Jornalistas de profissão, o poeta Celso Borges e o DJ Otávio Rodrigues inventaram Poesia Dub em 2004, quando ambos viviam em São Paulo. O nome do espetáculo de poesia no palco, para muito além da leitura de poemas com trilha sonora, remete a uma das especialidades de Otávio, um dos maiores especialistas em Jamaica no Brasil, mas sem se prender a ele.
Embora com apresentações bissextas – Celso Borges voltou a morar em São Luís em 2009 – Poesia Dub já passou por várias formações. Ontem (12), na Praça Nauro Machado, na programação do Festival BR135, foi apresentado por Celso Borges (voz e poemas), Otávio Rodrigues (trilhas, efeitos e percussão adicional), Luiz Cláudio (percussão) e Gerson da Conceição (contrabaixo).
Linguagem abriu a apresentação. É um poema em que o autor convida os espectadores a ouvir, falar, lamber, chupar, morder a sua língua, a linguagem enquanto vírus, não à toa Celso Borges ser chamado de “homem poesia” por alguns, dada sua dedicação à causa. Quase um “vai vir o dia quando tudo que eu diga seja poesia”, de Paulo Leminski, homenageado em Morto vivo: “aos quarenta e quatro” – idade com que o curitibano faleceu – “ainda dói o óbvio”, falacanta CB. “Estou vivo na idade do morto, Leminski”, diz noutro trecho, como a dizer que apesar do mundo estamos aí, “que nem assino embaixo/ que nem moscoviteio/ que nem capricho/ que nem relaxo”, citando alguns de seus poemas mais conhecidos e o clássico Caprichos e relaxos.
Paulicéia é uma ode a São Paulo e São Luís, os dois santos de sua vida, “um em cada um dos meus ombros, trocando sempre de lugar. Ora protetores, ora algozes”, como me declarou CB em uma entrevista em 2007. Rima Fiesp com Masp, símbolos paulistas, e Pompeia com Coreia e Divineia, bairros de lá e cá, com o “venta loló/ pra esse barco andar”, de Chico Maranhão, de refrão. No final, uma homenagem a Torquato Neto: “leve o homem e o boi ao matadouro; quem gritar primeiro é o homem mesmo que seja o boi”.
Otávio Rodrigues programa dub e reggae, mas também ladainhas, tambor de crioula, bumba meu boi e Cordel do Fogo Encantado. Em Ode a Rico Rodriguez, o trombone do mestre jamaicano nascido em Cuba, falecido em setembro passado. “Um dos mais importantes nomes do reggae, integrante dos Skatalites ainda nos anos 1960”, frisou Gerson da Conceição. “Me apaixonei por Rico Rodriguez ao ser apresentado à sua música, no começo dos anos 2000, por Otávio Rodrigues”, agradeceu Celso Borges. “O pobre Rodrigues”, brincou Otávio.
“Eu quero ver quem ainda vai ter medo da Praia Grande!”, bradou Celso, festejando o público do BR135, que ocupou duas praças do bairro nas três noites da programação do festival que ajudou a formatar.
Poesia Dub merece urgentemente registro em disco. Relevante serviço prestado à música e à poesia, é injusto que seus apreciadores fiquem à mercê dos encontros de Celso Borges e Otávio Rodrigues no palco, infelizmente mais raros que um 29 de fevereiro.
Que Curumin é um músico que sabe o que fazer no estúdio já estamos cansados de saber e seus três discos são a prova disso. Em Achados e perdidos (2003), JapanPopShow (2008) e Arrocha (2012), ele compõe, canta, toca, sampleia e reinventa a música pop(ular) produzida no Brasil.
Que Curumin sabe o que fazer no palco, o show dele ontem (11), na programação do Festival BR135, sua primeira vez em São Luís, não deixou a menor dúvida. Pilotando bateria e samples, trajando calça vermelha, chapéu e uma camisa quase nas cores do Sampaio Corrêa (o laranja predominava, em vez do vermelho), o artista estava escoltado pelos Aipins José Nigro (contrabaixo e samples) e Lucas Martins (guitarra e samples), “uma banda que tá há muito tempo tocando junta”, como revelou em entrevista ao Homem de vícios antigos.
Curumin canta, toca, programa, protesta, improvisa, não se dá descanso ao longo de toda a apresentação, em que emenda uma música na outra, como se fosse uma máquina de fazer música – embora não o faça mecanicamente e o prazer em tocar, e particularmente em tocar em São Luís, era perceptível. Não há vazios em sua música – ou nas poucas alheias que interpreta. É de um vigor impressionante.
Começou por Vestido de prata (Jorge Alfredo Guimarães), sucesso do novo-baiano Paulinho Boca de Cantor, regravada por ele no disco mais recente. Com quase uma década, Mal estar card atualiza o momento político cretino que o Brasil atravessa. Samba Japa traduzia o sentimento dos que lotaram a praça: na música, a menina sonhou e sambou ali, “no meio da rua na Avenida Central ela não podia parar”; os que estávamos na Praça Nauro Machado também não.
O refrão de Compacto foi cantado pela plateia, em resposta aos “Eu só quero ouvir” de Curumin. Seguiram-se Passarinho, de Russo Passapusso, Selvage e Afoxoque, com o trio esbanjando versatilidade, habilidade e alegria, esta última entrecortada pela caixa de música que abre Salto no vácuo com joelhada (que ele não cantou), preenchida por rimas improvisadas contra “a polícia que trata todo estudante como maconheiro” e a corrupção na política – não disse, mas certamente se referia à São Paulo e a guerra travada pelo governo Alckmin contra estudantes ocupando escolas para mantê-las abertas, contra projeto de “reorganização” do governador.
Mistério Stereo foi dedicada às pessoas que ainda amam, “são poucas”, disse. Vem, menina foi a única música de Achados e perdidos que compareceu ao repertório. Ao vivo, o bloco final ganhou em peso. Em Kyoto o protesto voltou à baila, contra as elites que querem decidir o destino dos menos favorecidos; em Caixa preta Zé Nigro enfiou de incidental trechos de Kátia Flávia, a godiva do Irajá, de Fausto Fawcett; Magrela fever tornou a praça uma grande festa em clube de carnaval, com direito a trenzinho e tudo.
Sabe-se lá se a polícia local tomou para si os protestos de Curumin, mas, diante das ameaças de tomarem o palco e acabar com o show na marra, após negociações com a produção, não coube bis. Policiais alegavam ter o show extrapolado o horário – o que se fosse o caso, mereceria uma honrosa exceção.
Incansável, Curumin fez quase duas horas de um show impecável, um apanhado do melhor de sua carreira. Certamente teria pique para mais, ao menos o bis, mas nem isso tirou o brilho da noite e, particularmente de sua apresentação, que ficará por muito tempo na memória dos que presenciaram esse momento grandioso e raro.
Idealizadores e produtores do BR135, Alê Muniz e Luciana Simões confraternizaram com a plateia. Foto: Marco Aurélio/ Projeto BR135
Alê Muniz e Luciana Simões fizeram, há algum tempo, uma opção a que alguns não hesitariam em taxar de suicida: morar no Maranhão e produzir a partir daqui. O casal Criolina, após dois discos e uma temporada em São Paulo, onde se conheceram, fixaram residência na Ilha e daqui tem realizado conexões importantes para o fomento da música pop(ular) produzida atualmente em seu lugar de origem. Tem dado certo.
