Chorografia do Maranhão: Carbrasa

[O Imparcial, 19 de dezembro de 2014]

O percussionista, que já integrou grupos como o Regional Tira-Teima, Instrumental Pixinguinha e Espinha de Bacalhau, é o 42º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVANIO ALMEIDA SANTOS

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

Mais conhecido como Carbrasa, o percussionista João José Pinto Silva não sabe a origem do apelido. Um vizinho começou a chamá-lo e pegou.

Nascido em Cururupu, em 17 de abril de 1954, Carbrasa aportou na Ilha capital aos 13 anos de idade, motivado pela vontade de estudar. Aos 18, como carteiro, começou nos Correios, de onde ainda é funcionário.

Carbrasa é filho de João Pedro Silva, proprietário de embarcação, “tinha o Iate São João e transportava mercadorias”, e Maria Ferreira Pinto Silva, doméstica.

O percussionista participou de alguns dos grupos mais importantes do samba e choro no Maranhão, tendo integrado o Instrumental Pixinguinha – primeiro regional maranhense a gravar um cd, já sem ele na formação –, Regional Tira-Teima – o mais longevo em atividade, prestes a lançar disco de estreia – e o Espinha de Bacalhau.

Hoje Carbrasa integra o Três no Choro, formado por três Joões: ele, João Neto [flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 2 de fevereiro de 2014] e João Eudes [violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 16 de fevereiro de 2014].

Fazia uma tarde nublada em São Luís quando Carbrasa concedeu seu depoimento à Chorografia do Maranhão, o 42º. da série, na Fonte do Ribeirão.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

De onde vem o apelido Carbrasa? Meu nome é João José Pinto Silva e eu venho de uma cidade do interior chamada Cururupu. Lá, se você verificar, tem bastante pessoas que são músicos, compositores. Um exemplo disso é Tião Carvalho. Vim pra São Luís, aqui estou há mais de 50 anos. Na minha adolescência eu vim morar num bairro chamado Boa Vista, entre o Monte Castelo e Camboa. Depois fui morar num bairro chamado Vila Bessa. Nesse bairro, na Rua Nova, precisamente, defronte à minha casa tinha uma pessoa que nós fizemos uma grande amizade. Ele toca violão, e nós estudantes de segundo grau, depois vestibular, ele foi ser bioquímico e farmacêutico. Mas ele era daqueles camaradas que gozava de todo mundo. Não sei por que cargas d’água ele me colocou esse apelido de Carbrasa. Aí ficou no bairro: Carbrasa, Carbrasa, Carbrasa… Lá perto, no bairro, tinha um restaurante, naquela época, aqui chamavam restaurante de base: Base do Germano, Base do Rabelo… essa era a Base do Edilson, um senhor que tomava de conta, era o dono da base, ele e a esposa dele. Eu tinha começado a trabalhar, hoje ainda sou funcionário dos Correios, e nos finais de semana, principalmente aos sábados, nós íamos para a Base do Edilson tomar cerveja e fazer uma brincadeira lá, de violão e percussão. Lá nós, eu e mais três amigos, Joacilo [Frota, cavaquinista, hoje perito criminal em Imperatriz], Luiz Carlos, começamos a fazer uma roda, violão e percussão, um ganzá, um tamborinzinho, e as pessoas gostavam, tanto é que a conta nós não pagávamos. As pessoas que estavam nas mesas e gostavam de nossa apresentação musical pagavam. Daí essa coisa foi evoluindo. Depois esse meu amigo aprendeu a tocar cavaquinho, já fazia umas coisas de choro, aqueles choros de Waldir Azevedo, próprios para cavaco, ele já fazia aquilo ali.

Como era o ambiente musical de tua infância? O que você ouvia quando era criança? Lá no interior era música popular brasileira da época. Nelson Gonçalves, Jamelão, Orlando Silva. No interior acontecia o festejo, Nossa Senhora das Graças, e o Carnaval. Quando viemos para São Luís eu já comecei a separar, já fui ouvir Chico Buarque, principalmente, Caetano, Gil, a nata da música popular brasileira. Mas também não deixando de lado o que se chamou na época de Jovem Guarda, Roberto Carlos nem tanto, mas o resto da Jovem Guarda.

Você ainda lembra muito da infância em Cururupu? Recordo. Na verdade eu vim embora para São Luís com 13 anos. Lembro de colégio, das brincadeiras de roda. Meu lugar, eu nasci num povoado, Valha-me Deus, numa das ilhas do arquipélago de Maiau, nas reentrâncias maranhenses, são várias ilhas, cada uma um povoado. Era uma ilha que eu considero um paraíso, guardadas as devidas proporções. Eu volto lá até hoje, meu irmão tem casa lá, eu até convido vocês para irem um dia visitar o lugar. Tem um festejo lá, o Festejo de Nossa Senhora das Graças, em maio, é uma festa grande. Vai muita gente de São Luís, tanto conterrâneo como pessoas do entorno, de outros povoados, Ajerutiua. A atividade de sustento das famílias era a pesca, somente pesca. Como é uma ilha, não permitia você ter plantios, a força mesmo era a pesca. Na minha família são cinco irmãos, quatro homens e uma mulher.

Não tinha muita musicalidade envolvida? Não tinha. Lá só tinha um serviço de alto-falante. Não lembro se nesse serviço de alto-falante tocava choro, por exemplo. No rádio, meu pai comprou um rádio, a gente ouvia principalmente a rádio Educadora e a Difusora, que tinham uma potência maior na transmissão, aqueles programas que rodavam música popular brasileira. Quando eu vim embora para São Luís, lá onde eu morava tinha Seu João, acho que ele já até morreu, esse senhor, e nos finais de semana ele botava os discos dele de choro, Jacob [do Bandolim], Carlos Poyares.

Aquilo já te chamava a atenção? Que idade você tinha? Já. De 13 pra 14 anos. Me chamava a atenção, pô, que música é essa?

Com 13 anos de idade o que te trouxe à São Luís? A vontade de querer estudar.

Você veio sozinho, então? Vim sozinho, morar com uma tia. Fui estudante de colégio público, Universidade. Sou bacharel e licenciado em Geografia.

Você chegou a exercer a profissão? Não. Eu fui trabalhar nos Correios e eu não fui para o lado de professor.

A partir de quando e de que estímulo você passou a se envolver com música? A partir da minha adolescência, quando eu fui morar na Vila Bessa e eu conheci esse amigo. Antes, já tinha um grupo de pessoas no Caminho da Boiada, apesar de eu não morar lá, mas conheci as pessoas, no carnaval nós saíamos nos blocos de rua. Depois, no Caminho da Boiada, existia um bloco chamado Turma do Lamê, um dos primeiros blocos organizados, eu participei desse bloco, durante vários anos. Era aquela coisa do samba enredo, nós fazíamos aquela coisa do samba. A música, o que me despertou maior interesse, foi exatamente o samba. Daí, consequentemente, veio o choro, junto.

Você sempre foi percussionista? Que instrumentos você toca? Sempre fui percussionista. Toco pandeiro, na verdade, meu primeiro instrumento percussivo profissional foi um instrumento chamado timba. É um atabaque atravessado na horizontal tocado com uma vassourinha de aço, a mão direita na vassourinha, a mão esquerda no couro. Esse instrumento, eu tive contato com ele quando Roberto Rafa [cantor e compositor], que morava também lá na Vila Bessa, essa coisa de ele me conhecer tocando lá na Base do Edilson, com Joacilo, a gente fez amizade, ele sempre participava de festivais de música popular maranhense, e ele me chamava, às vezes, para fazer um zabumba, e eu ia com ele. Depois ele começou a tocar na noite, num barzinho chamado Duas Nações. Do lado da Prefeitura [o prédio sede da Prefeitura Municipal de São Luís, na Praça Pedro II, Centro] tem um local agora que é uma coisa de tambor de crioula [o Centro Cultural Mestre Amaral], era a Base da Lenoca, e antes era o Bar Duas Nações. Lá tinha uma música ao vivo e Roberto Rafa foi pra lá. Como ele precisava de uma percussão, ele me chamou.

Isso era mais ou menos quando? Década de 1980. Ele viu uma pessoa chamada Biriba, que tocava essa percussão, dessa forma. Biriba viu alguém no [Hotel] Quatro Rodas tocando isso [timba], um cidadão chamado Paulo Tripa, era paulista, veio com o irmão, Joran Coelho, tocar no Quatro Rodas. Lá em São Paulo essa coisa era muito difundida, essa timba. Ele aprendeu, aí, “Carbrasa, Biriba aprendeu a tocar uma percussão, tu não quer aprender com ele?”. Eu disse que precisava do instrumento, a vassourinha, para saber como era a levada. Biriba foi lá em casa, me passou a informação, em meia hora eu já estava tocando, modéstia à parte. Isso foi numa quinta, quando foi na sexta, a gente já foi para o bar, lá pro Duas Nações. Aí começamos a fazer MPB.

Você começou fazendo MPB com Roberto Rafa. E tua inserção nos grupos de choro, deu-se a partir de quando? Com essa coisa de tocar com Joacilo, fui conhecendo outras pessoas, aí já me apresentaram um pandeiro. Só que o pandeiro, na época, não existia pandeiro em São Luís. Existiam uns pandeiros com uma platinela diferente, não era pandeiro como é hoje. As platinelas eram diferentes do que são essas platinelas, hoje côncavas. Fui apresentado a uma pessoa, não lembro o nome, ele me passou a forma de como se toca o pandeiro hoje. A minha namorada, que hoje é minha esposa, foi para o Rio e de lá ela trouxe um pandeiro da Ao Bandolim de Ouro [famosa loja carioca de instrumentos musicais, reduto de chorões]. Mas antes, para eu tocar, eu comprei um pandeiro que tinha as platinelas diferentes, e tinha uma pessoa, Joquinha, do 310 [o Regional 310, famoso grupo de samba e pagode do circuito ludovicense], ele fazia, não sei de que forma, as platinelas côncavas, e a gente ouvia esse som que se ouve hoje. Também não me passou a forma de como ele fazia, a gente entregava o pandeiro para ele, ele arrumava, e ia. O pandeiro melhor que eu tive, eu ganhei de presente, da Ao Bandolim de Ouro. Aí já comecei a tocar pandeiro, aí chegou Paulo Trabulsi [cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 22 de dezembro de 2013], começando a tocar cavaquinho, eu já comecei a conhecer as pessoas, tipo Biné [do Cavaco], Zequinha [do Sax], os Irmãos Gomes [o trio se completa com o violonista Bastico, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 22 de junho de 2014], conheci Agnaldo [Sete Cordas, violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 17 de março de 2013], conheci mestre Sampaio [violonista sete cordas], mestre Serra da Flauta [Serra de Almeida, flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 3 de março de 2013], e outros que tocavam, que já morreram, que tocavam choro. Dos que estão vivos aí, mestre Pitoco, tocava sax, com esses todos eu toquei choro, participei de rodas. Grupos mesmo foi quando fui convidado para compor o Regional Tira-Teima.

Então você chegou a compor o Tira-Teima durante uma época? Sim. Lembro muito bem que era bandolim, Adelino Valente [bandolinista e pianista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 20 de julho de 2014], violão era mestre, o mestre dos mestres, que eu considero, Ubiratan Sousa [multi-instrumentista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 12 de maio de 2013], Fernando Cafeteira [violonista], Vieira [Antonio Vieira, compositor e percussionista], na percussão, Hamilton Rayol [cantor], que fazia voz, o cavaquinho base era Paulo Trabulsi. Aí depois eu saí. Até hoje o Tira-Teima se mantém, com outra formação. Depois disso eu já conheci Jansen [o bandolinista César Jansen, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 21 de setembro de 2014] e outros mais novos do choro, Juca do Cavaco [Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 13 de abril de 2014], a gente tinha um grupo, a gente sempre saía. Aqui na Rua do Ribeirão existia um barzinho, onde é a secretaria [pensativo, tenta lembrar], como é o nome dessa secretaria aqui? [os repórteres respondem: Fundação Municipal de Cultura]. Embaixo dessa secretaria tinha um bar chamado Cafofo, lá nós nos reuníamos, eu, Juca, Vadeco [percussionista], Natan, todas essas pessoas tocavam choro. Tocam choro! Nós com nossas namoradas, éramos um grupo grande, mais de 10 pessoas. Todo fim de semana ou estávamos no aniversário de alguém, ou no Cabeça Branca, um bar que tinha na Ponta d’Areia. Depois veio o grupo Alma Brasileira, que teve vida curta, muito curta mesmo, depois fui para o Regional Pixinguinha [o grupo Instrumental Pixinguinha]. Na época que a Escola de Música [do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo] era na Rua Antonio Lobo, esse grupo ensaiou a Suíte Retratos [do maestro gaúcho Radamés Gnattali], era a peça principal, e outros choros, para compor o repertório do espetáculo, que apresentamos no teatro [Arthur Azevedo]. Acho que foi o show de choro, em São Luís, que eu participei, e o melhor que eu já vi, acabamento, arranjos, detalhes. Tanto é que ensaiamos quase oito meses.

Então você é um dos fundadores do Pixinguinha? Sim, fundador do Pixinguinha. Eu, Jansen, Biné, Paulinho [Santos, flautista], Solano [o violonista sete cordas Francisco Solano, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 26 de maio de 2013], Domingos [Santos, violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 16 de março de 2014] e Marcelo [Moreira, violonista]. Esse era o Regional Pixinguinha.

Quando você aprendeu a tocar já estava praticamente adulto. Ainda estava morando com teus pais? Eles não criaram nenhum problema nessa tua opção pelo batuque? É, eu tinha por volta de 17 anos. Não criaram, até me incentivaram.

Você conciliou os estudos? Estudos, trabalho. Eu já trabalhava na época, era carteiro. Fiz o concurso dos Correios com 18 anos, foi logo meu emprego.

Se você tivesse que definir quem foi o seu principal mestre, quem você apontaria? Percussão? [pensativo] Deixa eu pensar. Que me ensinou percussão, assim, eu não tive um professor específico. Eu ia pela coisa da intuição e do interesse de aprender, de ouvir, colocar o ouvido naquilo ali e depois fazer e executar. Logicamente que eu rendo graças a essa pessoa chamada de Biriba, que me ensinou e daí eu fui desenvolvendo. Com essa percussão eu toquei durante muito tempo, com [os cantores] Lula Bossa, com J. Nogueira. Nos bares da vida, na noite de São Luís, praticamente com todo mundo, com Betto Pereira [cantor, compositor e artista plástico], principalmente com ele. O primeiro local em que tocamos foi um bar chamado Cabeça de Peixe, na Camboa, começamos lá, eu e Betto, violão e timba. Depois fomos incorporando outras pessoas ao grupo, Zezé da Flauta [Zezé Alves, flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 9 de junho de 2013], Jeca de percussão e Mauro Travincas de contrabaixo. Eu lembro muito bem que a gente fez até uma bandinha chamada Amor de Canela. Nós ensaiávamos essa banda lá na casa de Betto, a gente passava o repertório para tocar no Cabeça de Peixe. Depois fomos tocar no Bar Ruínas, na avenida Beira Mar, subindo a Rua do Egito. Era Ruínas por que lá eram só pedras, sem reboco. Tocamos em outros locais. A noite de São Luís acontecia ali na [avenida] Castelo Branco. Eu, Betto Pereira e Zezé fomos tocar na inauguração de um bar, chegou um cidadão e ele simplesmente pegou o extintor de incêndio, bêbado, abriu, aquele pó químico e sujou todo mundo. Era o bar Trem das Onze. Depois esse barzinho acabou, mas não em função deste episódio, mas aconteceu isso [Carbrasa batuca o pandeiro posando para fotos].

Você já viveu de música? Ou a música sempre foi uma atividade complementar? A música para mim sempre foi uma atividade complementar, nunca sobrevivi de música. Já recebi cachês, que complementam a minha renda familiar. Eu continuo tocando, não com a mesma intensidade que era na época. Hoje eu participo de um grupo de choro chamado Três no Choro, eu, João Eudes e Neto, a gente toca todo sábado na Caves du Vin. São três Joões. Como Neto viajou, acho que foi defender a dissertação dele lá em Minas, aí nesse mês agora, quem vai tocar lá é Robertinho Chinês [bandolinista e cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 28 de abril de 2013].

Além de grupos como o Tira-Teima, Instrumental Pixinguinha, Alma Brasileira e Três no Choro você também já participou de grupos de samba. Quais foram? De grupo profissional eu participei do Arco Samba. Por que Arco Samba? Arco era nossa associação dos Correios, uma associação recreativa. A associação na época comprou os instrumentos pra gente, éramos eu, Jansen, Raimundo Luiz [bandolinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 15 de setembro de 2013], Josebel, que saiu dos Correios, Bento, que era funcionário dos Correios, mas morreu, Djalma, que tocava ganzá. Foi feito pra gente fazer uma coisa informal na associação, a gente se reunia para tomar cerveja, as pessoas foram conhecendo e chamando a gente para tocar, nas casas de São Luís. E teve também o Espinha de Bacalhau, eu, Vadeco, Chico Chinês [percussionista], Benivaldo [percussionista], o violão sempre quem tocava era Costa Neto, era considerado no violão. Às vezes ele não ia, chamavam João Eudes, Luiz Jr. [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 4 de agosto de 2013] Se bem que Luiz Jr. quando foi, eu já tinha saído. Dos novos eu já tive contatos, amizades com todo mundo, Robertinho, Wendell [Cosme, bandolinista e cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 24 de novembro de 2013], mais recentemente Rafael Guterres [cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 18 de maio de 2014], ele organiza grupos para tocar em eventos, me chama para tocar.

Hoje você está só no Três no Choro? O Espinha de Bacalhau acabou? É. Do Espinha de Bacalhau eu saí. Atualmente eu só integro o Três no Choro.

Além de percussionista você desenvolve outras habilidades na música? Não. Só toco percussão. Qualquer dos instrumentos populares brasileiros, os instrumentos de samba todos.

Você já participou de gravações de discos? Lembra alguns? Já. [pensativo]. Não sei se esse disco já está pronto, mas do grupo Café com Leite e Pão, um grupo de samba que é Neto, Quirino [percussionista]. Gravei no primeiro disco de Rosa Reis, com o Pixinguinha, ela gravou Estrela, de Joãozinho Ribeiro, o grupo participou. Disco de carnaval, eu fiz um ano toda a parte de percussão.

E shows? Que artistas você acompanhou além de Roberto Rafa? Betto, Lula Bossa, passei seis anos tocando com ele. Desses que hoje são famosos praticamente todos. Com Lula Bossa foi aí que me apurou mais o ouvido para a questão da bossa nova. Nós fomos também colegas de colégio. De figuras nacionais participei de shows de Dona Ivone Lara e Diogo Nogueira. Fiz participação tocando também com J. Nogueira, hoje ele mora em Londrina, grande voz. Eu participei também de um grupo que não tinha nome, era eu, Paulo Trabulsi, Serra e Sadi [Ericeira, violonista], irmão de Paulo.

Para você o que significa o choro, qual a importância dessa música para você? Em termos de música brasileira, instrumental, é a principal música para mim. É a música que eu mais gosto de tocar. Ela exige muito.

