A sinceridade de Kleber Albuquerque e Rubi

Cantores apresentam o show Contraveneno logo mais às 20h30 no Cine Praia Grande

Foto: ZR (28/10/2016)
Foto: ZR (28/10/2016)

É praticamente a estreia de Contraveneno, o show que Kleber Albuquerque e Rubi apresentam logo mais, às 20h30, no Cine Praia Grande (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande), com produção da Sete Sóis (selo que lança seus discos) e produção local de Gilberto Mineiro. Ou pelo menos é, com essa formação: eles serão acompanhados por Rovilson Pascoal (guitarra) e Mário Manga (violoncelo).

O show deve circular e há a vontade de transformá-lo em disco. A ideia para o espetáculo em parceria surgiu há pouco mais de um mês, mas as carreiras de Kleber e Rubi se cruzam há bastante tempo. Rubi se lembra de, ao ouvir o disco de estreia de Kleber [17.777.700, de 1997], ter procurado o produtor Mário Manga, através de quem se conheceram. Contraveneno acaba sendo também uma espécie de reencontro, quase 20 anos depois.

Estamos diante de dois dos mais autênticos e sinceros artistas surgidos para o mercado fonográfico a partir da segunda metade da década de 1990. Compõem e cantam simplesmente o que lhes emociona. Ou isso ou nem tentam, como provam suas trajetórias regulares de discos tão belos quanto verdadeiros, com temas que vão do amor a questões sociais.

Homem de vícios antigos encontrou-os na manhã desta sexta-feira (28), em frente ao hotel em que se hospedaram, na Avenida Litorânea. Conversamos com os cantores entre idas e vindas dos músicos para uns mergulhos na praia do Calhau. A conversa foi acompanhada também pelos produtores Flávvio Alves (Sete Sóis) e Gilberto Mineiro. A seguir, os melhores trechos da conversa à beira-mar.

Foto: ZR (28/10/2016)
Foto: ZR (28/10/2016)

Contraveneno já tinha sido apresentado ou é um show novo?
Rubi – Estamos estreando esse show. A primeira mostra foi em Londrina. Mas sem o Rovilson e sem o Mário Manga. A gente pretende fazê-lo girar, circular. Com essa formação, preferencialmente.
Kleber Albuquerque – É uma alegria muito grande ter o Manga novamente, ele produziu nossos primeiros discos. Eu nem tinha pensado nessa coisa de 20 anos há até umas duas semanas. O Flávvio comentou de a gente gravar o disco novo.

Por falar nisso: e o disco novo? Ou: há a chance de Contraveneno virar disco?
Kleber – É um projeto muito recente, um mês e meio. A gente se encontrou em casa, o repertório já surgiu.
Rubi – A gente conviveu muito durante muito tempo, tínhamos afinidade com algumas canções e o universo musical de alguns artistas muito próximos da gente. A referência é família, rádio. A gente tem algumas coisas que confluíam muito. Quando a gente se encontrou agora, acordou um monte de coisas dessa memória.
Kleber – Foi muito natural. A gente ia lembrando, o show tá quase na ordem disso.

É um best of?
Kleber – Tem muitas músicas inéditas. Em alguns momentos, canções muito próprias do trabalho dele, a alegria de cantar em duas vozes, músicas que eu ouvia quando era moleque.
Rubi – Uma coisa que ficou muito clara a partir do encontro é a delícia que é cantar junto. Eu gosto muito de cantar com ele. Eu sempre gostei muito de cantar com ele.

Quando eu ouço o título Contraveneno eu penso em antídoto. A música de vocês se pretende antídoto pra quê?
Kleber – Eu tenho a impressão de que essa questão do antídoto, no sentido de um remédio, um medicamento que melhore um pouco a vida, ele é especialmente pra gente, um contraveneno pessoal, pra suportar a vida. Esse nome vem de uma das canções do repertório, no sentido de não se render, uma certa resistência, embora as canções inéditas não sejam propriamente panfletárias, as letras têm um foco social, um olhar político por trás das letras.
Rubi – De uns tempos pra cá eu comecei a entender por onde a minha arte passeia. Eu me questionava com relação às minhas escolhas, a meu repertório. Uma coisa que ficou muito forte de uns tempos pra cá é o compromisso de eu viver a minha arte. Eu canto pelo viés da emoção. Quando eu canto tanto eu quero me sentir tocado pela canção, quanto criar a possibilidade de despertar essa sensação, essa emoção, não só pela coisa política do discurso em si. A gente tem vivido tempos muito ásperos, de muita intolerância, tudo é muito veloz, e isso tira o tempo de reflexão. Eu gosto de cantar coisas que mexem com minha emoção. Eu não vejo quem me escuta de maneira passiva. Pra mim é uma troca, é um vai e vem. Quem para para ouvir, é tão importante quanto a gente que toca. Ter um bom ouvido é tão importante quanto ter o que dizer.

As formas de o público lidar com a música têm mudado, mas vocês ainda fazem discos.
Kleber – Talvez mais por fetiche. Pro artista é muito bom ter algo pra te dar uma unidade. Antigamente você fazia o compacto com uma canção só e hoje está voltando, por conta da internet. Hoje você pensa em 13 canções e tem a oportunidade de pensar em uma unidade para o trabalho. Essa forma de embrulhar ainda é usada mais por uma questão de resquício do formato que por uma exigência de mercado. Há um valor simbólico, mas essas coisas estão se transformando mesmo.
Rubi – Isso de você fazer sua própria trilha, você não ouve um álbum. As pessoas não estão mais habituadas. Você se conecta, ouve a música, acha interessante, vai saber se você vai lembrar do autor? Vão ficando as células, não fica o corpo.

Vocês sempre trazem, em suas obras, a questão social.
Kleber – Às vezes é o amor que afeta, mas do meu ponto de vista, como uma pessoa que tá vivendo a vida, é uma forma de elaborar pessoalmente. Pra mim acaba sendo uma extensão natural lidar com alguns temas. Eu não me acho apto a dizer nada pra vida do outro, a falar o que é certo ou o que é errado. Por outro lado, essas coisas acabam envolvendo a gente de uma forma mais forte do que em outras épocas. A força da palavra poética pode vir a ter uma importância grande como já teve, não pra música, mas pra vida das pessoas. Eu, tirando pra mim, tenho algumas canções, alguns versos, que influenciaram minha vida a ponto de eu descobrir que eu queria fazer isso. A música, a poesia, a arte de modo geral, têm um poder transformador.
Rubi – Eu tenho uma coisa muito forte pra mim. Com o passar do tempo a gente vai maturando. As pessoas me imaginam cantando x, y, z. Meu critério não é o que o outro imagina. É duro falar assim, mas é exatamente isso. Eu preciso estar envolvido. A música pode demorar uma vida inteira para me escolher, mas a música tem que fazer um sentido pra mim. Eu não me considero um cantor, minha formação acadêmica [Rubi é bacharel em artes cênicas] não tem nada a ver com música. Toda minha ligação com a música é muito intuitiva. Muito nesse lugar de me respeitar dentro de cada canção, respeitar a canção e me colocar dentro dela. Eu dependo muito das minhas escolhas, eu preciso da minha relação com aquela obra pra ela se expressar através de mim. Todo meu processo de canto passa pela palavra, eu tenho um amor pela palavra muito grande. Minhas escolhas caem muito aí. A canção é minha dramaturgia, por que eu sou ator. Eu não me considero um cantor, de fato. Quem canta em mim é o ator.

Ouçam Brasa (Kleber Albuquerque), com Kleber Albuquerque:

Ouçam Ai (Kleber Albuquerque/ Tata Fernandes; poema incidental: Gero Camilo), com Rubi:

Intimidade e entrega

Lancamento de Dois tempos de um lugar no Auditório Ibirapuera. Foto: Chema Llanos
Lancamento de Dois tempos de um lugar no Auditório Ibirapuera. Foto: Chema Llanos

 

Ex-namorados, Dandara e Paulo Monarco esbanjam intimidade ao figurarem nus na capa e encarte de Dois tempos de um lugar [2016], disco produzido por Swami Jr. e Tó Brandileone e mixado por Ricardo Mosca (Pau Brasil). O par não precisa de mais que uma faixa para provar que estamos diante de dois artistas talentosos.

Ela, cantora habilidosa, que ouvintes mais antenados lembrarão de [2013], terceiro disco de Bruno Batista, que poderia também ter sido assinado por ela; ele, compositor interessante, autor, com diversos parceiros, de quase todo o repertório do disco – as exceções são Toca aí, de Túlio Borges, Trovoa, de Maurício Pereira, e a faixa-título, de Celso Viáfora.

Ame (Paulo Monarco/ Kleuber Garcêz), quase toda rimada no título, entre a “delicadeza do origami” e a “força do índio Yanomami”, abre o disco, cumprindo bem o papel de apresentar a dupla e despertar o interesse do ouvinte pelas faixas restantes.

É basicamente um disco de vozes (Dandara e Monarco) e violão (Monarco, que toca guitarra em Escuta). As únicas exceções são o piano de armário em Toca aí e a gaita em Escuta, ambos tocados por Tó Brandileone. Zeca Baleiro canta em Tem dó, parceria dele com Paulo Monarco.