Este ano, Alê e Lu lançaram Latino-americano, EP-ritivo enquanto o terceiro disco não chega, com quatro faixas: covers de Reginaldo Rossi (Garçom) e Osvaldo Farrés (Quizás, quizás, quizás), e parcerias inéditas com Bruno Batista. Também foi ao ar um videoclipe, da faixa-título, financiado por crowdfunding.
Deles ninguém nunca saberá ao certo a resposta à eventual pergunta “e o próximo disco?”, costumeiramente ouvida por artistas. É que eles, além de sua carreira enquanto duo, resolveram colaborar com a formação e consolidação de uma cena local. Tanto é que o Festival BR135, grife consolidada com a cara dos dois, é muito mais que um festival de música.
Aos shows em dois palcos na Praia Grande – reocupada com música de qualidade durante três dias de programação – se somam todas as mesas-redondas, debates, palestras, rodadas de negócios, painéis e workshops do Conecta Música, programação de formação e negócios paralelo ao evento musical.
Ontem o duo se apresentou para o ótimo público que bisou lotar a praça Nauro Machado. Não eram a cereja do bolo, tampouco realizam o evento para criar palco para si próprios, seria tolo e injusto alguém o dizer. Era, talvez, um momento de afirmar, com o que sabem fazer tão bem quanto produzir e coordenar eventos dessas dimensões, algo como “ei, o que nós fazemos é música!”, parafraseando um disco de Jards Macalé, ou “música serve para isso”, de Maurício Pereira: para agregar pessoas, colocar o Maranhão na rota dos grandes palcos do Brasil e para, a partir destes encontros, entre artistas e público, mas também entre os artistas entre si e entre pessoas do público, surgir outra/s coisa/s. É do atrito que nasce o novo.
Sua apresentação, no Festival que idealizaram e produzem, era uma espécie de confraternização, comunhão entre artistas e plateia e agradecimento mútuo: “obrigado a vocês por estarem aqui”, disseram Alê e Lu ao público, razão maior do festival; a plateia retribuiu os agradecimentos com aplausos e cantando junto músicas como O santo [Alê Muniz/ Luciana Simões], Eu vi maré encher [Alê Muniz/ Luciana Simões], A serpente (Outra lenda) [Zeca Baleiro/ Celso Borges/ Ramiro Musotto], Semba [Zeca Baleiro], Latino-americano [Alê Muniz/ Luciana Simões/ Bruno Batista] e Quizás, quizás, quizás [Osvaldo Farrés], entre outras.
A OBMJ na capital brasileira do reggae. Foto: Projeto BR135
Na mesa de que tive a honra de participar na programação do Conecta Música – evento de formação paralelo ao Festival BR135 – Roberta Martinelli, comentando sua trajetória e os embates constantes pela manutenção do que idealizou para seu programa Cultura Livre, lembrou a resposta que deu a um “você nunca traz uma banda grande” que ouviu de alguém. “Trago sim, já trouxe a Orquestra Brasileira de Música Jamaicana, a Filarmônica de Pasárgada, o Bixiga 70”, enumerou, bem humorada.
A Orquestra Brasileira de Música Jamaicana – ou simplesmente OBMJ para os íntimos – aterrissou no palco da Praça Nauro Machado, ontem (11), trazendo ao público ludovicense sua adaptação de repertório brasileiríssimo a ritmos como reggae, ska e rocksteady.
Martinelli está certa: é uma grande banda e uma banda grande. São nove músicos, o naipe de metais tem cinco sopros. Elegantemente trajados, uns de terno, outros de boina, todos de gravata, dançavam em engraçadas coreografias. Em determinado momento me peguei pensando se eles nunca erraram e o trombonista acertou um companheiro do lado – ontem, não.
Entre versões instrumentais e cantadas, clássicos da música brasileira vertidos à Jamaica: Pagode russo (Luiz Gonzaga), Carinhoso (Pixinguinha/ João de Barro), Águas de março (Tom Jobim), Tico-tico no fubá (Zequinha de Abreu), Sítio do pica-pau amarelo (Gilberto Gil), Trem das onze (Adoniran Barbosa), País tropical (Jorge Ben) e Deixa a gira girar (Mateus Aleluia/ Dadinho), sucesso dos Tincoãs regravado por eles e uma pá de gente da mpb.
Hugo Hori (sax e flauta), ex-Karnak e com longa folha de serviços prestados à música brasileira, substituiu um membro que não pode vir à São Luís. A interação com os colegas de banda e público foi tão perfeita que nem parecia tratar-se de um “reserva” – ainda que da categoria “amuleto”, qual um Tupãzinho no Corinthians do início dos anos 1990.
O final foi apoteótico, um “skarnaval”, como anunciou Sérgio Soffiatti (voz e guitarra), antes de emendarem um medley com Aurora (Mário Lago/ Roberto Roberti), Chiquita bacana (João de Barro/ Alberto Ribeiro), O teu cabelo não nega (Lamartine Babo/ João Victor Valença/ José Raul Valença) e Frevo mulher (Zé Ramalho). Quem foi ao show dançou; quem não foi, “dançou”.
A expressão “mar de gente” não seria clichê para dar ideia do público que lotou a praça Nauro Machado, na Praia Grande, ontem (10) para ver Arnaldo Antunes e os shows que precederam o seu: as Caixeiras do Divino, Sulfúrica Bili, Phill Veras e o DJ Chico Correa tiveram, todos, ótima audiência, na primeira noite da edição 2015 do Festival BR135 – veja a programação completa no site.
O ex-Titãs subiu ao palco escoltado apenas por Chico Salem (guitarra e violão) e André Lima (teclado e sanfona), que lhe bastaram para um passeio por diversas fases de sua carreira solo, com pitadas de Tribalistas e da banda que fundou há mais de 30 anos.
Apropriadamente ele abriu o show com Fim do dia (Arnaldo Antunes/ Paulo Miklos). Os presentes à Nauro Machado tinham certeza do que seus versos diziam: o dia havia chegado ao fim e não havia o que lamentar, pelo contrário. Seguiram-se Sem você (Arnaldo Antunes/ Carlinhos Brown) – com o incidental de Preta pretinha (Luiz Galvão/ Moraes Moreira) – e Meu coração (Arnaldo Antunes/ Ortinho). “É o único herói ainda vivo. Todos os outros morreram de overdose”, ouvi alguém dizer na plateia. “Ou viraram reaças”, pensei.
Arnaldo Antunes estava à vontade, todo de preto, usando grandes anéis, dançando, dizendo da alegria de voltar à São Luís após tanto tempo. Depois de Contato imediato (Arnaldo Antunes/ Carlinhos Brown/ Marisa Monte) e Pedido de casamento (Arnaldo Antunes), lembrou o falecimento recente de Nauro Machado, louvando-o como grande poeta que era e recitou sua Odisseia: “Depois de nos cortarmos a nós mesmos,/ separando a cabeça do olho impuro,/ o olho dos membros e as pernas das mãos,/ depois de separarmos em nós mesmos,/ o que se come do que nos vomita/ por meio escuso de sombrio canal,/ depois de tudo em nós quebrado e inútil,/ na angústia em pelo de uma opaca terra,/ juntamos as partes e/ continuamos”.
