Morte, dança e pequenos detalhes

Nas estâncias de Dzyan.Capa. Reprodução
Nas estâncias de Dzyan. Capa. Reprodução

 

125 anos após sua morte, a escritora russa Helena Petrovna Blavatsky [1831-1891] deu, por acaso, título ao segundo disco solo de Juliano Gauche, um dos mais interessantes cantores e compositores surgidos neste século. Ele acaba de lançar Nas estâncias de Dzyan [EAEO, 2015], sucessor do ótimo homônimo Juliano Gauche [2013]. A frase foi encontrada pelo artista em A doutrina secreta, de 1888.

Além dos discos solo, a discografia de Juliano inclui ainda Quanto mais pressa mais de vagar [2003], Feliz feliz [2008] e Veneza [2012], com a banda Solana, e Hoje não! [2009], dedicado ao repertório de Sérgio Sampaio, com o Duo Zebedeu, formado por Fábio do Carmo (violão sete cordas) e Júlio Santos (violão). As nove faixas de Nas estâncias de Dzyan foram sendo compostas, sem haver necessariamente uma preocupação do artista em moldar um novo álbum.

Entre o primeiro solo e este há muitos pontos em comum – o fato de ambos terem nove faixas é apenas um deles. Das de Juliano Gauche, apenas Sérgio Sampaio volta, de Tatá Aeroplano, não era assinada por ele; em Nas estâncias de Dzyan, a exeção é 1,99, de João Moraes. Este é um disco sobre a morte, revela o compositor, apesar de pontos solares (para além do berrante amarelo do projeto gráfico assinado por Mariana Coggiola), ecos de Jovem Guarda e Animals.

Nas estâncias de Dzyan foi gravado em duas semanas nos estúdios EAEO e a ficha técnica também guarda semelhanças com o anterior. Juliano Gauche, que apenas cantava no disco anterior, neste assume também os violões, divididos com Junior Boca, que empunha ainda guitarras e assina os arranjos com Tatá Aeroplano. A banda se completa com João Leão (teclados), Daniel Lima (contrabaixo) e Gustavo Souza (bateria). O disco pode ser ouvido e baixado no site do artista.

Juliano Gauche conversou com o Homem de vícios antigos sobre sua trajetória, influências, a mudança do Espírito Santo para São Paulo, a “síndrome” do segundo disco, apostou suas fichas no talento do parceiro João Moraes e ainda encontrou tempo para um faixa a faixa, quase uma segunda entrevista. Sobre a possibilidade de se apresentar em São Luís revela estar esperando um convite. O show de lançamento de Nas estâncias de Dzyan acontecerá no próximo dia 31 de março, no Sesc Pompeia, em São Paulo.

Divulgação
Foto: Nino Andres

 

ENTREVISTA: JULIANO GAUCHE

Como você chegou a Dyzan e suas estâncias? Não temeu ser tachado de hermético ao batizar este segundo disco?
Estava lendo um livro da Blavatsky e passei por essa expressão, que guardei e depois usei como título da música que abre o disco. Quando mandei o arquivo pro Tatá Aeroplano, o arquivo chegou com este título, pois era o nome da primeira música. Quando encontrei o Tatá depois disso ele foi logo dizendo: “adorei o nome do disco”. E eu disse meio rindo: “mas eu ainda não escolhi o nome do disco”. E ele: “mas não é Nas estâncias de Dzyan?”. E eu: “bem, até tinha pensado nisso, mas achei esquisito demais até pra mim”. E ele: “não, é ótimo. São duas palavras incomuns, soa bem”. Assim, assumi. Acho sim um título estranho, hermético e tal. Mas minha vida é cheia dessas coisas. Tenho mais é que assumir mesmo.

Apesar de discos com a banda Solana e com o duo Zebedeu, como foi lidar com a síndrome do segundo disco?
Minha relação com o ato de compor é de muita sorte. A inspiração é sempre muito generosa comigo. Eu realmente gosto de fazer isso. E faço sem, necessariamente, pensar em disco. Acho saudável e divertido compor. Quando chega a hora de fazer um disco eu simplesmente já estou apaixonado pelas músicas. O processo de gravar é muito natural. E o primeiro disco teve uma recepção tão carinhosa que entrei neste novo com total segurança.

Você guarda semelhanças, inclusive físicas, com seu conterrâneo Sérgio Sampaio, homenageado em teu primeiro disco com a regravação de Sérgio Sampaio Volta, de Tatá Aeroplano, e a cuja obra você dedicou Hoje não!, com o Duo Zebedeu. É sua maior referência?
Adoraria ser tão próximo do Sampaio como geralmente sugerem. Mas sou vira-lata demais pra isso. O Sérgio tem uma classe, um polimento, um esmero, que eu passo longe. As referências que eu mais carreguei na vida foram o John Lennon, o Roger Waters, Raul Seixas, Renato Russo… Compositores de dois, três acordes, melodias simples, letras espirituosas e poéticas. Adoro João Gilberto, Tom Jobim, Chet Baker, Billie Holiday… mas sei que tô muito longe disso.

O que mudou com sua saída do Espírito Santo natal para São Paulo?
Caí na real. Fui obrigado a prezar mais pela lucidez, pelo equilíbrio. No Espírito Santo eu podia bancar o doido sem maiores problemas: sempre tinha quem segurava minha onda. E ainda me escondia numa banda. Em São Paulo é jogo duro. Não tenho rede de apoio pro trapézio. Ao mesmo tempo que isso quase acabou comigo, também me fez crescer muito profissional e pessoalmente.

A ficha técnica de Nas estâncias de Dzyan guarda semelhanças com a de Juliano Gauche, seu disco anterior: em ambas figuram nomes como Tatá Aeroplano e Junior Boca, entre outros. Quais as principais semelhanças e diferenças entre os dois discos que você apontaria?
No primeiro disco eu simplesmente cantei. Como eu tinha acabado de gravar o último disco com o Solana, eu pedi ao Tatá que me ajudasse na produção do disco solo, por que eu estava muito cansado e confuso. E ele fez tudo com a ajuda do Junior Boca: montou a banda, cuidou dos arranjos, mixagem, tudo. Neste disco novo eu meio que reassumi o controle das coisas. Até mesmo por sugestão do Tatá e do Boca. Tive mais tempo e calma pra pensar em tudo. E desta vez eu produzi o disco, participei dos arranjos, acompanhei toda a mixagem ao lado do João Noronha, enfim, este foi o disco em que mais trabalhei diretamente.

Disco é cartão de visita, artistas têm que inventar outras formas de se sustentar já que a vendagem de discos já não garante. Você disponibiliza seus discos para audição online e download, além de lançá-los, fisicamente. Como se equilibrar nesta corda bamba?
É com os shows que a gente recupera esse prejuízo. “Antigamente” [aspas dele] pagava-se jabá para que o disco circulasse; hoje em dia a gente dá o disco de graça: é quase a mesma coisa. Tudo para que as pessoas se interessem pelo show, que é onde está a grandeza deste trabalho.

Não creio que distribuir o disco possa ser comparado com jabá, já que neste caso, o volume de dinheiro é violento e responsável por fazer novos astros e estrelas, bastante descartáveis. Como você lida, enquanto artista, com a infeliz certeza de que, apesar de ser mais talentoso que um monte de gente que toca bem mais em rádio ou aparece na tevê, sua obra infelizmente ficará restrita a um círculo mais específico?
Sim, claro. O que eu tentei colocar é que não ganho dinheiro com o disco, mas também não pago pra ele tocar. Ele anda, lentamente, claro, mas sozinho. Isso graças a essas novas formas de distribuição. Não acredito nessa coisa de música boa e música ruim. Se alguém gosta de uma música, pra ele, ela é boa. A música tem diferentes finalidades. E as pessoas podem escolher o que faz bem pra elas, o que elas querem sentir ao ouvir uma música naquele momento. Agora mesmo estava aqui lendo a revista da UBC [União Brasileira de Compositores] e uma compositora estava reclamando de como a música no Brasil tá ruim, que só ela e a turma dela fazem música de qualidade. Que hoje em dia as músicas só têm dois acordes, o que é o meu caso. Além disso ser mentira é de uma pobreza tão grande, isso é tão fascista. A diversidade é a grande riqueza do Brasil. Isso tem que ser glorificado. Agora, se alguém tem mais grana pra investir no seu trabalho, essa pessoa terá mais resultados, mais alcance, isso é lógico, natural, matemático, e não deveria ser fonte de inveja, não. Eu me sinto confortável com o meu tamanho, com o meu lugar. É exatamente proporcional ao quanto consigo investir. E ainda acredito que o tempo me será muito generoso.

Por falar em shows, como está a agenda? Alguma perspectiva de São Luís do Maranhão?
As propostas de shows estão chegando bem. É claro que agora estamos totalmente focados no lançamento do disco, que será 31 de março, no Sesc Pompeia. Mas já estamos começando a colorir a agenda. Ainda não pintou um convite para ir à São Luís do Maranhão, não. Mas bem que poderia.

A sonoridade de Muito esquisito lembra muito a Jovem Guarda. É outra referência importante?
Pois é. Na verdade este é um dos arranjos mais despojados do disco. Eu não queria que ela ficasse séria e disse: “ah, vamos fazer uma coisa bem básica, bem popular. Vamos tentar a mesma levada de Meu amigo Pedro, do Raul. Ih, não deu certo. Vamos tentar a levada de Quando, do Roberto. É… assim tá legal. É isso. Beleza!”.

1,99 é de um lirismo comovente.
1,99 é uma música do João Moraes, um dos meus melhores amigos e parceiros. Ele também é de Cachoeiro [do Itapemirim]. É da família do Sérgio Sampaio. Ele que idealizou e produziu o Hoje não! E essa é uma dentre as dezenas de músicas lindas que ele tem. O disco dele é um dos discos que eu mais tenho esperado.

Você é casado com sua produtora. O quanto isso ajuda ou atrapalha, já que, em tese, não se separa a vida pessoal da vida artística?
Na verdade eu me casei com uma publicitária. A Sil [Ramalhete] trabalhava numa agência de publicidade quando nos conhecemos. O primeiro trabalho de produção dela foi com os shows do disco Hoje não! E ela só cresceu nessa área depois disso. E é maravilhoso isso. Hoje a gente fala a mesma língua, vivemos as mesmas coisas. Eu a ajudo no que posso com a produtora dela, a Ramelhete Produções, e ela cuida do meu trabalho com um amor que ninguém teria. Claro.

NAS ESTÂNCIAS DE DZYAN – FAIXA A FAIXA

Ouça Nas estâncias de Dzyan:

A faixa título, a meu ver, dialoga com a abertura do disco anterior: se nesta você diz “se eu cair… me trate do jeito que você quiser”, o título daquela era justamente, e de repente, Cuspa, maltrate, ofenda.
Tem ligação sim. Estética e conceitualmente. Mas em Cuspa… eu falava pra Sil sobre nossa relação. Quase que instigando ela a ser ofensiva com quem não via com bons olhos nossa relação. Tipo: manda esse povo todo à merda. Por que “em meu mundo você”… Já em Nas estâncias… é mais um pedido de desculpas que eu faço pro mundo e pra quem tá do meu lado. Tipo: eu sei que eu faço merda. “mas como eu ia saber…”

Ouvi ecos de Animals na guitarra de Animal.
Pois é. Tem esse eco sim, ideia do Boca.

Alegre-se é a canção mais “solar” do disco, concorda?
Sim. Alegre-se é a mais solar. É justamente uma proposta para sair e tomar um sol, um ar…

Teus discos têm muito de autobiográficos. O clarão é outro exemplo, de otimismo, inclusive.
A ideia é essa. No fundo, eu acho que eu me comporto como um escritor. Sempre me projetando nas palavras. E tenho mesmo andado bem otimista.

Ela [O clarão] é irmã de Um canto que leve seus olhos pro espaço.
Acho que sim. É um discurso bem parecido mesmo.

E de algum modo também de Pode se deixar levar, onde o casal protagonista se separa apenas “de mentirinha”.
Pode se deixar levar é mais rotineira. Sobre pequenos desentendimentos. Mas ainda assim tem essas sentenças espiritualistas, tipo: “e não tem nada, meu bem, que vá fazer tanto mal/ Pode se deixar levar”, como quem diz: relaxa!

E Canção do mundo maior encerra o disco, quase rotulando-o, mas sem nunca limitá-lo: Nas estâncias de Dzyan é, no fundo, um disco de amor?
No fundo é um disco sobre a morte. Canção do mundo maior é só sobre a morte. E é claro, o reflexo da morte na vida. Nas pequenas coisas.

Um final surpreendente…
[Risos] Está tudo nos detalhes.

Marcos Magah e Bruno Batista lançam videoclipes

Os cantores e compositores Marcos Magah e Bruno Batista disponibilizaram esta semana seus novos videoclipes.

Rodado na Praia Grande, o primeiro, O dia em que o homem lúcido e perigo quase encontrou Henry Dave Thoureau em São Luís do Maranhão, é faixa de O inventário dos mortos (ou Zebra circular), com que Magah venceu o mais recente Prêmio Universidade FM, na categoria melhor cd de música pop.

O segundo, Nigrinha, parceria de Zeca Baleiro com Bruno Batista, é faixa de Bagaça, novo disco que este lança em 2016.

Assista os videoclipes.

Obituário: João Madson

João Madson em raro registro sem cavanhaque. Foto: Arquivo O Estado do Maranhão
João Madson em raro registro sem cavanhaque. Foto: Arquivo O Estado do Maranhão

 

Conheci João Madson há quase década e meia, ali pelas imediações do Bar de Seu Adalberto (Praia Grande), onde, à época, acontecia o evento semanal A Vida é uma Festa!, capitaneado pelo poeta-músico ZéMaria Medeiros, há tempos transferido para a Companhia Circense de Teatro de Bonecos. Já era uma lenda do underground local, sempre acompanhado de um copo, um cigarro e um sorriso.

“Se melhorar, estraga”, sua voz talhada pelos vícios respondia sempre ao invariável “como vão as coisas?” que eu disparava toda vez que o reencontrava, sempre impecável cavanhaque (a antiga foto em p&b que ilustra este post é exceção), amarelado de fumo, ele, há décadas, radicado em São Paulo.

Chegamos a trabalhar juntos, na Faculdade São Luís, onde ele prestava consultoria ou coisa que o valha em marketing; tinha formação em jornalismo e publicidade e equilibrava-se entre as áreas e a música, sua paixão.