Dois tempos de um lugar. Capa. Reprodução
Dois tempos de um lugar. Capa. Reprodução

Dois tempos de um lugar é um disco profundo, de entrega. Como atesta a letra de Pra acordar (Paulo Monarco/ Suely Mesquita): “sorrir sem medo com a alma em carne viva/ alargo o peito pra poder acomodar/ um coração que cresce além da sua medida”.

É um disco para se apaixonar à primeira vista – ou melhor, à primeira escuta. Em tempos líquidos, a intimidade se dá ligeira, mas no que a dupla canta não é mera aventura. Em Escuta (Paulo Monarco/ Túlio Borges), pedem atenção com uma pitada de erotismo: “Escuta a história que vou te contar/ que vou te lamber/ o aparelho auditivo/ que vou te chupar/ a intimidade do ouvido”.

O ofício musical e suas delícias também são temas em Dois tempos de um lugar. Na faixa-título voltam a pedir atenção e a demonstrar intimidade: “É tudo muito estranho, eu sei, você nunca me viu, mas por favor, escuta/ não me pergunte como nem por que, mas sei que temos vidas muito juntas”. Em Madrigal (Paulo Monarco/ Dandara/ Bruno Batista), que fecha o disco, idem: “talvez seja essa tristeza/ ou o costume da esperança/ que me faz, nunca querendo,/ querer sempre mais/ e o meu único desejo é morrer cantando/ o meu único desejo é sempre cantar”, este certamente também o desejo de quem ouvi-los.

Ouça Contenteza (Paulo Monarco/ Alisson Menezes):

A mensagem de Criolo merece atenção independentemente de rótulos

Ainda há tempo. Capa. Reprodução
Ainda há tempo. Capa. Reprodução

Criolo Doido passou a assinar apenas Criolo, lançou o petardo Nó na orelha [2012] e angariou elogios de Caetano Veloso, Chico Buarque (que o homenageou em meio à sua Cálice, parceria com Gilberto Gil), Milton Nascimento (com quem chegou a dividir show), Emicida (com quem dividiu show e o disco Ao vivo, de 2013) e Ivete Sangalo (com quem dividiu o disco Viva Tim Maia, de 2015).

No rastro, Convoque seu Buda [2014] mantinha a pegada e o diálogo entre rap, samba e soul, principalmente. Criolo definitivamente havia saído do gueto e falava para multidões. No recém-lançado Ainda há tempo [Oloko Records, 2016, disponível para download no site do artista], Criolo volta às origens (que, de fato, nunca abandonou): depois do inegável sucesso, é seu disco mais acentuadamente “rhythm and poetry”, formado por composições datadas de entre 1996 e 2005.

São nove faixas e 11 produtores diferentes, sob direção musical de Daniel Ganjaman, que com Marcelo Cabral assina a produção da faixa-título, que fecha o disco, além de cantar e tocar contrabaixo, piano, sintetizadores e programação.

A verve de Criolo continua afiada e é uma constante no disco a mensagem positiva que predomina no rap, sobretudo destinada às juventudes das periferias, em sua maioria negros que perdem a vida para a polícia ou para o tráfico de drogas. “Eles querem que você desista/ mas jamais se dê por vencido/ rap nacional envolvidão até o pescoço/ se não fosse assim/ ai de mim/ só tava o osso”, diz a letra de No sapatinho (produzida por Renan Samam e Filiph Neo).

As vozes dos indígenas Shirley e Euclides Krenak, da tribo Krenak, são ouvidas na fortíssima Chuva ácida (produzida por Sala 70), em que Criolo critica, a partir da tragédia de Mariana/MG – até o lançamento do disco e a publicação desta resenha, nem Samarco nem Vale nem ninguém punido –, a política praticada a partir de conchavos e propinas, incluindo o Congresso nacional, departamentos de “responsabilidade social” de grandes empresas e organizações do terceiro setor.

Criolo não receia tocar feridas profundas em temas que lhe são caros. É freireano no sentido de aproximar a teoria da prática, a fala da ação ou, resumindo: o que canta do que vive. A juventude é uma preocupação constante e sobram críticas à violência, ao consumismo, ao capitalismo, ao preconceito, ao sexismo, ao consumo de drogas lícitas e ilícitas.

“Eu tenho fé nessa nova geração/ nesse povo maravilhoso/ a nossa juventude toda” e “as pessoas não são más/ elas só estão perdidas/ ainda há tempo/ eu não quero ver/ você triste assim, não/ que a minha música possa/ te levar amor”, têm esperanças Tô pra ver (produzida por Grou com participação especial de Rael) e a faixa-título, respectivamente.

Sonoramente Ainda há tempo talvez seja o disco mais hermético de Criolo. Ouvi-lo é necessário, pelo que discute, sobretudo no Brasil atual – espero que seja compreendido pelos fãs conquistados ao longo dos últimos anos, quando as lojas colocaram o artista nas prateleiras de MPB.

Ouça Chuva ácida (Criolo):

Zeca, Baileiro

Há tempos digo e reafirmo: Zeca Baleiro é o maior trabalhador da música popular brasileira em atividade. Só este ano, já lançou o cd Era domingo, o dvd A viagem da família Zoró e o livro Quem tem medo de Curupira? [Companhia das Letrinhas, 2016, 80 p.; leia um trecho] – os dois últimos, respectivamente, videoclipes animados para 11 das 28 faixas do disco Zoró – Bichos esquisitos, que lançou há dois anos, e um livro com o texto da peça escrita para o grupo ludovicense de teatro amador Ganzola, no longínquo 1988, quando sequer tinha se mudado para São Paulo ou gravado seu disco de estreia [Por onde andará Stephen Fry?, 1997]. De temática infantil, dvd e livro foram lançados neste mês das crianças.

Justo no dia das crianças (12 de outubro) estreou, no Canal Brasil, sua mais nova empreitada: o programa Baile do Baleiro, que transita entre apresentações do maranhense com artistas convidados interpretando músicas autorais (dos convidados, no caso) ou alheias e os bastidores, em que aparecem o clima descontraído dos ensaios, os encontros de Zeca com as visitas e ligeiras entrevistas que ele faz com os mesmos, sobre suas referências e memórias musicais (e) afetivas.

O programa de tevê enquadra um formato de show que Baleiro apresenta há mais de uma década – quando passou pelo Maranhão teve como convidada a sambista Patativa, de quem ele viria a produzir Ninguém é melhor do que eu, seu disco de estreia.

Sem preconceito de estilo ou faixa etária participaram do primeiro programa a cantora Blubell e o soulman Hyldon, que fizeram bonito em músicas como o tango Bandido, dela, e as clássicas As dores do mundo e Na rua, na chuva, na fazenda (Casinha de sapê), ambas dele. Com ela, Baleiro dividiu Mamãe passou açúcar em mim (Wilson Simonal) – sozinho, ele abriu o programa com Segura esse samba, ogunhé (Osvaldo Nunes).

Cantadas sozinhas ou em dueto com o anfitrião, as músicas acabam convertendo-se em, além de festa, uma espécie de almanaque da música dançante (com inteligência) brasileira, a partir da revisitação a baús particulares e à grande tradição da canção popular, para usarmos termo parecido à justificativa da academia sueca em premiar Bob Dylan com o Nobel de Literatura – prêmio festejado tanto por Zeca Baleiro quanto pelo modesto repórter que ora lhes comenta seu novo programa.

Baile do Baleiro vai ao ar às quartas-feiras às 21h (horário de Brasília; hora local: 20h), com reprises aos sábados às 16h30 (no horário de verão) e às terças às 12h30 (idem). O segundo episódio, no próximo dia 19, terá como convidado Odair José. Em outros episódios Baleiro receberá ainda Edy Star, Guilherme Arantes, Jurema, Luiz Ayrão, Maria Alcina, Wado e Zizi Possi.

Veja o teaser do programa:

Funk do amor explícito

Amor geral. Capa. Reprodução
Amor geral. Capa. Reprodução

 

Com os dois pés no funk e majoritariamente eletrônico, Amor geral [Sony, 2016], disco novo de Fernanda Abreu, é um disco libertário. De um jeito ou de outro, todas as músicas falam de amor e prazer. Certamente é o trabalho mais erótico e despudorado da cantora.

Outro sim [Fernanda Abreu/ Gabriel Moura/ Jovi Joviniano], que abre o disco – e seu primeiro hit –, vai direto ao ponto, sem falsos moralismos ou meias palavras: “outro marido traído/ outra esposa ansiosa/ outra amante excitante/ querendo dar”.

O tema volta em Double love amor em dose dupla, de Fausto Fawcett [em parceria com Laufer], autor de Kátia Flávia, a godiva do Irajá, um dos maiores sucessos da ex-Blitz. “Não fica se achando/ me cercando insinuando/ perdido em egotrip/ que eu sou sua refém apaixonada/ que nada, meu querido/ meu negócio é double love/ amor em dose dupla/ no meio da cidade nua”, escancara a letra, com citação de Je t’aime moi non plus [Serge Gainsbourg].