Nunca é demais lembrar que Arnaldo Antunes é poeta, com diversos livros publicados. Mesmo na música, sua vertente mais conhecida, à surrada pergunta “letra de música é poesia?” a resposta, no caso de sua obra, é sim: suas letras são tão boas que sobreviveriam descoladas das melodias. As justas homenagens a Nauro Machado já haviam começado com a lembrança de Alê Muniz e Luciana Simões, o casal Criolina, idealizadores e produtores do Festival BR135, com o mestre de cerimônias Preto Nando e com a atriz Áurea Maranhão, a bordo de pernas de pau, atravessando o mar multicolorido e diverso de gente, recitando, em meio ao povo, trechos de poemas do poeta que deu nome à praça que abriga parte da programação do festival, como Pequena ode a Tróia e Câmara mortuária.
Mas voltemos à Arnaldo Antunes, que cantou por mais de hora e meia e deixou no público o gosto de quero mais. Depois do poema do maranhense ele cantou Saiba (Arnaldo Antunes): “saiba, todo mundo vai morrer/ presidente, general ou rei”. Que nos sirva de consolo.
Seguiram-se Invejoso (Arnaldo Antunes e Liminha) e Consumado (Arnaldo Antunes/ Carlinhos Brown/ Marisa Monte), cuja letra fala em “rádio sem jabá”, tema de palestra proferida à tarde por Patrícia Palumbo – por cujo Vozes do Brasil Antunes já foi entrevistado – na programação do Conecta Música, evento de formação, paralelo ao festival.
Arnaldo elogiou o trabalho de Chico Salem, que está lançando disco solo e deixou-o no palco para imediata empatia do público. Ele cantou Real demais pra você (Chico Salem), música animada de letra galhofeira: fala de uma usuária de redes sociais cuja vida real é diferente da postada no facebook, tuiter e instagram – qualquer semelhança é mera coincidência: a plateia ria e cantava junto, empunhando celulares que não pararam de fotografar e filmar o show inteiro. Ou, às vezes, apenas cabeças e mãos pra cima à sua frente.
Dos discos mais recentes, ele fez blocos. De Disco, cantou Muito muito pouco (Arnaldo Antunes) e Ela é tarja preta (Arnaldo Antunes/ Betão Aguiar/ Felipe Cordeiro/ Luê/ Manoel Cordeiro); de Já é, Põe fé que já é (Arnaldo Antunes/ Betão Aguiar/ André Lima) e Naturalmente, naturalmente (Arnaldo Antunes/ Marisa Monte/ Dadi).
“Essa é pra lembrar de quando a gente tava dentro da barriga da mamãe”, disse antes de cantar Debaixo d’água (Arnaldo Antunes). Depois de Se tudo pode acontecer (Arnaldo Antunes/ Alice Ruiz/ Paulo Tatit/ João Bandeira), Velha infância (Arnaldo Antunes/ Carlinhos Brown/ Davi Moraes/ Marisa Monte/ Pedro Baby) emocionou grande parte do público, que ajudou Arnaldo a cantar o hit tribalista. Não vou me adaptar (Arnaldo Antunes) atendeu aos deselegantes e insistentes gritos de “Titãs!” ouvidos desde o início do show.
“Tudo fica mais bonito com vocês cantando”, agradeceu ao deixar o público cantar sozinho os versos finais de Socorro (Arnaldo Antunes/ Alice Ruiz): “qualquer coisa que se sinta/ tem tanto sentimento/ deve ter algum que sirva”. Com Passe em casa (Arnaldo Antunes/ Carlinhos Brown/ Marisa Monte/ Margareth Menezes), outro vibrante hit tribalista, o trio deixou o palco.
Os gritos de “mais um” demoraram um pouco mais: cigarro entre os dedos, Arnaldo Antunes, ao voltar do camarim, posou para selfies com a equipe de produção, técnicos e quem mais estivesse na lateral de acesso ao palco. No bis, atacou de Envelhecer (Arnaldo Antunes/ Marcelo Jeneci/ Ortinho) e O pulso (Arnaldo Antunes/ Marcelo Fromer/ Toni Bellotto).
Shows como o de Arnaldo Antunes e festivais como o BR135 estão aí para provar que São Luís ainda pulsa. Seu coração de paralelepípedos bombeou emoção aos de carne e sangue ali presentes.
Com três discos na bagagem, o cantor, compositor e multi-instrumentista Curumin é um dos mais interessantes artistas da música brasileira surgidos nos anos zero zero. Além dos discos solo – Achados e perdidos (2003), JapanPopShow (2008) e Arrocha (2012) – é nome fácil em fichas técnicas de discos de artistas diversos.
Arrocha. Capa. Reprodução
Pilotando bateria, percussão, guitarra e/ou contrabaixo, para citar apenas a cozinha básica – a lista de instrumentos que toca é enorme – lá está Curumin, titular dos times de, entre outros, Arnaldo Antunes (Disco, Ao vivo lá em casa, Iê iê iê), Marcelo Jeneci (seu companheiro na banda do ex-Titãs, Feito pra acabar), Céu (Vagarosa), Itamar Assumpção (o póstumo Maldito vírgula), Lucas Santtana (Sem nostalgia), Rodrigo Campos (São Mateus não é um lugar assim tão longe), Rômulo Fróes (Cão, No chão sem o chão), Russo Passapusso (Paraíso da miragem), Walter Franco (Tutano), Zélia Duncan (Pelo sabor do gesto) e Anelis Assumpção (Anelis Assumpção e os Amigos Imaginários), com quem é casado.
Esse trânsito intenso torna impossível rotular a música deste descendente de espanhóis e japoneses com nome artístico indígena. Sua obra agrega elementos de samba, funk, forró, hip hop, afoxé, reggae, eletrônica e mais um rosário de referências. Seus discos são, ao mesmo tempo, dançantes e inteligentes, com letras por vezes fazendo denúncia social – Caixa preta aborda as relações entre mídia e os outros poderes e Mal estar card trocadilha a exclusão social, para ficarmos apenas nestes exemplos.
Curumin se apresenta pela primeira vez em São Luís amanhã (11), de graça, na Praça Nauro Machado (Praia Grande), na programação do Festival BR135, que acontece de hoje (10) a sábado (12). Arnaldo Antunes (que se apresenta hoje na noite de abertura), Siba (na de encerramento) e Orquestra Brasileira de Música Jamaicana são alguns dos outros nomes da grade – veja programação completa no site.
Às vésperas de baixar na Ilha, Curumin conversou com o Homem de vícios antigos.
Foto: Mauro Frasson/ Agência Fiep
Quais as expectativas para esta sua primeira apresentação em São Luís?