Você se considera um chorão? Eu me considero. Pela experiência que eu tenho, pelo tempo vivido tocando choro, a coisa formal, a informalidade, as rodas de choro. Só por isso aí eu já me considero um chorão.

O estandarte verdadeiro de Lena Machado

Nos últimos releases que escrevi para a cantora Lena Machado uma coisa era comum: a falsa ideia de um eterno retorno. Os textos de divulgação sempre falavam na “volta” da artista. Um professor amigo apontou a falha, de que sinceramente nunca tinha me tocado, e aquilo ficou me martelando a cuca.

Lena Machado não é uma artista da noite – e aqui não há demérito a quem o seja, nem falsa hierarquização entre artistas da noite e do disco, ou qualquer outra classificação possível. Tenho tido, ao longo dos últimos 10 anos, o prazer de compartilhar as dores e delícias de cada passo de sua carreira: as feituras de Canção de vida (2006) e Samba de minha aldeia (2009) até as ideias – ainda sigilosas – para o terceiro disco, a ser lançado ano que vem, quando comemorará 10 anos de carreira, passando pelos minuciosos preparativos para cada aparição sua.

É que ela não faz qualquer coisa de qualquer jeito em qualquer lugar. A moça é refinada. Além dos entraves econômicos e burocráticos, é preciso clima – e não falo aqui apenas do risco de chuva para uma apresentação em palco aberto. É preciso uma mística, algo como um sinal, as bênçãos de Clara Nunes, Clementina de Jesus e Elizeth Cardoso, suas ancestrais.

A última vez em que anunciei a “volta” de Lena Machado foi por ocasião de Divino Espírito Samba, em janeiro passado, um caprichado espetáculo, a começar pelo título, produzido pela Negro Axé. A cantora caprichou na seleção de repertório e do time que a acompanha – Andrezinho (percussão), Fofo (bateria), João Eudes (violão sete cordas), João Paulo (percussão), Lee Fan (flauta), Rafael Bruno (contrabaixo), Rui Mário (sanfona), Wanderson Silva (percussão) e Wendell Cosme (bandolim, cavaquinho, direção musical e arranjos), além das participações de Luzian Filho (Feijoada Completa) e Patativa.

A artista canalizou o apoio da Fundação Municipal de Cultura para realizar o espetáculo de graça, no Anfiteatro Beto Bittencourt, no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande. É uma opção de artista engajada para além da formação de plateia. É essa uma das sérias preocupações que a movem ao se decidir por fazer um show: é impossível cantar qualquer coisa de qualquer jeito em qualquer lugar, repito. Em Divino Espírito Samba a artista estava em casa – o palco – em perfeita comunhão com a família – a plateia.

Engajada, Lena Machado dedicou o primeiro disco a repertório identificado com as lutas de movimentos sociais do Maranhão. Canção de vida, sua estreia, celebrou os 50 anos de atuação da Cáritas, onde trabalha, no estado. Samba de minha aldeia, sucessor da estreia, tem repertório inteiramente dedicado ao samba e choro de autores maranhenses. Em Divino Espírito Samba, apontando caminhos para o que poderá vir a ser o terceiro disco, ela prova que autores como Antonio Vieira, Cesar Teixeira e Cristóvão Alô Brasil, entre outros nossos, nada devem a gigantes como Chico Buarque, Ismael Silva e Paulo César Pinheiro, entre outros.

A B. A. Produções, do cinegrafista Elson Paiva, outra parceria que acompanha a cantora já há algum tempo, filmou o espetáculo. O resultado é um dvd-promo, não lançado comercialmente, com a íntegra do repertório. Algumas faixas podem ser conferidas no youtube. O blogue antecipa, em primeira mão, Samba e amor (Chico Buarque), A força que vem da raiz (Roque Ferreira), Se você jurar (Ismael Silva/ Francisco Alves/ Newton Bastos)/ Das cinzas à paixão (Cesar Teixeira), Juracy (Antonio Almeida/ Cyro de Sousa)/ Cocada (Antonio Vieira)/ Araçagy (Cristóvão Alô Brasil) e Do jeito que a vida quer (Benito di Paula)/ Esperanças perdidas (Délcio Carvalho).

Os vídeos aliviarão a espera do fã clube. O blogue espera anunciar outra “volta” em breve.

Nome comum, artista raro

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Não houve lista de melhores discos lançados ano passado a que Silva não comparecesse com seu Vista pro mar (2014). Com este show o músico aporta hoje (2) pela primeira vez em São Luís: a apresentação acontece às 20h, no Teatro Arthur Azevedo (Rua do Sol, Centro), sob a chancela da Musikália Produções, do radialista Gilberto Mineiro. Os ingressos, à venda no local, custam R$ 30,00.

Coalhado de timbres e texturas sonoras particulares, o som de Silva evoca os anos 1980: é como se ele traduzisse a musicalidade daquela década com a tecnologia disponível hoje. Mas engana-se quem pensa em passadismo ou saudosismo pura e simplesmente. O cantor e compositor capixaba ataca de sintetizadores e toca outros instrumentos (é graduado em violino por uma faculdade capixaba) – no disco e no palco – em repertório completamente autoral – as 11 faixas de Vista pro mar são assinadas por Silva (Lúcio Silva de Souza) com o irmão Lucas Silva. Fernanda Takai participa de Okinawa.

Algumas letras falam em mar, tema evocado na capa de seu segundo álbum de carreira – sucessor de Claridão (2012) –, em que seu rosto aparece “desfigurado” por uma “onda”. “Eu não nasci do mar/ Mas sou daqui/ Já mergulhei pra não sair/ Quem é de preamar/ Se encontra aqui/ Não há mais maré-baixa/ Em mim/ Eu sou de remar/ Sou de insistir/ Mesmo que sozinho/ Só vai se afogar/ Quem não reagir/ Mesmo que sozinho”, diz a letra da faixa-título. Será que o poluído mar da Ilha lhe inspiraria?

Parte do disco foi gravada além-mar, em Lisboa, Portugal, por onde o músico passou em turnê e acabou na trilha sonora de uma novela portuguesa – Imergir, de um EP inaugural, lançado em 2011, embalou o enredo da global Além do horizonte.

No show de logo mais, o repertório passeia por músicas dos dois discos mais o EP. O show de abertura fica por conta do pré-lançamento de Alice ainda, de Nathália Ferro.

Vejam o clipe de Volta, gravado em Angola.

Dácio Melo, 60 anos

Foto: ZR (30/5/2015)
Foto: ZR (30/5/2015)

 

Conheço-o há quase 30 anos. Quando criança, aproveitava as viagens de Rosário – onde morei até os sete – à capital para adquirir gibis da turma da Monica e Disney. Já era conhecido da família e aproveitava o gosto precoce do moleque por leitura para empurrar os últimos lançamentos ao adulto que o acompanhasse. Nunca saía de mãos vazias.

Depois, ele e uma tia, dona Maria (in memoriam), mudaram-se da rodoviária velha, na Alemanha, onde hoje há um posto de gasolina e uma escola, em frente ao Hospital da Criança, para a rodoviária “nova”, na Avenida dos Franceses, Santo Antonio. Dos personagens de Maurício de Sousa e Walt Disney, saltei para Tex Willer e Zagor, influência de tios que há muito já liam faroestes em preto e branco. Morávamos de aluguel, e dependendo da temporada, era mais prático descer do ônibus no retorno do Tirirical. Mas para ir à banca eu preferia esticar a viagem até a parada final, a rodoviária. Agora, a rota era ao contrário: tendo vindo estudar no Sesi, morava em São Luís e passava os finais de semana em Rosário.

Com o falecimento de dona Maria, Dácio mudou-se para o estacionamento da Praia Grande, onde está atualmente. Continuo seguindo-o, mesmo sem ele ter contas em redes sociais. O jornaleiro tem as características fundamentais para se destacar em seu ofício: prazer no que faz, conhece o que vende, bom humor, além de poder conversar sobre assuntos relacionados e estar sempre por dentro da agenda cultural da cidade. Hoje mesmo, quando o visitei, comentou brevemente o show Encanto, de Rita Benneditto, que assistiu ontem no Teatro Arthur Azevedo – eu não fui. Em sua banca comprei Som e Fúria, novo dela, com Jussara Silveira.

Durante muito tempo, mestre Antonio Vieira foi habitué de sua banca. O compositor era figura fácil por ali todo fim de tarde, quando ia jogar conversa fora e, não raro, a conversa esticava até a porta do Terminal de Integração da Praia Grande, onde tomava o mesmo ônibus do jornaleiro para voltar para casa. Algumas vezes juntava-me a eles.

Embora ainda teime em resguardar algo daqueles tempos, o moleque tornou-se o homem de vícios antigos e aos gibis juntou-se a leitura do noticiário e outras. “Quem lê tanta notícia?”, perguntaria o compositor. Mesmo frequentando outras bancas e becos, sempre torno a passar por ali para catar as novidades e apertar a mão do amigo. Dácio Melo completa hoje 60 anos.

As visões de Chico Nô

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Às margens do Rio Tocantins, Imperatriz tornou-se famosa por aglutinar um grupo de músicos, a partir de meados da década de 1980, responsáveis por uma estética particular. Nomes como o paraense Neném Bragança, o tocantinense – como entrega o sobrenome artístico – Zeca Tocantins, o potiguar Nando Cruz, o pernambucano Carlinhos Veloz e os maranhenses – nenhum nascido lá – Erasmo Dibell, Chiquinho França, Luis Carlos Dias, Wilson Zara e Gildomar Marinho, entre outros.

Dos mais simpáticos músicos já surgidos no Maranhão, Chico Nô é dos poucos de fato nascidos em Imperatriz, embora já há muito radicado na capital maranhense. Também já viveu no Rio de Janeiro, onde aprofundou os estudos e aproximou-se do universo de Noel Rosa, uma de suas mais importantes referências.

No entanto, ao contrário do carioca falecido pouco antes dos 27, engana-se quem pensar numa figura eminentemente boêmia, de vida desregrada ou coisa parecida. Apesar do sorriso constante e do jeito simples, Chico Nô é também um dos mais dedicados artistas militantes, figura em extinção num estado em que a política – sobretudo a cultural – é, ainda, fortemente marcada pelo clientelismo e pela troca de favores. Não é raro vê-lo envergando um boné do Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais Sem Terra (MST), envolvido em eventos organizados pelo próprio, entre outros movimentos e organizações sociais.

Conhecedor de um invejável repertório de terceiros, capaz de fazer inveja a qualquer profissional da noite e do “som do barzinho”, Chico Nô é também um admirável compositor, dono de obra robusta, em volume e qualidade. Para ficarmos em poucos exemplos, citemos Chorinho de herança (com letra de Ricarte Almeida Santos) e Pequenininho, ambas gravadas por Lena Machado em Samba de minha aldeia (2009), além de Taperoá voou, homenagem ao genial e pouco falado Vital Farias, Baião dos excluídos, gravada em Regar a terra (2005), disco coletivo que celebrou os 20 anos de MST no Maranhão, e Visões de Lampião (as três em parceria com Bruno Gueiros e Vergara), que dá nome ao show em que ele faz o pré-lançamento do disco homônimo, dividido com o músico e produtor Zé Paulo.

Note-se o equilíbrio de seu repertório, tanto afeito aos problemas sociais quanto à festa, quando não às duas coisas.

Visões de Lampião, o show, acontece hoje (29), às 21h, no Barulhinho Bom (Rua da Palma, 217, Praia Grande), e terá participações especiais de Patativa e do grupo Xaxados e Perdidos, além de discotecagem de Girleno. Os ingressos custam R$ 20,00 e podem ser adquiridos no local.

Chorografia do Maranhão: Danuzio Lima

[O Imparcial, 5 de outubro de 2014]

Filho de Carlos e Zelinda Lima, Danuzio Lima, flautista maranhense radicado em Miami, é o 41º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVANIO ALMEIDA SANTOS

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Danuzio Lima é filho dos folcloristas Carlos de Lima e Zelinda Lima. Ainda cedo enveredou pelas artes, tendo passado, ainda criança, pelo teatro e pelo rádio, antes de dedicar-se à música. “Eu comecei tarde, só fui ter minha primeira flauta aos 29 anos”, revela, modesto.

Doutor em Desenvolvimento Urbano formado em Paris Carlos Danuzio de Castro e Lima nasceu em São Luís do Maranhão em 22 de maio de 1953. Está radicado nos Estados Unidos há 28 anos. Thiago Lima, filho do primeiro casamento, é formado em Cinema. Hoje Danuzio é casado com a gaúcha Ana Freire e integra o Clube do Choro de Miami, grupo que na terra do Tio Sam dedica-se ao mais brasileiro dos gêneros musicais.

O flautista concedeu entrevista à Chorografia do Maranhão, a 41ª. da série, no vasto terraço da casa de sua mãe, onde se hospedou na mais recente passagem pelo Maranhão. Para lá dirigiram-se os chororrepórteres, em sua companhia, após ele ter sido entrevistado ao vivo e tocado algumas peças no dominical Chorinhos e Chorões, apresentado por Ricarte Almeida Santos na Rádio Universidade FM (106,9MHz).

Na ocasião, na emissora, Danuzio estava acompanhado de parte do Regional Tira-Teima, com quem havia tocado na sexta-feira anterior: Francisco Solano [violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 26 de maio de 2013], Léo Capiba [cantor e percussionista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 27 de abril de 2014] e Zé Carlos [percussionista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 10 de novembro de 2013].

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Você é filho de dois dos maiores folcloristas do Maranhão. Qual a influência deles nessa tua veia artística, nesse caminho musical? Eu diria que 99%, por que eu muito criança, ainda, fiz teatro com meu pai. Ele e minha mãe foram dos fundadores do Tema, o Teatro Experimental do Maranhão. Eu quando criança fiz peça de Gianfrancesco Guarnieri, Gimba. Eu era o Tico, filho do malandro do morro que queria ser ele, uma peça muito bonita. Fiz outras peças. Fiz, quando a televisão Difusora se instalou aqui, meu pai e minha mãe trabalhavam lá, naquela época, Parafuso, grande Parafuso!, sonoplasta. Eu fiz um seriado lá, era um programa para crianças. Fiz rádio, lia com Regina Telles, lia histórias no rádio. Tudo foi uma influência muito grande. Minha mãe sempre gostou muito de cultura popular, bumba meu boi, casa de mina, tambor de crioula, tudo isso sempre foi muito presente na minha vida, num tempo em que não era uma coisa muito bem vista. Inclusive amigos do meu pai no Banco do Brasil diziam, “rapaz, você anda com esse povo de teatro?” [risos], não era uma coisa muito boa.

Então antes de você se dedicar à música você teve uma passagem por outras linguagens artísticas. Sim, eu fui me dedicar à música, eu comecei a tocar com 29 anos. Foi a primeira vez que eu comprei uma flauta para mim. A admiração pela música, pela arte, pelo teatro, pelo cinema, literatura, é muito mais antiga. Eu tocar música veio muito mais tarde.

Como era o ambiente musical em sua casa? O que vocês ouviam? Você tinha vivência com grupos musicais? Não, eu não tinha vivência. Mas meu pai, eu me lembro dos LPs que tinha lá em casa, eu ouvia até furar. Eu lembro, por exemplo, é uma mostra do que eles ouviam. Meu pai gostava muito de música, ouvia muito bolero, esse tipo de coisa. Mas eu me lembro, por exemplo, minha primeira influência de música, de eu sentar e ouvir um LP: Chico Buarque. Eu ouvi  tudo de Chico Buarque. Tinha um disco americano, chamava The Platters, cantavam Only you, acho que era o único disco estrangeiro que a gente tinha, talvez tivesse Edith Piaf, eu não lembro agora. Tinha um disco de Geraldo Vandré, eu achava muito bonito também, Caetano Veloso, ele cantava umas coisas que eu nunca mais ouvi: “é de manhã, é de madrugada, é de manhã”, eu nunca mais ouvi. Essas foram mais ou menos as minhas primeiras influências musicais.

Na tua casa não se ouvia choro, por exemplo? Não tinha discos de choro? Quando é que essa música começa a fazer parte de teu imaginário? [Pensativo] O choro… Na casa da minha vó tinha uma coleção que se perdeu, daqueles discos antigos, que vinham dentro de uns álbuns que se fechavam, tinha Ivon Cury, tinha milhares de coisas, Ângela Maria, e tinha também o choro. Tinha essas coisas mais conhecidas, Tico-tico [no fubá, de Zequinha de Abreu], Brasileirinho [de Waldir Azevedo], muita valsa, eu me lembro de Branca [de Zequinha de Abreu], como é o nome do outro? Uma porção de valsas. O choro começou mais por esse lado aí. Era na verdade minha introdução à música instrumental. Essa música instrumental brasileira eu ouvi antes de sinfonia, naquela época pra mim não existia. Música instrumental eu ouvi nesses discos grossos e pequenos da casa da minha vó.

Teatro, música, cultura popular. E rádio? Vocês ouviam rádio em casa? Eu fiz rádio! Eu fiz esse programa de rádio, contava histórias, eu, Regina Telles. Eu não lembro direito quais eram as histórias, mas eram diálogos que a gente lia.

Sua casa sempre foi muito frequentada por artistas, não é? Sempre foi. E também o pessoal que vinha de fora, para fazer cinema, por exemplo, A faca e o rio, passavam lá por casa, mamãe dizia onde eram os lugares mais interessantes para filmar, as pessoas que deviam falar. Queriam um pote de barro, “ah, é aqui”. Ela era meio contrarregra. Na verdade, meu irmão Álvaro acabou sendo contrarregra de um desses filmes, não lembro qual foi. A faca e o rio, ou Uirá, um índio a caminho de Deus. Eles [seus pais] apareceram em vários filmes desses, andando, assim como personagens.

Quem dessas figuras importantes te marcou? De contato eu vou falar da pessoa que toca meu coração. Pra mim é o meu poeta [Luiz Algusto] Cassas. Eu adoro tudo o que Cassas escreve. É de um humor, uma leveza, um retrato. Uma coisa que era sempre importante em meu pai, você não pode falar Carlos Lima sem falar em São Luís do Maranhão. Quando meu irmão morreu nós vivemos no Rio, fomos para Brasília, fechamos a casa. Quando voltamos, as lembranças todas voltaram. Ele nunca se sentiu bem, em casa, sem ser em São Luís do Maranhão. Tudo o que ele escreveu é São Luís do Maranhão, a música, a literatura, novela se passa em São Luís do Maranhão, a cidade. Cassas para mim é isso. Ele traz essa cidade que está longe de mim, não só fisicamente, mas também longe no tempo.