O samba é tema do funk Tambor [Fernanda Abreu/ Gabriel Moura/ Jovi Joviniano/ Afrika Bambaataa], com adesão do americano Afrika Bambaataa [Zulu Nation]. À música, que cita o samba-enredo de 1982 do Império Serrano, Bumbum praticumbum prugurundum [Aluísio Machado/ Beto Sem Braço], comparecem os violões de Davi Morais e os teclados de Donatinho, herdeiros de dois reinventores da música brasileira.

Deliciosamente [Fernanda Abreu/ Alexandre Vaz/ Jorge Ailton] e Saber chegar [Fernanda Abreu/ Donatinho/ Tibless/ Play Pires] falam direto ao coração, como começa a letra da primeira: “deliciosamente/ boca, pele e mão/ tudo que se quer dizer/ falar ao coração”. Candidata a hit, Antídoto [Fernanda Abreu] evoca baladas radiofônicas oitentistas.

Se O que ficou [Fernanda Abreu/ Thiago Silva/ Qinho] é a faixa “coração partido” do disco, Por quem [Fernanda Abreu/ Qinho] é “sinal dos tempos”, trazendo os recursos tecnológicos para dentro do jogo (do amor). Valsa do desejo [Fernanda Abreu/ Tuto Ferraz] é explícita, como de resto quase todo o disco: “me olha/ imagina/ pra eu me sentir despida/ me fala/ sussurra/ o que até Deus duvida/ me beija/ de língua/ pra eu me sentir perdida”, provoca, costurada por quarteto de cordas.

“A gente briga mas se ama/ tenta entender o quanto de ódio esconde o amor/ e o quanto de amor tá implícito no ódio/ a gente briga mas se ama/ porque somos condenados a amar”. As contradições do sentimento dão o tom de Amor geral [Fernanda Abreu/ Fausto Fawcett/ Wladimir Gasper], que encerra o disco em clima de reconciliação, ilustrada pelos graves do violão sete cordas de Rodrigo Campello: “mas o que importa é parar/ numa esquina e perceber/ o gigantesco coração do planeta batendo/ Ouçam!/ O coração do mundo batendo/ gigante coração, gigante coração/ do amor geral”.

*

Assista o clipe de Outro sim [Fernanda Abreu/ Gabriel Moura/ Jovi Joviniano]:

Filarmônica de Pasárgada: “se ela não tocar no rádio/ já tocou seu coração”

Algorritmos. Capa. Reprodução
Algorritmos. Capa. Reprodução

 

Herdeiros diretos da vanguarda musical do Grupo Rumo e da crônica presente à obra de Tom Zé – este e alguns integrantes daquele aparecem em participações especiais – a Filarmônica de Pasárgada chega ao terceiro disco, Algorritimos [2016], o ótimo sucessor de Rádio lixão [2014] e O hábito da força [2012].

O mote é a internet e seu vasto universo: redes sociais, emoticons, relacionamentos, pornografia, propaganda, vírus. Tudo embalado pela ótima música e bom humor a que os fãs já estão acostumados – e que mais gente precisa urgentemente conhecer. Nos títulos das 15 faixas já fica evidente do que eles estão falando: Você quis dizer: Filarmônica de Passárgada, 144 caracteres, WWW e Cavalo de Troia, todas assinadas por Marcelo Segreto, entre outras.

O grupo em foto de Edson Kumasaka
O grupo em foto de Edson Kumasaka

André Teles (contrabaixo e voz), Fernando Henna (sanfona, piano, órgão, teclado e voz), Gabriel Altério (bateria, percussão e voz), Ivan Ferreira (fagote), Marcelo Segreto (guitarra, violão, ukulele e voz), Migue Antar (contrabaixo), Paula Mirhan (kazoo e voz) e Renata Garcia (clarinete e clarone), compõem a banda-orquestra, cujo nome é inspirado na cidade da antiga Pérsia que por sua vez inspirou o poema de Manuel Bandeira.

Em Você quis dizer: Filarmônica de Passárgada uma tiração de onda – só o humor salva – com a impopularidade da banda: “sem fama, sem fã, mas sem fantasia/ no carnaval no perfil/ o bolso cheio de canções/ mas o chapéu vazio”, a letra dá a real. No funk Kiwi (Marcelo Segreto), dedicada a Jean Wyllys, o cenário é o almoço de domingo em família, e suas semelhanças com as caixas de comentários (e ódio, intolerância e preconceito) de sites de notícias e redes sociais: “No almoço de domingo/ tem piada pra contar/ tem burrice pra comer/ opinião pra vomitar”, provoca a letra. E continua: “Que é que tem que eu sou marica?/ que é que tem que eu sou kiwi?/ que é que tem que eu sou sapata?/ que é que tem? Sou travesti”.

WWW é uma colagem, com citações de Baby (Caetano Veloso), Love me do (Lennon/ McCartney), Ne me quitte pas (Jacques Brel) e Estoy aquí (Shakira/ Luis Fernando Ochoa). Por falar em colagem, Ctrl c ctrl v (Paula Mirhan/ Marcelo Segreto), a faixa seguinte, aborda a linha cada vez mais tênue entre “originais” e “piratas”, escancarada na “terra de ninguém” – e, portanto, de todos – chamada internet, onde frequentemente se atribuem a Caio Fernando Abreu, Clarice Lispector, Luis Fernando Veríssimo e Nelson Rodrigues, a falsa autoria de textos quase sempre piegas. “Sabe o gabarito da Fuvest?/ sabe o modelito da Madonna?/ sabe o seu bocejo? Seu jogo de cintura?/ Copiei colei na cara dura// Sabe aquela lá do kama sutra?/ sabe o seu registro de patente?/ sabe o epitáfio da sua sepultura?/ copiei colei na cara dura”, perguntam, provocando.

Marcelo Segreto (idealização, composição, arranjos e direção musical), espécie de líder da Filarmônica de Pasárgada, há algum tempo colabora com Tom Zé, de quem participou de discos. Eles assinam, com Tim Bernardes (de O Terno) – que toca guitarra na faixa –, São SP, faixa que evoca São São Paulo, do primeiro disco do baiano, lançado em 1968, e Com defeito de fabricação, disco lançado por ele 30 anos depois. Não pensem que o grupo fugiu do tema central de Algorritmos nesta declaração de amor à capital paulista: “São pra lá de dez milhões/ mas aqui ninguém, cadê?/ cada um no seu perfil/ cada um no seu apê”, começa.

7 comentários tem sete compositores (Marcelo Segreto, Rafa Barreto, Julinho Addlady, Tatá Aeroplano, Caê, Gustavo Galo e Cacá Machado) e seis participações especiais: Guilherme Arantes, Ná Ozzetti (ex-Rumo), Tom Zé, Juçara Marçal (Metá Metá), Luiz Tatit (ex-Rumo) e Zé Miguel Wisnik cantam na faixa, que traduz no canto o universo dos emoticons – em versos como “hashtag amo amo amo muito/ menor que três menor que três menor que três”, simbolizando um coração –, a ironia típica da rede – “que cara de bundão/ me assustei/ cê tá tipo o Brad Pitt/ só que não/ mas até compartilhei” – e volta a evocar Tom Zé: “bota mais parente aí/ bota foto de cachorro/ bota a janta e o almoço/ bota graça nesse rosto/ que a felicidade é uma foto engarrafada/ vagando na rede”, ele próprio canta, atualizando seu Parque industrial (1968).

O tom carnavalesco da marcha Fernando Henna está online (Marcelo Segreto/ Fernando Henna) volta a cantar emoticons, em letra engraçadíssima em que dois amigos contam, um ao outro, em um chat, como foi o carnaval de cada um. “O meu foi ruim demais/ roletrando na cidade/ sem amor/ sem colombina/ eu fui cantando/ a minha pipa não sobe mais/ rsrsrsrs”, conta um, lembrando programa de tevê e vinheta de Silvio Santos de outrora.

Parte de Algorritmos foi realizado com recursos do Proac/SP, programa de incentivo à Cultura do Estado de São Paulo. Como se a música não bastasse para o mote, a outra parte foi possível com recursos obtidos por meio de financiamento coletivo, a chamada vaquinha virtual. Mais real, impossível.

Livre que só ele

Edvaldo Santana conversou com Homem de vícios antigos sobre Só vou chegar mais tarde, disco que acaba de lançar, política e arte

O cantor e compositor Edvaldo Santana. Foto: Juvenal Pereira
O cantor e compositor Edvaldo Santana. Foto: Juvenal Pereira

São Luís e o tambor de crioula eram citados na letra de Jataí (2014), faixa-título do penúltimo álbum de Edvaldo Santana. Naquele ano ele chegou à capital maranhense, quando se apresentou em novembro, na semana da Feira do Livro de São Luís, no Teatro da Cidade (antigo Cine Roxy). O mote do show eram as comemorações de seus 40 anos de carreira.

Como arte e vida não são ciências exatas, esta matemática também não: as comemorações do artista se prorrogaram. Como ele diz em 40, faixa que abre Só vou chegar mais tarde (2016), “quando resolvi sair de casa pra cantar de vez/ já faz mais de muitos anos”.