As minhas expectativas são as melhores. Eu conheço São Luís, eu sei que é um lugar único no Brasil, com uma mistura, uma cultura ímpar que só tem aí, e também a gente vai chegar aí com um show muito trabalhado, na ponta dos cascos, que a gente já tocou bastante, já rodou o Brasil todo, pelo mundo, é uma banda que tá há muito tempo tocando junta, então tá soando bem natural, bem tranquilo.
O que você conhece da música popular produzida no Maranhão? Destacaria algum nome?
Sinceramente não lembrava de nenhum nome e vim pesquisar com a certeza que conhecia algo daí, mas não sabia que era daí, como por exemplo, João do Vale, Nonato e Seu Conjunto, que são duas referências antigas e de sons únicos. João do Vale tem um disco maravilhoso, O poeta do povo, enfim, um som muito importante para a música popular brasileira. E além disso também os sons novos, da Rita Ribeiro [hoje Benneditto], Zeca Baleiro, Tânia Maria, não tão nova, Tião Carvalho, e toda tradição de reggae que tem aí. Então, eu sei que é um lugar muito prolífico, que respira uma cultura, como eu já disse, única. Eu tenho certeza que tem muita música aí, o tambor de crioula e todas as manifestações, a [Casa] Fanti-Ashanti também, enfim.
Em Arrocha, seu mais recente disco, você regravou Vestido de prata, de Paulinho Boca de Cantor. Em algum sentido, uma espécie de liquidificador fundindo sonoridades aproxima você da trupe, como se seu som fosse uma atualização, possivelmente o que eles estariam fazendo hoje, caso estivessem na ativa enquanto grupo. Em que medida os Novos Baianos são uma referência?
Os Novos Baianos são uma referência, sem dúvida. Eu acho que eles tinham uma coisa, uma proposta mesmo ousada para a época, à frente, tentando ver lá pra frente, tentando chutar regras antigas, tentando inovar, procurando coisas novas, misturas, que falassem a respeito da vida deles. Com certeza eu acho que os Novos Baianos são uma referência, eu escutei muito e tive aquilo muito como influência pra mim.
Você é casado com Anelis Assumpção, filha de Itamar Assumpção e sua herdeira musical. Você já o admirava? Qual a importância e o lugar em que você o coloca? É também uma referência importante?
Com certeza eu já admirava o Itamar, mas estando aqui com a Anelis eu pude admirar cada vez mais, todas as histórias que eu fui ouvindo, e todo o amor que existia em torno dele, e que ele criou na vida dele, e também a história maravilhosa, [corrige-se] quer dizer, maravilhosa, uma história difícil, mas por isso mesmo, talvez, gloriosa, de ter nadado contra o sistema, contra a maré pra conseguir seguir o caminho que ele acreditava e todos os percalços que ele encontrou na frente, mas também toda dignidade que ele teve pra botar isso em frente e fazer música no Brasil.
Você tem uma carreira solo consolidada, mas também é músico de diversos artistas importantes. É difícil conciliar as agendas? O quanto uma coisa atrapalha a outra?
Eu não sinto que atrapalha, muito pelo contrário, eu sinto que me ajuda, por que dá uma desbaratinada, você começa a fazer um trabalho, vai pra outro, isso ajuda também a tirar um pouco uma coisa só da cabeça, a pensar outras coisas, pensar outras formas, e também cada artista que você acompanha você tem uma visão diferente da música. Isso é bom, amplia o repertório, amplia as formas que eu posso me relacionar com ela.
Curumim, com m, é como se chamam as crianças indígenas. Curumin, com n, é seu nome artístico. De onde surge essa assinatura, já que você descende de japoneses e espanhóis?
Curumin foi um apelido de escola, de criança, desde pequeno eu tenho. É um apelido que foi grudando em mim de jeito que meu filho, hoje, se eu falar que meu nome é Luciano [Nakata Albuquerque] ele acha estranho [risos]. Aqui em casa todo mundo me chama de Curumin. Essa coisa do n no final, eu não sei direito em que momento eu resolvi colocar, acho que era também um jeito de diferenciar do curumim indígena, acho que é isso.
Você toca diversos instrumentos e a produção de seus álbuns é, em parte, caseira. A tecnologia favorece os experimentos, colagens. Você mexe muito numa música, seja compondo ou gravando, até decidir que ela está pronta para entrar num disco?
Cara, depende. Cada música tem meio um percurso. Compacto, por exemplo, é uma coisa que saiu assim, surgiu. Até o JapanPopShow eu fazia muito música assim, ah, pintou uma ideia, pluf, eu colocava e pronto, deixava aquela ideia bruta ali. No Arrocha já foi um processo diferente, eu pensava mais, eu fazia o groove, depois ia lapidando, lapidando. E gravando eu mexo, normal, assim, eu tenho uma coisa de ter um cuidado, às vezes eu fico meio cuidando até demais, mas eu sei também de um limite, não é uma coisa exagerada. É até um ponto que eu aguento, que não me enche o saco [risos].
O que você está preparando para o sucessor de Arrocha?
[Pensativo] Olha, o que eu tenho [interrompe-se]. Isso já veio com o Arrocha já um pouco, as experiências de tocar ao vivo com a banda que a gente tem, foi me levando a um conceito da nossa banda, do nosso elo, de como a gente soa, que tipo de música soa bem com a banda que eu tenho agora, que eu já tenho já faz tempo. Mas isso é sempre uma busca, acho que esse disco vai ter essa busca um pouquinho também. Minha banda sou eu e mais dois baixistas, só que um dos baixistas toca guitarra, eu tenho fundado muito esse disco na coisa da linha de baixo, na bateria e baixo. Eu tenho pensado todas as músicas a partir daí. Uma primeira ideia de melodia simples que vem na minha cabeça eu transformo em linha de baixo pra depois criar o resto em cima. É quase como se fosse assim a estrutura da casa, primeiro eu penso na estrutura bem firme, nas vigas, aí depois eu vou construindo o resto.
Músicas como Caixa preta e Mal estar card, de JapanPopShow, traduzem as tenebrosas transações do cenário político brasileiro e são músicas mais atuais do que nunca. Como você avalia o atual momento por que passa o país?
É claro que é um horror, né? Mas tem um lado bom, eu não sei se posso dizer que é bom, mas tem um lado que até então, até esse momento de crise que a gente vive hoje, a gente sempre soube que as coisas horríveis do país existiam. Mas agora todas as máscaras tão caindo e acho que isso, apesar do sentimento horrível que a gente tem, a desesperança, a frustração que a gente tem mesmo em relação a nosso plano de país, eu acho que tem um lado bom, que é – eu ainda tou custando a falar que é um lado bom, mas assim –, tem esse lado de caírem todas as máscaras. Tudo o que é errado está aparecendo, tá vindo à tona. Isso tem sido importante, vai ser um processo que a gente vai ter que passar, dolorido mesmo, e espero que [as coisas mudem] para melhor.