E a tua relação com teu pai, como era? Outro dia alguém me perguntou. Meu pai e minha mãe eram duas pessoas completamente diferentes. Minha mãe era uma pessoa que sempre estava um pouco na frente do tempo dela, usava calça comprida no tempo que não se usava, mulher que trabalhou o tempo inteiro. Nossa casa nunca foi aquele ambiente familiar, fechado. A nossa casa sempre foi a extensão da rua, sempre entrando e saindo gente. Até hoje é assim. Isso em função da minha mãe. Meu pai, que todo mundo acha que é um cara mais aberto, fala muito, contava história, é um cara muito mais fechado. Não tinha muito contato físico com a gente, vinha de uma família muito rígida. Até quando ele entrou na Academia Maranhense de Letras, foi uma coisa que me marcou profundamente, quando ele disse “quisera minha mãe estar aqui”. Ele estava acertando uma conta antiga: cheguei. A pressão era muito grande na família dele. Ele era muito mais tímido, muito medroso, nesse sentido. Zelinda sempre foi de meter os peitos e vamos lá. Ele era mais retraído, mais tímido. Gostava de gente, gente alegre, mas pouca gente. Ela sempre teve as ideias, vamos fazer isso, vamos fazer aquilo, vamos visitar isso. Na verdade ele escreveu sobre cultura popular por que ela, quando foi para o interior, para Codó, quando foi transferido pelo Banco do Brasil, ela se interessou, não estava fazendo nada, era a esposa de um bancário, se interessou para ver o que o pessoal fazia, em termos de artesanato. Aí ele começou a acompanhá-la e a gravar as coisas, ele escrevia bem, ela empurrou ele. Era uma coisa intuitiva, desde criança, filha de espanhol, neta de índia, tinha que sair para a rua, ver o que era.

Você falou que só foi se dedicar à música com quase 30 anos. Você tem outra profissão? Eu sou engenheiro civil, formado aqui em São Luís do Maranhão. Daqui eu saí, fui para a França, trabalhei nos Correios, fui diretor de engenharia dos Correios e Telégrafos daqui do Maranhão por pouco tempo. Aí ganhei uma bolsa do Rotary Internacional, fui para a França. Era pra ficar um ano, fiquei mais, voltei, pedi uma bolsa para o CNPq, fui para a França, fiz um curso de mestrado e doutorado em Planejamento Urbano, lá em Paris. Já no último ano eu entendi que um doutorado não era uma coisa que assim, entendeu? Eu não ia ser professor, pelo menos não professor de urbanismo, engenharia, então eu andava, Paris eu ia sempre num café que tinha lá e tinha um argentino que tocava bossa nova. Era um duo, violão e flauta. Eu achava muito bonito. Depois de um certo tempo, eu ia toda semana vê-lo tocar, ficou amigo, um dia eu falei pra ele: “eu gostaria de tocar, é bonito flauta”. Ele falou: “e por que não aprende?”. E eu disse que eu achava que estava muito velho para aprender a tocar. Aí ele me disse: “depende. Você quer ser o quê? Concertista? Se for, realmente está velho”. “Eu quero chegar em casa, ficar sozinho, tocar um pouquinho”. Aí ele me ajudou a comprar uma flauta, que foi o que me salvou dessa depressão pós-doutoral [risos]. Herdei um pouco de meu pai, isso, essa coisa muito inquisitiva, de querer saber mais, aprender mais, não bastou, até hoje estou aí caçando alguma coisa na música. Não me considero músico. Eu me considero muito mais um amante e incentivador do choro. Da música brasileira em geral, mas principalmente do choro. Eu tenho um prazer muito grande em ouvir as pessoas que tocam. Sou mesmo um entusiasta da música. Toco por que, sei lá, sou teimoso, tento fazer uma coisa que talvez não devesse fazer.

A partir de quando o choro passou a ganhar essa tua preocupação e predileção? Quando eu voltei de Paris, voltei para o Rio de Janeiro, fiquei no Rio de Janeiro, trabalhei no Patrimônio Histórico durante dois anos. Eu fui num encontro que depois eu fui saber que foi um encontro histórico. Teve uma oficina de choro no Rio de Janeiro, na Unirio.

Nos anos 1980 ou 90? Entre 82 e 84, eu diria. Teve um grande encontro, workshops, distribuíram umas partituras. Fiquei treinando em casa, nunca havia tido a oportunidade de tocar choro com ninguém. Depois eu fui saber que essa reunião foi o que deu o início, era um experimento para ver qual o interesse no choro. Depois, dali saiu a ideia de formar a Escola Portátil. Era o pessoal que estava lá, Luciana [Rabello, cavaquinista]. Eu não conhecia ninguém, não conhecia Luciana, não sei se Raphael [Rabello, violonista sete cordas, irmão de Luciana] estava lá, depois eu li isso em algum lugar e lembrei: “eu estive nessa reunião” [risos]. O Tira-Teima é muito importante para mim. Quando eu vim à São Luís eu conheci o Paulo [Trabulsi, cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 22 de dezembro de 2013], fiquei encantado com o cavaquinho. Convidei-o a vir aqui em casa, ele veio, depois veio com Solano, com o pessoal do Tira-Teima. Eu tocava um pouquinho de bossa nova, eles tocavam choro. A partir daí ele começou a me incentivar. Eu fui para os Estados Unidos, morei em Chicago, trabalhei na prefeitura de Chicago durante oito anos, sempre ouvindo choro, ouvindo música, tentando tirar alguma coisinha. Quando eu mudei para Miami, existia um grupo lá chamado Aquarela, e o flautista vinha embora para o Brasil, tinha terminado o curso de flauta dele na Universidade de Miami. O pessoal do choro me convidou para tocar, eu nunca tinha tocado, fui tirando de ouvido, toda semana tinha uma roda, eu ia, fui tirando o repertório, fui tirando as partituras, aí foi realmente que eu comecei a tocar mais, a me interessar mais, pesquisar, ler tudo sobre choro, entender que é um movimento muito maior, que é um movimento de afirmação nacional, de transformação da música europeia para a música brasileira, até se transformar na voz nacional. Da mesma maneira que foi o movimento nos Estados Unidos com o ragtime, em Cuba com o danzón, o mesmo processo, o processo de afirmação nacional.

Esse processo todo de aprendizado foi de forma autodidata? Ou teve alguém que desempenhou um papel importante? Não, foi, eu nunca tomei aula, nunca estudei assim, com uma pessoa. Agora tem até um cara que toca na sinfônica em Miami, eu estou tendo umas aulas com ele, tocando uns duetos. No Rio de Janeiro, por exemplo, eu tive aula com David Ganc [flautista], ele tem um duo com Mário Sève [saxofonista e clarinetista]. Sabe como é: eu trabalho, esposa, filhos nascendo.

A flauta entrou como um hobby, um escape para o que você chamou de depressão pós-doutorado. Ela continua cumprindo esse papel, já que você não teve uma atuação, digamos, profissional, na música. Você nunca viveu de música? Não é bem um escape, era um amor muito grande pela música. Eu estava programado para fazer um doutorado e seguir essa carreira, tive um pouco uma desilusão. Passou a ser importante eu vivenciar [a música], não só ouvir, mas vivenciar isso. Hoje em dia a minha frustração é exatamente essa, até agora eu não pude me dedicar a isso, é uma frustração muito grande. Eu acabo de me aposentar e agora quando eu voltar eu espero me dedicar um pouquinho mais.

Agora aposentado há a perspectiva de voltar para o Brasil? Há a perspectiva de estudar música. Voltar para o Brasil, não sei. A minha esposa está trabalhando ainda e eu adoro o Brasil, mas eu acho o momento muito complicado. Não só politicamente, mas tudo me choca um pouco. Não é aquela de “voltei americanizado”, não. Me choca um pouco o desrespeito pelas pessoas, isso é uma coisa que realmente me deixa muito triste. Acho que piorou bastante. Eu lembro no tempo de meu pai, meu tempo de criança, as praças floridas, sem lixo no chão, sem balbúrdia. Não é só no Brasil, é um negócio mundial, a falta de respeito, a falta de consideração. Achei isso numa cidade aqui no Brasil: em Gramado, as pessoas dão bom dia, param para as outras atravessarem na rua. Eu se voltasse para o Brasil teria que arrumar um lugar onde eu não me contrarie muito.

No Brasil os cachês em geral são muito pequenos. Como é isso nos Estados Unidos? Nos Estados Unidos também. Em Nova Iorque, que a concorrência é muito grande, tem gente que toca de graça, se toca por pouco. Em bares, boêmia, esse tipo de coisa. Falando de músico sem um nome, e tal. Em festas particulares o cachê é bem maior. O que é positivo nos Estados Unidos é que tudo, não só na música, é uma escada, você vai subindo, vai subindo, não tem vão. O vão depende de você, se você desliza. Você vai montando os degraus, criando seu nome, você chega lá. O Paulo Moura, que eu encontrei no Rio de Janeiro, me disse que a diferença daqui pros Estados Unidos é que lá o cara passa e diz, “olha, esse cara aí já matou um leão; aqui no Brasil tem que matar um leão todo dia”, quer dizer, amanhã não interessa se você é Paulo Moura, se você já tocou com quem, é uma coisa meio chata.

Além de instrumentista você desenvolve outras habilidades na música? Compõe, arranja? Não, eu devo ter uma musiquinha, mas não, não tenho capacidade para isso.

Você gravou um disco. Fale um pouco dele. Ave rara, tem uma foto da pomba do divino na capa. Esse cd não era uma coisa para vender, nem nada. Eu tinha vontade de fazer, nós fizemos em um dia, um violão, Claudio Spielvan, que é um músico profissional maravilhoso, que era o dono do estúdio, eu e o Felipe, que faz a percussão. Nós gravamos, eu tinha muita vontade de gravar duas músicas de meu pai, gravei Ave rara de Edu Lobo, Carolina de Chico Buarque, gravei Doce de coco [de Jacob do Bandolim] tipo bossa nova, não em choro por que não tinha regional, e tinha um choro também do Evandro [do Bandolim], Elegante, que nós gravamos. Era uma coisa para dar para os amigos, onde eu tocasse eu pudesse dar para as pessoas para tocar em outros lugares. É uma coisa muito cara, hoje em dia cd é muito difícil de fazer. Tá todo mundo fazendo uma música e botando na internet, ninguém está mais fazendo cd inteiro. Eu ainda compro. Eu não vou comprar uma faixa do Zé da Velha, quero o cd inteiro, quero ver a capa [risos].

De que grupos musicais você participou e participa hoje? Em Chicago eu participei de coisas de jazz, me chamavam para tocar, tinha duo, tinha um grupo que o nome era Rio Thing. Era um trocadilho com real, que é real. Tinha muita gente tocando bossa nova como rumba [risos] e eu botei esse nome bem pretensioso. Fiz muitos duetos com violão. Praticamente isso. Depois esse grupo. Em Miami tinha um triozinho que tocava bossa nova, botava uns choros no meio. Depois comecei a tocar choro, fiquei no Aquarela. Eu tenho viajado, não tenho tocado muito. O que me fascina não é tocar em público, o que me fascina é a roda de choro. Isso para mim é o meu objetivo. É um pouco o espírito do Six [o advogado e cavaquinista Francisco de Assis Carvalho da Silva], que nunca tocou em público [risos], de sentar na roda, tocar uma música, ouvir o outro tocando, esse é meu fascínio. O começo são os saraus na casa dos ricos, mas essa roda é a escola do choro, onde você aprende, erra, vê quem tá tocando o quê.

O que significa essa música, o choro? Significa tudo. Em primeiro lugar, só falando da música, eu acho uma música sem defeito. Minha opinião pessoal, e depois, de novo, quem sou eu para falar sobre música? Jazz, gosto muito, vi e ouvi todo mundo, de Miles Davis… depois todo mundo querendo improvisar, eu perdi um pouco o interesse. A música clássica eu acho que você tem que se dedicar mais ainda para entender, tem a história da coisa, para você realmente usufruir, é uma coisa mais difícil, mais complicada, não que o choro não seja. Eu acho o choro uma música perfeita, existem vários gêneros dentro do choro, pegadas diferentes, um toca de uma maneira, outro de outra, a formação, os instrumentos, a harmonia, é uma música perfeita. Fora isso, a importância da música. É nossa cultura, é quem eu sou. Você não pode negar isso. Às vezes as pessoas acham que eu sou meio radical por que eu não ouço outras coisas. Eu ouço, mas eu não tenho tempo para ouvir tudo [risos].

Você acha que o choro tem sido mais valorizado nos Estados Unidos de uns tempos para cá? Eu não sei. Entre os brasileiros que moram lá e os americanos, não há a menor dúvida que os americanos sentam, ouvem, vêm depois e perguntam: “que música é essa?”. Os brasileiros que moram lá, a maioria não está muito interessada. O choro nos Estados Unidos, do tempo que eu estou lá, não há a menor dúvida. Esse ano passaram por lá 20, 30 músicos brasileiros, passou o Choro das Três, Alessandro Penezzi [violonista], Teco Cardoso [flautista e saxofonista], Hamilton de Holanda [bandolinista], Alexandre Ribeiro [clarinetista], Pablo Fagundes [gaitista], Dudu Maia [bandolinista], Duo Brasileiro, com Douglas Lora [violonista], Rogério Caetano [violonista sete cordas]. [O choro] está ganhando um espaço muito grande, de costa a costa, concerto de choro, todo dia você vê, tem um. Vocês me perguntaram nos Estados Unidos, mas no mundo inteiro. Existe o Clube do Choro de Londres, Toulouse, Bordeaux, Paris, Amsterdã. No Japão, todo ano, o Época de Ouro vai, tem um grande festival de choro em Osaka. Eu participei de um festival de choro da Escola Portátil em São Paulo, São Pedro da Aldeia, tinha gente de todo mundo.

Você se considera chorão? Não. Absolutamente. Não. Eu não me considero nem músico de choro. Eu me considero um amante de choro. Vou dar um exemplo, dá para entender melhor o que eu quero dizer. Quando eu estive em São Paulo eu sentei do lado do Proveta [Nailor Proveta Azevedo, clarinetista e saxofonista], onde ele ia eu ia atrás, às vezes a mesa já estava ocupada. Num dia eu cheguei cedo, fiquei com meu prato pra me servir o almoço, onde ele sentasse eu ia atrás, sem ele saber. Eu fui. Sentei, ri, “oi, tudo bom?”, “tudo bom”. Aí eu perguntei, “queria fazer uma pergunta, posso?”, “pode, tudo bem”. E eu: “mestre Proveta, e esse negócio de improvisação no choro, como é que é? Eu tocava um pouquinho de bossa nova e conseguia ludibriar o público, as notas saíam bonitinhas, parecia um negócio arrumadinho”, eu já tinha lido acordes, escalas, harmonias. Eu pensava que ele ia me dar um método. Ele olhou pra mim e disse “quantos choros você sabe decorados?”. “Olha, agora eu tou quase chegando em 40”. Aí ele disse: “no dia que tu souber 250 tu vai improvisar”. Chorão é esse cara. Chorão é Serra [de Almeida, flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 3 de março de 2013], que você canta ele toca 300 mil choros, Proveta, esse pessoal é chorão.

Desmistificando Bezerra

 

Pouca gente sabe, mas é o pernambucano Bezerra da Silva (Recife, 23 de fevereiro de 1927 – Rio de Janeiro, 17 de janeiro de 2005) quem toca percussão no disco de estreia de Zé Ramalho (descontado o Paêbirú, lançado três anos antes, dividido com Lula Cortes), que abre com Avôhai, Vila do Sossego e Chão de giz, levando-nos a crer que estamos diante de uma coletânea.

Era 1978 e, qual o paraibano Zé, “vige, como tem Zé na Paraíba”, como cantaria Jackson do Pandeiro, o próprio Bezerra da Silva um José de batismo, era um nordestino radicado na Cidade Maravilhosa, e assim seguiu até falecer, então um especialista em cocos e outros gêneros tradicionais do Pernambuco natal. Só depois é que Bezerra cairia no samba, no partido-alto e particularmente no que pejorativamente passaram a chamar de “sambandido”, injustiça pura.

Bezerra da Silva identificou-se com os marginais: biscateiros, desempregados, operários, ambulantes e toda sorte de moradores das favelas cariocas, acima de tudo compositores, embora não vivessem (nem vivam hoje) de música. Foi sua melhor voz.

Parte desta galeria desfila em Onde a coruja dorme [documentário, Brasil, 2012, 72 min., direção: Marcia Derraik e Simplicio Neto], gravado com Bezerra ainda vivo, ele nos guiando pelo título, as ladeiras, vielas e habitações simples de morros cariocas, mina que guardava seus fornecedores de obras-primas, de temas e personagens os mais variados: drogas, caguetes, malandros, otários, policiais, delegados, políticos, sogras e o que mais lhes desse nas cucas. “Como é que eu vou cantar o amor, se eu nunca tive?”, indaga Bezerra em determinada altura do documentário.

O filme joga luz ao repertório de Bezerra, desmistificando a pecha de “cantor de bandido”, dando nomes e rostos a autores de clássicos até hoje cantados e regravados como Malandragem, dá um tempo [de Adezonilton, Popular P e Moacyr Bombeiro] e A semente [de Felipão, Roxinho, Tião Miranda e Walmir da Purificação], entre inúmeras outras.

Se por um lado, com sua interpretação definitiva, Bezerra da Silva praticamente ofuscou os compositores que gravou – com um intérprete desses, quem se interessa em saber quem compôs o quê? –, por outro, seu repertório caiu tão no gosto popular que às vezes é possível pensar que esta ou aquela é de domínio público.

Eis aí o trunfo de Onde a coruja dorme: apresentar alguns dos fornecedores de matéria-prima, sambas da melhor qualidade, aos discos de Bezerra. Comparecem 1000tinho (sic), Adezonilton, Barbeirinho do Jacarezinho, Cláudio Inspiração, Juarez da Boca do Mato, Moacyr Bombeiro e Nilson Reza Forte, entre outros. A etimologia de seus engraçados nomes “artísticos” dariam outro documentário.

Em meio às dificuldades cotidianas, prevalece o bom humor. A música desta galeria – e de Bezerra, portanto – sempre foi baseada em fatos reais. Lembrá-los, causos e músicas, em meio a rodas de samba e algumas garrafas, garante boas risadas a personagens e espectadores.

Um relato honesto e emocionante

Ex-esposa do vocalista do Joy Division traça retrato cru de seu relacionamento em biografia

Tocando a distância: Ian Curtis & Joy Division. Capa. Reprodução

 

Aos quase 35 anos do suicídio de Ian Curtis – recém-completados, no último 18 de maio; ele tinha 23 anos quando se enforcou – ganha tradução no Brasil a biografia Tocando a distância: Ian Curtis & Joy Division [Touching from a distance – Ian Curtis and Joy Division, tradução de José Júlio do Espírito Santo, prefácios de Kid Vinil e Jon Savage, Edições Ideal, 2014, 317 p.], escrita por Deborah Curtis, sua viúva.

O livro apresenta um relato sobretudo da relação de Ian e Deborah, sem poupar um e outro nem revelar detalhes desnecessários de sua intimidade. O texto equilibrado dela descortina tão somente o que é necessário para compreendermos a figura do vocalista do Joy Division e a aura mítica criada e alimentada em torno dele, sobretudo após o suicídio. Em resumo, a autora não faz do ex-marido santo nem demônio: ele é tratado como um ser humano – acima da média, como são os gênios.

O livro é dedicado à filha dos dois, Natalie, e traz depoimentos dos outros membros da banda: Bernard Summer (guitarra e teclado), Peter Hook (contrabaixo) e Stephen Morris (bateria), que após o precoce suicídio do líder vieram a formar o New Order. A obra remonta à adolescência dos Curtis, quando se conheceram – época em que ele já falava em suicídio –, até quando a fama do Joy Division começou a extrapolar a Inglaterra natal: Ian se enforca pouco antes da banda sair para sua primeira turnê pelos Estados Unidos.