Só vou chegar mais tarde. Capa. Reprodução
Só vou chegar mais tarde. Capa. Reprodução

O cantor e compositor conversou por e-mail com Homem de vícios antigos. Só vou chegar mais tarde aprofunda algumas características do trabalho de Edvaldo Santana, por exemplo o trânsito entre ritmos nordestinos e o blues americano.

A faixa de abertura é coalhada de referências. Entre outros, estão lá a Matéria Prima, sua banda inaugural ainda na década de 1970, passando por Tom Zé, com quem chegou a tocar, o poeta Ademir Assunção (o Pinduca), Arnaldo Antunes, Paulo Lepetit e Haroldo de Campos, cujo Galáxias, musicado por Caetano Veloso em Circuladô de fulô, é evocado na letra: “e não me peça nunca que eu te guie/ eu não nasci pra fazer teste”.

Edvaldo Santana (voz e violão) é acompanhado por banda base formada por Luiz Waack (banjo, violão, guitarra e cavaquinho), Reinaldo Chulapa (contrabaixo) e Leandro Paccagnella (bateria). A estes somam-se instrumentos ocasionais, como a sanfona e teclado de Adriano Magoo (em Retorno do cangaço; ele toca ainda piano elétrico em Dom), a gaita de Bené Chireia (em Sou da quebrada, Dom e Arte depura), a tuba de Eliezer Tristão (na faixa-título e em Retorno do cangaço), a sanfona de Antonio Bombarda (em Ando livre e Gelo no joelho), o piano de Daniel Szafran (em Predicado e Fazendo pra aprender; ele toca órgão em Domínio), além de naipe de sopros em 40 e Gelo no joelho.

Edvaldo Santana é autor solitário das 13 faixas. As exceções são Gelo no joelho (parceria com Luiz Waack) e Canção (poema provençal de Guillaume de Poitiers versionado por Augusto de Campos e musicado por Edvaldo Santana).

O disco passeia por temas como futebol (Gelo no joelho e Dom, homenagem ao ídolo Sócrates), viagem e liberdade (Ando livre, com participação especial de Rita Benneditto, em que São Luís volta a aparecer, na citação ao Bar do Léo), tecnologia e o vazio de relações virtuais (Predicado), a competição capitalista e um dar de ombros do autor na faixa-título, tema que volta a aparecer em Retorno do cangaço, em que tece críticas também ao mercado da fé televisionado e o jogo sujo da política em geral, com suas propinas e traições como regra.

Em Sou da quebrada outro tema caro a Edvaldo: a homenagem a pessoas simples, como seu Valdemar, protagonista de A poda da rosa, do disco anterior. Fazendo pra aprender é uma canção romântica, com ecos de filme de faroeste e do desaparecido Belchior. Em Arte depura cita Judite, sua mãe, e Divino maravilhoso (Gilberto Gil/ Caetano Veloso), anteriormente citada pelo cearense na antológica Apenas um rapaz latino-americano (Belchior). Domínio é uma homenagem a São Miguel Paulista e Cabeça na mesa tem a participação especial de Alzira E.

Edvaldo Santana conversou com Homem de vícios antigos. Foto: Milton Michida
Edvaldo Santana conversou com Homem de vícios antigos. Foto: Milton Michida

Homem de vícios antigos – Você esteve em São Luís em 2014, quando realizou um show de voz e violão em que comemorava os 40 anos de carreira. 40, faixa que abre Só vou chegar mais tarde, traz inúmeras referências a teu próprio trabalho e artistas de tua influência e convívio. Em que medida este disco é a continuação destas comemorações?
Edvaldo Santana – Sim, 40 é uma música que procura falar dessa trajetória das influências e referências nessa estrada de 40 anos, mas Só vou chegar mais tarde e as outras canções desse álbum estão em sintonia com o presente, refletem o que vivo e penso no momento, sem esconder o aprendizado que o caminho da arte possibilita. Celebrar a arte tem que ser uma constante na nossa vida. Minha estada em São Luís foi muito proveitosa.

Por falar em São Luís, Ando livre, que conta com a participação especial de Rita Benneditto, fala no Bar do Léo, que você visitou quando esteve aqui. Fale um pouco de suas impressões do lugar e de como se deu este encontro com a cantora maranhense.
Pois é, fiquei muito impressionado quando conheci o Bar do Léo, através de você,  uma mistura de diversas formas de artes: plástica, música, literatura, dança, diversão e um cara, o dono do bar, muito interessante, de papo bom e cordial. Ando livre é uma música que escrevi refletindo as observações da viagem que fiz pelo nordeste em 2014, passando pelo sertão do Piauí, pelo Rio São Francisco, na divisa da Bahia com Pernambuco, pelo Ceará e pelo Maranhão. Já conhecia a Rita, de quando ela morou em São Paulo, sempre gostei muito de sua voz e de seu jeito de cantar. Como queria convidar uma cantora pra dividir os vocais, que tivesse uma ligação com a letra, não titubeei em convidá-la pra cantar comigo esse bolero. Conversei com sua irmã Elza Ribeiro, enviei uma gravação e Rita depois de ouvir, aceitou meu convite. Como ela mora no Rio tivemos o auxílio luxuoso do amigo e grande artista Lenine, que acionou seu filho Bruno Giorgi, que colocou seu estúdio à disposição, para que pudéssemos registrar a voz dessa cantora genial. Momento muito feliz, onde a amizade e a tecnologia contribuíram generosamente para que esse encontro artístico fosse concretizado.

Você é paulistano, descendente de piauiense: a geografia e a genealogia fazem de você o artista brasileiro que melhor reprocessa certa sonoridade americana, isto é, você faz o que podemos chamar de brazilian blues, contrariando a tristeza típica do gênero. Ao longo de Só vou chegar mais tarde, há autorreferências que citam, entre outros, teu álbum Reserva de alegria. Apesar de tudo, o Brasil ainda é a terra da alegria?
Sou paulistano da periferia, do bairro chamado São Miguel Paulista, filho do piauiense Félix e da pernambucana Judite, que já partiram para outra esfera. Desde pivete que as sonoridades da gaita e da sanfona vivem dialogando no coração e na mente, trazendo melancolia. Talvez um dos motivos sejam as dores e as alegrias do povo nordestino e do povo negro americano, que apesar de todas as dificuldades conseguem doar para o planeta uma música primorosa. Sim, gosto demais do jazz, do blues, da salsa, do reggae, como adoro samba, xote, moda de viola, e essas virtudes sonoras transitam pelas minhas ideias, aguçando a sensibilidade. Nesse disco tem um ingrediente do dixieland, uma das últimas misturas entre a música africana e a europeia no começo do século passado. Pra você viver num mundo contrariado, só com muita reserva de alegria e com o auxilio luxuoso do suingue sofisticado que a música negra brasileira, americana, cubana, caribenha, nascida do povo nos dá de graça.

Por falar em teus pais, uma característica marcante de tua poética é a revelação das pessoas comuns como heróis, de uma professora ou um jardineiro serem teus ídolos, e aí podemos citar Judite e seu Waldemar, entre outras personagens. Ao risco de fazer música a partir de uma poesia hermética, posto que, em tese, só a entenderia quem conhecesse as personagens, você fala de sentimentos que todo mundo entende. A seu ver, por que mais gente não faz isso?
Apesar dos seres serem diferentes, acredito que quando você fala de sua aldeia, das pessoas comuns, você acaba falando pra todo universo, os sentimentos de respeito, bondade, amor, dignidade, são virtudes essenciais na vida do planeta. Outros artistas já fizeram isso muito bem: Jackson do Pandeiro, Bezerra da Silva, cantando os heróis e os vilões de suas comunidades.

Você é autor de músicas definitivas sobre o universo do futebol, embora, infelizmente, menos falado que nomes como Chico Buarque e Jorge Benjor. Em Só vou chegar mais tardeGelo no joelho e Dom se somam a O jogador e O goleiro, para citarmos algumas. Nas duas deste disco você fala de sua própria experiência como praticante do esporte e homenageia o ídolo Sócrates. O futebol é uma boa lente para observarmos o Brasil?
Futebol tá no sangue, faz parte da minha vida e acredito que de boa parte da população brasileira. Além de jogar, eu e meus irmãos fundamos um time de futebol na adolescência. Jogo minha bolinha até hoje. Vira e mexe gosto de cantar músicas que falam do jogador de futebol. O Sócrates é uma figura especial que, além de jogar muito bem, sempre se colocou ao lado da população mais desfavorecida, comprou briga com a imprensa marrom, defendendo suas ideias. Fui convidado para fazer a trilha sonora do seu doc, que acabou não rolando, e fiz esse samba em sua homenagem, que registrei nesse novo trabalho. O futebol às vezes é muito passional, como está enraizado no coração das pessoas, pode sim servir de lente para observar o Brasil.

