tristeza só (Vanessa Bumagny):