O legado da banda é inquestionável e a carreira, apesar de curta, deixou obras-primas como Love will tear us apart, Transmission e She’s lost control. Influenciados por nomes como Sex Pistols, Velvet Underground e Iggy Pop – seu The idiot continuava girando na vitrola quando o corpo de Ian foi encontrado sem vida –, o Joy Division segue influenciando jovens mundo afora. Antes de se suicidar, Ian assistiu “Stroszek, de Werner Herzog, sobre um europeu vivendo na América que se mata em vez de escolher entre duas mulheres” [p. 160]

Originalmente publicado em 1995, e tendo inspirado o filme Control, de Anton Corbijn, em Tocando a distância estão registrados a inabilidade de Ian Curtis para com coisas práticas da vida de um adulto normal – por exemplo, dirigir, morar sozinho etc.; há um capítulo intitulado Decida por mim –, a oscilação de seu comportamento (ora carinhoso, ora agressivo), a certeza do sucesso (chega a abandonar empregos na certeza de que o Joy Division daria em algo), as crises epiléticas (muitos fãs julgavam serem apenas trejeitos de palco) e a bigamia – Deborah admite a fraqueza à época, mas documenta o caso do músico com a jornalista Annik Honoré (falecida ano passado).

Deborah cita, mas não publica, a longa carta deixada a ela por Ian por ocasião de seu suicídio, o que bastaria para provar que, longe de caça-níqueis, seu relato é um desabafo necessário, profundo, emocionante e corajoso.

A edição brasileira traz ainda letras gravadas e inéditas de Ian Curtis, escritos inacabados do artista, lista de shows do Joy Division, um pequeno álbum fotográfico e uma minuciosa e surpreendente discografia (listando, às vezes, coletâneas em que a banda comparece em apenas uma faixa). Continue Lendo “Um relato honesto e emocionante”

Chorografia do Maranhão: César Jansen

[O Imparcial, 21 de setembro de 2014]

O recluso bandolinista César Jansen é o 40º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVANIO ALMEIDA SANTOS

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Já fazia tempo que tentávamos essa entrevista com o bandolinista César Jansen. Em torno de sua figura paira certo mistério. Apesar de ainda jovem e estudioso dedicado do bandolim, ele já não se apresenta mais para grandes plateias. Apenas rodas de amigos e familiares têm o privilégio de vê-lo e ouvi-lo tocar seu bandolim, de sonoridade potente, de modelo idêntico ao do mestre Jacob do Bandolim, confeccionado pelo luthier carioca Tércio Ribeiro, o mesmo que havia sido escolhido pelo autor de Vibrações para recuperar seus instrumentos. Jansen possui sete bandolins e de um dos modelos existem apenas dois iguais no Brasil. Além do dele, um é de Joel Nascimento, outra fera do bandolim e do choro.

Talvez nesse mistério residisse a nossa grande expectativa em entrevistar César Alberto Olívio Jansen, nascido no bairro do Bom Milagre, em São Luís, em 12 de setembro de 1956, filho de Nicomedes da Luz Jansen, fabricante de mosaicos perto da Rua de Santana, “cansei de ir lá visitá-lo, levar comida”, e Isabel Olívio Jansen, doméstica, “depois se empregou na secretaria de agricultura do Estado do Maranhão, onde se aposentou”.

Encontro marcado, os chororrepórteres tocaram a campainha do apartamento do músico 15 minutos antes da hora, quando foram recebidos carinhosamente por ele e sua esposa Soraia. Ainda deu tempo para que ele fosse buscar as filhas – Júlia e Laura – em um curso de inglês ali perto.

Depois a conversa transcorreu solta, entremeada por certa timidez do instrumentista, mas nada que limitasse a realização de uma rica entrevista. Colecionador voraz de tudo que se relacione ao choro e ao bandolim, César Jansen possui um acervo dos mais preciosos, em vídeos, discos, livros, cadernos de partituras e outros registros multimídia.

Fundador do Instrumental Pixinguinha – ao lado de Paulinho [Santos, flauta], Marcelo Moreira [violão], Domingos Santos [violão], Francisco Solano [violão sete cordas], Biné do Cavaco e Carbrasa [percussão] –, em 1990 participou, como bandolinista, do antológico show do grupo, Homenagem à Velha Guarda, no teatro Arthur Azevedo, quando, dentre outras peças, executaram a rebuscada Suíte Retratos, do genial maestro Radamés Gnattali.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Como era o ambiente musical em tua casa? O que te fez enveredar pelo campo da música? Nada de extraordinário na minha casa na minha infância. Minha mãe escutava muito Roberto Carlos, era uma coisa que ela fazia sempre, comprava todo ano o disco do Roberto Carlos. Papai, não, papai nunca [interrompe-se]. Depois que eu me entendi, eu questionei, queria saber por que eu tinha gosto pela música. Ele me disse que meu avô, Maximiano, tinha tocado violino. Eles eram de Viana.

Então você não tem uma memória musical mais profunda da infância? Não, a minha lembrança mais longínqua de música é que todo ano, em frente à minha casa, brincava o Boi [de Orquestra] de Rosário. Aquilo realmente me deixava [interrompe-se novamente]… era semelhante ao que é hoje, o Boi, a Catirina, as índias todas enfeitadas. Depois disso eu fiz o primário ali no Monte Castelo, no Grupo Escolar Estado do Piauí, até aí também não tinha nada a ver com música. O lance surgiu quando eu fiz uma espécie de vestibular para entrar para a Escola Técnica, um exame de admissão. Eu fui pra Escola Técnica, lá tinha ginásio na época, eu fiz o ginásio industrial e o curso técnico em eletromecânica. O ginásio eram quatro anos e o curso técnico três anos. No meio do ginásio eu entrei para a banda marcial, fui tocar tarol. Estudei com o mestre da banda, Manoel Ferreira, o nome dele. Conheci muita gente lá, hoje são músicos, tipo Camilo Mariano [baterista], foi contemporâneo meu, conheci Pipiu [Arlindo Pipiu, multi-instrumentista], também tocava tarol na banda, Nato Araújo [violonista], todos tocavam na banda. Quando eu estava na banda marcial – a Escola Técnica tinha duas bandas, uma marcial e uma musical –, eu recebi um convite para participar da banda musical tocando tarol. A musical era mais orquestrada, mas tinha uma parte percussiva, era um tarol, um bumbo e um surdo. Aí o tarolista estava saindo da Escola e eu recebi o convite para ir para lá. Só que para tocar tarol na banda musical tinha que aprender música, não era como na marcial que era só meter a vareta. Lá eu tinha que ter a partitura e ir pela partitura. Aí eu fui obrigado pelas circunstâncias a aprender música, eu estudei com João Carlos Nazaré [maestro], o pai da Alcione [cantora], ele era o mestre da banda. Ele era secundado por Nonato, o Mestre Nonato do Conjunto, então eu estudei com os dois. Lá eu aprendi a ler partitura, que é o grande lance.

O maestro João Carlos era muito exigente? Super-exigente! Durão! Primeiro que ele era militar. Meu amigo, se na marcial era dureza, na musical era muito mais.

E Nonato, era mais suave? Nonato era. Os alunos iniciantes recebiam a primeira dura com João Carlos, só para saber como era. Depois ele não perdia tempo com iniciantes, ele jogava pra Nonato. Na musical eu conheci Zé Américo Bastos [multi-instrumentista], Pinheirinho, Chico Pinheiro [clarinetista, ele chama-o inicialmente pelo apelido], Osmar do Trombone [Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 23 de junho de 2013], tudo tocava na banda na minha época de Escola Técnica. Aí foi, o lance da música começou aí nessa história.

Além de músico você tem outra profissão? Eu fiz a Escola Técnica, fiz o curso de eletromecânica. Ao final do curso técnico eu fiz vestibular para Engenharia Mecânica, na época era a FESMA, Federação das Escolas Superiores do Maranhão. Era lá na UFMA, a UFMA cedia um prédio e a FESMA funcionava lá, engenharia mecânica, civil, agronomia, se não me engano tinha outros cursos. O curso de engenharia mecânica são cinco anos, eu não cheguei a completar. Eu estava no 10º. período eu passei no concurso do Correio, fui fazer um curso em Brasília, passei dois anos em Brasília, [fazendo o] curso superior de Administração Postal, que existia, hoje mudou, mas na época era a Escola Superior de Administração Postal, voltada para a área específica dos Correios. Hoje é o que eu sou, Administrador Postal dos Correios.

Você já tem quanto tempo de Correio? Eu entrei nesse curso em 1979, praticamente 35 anos. Já me aposentei pelo INSS, mas continuo trabalhando.

Como continuou sua trajetória na música até chegar ao bandolim? Aprendi a ler partitura, mas pela circunstância do vestibular eu larguei essa coisa de banda musical. Mas a partitura é fundamental na história. Saí da Escola [Técnica] e entrei na Escola de Engenharia. Lá eu conheci outras figuras importantes na minha vida musical. A primeira, Joãozinho Ribeiro [poeta e compositor], foi meu colega de turma. Teve outras pessoas importantes, Natan Souza, o irmão dele, Naassom Souza, é delegado de polícia hoje, Oder Lima. De outros cursos eu conheci Adelino [Valente, pianista e bandolinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 20 de julho de 2014], fazia engenharia civil, era mais adiantado do que eu, já estava quase se formando. Eu entrei na Engenharia em 1975. Em 76 uma tia minha, Lili, viajou de férias para o Rio de Janeiro e de lá ela trouxe um violão de presente por eu ter passado no vestibular [risos]. Até hoje eu lembro a marca desse violão: Rei dos Violões, mas era um violão “peba” [risos]. Foi com esse que eu aprendi tudo, um violão de cordas de aço. Joãozinho já era músico, já tinha suas composições. Ele foi a primeira pessoa a afinar meu violão. Eu sabia ler música, mas não me toquei que eu sabia ler partitura. Joãozinho foi lá em casa, afinou o violão e me deu o conselho: “troca essas cordas, cordas de aço, tem que ser corda de nylon”. Eu ia comprando revistas, chamadas “vigu”, violão e guitarra, de cifra. Eu ia muito para a casa de João, trocar ideia, fazíamos o curso juntos, ele morava no Desterro, um casarão lá. Um dia ele me disse: “rapaz, Jansen, eu vou te dar um negócio que eu tenho guardado há muitos anos, eu estou vendo que tu estás gostando, tu te vira”. Ele foi lá e buscou um método de violão clássico, de um autor chamado Mateo Carcassi. Era uma cópia, até hoje eu tenho, não sei onde está, eu tenho muita coisa guardada. Quando eu folheei me veio a história das partituras. Preciosidade, eu me passei para esse método. Se você sabe ler partitura você não precisa de professor. Os métodos vêm praticamente como uma receita de bolo. Vem até a posição dos dedos da mão esquerda, 1, 2, 3, 4, a posição dos dedos da mão direita, P, I, M, A. Eu devorei o método todinho, nessa época eu já morava no Santa Cruz. Eu me lembro que minha mãe dizia: “menino, tu é só com esse lengo, lengo, lengo, não sai nada, eu não entendo nada do que tu estás fazendo” [risos], até o dia em que eu consegui tocar uma música pra ela, “ah, agora tu sabe tocar”.

E o bandolim? Aprendi a tocar violão erudito, partitura e tal, depois eu fui comprando outros métodos, outras coisas. Aqui em São Luís, na época, era muito difícil. Hoje eu acho até que não, diante da internet, tem tudo, tudo de graça, é muito mais fácil. Eu aprendi violão, fazia engenharia, era professor de matemática e física, ensino médio, ensinava particular, ganhava meu troquinho, comprava meus discos, música clássica, Segovia [Andrés Segovia, violonista espanhol], coisas difíceis de encontrar aqui em São Luís. Comecei a gostar de me envolver com o samba, escutar Martinho da Vila, Paulinho da Viola, o contato com Joãozinho [Ribeiro], Chico Buarque. Na época existiam os acordes naturais, o cara que estava mais desenvolvido só tocava em dissonância, coisas mais elaboradas. Joãozinho já estava nesse nível, ouvia muito Chico Buarque, Bossa Nova. O irmão de Natan [Souza] convivia com a gente, me deu um cavaquinho. Aí, violão clássico, partitura, cavaquinho, Brasileirinho [choro de Waldir Azevedo]. Brasileirinho me abriu as portas. Tinha um programa na TV Educativa, era um noticiário, mas a música de abertura, o pano de fundo, era Brasileirinho. Só que não tocava toda, aquilo me deixava doido. Tinha um ceguinho que tocava isso, na porta da Livraria ABC [hoje extinta], eu dava uma moedinha e o ceguinho tocava. Eu fiquei com esse cavaquinho, tinha que tirar de ouvido a música. Encontrar um disco de Waldir Azevedo, nem se fala, e partitura ainda menos [o bandolinista posa para fotos tocando o instrumento; a sonoridade é elogiada pelo chororrepórter]. Esse bandolim, eu vou te contar a história dele, eu não sei se tu vais conseguir ler aqui [aponta para o interior do instrumento], Tércio Ribeiro. Esse cara é quem faz o bandolim de Hamilton de Holanda. Eu fiz o concurso pro Correio e fui morar em Brasília, dois anos, de 1979 a 81. Coincidentemente Natan e Naassom já tinham ido na frente fazer esse mesmo curso. Natan tocava violão, eu tocava cavaquinho e violão, tinha o movimento do choro, a gente fazia grupo de choro lá em Brasília. Comprei centenas de partituras, centenas de discos, praticamente tudo de Jacob. No último semestre do curso, o cavaquinho não estava mais me satisfazendo, comprei um bandolim. Aí o bandolim entrou na minha vida.

Capa da primeira edição de “O choro”, de Alexandre Gonçalves Pinto. A obra foi relançada pela Funarte em 2009. Reprodução
Reproduzido de pensario.uff.br

Eu gostaria de falar um pouco dessa relação antiga que os Correios têm com o choro. Você meio que recupera isso em sua vida. O Alexandre Gonçalves Pinto, o Animal, era carteiro, autor de um livro chamado O ChoroEsse livro, se você for pesquisar, praticamente 60% dos músicos eram oriundos dos Correios. Praticamente toda folha que tu abres, fulano de tal, Correios.

Teus pais nunca implicaram com suas escolhas musicais quando você era jovem? Não, por que praticamente a minha carreira fora da música é exemplar. Eu era aluno primeiro lugar no primário, ginásio, no científico [os atuais níveis fundamental e médio]. Não implicaram, passei em vestibular, concurso. A minha parte eu estava fazendo. A música nunca foi profissional, eu nunca levei para o lado profissional.

Se você fosse eleger os seus principais mestres no bandolim, na música, quem figuraria nesta lista? Você tem um pouco de autodidata, mas tem sempre alguém que é uma referência importante, fundante, de nosso aprendizado. Eu reputo Joãozinho Ribeiro como uma pessoa muito importante. Se ele não tivesse afinado meu violão talvez eu tivesse desistido. É também uma questão de ouvir: Jacob [do Bandolim] é fundamental não só para os bandolinistas, mas para qualquer músico. Os músicos que conhecem Jacob se apaixonam. Um rapaz também muito importante foi o Marcelo [Moreira, violonista, fundador do Instrumental Pixinguinha e ex-diretor da Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo]. Quando eu voltei de Brasília, eu já tocava, mas queria fazer Escola de Música. Eu ficava um pouco acanhado, a Escola era ali no Monte Castelo, perto do Aldenora Belo [hospital especializado em tratamento de câncer], uma mansão, na frente tinha uma estátua de uma águia. Era Sinhô [João Pedro Borges, violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 14 de abril de 2013], era Joaquim [Santos, violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 8 de dezembro de 2013], e eu “aí eu não entro” [risos]. Depois foi lá para a Rua da Saavedra [Centro]. Aí quando eu voltei de Brasília, já era 1983, mais ou menos, eu consegui me matricular e fui estudar com Marcelo. Aí quando eu toquei, Marcelo disse “não, rapaz, eu não tenho nada para te ensinar” [risos]. Eu frequentei diversos semestres e fiz uma amizade muito grande com ele. Marcelo era amigo de Joãozinho, ele soube que eu era amigo de Joãozinho, a amizade cresceu. Inclusive me ajudou a fundar o Instrumental Pixinguinha.

Você nunca viveu de música? Não. Já ganhei algum cachê, até com choro. Tinha um regionalzinho, eu, Solano [Francisco Solano, violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 26 de maio de 2013], Zeca [do Cavaco, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 21 de julho de 2013].

De que grupos musicais você fez parte? Quando eu voltei de Brasília, em 1981, “rapaz, eu tenho que formar um grupo aqui”. Convidei Joãozinho, Natan, Juca [do Cavaco, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 13 de abril de 2014], tinha um primo meu que tocava pandeiro, já faleceu. “Vamos fundar um grupo de choro”. Não teve nome esse grupo. Nós ensaiávamos no escritório de Natan, ele é engenheiro civil, tinha um escritório no Canto da Fabril, nós ensaiávamos lá. Joãozinho Ribeiro, [violão] seis cordas, Natan, seis cordas, Juca, cavaco, eu, bandolim, e pandeiro. Não deu certo, cada um foi para seu lado, depois eu fundei outro grupo, chamado Alma Brasileira. Era eu, Natan, Fernando Vieira [o falecido violonista Fernando Cafeteira, ex-integrante do Regional Tira-Teima], Paulo Trabulsi [cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 22 de dezembro de 2013], cavaquinho, e Carbrasa, pandeiro. Com o Alma Brasileira nós chegamos a tocar bastante tempo. Depois se você quiser eu posso mostrar vídeo desse grupo. Depois se desfez. Depois eu fui para a Escola de Música, aí teve o Pixinguinha: eu, Solano, Marcelo, Domingos [Santos, violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 16 de março de 2014], Paulinho da Flauta e Carbrasa. Esses eram grupos de choro. Agora eu fiz parte também de grupos de samba. Lá no Correio mesmo eu fundei o Arco Samba, com funcionários do Correio. Eram funcionários do Correio e pessoas que eu convidei. Éramos eu, cavaquinho, Quirino, banjo, Raimundo Luiz [bandolinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 15 de setembro de 2013], diretor da Escola de Música, era regente do coral do Correio, violão, aí tinha Bento, Carbrasa, Josebel, faziam parte desse grupo de samba. Participei também com esse pessoal aí do Remandiola, Força Maior.