Por falar na politização de Sócrates, algo raro entre jogadores de futebol em qualquer tempo: em meio a esta entrevista acaba de consumar-se a cassação do mandato da presidente da república Dilma Rousseff. Como você recebeu a notícia e qual a sua percepção do processo?
Estou muito triste e injuriado com esse momento funesto, apesar de saber que não teria volta. O Brasil interessa pra muita gente e depois da votação na Câmara os picaretas não iam largar o poder. Novamente tomamos um chapéu do xaveco, temos que aprender que a comunicação é um instrumento a serviço do capital, que não se interessa por igualdade, amizade. O momento é de reflexão e ação imediata. Ficou claro, mais uma vez, que acordo onde o inimigo dá as cartas, nunca deu certo. Vamos à luta, não temos tempo de temer a morte

“Não temos tempo de temer a morte”, verso de Divino maravilhoso, parceria de Caetano e Gil, além de traduzir bem o atual momento por que passa o país, é citado em Arte depura. “A arte existe por que a vida não basta”, já disse Ferreira Gullar. Só a arte salva?
A minha vida foi salva pela arte. Seguir o caminho da música foi fundamental. Quando percebi o definhamento da escola pública e que ficar batendo cartão para ganhar uma mixaria, que não custeava as despesas, poderia ter escolhido o caminho do crime,  mas o coração falou mais alto e no começo dos anos 1970,  resolvi cair na estrada e estou vivo traçando minha trajetória com alegria e respeito.

Outra convidada neste disco é Alzira E., que de algum modo demarca, digamos assim, tua ligação com a vanguarda paulistana. Pra você, o que significou a participação e aquele momento, liderado por nomes como Arrigo Barnabé e Itamar Assumpção?
Alzira também é uma amiga de muitos anos. Quem me falou desse seu lado mais rock foi Luiz Waack, ele disse que seria legal convidá-la. Fiquei feliz com sua participação em Cabeça na mesa, ela tem um timbre diferente. Pois é, sou contemporâneo dessa safra do Arrigo, do Itamar. No começo dos anos 1980 em Pinheiros, Zona Oeste, havia o [Teatro] Lira Paulistana, que se tornou o espaço alternativo que abrigava diversas formas de manifestações artísticas. Nessa mesma época em São Miguel, Zona Leste, havíamos fundado o MPA, o Movimento Popular de Arte, que agregava também várias manifestações artísticas na periferia de São Paulo, ocupando praças, ruas, galpões, anfiteatros. Era um momento de ebulição, processo de abertura política em andamento. Essa estética paulistana é uma referência muito forte no meu trabalho.

A seu ver o atual momento político brasileiro contribuirá para uma maior espontaneidade artística, isto é, artistas voltando a se reunir em coletivos, a tocar em atos públicos, de protesto, a uma maior participação política, que de algum modo acaba por ter reflexos na estética de um período ou de um grupo?
Acredito que é a democracia que contribui para a construção de novas estéticas. O que pode acontecer daqui pra frente já é fruto de você poder experimentar, de você saber que pode fazer o que quiser, que ninguém vai te cercear. A liberdade é o grande alicerce da arte. Já estavam acontecendo encontros substanciais nesses últimos anos. Esse momento político adverso mexe com a sensibilidade e vai contribuir para a potencialização da produção artística.

Metais em brasa hoje no Sesc Partituras

O Marabrass em Alcântara. Foto: divulgação
O Marabrass em Alcântara. Foto: divulgação

 

O auditório da Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo (Emem, Rua da Estrela, Praia Grande) recebe hoje (29), às 19h, mais uma edição do Concerto Sesc Partituras – o espetáculo integra a programação de aniversário de 70 anos do Serviço Social do Comércio (Sesc).

Daniel Cavalcante (trompete) regerá o sexteto Marabrass, formado, além dele, por Hugo Carafunim (trompete), Jairo Moraes (trompa), Daniel Miranda (trombone), George Campos (tuba) e Marcel Pereira (percussão).

“Quando eu recebi o convite, pensei em fazer uma formação diferente, mas ao me debruçar sobre o banco de partituras do Sesc, optei por tocar com o grupo que já existia, o Quinteto Marabrass, Mara de Maranhão e brass de metais, que já tem 13 anos tocando junto. É grande a responsabilidade”, contou Daniel Cavalcante ao Homem de vícios antigos.

Ele prometeu “mesclar o repertório [do acervo do Sesc Partituras] de forma que a gente possa transitar entre o erudito e o popular”, destacando, entre os compositores que estarão no repertório do Marabrass na noite de hoje, nomes como “Henrique Alves de Mesquita, Marcílio Onofre, Maestro Duda e Bonfiglio de Oliveira, dentre outros”.

A biblioteca virtual de partituras do Sesc tem acesso gratuito a qualquer interessado/a. O concerto de hoje à noite também.

A cor do som

O Assanhado Quarteto em foto de Rafael Mota
O Assanhado Quarteto em foto de Rafael Mota

 

O clima de Feira [2015] vai muito além do nome do disco e do belo projeto gráfico da estreia do Assanhado Quarteto. André Milagres (violão sete cordas e guitarra), Bruno Vellozo (contrabaixo), Lucas Ladeia (cavaquinho) e Rodrigo Heringer, o Picolé (bateria, vibrafone e percussão) pegaram emprestado o choro de Jacob do Bandolim para batizar seu grupo, que foge do convencional – vide os instrumentos utilizados para tocar choro (mas não só) – para apresentar sua música, tão colorida quanto uma boa feira.

Os quatro cursavam mestrado na Unirio quando conheceram Mário Séve, ás dos sopros, integrante do Nó em Pingo d’Água, cuja sonoridade influenciou o quarteto. O bamba acabou aceitando o convite e produzindo o disco do Assanhado. No texto do encarte destaca o “repertório que, de uma forma instigante e inspirada, dialogava não só com o choro, mas com outros estilos musicais”, os “deliciosos arranjos “progressivos””.

Feira. Capa. Reproducao
Feira. Capa. Reproducao

Em vez de optarem por um caminho fácil (regravar choros conhecidos), um meio termo (mesclar choros conhecidos e inéditos), eles optaram pelo mais desafiador: Feira é completamente autoral e inédito.

Põe fiado! (André Milagres/ Lucas Ladeia/ Rodrigo Heringer) é a vinheta de abertura, uma balbúrdia sonora a lembrar o ambiente de trabalho dos feirantes. Tilho no choro (Lucas Ladeia) é um chorinho em que cavaquinho e contrabaixo dialogam inspiradamente. Dia bom (Rodrigo Heringer) começa a destacar o vibrafone, instrumento pouco usual no choro, mais comum no jazz. O instrumento volta a tomar as atenções para si em Maíra (André Milagres).

Mário Sève comparece a Atreva-se (Lucas Ladeia) e Do avarandado (Rodrigo Heringer), em que sola e dialoga com o quarteto, no que é uma das justificativas do título do disco: Feira é lugar de trocas e bastante popular.

A percussão que abre Cocada preta (André Milagres), reforçada pelo diálogo que se segue com o contrabaixo, remete ao bumba meu boi. O inventor inglês Richard Trevithick é o homenageado em Trevithick way (Lucas Telles). Ao mestre (André Milagres) é o momento em que mais o Assanhado Quarteto se aproxima da música erudita, o que poderia ser quase um imperativo para um grupo formado no âmbito da academia.

O cavaquinho vibrante de Bambolê evoca o bandolim de Jacob eu seus momentos mais próximos ao samba – com seus mais de sete minutos, a faixa mais longa do disco certamente é um dos arranjos progressivos de que falou Mário Sève, cujo saxofone assume ares progressivos em Do avarandado, faixa que encerra Feira.

Atualmente radicados no Rio de Janeiro, essa turma vinda da terra do Clube da Esquina faz bonito ao armar sua banca de boa música nesta imensa feira chamada Brasil.

Ouça o Assanhado Quarteto em Do avarandado (Rodrigo Heringer):

Galeria

Pedaco duma asa. Capa. Reprodução
Pedaco duma asa. Capa. Reprodução

 

Geralmente incorre em clichê o crítico que escreve sobre um disco dizendo tratar-se de uma pintura. Incorre em quê, então, o crítico que escreve que determinado disco é uma galeria? Depende. Mas se o disco for Pedaço duma asa [Brisa, 2015], de Mariana Aydar, é justamente isso, por reunir diversas pinturas.

Explico: o artista plástico Nuno Ramos assina quase a totalidade do disco. 11 das 12 faixas são dele: cinco em parceria com o também artista plástico Clima (que assina sozinho a única música que não é de Nuno, Samba triste), quatro sozinho, uma em parceria com a própria Mariana Aydar (Poeira) e uma em parceria com Rômulo Fróes, responsável por apresentá-los, o Barulho feio que batizou um disco do compositor.

No entanto, “o primeiro Nuno Ramos que eu conheci foi o da música, desconhecia sua vida ligada às artes plásticas”, adverte a cantora, logo no início do texto do encarte.

Mamãe papai, que abre o disco, é uma espécie de pedir a bênção aos pais, mesmo após uma carreira consolidada – Pedaço duma asa é seu quinto disco. “Mamãe/ papai/ dá licença de tentar/ eu cantar/ mal não faz”, começa a letra. Mariana Aydar é filha do músico Mário Manga (ex-Premeditando o breque) e de Bia Aydar, que já produziu um vasto leque de artistas brasileiros.

É o disco mais rock (a guitarra é quase onipresente) e mais axé (vide Dedo duro e Dentro das rosas, que dialoga com o carnaval das tribos de índio) de Mariana Aydar, mas o samba também segue firme e forte (vide Atrás dessa amizade, Samba triste e Caia na risada), destacando-se a guitarra de Guilherme Held, a percussão de Maurício Badé e a presença do esposo Duani em diversos instrumentos (contrabaixo, programação, violão, teclados, órgão).