Compositor menos conhecido do que deveria, é autor de um punhado de clássicos, ao menos para mim. Um exemplo é Sinhá Madona, sucesso de Rogéryo du Maranhão, lembrada pela jornalista Andréa Oliveira, ao lamentar em uma rede social o falecimento do artista, vítima de enfisema pulmonar, na madrugada de ontem (16), aos 62 anos. O compositor registrou a música com adesão de Gabriel Melônio em São João Madson Com Vida, último disco gravado por ele, em 2003.

“Dorme em sono perfeito/ minha antiga cidade/ sinhá, vou buscar o dia/ antes da claridade// Corre, Sinhá Madona/ bem de frente da janela/ vem ver como é bela a lua/ que se esconde no coqueiro/ vem ver como é bonito/ meu boi dançar no terreiro”, diz a letra. O cd é recheado de participações especiais: Didã, Rosa Reis, Alê Muniz, Erivaldo Gomes, Eliésio, entre outros.

Em shows recentes a cantora Alexandra Nicolas anunciou que gravará O segredo do coco. “Essa, quem me ensinou a cantar foi Didã” – intérprete da música em São João Madson Com Vida –, geralmente anuncia, antes de começar: “Tira o coco do coqueiro/ bota pra quebrar/ tira o leite desse coco/ que eu quero tomar/ rala o coco, soca o coco/ pra cunhã coar/ que o segredo do coco é peneirar// O segredo do coco é o leite/ o azeite na hora de apurar/ é o cheiro cheiroso na cozinha/ cunhãzinha preparando o jantar// Traz tucupi/ traz tacacá/ taca o coco na cuia/ pra cunhã coar”, diz a letra.

Uma vez irrompeu Bagdad Café adentro, em plena Praia Grande, cantando Stalone Strauss, cujos vocais divide com o sobrinho Alê Muniz no disco derradeiro: “Me dê um tom e um tema/ que eu vou cantar um poema/ um roteiro pra cinema/ enredo de carnaval// Me dê um tipo e um trato/ que eu faço mesmo é no ato/ só me assine um bom contrato/ que eu quero é virar o tal// E vou gravar um cd/ do bom da eme pê bê/ para estourar no Japão// Você só vai me ver/ em clipes da eme tê vê/ no Domingão do Faustão// E vou trocar o meu nome/ por outro que se consome/ um nome comercial/ um nome bem estrangeiro/ só pra ganhar mais dinheiro/ vou ser Stalone Strauss”, transbordava irreverência.

Em 2005 venceu o Festival Maranhense de Música Carnavalesca, promovido pelo Sistema Mirante de Comunicação, com seu Frevo na chuva: “E foi aí que eu te achei na chuva/ foi um barato muito legal/ você toda molhadinha/ só entrou na minha/ por que era carnaval// E era frevo na chuva/ quero ver, quero ver, quero ver/ você no meu guarda-chuva/ quero ver, quero ver, quero ver/ Venha, vamos botar pra moer/ eu e você fazendo o frevo ferver”.

É dele também um dos mais astutos jingles de propaganda político-partidária que já ouvi: quando candidata a prefeita em 2004, Helena Heluy (PT) tinha como adversários Ricardo Murad, João Castelo e Tadeu Palácio. Madinho, como era carinhosamente chamado pelos amigos, mandou bem: “Não quero Murad Castelo/ nem mesmo erguer Palácio/ amo demais São Luís/ eu quero é ser feliz/ é 13 de cima abaixo// Helena, o Lula lá já falou/ eu voto em quem vale a pena/ por isso eu voto em Helena/ pra nossa ilha do amor” – cito de memória, a exemplo das outras letras lembradas neste post.

Este obituário traz alguns poucos exemplos da genialidade de João Madson. Sua perda é, em si, uma tragédia. E revela outra: nossa falta de cuidados com a memória, em tempos virtuais. Experimentem “dar um google” com o nome dele (o que fiz, à cata de foto para ilustrar esta singela homenagem póstuma): as ocorrências são insignificantes (inclusive demorei a publicar este texto em busca de foto decente para ilustrá-lo).

Chorografia do Maranhão: Monteiro Jr.

[Última entrevista da série. O Imparcial, 24 de maio de 2015]

Cardiologista de profissão, violonista é o 52º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVANIO ALMEIDA SANTOS

Cardiologista de ofício, o médico Francisco das Chagas Monteiro Junior nasceu em São Luís em 25 de janeiro de 1960. Após o nascimento, morou em São Vicente de Férrer, na Baixada maranhense, terra natal de seus pais, Francisco das Chagas Monteiro, funcionário público estadual, coletor de renda, e a professora Maria do Rosário Monteiro. Depois, por conta do trabalho do pai, morou em Barão de Grajaú e Timon, antes de fixar-se em definitivo na capital maranhense.

Às margens do Parnaíba o violão entrou em sua vida: sua mãe comprou um instrumento de um rapaz que apareceu tocando em sua porta. Ali o menino começou a se arriscar, mas só deslanchou ao ingressar na Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo [EMEM]. Cursando pós-graduação e residência médica, ele morou ainda no Rio de Janeiro – concentrado na formação profissional, acabou não aproveitando o propício ambiente carioca, embora tenha passeado por suas míticas lojas de instrumentos musicais.

Num fim de tarde no Bar do Léo, o músico “do coração” concedeu seu depoimento à Chorografia do Maranhão, o 52º. da série. A entrevista foi ilustrada musicalmente por Brasileirinho [João Pernambuco], Abismo de rosas [Américo Jacomino] e um trecho de Choros nº. 1 [João Pernambuco].

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

Você nasceu em São Luís? Minha mãe veio me ter aqui. Depois eu voltei para lá [São Vicente de Férrer], fiquei uns seis anos. Depois fomos para Barão de Grajaú, por causa do lado dele [seu pai], funcionário. Depois viemos pra Timon, três anos lá, até vir para São Luís. Foi lá em Timon meu primeiro contato com violão.

Quem foi a figura? Então, como é que foi isso? Eu tinha uns 10 anos, mais ou menos, nove, 10 anos, apareceu um rapaz tocando violão lá em casa, na porta. Minha mãe, na infância, já tinha tido uma iniciação no piano, mas não continuou, não toca nada, ela tem 84 anos, hoje. Minha mãe já tinha esse contato, eu sou o filho mais velho, foi ideia dela, ela comprou o violão do rapaz, um violãozinho qualquer. Naquela época, interior, não tinha essa facilidade toda que tem hoje. Onde aprender? Com quem? Pegar de onde? Não tinha nada disso. Eu comecei a mexer ali, mas sem nenhuma orientação não rendia nada. Quando a gente veio para São Luís, eu devia ter meus 13 anos, mais ou menos, aí foi que a minha mãe contratou, iniciativa toda dela, um professor de violão. Naquela época nada mais era do que o cara que anotava o braço do violão, as posições. Aprendi os acordes naturais, aquela coisa bem básica, acompanhei umas musiquinhas, fiquei não sei quanto tempo, não lembro. Não estou lembrado o nome dele também. Era uma pessoa que tocava de esquina, tocava acordes naturais. Ficou por aí. Quando eu tinha 17 anos, eu tive a ideia de entrar para a Escola de Música.

Nessa época você já estava morando em São Luís? Já! Eu vim para cá com uns 13 anos, mais ou menos, foi a época que eu tive essa iniciação com esse rapaz, e aí eu fui para a Escola de Música. Na Escola de Música, naquela época, o esquema era o seguinte: você entrava, tinha um semestre, que eles chamavam de musicalização. Você tinha introdução à teoria musical, pegava na flauta, era tudo com flauta. O professor na época era o Gilles [Lacroix]. Ele dava musicalização. Eu vim reencontrá-lo recentemente, eu trabalho no [Hospital Universitário Presidente] Dutra, e ele mora ali por trás. Eu tive esse semestre de musicalização. O semestre seguinte seria pegar no instrumento que a gente escolhesse. Eu escolhi violão. Eu tive um semestre de aula com Joaquim Santos [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 8 de dezembro de 2013], por sinal eu vim reencontrá-lo na época desses recitais [apresentações de Monteiro Jr. no Teatro Arthur Azevedo], eu fui pedir ajuda para ele num arranjo para violino e tal. Já naquela época dava para perceber que ele é um cara de alto nível. Mas com ele foi só aquela parte bem inicial, “ó, isso aqui é mi”, aqueles exercícios básicos, bem inicial mesmo. No ano seguinte, a Escola funcionava só durante o dia, eu entrei na Faculdade [de Medicina]. Só tinha de dia, e o curso médico absorve demais, é de manhã e de tarde, não tem horário. Aí eu larguei a Escola, fiquei com pena e tudo, mas não tinha como fazer. Embora eu gostasse da música, em nenhum momento eu pensei em ser músico profissional, não houve esse dilema. Eu sabia que eu não ia abandonar aquilo, ia querer sempre ter um contato. Mais ou menos por essa época eu comecei a ter contato, a gostar mais, apreciar mais bossa nova, curti muito bossa nova, e comecei também a tocar. Naquela época eu já tinha as revistinhas, comecei a pegar cifras, aqueles acordes de bossa nova, foi uma coisa bem legal, gostei muito, comecei a tocar bossa nova.

Foi a época em que você formou em Medicina? Mais ou menos. Antes disso, eu achei interessante, acho que foi meu primeiro contato com música instrumental de violão, foi na João Henrique [rua no Centro, ao lado da Igreja de São Pantaleão], a gente morava ali quando veio para São Luís, e meu pai comprou uma vitrola, era um móvel grande, e eu lembro que o lojista deu, como brinde, um elepê de Dilermando Reis. Acho que naquela época, por volta de 13, 14 anos, foi meu primeiro contato, aquele disco Abismo de Rosas, da capa amarela, tem um violão na capa. Foi o primeiro contato, mas foi aquela coisa incipiente, depois veio essa passagem pela Escola, comecei a tocar por cifra, bossa nova, depois os grandes mestres da MPB, sou muito fã de Tom Jobim, Chico Buarque.

Dilermando te deu um despertar? Um despertar, mas eu não lembro no tempo quando eu comecei a esboçar solos ao violão. Depois o contato maior foi com a MPB mesmo clássica, dos grandes mestres, Tom Jobim, Francis Hime, que eu gostava muito, Edu Lobo, esse pessoal.

Na sua família havia músicos? Não, não tinha músico. Assim, até tinha, mas distante, eu não tinha convívio. O que aconteceu? Naquela época, mais ou menos pela faculdade, eu já tinha passado pela Escola de Música, eu começava a encomendar, sempre que alguém ia ao Rio de Janeiro, para ir lá à Rua da Carioca e trazer partituras. Eu comecei desenvolvendo um método próprio de botar aquelas partituras para o violão. Eu lembro que no começo demorava muito, pegar, dividir o compasso, ir colocando aquilo ali, foi mais ou menos assim. Aí eu comecei a pegar, partituras, Dilermando Reis, e mais adiante vieram algumas partituras já de choro, de João Pernambuco, foi mais ou menos esse contato. Quando da conclusão da faculdade eu fui para o Rio de Janeiro, fui morar lá, fiz pós-graduação, residência, mestrado, fiquei nove anos e pouco. Lá no Rio eu não tive nada de contato. A única vantagem foi estar próximo da Rua da Carioca e adjacências, eu adorava passear por ali, ficar garimpando partituras, pelo título. Eu andava por ali pela Guitarra de Prata, Bandolim de Ouro [míticas lojas de instrumentos musicais no Rio de Janeiro]. Eu comecei a comprar partituras por conta própria, fazia minha própria seleção. Fiquei estes anos lá, voltei para São Luís, era 1992, e aqui continuei tocando em casa, em família. Eu acho que aí um marco importante foi meu contato com Biné [do Cavaco, Os Irmãos Gomes, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 22 de junho de 2014].

Antes da vitrola e do disco de Dilermando Reis você tem outra lembrança musical, do ambiente? O que se ouvia em casa? Teus pais eram grandes compradores de discos? Não, nada em especial. Inclusive meu pai, que era funcionário público, era um cara muito conservador, eu tive uma criação muito tradicional, ele nunca aprovou essa história de violão. Era coisa da minha mãe. Minha mãe era mais inovadora, mais liberal. Meu pai não aprovava isso, achava que violão, aquele preconceito, talvez hoje menos, aquela coisa, ia desvirtuar, levar para a bebida, afastar da escola, tinha essa ideia. Mas também nunca proibiu, apenas não estimulou. Eu fico pensando, fazendo um paralelo, quando eu me apresentei no Teatro [Arthur Azevedo], eu gostava de pesquisar a vida, algumas curiosidades da vida dos compositores. E eu fiz uma apresentação intitulada De bossa a Bach, e ia de Samba do avião [Tom Jobim] até alguns eruditos, e eu estava pesquisando algumas coisas sobre a vida do Tárrega [o compositor e violonista espanhol Francisco Tárrega], que é um grande mestre. Na vida dele, pela fonte que eu li, o violão foi acidental. Ele quando garotinho teve um acidente com a babá, um afogamento, um negócio, e teve uma deficiência visual. E os pais na Espanha resolveram se mudar para uma cidade onde houvesse um conservatório de música, por que um cego, a única coisa que poderia dar a ele um ofício seria ser músico. Depois ele reverteu o problema na visão, mas mudaram e ele despertou, é um dos maiores músicos de todos os tempos.

Quando você recebeu o disco do Dilermando Reis despertou para o violão além da bossa. Depois de Dilermando quem foram teus principais mestres para desenvolver essa capacidade? Me impressionou muito, aquele violão de cordas de aço. A única coisa formal foi essa passagem de um ano pela Escola de Música. Ali eu aprendi a passar uma pauta para o braço, a base, uma coisa bem básica, não a desenvolver. Nessas aulas eu não cheguei a tocar música nem nada. A partir daí as partituras, aí eu comecei a fazer sozinho, esse período todo no Rio de Janeiro e depois de voltar para cá.

E nessa trajetória autodidata que músicos te impressionaram, te instigaram a buscar mais aprendizado? Não houve uma pessoa que tenha convivido comigo. Nesse período eu comecei a me interessar por comprar discos, cds. Eu tinha partituras e comecei a comprar e ouvir cds. Foi quando eu comecei a conhecer [os violonistas] Baden Powell, Raphael Rabello, já foi até mais para cá, mais pra cá também eu curti muito Paulinho Nogueira, Toquinho. E outros discos de Dilermando Reis.