Apresentação do compositor marca encerramento da temporada Milhões de Uns, de lançamento do cd homônimo
Joãozinho Ribeiro durante apresentação da temporada Milhões de Uns. Foto: Ton Bezerra
O compositor Joãozinho Ribeiro encerra a temporada Milhões de Uns, de lançamento de seu disco de estreia, homônimo, com show amanhã (27), às 19h30min, na Praça dos Catraieiros (Praia Grande). A apresentação integra a programação cultural da Feira da Tralha, evento organizado pelos Sebos Nas Canelas e Educare. A entrada é franca.
A ocupação cultural da praça ao lado da Casa do Maranhão tem como objetivos, segundo seus organizadores, contribuir para a revitalização da Praia Grande, prolongar a vida útil de uma série de objetos, gerar trabalho e renda para trabalhadores do segmento da economia criativa, além do comércio em si, de cds, dvds, vinis, livros usados, objetos de antiquário, artesanato, artigos de coleções, instrumentos musicais e equipamentos eletrônicos, entre outros.
A Feira da Tralha acontece todas as quintas e sextas, das 16h às 21h. As sextas, conta com a apresentação do Regional Deu Branco, um dos mais jovens grupamentos de choro de São Luís, formado por Bernardino Júnior (bandolim), Cleiton Canhoto (violão sete cordas), Dudu Lima (cavaquinho solo), Erivan Nery (flauta), Jamil Cartágenes (cavaquinho centro) e Valderson de Abreu (percussão).
Nesta sexta (27), o grupo abrirá o show Milhões de Uns, de Joãozinho Ribeiro, com a participação especial do duo Criolina (Alê Muniz e Luciana Simões). Ele e os convidados serão acompanhados por Arlindo Carvalho (percussão), Arlindo Pipiu (contrabaixo), Danilo Santos (saxofone e flauta), Hugo Carafunim (trompete e flugel), Luiz Jr. (violão sete cordas), Robertinho Chinês (bandolim e cavaquinho) e Wanderson (percussão).
“É um prazer e um luxo poder contar com a participação do Criolina. Alê Muniz é um parceiro de longa data, e ao lado da Luciana forma um dos maiores acontecimentos da música produzida no Maranhão recentemente. Interessante também é poder contar com a presença da rapaziada do Deu Branco, valorosos garotos levando adiante o estandarte do choro”, afirmou o compositor.
Ele antecipa um balanço de 2015 e alguns projetos para 2016. “Este ano busquei conciliar a agenda de trabalho profissional com a profissão de fé da criação artística, dedicando-o a diversas apresentações, em vários palcos da cidade, ao lançamento do cd, registro que já era bastante cobrado por amigos e admiradores de nosso trabalho. Para ano que vem pretendo trabalhar no lançamento do segundo volume, além de lançar um segundo livro”, afirmou Joãozinho, que é funcionário público federal e professor universitário.
Autor de mais de 100 músicas, Joãozinho Ribeiro é um dos compositores mais gravados do Maranhão, tendo o nome em discos de artistas como Alê Muniz, Anna Cláudia, Célia Maria, Glad, Josias Sobrinho, Lena Machado e Rosa Reis. Em 2006 publicou Paisagem feita de tempo, livro-poema escrito em 1985. Milhões de Uns – vol. 1 é seu primeiro disco. Gravado ao vivo em duas noites no Teatro Arthur Azevedo, conta com as participações especiais de Alê Muniz, Célia Maria, Chico César, Chico Saldanha, Lena Machado, Milla Camões e Zeca Baleiro. Para o volume, Elba Ramalho gravou Asas da paixão em estúdio.
Rezende (de chapéu) exibe seus instrumentos artesanais no jardim da EMEM. Foto: divulgação
Há alguns anos entrevistei o poeta Antonio Rezende, por ocasião do lançamento de Acerto de contas, seu livro de estreia, coletânea de poemas escritos desde a década de 1980, quando o tocantinense morou em São Luís, onde chegou a integrar a Akademia dos Párias, movimento que fez barulho na cena da poesia local.
Poeta, jornalista e artesão, eis que Reza, como os amigos carinhosamente o chamam, está de volta à Ilha. Desta vez a bordo da Kombi Miliquinha, estacionada no pátio da Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo (EMEM, Rua do Giz, Praia Grande), onde o artista realiza, em parceria com a instituição, uma exposição de flautas artesanais, produzidas por ele. Amanhã (26), às 14h, a EMEM sediará uma tarde de oficinas de iniciação musical em sopro xamânico e produção artesanal de flautas. As atividades são gratuitas e abertas ao público em geral. Os instrumentos produzidos pelo artista poderão ser adquiridos pelos interessados.
O veículo é uma unidade móvel do Lar do Bardo, escola/oficina de produção artesanal de instrumentos e iniciação musical em sopro e percussão, que Rezende mantém em Taquaruçu, distrito de Palmas/TO, onde vive há alguns anos e desenvolve atividades de arte-educação nos campos da música, literatura, fotografia, artesanato e produção artesanal de instrumentos experimentais.
A passagem pela Ilha é fruto também de uma parceria com a Universidade Estadual do Maranhão (Uema) e incluirá, até domingo (29), oficinas livres. “Elas podem acontecer em qualquer lugar, a qualquer hora, dependendo da oportunidade e do interesse das pessoas. É uma iniciação rápida que demonstra a simplicidade das flautas nativas e a facilidade que qualquer pessoa encontra para tocá-las. São flautas para improvisos melódicos espontâneos e dispensam conhecimento teórico de música. É como assoviar dando asas à musicalidade interior. Pura viagem introspectiva, uma meditação/elevação pelo sopro. Simples e vital como o ar que se respira”, afirma.
A circulação do projeto é, como diria mestre Itamar, às próprias custas s.a.
Quinta edição do projeto terá ainda Quarteto Instrumental e Paulo do Vale
O talento e o carisma de Flávia Bittencourt. Foto: João Rocha
A penúltima edição do projeto RicoChoro ComVida em 2015 acontece amanhã (21), às 18h, no Bar e Restaurante Barulhinho Bom (Rua da Palma, 217, Praia Grande). A noite terá como atrações o pesquisador Paulo do Vale – que prefere não ser chamado de dj –, o Quarteto Instrumental e a cantora Flávia Bittencourt.
“Para nós é uma honra poder contar com a presença de Flávia Bittencourt no palco do RicoChoro ComVida, ela que é hoje uma cantora nacionalmente reconhecida, mas que nunca esqueceu de suas raízes, sempre reverenciando os mestres da música popular produzida no Maranhão”, declarou Ricarte Almeida Santos, produtor do projeto.
A cantora tem três discos lançados: Sentido (2005), Todo Domingos (2009) e No Movimento (2014). O primeiro reuniu, entre os compositores gravados por ela, Josias Sobrinho [Terra de Noel, incluída na trilha sonora da novela global América], Cesar Teixeira [Dolores e Flor do Mal, com participação especial de Renato Braz], Chico Maranhão [Ponto de Fuga e Vassourinha Meaçaba], Zeca Baleiro [Berê] e Martinho da Vila [Ex-amor, com trecho em castelhano vertido por Natalia Mallo], entre outros; o segundo é dedicado ao repertório de Dominguinhos, que havia feito uma participação especial com sua sanfona no disco de estreia da artista; no mais recente, ela deixou aflorar sua veia de compositora, além de registrar gravações para projetos especiais, caso da versão voz e violão para Mar de rosas [versão de Rossini Pinto para Rose Garden, de Joe South], hit dos Fevers, e a gravação de Parangolé (Cesar Teixeira) com participação especial de Zeca Baleiro.