Depois você acabou virando uma lenda ao desaparecer do cenário do choro, do samba, musical enfim. O que aconteceu? Na verdade depois do show [o mítico show Homenagem à Velha Guarda, do Instrumental Pixinguinha, no Teatro Arthur Azevedo] eu não toquei mais em público, mas continuo tocando. Em 1990 foi o auge do Instrumental Pixinguinha. Eu achava naquela época que ali era o ponto de partida, dali nós iríamos ganhar o mundo. Depois do show parece que cresceu, ninguém mais queria ensaiar. Marcava ensaio, eu chegava lá, aparecia eu, Solano, Marcelo, dois, três não apareciam. Marcava outro ensaio, a mesma coisa. Aí eu digo, “rapaz, quer saber de uma coisa? Eu tou perdendo meu tempo aqui”. O trabalho todo montado, tudo feito, “eu não preciso disso aqui pra sobreviver”. O meu deleite é só pegar uma partitura, um bandolim e tirar qualquer música. Isso me satisfaz. Tanto que larguei, aí fui entrar nesse negócio de samba. Vamos tocar Fundo de Quintal, Grupo Raça, Roque do Cavaco, de 20 sambas que a gente tocava, tocava um chorinho. Mas eu continuo com a amizade com todas essas pessoas.

E em rodas domésticas? Ah, todo final de semana eu tou na casa desse aqui [aponta para um irmão que acompanhou a entrevista], fazendo um choro, tomando uma cervejinha. Volta e meia Biné [do Cavaco, Os Irmãos Gomes, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 22 de junho de 2014], que era cavaquinista do Pixinguinha, aparece, Solano tem uns anos que não aparece, mas de vez em quando aparecia. Eu continuo, eu estudo permanentemente.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

Desses grupos qual o que você participou por mais tempo? E o mais marcante? O mais marcante foi o Pixinguinha, nós fizemos um trabalho à altura da Camerata Carioca, foi um trabalho naquele nível, música camerística, de arranjo, tudo, um negócio elaborado. Eu sei o que é vivenciar um grupo, sei as dificuldades, os pontos positivos e os pontos negativos. Eu tive a maior alegria no samba.

Além de instrumentista que outras habilidades você desenvolve na música? Eu componho choros, tenho cerca de 12, valsas e choros.

Você já participou de algum disco? Eu gravei, mas não chegou a ser lançado. A minha gravação, o disco saiu. Logo depois desse show do Pixinguinha, Marcelo fez a direção musical de um disco de Rosa Reis. Nesse show a gente tocava uma música de Joãozinho Ribeiro chamada Estrela. Rosa gravou no disco dela e tinha uma participação do bandolim. Eu fui ao estúdio, gravei, o conjunto todo foi gravar. Só que nessa gravação houve um problema técnico. Depois de gravado disseram que o bandolim estava desafinado. Me chamaram para refazer, eu disse “rapaz, eu não vou refazer” [risos]. E recentemente Gordo Elinaldo [violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 27 de outubro de 2013] me chamou para participar de um cd que ele está produzindo com músicas autorais. Eu fui lá há uns meses e botei uma parte de bandolim.

O que significa o choro? O que é essa música para você? O choro é a verdadeira música brasileira. A essência da música brasileira é o choro. Você às vezes escuta, ontem mesmo eu estava escutando, me lembrando desse compromisso da entrevista, eu estava escutando Joãozinho tocar uma música dele chamada Saiba, rapaz. Aparentemente se pensa que é um samba, mas na verdade é um choro. Essa gravação que eu estava escutando, é uma gravação feita na TV Educativa, ele, Raul do Cavaco, Mascote [o multi-instrumentista Antonio Sales Sodré] no violão de sete cordas e Jeca no pandeiro. É um choro! Ele fez sem saber que estava fazendo choro. Está na essência do brasileiro.

Você tem acompanhado o desenvolvimento do choro no Brasil? Como você vê as novidades, os novos nomes, os novos estilos? Acompanho, sim. Eu vejo como uma evolução natural. Em 2014 já não se pode mais dizer que Hamilton de Holanda é novidade. Ele já tem quase 30 anos de carreira. Você olha agora, aqui mesmo, Wendell [Cosme, bandolinista e cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 24 de novembro de 2013], Robertinho Chinês [bandolinista e cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 28 de abril de 2013] fazendo coisas diferentes, e não são coisas que você não possa considerar como choro. Isso tem que ser compreendido, respeitado e admirado. Eu vejo com bastante satisfação.

Quem são os grandes nomes de destaque, hoje, além de Hamilton? Bandolinista tem o Danilo Brito, velocidade, mas não só, uma velocidade cristalina. Rogério Caetano, violão sete cordas fenomenal. Jorge Cardoso, morou inclusive aqui, trabalhou no Correio, convivi um ano com ele aqui, é um baita bandolinista, fez curso na Itália.

E o choro no Maranhão? Como você avalia, apesar da falta de ensaio [risos]? Eu acho que está um pouco parado, eu não vejo muita coisa, fora o teu programa [o dominical Chorinhos e Chorões, apresentado por Ricarte Almeida Santos na Rádio Universidade FM, 106,9MHz]. Assim como o samba, o choro tem essas idas e voltas. O Maranhão tem quatro pessoas que eu reputo como fundamentais: Ubiratan Sousa [multi-instrumentista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 12 de maio de 2013], é um cara que praticamente todo mundo passou pelas mãos dele, Turíbio Santos [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 29 de setembro de 2013], Joaquim [Santos] e João Pedro [Borges]. Por coincidência são todos violonistas. Esses caras são fundamentais. Com Ubiratan eu cheguei a fazer um trabalho, Velhos Moleques, Antonio Vieira, Lopes Bogéa, Cristóvão Alô Brasil e Agostinho Reis [compositores]. Ubiratan dirigiu esse show e nós íamos ensaiar na casa de Vieira. Eu participei como bandolinista, Ubiratan escreveu os arranjos. Depois ele me deu os choros que ele tinha na época, eu cheguei a gravar na TVE um choro dele chamado Cabeça de choro.

Você se considera um chorão? Na contracapa do LP Vibrações, assim Jacob fala sobre Dino Sete Cordas: “Não é chorão autêntico porque não chega atrasado, raro beber e adora ensaiar”, então, sob a ótica de Jacob, também não sou um chorão autêntico [risos]. Mas é óbvio que Jacob estava de gozação com Dino, da mesma forma que eu comigo. É claro que me considero um chorão porque vivo, pesquiso, estudo, escuto e pratico essa música há quase 40 anos.

Folia divina no Teatro

Divulgação
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Com roteiro musical baseado nos diversos momentos da festa do Divino Espírito Santo, que tradicionalmente acontece em diversas cidades maranhenses, o show Divinas Folioas será apresentado na próxima sexta-feira (22), às 21h, no Teatro Arthur Azevedo.

As folioas – o dicionário registra o termo “folionas” – que comandarão o espetáculo são Jacy Gomes, Luzia Assunção, Maria Rosa, Rosa Barbosa e Roxa. As direções geral e artística são assinadas por Rosa Reis, que ao lado de Tayse, fará participação especial.

O quinteto de caixeiras será acompanhado por Hugo (violão), Zezé Alves (flauta e direção musical) e Danilo Santos (clarinete). A produção é do Laboratório de Expressões Artísticas do Maranhão, o Laborarte, de acordo com o material de divulgação recebido por este blogue.

O repertório contempla a abertura da tribuna, buscamento, batizado e levantamento do mastro, dança das caixeiras, alvorada, alvoradinha, Santana, salvas do Divino e outros cânticos tradicionais e o carimbo das caixeiras. Da ficha técnica constam ainda os nomes de Márcio Vasconcelos (fotos e arte), Maurício Vasconcelos (fotos e arte), Tamara Marques (figurino e maquiagem), Cláudio Vasconcelos (cenário) e Oscar Castro (iluminação).

Os ingressos podem ser adquiridos antecipadamente na sede do Laborarte (Rua Jansen Müller, 42, Centro) ou na bilheteria do teatro, no dia do espetáculo. Custam R$ 30,00 (preço único).

Diretora de Divinas Folioas, a cantora Rosa Reis, respondeu as seguintes perguntas ao blogue.

Desde sua fundação o Laborarte tem tido um papel importante na pesquisa e difusão de manifestações da cultura popular do Maranhão, fazendo jus a seu nome. Divinas Folioas se insere nesta trajetória. Qual o espaço destas manifestações, hoje, em tempos de apelo a uma música de mais fácil consumo pelo mercado, em geral desvinculada de quaisquer tradições? Sim, o Laborarte tem oferecido à população oficinas de toques e cânticos de caixas, contribuindo com a formação de novas caixeiras, e com o conhecimento dos vários momentos da festa do Divino, desde a abertura da tribuna, quando o Espirito Santo desce, até o momento de fechamento e logo a seguir o carimbó das caixeiras. O espaço ainda é a população dos terreiros, dos barracões, dos pesquisadores e estudiosos, do povo que tem fé na terceira pessoa da santíssima trindade. A música ainda está no contexto da religiosidade, mas pode ser trabalhada em vários aspectos. Eu mesmo, no meu trabalho, já gravei músicas do divino com arranjos de guitarra e outros instrumentos.

Qual a importância de um espetáculo como este, no sentido de colaborar para a divulgação e perpetuação das tradições em torno da festa do Divino Espírito Santo? Queremos dar visibilidade ao trabalho das caixeiras com um espetáculo onde o público possa apreciar a individualidade de cada uma, o canto com seus timbres e melodias, os sons percussivos dos tambores, no caso as caixas, com suas variações nos toques e andamentos, e ao mesmo tempo passar informação e conhecimentos sobre o ritual da festa, em que momentos se faz essa cantiga ou aquele toque; e dessa forma contribuir para a divulgação deste rico espetáculo.

Em agosto passado, as caixeiras dialogaram respeitosamente com o jazz da cubana Yillian Canizares, durante seu show em São Luís, na programação do Lençóis Jazz & Blues Festival. O que significou para você ter presenciado e participado daquele momento sublime? Foi uma forma de mostrar a população que a música do Divino é universal, que pode ser tocada com outros instrumentos sem perder a sua essência, a sua sonoridade. Foi um momento mágico e de muita sabedoria da cubana em ter convidado o grupo. Sem preconceitos.

As conexões de Alê Muniz e Luciana Simões: latino-americanos de sangue, alma e música

Foto: Laila Razzo/ Divulgação
Foto: Laila Razzo/ Divulgação

 

Parceria de Alê Muniz e Luciana Simões com o poeta Celso Borges, São Luís Havana, faixa de Cine Tropical (2009), segundo disco do duo Criolina, resume bem o espírito musical do casal: a ponte cultural entre as ilhas de São Luís e Cuba, citando mestres da música popular daqui e de lá.

Os ventos caribenhos que sopram nesta direção e ajudam a explicar as origens do reggae por estas plagas foram, desde o início, uma marca do som do Criolina, sempre impregnado desta latinidade.

Luciana Simões foi vocalista de banda de reggae, com sucesso nacional; Alê Muniz gravou alguns discos, participou de festivais, compôs em parceria com diversos nomes da cena local; ambos fixaram residência por longa temporada em São Paulo e decidiram voltar ao Maranhão, num ato de resistência, para produzir a partir daqui. Com o BR-135, projeto idealizado e tocado por eles, movimentaram a cena autoral da música produzida hoje no Maranhão, ajudando a revelar novos nomes e revalorizar outros.

“Muita gente pergunta, ainda com aquela ideia de sul maravilha, como uma necessidade indispensável. Por que São Luís? Vocês voltaram por quê? Hoje em dia é bem mais fácil tocar o barco daqui do que em outros tempos. Para quem quer fazer sucesso, não há a necessidade de morar no eixo Rio-São Paulo. Conhecemos vários artistas que conseguiram visibilidade e agenda morando nas suas cidades fora do eixo, como Siba [ex-Mestre Ambrósio], Lirinha [ex-Cordel do Fogo Encantado], artistas de Belém, Recife etc. Existem circuitos de festivais e mostras se consolidando no norte/nordeste e centro-oeste. As distâncias se encurtaram e também tudo depende da sua visão de carreira: artista não é só aquele que estoura, é também aquele que faz parte da trincheira, da resistência”, explica Alê Muniz.

Ele continua: “O fato é que, apesar dos pesares, nesse momento eu prefiro viver em São Luís, mesmo com todos os problemas da cidade. Aqui criamos e desenvolvemos projetos que acreditamos interferir positivamente na construção de uma São Luís que desejamos. A cidade nos inspira. A cultura local, as melodias, os sotaques, os personagens, os ritmos que visitam a nossa cabeça enquanto convivemos com a cidade. Aqui também temos a nossa família, amigos, o que nos alimenta também. É claro que dúvidas pairam sobre a cachola, porque não é tão simples assim; e seria muito sem graça se fosse. Afinal somos uma dupla dinâmica [risos]. Gostamos de aventura. Não é a toa que o Bye Bye Brasil serviu de inspiração para nosso segundo disco, onde percorremos o Brasil profundo de forma alternativa, semelhante à Caravana Rolidei de Cacá Diegues. E explorar o Brasil a partir daqui é muito legal. Às vezes acho que a receita é não ter receita. Sal, pimenta e farinha a gosto!”

Sempre cobrados pelo terceiro disco, o sucessor de Cine Tropical – estrearam com o homônimo Criolina, em 2007 –, eles se preparam para um aperitivo: o EP Latino-americano, que lançam no próximo dia 21 (quinta-feira), às 20h, no Barulhinho Bom (Rua do Giz, 217, Praia Grande). O ingresso (R$ 20,00) dá direito a um EP. Além de pocket show da dupla, haverá discotecagem de Jorge Choairy e os presentes assistirão em primeira mão o videoclipe da faixa-título, produção da Gataria Filmes, dirigido por Tatiana Natsu, que também assina o roteiro, e Diego Carvalho Sá. O clipe foi realizado com recursos obtidos com financiamento coletivo, através de uma campanha virtual.

O crowdfunding vem se consolidando como uma ferramenta interessante de financiamento de obras artísticas, sobretudo musicais, em tempos de mudanças rápidas e radicais na indústria fonográfica e, em sentido diametralmente oposto, do engessamento e estagnação das leis de incentivo. “Achamos incrível testar novos modelos de produção. Acredito que seja uma forma nova de passar o chapéu e uma forma de mobilizar e envolver o público, que sai da posição passiva para a prática concreta de apoio à produção cultural. Nós podemos sentir o sabor de realizar algo financiado diretamente pelo nosso público. E acho que o público também deve sentir o prazer que é contribuir com o que gosta”, opina Luciana.

Indagada sobre as dores e as delícias desses modelos alternativos, a partir da diminuição do espaço das grandes gravadoras, ela também se manifesta, sem esconder suas dúvidas e preocupações. “A música foi a linguagem artística que sofreu mais impacto dos avanços da tecnologia. Passamos de vinil para cd, de cd para download, de download para streaming num piscar de olhos, e acho que muita água ainda vai rolar até os artistas conseguirem monetizar a música através de venda digital ou outro caminho que ainda não conhecemos. As mudanças foram muito bem vindas para a cena independente, mas já evoluímos para um segundo ponto; o processo de gravação não é barato, é mais acessível do que já foi, mas você tem muitas pessoas envolvidas: músicos, estúdio, designer gráfico, fábrica, fotógrafo, técnico de gravação, técnico de mixagem e masterização. E aí o que acontece? Você disponibiliza para download. A conta não fecha. Como o compositor paga as contas? Vivemos um período ainda onde o direito à propriedade intelectual está em xeque”, diz.

Latino-americano inaugura também a parceria da dupla com o cantor e compositor Bruno Batista. “Nos identificamos muito com Bruno, ele compõe muito bem. No segundo semestre do ano passado passamos cinco meses em São Paulo e morávamos no mesmo bairro. Cada dia que a gente se encontrava saía uma ideia, muito bacana. Adoramos nos encontrar e ainda vamos fazer mais coisas juntos”, elogia e promete Luciana.

O EP antecipa um CD cuja previsão de lançamento é agosto que vem. Além da faixa-título e Pra ver se ela gosta, parcerias com Bruno Batista, Latino-americano reinventa covers de Osvaldo Farrés [Quizás] e Reginaldo Rossi [Garçom]. Na bolachinha, a Alê Muniz (guitarra e voz) e Luciana Simões (voz), juntam-se Gerson da Conceição (contrabaixo), João Simas (guitarra), Isaías Alves (bateria) e Marco Stoppa (trompete).

Pergunto o que mais cabe no balaio do duo. “Cabe de tudo!”, vibra Luciana. E continua: “pra gente Maranhão é como o Caribe brasileiro, as conexões que temos com ritmos como merengue, reggae, salsa, causa uma curiosidade. Há uma série de teorias para justificar essa ligação: navios cargueiros que aportavam trazendo a música caribenha, ou as ondas de rádio do Caribe que invadiram a ilha, mas acho que o fato desses ritmos terem caído no gosto popular e até se incorporado como manifestações culturais se deve a nossa herança negra. Mas sim, aproveitamos os ritmos regionais, misturamos a ritmos cubanos, ao ska, ao rock, e ao tropicalismo: isso é bem antropofágico [risos]”.

Chorografia do Maranhão: Lee Fan

[O Imparcial, 7 de setembro de 2014]

O flautista e saxofonista “bossa nossista” Lee Fan é o 39º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVANIO ALMEIDA SANTOS

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

O flautista e saxofonista Lee Fan foi apresentado ao choro através de um cavaquinho que ganhou de presente de uma tia, professora de música. Na Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo ele concluiu os cursos de cavaquinho e flauta transversal. O saxofone foi consequência.

Lee Jun Fan Santos de Sousa herdou o nome de Bruce Lee, astro de filmes de artes marciais de quem seu pai é fã e resolveu batizar o filho, homenageando-o. O menino Lee chegou a enveredar pelas artes (marciais), mas temendo algum acidente com as mãos, optou pelas artes (musicais). Impossível não lembrar os versos de Caetano Veloso, em sua Um índio: “tranquilo e infalível como Bruce Lee”. “Minha vó era índia”, revelou-nos o 39º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão, cujo depoimento foi colhido no pátio comum entre La Pizzeria e a Pousada Portas da Amazônia, na Praia Grande, espaço onde ele mesmo, então um garoto com entre 14 e 15 anos, chegou a tocar, durante a breve temporada em que o espaço abrigou o saudoso projeto Clube do Choro Recebe, de que ele lembra com carinho e saudade.

Lee Fan nasceu em 19 de março de 1993, em São Luís. Desde então mora na Cidade Operária. “Moro com meus pais”, conta o filho de José de Ribamar Ferreira de Sousa, técnico em informática, e Conceição de Maria Matias Santos, ex-cobradora de ônibus, que deixou a função após ser vítima de nove assaltos. “Ela contraiu fibromialgia, não pode mais trabalhar na profissão. Mas sempre foi muito guerreira, não gosta de ficar parada, sempre teve um pulso administrativo muito grande, então montou lá em casa uma lan house, uma xerox, que ela mantém e com que paga nossas contas. Lá em casa todos somos autônomos”, admite o garoto prodígio.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Você está cursando faculdade? Faço Música, sétimo período da Licenciatura na UFMA [Universidade Federal do Maranhão].

Você chegou a procurar outra coisa? Os pais chegaram a recomendar fazer outra coisa por que música não dá futuro ou sempre teve apoio? Graças a Deus, lá em casa eu sempre tive muito apoio. Minha mãe sempre me instigou a estudar o que eu queria. O que ela sempre me diz é que para o bom profissional não falta trabalho. Esse é o lema que a gente carrega. Minha família é de músicos, essa nova geração. Tudo começou com minha tia, Maria Zélia, que é professora da Escola de Música, é minha tia legítima, irmã de minha mãe. Eu sempre tive esse total apoio.