Que papel teve Biné [do Cavaco] em tua trajetória? Eu acho que ele é um divisor de águas no seguinte aspecto: eu o encontrei a primeira vez na casa do doutor João Bosco Barros Rego [médico, poeta, ex-deputado], um cara multi, hoje está no interior, é meu paciente. Na casa do Bosco, tem uns 15 anos, ele foi meu professor na faculdade, era chefe de meu departamento. Ele tocava alguma coisa e fazia uns encontros musicais na casa dele, acho que no Recanto dos Vinhais. Num desses encontros eu encontrei o Biné, acho que ele dava aula para ele de violão. Biné, é até engraçado, desde o começo houve aquela empatia, e ele costuma dizer, se gabando, que até eu conhecê-lo, eu era um músico de apartamento, de não compartilhar, tocando sozinho. A partir do Biné é que ele começou a me chamar para as rodas, aquele pessoal do Bairro de Fátima, começamos a nos encontrar também na casa do Bosco, e começou a me estimular a tocar com outros, até então eu tocava sozinho. Tinha outros músicos, da família dele, vocês conhecem bem. Seguindo na história, acho que mais ou menos há 10 anos, eu tive contato com [o multi-instrumentista Arlindo] Pipiu, foi outro marco. Eu já o conhecia da infância, eu morava ali pela São Pantaleão. Eu lembro daquela figura, daquela época, magrinho, cabelo black power, mas ele não me conhecia. Eu tive um casamento, tenho dois filhos, já adultos, uma filha médica, um filho vai fazer medicina. Aí eu me separei, estou numa segunda união. Minha esposa atual é enfermeira, e a gente fez uma cerimônia em casa, uma celebração, e Pipiu apareceu. Eu o contratei para tocar, alguém me deu o telefone. Ele foi com o violão, sozinho, depois eu pedi e toquei também. Ele gostou. Eu sabia desse histórico dele, que ele era um grande músico, sabendo disso eu me aproximei mais ainda, houve uma empatia. Aí ele me convidou para ir na São Pantaleão, no estúdio dele, ele já estava com o estúdio montado. Eu gravei um cdzinho lá, uma coisa bem doméstica. Inclusive na época, nem houve um contrato formal, eu ajudei com a despesa, essas músicas, Sons de carrilhões [João Pernambuco], e por aí vai. Quando eu olhei aquilo gravado, até me surpreendi. É aquela coisa de você não dar muito pelo que faz. Quando eu vi gravado eu achei bonito aquilo. Ele estava com tempo e foi uma ideia acho que até mais dele, “Monteiro, vamos apresentar isso aí, vamos levar para o Teatro, eu tenho uns contatos aí, a gente arruma”. A gente começou a trabalhar em cima disso. Na época estava se formando uma associação de cardiopatas, eu uni uma coisa à outra. Já tinha o Biné no circuito, entrou o Pipiu, ele agregou alguns músicos, aí me veio a ideia de fazer um projeto, chama Tocando com o coração. Consiste nisso: a gente faz apresentações públicas, vende cds para amigos e parte dessa arrecadação é transferida, doada para alguma instituição. E assim foi. Teve o primeiro, já foram cinco. Em sequência gravamos outros dois cds, Tocando com o coração, volumes dois e três. O primeiro e o segundo a gente fez na raça, não tinha muita assessoria, Pipiu produzia. Depois entrou no circuito o Mário Jorge [produtor], pegou essa parte de produção, promoção, mídia. Fizemos os últimos três com ele. Mais ou menos por essa época foi que eu tive contato com Márcio Guimarães [cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 25 de janeiro de 2015], ele era namorado de minha sobrinha, hoje é casado com ela, a Thaís [Tathy Estrela, cantora]. Márcio fez Escola, é um músico dedicado, muito bom. O Márcio foi muito importante como motivação, aprendi muito com ele. Eu era muito amarrado a algumas regras que eu mesmo me impunha, era muito contido. Ele me libertou um pouco, essa coisa de colocar o dedo no lugar certo, ele me dizia: “o importante é o som, é o que sai”.

Você não vive para a música nem de música, não é? Nunca nem ganhou um cachê? Não, nunca pensei. Não. Quer dizer, uma vez a gente fez uma apresentação com Mário Jorge, no Armazém [da Estrela, extinto bar na Praia Grande], mas o cachê também foi doado, eu não recebi para mim. Os músicos que estão comigo, o que arrecada, a gente os paga.

Você se vê sem a música? Não. Sem o violão, não. É uma coisa que assim, ave maria!, [pensativo] um acidente com as mãos. Eu gostava de jogar vôlei. Minha primeira esposa quebrou um ossinho da mão, jogando, depois disso eu não quis mais. É uma coisa muito importante, independente de apresentar. Uma coisa para mim mesmo, eu pego isso aqui [abraça o violão].

Você já integrou algum grupo de música? Só com essa turma, e em rodas informais. Às vezes, depois que eu conheci o Pipiu, eu fiz saraus em casa, eu tenho alguns registros em dvd disso. A gente chamou muitos músicos, Osmar do Trombone [Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 23 de junho de 2013], Zezé da Flauta [Zezé Alves, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 9 de junho de 2013], Robertinho [Chinês, bandolinista e cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 28 de abril de 2013], essa turma toda já passou, a gente já fez algum encontro.

Eu vi você tocando agora no Dia Nacional do Choro [23 de abril, na sede da Associação Atlética Banco do Brasil – AABB]. Foi um momento muito bonito. Foi. Eu, Pipiu, Nonatinho [percussionista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 6 de julho de 2014] no pandeiro e o Biné no cavaco. Nessa trajetória, eu acho esquisito chamar de show, mas essas apresentações no Teatro foram muito importantes, muito marcantes na minha vida. Eu sempre fui muito contido, sou uma pessoa tímida. Engraçado, foi um ciclo: a gente fez aquilo ali, veio aquela inspiração, aquela motivação, dá trabalho. Eu levava um ano, escolhendo repertório, ensaiando, dá trabalho, às vezes eu tinha que me afastar de horário de consultório, uma semana, duas semanas, me afastar totalmente para poder ficar dedicado àquilo. Esses cinco recitais, eu não afasto a possibilidade de fazer alguma coisa, mas parece que aquele frenesi, aquela coisa, você realiza, ficou um pouco… [se interrompe] Eu me contento, às vezes faço um sarau em casa, [vou] quando a gente é convidado. Recentemente eu fui numa casa de idosos, um amigo convidou, estava fazendo uma comemoração, já fui na universidade também.

Além de instrumentista, você desenvolve outras habilidades na música? Na vida acho que eu devo ter feito umas três ou quatro composições, eu nunca divulguei nem toquei. Uma é instrumental, eu botei Valsinha de Clara, minha filha, tem nove anos hoje, por sinal gosta de cantar também, se apresentou uma vez no Teatro comigo, quando ela fez cinco anos. Mas não tenho essa coisa de compor.

E os arranjos? Eu adapto. Ao longo dessa caminhada eu fiz alguns arranjos, principalmente de música popular, por exemplo, Carolina, de Chico Buarque, é o nome da minha filha mais velha, tem 29 anos, vai casar agora, eu fiz um solo para Carolina. Foi uma experiência muito interessante fazer estes espetáculos, sempre um bom público, claro que muitos amigos. Eu sempre vi nisso, eu nunca pretendi ser um virtuose. Para tocar num nível muito elevado tem que ter dedicação, não há como chegar a este ponto pegando meia hora de violão por dia, não tem como.

Você pega o violão todo dia? Quase todo dia. Não tenho disciplina, “agora é a hora do violão, vou sentar e tocar uma hora, duas horas”, não. É aquela coisa, pega, toca um pouquinho. O propósito sempre foi primeiro compartilhar

Além de violão você toca algum outro instrumento? Não. Nunca quis, nunca me interessei. Nada.

Você já gravou três discos. Já participou de discos de outros artistas? Três discos, Tocando com o coração, três volumes. Sempre priorizando o repertório de violão. Em um a gente colocou Aquarela, de Toquinho, o forte sempre foi João Pernambuco, Ernesto Nazareth, Dilermando Reis. Não, nunca participei. Devo dizer que ao longo dessa caminhada uma coisa muito interessante foi conhecer pessoas. Os shows sempre tiveram parcerias, convidados especiais, Robertinho Chinês, no início, participou, Solano [o violonista sete cordas Francisco Solano, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 26 de maio de 2013], Pipiu, Biné, eram mais constantes, teve muita gente boa, Rui Mário [sanfoneiro, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 7 de julho de 2013], Talitha e Taynara, aquelas irmãs.

Para você, qual a importância do choro, a importância dessa música? O que eu posso dizer é que eu acho muito bonito. O choro, João Pernambuco, eu sempre fiquei muito encantado com isso, alguns o consideram o pai do violão brasileiro, acho-o genial. As músicas dele, parece até de propósito, têm uma dificuldade.

Quem, hoje, no Brasil, do violão, te chama a atenção? Na atualidade me chama a atenção o Yamandu Costa. Eu acho excepcional. Mas para te falar a verdade eu nem aprecio tanto aquela pegada quanto eu aprecio o violão, por exemplo, de Baden Powell, Raphael Rabello, Sebastião Tapajós, Paulinho Nogueira.

E no Maranhão? Admiro muito o Luiz Jr. [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 4 de agosto de 2013], embora também ache que a praia dele é totalmente diferente. Ele é um virtuose. Eu esqueci de citar, mas depois de Biné eu tive um contato com Hermelino Souza [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 30 de novembro de 2014]. Ele era meu paciente, é muito calado. O Hermelino foi muito interessante, ele segue essa linha do erudito, é mais para o erudito, o conhecimento dele extrapola, tem um conhecimento mais vasto na área erudita. Eu fui uma vez na casa dele, ele tem um quarto, como se fosse uma biblioteca, enorme, só de partituras. Inclusive ele me conseguiu algumas partituras, sei lá, Tempo de criança [Dilermando Reis]. Ele me deu algumas que eu não tinha, ouvia em cd e queria. O convívio com ele também foi bem interessante. Eu não tive nenhum convívio com João Pedro Borges [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 14 de abril de 2013], chegamos a nos conhecer. Meu filho que mora em São Paulo chegou a ter aulas com ele, no Ceuma, ele dirigiu o Musiceuma. Turíbio [Santos, violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 29 de setembro de 2013] também é uma referência, eu ouvi muitos cds.

Você tem convivido com essa turma mais jovem do Maranhão. Como você avalia o nível do choro praticado no Maranhão? Acho que tem excelentes músicos, excelentes instrumentistas. Naquele dia do choro foi um desfile de virtuoses, o Rafael [Guterres, cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 18 de maio de 2014], Wendell [Cosme, bandolinista e cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 24 de novembro de 2013], o outro Wendell [de la Salles, bandolinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 15 de março de 2015], que agora toca com Solano e Paulo [Trabulsi, cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 22 de dezembro de 2013]. Tem muita gente boa. Talvez o que esteja faltando sejam maneiras de levar isso a um público maior. Você vê que no dia do choro não estava lotado. É isso que está faltando. É uma música de excelente qualidade. Músicos, tem bastante aí.

Você falou da centralidade da bossa nova em teu interesse por violão. Você se considera um chorão? Eu não sei. Eu me vejo assim, o Márcio me diz: “tu é um músico”, e eu penso: “não, eu sou médico”. Eu demoro a me considerar, talvez seja uma modéstia, achar que eu tenho nível, será que posso me considerar? Mas acho que posso dizer que sim, por que eu gosto muito, aprecio muito esse gênero. Independente de eu ser um grande intérprete ou não, eu gosto, gosto de tocar violão, músicas desse gênero. Nesse sentido, sou interessado em buscar, estou sempre pesquisando. É diferente, por exemplo, do samba. Eu gosto, mas não aprecio com a mesma intensidade. É claro que tem o viés do violão, eu não cheguei ao choro por chegar ao choro, cheguei através do violão. É uma via. Ou você chega por influência de alguém. É uma música de qualidade, é muito boa. É a maior parte de meu repertório para violão.

Bandeira de aço: documentário sobre o disco é disponibilizado no youtube

No dia 28 de maio de 2013 vários artistas subiram ao palco do Teatro Arthur Azevedo para celebrar os 35 anos de Bandeira de aço, antológico disco de Papete, lançado pela gravadora Discos Marcus Pereira, em 1978. A iniciativa era do Festival BR 135, capitaneado pelo casal Criolina, leia-se, Alê Muniz e Luciana Simões.

No disco, vencedor de enquete do jornal Vias de Fato, Papete cantou nove músicas, os primeiros registros fonográficos das vastas, importantes e belas obras de Cesar Teixeira, Josias Sobrinho, Ronaldo Mota e Sérgio Habibe.

Por ocasião do espetáculo, um documentário foi exibido, contando a(s) história(s) do disco, destacando sua importância, e botando o dedo em feridas. O filme tem depoimentos dos quatro compositores e do intérprete, além de nomes como Chico Saldanha (compositor que fez chegar a fita com as canções às mãos e ouvidos de Marcus Pereira) e Zeca Baleiro, entre outros.

Com roteiro de Celso Borges e Andréa Oliveira, o documentário (finalmente) foi disponibilizado pela produção, na íntegra, no youtube. Assista:

Rec-Beat busca alternativas para seguir acontecendo com qualidade – e de graça

Arte: Karina Buhr
Arte: Karina Buhr

 

Entre os próximos dias 6 a 9 de fevereiro, isto é, durante o carnaval, o Cais da Alfândega, no Recife, sedia a 21ª. edição do Rec-Beat, um dos mais longevos festivais de música do Brasil. Antonio “Gutie” Gutierrez sentiu a ameaça de, pela primeira vez em duas décadas, o festival não acontecer, e foi à luta: lançou uma campanha de financiamento coletivo, visando manter o nível das atrações – embora o festival seja um pouco menor em 2016 – e a gratuidade do evento.

“Vamos fazer juntos o festival” é o slogan da campanha, que pretende arrecadar 200 mil reais até o dia do início do Rec-Beat, que ao longo de duas décadas sempre primou por inovação e qualidade em sua programação. As recompensas pelas doações – clique aqui para colaborar –variam de brindes personalizados até ingressos para outros festivais brasileiros, além da coautoria da realização desta edição.

Pernambucana nascida na Bahia e radicada em São Paulo, com alguns Rec-Beat no currículo, entre bandas como Comadre Fulozinha e Eddie, além de em carreira solo, Karina Buhr assina a arte do pôster deste ano.

De acordo com Gutie, a crise financeira em que mergulhou o país gerou cortes de até 50% do patrocínio, de “um valor que já não era tão expressivo”, segundo o produtor. Para termos uma ideia, prefeituras de três municípios maranhenses já anunciaram a não realização de um circuito oficial (leia-se: estatal) do carnaval este ano – Coelho Neto, Pedreiras e Santa Inês –, de acordo com informações do jornal O Imparcial.

Gutie conversou com exclusividade com o Homem de vícios antigos.