O Quarteto Instrumental reuniu-se especialmente para recebê-la no palco do Barulhinho Bom. João Neto (flauta), Luiz Cláudio (percussão), Luiz Jr. (violão sete cordas) e Robertinho Chinês (bandolim e cavaquinho) prometem um repertório de choro com uma pegada vibrante, mesclando clássicos do gênero a células da cultura popular do Maranhão, além de números autorais. No primeiro time, nomes como Severino Araújo, Ernesto Nazareth, Pixinguinha e Jacob do Bandolim, entre outros.
“São quatro dos mais requisitados músicos da cena musical maranhense, não apenas a chorística. Luiz Jr., por exemplo, esteve recentemente acompanhando a compositora Patativa, no lançamento de seu disco no Sesc Pompeia, em São Paulo”, atesta Ricarte.
Com atuação profissional em fotografia e cinema, campos em que seu talento é largamente reconhecido, não é comum ver Paulo do Vale atuar como dj, título que ele rejeita, em respeito aos profissionais da área. Ao projeto RicoChoro ComVida ele abre uma exceção e, antes e depois das apresentações do Quarteto Instrumental e Flávia Bittencourt, mostrará ao público o fruto de suas pesquisas e coleção.
Produção de RicoMar Produções Artísticas, RicoChoro ComVida tem patrocínio da Fundação Municipal de Cultura (Func), Gabinete do Deputado Bira do Pindaré, TVN e Galeteria Ilha Super, e apoio do Restaurante Barulhinho Bom, Calado e Corrêa Advogados Associados, Sonora Studio, Clube do Choro do Maranhão, Gráfica Dunas, Sociedade Artística e Cultural Beto Bittencourt e Musika S.A. Produções Artísticas.
Serviço
O quê: RicoChoro ComVida – 5ª. Edição. Quem: Quarteto Instrumental, Flávia Bittencourt e Paulo do Vale. Quando: dia 21 de novembro (sábado), às 18h. Onde: Barulhinho Bom (Rua da Palma, 217, Praia Grande). Quanto: R$ 30,00 (reserva de mesas pelo telefone (98) 988265617).
França, Marçal e Dinucci, o Metá Metá. Foto: divulgação
A programação completa ainda não está fechada, mas o Sesc/MA já anunciou os shows de abertura e encerramento da programação da 10ª. Aldeia Sesc Guajajara de Artes, que acontece entre os próximos dias 25 de novembro e 3 de dezembro, em diversos espaços em São Luís e Raposa (este blogue voltará ao assunto em momento oportuno).
O show de abertura será do Metá Metá, formado por Thiago França (saxofone), Kiko Dinucci (guitarra, violão e voz) e Juçara Marçal (voz). É um dos mais interessantes grupos brasileiros em atividade, com um caldeirão sonoro em constante ebulição, onde cabe de tudo. Atualmente o trio prepara o terceiro disco e em maio passado liberou um EP de aperitivo para download.
O encerramento fica por conta do show Selvática, em que Karina Buhr lança seu terceiro disco – a pernambucana nascida na Bahia esteve em São Luís em outubro, quando participou da Feira do Livro. O álbum foi financiado por crowdfunding e pode ser baixado no site da artista. A ex-Comadre Florzinha é uma das mais autênticas artistas brasileiras: plural, é compositora, atriz, cantora, escritora, desenhista, feminista, enfim, uma mulher de atitude.
Encarnado. Capa. Reprodução
Uma curiosidade é que tanto Karina Buhr quanto Juçara Marçal sofreram censura por terem estampado peitos nas capas de seus mais recentes discos – no caso da integrante do Metá Metá o álbum solo Encarnado (2014, disponível para download no site de Juçara).
Selvática. Capa. Reprodução
Enquanto a capa de Selvática (2015) estampa foto da cantora com os seios à mostra e foi censurada pelo facebook, a de Encarnado traz uma mulher com o rosto coberto por um véu vermelho e os mamilos expostos. O iTunes recusou-se a disponibilizar o álbum, sugerindo à cantora modificar a capa – desenhada por Dinucci – para veiculá-lo na plataforma. Obviamente Juçara Marçal se recusou.
Os episódios envolvendo as artistas, a rede social e a plataforma refletem os tempos sombrios em que vivemos, em que avança uma onda neoconservadora, infelizmente não apenas no Brasil. Ainda bem que ainda podemos contar – e ver e ouvir – com artistas “de peito”. Literalmente!
Confiram Karina Buhr em Eu sou um monstro (Karina Buhr):
Três gerações da música do Maranhão se encontram hoje (14), às 20h, no Porto da Gabi (Aterro do Bacanga), no Baile da Tarja Preta, festa que comemora o aniversário de seis anos do Vias de Fato.
Cesar Teixeira, Marcos Magah e Tássia Campos, além do DJ Jorge Choairy estarão juntos para celebrar a longevidade do “jornal que não foge da raia”. Além de música, a noite terá a encenação do esquete Xópim Tarja Preta, de autoria do jornalista Emílio Azevedo, um dos fundadores do Vias de Fato, encenada pelos atores Lauande Aires e Rejane Galeno.
“Os personagens travam um diálogo sobre quem é louco e quem é normal. Conversam sobre o que seria loucura e normalidade, dentro da sociedade em que vivemos; nesse capitalismo à brasileira, com sua herança escravocrata, racista, violenta, patrimonialista; com sua urbanidade profundamente desigual, consumista; com seus profissionais liberais e seus mendigos; e com a presença cada vez mais ameaçadora de um conservadorismo raivoso, de fundo religioso, pseudocristão”, adianta Emílio.
O jornal nasceu a partir do movimento Vale Protestar, contraponto ao Vale Festejar, um festejo junino fora de época que privatizou por muitos anos o Convento das Mercês. Entre 2006 – ano da eleição de Jackson Lago, depois cassado por um golpe judiciário – e outubro de 2009, quando circulou a primeira edição do jornal, muitas discussões e amadurecimento das ideias.
Também fundador do jornal mensal, Cesar Teixeira atesta a importância do jornal para a realidade maranhense: “O Vias de Fato é uma prova de que ainda se pode acreditar em um jornalismo sem amarras no Maranhão, fazendo da sua sobrevivência um compromisso com a sociedade e com a história”, afirmou.
Indago-lhe sobre sua participação no Baile da Tarja Preta e seu aval aos talentos de Tássia Campos e Marcos Magah. “A minha participação será modesta. O palco é deles. Vai ser um prazer estar junto de dois legítimos representantes da nova geração e, embora não seja um avalista do seu talento, assino embaixo”, declarou.
Tássia corresponde o entusiasmo: “[Este encontro] ressignifica as coisas nas quais acredito e é também um lisonjeio, porque eu não componho. O que tenho escrito é apenas a minha história e eles escrevem a história. Me sinto feliz pela possibilidade deste encontro”, afirmou.