Pedaço duma asa, a faixa-título, resume bem o disco: “eu vi o amor brilhar/ pedaço duma asa/ parecia carnaval/ zumbido em meu ouvido/ a voz que me dizia/ saber de mim o que eu já não sabia/ não sei tudo o que eu sonho/ talvez o que eu componho/ respondo ao que eu não sei mas sei, seria/ maior que a natureza/ que o som e que a beleza, que a arte, o canto, o sol/ e o bem maior, bem maior/ eu vi o amor cantar”.

Ouça Mariana Aydar em Dentro das rosas (Nuno Ramos/ Clima):

Modéstia e sinceridade

O cantor e compositor Marcos Magah é uma das atrações da terceira edição de RicoChoro ComVida na Praça, que acontece amanhã (24), às 18h, na Praça da Fé (ou Praça da Praia Grande), em frente à Casa do Maranhão.

A noite será aberta com discotecagem do DJ Samir Ewerton, e apresentações do cantor Claudio Lima e do grupo Urubu Malandro – formado por Arlindo Carvalho (percussão), Domingos Santos (violão sete cordas), Fleming (bateria), Juca do Cavaco e Osmar do Trombone.

O evento é gratuito, com patrocínio da TVN, através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão.

Sobre sua participação nesta edição do projeto, Marcos Magah concedeu uma breve entrevista – modesta, sincera e hilariante – a Homem de vícios antigos.

Divulgação
Divulgação

Claudio Lima interpretou Salomé [no show Rosa dos Ventos, no Teatro da Cidade de São Luís, antigo Cine Roxy, em fevereiro de 2014], parceria tua com o poeta Fernando Abreu. O que você achou da interpretação?
Eu fiquei super feliz e honrado, e foi engraçado: eu tinha acabado de chegar em São Paulo para fazer uns shows e descolar uns trampos em restaurante de chinês e Wilka  [Sales, sua produtora à época] me mandou o link do youtube. Eu, na época desesperado, olhei aquilo, comprei uma cerveja, acendi um careta [gíria para cigarro] e saí gritando no meio daquela cidade linda, onde nada espanta.

O que você espera do show de sábado, no sarau de RicoChoro ComVida na Praça?
Velho, na boa, não é frase de efeito, não, mas eu sempre espero o pior.

Serão dois shows separados ou vocês se encontram em algum momento?
Eu e Claudio estamos sempre juntos, mas, sim, eu entro no show dele e ele no meu. Cantaremos Adoniran [Barbosa] juntos.

Você é um artista mais próximo do punk, rock e brega. Como foi se encaixar no choro do Urubu Malandro?
Eu pensei que seria enrolado, mas, cara, da minha parte foi tranquilo. Não sei da parte deles. Cheguei ao estúdio e toquei aquelas canções velhas e simples que tenho e eles me trataram com respeito. Só fiquei com pena do Juca e do Domingos se olhando e pensando: “como é que se chama um cara desses para um projeto tão bonito?” Meninos, coisas da vida.

Samba de roda e mina

Quintais. Capa. Reproducao
Quintais. Capa. Reproducao

 

Roque Ferreira assina mais de um terço do repertório de Quintais [2016], novo disco de Clécia Queiroz, que dedicou à obra do compositor conterrâneo seu disco anterior, Samba de Roque [2009] – ela estreou com Chegar à Bahia [1999].

Parceria dela e dele, a faixa Quintais batiza este novo álbum da cantora baiana, plural deste sinônimo de terreiro, espaço propício para a prática do samba de roda, presença constante no repertório, feito a cavaquinho (Dudu Reis), violão (Marcos Bezerra), percussão (Sebastian Notini e Bira Monteiro) e marcado a palmas, com aparições ocasionais de flauta, saxofone, clarinete, trombone, violino, flugelhorn, com participações especiais de Targino Gondim (sanfona em Águas de Oxum, parceria de Roque com J. Velloso), Dona Nadir (voz no Trecho de sodade de domínio público que abre Samba bom, de J. Velloso e Alexandre Leão) e Sú de Oiá (voz na vinheta Salve Xangô, dela).

O título dialoga com o do mais recente álbum da também conterrânea Maria Bethânia, Meus quintais [Biscoito Fino, 2014], outra grande intérprete de Roque Ferreira e, de resto, do universo do samba de roda do Recôncavo Baiano, patrimônio imaterial da humanidade pela Unesco. “Foi escolhido de uma maneira insólita, depois de muita hesitação. Era necessário encontrar alguma coisa bonita e direta, sincera mesmo e que, sozinha, desse conta de tantas histórias, reunisse em suas poucas sílabas tantos climas, ritmos, arranjos e textos diferentes”, explica Vítor Queiroz em texto no encarte – o projeto gráfico, fazendo lembrar um antigo compacto, no formato e tamanho, merece destaque.

Flor d’água (Samir Trindade) é homônima ao maior sucesso da Banda de Pau e Corda, de Pernambuco. Pedra papel e tesoura (Samir Trindade) usa o lúdico dos brinquedos infantis para falar de amor: “pedra papel e tesoura/ par ou ímpar zerinho ou um/ é só ter você na memória/ que o peito faz/ tum tum tum tum”, começa a letra.

A sequência formada por Caruru (Samir Trindade), Salve Xangô, o medley Homenagem a Xangô, com Xorodô (Emília Biancardi), A lua de Nanã (Clécia Queiroz) – “inspirado livremente em O celular de Naná, de Otto”, como alerta o encarte sobre as semelhanças entre a homenagem do pernambucano ao conterrâneo falecido este ano – e Eu saravei (Sú de Oiá), Águas de Oxum e Areia branca (Roque Ferreira) visita o universo dos orixás e do tambor de mina, de forte presença no Maranhão, sobretudo no interior do estado.

Difícil não querer entrar na roda e dançar, mesmo sem saber ou sem ter quintal.

Daqui pra todo ouvido

Daqui. Capa. Reprodução
Daqui. Capa. Reprodução

 

O mundo se encantou com a música brasileira com a explosão da bossa nova, em fins da década de 1950. Uma das mais sofisticadas do planeta, desde então a música popular brasileira, aquela que passa longe de modismos, conquista cada vez mais espaços, sem se importar com barreiras geográficas e linguísticas.

Setas apontam para todos os lados na capa do novo disco do grupo Pau Brasil, uma das mais longevas e destacadas formações instrumentais da música brasileira. Depois da audição de suas 10 faixas, o título pode soar óbvio – o que seria a única obviedade do trabalho: todos os compositores gravados são brasileiros, daí o Daqui [2015] do título.

Metade das faixas é de autoria de integrantes do quinteto. A outra metade reverencia nomes fundamentais para a música brasileira, revelando influências e um fio condutor.

O maestro pernambucano Moacir Santos (Agora eu sei) foi professor do violonista Baden Powell (Pai, em parceria com Paulo César Pinheiro, que abre o disco). Tom Jobim (Saudades do Brasil) é, digamos, herdeiro de Heitor Villa-Lobos (Bachianas brasileiras nº. 1 [Prelúdio/ Modinha] – a cujo repertório já haviam dedicado o disco Villa-Lobos Superstar (2012), com participação especial do quarteto de cordas Ensemble SP e do cantor Renato Braz. E aparecem ainda Ary Barroso e Lamartine Babo, autores de No rancho fundo, de longe a mais popular das citadas.

Junto às demais faixas, autorais – Pingue pongue (Paulo Bellinati), Sarapuindo (Teco Cardoso), Lá vem a tribo (Rodolfo Stroeter/ Paulo Bellinati), Agreste e Caixote (ambas de Nelson Ayres) –, sobressai o espírito de conjunto, com momentos de reafirmação de seus talentos individuais, os nomes dos integrantes do quinteto sempre espalhados em fichas técnicas de discos e shows de uma grande gama de artistas.

O Pau Brasil em foto de Gal Oppido
O Pau Brasil em foto de Gal Oppido

Ricardo Mosca (bateria), Teco Cardoso (saxofones e flautas), Paulo Bellinati (violão), Nelson Ayres (piano) e Rodolfo Stroeter (contrabaixo) – da esquerda para a direita no retrato; o último o único presente desde a formação original – são a atual formação (desde 2005) do Pau Brasil, fundado em 1982, tendo estreado em disco em 1983 num álbum intitulado simplesmente com o nome do grupo.

O nome Pau Brasil remete ao Manifesto da Poesia Pau Brasil, escrito por Oswald de Andrade, farol do movimento modernista – não à toa seu disco anterior, com a voz de Monica Salmaso (eram sua banda em Noites de gala, samba na rua, de 2007, inteiramente dedicado ao repertório de Chico Buarque) e a regência de John Neschling, chama-se Concerto antropofágico (2012).

Em Daqui sobram demonstrações de talento, versatilidade e capacidade de improvisação, num álbum que é, com pitadas jazzísticas, uma espécie de síntese da música (instrumental) brasileira. Como no poema de Olavo Bilac reproduzido no encarte: “E em nostalgias e paixões consistes,/ lasciva dor, beijo de três saudades,/ flor amorosa de três raças tristes”.