"Esse aperto está nos levando a pensar em coisas novas", afirma Gutie. Foto: Diego Nigro/ JC Imagem
“Esse aperto está nos levando a pensar em coisas novas”, afirma Gutie. Foto: Diego Nigro/ JC Imagem

 

O que houve ao longo dos anos com o financiamento do Rec Beat?
No inicio, por três edições, o Rec-Beat foi realizado em Olinda, na área interna de um casarão, o Centro Luiz Freire. Aí havia cobrança de ingressos, um preço simbólico, suficiente para cobrir os custos, que não eram altos porque ainda era o início do projeto e tudo era feito mais como uma diversão, com uma estrutura bem simples. Em 1999 fomos convidados pela Secretaria de Cultura do Recife para levar o Rec-Beat para o Bairro do Recife, sítio histórico da cidade. O objetivo era o festival ser uma âncora para o público jovem de um projeto de fomento do carnaval no bairro, ainda muito incipiente. A partir daí o festival passou a receber patrocínio da Fundação de Cultura Cidade do Recife (FCCR) e também se tornou gratuito, como é até hoje. A gratuidade é um ponto chave do festival e tem o lado bom e o lado ruim. O bom é que dá uma grande liberdade para se fazer uma programação mais ousada, pautada em novidades, em coisas mais experimentais que ainda não estão inseridas no grande mercado, ou seja, não precisamos escalar nomes do mainstream para atrair público pagante, uma vez que a gente não vende ingresso. A gratuidade permite que o público tome contato com bandas desconhecidas, ou pouco conhecidas, que certamente ele não pagaria pra ver se não estivesse ali, na rua, sem custo para ele. O lado ruim é que o festival perde uma fonte de receita, ou seja, o festival não pode contar com recursos de venda de ingressos para cobrir seus custos, e passa a depender, dessa forma, exclusivamente de patrocinadores e apoiadores. O Rec-Beat cresceu muito, ao longo dos anos, mas o patrocínio oficial não acompanhou a evolução dos custos de realização do evento. Além disso, o Rec-Beat sofre uma limitação para captar recursos junto à iniciativa privada, tendo em vista que a Prefeitura já tem acordos com grandes patrocinadores que impedem o festival de captar recursos desses mesmos patrocinadores ou de concorrentes do patrocinador oficial, como cervejarias, por exemplo. Com o agravamento da crise financeira do país este ano e um corte do patrocínio da ordem de 50%, de um valor que já não era tão expressivo, fomos em busca de saídas para manter o festival no nível conquistado, principalmente no que se refere ao conteúdo artístico, conceitual, e a gratuidade. Foi aí que abrimos várias frentes, e uma delas foi a tentativa do financiamento coletivo.

Muitos artistas têm recorrido ao financiamento coletivo para a realização de trabalhos artísticos (filmes, livros, cds, dvds, exposições etc.). O Rec-Beat parece ser pioneiro para a realização de um festival. O crowdfunding é “o” caminho, hoje?
Creio que somos pioneiros nisso, até agora não vi nenhum festival independente recorrer a esse mecanismo para levantar recursos. Pra gente é uma incógnita, não sabemos onde vai dar. A gente vê vários projetos de CDs, livros, filmes alcançando êxito. Mas não temos uma referencia de projeto para festival. Certamente com esta experiência vamos poder aprimorar a estratégia, avaliar os acertos e erros, caso a gente venha a fazer no próximo ano. Nesse momento que estou respondendo a essa sua pergunta o que posso dizer é que o fluxo de adesão à campanha ainda não decolou, mas ainda faltam alguns dias para o encerramento. Mesmo assim eu acho que o crowdfunding pode vir a ser uma boa opção para o financiamento de festivais como o Rec-Beat.

O momento por que passa o já tradicional festival é reflexo da crise que atravessa o país?
Acho que reflete a crise econômica e também a falta de discernimento enfrenta-la. Quando você sofre restrição econômica, você tem que adotar um critério para reduzir seus custos de modo a manter o que é importante e vai te dar retorno e eliminar o que é supérfluo e só vai lhe trazer mais despesas. Eu não tenho dúvida de que o Rec-Beat traz um imenso retorno para o patrocinador, para o público, para a música independente, para a nova música brasileira, para a nova música latino-americana, para a tradição do carnaval pernambucano. O festival traz público. O festival contribui como destino turístico, para o fluxo de renda. Ano passado, e este ano também, o Rec-Beat entrou na agenda de três revistas de bordo de empresas aéreas colocando o evento como destino no carnaval, sem contar o destaque que recebe em vários veículos da imprensa nacional. A mídia espontânea gerada pelo festival, quando valorada, supera em três vezes o custo do festival. Ou seja, como é que você corta severamente o patrocínio destinado a um evento que traz tantos benefícios? Estamos passando por uma forte crise econômica, é fato. Eu já vivi momento pior que isso. O Rec-Beat tem 20 anos. Está sendo um ano difícil, mas por outro lado esse aperto está nos levando a repensar muita coisa, a trabalhar novas parcerias, pensar em coisas novas. Incrível também a solidariedade de muitas bandas e artistas, que estão chegando espontaneamente e oferecendo apoio. Acima de tudo é bom momento pra saber quem está por dentro e quem está por fora.

O ministro Juca Ferreira deu uma entrevista ao jornal online Nexo afirmando que o MinC já vive um momento “pós-crise”. O que você poderia comentar a respeito da fala dele?
Respeito muito Juca Ferreira, um grande gestor, um dos melhores ministros que esse país já teve na área da cultura, e só o fato de Marta Suplicy não gostar dele já mostra que ele é boa gente. Acho que quando Juca diz que já vivemos um momento de “pós-crise” talvez ele queira dizer que estamos conscientes que estamos vivendo uma crise e adotando caminhos para superá-la. Concordo quando ele diz, na entrevista, que a crise é menor do que parece. Antes de tudo vale dizer que a crise é mundial, o mundo vive um momento de retração econômica, que reflete principalmente o esfriamento da economia chinesa. Nossa visão da crise no Brasil é dada pelos grandes meios, o famoso PIG [o partido da imprensa golpista], que aliado a uma oposição medíocre, está impedindo que Dilma governe e que adote medidas para superar as dificuldades. E quando você tem um bombardeio diário na mídia falando de crise, crise, crise… é claro que acaba criando uma expectativa negativa nos agentes econômicos. Só acho que o MinC deveria nesse momento ter mais cautela no lançamento de editais de financiamento de projetos. Existe muita pendência de editais aprovados cujos recursos não são liberados. Isso cria um desgaste muito grande junto aos produtores que são contemplados e que depois recebem a notícia de que o dinheiro não existe.

Que nomes já estão confirmados para a edição 2016 do Rec-Beat? Além do corte no patrocínio, o festival sofrerá alguma espécie de diminuição?
Vamos reduzir uma atração por noite, que na verdade significa voltar ao formato que já fazíamos um ano atrás. Serão cinco bandas e mais um dj por noite fazendo os intervalos entre as bandas. Além disso, devemos ter festas after com djs, em uma casa fechada, no Bairro do Recife. Também mantivemos este ano o “Rec-Beat Apresenta”, que é uma proposta de realizar no período pré-carnaval uma noite com três bandas novas, revelações, nas quais o festival aposta. Este ano, além de fazer no Recife, estamos fazendo o “Rec-Beat Apresenta” também em Joao Pessoa, lá também com três bandas. Nesse momento que respondo a essa pergunta já temos confirmado oficialmente para o Festival Rec-Beat 2016: Maite Hontelé (Colômbia), Moh! Kouyaté (Guiné), Liniker (SP), Francisco-El Hombre (México/Brasil), Luísa e Os Alquimistas (RN), Duda Brack (RS). Até o final da semana teremos tudo definido.

Show de sensibilidade

EMILIO AZEVEDO*
ESPECIAL PARA O BLOGUE

Acompanhada do sete cordas João Eudes, Tássia canta Nara. Foto: Rejane Galeno
Acompanhada do sete cordas João Eudes, Tássia canta Nara. Foto: Rejane Galeno

Foi num lugar muito especial, o bar do senhor Francisco de Assis Leitão Barbosa, no Centro de São Luís. Ocorreu no dia 22 de janeiro de 2016. A cantora arrebentou. Deitou e rolou, fez e aconteceu. Introjetou letras e músicas, soltando a voz, descendo literalmente do salto e fazendo chover literalmente. Enfim, assistido por uns 70 privilegiados, foi muito interessante o show que Tássia Campos fez ontem, no Chico Discos, homenageando Nara Leão.

Acompanhada do músico violonista João Eudes, ela cantou composições de Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Ronaldo Bôscoli, João Gilberto, Fagner, Zé Kéti, João do Vale, Roberto e Erasmo Carlos, Bené Nunes, Ari Barroso e Chico Buarque de Holanda. Destaque (as que mais me arrepiaram) para Carcará (João do Vale e José Cândido), João e Maria (Chico Buarque e Sivuca) e Noite dos Mascarados (Chico Buarque). Ao todo foram vinte canções, com mais duas após os pedidos de “mais umas”.

Tássia agrada naturalmente pela voz, misto de talento e trabalho. Como me disse Leo (o do outro Bar), “é uma menina estudiosa”. Mas, além da dádiva e do estudo, ela me chama a atenção por certa agressividade. Não por uma agressividade fruto da grosseria inconsequente, ou de algum tipo de estupidez. Falo de uma agressividade que se reflete (também) no palco e me parece relacionada com sensibilidade, ternura e insubordinação, consequência de inquietações artísticas, sociais, místicas, existenciais, libertárias.

É a mesma bendita insubordinação que fez com ela mandasse “se fuder”, um burocrata que certa vez tentou atrapalhar seu trabalho no antigo bar Odeon, ou então, a ternura que lhe deixou de olhos arregalados, ao observar os versos de Carlos Drummond de Andrade, declamados pela atriz Rosa Everton, na abertura deste mesmo show dedicado a Nara Leão. É a sensibilidade de uma operária da arte, que com seu cotidiano de cigarra-formiga, enfrenta diariamente “os batalhões”, “os alemães e seus canhões” e que guarda “o seu bodoque, ensaiando rocks para as matinês”.

*Emilio Azevedo é jornalista do Vias de Fato.

O dial da memória sintonizando o FM Abissal

Em 2014, contratado como assessor de comunicação da Aldeia Sesc Guajajara de Artes, me vi diante de um dilema: o show principal da noite de abertura do evento teria a banda pernambucana mundo livre s/a (que eu nunca havia visto ao vivo) tocando de graça na Praça Nauro Machado, mesma data em que o baiano Elomar Figueira de Mello se apresentaria, ao lado do filho João Omar, no Teatro Arthur Azevedo, com ingresso pago.

Imaginei que a apresentação de Elomar começasse praticamente sem atraso, que o show durasse algo entre uma hora e hora e meia e que o show do mundo livre atrasasse, em virtude do que sempre acontece quando um show principal fecha uma noite de programação, precedido por outras apresentações. Isto é, eu conseguiria ver ambos os shows. Mas meus cálculos estavam errados, matemática nunca foi meu forte, e Fred Zeroquatro e companhia continuam praticamente inéditos ao vivo para mim.

Digo “praticamente inéditos” por que ao chegar à praça, voltando do teatro, ainda ou/vi as últimas palhetadas do jornalista e compositor ao cavaquinho, encerrando o bis.

Não me arrependi da escolha e sei que a hora de ver/ouvir o mundo livre s/a chegará. Profissionalmente não me penitencio: a pequena equipe de assessoria com que eu contava deu conta do recado, isto é, de contar o que foi a noite de abertura daquela edição da Aldeia.

Antes do show de Elomar começar, enquanto enxugava umas latinhas com o amigo Otávio Costa no bar do Arthur Azevedo, recebi um telefonema: Fernando Matos – cujo aniversário, hoje (20), me fez lembrar essa história –, o lendário DJ Abissal, estava em São Luís e me convidava para “molhar a palavra”. Informei-lhe que estava no teatro para assistir Elomar e avisei-o do show do mundo livre s/a, a que ele acabou assistindo. “Eu não esperava tanta opção”, revelou-me o amigo pernambucano, que baixou na Ilha numa quinta-feira útil, a trabalho.

Elomar e sua produção proibiram fotos – regra que dei um jeito de desrespeitar, mas o resultado foi tão tosco que joguei todas fora, depois. Uma amiga, com uma máquina melhor, teve melhor sorte.

O mundo livre s/a posou para fotos com fãs. Levei Fernando ao camarim e acabei por promover, em plena São Luís, seu reencontro com Zeroquatro, o Montenegro que foi seu contemporâneo de “científico” e UFPE. Daniel Sena clicou e ainda tivemos pique para ir até A vida é uma festa!, capitaneada pelo poetamúsico ZéMaria Medeiros, àquele ano integrada à programação da Aldeia Sesc Guajajara de Artes.

FM, 04 e o blogueiro no camarim, após o show do mundo livre s/a. Foto: Daniel Sena
FM, 04 e o homem de vícios antigos no camarim, após o show do mundo livre s/a. Foto: Daniel Sena

Chorografia do Maranhão: Paulinho Oliveira

[O Imparcial, 29 de março de 2015]

Flautista, professor da EMEM e membro da primeira formação do Instrumental Pixinguinha, o músico é o 50º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVANIO ALMEIDA SANTOS

Seu cartão de visitas é certeiro: “Eu sou filho da Madre Deus, vocês sabem que quem nasce na Madre Deus já é musical. Ouvi muita música, batucada, Fuzileiros [da Fuzarca, bloco carnavalesco sediado no bairro], Turma do Quinto [escola de samba idem], os terreiros, [Casa das] Minas, [Casa de] Nagô”. Ainda no bairro boêmio em que nasceu, Paulo Oliveira dos Santos Filho começou a soprar em flautas feitas por seu pai com taboca de mamoeiro.

Seus pais eram operários da fábrica de Cânhamo, nos arredores, onde hoje estão instalados o Ceprama e o Museu do Tambor de Crioula. Paulinho Oliveira nasceu em 26 de julho de 1965, filho do pernambucano Paulo Oliveira dos Santos e Maria José Ribamar Silva.

Sorridente e descontraído, Paulinho deu seu depoimento à Chorografia do Maranhão, o 50º. da série, na Sala Turíbio Santos, na Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo [EMEM], onde leciona. A entrevista foi ilustrada musicalmente por Corrupião, de Sérgio Habibe [compositor].

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

Em sua infância, você se lembra do movimento do operariado em torno da fábrica Cânhamo? Não tenho muita lembrança, mas vagamente alguma coisa. Eu ia levar marmita, quando criança, junto com minhas irmãs mais velhas, eu sou o caçula de quatro, dois homens e duas mulheres.