Com formação em Ciências Sociais, a cantora é tida por seus pares como uma das mais autênticas artistas de sua geração. Ela não se preocupa em ganhar ou perder patrocínios e espaço para agradar ou desagradar: é uma artista de opinião. Sobre esta questão, ela declarou ao blogue: “Não consigo ficar em cima do muro. Tenho posicionamentos, não acredito em blindagem à crítica – isto já me coloca à margem de algumas coisas – e procuro ser coerente. Acredito que mais artistas com pensamento crítico faria diferença demais. Aqui ainda rola o provincianismo, da colegagem, do disse-me-disse, o que compromete, inclusive profissionalmente, muita coisa. Mas não posso delegar essas responsabilidades aos outros. Mas me incomoda demais isso de, por conta de falta de postura crítica, pouca gente se dá muito bem, pra muita gente se dar muito mal”.
Ela ainda deu pistas do repertório que apresentará logo mais: “Decidi que vou contemplar meus compas de palco: vou cantar Cesar, Magah, Bruno Batista… Mas também tem coisa dA mulher do fim do mundo, [disco novo] da Elza [Soares], Novos Baianos e uns reggaes que eu amo cantar. Vai ter também encontro com os meus rapazes, Chico Maranhão e outras cositas”, antecipou.
Um dos responsáveis pela consolidação de uma cena punk rock em São Luís do Maranhão, Marcos Magah integrou a Amnésia, ainda na década de 1980 – a banda chegou a tocar no comício do então candidato à presidência da república Lula, para uma multidão, na Praça Deodoro, em 1989. Sumido por algumas temporadas, fez de tudo um pouco até reaparecer com Z de vingança [2012], lançado pelo selo Pitomba!, do escritor e editor Bruno Azevêdo, que, de cara, incluiu o disco entre seus prediletos em enquete do Vias de Fato.
A entrevista que Marcos Magah deu a Los Perros Borrachos – Igor de Sousa e este que vos escreve –, publicada pelo jornal meses depois, teve grande repercussão. É a este espírito coletivo que Emílio credita a longevidade do jornal. “A longevidade é, sem sombra de dúvida, fruto do grupo que faz parte do jornal, é consequência do trabalho de quem distribui, divulga, escreve, milita. Sem este trabalho coletivo, que começou no impresso e logo se expandiu para a internet, o Vias não teria durado nem um ano. Some isso a nossa relação direta com as ações de organizações e movimentos populares, de alguns professores e estudantes. Todo esse pessoal, toda esta ação conjunta, é, sem dúvida, a força deste projeto”, finalizou.
Os ingressos para o Baile da Tarja Preta custam R$ 30,00 e podem ser adquiridos no local.
O flautista durante sua entrevista à Chorografia do Maranhão, que inaugurou a série. Foto: Rivanio Almeida Santos
O flautista Serra de Almeida completa, nesta sexta-feira 13, 80 anos de idade, metade deles dedicados à flauta, que aprendeu a tocar já quarentão, como revelou à Chorografia do Maranhão, no depoimento que abriu a série, publicada entre março de 2013 e maio deste ano no jornal O Imparcial.
Há 26 anos o são-bernardense integra o Regional Tira-Teima, mais longevo grupamento de choro em atividade no Maranhão, prestes a lançar (finalmente) seu (aguardado) disco de estreia – incluindo, no repertório, alguns choros de autoria de Serrinha, como é carinhosamente chamado pelos colegas de grupo e por uns mais chegados.
Não poderia haver melhor forma de comemorar a data que com uma roda de choro à altura do talento do mestre. É o que acontecerá hoje (13), às 20h, no terraço do Hotel Brisamar, onde o Tira-Teima costumeiramente se apresenta às sextas-feiras. Mas esta tem sabor especial, por razões óbvias.
Fisicamente, Serrinha lembra o lendário Copinha, mas sua predileção é por Altamiro Carrilho. Merece destaque sua memória prodigiosa: é capaz de tocar incontáveis choros sem qualquer estante à sua frente. Quem quiser comprovar, eis aí uma ótima oportunidade.
A produção não informou o valor do couvert artístico.
Show acontece sábado (14) no Imperial Shopping. Além do município maranhense, músicos percorrerão cinco capitais brasileiras: Teresina, São Luís, Belém, Brasília e Fortaleza
Foto: Fafá Lago
A expressão Andarilho Parador carrega em si aparente contradição. Trata-se da junção dos títulos dos mais recentes discos de Djalma Chaves e Nosly, Andarilho e Parador, respectivamente. Com o show, os músicos percorrerão seis cidades brasileiras em novembro e dezembro, lançando os trabalhos.
A turnê começa por Imperatriz/MA, no próximo sábado (14). Lá a apresentação acontece às 19h30, no Imperial Shopping (BR 010, s/n°., Jardim São Luís), com participações especiais de Karleyby Allanda e Lena Garcia, cantoras da cena local.
“Sou um andarilho por natureza, sempre o fui. Meu trabalho foi forjado nas andanças pelos palcos do mundo. Porém, todo andarilho tem sua parada para o descanso e nada melhor do que as harmonias e canções e a companhia de meu parceiro Nosly para tirar uma “siesta””, comentou Djalma Chaves sobre a apenas aparente contradição.
Como também atesta Nosly: “A contradição, se existe, é mesmo aparente [risos]. Andarilho, um ser que anda; parador, ser que viaja no trem Parador, que liga a estação Central do Brasil à Zona Norte do Rio [de Janeiro]. Ambos estão em movimento, moto contínuo [risos]. A gente achou muito legal essa coisa do antagonismo das palavras, daí deu a liga, os opostos se atraem, não é mesmo?”, revelou.
Recentemente os dois realizaram diversas apresentações em São Luís no projeto Djalma e Nosly Convidam, sempre com convidados especiais. A dupla já conta seis shows realizados no formato. “Esse convívio musical tem nos ajudado a alinhavar o repertório que apresentaremos em cinco capitais brasileiras, além da cidade de Imperatriz. Em São Luís investimos na formação de plateia para música de qualidade, sempre convidando algum nome de destaque da cena cultural local, o que continua fazendo parte desse encontro musical”, explicou Nosly. “Estes shows serviram como aprendizado e entrosamento com a banda que nos acompanhará na turnê”, concordou Djalma.
E que banda! Nosly (voz, violão e guitarra) e Djalma Chaves (voz e violão) serão acompanhados por Murilo Rego (teclados), Sued (guitarra), Mauro Travincas (contrabaixo) e Fleming (bateria).
O repertório de Andarilho Parador é baseado no dos dois discos que dão nome ao espetáculo. Além de composições de Nosly e Djalma Chaves, há espaço para reverências a artistas admirados por eles. No primeiro bloco estão músicas como Aldeia (Nosly e Celso Borges) e Santo milagreiro (Djalma Chaves e César Roberto); no segundo, I’ll be over you, sucesso da banda Toto, e Gata e leoa (Jorge Macau), já gravadas por Nosly e Djalma Chaves, respectivamente, entre outras.