Mas teu pai não quis que você fosse lutador de artes marciais? [Risos]. Na verdade eu cheguei a praticar, eu lutei alguns anos tae-kwon-do, cheguei até a competir, estava tendo um bom desempenho, ganhando medalhas. Só que nessa época, mesmo novo, eu já fui obrigado a tomar uma decisão: ou música ou arte marcial. Eu lutando era um risco grande de machucar minha mão. Como eu já tinha esse foco, de trabalhar com música, eu não quis correr esse risco. Então abri mão da luta.

Além de músico você desenvolve alguma outra atividade para ganhar dinheiro? Ou vive de música? Não. Eu sobrevivo, não é “nossa, como eu ganho dinheiro!”, mas eu ganho dinheiro, procuro rendas em vários ramos da música. Eu não sou um cara que “ah, eu só quero tocar, meu cachê vai ser tudo pra mim”. Não, eu não penso assim, tanto que estou fazendo uma faculdade. Eu dou aulas, trabalho com gravações, além dos shows. A gente tem no Bossa Nossa um pouquinho da parte empresarial, a gente consegue ganhar um pouquinho mais. A gente tenta de todas as formas aumentar a nossa renda trabalhando com o que a gente gosta, sem precisar ir para outros ramos, outras profissões. Eu tento com música pagar as minhas contas, estou conseguindo. Pela faculdade já consegui algumas coisas, já estou dando aula no Sesc [Serviço Social do Comércio] de carteira assinada. A profissão de professor, mais o artista da noite, mais o cara que trabalha com gravação, quer dizer, estou juntando tudo para montar o profissional, o músico.

Para sobreviver de música, figurativamente, tem que rebolar, não é? [Risos]. É, não é fácil. Quem achar que é fácil está enganado. Muita gente, até amigos nossos, colocam a música muito pra baixo, como se fosse uma coisa. Dizem “Deus me livre que meu filho estude música”. Eu já não penso assim. Se quiser estudar música, vou apoiar, vai ser a escolha dele. Lógico que cada escolha é uma renúncia, você vai ter que saber que você vai ter que passar por uma fase que não vai ser fácil, abrir mão de vários finais de semana com sua família, até ter uma situação favorável onde você possa selecionar os trabalhos, mas até aí é uma trajetória que não é fácil, nem pequena. Dependendo do mercado em que você vai trabalhar, se é no Rio de Janeiro, se é no Maranhão, você vai ter que manter uma rotina de estudos de alto nível.

Antes de ingressar na UFMA você estudou na Escola de Música, não é? Sim. Estudei na Escola de Música flauta transversal e cavaquinho. Flauta transversal eu estudei com o professor Paulo Santos, o grande Paulinho, e o cavaquinho eu estudei com o Juca [do Cavaco, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 13 de abril de 2014], o Emilson Pires [nome de batismo de Juca do Cavaco], e com o João Soeiro [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 30 de março de 2014], sendo que eu entrei na Escola de Música no cavaquinho. Aprendi flauta doce em casa, através de minha tia. Quando eu entrei na Escola de Música eu já tinha um cavaquinho, que ela me presenteou, e eu comecei a estudar cavaquinho. Logo após eu fui para a flauta transversal. Lá na Escola de Música eu vi uma apresentação do grupo Instrumental Pixinguinha, foi quando eu vi pela primeira vez alguém tocando flauta transversal ao vivo, aquilo me encantou muito. No semestre seguinte eu me inscrevi para flauta transversa. A partir de então não parei mais de estudar o instrumento. Até deixei, na verdade, um pouco o cavaquinho de lado para poder me dedicar à flauta transversa.

Você chegou a concluir o curso na Escola de Música? Sim, todos dois. Fiz os 10 períodos.

Além de tua tia Zélia, que com certeza te influenciou bastante, como era o ambiente familiar em relação à música? O que se ouvia? Meus pais gostavam muito de samba. Meu pai sempre ouvia aquelas músicas bem retrô, Alphaville, bem antigas, brega também rolava muito. Eram pessoas que ouviam coisas normais, não era bossa nova, não era jazz, não era blues, não tinha seleção. Minha mãe não tem o perfil de ligar o som para ouvir música. Meu pai, sim, ligava, ficava ouvindo. Eu fui aprendendo ouvindo, hoje eu sei tocar muita música antiga de ouvir quando meu pai ligava e botava para tocar.

Além de flauta e cavaquinho você toca algum outro instrumento? Toco sim. Atualmente os instrumentos a que me dedico são a flauta transversal e saxofone. Por que o saxofone? Eu trabalhei em um grupo chamado Pagode do Ivan. Em vários grupos, mas o Pagode do Ivan foi o principal. Hoje em dia, não só na música, as pessoas têm que ser polivalentes, têm que ser versáteis, na música principalmente. Eu não poderia ficar tocando só a flauta transversal por que o mercado pede que o músico de sopro toque também saxofone. Houve uma tendência para que eu começasse a aprender esse instrumento. Não foi uma obrigação. Eu experimentei, gostei muito e hoje eu me dedico a esses dois instrumentos com o maior prazer.

O cavaquinho está meio largado. Isso! Eu ainda toco cavaquinho. Como eu trabalho com as mãos, a música está direto, todo dia em mim. Quando eu pego o cavaquinho, eu ainda sei tocar as mesmas coisas, eu só não vou pra frente. Mas pra trás, graças a Deus, eu ainda não fui [risos].

A busca pelo saxofone foi autodidata ou você teve professor? Foi autodidata. Eu não fui para um lugar pegar aula, mas eu sempre pesquiso muito, converso muito com quem toca. Quer dizer, eu acabo pegando aulas com várias pessoas, que é uma aula de conversa, não é uma aula de didática, com roteiro. Como eu já tocava flauta, eu tive muita facilidade de migrar para o sax, a digitação é bem parecida, a diferença maior é na embocadura. Quando eu comprei o sax, não sabia nada, fui tocando e metendo a cara.

A escolha dos sopros deve-se à influência de tua tia? Como é que a flauta aconteceu? Não. Ela me deu um cavaquinho. Eu aprendi a tocar flauta doce e tocava até relativamente bem, zerei os métodos todos. Fui pra Escola de Música, estudei cavaquinho e simultaneamente estudava flauta doce. Um dia fui ao [Teatro] Arthur Azevedo e o Pixinguinha era um dos grupos da programação. Se não me engano, era até o João Neto [flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 2 de fevereiro de 2014] que estava tocando, não era o Zezé Alves [flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 9 de junho de 2013] que estava nesse dia. E a música que me marcou muito foi André de sapato novo [de André Victor Correia]. Eu ouvi aquela música, fiquei, “nossa, é isso que eu quero para mim”. No semestre seguinte eu me matriculei, ganhei minha flauta estudante, comecei a estudar. Como minha família é de músicos, desde cedo começou a aparecer trabalho para mim. “Nossa, ele é criança!”, eu comecei a ir juntando uns trocados para comprar essa flauta aqui [aponta para seu instrumento, sobre a mesa], que eu já consegui comprar com os meus trabalhos.

Além do Bossa Nossa e do Pagode do Ivan, de que outros grupos musicais você fez parte? Participei do grupo Vamu di Samba, antes do Pagode do Ivan. Antes do Vamu di Samba eu participei do grupo Som Brasil, só que foi uma passagem rápida. Simultaneamente, nessa época, era até com Rafael Guterres [cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 18 de maio de 2014], o grupo Som Brasil, lá na Escola a gente tinha uma brincadeira, a gente tocava samba e pagode, que era o grupo Pagodez. Era uma brincadeira, mas foi lá que eu comecei a entender a linguagem do samba, como colocar a flauta no samba. Apesar de ser música brasileira, ser ligado ao choro, a forma como você vai colocar, para não atrapalhar quem está cantando, é uma forma delicada, o chamado contracanto. Lá foi onde eu comecei assim, de fato. Simultaneamente também estava na Segunda sem lei [evento semanal, às segundas-feiras, na Associação Atlética do Banco do Estado do Maranhão, AABEM]. A primeira vez que eu toquei samba foi lá. Lá eu conheci João Eudes [violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 16 de fevereiro de 2014], a proposta era de samba, mas como a gente gosta muito de choro, o quanto a gente podia a gente tocava. Lá iam também Wendell Cosme [bandolinista e cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 24 de novembro de 2013], Robertinho [Chinês, bandolinista e cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 28 de abril de 2013], era uma festa muito legal.

E os grupos de choro? Toquei durante algum tempo no Chorando Callado, logo depois da saída do Tiago Silva [clarinetista e saxofonista], ele foi para Manaus. Toquei também algum tempo no Um a Zero, mas já não foi como membro do grupo. Eu substituía João Neto em algumas vezes que ele não podia ir. Em participação eu toquei em quase todos os grupos, o Instrumental Pixinguinha, Urubu Malandro, Os Cinco Companheiros. Eu cheguei a tocar com eles, em várias festas. O que durou mais tempo foi o Chorando Callado.

Atualmente você só integra o Bossa Nossa? Sim, só o Bossa Nossa.

O que significou para você, para os outros membros do Bossa Nossa, participar do Festival de Jazz e Blues de Barreirinhas [o VI Lençóis Jazz e Blues Festival]? Foi um presente! Eu considero. Foi um convite feito pelo [produtor] Tutuca Viana. Como a gente tem uma agenda fixa, ele nos viu tocando em um restaurante, gostou muito e convidou. Nós mesmos nem acreditamos, um festival onde só toca a galera fera, de fora. A gente encarou com muita seriedade e tentamos fazer nosso melhor. Graças a Deus o público gostou muito. Foi realmente um presente e uma honra muito grande, pra gente, poder fazer parte desse evento de grande relevância para o cenário musical do Maranhão e do Brasil.

Tuas primeiras aparições públicas tocando choro foram no Clube do Choro Recebe, no Chico Canhoto. Isso! Lá, inclusive, eu estava substituindo o João Neto. Foi um show com a [cantora] Tássia Campos, outro com Zeca do Cavaco [Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 21 de julho de 2013] e também com o Um a Zero.

O que significaram aquelas apresentações? Quais as tuas lembranças do período? Aquele palco faz falta para a cena choro de São Luís? Eu tinha acabado de comprar essa flauta, é de prata, é um instrumento para a vida, a gente só faz manutenção. Eu pensava, “agora eu tenho uma flauta bacana, tenho que tocar em lugares melhores, para um público melhor me ver tocando”. O Clube do Choro era um desses locais, eu tinha um sonho, uma vontade grande de tocar. O Clube do Choro do Maranhão está fazendo muita falta. Eu fico triste quando alguns artistas vêm de fora, instrumentistas, principalmente, me perguntam onde está rolando choro aqui na cidade e eu fico sem saber o que responder [os chororrepórteres passam ao músico a agenda do Regional Tira-Teima, que toca às sextas-feiras, a partir das 20h, no Brisamar Hotel]. Atualmente não tem um local onde a galera vá para valorizar essa música. A gente faz uns trabalhos paralelos, toca um pouquinho de choro, mas não é a principal atração. Está fazendo uma falta tremenda!

Além de instrumentista, você desenvolve outras habilidades na música? Estou iniciando esse aprendizado. Para a gente que estuda instrumento de sopro é um desafio estudar harmonia. Para eu compensar essa dificuldade eu procuro entender um pouquinho de teclado, só que eu não digo que eu toco teclado. Eu estudo um pouquinho, como eu posso, quando eu posso. Como eu estudei cavaquinho, tenho uma boa base dos acordes, eu tenho essa vantagem em relação a quem não toca instrumentos harmônicos, quem estudou cedo, na verdade. Quando eu toco, eu já identifico as cores dos acordes, se é um acorde maior, se é um acorde menor, isso fortaleceu muito meu ouvido. Atualmente, estudo de arranjo, eu estudo devagar. Estou iniciando, na verdade, inclusive estou até pegando aula com Robertinho Chinês, que está me ajudando muito. Também já peguei aulas com Israel Dantas [violonista], Moisés Ferreira [guitarrista]. Eu estudo como eu posso.

Você já gravou em discos? Eu tenho muito na área do samba. Gravei o disco do Argumento, do Feijoada Completa. Gravações de músicas com Lena Machado [cantora], que ela faz para participar de projetos, por exemplo o Exposamba. Com Wendell gravei vários, o do Andrezinho Valois, o do grupo Madrilenus, alguns grupos de pagode, grupo Pura Simpatia, grupo Tô Di Mais. Geralmente quando pinta um trabalho para Wendell e tem sopro, a gente tá junto!

Você falou há pouco do impacto que te causou ouvir João Neto tocando André de Sapato Novo no Arthur Azevedo. Que flautistas te chamam a atenção, hoje? Atualmente o Eduardo Neves. É um músico excepcional. Ele mora no Rio de Janeiro. Eu ainda não tive contato com ele. Apesar de ele ser novo, ele não mexe em facebook, então eu ainda não pude trocar uma ideia. Eu ouço muito os discos dele. Como multi-instrumentista, flautista inclusive, tem o Dirceu Leite, me inspira muito. Me vêm logo à mente esses dois caras, até por que estão em atividade. Que já passaram, vamos dizer assim, tem o Altamiro Carrilho, incomparável. Eu ouvia muito os discos dele, tocava junto, foi assim que eu assimilei melhor a linguagem do choro. Ainda ouço, na verdade, os discos do Altamiro Carrilho. Em São Luís, a referência de som é o Paulinho [Santos]. É um cara que, embora não esteja em atividade, tocando por aí, pra mim o som do Paulinho é um som lindo.

Você afirmou que muito provavelmente teus pais vieram a conhecer choro depois que te ouviram tocar. E como é que você conheceu o choro? Já foi na Escola de Música? Como é que foi essa aproximação com esse gênero? O choro eu conheci nas aulas de cavaquinho. Como eu estudava com Juca, o Juca toca muito choro, é um chorão. A primeira música que eu lembro que a gente tocava muito era Feitiço da Vila [de Noel Rosa e Vadico], inclusive essa música me acompanhou durante vários recitais. Não era uma coisa muito programada, era “ah, amanhã tem um recital, vamos lá tocar”, e a gente tocava Feitiço da Vila, Carioquinha [Waldir Azevedo]. Eu comecei com Feitiço da Vila, mas também as músicas do Waldir Azevedo, eu ouvia muito, tocava muito, Flor do cerrado [Waldir Azevedo], Luz e sombra [Waldir Azevedo], todas eu tocava muito e gostava muito, eu pedia pro Juca me ensinar, dava muito certo. Foi assim que eu conheci o choro.

O que significa o choro para você? Qual a importância dessa música? Eu dou graças a Deus por ter conhecido o choro. A música brasileira, as síncopes, todo suingue, toda malícia, tudo aquilo está no choro. O músico que toca choro está apto para tocar toda música brasileira, tirando as regionais, bumba meu boi, maracatu. A bossa, a improvisação, o choro está em tudo. Até para tocar outras músicas de outros países, o jazz, o blues, também me ajudou, na concepção rítmica, principalmente. Como eu participei de grupos de samba, quando eu fiz essa passagem do choro para o samba, eu já estava um passo à frente de muita gente, já tive muita facilidade. Muita gente gosta de mim tocando samba, acho que por isso, por que eu passei pelo choro.

Você escuta muito choro, hoje? Como é tua relação com o consumo de música? Compra discos, baixa na internet? Ainda escuto. Geralmente, não vou mentir, compro discos quando o artista vem e eu tenho oportunidade de comprar dele. Até por que os artistas que eu compro, não vende o disco deles aqui. Como o Dirceu Leite, por exemplo, Toninho Carrasqueira [flautista], nas vezes que ele veio, sempre trouxe um cd diferente, sempre compro. Zé da Velha [trombonista] também, fiz questão de comprar o cd dele. Fora isso eu baixo, ouço muita coisa pelo youtube, até por que hoje, tudo é muito rápido. A galera que toca lança um trabalho no youtube, depois outro, o ciclo vai rodando. Às vezes eu chego a nem conhecer, quando eu chego já passou, aí eu baixo.

Você prefere o choro tradicional ou o moderno, mais inventivo? Eu estou mais ligado nessa vertente mais inventiva, a galera de Brasília que está inovando muito. O choro tradicional eu ouço, eu curto. A gente começa a estudar improvisação, quer improvisar, quer aplicar o que está estudando. O espaço que a gente tem para fazer isso é quando estamos tocando. Temos que ouvir quem está fazendo isso, Eduardo Neves, Hamilton de Holanda [bandolinista] também.

O que significou para você tocar com Zé da Velha e Silvério Pontes [trompetista]? Foi outro presente. Eu achei que não estava preparado. Eu estava tocando muito com o Pagode do Ivan, muita festa. Wendell comentou que tinha um show, falou que era Zé da Velha. Depois ele comentou já faltando uma semana. Ele me mandou o repertório, algumas músicas eu já conhecia, outras não. Eu fui procurar pegar para aprender. Nós fizemos um ensaio sem ele na sexta, o show foi no sábado. Terminou o ensaio, Wendell me ligou dizendo que o show era o lançamento do cd deles [Zé da Velha e Silvério Pontes], ele conseguiu as partituras, João Eudes foi deixar para mim no samba, ele chegou lá duas da manhã, eu estava tocando. Acordei cedaço no dia, fui ler, o show foi mais do que eu esperava. Eu imaginava que eu ia ficar de canto e eles sendo a atração, mas eu acabei ficando lado a lado com os caras. Zé da Velha tocou com Pixinguinha. Rolou espaço para improvisação, foi muito bom. Conversamos depois do show, fiquei feliz por eles terem ficado satisfeitos.

Na sua entrevista à Chorografia do Maranhão, Henrique [Cardoso, violonista, membro do Bossa Nossa, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 10 de agosto de 2014] afirmou que um dos hits do Bossa Nossa é Boi de lágrimas [de Raimundo Makarra]. Em outros estados, por exemplo, Pernambuco, o frevo dialoga diretamente com o choro, no Rio de Janeiro, o choro dialoga com o samba. Aqui, fora algumas iniciativas como o Choro Pungado, ainda percebemos uma timidez de misturar o choro aos ritmos da cultura popular do Maranhão, e parece que vocês estão retomando essa proposta. Você acha que é possível? Esse casamento é legal? A gente tem a prova que é possível. Em nossos shows o Boi de lágrimas é nosso trunfo. A gente toca o Boi de lágrimas quando a gente percebe que não está chamando muito a atenção. “Vamos quebrar o clima!”, aí a gente toca. Todo mundo vira logo pra gente. Isso é em qualquer lugar: no shopping [da Ilha, o Bossa Nossa se apresenta aos sábados, ao meio dia], no Manu [restaurante na avenida dos Holandeses, o grupo se apresenta semanalmente, às quintas e sábados, alternadamente], em um aniversário. Isso é a prova que a música maranhense é muito admirada e tem espaço. Nós aproveitamos o Boi de lágrimas e acabamos tocando outras músicas: Dente de Ouro, do Josias [Sobrinho, compositor], Bela Mocidade [de Donato Alves], o Coxinho [o cantador e compositor Bartolomeu dos Santos] também, “Urrou, urrou” [cantarola trecho do Urro do Boi, de Coxinho, considerada o Hino do Folclore Maranhense] e outras músicas maranhenses, a gente viu que dá certo. Partindo da grande aceitação do público a gente desenvolveu o show Trupiada, todo de repertório de autores maranhenses, que apresentamos recentemente no Sesc Amazônia das Artes, e também no São João, no Arraial Balaio de Sotaques, também do Sesc.