Você tem outra profissão, além de músico? Eu trabalho só lecionando. Estudei no Senai [o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial], fiz curso na área técnica, mas não quis exercer a profissão. Na Escola Técnica [hoje Instituto Federal do Maranhão – IFMA] eu estudei na banda, com Maestro Nonato, que foi meu primeiro professor de música, assim em um curso regular, sistemático, né? Eu sou filho da Madre Deus, vocês sabem que quem nasce na Madre Deus já é musical. Eu sou uma pessoa que ouvi muita música, batucada, Fuzileiros, Turma do Quinto, os terreiros, Minas, Nagô.

E na sua casa? Teus pais tocavam algum instrumento? Minha mãe participou de baralho, brincadeiras carnavalescas, populares. Meu pai não teve isso. Papai tinha muitos amigos, gostava de encontrar.

Ele conviveu com os boêmios da Madre Deus, de algum modo? Sim, [os compositores] Cristóvão [Colombo da Silva, popularmente conhecido por Cristóvão Alô Brasil], Sapo [Henrique Martiniano Reis], Tabaco [Hermanegildo Tibúrcio da Silva], Bibi [Silva], Patativa [Maria do Socorro Silva], trabalhou na Cânhamo com ele.

A Madre Deus sempre foi um ambiente propício. Eu sou filho da Madre Deus, aquele ambiente, tambores, tinham alguns comércios próximos de minha casa, músicos amadores iam até ali, meu irmão mais velho era músico amador, violonista, tocou muito em bailes. Uma influência muito grande ali que eu tive foi a de conviver com grandes ritmistas, como Welllington [Reis], Amauri, Prio, finado Tião, Eloy, Biné do Banjo [banjoísta, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 31 de março de 2013], outros que eu esqueci o nome.

Você lembra com que idade começou a tocar? Vem de criança. Eu lembro que na Madre Deus tinha um senhor, ele trabalhava e fazia algumas flautas, pífanos, aquilo foi me levando. Meu pai fabricava instrumentos para mim de cano de mamoeiro, brincadeira de criança. Eu comecei mesmo com flauta doce, houve um tempo aqui em que os jovens tocava muita flauta doce, eu fiz parte de movimento de Igreja, a gente tocava de ouvido, tinha uma musicalidade, eu fui me envolvendo. Na oportunidade em que eu conheci o Gilson [César, ator e mímico], ele me levou para o Laborarte [Laboratório de Expressões Artísticas do Maranhão], eu fiz parte do Departamento de Música do Laborarte, ali pela década de 1980.

Quando você fez parte do Laborarte já tinha passado pela Escola Técnica? Pela Escola! Nessa época eu estava estudando flauta transversa. Nesse período, que eu encontro o Gilson, que me apresenta o Raimundo Luiz [bandolinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 15 de setembro de 2013]. Eles foram a ponte para eu chegar até a Escola [de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo], onde eu cheguei como aluno. Eu já tocava um pouco de flauta doce. Tive aulas com professor Vanilson [Lima], Wolf Clemmens [Hilbert], alemão, foi o cara que trouxe a flauta doce para cá para o Maranhão, para São Luís. Eu tive aulas particulares com ele, ele já não era mais da Escola.

Teus principais mestres seriam estes? Sim, na área de flauta doce. Eu tive aulas com Lisiane [Nina], Zezé Alves [flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 9 de junho de 2013], este é o pai dos flautistas daqui. Comecei a estudar teoria musical, eu já tinha começado na Escola Técnica, mas a Escola de Música é que foi mesmo o grande alicerce.

Quando você escolheu seguir a música, teus pais te apoiaram? Naquele período, aqui no Maranhão, não era uma coisa tão bem vista. Tinha aquela coisa, “você vem de uma família de negros, pobre, mora na periferia, olha teu irmão”. As pessoas queriam que eu exercesse uma profissão que me desse um lucro financeiro.

Que músicos você citaria entre suas principais influências, aqueles que te levaram a ser o músico que és hoje? Lisiane foi uma grande figura, Zezé, Raimundo Luiz, Tomaz [de Aquino Leite], muita gente, muita gente.

Como é que você enveredou pelo choro naquele período? A minha linha musical, eu comecei na Madre Deus, ritmista, percussão, a minha linguagem era dentro disso, o samba. Quando eu entrei na Escola de Música foi que eu fui descobrir a música clássica, erudita, comecei a percorrer esse caminho. Meus estudos de flauta doce eram mais relacionados à música erudita. Nesse período, quando eu entrei na Escola de Música, ela não era direcionada à questão da música popular. Essa minha relação com o choro começou através de Zezé, eu comecei a ter aulas com ele. E no Laborarte, no Departamento de Som, a coisa da cultura popular, mesmo.

Você então vivenciou aquele ambiente laborarteano de pesquisa. Sim, tive contato com tambor de crioula, divino, cacuriá, Mestre Felipe, era um laboratório, a gente fazia um trabalho inovador para a época. Foi um período divino! Se eu pudesse voltar eu voltaria.

Apesar das preocupações iniciais de tua família, hoje é possível viver de música? Sim, dá para viver com dignidade. Há poucos dias eu estava conversando com uma aluna, prestes a fazer vestibular, meio em dúvida, ela querendo saber como estava a situação. Hoje nós temos várias escolas, faculdades, o mercado vai se abrir.

Além do [Instrumental] Pixinguinha, de que grupos musicais você fez parte? Do Laborarte, o Departamento de Som, fizemos vários shows, peças de teatro, Jorge do Rosário era o cabeça, Marco Cruz [compositor], Saci Teleleu [bailarino]. Depois eu comecei a trabalhar com o pessoal do choro, antes disso fiz alguns trabalhos com Rosa [Reis].

E o ambiente daqueles shows [Homenagem a Velha Guarda] do [Instrumental] Pixinguinha no [Teatro] Arthur Azevedo? O Solano [Francisco Solano, violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 26 de maio de 2013], essa história de vir estudar com o Marcelo [Moreira, violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 28 de dezembro de 2014], ali surgiu essa ideia de se fazer um grupo, tanto que o grupo começou com eles e a vontade de fazer a Suíte Retratos [de Radamés Gnattali]. Eles perguntaram se eu não queria fazer parte, alguns números com eles. Foi aí que eu me integrei, fiz parte da primeira formação.

Como era a rotina daquela formação? A gente ensaiava diariamente, à noite. O pessoal trabalhava, Correios, o Jansen [César Jansen, bandolinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 21 de setembro de 2014], Solano tem a empresa dele, o Biné [do Cavaco, Os Irmãos Gomes, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 22 de junho de 2014], aliás, começou conosco o Quirino, Carbrasa [percussionista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 19 de outubro de 2014] e Marcelo. Passamos praticamente um ano ensaiando para esse trabalho, muita partitura. O objetivo maior do grupo era a Suíte Retratos, e foi quando o Biné entrou. O show foi no [Centro de Criatividade] Odylo Costa, filho [no Teatro Alcione Nazaré, então Teatro Praia Grande, que integra o Centro]. Algumas pessoas [em entrevistas à Chorografia do Maranhão] falaram em Arthur Azevedo, mas foi no Odylo. Foi início de 1990.

Depois você saiu do Pixinguinha? Algum motivo em especial? Não, eu continuei tocando. Depois foi que Zezé entrou, eu tive um problema, tive que fazer um tratamento de saúde, me afastei, Zezé foi e assumiu.

Atualmente você integra algum grupo? Não. Atualmente estou só lecionando. Já integrei grupos de câmara aqui na Escola.

Além de instrumentista você desenvolve outras habilidades na música? É compositor? Não. Só instrumentista. Nessa praia eu ainda não enveredei.

Você toca algum outro instrumento? Não. Flauta doce e flauta transversa. Violão eu estou estudando na Licenciatura da UEMA [Universidade Estadual do Maranhão], percussão um pouco, mas meus instrumentos mesmo são a flauta doce e a flauta transversal.

Além de Rosa Reis [cantora], com que outros artistas você já tocou? Toquei com Cesar Teixeira [compositor], Josias [Sobrinho, compositor] e outros.

Você participou do Rabo de Vaca? Não. O Rabo de Vaca era Zezé, Omar [Cutrim, compositor], aquela turma.

E participação em discos? Já fiz. Fiz com Cláudio Pinheiro, não lembro agora o nome do CD, fiz a primeira gravação do Cacuriá de Dona Teté, foi um vinilzão, eu fiz aquela flauta. Eu ia gravar com Rosa, mas teve algum problema lá no estúdio. Fiz com Ubiratan [Sousa, multi-instrumentista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 12 de maio de 2013], aquele disco produzido pelo marido da Zelinda [o falecido folclorista Carlos de Lima], de carnaval das antigas.

Na sua opinião, o que significa o choro? O choro é a grande música brasileira, a música genuinamente brasileira, podemos dizer assim. Uma música já mais elaborada, que vem do século XIX, com Callado [Joaquim Callado, flautista, considerado um dos pais do choro], que foi o cara que formou o primeiro regional de choro, tem uma contribuição imensa.

Entre as linhas você tem uma preferência, erudito ou popular? Ou está tudo misturado? Não, eu não faço distinção. Eu tenho uma formação, o começo, aqui na Escola de Música, foi clássica, tocando música barroca, gosto muito, gosto de fazer, de tocar, [sou] um negro que tem uma veia por essa música, mas não é só esse caminho, eu gosto muito da música popular também.

Você escuta muito choro, hoje? Ouço, ouço bastante.

Você tem acompanhado as mudanças que o choro tem experimentado? Sim. Há poucos dias eu estava ouvindo o Maurício Carrilho [violonista], aquele trabalho que ele fez há uns anos, com choros com compassos alternados, de cinco, de sete, é um trabalho interessante. Eu tenho visto as correntes, vão se modificando, existe uma linha de Brasília, com uns choros mais acelerados, São Paulo, mais cadenciado, Curitiba, Pernambuco, a gente [no Maranhão] já faz um choro mais tradicional.

No disco do [Instrumental] Pixinguinha a gente percebe, por exemplo, entre outras, uma influenciazinha do lelê. É, o nosso choro traz essas informações. O Luiz Jr. [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 4 de agosto de 2013], por exemplo, o violão dele já traz informações jazzísticas.

Quem são os grandes flautistas brasileiros, aqueles que você gosta de ouvir, que te tocam? Eu sou um cara que sou apaixonado pela pessoa do Toninho Carrasqueira, é um guru, um cara de uma simplicidade, um coração, um puta músico.

Em que lugar você coloca o Altamiro CarrilhoO Altamiro Carrilho podemos dizer que é um papa, né?, da flauta. É um papa da flauta! A flauta do século XX. A escola brasileira de flauta é uma escola rica, grandes flautistas. David Ganc, o Antonio Rocha, da Escola Portátil, Dirceu Leite, a Odete [Ernst Dias], a mãe dos flautistas brasileiros.

A forma de consumir música mudou muito de uns tempos para cá. Como é que você consome música, hoje? Compra discos, ouve rádio, baixa, vê no youtube, ou tudo isso? Eu compro, continuo comprando. Tem coisas que, baixar, essa parte tecnológica eu ainda sou meio que um dinossauro [risos], eu ainda não sei muito vasculhar. Sei que tem muitos sites, tem muita coisa, eu gosto de ouvir música erudita, eu compro cds, mando buscar em São Paulo, Rio, a gente vai garimpando.

E aqui no Maranhão, quem são os flautistas que te chamam a atenção? Hoje nós estamos com uma safra de bons flautistas. Mestre Serra [de Almeida, flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 3 de março de 2013] é uma memória, muito bom, fiz um trabalho com ele ano passado, foi um trabalho que nós fizemos os dois grupos, o Pixinguinha e o Tira-Teima [um show na programação da 8ª. Aldeia Sesc Guajajara de Artes, em 2013, promoveu o encontro dos grupos no mesmo palco, na praça Nauro Machado, na Praia Grande], um trabalho bacana, eu nunca tinha tocado com o mestre, eu me senti muito lisonjeado. Ele é um autodidata, toca de memória. Tem o Lee Fan [flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 7 de setembro de 2014], está com um grupo, fazendo um trabalho, teve outros, a Suellen Almeida promete.

O professor fica feliz quando vê essas figuras despontando? Ô! É o que nos alimenta. Tem o Elton, Erivan, Gabriel foi para o Rio, morar com uns parentes. Tem o Neto [João Neto, flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 2 de fevereiro de 2014], Neto agora é quem tá na parada!

Você se considera um chorão? [Pensativo] Eu gosto de choro! Se eu disser pra ti que sou um chorão, um chorão, eu não sei. Eu gosto muito do choro. Taí! Pra ser um chorão, precisaria o quê? Ficou uma pulga [atrás da orelha], o que é ser chorão? [risos]

Hoje nós temos uma escola de música, a escola municipal, que está parada, duas faculdades. Como você vê esse cenário da música, do estudo da música, hoje, no Maranhão? As coisas estão evoluindo, crescendo. Há tempos só tínhamos a Escola de Música, e agora já temos a escola do município, temos a banda do Convento das Mercês, grande formadora de jovens, em sopro, cheguei a fazer parte, dei aula, lá eu tive a oportunidade de deixar um pouco, passar minha semente para algumas pessoas, o Elton é fruto dessa escola, os Carafunim [Hugo e Nelma, primos, trompetista e saxofonista, respectivamente], estes dois cursos que nós temos aí, Pixixita [o músico José Carlos Martins] quando era vivo sonhava com este curso superior, infelizmente não chegou a ver.

Você acha que esse ambiente novo favorece a uma cena melhor, da música instrumental, especialmente do choro, em São Luís? Você gosta do nível do choro praticado em São Luís? A gente trabalha com o que tem, a gente faz o que pode. Eu te digo com certeza: está caminhando. Antigamente não havia escola de choro. O professor Zé Hemetério [multi-instrumentista] foi orientador de muita gente, Elinaldo [Gordo Elinaldo, multi-instrumentista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 27 de outubro de 2013], Ubiratan Sousa. Mas foi com a história do [Instrumental] Pixinguinha que essa história do choro começou a se disseminar. O Pixinguinha foi talvez o primeiro grupo de música popular dentro da Escola.

O choro tem essa capacidade de construir unidade. A Escola tinha um perfil mais erudito, ele acabou agregando grande parte dos alunos nesse movimento do choro. Exatamente! Hoje eu tenho muitos alunos aqui, a Suellen, é apaixonada por choro. Minha classe de flauta, eu trabalho com música erudita. Mas não tem como focar só nessa parte erudita, os alunos querem estudar outra coisa, a linguagem, mudar um pouco. A gente procura ir ajudando-os a ir por estes caminhos. As pessoas gostam muito de música popular, a gente tem que se desdobrar. Não há como desfiliar a flauta do choro.