Veja/ouça o Pau Brasil em Caixote (Nelson Ayres):

Sabor de maturação

Conheça Hóspede da natureza, sétimo disco de Cátia de França, disponível para audição e download legal e gratuito no site da Natura Musical. Sobre o trabalho, a cantora e compositora paraibana conversou com Homem de vícios antigos

Hóspede da natureza. Capa. Reprodução
Hóspede da natureza. Capa. Reprodução

Hóspede da natureza [Natura Musical, 2016; ouça e baixe aqui], sétimo título da discografia de Cátia de França, já é um dos grandes discos do ano e poderia ser considerado como tal “apenas” pelo fato de tratar-se da volta da compositora paraibana à cena, mas é bem mais que isso: sua força poética e melódica mantém-se intacta, quase 40 anos após a estreia com 20 palavras ao redor do sol.

Com ecos líricos e melódicos de Bob Dylan e James Taylor, a faixa-título, que abre o disco, é baseada em trechos de Walden ou A vida nos bosques, de Henry D. Thoreau, livro de 1847, mantendo a sintonia literária da música de Cátia de França, cuja obra dialoga desde sempre com nomes como Guimarães Rosa, Manoel de Barros, João Cabral de Melo Neto e Marconi Notaro. A primeira faixa fala ao mesmo tempo de esperança – “toda criança reinaugura o mundo” – e de descrença – “os homens e seus ternos limpos/ seus casacos sem remendos/ sua consciência nunca está tranquila/ na verdade existem poucos homens/ e uma infinidade de calças e paletós”.

Minha vida é uma rede, a faixa seguinte, é inspirada em frases de para-choques de caminhão, revelando o olhar atento de cantadora das coisas do mundo da artista, menos conhecida que conterrâneos como Zé Ramalho, Elba Ramalho, Jackson do Pandeiro, Sivuca, Geraldo Vandré e Chico César, entre outros.

Lagarto ao sol, mesmo com o “erro” na pronúncia do nome do réptil, parece tecer uma crítica ao individualismo nosso de cada dia: “acorda, a plateia quer mesmo é que você caia/ e depois, tome vaia, a arena é a mesma, rugem os leões” – o disco foi lançado um pouco antes, mas a música de Cátia de França bem poderia traduzir também a sessão no Senado Federal que decidiu pelo impeachment da presidenta Dilma Rousseff, ao menos neste trecho.

Com um jeito todo particular para falar de sexo, vide a belíssima Coito das araras de seu disco de estreia, Geração volta ao tema: “o inseto pólen, a transa, é você na estrada/ fecundando nosso ninho”. Gaivota segue a trilha de amor e desejo: “me pegou de jeito, você raio de luz/ (…)/ desejo em mim, estou tão feliz”. É também a primeira de três faixas marcadas por toques, ora mais sutis, ora mais escancarados, consagrados a divindades de religiões de matriz africana. Aqui o Toque aguerê de Oxossi; em Luvana o Toque Ilu de Iansã, e em Trator/ As águas que brotaram dos meus óio o Toque Opanijé de Obaluaiê.

Pra doer, com letra de Júlio Sortica, é o apego desesperado, nem que seja pela dor da lembrança, de quem vê um relacionamento se esvaindo. “Deixe alguma coisa sua ao sair/ algo que não corte/ mas que doa ao lembrar”, agarra-se desesperadamente o/a protagonista.

A dor não cabe em apenas uma faixa e Evidências, com letra de Mônica Dantas, segue a trilha de fim de relacionamento: “e eu sem querer já sei que o nosso amor/ está rendido à luz das evidências/ e tanta essência o ar não segurou”, entrega-se.

Tramas da cidade traduz os problemas comuns aos grandes centros urbanos do país. O texto de Cátia de França distancia-se, no entanto, do noticiário cotidiano, e mesmo questões urbanas graves como violência e poluição são encaradas sob o prisma por demais poético da paraibana, que canta e toca violão na faixa, acompanhada apenas pela guitarra de Walter Villaça. Não deixa de ser, também, uma canção de amor: “e se um dia aparece a pessoa certa/ eu fotografo na retina no meu doido descontrole”, promete adiante, depois de revelar que “com prazer o hálito da chaminé/ polui o ar, polui você” e noticiar que “um assaltante roubou o riso/ de uma criança e sumiu na multidão”.

O par formado por Rua do Ouvidor, em que sua voz e violão são acompanhados apenas pelos sopros de Marcelo Bernardes, e Rio Capibaribe traz à cena paisagens caras à Cátia de França, respectivamente no Rio de Janeiro/RJ e no Recife/PE – ambas as cidades integram a turnê de lançamento de Hóspede da natureza, que passará ainda por João Pessoa/PB, Vitória/ES e São Paulo/SP.

Luvana, única faixa instrumental do disco, traz vocalises de Cátia de França e o crescendo percussivo lembra, de longe, em determinados momentos, Kukukaya (Jogo da Asa da Bruxa), talvez sua música mais conhecida, gravada por nomes como Elba Ramalho e Xangai.

Debaixo da tamarineira/ Ô, Mateu reverencia o bumba meu boi. Está aí um dos versos mais bonitos do disco, “meu amor quando me olha com brilho de faca nova”, e não deixo de pensar no diálogo com Rosa Maria, que “tinha faca de ponta nos olhos”, da lavra do maranhense Josias Sobrinho.

A cantora no show de lançamento de "Hóspede da natureza" no Teatro Santa Isabel, no Recife/PE. Foto: Ademar Filho
A cantora no show de lançamento de “Hóspede da natureza” no Teatro Santa Isabel, no Recife/PE. Foto: Ademar Filho

Cátia de França faz soar um sino e é acompanhada apenas do tambor alegre de Mariana Bernardes (filha de Marcelo) em Trator/ As águas que correram dos meus óio, em que reúne a alegria e o espanto diante do belo, o infelizmente hoje raro chorar de emoção, diante dum mundo cada vez mais embrutecido. Ela celebra, “chegando enfim, chegou o meu tesouro”, talvez fazendo uma autorreferência sobre este disco, tesouro que nos entrega, com certo atraso – Hóspede da natureza foi gravado entre 2005 e 2006, antes de seu antecessor, No bagaço da cana – Um Brasil adormecido, de 2012. Nunca é tarde para este transbordamento de beleza, e ela presta reverência: “as águas que correram dos meus óio/ dos tambores do Mestre Beleza”.

Aqui e ali se ouvem “sons de floresta, chuva e pio de inhambu”, como registra a ficha técnica. O fecho é sublime: em Grandezas pantaneiras Cátia de França volta ao universo particularíssimo de Manoel de Barros e seu olhar poético inusitado. Para contrariar a frase final, “de repente faz um silêncio pelo capinzal”, só resta apertar novamente o play e contemplar tudo de novo.

Cátia de França (voz, violão, percussão) divide os arranjos de base do disco com Rodrigo Garcia (violão, teclado, percussão, contrabaixo, viola) e acercou-se de nomes como Walter Villaça (guitarra) e Lan Lan (percussão), músicos que trabalharam com Cássia Eller, além do veterano Marcelo Bernardes (flauta, flautim, sax, clarinete), da banda de Chico Buarque. Também comparecem Durval Pereira (percussão), Matias Corrêa (contrabaixo acústico em Evidências), Luiz Otávio (piano em Evidências), Alex Merlino (bateria em Pra doer e na faixa-título), Arthus Fochi (violões em Lagarto ao sol) e Jander Ribeiro (viola caipira elétrica), entre outros.

Através de uma rede social, Cátia de França concedeu uma breve entrevista a Homem de vícios antigos.

Foto: Thercles Silva
Foto: Thercles Silva

Homem de vícios antigos – Hóspede da natureza é seu sétimo disco de carreira, mas poderia ser o sexto, já que foi gravado antes de No bagaço da cana, que acabou sendo lançado na frente. O que explica esse, digamos, desvio de percurso?
Cátia de FrançaNo bagaço da cana saiu na frente através do FIC, apoio cultural da Paraíba. Aquela safra [de composições] era de 1975. Só veio à tona em 2012. Parece que gosto da maturação. Tem que sair na hora certa. Com as pessoas indicadas. Dar possibilidade de pagar uma orquestra como a Camerata Arte Mulher. Uma orquestra feminina. Tinha que ter financiamento. O Hóspede saiu através da Natura, que criou o alicerce à altura.