Vocês consideram o Bossa Nossa um grupo de choro? Também. Quando nós estávamos na UFMA já tínhamos muitas reuniões. Dessas reuniões saiu o nome do grupo. Mas ainda não sabíamos o que éramos. Vamos tocar o quê? Vamos tocar onde? Infelizmente não dá para tocar só o que a gente gosta, só choro, se quisermos um trabalho rentável. A gente não toca só choro, não toca só bossa. O que nosso cliente pedir… a gente tenta selecionar as balas de cada gênero, as mais conhecidas do choro, as mais conhecidas da bossa, música internacional. É difícil, mas está dando certo até agora.

Você se considera um chorão? Eu me considero. Se for para vestir a camisa eu visto. É claro que eu toco várias outras coisas, mas eu me considero um chorão, sim. Até por que é minha infância, o choro é minha infância, eu ouvia Waldir Azevedo e Altamiro Carrilho. O choro está na minha infância, eu ficava mudando o cd, um atrás do outro, eu ficava sempre tocando cavaquinho e a flauta também. Meus vizinhos todos me conhecem por isso, eles gostavam também da música, passaram a gostar. Eu me considero um chorão, sim.

A vida e o som da Eddie

Morte e vida. Capa. Reprodução
Morte e vida. Capa. Reprodução

 

“Preto velho, pense merda não, que o mundo já tá cheio, isso não é solução”. Há tempos um refrão não grudava tão fortemente em minha cabeça. É de Queira não, faixa de abertura de Morte e vida (2015), novo da banda Eddie, sexto da carreira, sucessor de Veraneio (2011) – todos os álbuns estão disponíveis para download gratuito no site da banda.

Pergunto a Fábio Trummer, vocalista, guitarrista e letrista da Eddie, qual o lugar e o sentido do álbum físico hoje, quando, sinal dos tempos, os discos podem ser baixados antes de lançados. “O álbum são as musicas, o conjunto, o conceito, a embalagem. É uma forma de termos isso fisicamente, uma sensação de posse deste conceito cantado e tocado pelo Eddie, no caso, mas que ganha sentido na interpretação e apego do público”, comenta.

A banda se completa com Alexandre Urêa (percussão e voz), Andret Oliveira (teclado e trompete), Kiko Meira (bateria) e Rob Meira (contrabaixo). O disco reafirma seu “original Olinda style” – título do segundo álbum, de 2002 – como uma das vozes mais originais surgidas em meio ao manguebeat, o mais recente movimento musical relevante do Brasil – e lá se vão mais de 20 anos –, centrado em Pernambuco, nordeste do país.

Em Morte e vida reaparecem os elementos que caracterizam a banda, presentes desde a estreia, Sonic mambo (1998), o que confere à Eddie já quase 20 anos de carreira, se tomarmos apenas o disco inaugural como marco. Estão lá a denúncia social e a festa, mais o amor – tema constante no novo disco – e o diálogo com a literatura – neste caso, mais explicitamente desde o título, que evoca o clássico Morte e vida Severina, de João Cabral de Melo Neto.

O álbum não é, no entanto, inspirado na obra do poeta pernambucano. “Na verdade isso foi uma coincidência. Apesar de saber do peso do nome, o Morte e vida do álbum veio de um trabalho de mesmo nome dos artistas plásticos Mozart Fernandes e do colombiano Alberto Lizarazo, embora o conceito do Morte e vida Severina se repita aqui no álbum, estes ciclos de morte e vida na existência. O Cabral é uma escola minha”, explica Fábio Trummer.

A propósito, indaguei-lhe sobre a falta de interesse do poeta por música. “O Cabral tinha tanta música nos seus versos que deve ter gasto os ouvidos do homem. Faria coleções de álbuns com os poemas dele”, elogia Trummer.

A faixa-título dialoga diretamente com Buraco de bala, do disco de estreia. “A prova do crime é o corpo/ a prova de Deus/ ao provar a bala, morto/ a prova morreu”, diz a letra de Morte e vida.

Ano passado, o vocalista havia revelado a influência do escritor uruguaio Eduardo Galeano, recém-falecido, e seu As veias abertas da América Latina, em seu projeto solo Super Sub América, em que se aliou com Dieguito Reis (bateria) e Luca Bori (contrabaixo), ambos conterrâneos do Vivendo do Ócio.

Presenças constantes em discos da Eddie, Karina Buhr e Erasto Vasconcelos – irmão de Naná – comparecem: ela canta em Longe de chegar, Pedrada certeira e na faixa-título; ele canta e toca percussão em Alimenta o compositor e toca percussão e assina (em parceria com Trummer, Kiko e Rob Meira) Olho você – inspirado rock que fecha o disco, a poesia da recusa da mulher amada: “lá nos sonhos os sóis são azuis, como um mar, como um céu, como um blues”.

“Ah, eu nunca mais vou esquecer/ aquele beijo foi sensacional/ quando é bom o tempo passa/ mais depressa que a percepção”. Carnaval de bolso, marcha frevada e surfada, exprime a síntese “eddieana”: “um ano inteiro de ressaca/ é hora do juízo final”. É música/álbum para dançar (também), mas pode ser ouvida(o) o ano inteiro.

Henrique Menezes em um passeio pelos terreiros do Brasil

[Vias de Fato nº. 58, de abril/2015]

Lançando seu primeiro disco solo, Passaporte, músico conversou com o Vias de Fato, por ocasião de sua mais recente passagem pela Ilha

Foto: ZR (2/2/2015)
Foto: ZR (2/2/2015)

 

Henrique Menezes veio à São Luís no começo do ano, para participar das festividades de Oxóssi e Iemanjá na Casa Fanti-Ashanti, da qual é primeiro Ogã Alabê Huntó – “maestro da percussão, chefe de batucada, diretor musical da casa”, como ele mesmo explicou. Trazia na bagagem seu primeiro disco solo, assinado com a Banda Bom Q Dói, intitulado Passaporte [independente, 2015, R$ 20,00 na Livraria Poeme-se, Banca do Dácio e Quitanda Rede Mandioca].

É uma das três visitas anuais que faz à terra natal. “Quando eu venho ao Maranhão, eu venho mais para meus compromissos religiosos que profissionais”, diz ele, que aproveita para visitar a família e os amigos. As outras visitas acontecem num canjerê em setembro e no período das festividades de São Pedro (29 de junho), quando costuma ver o encontro dos bois na Igreja do padroeiro dos pescadores, na Madre Deus, e “não perder esse vínculo, recarregar minha bateria, minha essência, tocar um tambor na Madre Deus, aqui no [Tambor de Crioula de Mestre] Amaral, no boi de Maracanã, Santa Fé. Eu venho recarregar minha bateria para poder trabalhar em São Paulo”.

Em meio à alegria de rever parentes e amigos, foi surpreendido pela tristeza da notícia do falecimento de mestre Humberto de Maracanã (2 de novembro de 1939-19 de janeiro de 2015), líder do bumba meu boi e da comunidade que lhe emprestaram o sobrenome artístico, seu colega de Ponto BR, coletivo musical que reúne diversos mestres de cultura popular de Pernambuco e Maranhão.

No dia de Iemanjá, 2 de fevereiro, uma das festas de que ele participaria no terreiro liderado por Pai Euclides – de quem é sobrinho –, ele conversou com a reportagem na Quitanda Rede Mandioca.

Na conversa, ele relembra capítulos importantes de sua vida entre o Maranhão e São Paulo, passando pelos carimbos do Passaporte que dá título a seu disco, sua trajetória musical, o emprego inicial em uma fábrica de brinquedos, sua atuação como arte-educador e sua primeira escola musical, a Casa Fanti-Ashanti, cujas citações são recorrentes ao longo da entrevista.

Passaporte é teu primeiro disco solo? Primeiro disco solo. Outros que eu gravei foram registros do Cacuriá Pé no Terreiro, que eu sou o diretor, nós gravamos há 11 anos, uma perspectiva de grupo, que trabalha a dança, a música e a arte-educação, tudo junto, nesse contexto. Este é um trabalho mais musical, inspirado nos lugares onde fomos passando, os carimbos, cada um conta um pouco de cada lugar, a Casa Fanti-Ashanti, minha primeira escola de música, ouvindo os tambores todos os dias, desde a barriga de mamãe, no ferro [instrumento do tambor de mina], tocando sempre, e dos lugares em que eu fui passando, Rio de Janeiro, Recife, Maracatu Estrela Brilhante, em 2005 eles ganharam o carnaval com uma música que eu fiz para eles, deram uma medalha de honra ao mérito para mim, fizeram homenagem, sempre falam. Essa inspiração de fazer uma música para o Estrela Brilhante, eu fiz uma referência uma ciranda. Tinha um maracatu [no disco]. Esse projeto tinha muitas músicas, nasceu de um projeto, Noites do Maranhão, que eu tenho em São Paulo, todo mês tem uma noite do Maranhão num bairro diferente, já fizemos em praças, Sescs, várias casas de shows. Tinha esse projeto, a gente cantava diversas músicas minhas, de outros amigos maranhenses, de outros lugares também, mas 90% do repertório as músicas eram minhas e aí também tinha um maracatu. Como eles falaram que vão gravar nesse disco agora, eu falei “não vou queimar o cartucho deles”. Eu gravo em outro disco, a ideia é que esse seja só o primeiro [risos].

Já são quantos anos de carreira? Quanto você confere? Qual o marco inicial? Quando é que você percebe que vai trilhar os caminhos da música? Aqui no Maranhão eu já era envolvido com a música, participava de vários grupos, GDAM [Grupo de Dança Afro Malungos, sediado no Parque do Bom Menino], Abibimã, foram grupos afros aí, não fui fundador do CCN [Centro de Cultura Negra do Maranhão, sediado no Barés, João Paulo], mas fui um dos integrantes da época antiga do CCN, Akomabu, Silvia Black, Escrete [compositor], há muitos anos, antes de ir para São Paulo. Agora eu estou com 23 anos de São Paulo. Lá eu comecei a buscar uma coisa mais minha, desenvolver mais meu trabalho como compositor. Antes eu não cantava tanto, eu mais compunha. Cantava no Cupuaçu [grupo de bumba meu boi liderado pelo compositor Tião Carvalho, no Morro do Querosene, em São Paulo; ele participa de Passaporte na faixa Brasa em candeeiro/ Touro da beira do mar], aí eu resolvi botar a carreira como cantor também. Eu era mais compositor que intérprete. Aí resolvi fazer o primeiro show, inventei, um show diferenciado lá em São Paulo, misturava o reggae, o samba, ritmos do Maranhão. Surgiu a primeira banda, Os Caxienses, em homenagem a meu avô, que era chamado seu Caxias, ele veio de lá. Ele colocava quadrilha, a Quadrilha do Oeste, o Rei do Oriente. Em homenagem a ele eu dei esse nome. A gente trabalhava com os ritmos, principalmente o forró.

Isso já era São Paulo. Mais ou menos em que ano? Já era São Paulo. Os Caxienses, entre 1992 e 96.

Você participou de discos de outros artistas, como músico? Sim. Toquei com Rosa Reis [cantora], Tião [Carvalho], Josias [Sobrinho, compositor], nunca gravei, mas toquei com ele, sempre que ele vai à São Paulo, é difícil levar banda inteira, às vezes tocamos eu, Manoel Pacífico [percussionista maranhense radicado em São Paulo]. César Nascimento [cantor e compositor piauiense, radicado no Rio de Janeiro após longa temporada no Maranhão], que não é maranhense, mas é quase, sempre que vai à São Paulo eu faço parte da banda dele. Aí veio a ideia de começar a cantar, cantar minhas músicas mesmo. Eu montei um time, chamei os amigos, Cacau [Amaral, percussionista maranhense radicado no Rio de Janeiro], na época morava em São Paulo.

Você está naquele disco da banda Mafuá, de Tião? Eu gravei, gravei como percussão lá, Estrela miúda, de João do Vale [parceria com Luiz Vieira. Cantarola:] “Estrela miúda, que alumeia o mar”. Fiz os pandeirões junto com Cacau, Nazaré [José de Nazaré, percussionista maranhense].

Participou também do disco da Maria Preá [banda que tem a catarinense Laetícia Madsen como vocalista – ela participa de Passaporte na faixa Coreira de tambor]? É, gravei. [Cantarola:] “lá na mata sabiá cantou”, acho que Papete gravou essa música [no disco Berimbau e percussão], o Ponto do caboclo sete flechas e em outra faixa [Tambor de mina, de domínio público].

Quando você nasceu sua mãe já tinha envolvimento com a Casa Fanti-Ashanti? Desde criança. Tio Euclides fundou a casa acho que em 1950. Desde antes disso, ainda no Gapara, minha vó era uma curandeira, uma dona de terreiro também, dançava também. Tio Euclides foi criado pela minha vó, é neto de dona Romana, é filho de meu avô biológico, seu Caxias. Todos os filhos que eram do meu avô, mesmo não sendo da minha vó biológica, ela os considerava como filhos e eram aceitos na família como parentes. Esse envolvimento dele e mamãe, se criaram juntos, desde pequenos, sempre teve essa cantoria, meu avô tocava violão, meu tio Reinaldo, toca até hoje, mora na Cidade Operária. Quando foram para o Cruzeiro do Anil, Dindinha, que é minha tia, Zezé [Menezes], minha mãe, Graça [Reis], minha tia, foram com ele. Quando surgiu a Casa Fanti-Ashanti no Cruzeiro do Anil elas já faziam parte com ele desde a época do Gapara, o Terreiro do Egito. Ela sempre esteve dentro do terreiro, sempre tiveram contato com essa religiosidade, desde pequenos. E eu já me entendi na Casa Fanti-Ashanti, eu nasci dia 25 de junho [de 1971], minha mãe estava dançando um tambor de crioula quando a bolsa estourou.

Então você já nasceu no meio da roda? [Risos] Já nasci no meio da roda do tambor. A casa já tinha uns 20 e poucos anos, em uma festa de tambor, ela segurou, segurou, a bolsa estourou, depois, “leva, leva pra maternidade”. Eu fui criado dentro da Casa Fanti-Ashanti e no Bairro de Fátima, vivia entre esses dois universos, essas festas que meu avô promovia, quadrilha, festa de Reis, ladainha de Nossa Senhora Santana, ladainha de Santo Antonio. A música sempre esteve muito presente aqui pro lado do Bairro de Fátima, e no Cruzeiro do Anil a percussão, a música, com as doutrinas, os toques. Foram minhas primeiras formações. Quando eu me entendi, com cinco anos de idade, eu fiz minha primeira toada. Minha primeira toada de boi, eu era cantador do boi da casa, mas eu nem imaginava.

Que é aquele Boi de Encantado? É. Tem até num livro de Ferreti [Mundicarmo Ferreti, membro da Comissão Maranhense de Folclore], num dos livros, uma foto minha, pequenininho, com um buchinho, um buchinho de menininho maranhense comedor de farinha, eu com um maracá na mão. [Cantarola a toada:] “o meu nome é Henrique/ eu gosto de cantar boiada/ São João me prometeu/ o meu touro eu almoçar/ ê boi, ê boi, ê boi/ esse ano tu em primeiro lugar”. Foi a primeira toada, ele ouviu e disse: “é, canta essa toada aí no boi”, seu Corre Beira, entidade de tio Euclides, sempre foi o compositor das toadas do Boi de Encantado. Tem uma música de mamãe, Santo Antonio, São João, até A Barca [grupo musical de vigoroso trabalho de pesquisa e mapeamento musical no Brasil, com diversos discos produzidos e gravados] gravou, o Ponto BR também. [Cantarola:] “Santo Antonio me avisou/ São João vai chegar”. Na verdade, essa música da minha mãe foi antes dessa minha, ela compôs quando ela tinha uns 16, quando eu nasci já cantavam. Depois eu me desinteressei do boi, fui ficando mais velho, comecei a participar de outras brincadeiras, não queria mais boi de criança, queria os bois com os adultos, comecei a brincar no Boi de Pindaré, a sede era no Bairro de Fátima, na casa de seu Neuton, ali perto do ponto de ônibus, tocava pandeirão, comecei a me encantar com essa história do boi, de tocar pandeiro, tocar percussão. Aí quando vi Nivô tocar tambor a primeira vez, falei “nossa, o que é isso?” Saí de casa cedo pra ver tambor na rua Dagmar [Desterro], na praça do Mercado. Nivô era um negão, estivador, vozeirão. Aí que eu fui entender, na Casa Fanti-Ashanti tinha, mas eu nunca liguei, não pensava em tambor de crioula como música, pensei “nossa, isso aqui é o caminho”. Me encontrei, já peguei o meião, o crivador, com o tempo fui para o tambor grande. Quando eu já sabia tocar, fui para uma festa, entrei para tocar, ele ficou olhando, não reclamou de nada, aí pensei “eu tou apto para continuar”, fiquei fazendo parte do grupo da casa, depois Tambor de Taboca, é exatamente a mesma marcação, as mesmas frases do tambor de couro, só que tocado na taboca.

Foto: ZR (2/2/2015)
Foto: ZR (2/2/2015)

 

O que te levou para São Paulo? A curiosidade de conhecer a cidade, na verdade. Eu ia para São Paulo dois meses garantidos, final de novembro, dezembro e janeiro, e voltava para o carnaval. Eu iria para trabalhar numa fábrica de brinquedos. Minha tia Graça já morava em São Paulo uns oito anos antes de mim. Tinha um amigo dela que tinha uma fábrica de brinquedos e eles entregavam a cidade toda. Aí me arrumaram um trabalho daqueles temporários, final de ano, eu ia trabalhar de caminhão, fazer as entregas, conhecer a cidade, que era o que eu mais queria, só conhecia por fotos, levantava um dinheirinho e voltava para o carnaval. Só que quando chegou lá mudou toda a história. Eu cheguei, nem fui mais trabalhar com o caminhão, encontrei aquelas máquinas todas, me encantei, aquele barulho de máquina, aquele universo cibernético de cidade grande, “nossa, que coisa linda!”. Um dia eu me cheguei, o dono da fábrica estava viajando, montei um painel de ferramentas, ficavam todas jogadas, eu organizei na parede, o encarregado veio, [simula um diálogo] “quem fez isso?” O pessoal, “ah, foi o menino do Maranhão”, “chama ele aqui”, “foi você que fez isso aqui? Quem mandou?”, “ninguém mandou, eu tava aqui de bobeira”, vi as coisas lá, furei um madeirite na parede, pendurei martelo, chave de boca, tinha chave que eu nem conhecia. Ele: “rapaz, quer trabalhar comigo?”, “quero!”, adorei, ele viu meu esforço, me indicou fazer um curso, faziam capacitação para quem queria trabalhar nessa área, técnico, plástico, trabalhei três anos nessa fábrica, aí aconteceu um acidente, quase perdi minha mão [exibe as cicatrizes nos dedos], mexia na parte mecânica, eu me desgostei, perdi o encanto. Eu gostava, fazia brinquedos, sempre tive essa coisa com criança, trabalhava como monitor em Centro Comunitário. Aquele brinquedo chegaria na mão de alguma criança, em algum lugar, uma criança que não tinha muita grana, não eram brinquedos caros, botão, boliche, bola. Pra mim era uma satisfação saber que uma criança ia pegar aquele brinquedo. Depois que aconteceu isso eu me desencantei, pedi as contas, não queriam dar, arrumei confusão, até que uma gerente me mandou embora. “O que eu vou fazer da vida agora?” Eu já conhecia Tião, o Morro do Querosene, e conheci a Conceição Acioli, uma teatróloga pernambucana, diretora de teatro. Xavier Negreiros [percussionista e compositor maranhense] tocava com ela num espetáculo, aí ele teve um problema, veio embora para São Luís. E ela, “poxa, estou precisando de um percussionista para tocar”.