Transmúsica

As Bahias Raquel Virgínia (de vermelho) e Assucena Assucena (de azul) e a Cozinha Mineira. Foto: Julieta Benoit
As Bahias Raquel Virgínia (de vermelho) e Assucena Assucena (de azul) e a Cozinha Mineira. Foto: Julieta Benoit

 

O grupo As Bahias e a Cozinha Mineira fez um dos mais surpreendentes discos da música brasileira em 2015. O álbum intitula-se simplesmente Mulher, o que por si só pode parecer provocação: as duas vocalistas são transexuais.

Assucena Assucena é baiana de Vitória da Conquista; Raquel Virgínia é paulistana, mas morou em Salvador, onde chegou a cantar em trios elétricos em carnavais. Ambas têm 27 anos, cursam história na USP e o mesmo apelido: Bahia – são as cantoras as Bahias do nome do grupo.

Entre suas principais referências musicais estão a Gal Costa tropicalista e o Clube da Esquina mineiro – hoje, apenas um músico da formação é da terra de Beto Guedes; antes, eram todos, daí vem a segunda parte do nome do grupo.

Mulher. Capa. Reprodução
Mulher. Capa. Reprodução

A capa do disco, do artista plástico Will Cega, outra provocação, traz uma textura rubro-negra, que evoca símbolos femininos: um púbis que parece contrariar a ditadura da depilação total, arrodeado pela menstruação nossa de cada mês.

As letras, outra provocação, tapas na cara de uma sociedade que ousa abordar senhores compositores – literalmente – apenas por conta de suas (coerentes) convicções políticas. Sua música transita entre o carnaval e o protesto. Mulher está plenamente sintonizado com as discussões feministas que ocuparam sobretudo as redes sociais nos últimos meses.

Apologia às virgens mães, Josefa Maria, Lavadeira água e Uma canção pra você (Jaqueta amarela) contam as histórias de mulheres simples, com rara beleza e força poética. “Quantos tempos teceram teus vestidos de lã?/ Quantas tranças os tempos fizeram traçar teus cabelos?/ Quantos beiços beberam do teu peito o afã?/ e dos seios sugaram o suco sem dor, dos teus zelos/ Senhora de saia, de ventre pré-destino/ quantos tempos cruzaram num ponto de cruz teu destino?”, perguntam-se na primeira.

Além de Assucena e Raquel, As Bahias e a Cozinha Mineira é formado pelos músicos Carlos Eduardo Samuel (eletroacústica), Danilo Moura (percussão), Rafael Acerbi (guitarra e violão), único mineiro da formação, Rob Ashttofen (contrabaixo elétrico e fretless) e Vitor Coimbra (bateria). Produtor musical da banda, Deivid Santos gravou piano e teclado no disco.

Mulher é recheado de participações especiais: André Andrade (beat e programações), Chico Ceará (acordeom), Joabe Reis (trombone), João Paulo Ramos Barbosa (saxofone tenor), Marcel Martins (cavaquinho), Mestre Dinho Nascimento (berimbau), Sarah Alencar (flauta e vocais), Sérgio Barba (cuíca), Sidmar Vieira Souza (trompete) e Vinicius Chagas (saxofone tenor).

Uma primeira tiragem promocional do disco está esgotada. Mulher pode ser ouvido na íntegra no youtube.

EP Descostura marca estreia de Valéria Sotão

Artista disponibilizou três faixas, antecipando o álbum que gravará em 2016. Também já está no ar o videoclipe de Chocolate meio amargo, uma das faixas de Descostura

 

Este é o videoclipe de Chocolate meio amargo, uma das três faixas de Descostura, EP que Valéria Sotão acaba de disponibilizar na internet. Compositora e cantora – é ela quem prefere ser chamada nesta ordem – que acrescenta um “de voz miúda” ao se apresentar nas redes sociais.

Descostura. Capa. Reprodução
Descostura. Capa. Reprodução

Chocolate meio amargo tem direção de Emilio Andrade e atuação de Luciano Teixeira e Larissa Ferreira. Descostura, o EP, está disponível para audição no soundcloud da artista, que promete para ano que vem o álbum completo de estreia. Apesar de jovem, Valéria já deu algumas guinadas na vida.

Primeiro, abandonou o jornalismo. “Fiz jornalismo porque queria mudar o mundo, mas aprendi logo a falta de autonomia na área. Sempre quis música; mas minha família queria uma garantia, então fiz faculdade e adiei a música”, conta. Dedicou-se por algum tempo à fotografia, profissionalmente. Com Descostura alça, agora, voo musical.

“Acho que o jornalismo me trouxe uma bagagem cultural única, que posso usar na música, e a fotografia é uma arte e todas as artes são relacionadas”, afirma, costurando suas áreas de atuação.

Valéria Sotão, compositora e cantora "de voz miúda". Foto: divulgação
Valéria Sotão, compositora e cantora “de voz miúda”. Foto: divulgação

Ela compõe desde os 15 anos, mas só recentemente fez sua estreia num palco, durante o evento Lição de moda, no recém-inaugurado Shopping Passeio, no Cohatrac. “O produtor do evento me chamou sem nunca ter me ouvido, pois disse que confiava no meu bom gosto. Moda é arte, forma de expressão assim como a música”, acredita.

Descostura tem uma pegada pop, cujas influências, ela mesmo confessa, são Caetano Veloso, Rita Lee, Secos & Molhados, Placebo e David Bowie. Ela, no entanto, não renega a cultura popular – o clipe de Chocolate meio amargo tem trechos rodados num de seus principais palcos no Maranhão, a Praia Grande. “Eu adoro a cultura popular maranhense. Já vivi muitas coisas na Praia Grande, já fiz faculdade de música – que não terminei – por ali… Adoro bumba meu boi”, revela.

Raflea (nome artístico de Rafael Cunha França, integrantes de bandas como Torre de Papel e Casaloca), um exército de um homem só, tocou todos os instrumentos do disco, exceto a bateria, assinada por Carlos Silva, e o violão da faixa-título, tocado pela própria Valéria. A capa do EP é um desenho de Ksyfux (nome artístico de Agnaldo da Silva Jr.).

As três faixas são ótimo aperitivo. É esperar, em 2016, pelo início da gravação do álbum completo, que incluirá as faixas de Descostura e outras inéditas e, após isso, por shows de lançamento.

A grandeza de Cesar Teixeira

O compositor (já no chão) e seu "batalhão pesado" de intérpretes. Foto: ZR (19/12/2015)
O compositor (já no chão) e seu “batalhão pesado” de intérpretes. Foto: ZR (19/12/2015)

 

Cesar Teixeira estava à vontade no palco da Casa das Dunas, onde se apresentou ontem (19). Cercou-se de alguns de seus melhores intérpretes, para um passeio por diversas fases de sua obra.

A vantagem de um show fora dos períodos carnavalesco ou junino é poder conhecer-lhe diversas vertentes. Teve São João – abriu e fechou com Boi da lua –, teve carnaval –Dias felizes, na interpretação das vocalistas do grupo Lamparina –, teve protesto – Oração latina foi entoada pela multidão de pé –, mas teve muito mais.

Flávia Bittencourt cantou Dolores e Flor do mal, que gravou em seu disco de estreia, em 2005, e Parangolé, que gravou em No movimento, o mais recente. Cláudio Lima cantou Ray ban, que gravou antes mesmo do compositor, em seu disco de estreia, em 2001, e Bis, cujo verso “cada mesa é um palco”, dá nome a seu segundo disco, de voz e piano, dividido com o pianista baiano radicado nos Estados Unidos Rubens Salles. Célia Maria cantou a inédita A cruz do palhaço e Lápis de cor, gravada por ela em seu disco de estreia, o homônimo Célia Maria, de 2001. Lena Machado cantou Flanelinha de avião, gravada por ela em Canção de vida, seu disco de estreia, de 2006, e Quem roubou minha aquarela?, com que ela e o compositor participaram de um festival nacional de samba. As vocalistas do grupo Lamparina cantaram a marcha rancho com que obtiveram o segundo lugar no Festival Maranhense de Música Carnavalesca, promovido pelo Sistema Mirante de Comunicação. Com cada intérprete Cesar, autor solitário da íntegra do repertório, dividiu os vocais em uma música.

A base do repertório que Cesar cantou sozinho era Shopping Brazil, o único disco lançado por ele, em 2004. A Met(amor)fose, Vestindo a zebra, Namorada do cangaço e a faixa-título daquele trabalho, somaram-se Das cinzas à paixão, gravada por Serrinha e Companhia com participação especial de Zeca do Cavaco, e Canção da partilha, lançada há cerca de 10 anos, como um poema, declamado pelo próprio Cesar, em Regar a terra, um disco comemorativo do Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais Sem Terra (MST) no Maranhão.

Cesar estava acompanhado por Cleuton Silva (contrabaixo acústico e elétrico), Daniel Cavalcanti (trompete), Danilo Santos (saxofone tenor e flauta), Firmino Campos (vocal), Luiz Jr. (violão sete cordas, guitarra, viola caipira e direção musical), Raquel (vocal), Robertinho Chinês (cavaquinho e bandolim), Ronald Nascimento (bateria), Rui Mário (teclado e sanfona) e Wanderson Silva (percussão).

O espetáculo irmanou palco e plateia – não foram poucos os momentos em que o público que lotou a Casa das Dunas fez um bonito coro acompanhando as músicas mais conhecidas do compositor. Cesar dialogou com a plateia, brincou por diversas vezes, dizendo da felicidade para com os muitos amigos ali presentes.

Aos gritos de “mais um”, não se fez de rogado. Voltou ao palco para hastear sua Bandeira de aço e repetir o Boi da lua com que abriu o espetáculo. Reunindo todos os convidados para entoar um dos hinos do São João do Maranhão, finalizou o show junto ao público, cantando com ele.

Toda a apresentação foi filmada e os melhores momentos integrarão um documentário dirigido pelo cineasta Marcos Ponts.

Tendo encerrado o ano musical com a maior categoria, Cesar Teixeira já está de olho no futuro: anunciou com exclusividade a este Homem de vícios antigos o próximo encontro com o público. Em janeiro, em data e local a definir, fará um show dedicado a sambas de sua autoria e de compositores da Madre Deus e outros bairros de São Luís. Dividirá o palco com Patativa, Zé Pivó e a Velha Guarda dos Fuzileiros da Fuzarca – o blogue voltará ao assunto em breve.

A herança musical de Alice Passos

Com o Maranhão e a música no DNA, a cantora e flautista Alice Passos é a convidada da última edição do projeto RicoChoro ComVida em 2015. O sarau musical acontece hoje (19), a partir das 18h, no Bar e Restaurante Barulhinho Bom (Rua da Palma, 217, Praia Grande). A noite contará ainda com as apresentações do dj Marcelo Guzmán e do Regional Chorando Callado, que acompanhará a artista carioca.

O grupo se formou por ocasião do projeto Clube do Choro Recebe, produzido por Ricarte Almeida Santos entre 2007 e 2010, no Bar e Restaurante Chico Canhoto. João Eudes (violão sete cordas), João Neto (flauta), Wanderson Silva (percussão) e Wendell Cosme (bandolim e cavaquinho) – a formação para hoje –, à época eram jovens estudantes de música; hoje são dos mais requisitados e frequentes nomes em fichas técnicas de discos e shows de artistas locais e nacionais.

Alice é filha da cavaquinhista maranhense Ignez Perdigão, irmã da cantora e cavaquinhista Mariana Bernardes e afilhada do multi-instrumentista Egberto Gimonti. Apesar da pouca idade – 25 anos recém-completados – já é vasto seu currículo: aos oito anos entrou para os Flautistas da Pro Arte, passando em seguida a se apresentar com a Orquestra de Sopros da Pro Arte. Integrou por quatro anos a Orquestra Corações Futuristas, fundada e regida por Gismonti.

Em 2006 ela participou do disco Mario Lago – O homem do século XX. Atualmente prepara seu disco solo de estreia. A artista conversou com O homem de vícios antigos.

Alice Passos: vasto currículo, apesar da pouca idade. Foto: divulgação
Alice Passos: vasto currículo, apesar da pouca idade. Foto: divulgação

Homem de vícios antigos – Você é filha de maranhense e já se apresentou em São Luís diversas vezes. Qual sua relação com a cidade?
Alice Passos
– São Luís é minha segunda casa. Tenho diversos tios e primos aqui na ilha e desde que vim a primeira vez que venho pelo menos uma vez por ano. Excepcionalmente nos últimos três anos não pude vir, por isso estou muito alegre de estar voltando pra cá, onde me sinto em casa, onde danço o bumba meu boi, o tambor de crioula… Me identifico muito com a música e a culinária da cidade.

Com que sentimento você recebeu o convite para encerrar a temporada de RicoChoro ComVida em 2015?
Fiquei muito contente, pois já não vinha à ilha há três anos e estava morrendo de saudade da família, das praias, do vento, da comida…

Qual a base do repertório de sua apresentação amanhã?
Mesclei músicas que eu imagino que sejam conhecidas do público daqui e que gosto muito com músicas do repertório que venho pesquisando ao longo dos meus 10 anos de atividade como cantora

Você já conhecia os músicos do Chorando Callado? Qual o clima dos ensaios?
Conhecia o João Eudes do violão e o João [Neto] da flauta. É como se tocássemos juntos há 10 anos.

Seu disco solo de estreia, prometido para ano que vem, terá, entre compositores e participações especiais, nomes como Guinga, Paulo César Pinheiro, Francis Hime, Maurício Carrilho, Egberto Gismonti e Yamandu Costa. O que significa para você o endosso de tantos nomes tão importantes para a música brasileira?
Conheço o Egberto desde criança. É meu padrinho. Engraçado que a nossa relação é muito mais pessoal do que musical, apesar d’eu ter participado da Orquestra Corações Futuristas, regida por ele, durante quatro anos. Fora o Francis, com quem encontrei poucas vezes, tenho uma forte relação de amizade e afeto com todos os outros compositores e músicos citados. Seja encontrando para tomar um chope, seja ensaiando juntos, gravando… Engraçado que, por ter uma amizade com eles há tanto tempo, acho que não tenho muita dimensão do que significa o nome deles no meu projeto. Claro que tenho consciência da importância deles pra a música brasileira, mas pra mim é muito natural tê-los no meu primeiro disco. No caso, acaba que o Yamandu e o Egberto infelizmente não puderam participar. Mas estão no disco Dori Caymmi, Guinga, Sérgio Santos e Théo de Barros. Me sinto muito honrada e agradecida pela generosidade de todos que participaram do meu disco.