Parte da banda que toca em Hóspede da natureza acompanhou a carreira de Cássia Eller. Como é sua relação com músicos mais novos? O que você acha/va do trabalho de Cássia Eller e o que achou do trabalho deles em sua obra? Como foi este contato?
O distrito onde estou aqui na serra, próxima ao Rio De Janeiro, já era rota dos músicos [Hóspede da natureza foi gravado entre dezembro de 2005 e fevereiro de 2006 no Estúdio Luperan, em São Pedro da Serra, Nova Friburgo/RJ]. A própria Cássia andou aqui na época que eu ainda não residia em definitivo em São Pedro da Serra. A cidade a homenageou dando a uma montanha o nome dela. Quem facilitou a adesão dos músicos para tocar no Hóspede foi o produtor do cd, Rodrigo Garcia. Ele tocou com ela na fase espanholada [nos discos Dez de dezembro (póstumo, 2002), Com você… meu mundo ficaria completo (1999) e Veneno vivo (1998)], na escola do [falecido cantor espanhol] Camarón de la Isla. Além dele, parte da banda, ou seja, Lan Lan, fantástica percussão e Walter Villaça, guitarra, e sua economia magistral nas notas, os solos precisos. O embrião do Hóspede se deu num clima mágico: estúdio caseiro, no meio de uma floresta, em pela serra. Havia até um rio próximo do local. Estávamos longe do conturbado centro urbano. Músicos novos, como reajo perante eles? Quando escolho a formação de uma banda não levo em conta se é novo ou velho. O que me interessa é se eles respondem o rojão de um maracatu, de um coco. De um rock à sutileza de um blue. Inclusive na formação atual da banda o mais velho é o rapaz dos sopros, Marcelo Bernardes, deve ter uns 50 e poucos. O restante está na faixa dos 30. Meu diretor musical e baixista também. O que é que eu achava da Cássia Eller? Achava não: eu acho. O legado dela é eterno. A lacuna na MPB jamais será preenchida. O trono feminino do rock está vazio. Quem hoje fará no palco o que ela fez?

Debaixo da tamarineira/ Ô, Mateu traz o bumba meu boi. Qual a sua relação com o Maranhão e o que conhece da música daqui?
Maranhão. Meu envolvimento com o Maranhão ocorreu quando fui aí pela primeira vez, com a peça A peleja de Lampião, do Teatro Cordel, em 1975 ou 76, com direção de Luiz Mendonça e o elenco trazendo Elba Ramalho, Tonico Pereira, José Dumont, Tânia Alves. A direção musical quem fazia era eu, além de tocar violão, sanfona e percussão. Agora o que me impressiona é a força mística. O espiritismo em certas regiões daí, orixás, caboclos, pretos velhos. Musicalmente não dá para ouvir sentada. O reggae. Agora as festas populares. O povo nas ruas. Vi uns documentários por aqui… para quê viajar, se a gente tem um mundo com seus mestres dentro desse Brasil? Me dê licença, mas eu vou ver de perto, de bem perto esse Maranhão.

A arte do encontro, do canto e do encanto

O cantor Renato Braz volta à Ponta do Bonfim. Foto: Márcio Neves
O cantor Renato Braz volta à Ponta do Bonfim. Foto: Márcio Neves

 

O cabelo de Renato Braz esvoaçava ao vento e ele, ao anunciar a saideira, “uma ária de Bizet”, afirmou: “com esse vento, vai ser uma maravilha”, para risos da plateia, antes de cantá-la à capela.

Ao fundo, o mar e a Ilha do lado de cá, belo cartão postal emoldurando seu canto, que num texto noutra ocasião, já chamei de “sagrada vocação”.

Antes, Renato Braz dedicou Cálice (Chico Buarque/ Gilberto Gil) a Cida Moreira, atriz, cantora e pianista, sua conterrânea, que se apresentaria na sequência, cujo Cida Moreira canta Chico Buarque (Kuarup, 1993) é inteiramente dedicado à obra do compositor. O cantor comentou a atual situação do país – “como pode essa música ser tão atual”, disse – e de incidental no Cálice serviu o Fado tropical (Chico Buarque/ Ruy Guerra): “ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal/ ainda vai tornar-se um império colonial”.

Um dos melhores cantores do Brasil em atividade, cantou ainda O ciúme (Caetano Veloso), O amor (Caetano Veloso sobre poema de Vladimir Maiakovski), antecedido de um aviso: “eu não sou a Gal Costa”, para risos da plateia. Seu repertório passeou ainda por Oriente (Gilberto Gil), O dia em que o morro descer e não for carnaval (Paulo César Pinheiro/ Wilson das Neves), Anabela (Paulo César Pinheiro/ Mário Gil), entre outras.

Fato destacado pela produção e cerimonial, o projeto Ponta do Bonfim [ontem (17), das 14 às 21h30, aproximadamente, na Ponta do Bonfim, em São Luís] é a soma de boa música, bela paisagem e amizade. Acontece sem periodicidade específica, a partir da reunião de amigos que decidem trazer à São Luís artistas que admiram – era a segunda vez que Renato Braz subia a seu palco. O barulho intenso de boa parte do público prejudicou sua apresentação, emocionante, apesar disso.

Sete anos após apresentar show dedicado a Cartola em São Luís, Cida Moreira estreia no palco da Ponta do Bonfim. Foto: Márcio Neves
Sete anos após apresentar show dedicado a Cartola em São Luís, Cida Moreira estreia no palco da Ponta do Bonfim. Foto: Márcio Neves

Cida Moreira subiu ao palco na sequência. Precisou de ajuda: estava com três dedos do pé quebrados, história que contou rindo de si mesma, bem humorada. “Já é noite, tem mais a minha cara”, saudou a bela lua. O vento intenso descabelou-a também e alguém lhe emprestou algo para amarrar os cabelos. “O modelito foi embora”, tornou a rir e a fazer a plateia rir.

“Tássia” [Campos] – que havia aberto a sequência de apresentações, acompanhada por Rui Mário – “cantou uma música que eu ia cantar, Renato Braz cantou outra”, comentou Cida. Alguém da plateia retrucou: “canta de novo!”. “Não tem cabimento repetir. Tem muita música para cantar”, respondeu.

“Eu vou dedicar a essa menina linda que cantou antes de mim. Ela cantou muito bem Speak Low, do Ira Gershwin com o Kurt Weill; eu vou cantar uma dos irmãos George e Ira Gershwin”, anunciou, antes de cantar The man I love, dedicando-a a Tássia.

Esquivou-se elegantemente de pedidos: “há músicas que eu vou abandonando, deixando de tocar, o Soneto (Chico Buarque) faz tempo que eu não canto”. Alguém gritou “Geni e o zepelim!” e ela respondeu: “pra Geni eu já dei um plano de previdência privada”; a plateia caiu na gargalhada.

Depois contou uma história: “eu passei 25 anos ouvindo essa música e eu sempre chorava. Só depois eu consegui cantá-la. É uma música muito dura, muito forte, como tudo o que Chico Buarque faz. É uma canção de ninar, e eu vou oferecer ao Renato, que está com filho pequeno, vou oferecer para todos os que têm filhos”, e eu me senti contemplado, lembrando de José Antonio, que ficou em casa e era o nobre motivo de eu não ter como ver todos os shows deste pequeno festival de boa música – perdi também a apresentação do sambista paraense João Lopes, que encerraria a noite lembrando repertório exclusivamente formado por sambas imortalizados pelo saudoso xará, Nogueira. E Cida Moreira mandou a emocionante Uma canção desnaturada.

Ao cantar o tango Sou assim (Toquinho/ Gianfrancesco Guarnieri), tirou onda: “essa letra o Guarnieri fez para uma peça, o Toquinho musicou. Os maldosos gostam de dizer que essa é uma do Toquinho dos bons tempos”.

Em determinada altura do show atrapalhou-se com algum botão do teclado. “Teclados têm vida própria”, disse, e ao apertar uma tecla, o instrumento insinuava começar a típica batida programada das serestas. “O dono do instrumento, me socorra, por favor!”. O prestativo Rui Mário subiu ao palco e desativou a função.

“Essa é de um compositor brasileiro muito importante. Muito, muito, muito importante”, repetiu para frisar. “Ele deu uma sumida, ninguém sabe por onde anda. Belchior!”, continuou, trazendo Na hora do almoço.

Antes de cantar Forasteiro (Thiago Petit/ Hélio Flanders), recomendou: “quando vocês ouvirem uma música numa novela não pensem que a música foi feita para a novela. Às vezes eles solicitam alterações. Essa aqui, por exemplo, já existe há uns sete anos, aí a Globo pediu para incluir um trecho em francês. É do Thiago Petit e do Hélio Flanders [vocalista do Vanguart], de uma nova geração que está surgindo, uma geração talentosa, diferente do que essa mídia ordinária tenta nos vender como país. Eu cantei com o Thiago há três dias, são artistas maravilhosos. Eu busco sempre dialogar com os mais novos, tenho gravado”.

A música, que está na trilha sonora de Velho Chico, interpretada por Pethit e Tiê, foi gravada pela cantora em Soledade (2015). Lembrar a novela foi o mote também para ela homenagear o amigo Domingos Montagner, que interpretava o personagem Santo dos Anjos no folhetim, que morreu afogado num trágico incidente quinta-feira passada (15).

Cida teve melhor sorte com a galera do “selfie-se quem puder”. Ao anunciar a última, começou a ouvir gritos de “mais uma!”. “Mais uma é essa. Eu precisei de ajuda para subir no palco, vou precisar de ajuda para descer. Não dá para sair e voltar”. Despediu-se com Summertime (Doroty Heyward/ DuBose Heyward/ George Gershwin/ Ira Gershwin), faixa que batiza seu disco de 1981, o primeiro da carreira.

Que me perdoem o clichê do título deste texto, mas quem estava lá para ver e ouvir os artistas sabe do que estou falando.