A turnê tem patrocínio da Companhia Energética do Maranhão (Cemar), através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura. Além de Imperatriz, o show Andarilho Parador será apresentado ainda em Teresina/PI, São Luís/MA, Belém/PA, Brasília/DF e Fortaleza/CE. Em todas as apresentações os ingressos serão trocados por um quilo de alimento não perecível, que serão doados a instituições de caridade locais.
Observado por Ricarte (de chapéu) e Josias Sobrinho (D), Bira do Pindaré (de costas) confere comendas ao Regional Tira-Teima. Foto: Lucas LucenaTomado pela emoção, Josias Sobrinho esbanjou sua versatilidade acompanhado do Regional Tira-Teima. Foto: Lucas LucenaA pequena Maria Vitória atacou de Adoniran Barbosa e defendeu parceria inédita de Josias Sobrinho e Ricarte Almeida Santos. Foto: Lucas Lucena
Deputado estadual licenciado, o Secretário de Estado de Ciência e Tecnologia Bira do Pindaré (PSB) compareceu, no último sábado (31 de outubro), à quarta edição do projeto RicoChoro ComVida, no Barulhinho Bom (Rua da Palma, 217, Praia Grande). Ele, cujo gabinete é um dos patrocinadores do evento mensal, foi prestigiar as apresentações do Regional Tira-Teima e do compositor Josias Sobrinho, além de entregar comendas aos artistas, louvando-lhes alguns méritos.
“Fala-se que o Tira-Teima é o grupo de choro mais antigo em atividade no Maranhão. Mas não é só de choro: é o grupo mais antigo em qualquer gênero. É difícil alguém chegar a mais de 40 anos de atividade esbanjando talento e vitalidade”, comentou o parlamentar licenciado, durante a entrega da Medalha do Mérito Legislativo João do Vale (Resolução Legislativa n°. 747/2014), da Assembleia Legislativa. O Tira-Teima foi a primeira manifestação artística a ter o reconhecimento por parte do Poder Legislativo maranhense.
O compositor Josias Sobrinho recebeu a certificação da Lei Estadual 9.914, de 5 de setembro de 2013, que reconhece o conjunto de músicas registradas no elepê Bandeira de Aço [Discos Marcus Pereira, 1978] como Bem Imaterial do Maranhão. Ele é um dos compositores reunidos por Papete no disco. As músicas do álbum, um divisor de águas na música popular produzida no Maranhão, foram alçadas à condição através de Lei de iniciativa do então deputado. “A lei foi aprovada, mas infelizmente a Assembleia não liga muito para este tipo de iniciativa e nós estamos aqui corrigindo isso”, comentou o Secretário, afirmando que fará a certificação chegar às mãos de Cesar Teixeira, Ronaldo Mota e Sérgio Habibe, os outros compositores registrados no elepê Bandeira de Aço.
A noite não poderia ter sido mais apropriada. Era a primeira vez que Josias e o Tira-Teima se encontravam em um show. “Volta e meia estamos nos encontrando, desde que eu era plateia, em rodas informais, mas um show, com ensaios e essa estrutura, é a primeira vez”, declarou Josias Sobrinho sobre o encontro, na noite de honrarias.
O Tira-Teima passeou entre clássicos do choro e apresentou parte do repertório de seu aguardado disco de estreia, cujo lançamento Paulo Trabulsi (cavaquinho solo), Zeca do Cavaco (cavaquinho centro e voz), Serra de Almeida (flauta), Luiz Jr. (violão sete cordas), Zé Carlos (percussão e voz) e Henrique (percussão) prometem para breve. No segundo bloco, temas como Imbolada (Serra de Almeida) e Meiguice (Paulo Trabulsi).
Josias trouxe ao público presente músicas de sua autoria que nunca ganharam o registro do compositor, casos de Pif paf e Anda, Maria. Do repertório de Bandeira de Aço cantou De Cajari pra capital. De Noel Rosa pinçou Rapaz folgado, emendando sua homenagem ao compositor de Vila Isabel em Terra de Noel, além de reverenciar a madredivina dama Patativa, de quem cantou Santo Guerreiro.
Ele voltaria ao palco, desta vez na voz da pequena Maria Vitória, que cantou Teus sapatos, parceria inédita de Josias Sobrinho e Ricarte Almeida Santos – autor da letra, homenagem a sua esposa Marla Silveira, com que assina a produção de RicoChoro ComVida. Antes, a menina cantou Iracema e Tiro ao Álvaro, ambas de Adoniran Barbosa.
Sempre que ouço falar em algo relativo à cultura mexicana algumas coisas me vêm à cabeça.
Uma cena de uma comédia romântica em que o personagem de Adam Sandler, em plena lua de mel, é (per)seguido por um grupo de mariachis e, perdendo a paciência, distribui um couvert artístico às avessas: paga para não ser perturbado, quer apenas conversar com sua esposa.
Lembro também da piada recorrente, que afirma terem os restaurantes mexicanos a melhor comida, ao contrário da música ao vivo. E do finado Miguelitos, cuja cozinha era especializada nas iguarias do país de Frida Kahlo – saudades, micheladas!
Incrivelmente lembro também de uma camisa que usei, com dois ratos trajando sombreiros, qual Ligeirinho – arriba!, arriba!, arriba! – com a inscrição, embaixo: México 86, quando o país sediou pela segunda vez uma Copa do Mundo de futebol.
Segunda-feira (2) é feriado no Brasil: dia de finados. Nunca tive o costume de visitar cemitérios ou acender velas, embora lembre meus mortos (e não apenas esse dia). Em Olinda, há alguns anos, toquei o mármore do túmulo de Dom Helder Câmara, que fica em uma igreja na cidade pernambucana, e estranhamente considerei o ato algo importante da viagem – como se fosse parte do “turismo” que teimo em fazer mesmo quando viajo “a trabalho”, se é que me entendem. Também confesso a vontade de, um dia, visitar a sepultura de Sérgio Sampaio. Mas são exceções.
De resto, o Dia de Finados é como uma data marcada no calendário em que todos seríamos obrigados a ser tristes – o que nunca aceitei direito. Quando criança, lembro ainda, nem música se podia ouvir.
Na contramão de minhas lembranças, a festa Viva la Muerte acontece hoje (30), às 19h, no Barulhinho Bom (Rua da Palma, 217, Praia Grande), festejando, por mais contraditório que possa parecer, o Dia dos Mortos, feriado celebrado a 1º. de novembro na América Latina – quando no Brasil o calendário marca o Dia de Todos os Santos.
Música ao vivo com Los Mariachis de Virgulino (o grupo General Virgulino convertido especialmente para a ocasião) e o DJ Jorge Choairy. Os convidados que desejarem serão caracterizados com maquiagem neon inspirada nas caveiras mexicanas.
O make up temático será feito por Luciano Teixeira e Camila Abreu. A festa tem produção da Carruagem Produções, que tem primado por festas temáticas na capital maranhense, prestando agora sua reverência à data, reconhecida em 2003 Patrimônio Oral e Imaterial da Humanidade pela Unesco.
“A morte tem tanta certeza que vai te pegar que te dá uma vida inteira de vantagem”, diz o dito popular mexicano. Enquanto seu dia não chega, que tal aproveitar?