Você chegou a tentar outra profissão fora da música?
Nunca! Canto desde os nove anos, tanto em show quanto em gravação.

O fato de ter nascido numa família de músicos ajudou ou atrapalhou em sua decisão de seguir a carreira musical?
Os dois. Atrapalhou no sentido que eu, por rebeldia adolescente, tentei querer outra coisa, só pra ser do contra. Mas não foi pra frente. Ajudou em todos os outros sentidos. Tive muita ajuda.

Você é cantora e flautista. O público de São Luís também terá a oportunidade de ouvir você tocando flauta?
Desta vez não. Toquei flauta praticamente só em orquestras. Faz dois anos que não trabalho mais como flautista, só dou aulas.

Você é reconhecida como um dos nomes que colaborou para a revitalização e o reconhecimento da Lapa enquanto centro sambista do Rio de Janeiro. Você conhece ou acompanha o cenário do samba ou da música popular de modo geral no Maranhão? Se sim, que nomes destacaria?
Muito menos do que eu gostaria. Conheço o grupo Espinha de Bacalhau, Feijoada Completa, torço desde sempre pelo Roberto Chinês que é um baita instrumentista… Sempre que venho tenho pouco tempo pra fazer essa garimpada da música que não conheço. Acabo vendo os mesmo amigos, fico muito tempo com a família. Mas espero voltar a vir anualmente e me inteirar do que tá rolando.

Chorografia do Maranhão: Wendell de la Salles

Abre parêntese: ao tempo em que reproduzo cá no blogue a 49ª (de 52) entrevistas da série Chorografia do Maranhão, tenho a imensa alegria de compartilhar com os poucos mas fiéis leitores deste Homem de vícios antigos: o edital de apoio à publicação de livros 21/2015 da Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (Fapema) aprovou o projeto Chorografia do Maranhão (clique aqui para baixar o resultado). Muito em breve, caros e caras, as entrevistas realizadas por este que vos perturba, Ricarte Almeida Santos e Rivanio Almeida Santos (fotografias), publicadas entre março de 2013 e maio de 2015 no jornal O Imparcial, reunidas em livro, aguardem! Fecha parêntese.

Bandolinista potiguar radicado há cerca de 10 anos em São Luís, membro honorário do Regional Tira-Teima é o 49º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVANIO ALMEIDA SANTOS

Doutor em engenharia química e bandolinista, o potiguar Wendell Ferreira de la Salles ganhou este sobrenome de uma promessa da avó: com complicações na gravidez, ela batizaria o filho com o nome do santo do dia. Seu pai, o funcionário público João Batista de la Salles, iniciava ali um outro ramo onomástico na árvore genealógica da família.

Grande comprador de discos – “ele comprava mais do que ouvia” – foi seu pai uma das primeiras influências musicais do menino Wendell. Em meio a tão vasto acervo, logo os discos de choro chamaram-lhe a atenção.

Wendell nasceu em 22 de agosto de 1974, filho da professora do ensino fundamental Telúsia Ferreira de la Salles. É casado com Kátia Simone, também engenheira química natalense, com quem tem uma filha de oito anos – que lhe inspirou a música Anjo meu, gravada no disco de estreia do Regional Tira-Teima, que deve ser lançado em breve.

O 49º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão conversou com os chororrepórteres no novo Barulhinho Bom (Praia Grande) e contou, entre outras histórias, como começou a tocar ainda criança, a ida para o doutorado na França, o retorno ao Brasil – hoje é professor da Universidade Federal do Maranhão – e a acolhida entre os bambas do Tira-Teima.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

De onde vem teu sobrenome? É uma situação estranha. A família de meu pai efetivamente é Melo, exceto meu pai que tem esse sobrenome, de la Salles. Ele nasceu no dia de um santo, São João Batista de la Salles, e minha vó, que parece que teve problemas na gravidez, fez uma promessa, só que na hora do registro ela não botou João Batista de la Salles de Melo, ficou João Batista de la Salles. Aí vem dele.

Seus pais tinham algum envolvimento com música? Não. Meu pai sempre gostou de ouvir música, era um grande comprador de discos, mais comprava do que ouvia. A gente sempre teve uma variedade muito grande, eu sempre ouvi muita música por que meu pai comprava muitos discos, eu ouvia até mais que ele, ele comprava e eu ouvia. Até hoje continua mais ou menos assim. Ele tinha uma tendência a querer agradar os convidados. Se ele tinha amigos que gostavam de rock, ele ia e comprava rock, gostava de samba ele comprava discos de samba, de choro, discos de choro.

Mas sempre com um padrão de qualidade. É, sempre com um padrão de qualidade, sempre com bom gosto, em geral. O rock para ele era aquele rock tradicional, de Beatles, Rolling Stones, Elvis Presley. Mas isso foi mais na infância mesmo, depois ele deu uma parada, hoje é que está voltando [a comprar discos].

Ele tocava alguma coisa? Não. Na família, quem tocava era meu avô, pai da minha mãe. Ele nasceu no interior do Rio Grande do Norte, tocava cavaquinho, mas tocava forró.

E a música nordestina, tinha espaço na tua casa? Tinha. Sempre teve. Forró, eu gosto bastante, daquele tradicional, meus pais também.

No meio de toda essa coleção de discos de teu pai, você lembra o que chamou a atenção? Algo que você queria ouvir sempre, que repetia muito. Aquele disco que você ouviu até furar. É engraçado, realmente a variedade era grande, mas quando eu paro para pensar no que eu queria ouvir, ainda criança, eram discos de choro mesmo. Eu não lembro de botar outras coisas. Lembro das capas dos discos de Jacob [do Bandolim] que ele tinha, o disco de Assanhado, Vibrações, são as que mais vêm à cabeça ainda na época do vinil. Eu não tinha muito tempo para escolher, papai não dava tempo para escolhermos, ele estava o tempo todo botando algum disco, e a gente no clima, ali, sempre tinha festa lá em casa.

Além de músico, você tem outra profissão? Atualmente sou professor da UFMA, formado em engenharia química. Minha profissão efetiva, mesmo, deixou de ser a música há bastante tempo.

Houve algum momento de tua vida em que você atuou como músico profissional? A música permitiu até que eu concluísse uma graduação, que eu fizesse um mestrado em Natal, a situação financeira de meus pais não era muito fácil. Eu nunca tive problemas para fazer o que eu queria devido à música. Comecei a tocar muito cedo, meus pais não tinham muitas despesas comigo. A música serviu como profissão um bocado de tempo na minha vida, tocava na noite, sexta, sábado, domingo, desde oito, nove anos de idade. O primeiro regional que eu toquei foi um que meu pai criou. Ele se empolgou tanto quando me viu brincando com o cavaquinho que era de meu avô, que criou um grupo para eu tocar. Ele pagava os músicos para tocar comigo. Eu não tocava nada, sabia duas ou três músicas, ele pagava os músicos, tinha um cantor, eu entrava, toca minhas duas ou três músicas e eles continuavam, a noite toda.

Então o teu instrumento de origem é o cavaco? É o cavaquinho. Um cavaquinho que tinha na casa de meu avô, que eu achei velho, dentro de um armário, a primeira vez que eu peguei ele se assustou, já veio para tomar da minha mão. Ele já faleceu, uma das filhas guarda até hoje. Era um tonante, preto, nem sei se existe essa marca atualmente. Foi meu primeiro instrumento. Eu comecei a pegar, mesmo forçando a barra, ele não gostava que ninguém pegasse, eu pegava só para fazer barulho. Um dia ele pegou para me ensinar uma música, “quer aprender uma música?”, eu “quero”. Ele tocava poucas músicas, uma das que ele tocava, que ele solava no cavaquinho, era Naquela mesa [de Sérgio Bittencourt, feita em homenagem a seu pai, Jacob do Bandolim], foi a primeira música que ele me passou. Quando eu cheguei em casa mostrando pra meu pai, meu pai já se empolgou, aí pronto.

Você considera seu avô seu primeiro professor? Eu acho que sim. Foi ele quem primeiro me passou alguma coisa.

Como é que foi esse processo de transição do cavaquinho para o bandolim? Eu comecei exatamente nesse grupo que meu pai montou, a ir para o Clube do Choro em Natal. Eu comecei mais ou menos com oito anos. É sempre difícil eu saber a data que eu comecei por que meu pai tem uma tendência a diminuir. Se vocês forem falar com meu pai é capaz de ele dizer que eu comecei com quatro [risos dos chororrepórteres]. Então de tanto eu ouvir meu pai reduzindo, a idade com que eu comecei, eu fico em dúvida. Mas eu acho que eu tinha uns 10 anos mais ou menos, quando ele decidiu me levar para o Clube do Choro. Eles se reuniam acho que quarta-feira à noite. Quando cheguei lá foi um choque de realidade. Eu até ali não estava preocupado com o que eu fazia. Esse grupo que meu pai montou, a gente fazia qualquer coisa e eu estava agradando pela idade. Quando eu cheguei no Clube do Choro, não, o pessoal já comigo completamente diferente, eu comecei a revisar, a estudar, a escutar, montar repertório. Começa a tocar, as pessoas começam a falar, “instrumento para solista não é cavaquinho, é bandolim, tem muito mais possibilidades, uma maior escala, se você começar a tocar bandolim você vai largar o cavaquinho no outro dia”. No Clube do Choro não tinha solista de cavaquinho, mas tinha um solista de bandolim. Na época foi uma de minhas primeiras referências: João Juvanklin. Toca até hoje, tem vários cds lançados lá em Natal, eu toco várias músicas dele, é um excelente compositor. Para mim foi uma inspiração para eu migrar para o bandolim. Não lembro exatamente quando, me deram um bandolim de presente lá no Clube do Choro. E realmente, quando eu comecei a tocar bandolim eu deixei o cavaquinho de lado.

Você desperta para o choro em meados da década de 1980, quando o rock brasileiro estava no auge. Eu nunca fui muito de rock, essa geração do rock brasileiro, a minha esposa, por exemplo, conhece muita coisa dessa época, Capital Inicial, Engenheiros do Hawaii, Legião Urbana, mas essa geração passou meio de lado para mim. Eu acho que eu já estava muito focado nisso aí [no choro], realmente foi muito intenso, eu acho que eu toquei tanto nesse período aí, dos 12 aos 20 anos, que quando eu tive uma situação que me permitiu largar o bandolim eu não senti saudade.

No bandolim você se considera meio autodidata? De início, sim. Mas as coisas foram acontecendo muito rápido. No momento em que eu estive no Clube do Choro eu comecei a aparecer mais e tinha um instituto de Música lá em Natal, o Instituto Valdemar de Almeida, e tinha vários cursos de música, curso de teoria, bandolim, cavaquinho, violão, e na época, o diretor do instituto fez uma apresentação no Clube do Choro e me ofereceu bolsas para eu estudar gratuitamente no instituto. Aí eu perguntei: “bolsa de quê?”, e ele “do que você quiser”. Aí eu disse que ia fazer cavaquinho, bandolim, teoria musical, vou fazer tudo. Ainda nessa época eu estudei cavaquinho, bandolim, com o professor Alexandre Moreira, que é sobrinho do João Juvanklin, que também é bandolinista, é uma família com vários bandolinistas, a esposa do Alexandre também é bandolinista, uma bandolinista canhota, muito boa, eu comecei a estudar no Instituto, bandolim, cavaquinho e teoria musical. Até então, aí, era basicamente de ouvido. Na época, mesmo você estudando, a gente não tinha facilidade de encontrar material como se tem hoje em dia. “Ah, gostei dessa música”, se você for esperar a partitura para aprender aquela música você não aprende. Não ia achar, não tinha internet para procurar, então eu acabei desenvolvendo uma capacidade muito grande de aprender música de ouvido. E eu não precisava estar com o instrumento para aprender, bastava ouvir. Isso acontece até hoje. Eu não perdi o bandolim, deixei de tocar, fiquei praticamente 10 anos sem tocar, mas eu não deixei de ouvir.

Quando você foi para a França você largou o bandolim? Não, na França, até 2004, eu fiquei lá de 2000 até 2004, lá eu cheguei até a fazer algumas gravações, não de choro. Eu participei de um projeto com um cantor que queria gravar a música de Jorge Brassan, era uma música em ritmo de bossa nova, ele queria dar uma mudada. Eu cheguei em Toulouse, eles estavam inaugurando uma linha de metrô e queriam criar uma música para tocar no lançamento desse metrô, e quando eu estava lá eu conheci um grupo chamado Le Famouse T, me disseram que tinha uma brasileira, eu fui me informar quem era, era a irmã do Armandinho Macedo [bandolinista] que fazia parte desse grupo. Ela tinha a intenção de fazer uma música voltada para o frevo, para tocar no lançamento desse metrô. O Armandinho de vez em quando aparecia na França. Ela soube que eu tocava bandolim e acabou me convidando para participar desse cd, que eles lançaram com o patrocínio da empresa de transportes. A gente gravou uma música, eu fui na França o ano passado, estava tocando essa música lá, era uma composição deles e eu gravei uma participação. Eu toquei, mas sempre tinha uma brincadeira lá e eu não abandonei o bandolim, a gente está fora, sente mais saudade da terra, era uma forma de eu me ligar ao Brasil. Mas quando eu voltei ao Brasil, praticamente fiquei sem pegar no bandolim, de 2004 até o ano passado. Pegava em casa, ocasionalmente. Foi um período conturbado, eu era de Natal, fui para a França, voltei para Maceió, fiquei dois anos em Maceió, depois vim para cá, quando eu estava em Maceió minha esposa engravidou, eu vim para cá com uma criança de 20 dias, entrei na UFMA, comecei a focar naquilo ali e a música foi ficando de lado, ficando de lado…

Além de teu avô quem você considera seus principais mestres? Meu avô foi importante no início. Eu diria o João Juvanklin, lá de Natal, nunca foi meu professor de bandolim, mas o fato de eu estar tocando frequentemente ali com ele, no Clube do Choro, aprendi bastante coisa com ele. O João Juvanklin tinha uma coisa que eu admirava bastante nele, era o som que ele tirava do bandolim. A gente encontra muitos bandolinistas bons, mas são poucos os que conseguem tirar do bandolim o som que o bandolim é capaz de fornecer.

Isso tem a ver com técnica? Ou com a qualidade do instrumento? Isso tem a ver com técnica, principalmente. Mas também com a qualidade do instrumento, se você pegar um instrumento ruim é difícil, mas um cara que tem o domínio da técnica consegue até tirar um som bonito num instrumento ruim. Agora tem muita gente com bons instrumentos que não consegue tirar esse tipo de som. E ele tirava. Um dos elogios que me fizeram a vida toda é exatamente em cima disso aí, que eu consigo tirar um som bonito do bandolim, provavelmente inspirado no que eu ouvia dele para produzir esse tipo de som.

Além de técnica e da qualidade do instrumento, onde você localiza o sentimento? O sentimento é importante. Quando a gente fala em técnica a gente só pensa em agilidade. Quando eu falo em técnica eu incorporo a questão do sentimento aí também. Você pega uma música como Vibrações, se você não colocar sentimento ali ela não rende, não flui, é uma música qualquer. Quando você escuta a gravação de Jacob do Bandolim [autor da música] você sente alguma coisa diferente, você sente as emoções que ele estava tentando imprimir quando estava tocando aquela música. Isso é outra coisa difícil também, você sentir que o cara que tá tocando aquela música está sentindo alguma coisa e não tocando mecanicamente. Se for mecanicamente a música não sai com qualidade.

Além de cavaquinho e bandolim você toca algum outro instrumento? Eu toco um pouco de violão sete cordas, um pouco de violão seis cordas, eu nunca tive um violão em casa. Quem toca em grupo de choro sempre vê os outros tocando e acaba aprendendo um pouquinho. Eu gosto de brincar um pouco com o violão, de sete, de seis, cavaquinho. Já toquei um pouco de violino, é a mesma afinação de bandolim, tive um pouco de dificuldade com o arco, mas se adapta, se eu quisesse insistir eu me adaptaria, a escala é a mesma coisa. Basicamente isso aí.

Já que você também toca cavaquinho, que lugar tem Waldir Azevedo em teu repertório? Hoje praticamente eu não toco Waldir Azevedo devido a eu ter focado muito no bandolim. Mas eu tenho um repertório muito grande de Waldir Azevedo, na época que eu tocava cavaquinho era essencialmente Waldir Azevedo. Meu pai tinha a coleção dele praticamente completa em vinil, eu gosto bastante.

E Jacob? Jacob tem um lugar bem especial. Eu tenho um repertório muito bom de Jacob do Bandolim. Na época em que eu comecei a tocar não era fácil encontrar. Eu aprendi muita coisa de Jacob pelo João Juvanklin, não pelos discos, eu olhava-o tocando. Da minha geração é uma das principais referências.

Além de instrumentista você desenvolve alguma outra habilidade na música? Compõe, arranja? Eu nunca fui muito de compor, acho que não tinha nem tempo para parar para compor, sempre fazia várias coisas paralelamente, além da música, várias outras atividades. Mas cheguei a fazer algumas composições, lá atrás. Quando eu cheguei à São Luís, depois que eu conheci o Regional Tira-Teima eles me falaram que estavam fazendo um disco de composições originais e perguntaram se eu não tinha alguma composição. Eu gravei duas no cd deles, minhas, uma que eu tinha feito lá atrás, e uma que eu compus especialmente para estar neste cd. Uma é Aguenta seu Florêncio, que eu fiz em homenagem a meu avô, seu João Florêncio [Ferreira]. Meu avô era daqueles que gostava de música a 150 quilômetros por hora, coisa que exigisse técnica. Eu fiz uma música para ele, faleceu há cerca de três anos. A outra é uma música que eu fiz para minha filha, recentemente, intitulada Anjo meu. Infelizmente não deu tempo de participar mais, o disco já estava praticamente pronto. Eles tinham intenção que eu incluísse o bandolim em outras músicas, mas isso ia terminar atrasando o lançamento do cd.

Você gosta de tocar com o Tira-Teima? Gosto! Foi engraçado, eu tava há quase 10 anos sem tocar, conheci-os meio por acaso, estava na casa de um professor da UFMA, toca piano, Adelino Valente [pianista e bandolinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 20 de julho de 2014]. Desde que eu cheguei na UFMA a gente se encontrava pelos corredores e o pessoal dizia para ele: “ah, ele toca bandolim”, e me dizia: “ah, ele toca piano”, e ninguém botava muita fé: um professor de matemática que dizem que é muito bom e toca piano e um professor de engenharia química que toca bandolim [risos]. Foi passando um ano, dois, três anos, um dia ele me chamou para ir à casa dele, fomos tocar um pouquinho. Quando eu comecei a tocar ele começou a ligar. Ligou pra Solano [Francisco Solano, violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 26 de maio de 2013], pra Paulo [Trabulsi, cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 22 de dezembro de 2013], o pessoal do Tira-Teima: “venha cá, venha cá”. Eles estavam na época do Tira-Teima Convida [temporada de apresentações em que o Regional recebia convidados, no Terraço do Hotel Brisamar] e eu participei com eles uma sexta-feira. Me convidaram para tocar, mas eu estou tocando sem compromisso. O fato de eles tocarem em uma data fixa, na sexta-feira, pra mim é um pouco complicado. Pode acontecer de um semestre eu ter aulas na sexta-feira à noite, os horários variam. Às vezes eu saio muito tarde. Se eu assumisse o compromisso eu teria que ir, então eu preferi ficar um pouco mais livre.

O que trouxe você à São Luís foi a UFMA? Foi a UFMA. Inclusive foi meio inusitado. Eu não queria vir para os lados de cá. Eu sou de Natal e tinha a intenção de ficar ali perto. Só que quando eu voltei do doutorado eu estava atrás de edital para professor, e dos editais que lançaram na época, normalmente esses editais exigem que você revalide o diploma. Todos os editais exigiam o diploma revalidado, menos o da UFMA. A UFMA não exigia a revalidação para a inscrição, só para a posse. Aí eu vim fazer, vim parar aqui.

Você, como engenheiro químico, com doutorado na área, consegue fazer alguma relação, se é que é possível, entre a música e a engenharia química e em que sentido uma coisa e outra se atrapalham e se ajudam? Eu acho que não atrapalha, mas também não ajuda. Quem trabalha na área da engenharia, se pudesse ter um lazer como a música, seria fantástico. É uma profissão estressante, um pouco pesada, principalmente em nível universitário, pega turmas enormes, conteúdo que envolve muito cálculo. Então você ter a opção de quando estiver estressado pegar um instrumento e dar uma relaxada, é fantástico. Eu me distraio facilmente com outras atividades, não só com música, mas com leitura, com tevê. Agora, relação direta, existem teses que falam da relação da matemática com a música; da engenharia, especificamente, eu não conseguiria fazer.

E os grupos de que você fez parte lá em Natal? Eu fiz parte desse que meu pai criou, eram Os Originais do Choro, deve ter durado uns três anos, aí eu fiz parte do Clube do Choro, enquanto ele existiu, devo ter ficado uns seis, sete anos. É aquele negócio, o pessoal se reunia para tocar, muita gente que tocava no Clube do Choro era músico profissional, depois começou a querer se expandir. Enquanto tocávamos às quartas-feiras, tudo bem, depois começaram a querer fazer sexta e sábado, aí começa a tirar opção de quem vive de música, então o Clube do Choro acabou, se dividiu em dois grupos, eu fiquei tocando em um e o outro foi para outro lado. Quando eu entrei na faculdade eu larguei tudo, sabia que era um curso pesado. Mas a música ainda estava muito perto e o pessoal, “não, vamos montar um grupo”, aí montamos um grupo de samba, Os Engenheiros do Samba. Eu tocava cavaquinho, era uma brincadeira de estudantes. No meio desse curso as bandas de samba sérias de Natal começaram a me ver tocando e eu comecei a receber convites, do Divina Chama, Verdadeira Chama, era outro nível, um negócio maior, multidões, palco grande, algo que eu nunca tinha tido com o choro. Começou a me dar uma renda e não exigia muito de mim.

E discos? Você chegou a gravar? Na época em que eu saí foi que o pessoal começou a gravar. O João Juvanklin gravou um disco patrocinado pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, hoje ele tem uns seis ou sete, mas tudo gravado depois que eu saí de lá. Inclusive ele fala, sempre que a gente se encontra, que ele ainda queria que eu participasse de um cd dele. Eu esqueci de falar de um grupo: quando eu estava no Mestrado eu participei de um grupo de choro chamado Choro & Companhia. Foi o último grupo em que eu toquei, até ir embora para a França, de 1998 a 2000, estávamos com um projeto de gravar um cd na época. Não tinha mais nenhum grupo de choro e a gente de algum modo fez ressurgir. Foi interessante por que a gente foi chamado até para participar de festivais internacionais. Antes de eu ir estudar na França eu fui lá com esse grupo tocar, num Festival de Verão. Quando a gente voltou, o flautista desse grupo, é bem conhecido, o Carlos Heinze, estava gravando o cd dele e eu participei de duas músicas, correndo, antes de viajar, uma gravação feita às pressas.

Pra você, o que é o choro? Qual a importância dessa música? O choro foi que me fez praticamente gostar de música. O choro, por incrível que pareça, é uma música interessante para você começar a caminhar pela música brasileira. O choro é meio resultado de vários gêneros que acabaram culminando nesse estilo. Quem pensa em começar a tocar, um bom ponto de partida é o choro. Ele tende a ser um cara bem eclético, tende a ter uma preparação que permita ele transitar entre várias áreas da música brasileira. O músico de choro tem facilidade de se integrar com vários estilos musicais.

Você concorda que quem toca choro toca qualquer coisa? Qualquer coisa eu não diria, mas toca muita coisa. Tem alguns estilos musicais que são diferentes. Um solista de choro tem dificuldades de improvisar no rock, é uma linguagem totalmente diferente. Nessas músicas mais brasileiras ele tem mais facilidade de transitar entre elas.

Você se considera um chorão? Sim. É o gênero em que eu me sinto à vontade. A linguagem é muito comum quando a gente está há muito tempo naquele meio. Você ouve, já começa a improvisar, conhece aquela linguagem. Me considero um chorão, embora goste muito de samba também, devido a essa experiência que eu tive na graduação quando toquei em grupos de samba.

Quem você considera o maior nome do bandolim do Brasil? Em todos os tempos? Jacob!

Por que? Pelas composições dele. ele deu uma cara ao bandolim, se pedir para alguém citar, “diga 10 composições que você gosta ao bandolim”, nove vão ser de Jacob, se não forem as 10.

[O Imparcial, 15 de março de 2015]

Siba e o exemplo de resistência dos maracatus de Pernambuco

Siba comandou baile de encerramento do BR135. Foto: ZR (12/12/2015)
Siba comandou baile de encerramento do BR135. Foto: ZR (12/12/2015)

 

Escalado para fechar a programação do BR135, o pernambucano Siba brindou o público ludovicense quase que exclusivamente com o repertório de De baile solto, seu novo e ótimo disco, passeando aqui e acolá, por outros títulos de sua carreira (todos disponíveis para download legal e gratuito em seu site).

O ex-Mestre Ambrósio abriu o show com a faixa-título do novo trabalho. Aliás, Mestre Nico (percussão) anunciou o tema instrumental, a demonstrar o peso da formação de sua banda. Com atitude roqueira ao empunhar sua guitarra, Siba canta acompanhado de bateria, percussão e tuba, com repertório calcado em gêneros da cultura popular de Pernambuco: o maracatu de baque solto com que trocadilha o nome do disco novo, a ciranda, o frevo e a marcha, entre outros. Seguiu-se Trincheira da Fuloresta, lembrando a Fuloresta do Samba, outro grupo integrado por Siba, formado por músicos populares de Nazaré da Mata, pequeno município da Zona da Mata pernambucana.

Depois veio Marcha macia, uma resposta de Siba à tentativa da burocracia estatal, em Pernambuco, de acabar com a tradição de os maracatus amanhecerem tocando: “Vossa excelência, nossas felicitações/ É muito avanço, viva as instituições!/ Melhor ainda com retorno de milhões/ Meu Deus do céu, quem é que não queria?/ Só um detalhe quase insignificante/ Embora o plano seja muito edificante/ Tem sempre a chance de alguma estrela irritante/ Amanhecer irradiando o dia”, diz a letra. O tema voltaria à baila, como veremos adiante.

Duetando com Mestre Nico, Siba mandou a real sobre as desigualdades sociais que ainda assolam o país em Quem e ninguém: “Quem tem dinheiro controla/ Radar, satélite e antena/ Palco, palanque e arena/ Onde quem não tem rebola/ Quem tem fornece a bitola/ Onde quem não tem se mede”, um direto na cara de qualquer hipocrisia.

Música dos tempos de Mestre Ambrósio, Gavião ganhou novo arranjo em De baile solto. Três desenhos e Mel tamarindo precederam a pergunta “topam entrar num carnaval?”, com que Siba anunciou A jarra e a aranha, com seu refrão trava-língua, e A bagaceira (de Avante). O público pulava e circulava pela Nauro Machado num grande trenzinho. A multidão presente à praça, tornada um grande baile (solto) de carnaval a céu aberto, fez valer os versos: “pode acabar-se o mundo/ vou brincar meu carnaval”.

A velha da capa preta tornou a passear pela Fuloresta, antes de Siba mandar Meu balão vai voar, faixa que encerra De baile solto que, por pouco, não encerra também o show. Depois dela seguiu-se Toda vez que eu dou um passo o mundo sai do lugar, do disco homônimo. Siba já sabia que não haveria bis e anunciou isso para a plateia. Não por falta de vontade sua: uma determinação ridícula – desconhecida por este blogue – impede que shows musicais passem de 1h da manhã na Praia Grande (ou em São Luís?). A produção já estava com as barbas de molho depois que a polícia tentou não deixar Curumin terminar seu show na noite anterior.

Faltava pouco para o limite e Siba tornou a entregar o comando do palco a Mestre Nico, que conduziu uma aula de balé popular para a multidão. Pouco depois, citou o exemplo de Recife e as tentativas de proibição de os maracatus amanhecerem tocando, como é tradição. Faltando sete minutos para 1h, emendou um repente que duraria até o fim do show, encerrando-o em grande estilo: “pessoal, muito obrigado/ o show já vai terminar/ outro dia eu volto aqui/ sem ter hora pra acabar”, improvisou. E entre muitos outros versos não guardados pela memória deste cronista, anunciou: “vou ficar em São Luís/ visitar Maracanã/ meu prato de juçara/ vai ser café da manhã”.

Chequei o relógio, que marcava 1h01. É preciso respeitar as regras, mas nem tanto. O exemplo dos maracatus de Recife e os versos de Marcha macia tornaram a me martelar o juízo: “não custa nada se ajustar às condições/ estes senhores devem ter suas razões/ além do mais eles comandam multidões/ quem para o passo de uma maioria?”