Você lembra qual era o espetáculo? Um espetáculo chamado Tomara que não chova, dela mesmo. Aí eu fiz parte da companhia dela, que na verdade, eram ela e Xavier, e eu o substituí. Nós ficamos com o espetáculo em turnê, e ela, “não vai mais trabalhar com nada não”, por que eu fazia vários bicos, você sabe que maranhense que se preza não gosta de ficar parado mesmo. Aí ela, “você tem que ser músico, tem que ser artista”, me deu a maior força, me apresentou para várias pessoas. Entre as pessoas a quem ela me apresentou estão o Zé Celso [Martinez Correa, dramaturgo], do Teatro Oficina, Auri Porto, ele também tinha um espetáculo paralelo ao Oficina, ele saiu há pouco, está com a própria companhia dele. Aí ele me chamou para fazer parte de um espetáculo chamado Bacantes.

Como músico? Como músico. Na verdade, eu mostrei a história do universo do tambor de crioula e eles viram aquilo no espetáculo, tinha uma cena em que tinha o tambor de crioula, o povo dançando. Disso o Zé me chamou para fazer parte do elenco, fiz alguns personagens, um sertanejo, contracenei com alguns atores, fazendo embolador, mas eu nunca quis ser ator, nunca tive essa coisa, esse domínio, interpretar, meu negócio era tocar. Eu fiquei mais ou menos um ano e meio no Oficina.

Isso já era que ano? Isso por volta de 1998, 99, mais ou menos. O da Conceição foi antes, 97, um ano antes, mais ou menos. Depois disso eu fiquei sendo músico oficial do grupo dela e começamos a montar vários espetáculos. Chamei a Graça, minha tia, que mora lá, nós fundamos a Companhia das Mães. Era um projeto dos músicos e cinco mães de alunos de escola pública, que fizeram parte como atrizes. Ela fez toda a capacitação dessas mães, que eram pessoas de comunidades bem carentes, nunca tinham acesso a essa coisa da arte. Com esse espetáculo nós ficamos quase uns 10 anos, até que a Conceição teve um ataque cardíaco e partiu [a atriz faleceu em 2005]. Paralelo a isso, tínhamos a Companhia Lampião no Céu, que encenava o espetáculo Lampião no Céu, com o Auri Porto. Esse espetáculo, nós éramos parceiros do Teatro Oficina, ensaiávamos lá e fazíamos o espetáculo em comunidades, era o projeto Arte na Rua, um projeto da Prefeitura, a gente fazia o espetáculo nas escolas, creches, centros educacionais. Isso me levou um tanto para essa parte de arte-educador. Hoje em dia em São Paulo eu trabalho muito dando aula, música, percussão. Uma das ongs é a Associação Pela Família, tem 56 anos de existência, é uma das mais antigas do Brasil. E voltando ao assunto do Lampião no Céu, o Teatro Oficina, quando eles montaram O Sertão, o Zé me chamou novamente, precisava fazer a história dum boi, dentro da história do Euclides [da Cunha, escritor], de Os Sertões [livro que inspirou o espetáculo de José Celso Martinez Correa], a primeira montagem, que foi A Terra [uma das partes do livro], tinha uma história que falava do bumba meu boi, e a história de Canudos também. São cinco partes, A Terra, O Homem I e O Homem II, A Luta I e A Luta II, são cinco espetáculos que ele extraiu do livro. Na íntegra, quando foi a primeira montagem, acho que eram quatro horas e meia, A Terra, O Homem I, três horas e meia, o espetáculo precisava de cinco dias para ser montado. Eu não sei nem como aquilo cabia na cabeça do Zé, de tanta informação, de tanto texto, de cada pessoa, de cada personagem. Mas enfim, o Zé é um homem muito sábio, muito organizado.

Voltando à música, você também participou dos dois discos do Grupo Cupuaçu. Eu sempre fiz parte, um grupo dedicado aos ritmos maranhenses. Eu estou nos dois, nesse último agora [Todo canto dança, de 2008] não só como músico, mas como compositor e como intérprete. Tem sete músicas minhas gravadas naquele cd, algumas eu interpreto, outras a Ana [Maria Carvalho, irmã de Tião Carvalho, cantora], tia Graça canta uma também. No outro, o primeiro, Toadas de bumba meu boi [1999], eu participei como cantor e como ritmista, percussionista. Em seguida vieram outros projetos, foi quando A Barca apareceu e nós fizemos a história dA Barca com o Baião de Princesas, da Casa Fanti-Ashanti. Entre essas brechas eu montei o segundo trabalho meu, que chamava Comigo Ninguém Pode, o nome da banda. Foi um laboratório, um pouco do que surgiu hoje no disco. Muitas das músicas que eu cantava com a Comigo Ninguém Pode, algumas delas eu coloquei aqui, tem algumas novas que eu fiz especificamente para o Passaporte, mas algumas eu já cantava com essa outra banda.

A Comigo Ninguém Pode chegou a gravar disco? Só o demo. Não fizemos lançamento, nem gravamos oficialmente. Tinha cinco músicas, a gente distribuía para fechar shows, chegamos a tocar para Prefeitura, Sesc, lá em São Paulo. Quando a gente separou, Cacau foi embora para o Rio de Janeiro, Ataliba foi embora para Bragança, Renatinho voltou para morar com a mãe em Santos, ficamos só eu e Téo [Menezes], meu primo, baterista, percussionista, já me acompanha há algum tempo. Aí resolvemos montar a Bom Q Dói. Aí veio o Ricardo [Perito], que toca violão e cavaco, o Cesinha [César Azevedo], toca percussão, Téo, eu, Maurício, o Mau, que é um baixista, por último o Gerson da Conceição [multi-instrumentista], para engrossar mais o caldo, toca guitarra, violão, às vezes faz o contrabaixo, por que o Mau também toca violão e contrabaixo, então eles invertem, um faz baixo, o outro, violão. Já faz quatro anos que a gente faz as Noites do Maranhão, só que a gente não faz mais muito em casas noturnas, a gente tem tocado menos, mas feito shows com mais qualidade de palco, estrutura, som. Aí veio a ideia de registrar esse cd. Tem o Bruno Buarque [baterista], que é o dono do estúdio, toca com a Céu [cantora], eu mostrei o repertório para ele, tinha feito uma pré-produção em casa, no meu computadorzinho mesmo, e ele “bicho, vamos gravar isso”. Fizemos uma parceria. Eu não tinha dinheiro, tentei editais, não consegui, juntamos alguns cachês da banda, um tanto de dinheiro meu que eu investi, aí encaramos fazer.

O financiamento do disco é todo do bolso? É, todo do bolso. E a parceria de amigos. É uma produção dependente, como eu digo: depende de um, depende de outro. É dependente [risos].

Sua fonte de renda hoje é música? Graças a Deus. Dando aula e tocando, ministrando oficinas. Eu trabalho não só com a música show, espetáculo, mas a música como aprendizado. Eu dou aula em três locais, em comunidades, lá no Francisco Morato, no Centro de Convivência Gracinha, são crianças de vulnerabilidade, baixa renda, que vivem em área de risco, da Favela Jaqueline, Taboão da Serra, são atendidas essas crianças.

Você mora onde, em São Paulo? Eu moro no Butantã, do ladinho do morro. Eu morava dentro do morro, mas foi ficando muito caro, aí eu consegui comprar um apartamentinho há três quadras do morro, na Praça Elis Regina, eu vou até começar uma história lá, a Festa de Terreiro. O terreiro eu vejo como tudo, o terreiro do quintal, o terreiro de mina, o terreiro onde as pessoas se encontram para brincar o boi, o terreiro onde se toca o tambor de crioula. Então, na verdade, a ideia é que tenha várias coisas, vamos fazer parcerias, criar um movimento cultural lá nessa praça.

E os selos nesse PassaporteCada selo desses representa uma música. A do Morro do Querosene representa a praça onde acontece a festa. A alfaia, de Pernambuco, representa o Maracatu Estrela Brilhante; é o grupo que canta minhas músicas, sempre exalta meu nome, eu faço parceria com eles, vou para lá, sou sempre muito bem recebido. Na Pavuna, onde tem os gêmeos, Rômulo e Ramon, tem o grupo Mariocas, também cantam músicas minhas, a gente tem essa parceria, eles vêm para São Paulo, eu vou para o Rio de Janeiro. A Lapa, foi o primeiro lugar em que eu me encontrei no Rio de Janeiro, foi onde eu encontrei minha filha quando ela tinha 13 anos de idade, eu descobri que tinha essa filha. O Cruzeiro do Anil é exatamente o símbolo da Casa Fanti-Ashanti, onde foi minha escola de música. A Madre Deus, um dos bois, boi de matraca, antes de ir para o Maracanã, tocar no Boi de Maracanã, tem uma história muito presente. Foi um bairro em que eu fiz muitos amigos, músicos, nem dá para citar nomes, que moram na Madre Deus, ou que já moraram. São Gonçalo, na verdade, vem de uma homenagem ao santo, tem no Rio de Janeiro, onde descobri o violão como instrumento, e aproveitando o São Gonçalo, tinha um baile de São Gonçalo lá em casa, depois que meu avô morreu acabou essa manifestação lá em casa. O baile de São Gonçalo foi o primeiro lugar onde eu comecei a tocar meu violão assim, descobrindo-o como instrumento. O Ribamar vem de uma música que eu comecei a fazer em [São José de] Ribamar, uma homenagem a Maria Grande, uma coreira da Casa Fanti-Ashanti, muito antiga, já faleceu também. Cada carimbo… a Vila Madalena foi onde a banda teve a primeira vitrine, assim em quantidade de público, um bairro boêmio onde a gente circulou, e ainda toca. Os selos têm esses significados.

A gente ouvindo o disco, percebe, no repertório, que essa tua passagem por diversos locais do Brasil não deixa de estar sempre impregnada de uma coisa de Maranhão. Você faz ciranda com um pé na mina, um coco com o pé no tambor de crioula, sempre misturando. Batuque de umbigada junto com o candomblé que sai da Casa Fanti-Ashanti. Na verdade esse passeio é para mostrar que o meu passaporte é maranhense. Por que me veio a ideia do passaporte? O passaporte é um documento, de autenticidade, você mostra de onde você veio, por onde passou, e te dá a liberdade de entrar. O que a gente quer? O que eu quero, que essa minha música, nossa, com a banda, mesmo que eu faça com outra banda, um artista nunca está sozinho, há sempre pessoas em volta. Com nosso passaporte a gente quer entrar. Onde? A gente quer entrar nas praças, nas rádios, nas televisões, nas casas das pessoas, na memória das pessoas. A ideia é de ser nosso documento de identidade artística. De onde vem? A identidade minha vem do Maranhão. Como eu sou a liderança do grupo, eu sou o produtor praticamente de tudo, sou eu que agencio, ainda não tem uma produção que diga “olha, você faz só o show e a gente corre atrás do resto”. Eu acho importante, o artista tem que passear por todos estes universos, saber como se conversa, com quem, buscar os apoios, por que ele fala da verdade dele. A gente não tem dinheiro, está buscando esse apoio, não tem assessoria de imprensa, queremos o apoio de parceiros, de amigos, que façam parte desse Passaporte, que faça parte dessa história, daqui pra frente. A ideia é essa. Do povo que está na banda, os que não são maranhenses, têm uma loucura pelo Maranhão. Quando eu mostrei essa ideia, todos eles abraçaram a causa. O Mau veio pra cá fazer show comigo, no período junino, enlouqueceu. É paulistano, mas tem uma loucura pelo Maranhão.

Você nunca foi atingido por aquele desespero, “vou voltar, que aqui não dá mais”? Já teve esse momento. Quando a Conceição faleceu foi um momento, a Companhia, nós prestamos serviço 10 anos pela Natura. Trabalhávamos de 15 em 15 dias pela Natura. Dois espetáculos pela manhã, dois espetáculos à tarde. Dali a 15 dias íamos para outra cidade, aquilo era uma estabilidade financeira, já garantia, eu dava poucas aulas, duas pela manhã, uma à tarde, uma vez por semana. Depois surgiu um grupo de dança, entrou a história do boi. Em São Paulo, quando tem alguma coisa de boi, tambor de crioula, as manifestações artísticas, ou chamam Tião ou chamam eu. Quando eles começaram esse projeto do Maranhão me chamaram para uma capacitação com as crianças, mas não era um emprego fixo. Em 2003 ou 2004 me efetivaram como funcionário para dar aulas a todas as turmas da instituição, atendendo crianças de oito a 16 anos. Aos 17 eles são encaminhados para outra instituição. O Gracinha trabalha com o horário inverso ao da escola, quem estuda de manhã participa de tarde e vice-versa. A música demorou a ser inserida, mas hoje em dia é o que tem o maior percentual de atividades na casa. A percussão hoje em dia faz parte da grade curricular.

Esses alunos que fazem música, qual o perfil? São crianças da periferia, crianças de baixa renda. A instituição, a Associação Pela Família, só trabalha com crianças que vivem em área de vulnerabilidade. A maior parte com envolvimento com drogas, crianças que foram abandonadas em abrigos. São atendidas por volta de 190 crianças, todo um trabalho pedagógico, a diretora tem uma cabeça muito aberta e os resultados estão para além do artístico, de comportamento, uns vão para outras áreas, mas muitos viram educadores.

À distância em São Paulo, como você faz para manter o vínculo com a Casa Fanti-Ashanti? Eu acendo minhas velinhas, minhas coisas, e por isso eu venho para cá, recarregar minha bateria, não só na música, mas principalmente minha bateria espiritual, vir ao terreiro, tocar para os orixás, cantar, fazer parte dos rituais. Essa é a principal energia que eu venho buscar. É como se fosse meu carregador de energia vital. Essa é minha busca. Se ficar muito tempo fora, você fica carente, mais fraco, voltando você vai recarregando esse ciclo. Meu sonho de consumo é equilibrar, seis meses aqui e seis meses lá, não direto, um aqui, dois lá, dois aqui, um lá. Se isso for possível através da música, vai ser minha realização como artista. Nunca sonhei em ser o mega-famoso de não poder parar nos botecos e tomar uma cerveja. É legal, bom ser reconhecido, mas não quero não ter a liberdade. Quero ser reconhecido, mas não precisa ser tanto [risos]. Quero continuar tendo a liberdade de brincar, tambor de crioula, bloco tradicional, ir para a Madre Deus, essa é a vantagem de não ser tão famoso. Eu quero estar no meio do povo, nasci do povo, sou povo, gosto de estar nessa folia. Você olha no olho das pessoas, se emociona ao ouvir uma toada.

O que significou para você integrar o Ponto BR e em especial ter dividido disco e palcos com tua mãe e com o saudoso Mestre Humberto de Maracanã? O Ponto BR foi um presente. A Renata [Amaral, contrabaixista e produtora] é uma pessoa muito talentosa, muito especial, muito sensível. Uma mulher de um olhar muito para o futuro, batalhadora, guerreira. Quando ela me chamou para a primeira montagem, foi por que exatamente ela sentia essa ligação entre o Maranhão e Pernambuco. A minha maior felicidade de estar dividindo, dividindo não, somando, com a minha mãe, primeiro ter a minha mãe como uma das grandes artistas do Maranhão, compositora, uma intérprete maravilhosa, canta lindamente bem, não é por que é minha mãe, mas eu me emociono ao ouvi-la cantar. Então, estar no palco, um momento que eu amo na minha vida, poder estar partilhando com ela, é uma satisfação impagável. Não dá para explicar. Eu sou tão fã, só ela estar junto já é um prazer, ela ser minha mãe, é um orgulho. Mestre Humberto, a oportunidade de poder trabalhar e tocar com ele, foi um dos meus mestres, eu tenho alguns que digo e assumo, Pai Euclides, Humberto, Dindinha, meu avô, minha vó, Nivô, Mestre Felipe. Eu sempre sonhei em ser mestre de tradição, nunca sonhei em ser músico. Essas pessoas sempre agregam pessoas, são sábias, são queridas, são pessoas especiais, é um dom. Sempre fui apaixonado por Humberto, cantando, compondo as músicas dele, eu canto até hoje, faço releituras. Tê-lo no palco, não só no palco, mas conviver, geralmente a gente dividia o quarto, a gente tinha um convívio, era como um pai para mim. Eu nunca tive muito contato com meu pai biológico, nós nos afastamos quando eu tinha oito, 10 anos de idade. Ter o prazer de estar junto de Humberto, ouvir as coisas que ele contava, as brincadeiras, a sabedoria, o jeito de falar da comunidade, do boi, dessa devoção, esse compromisso, abdicar de várias coisas para vivenciar isso, para ser o Mestre Humberto, aquilo era [uma recompensa] maior que meu cachê, maior que a repercussão que o Ponto BR trouxe para mim, poder viver com ele junto, mais próximos, saíamos, almoçávamos, ele contando das dificuldades, das realizações, dos sonhos, de uma instituição como o Maracanã, não só o boi, mas a comunidade, era um homem querido por toda a comunidade do Maracanã. Mesmo os evangélicos tinham um respeito por ele, pela sabedoria. Pai de muitos filhos, criador de muitas histórias. No começo, eu ficava, “nossa, eu não estou acreditando”, eu não acreditava, até me arrepio [mostra o braço arrepiado]. Saudade, né? Hoje em dia é saudade. Felizmente ou infelizmente eu estava aqui nessa passagem dele. Não tive tempo de mostrar o disco, mostrei algumas músicas, antes, tem um agradecimento para ele, por tudo. Sempre me ensinou, sempre foi um exemplo. Essa pessoa que ele é, e vai ser para sempre, é algo que eu vou sempre entender como a maior paga da minha vida, sempre me ajudando a crescer, eu vou na carona, [esses mestres] são pessoas iluminadas. No enterro dele eu fiz uma toada, mas nem consegui cantar. Mostrei para Ribinha [filho de Humberto].

Passaporte. Capa. Reprodução
Passaporte. Capa. Reprodução

FAIXA A FAIXA

Músico comenta as faixas de Passaporte, todas de sua autoria

Minha vaqueirada – Toada de bumba meu boi da Baixada, com arranjo um pouco mais moderno, tem saxofone, guitarra, violão. Uma leitura mais sofisticada, onde eu quis fazer uma homenagem a todos os bois da baixada, Santa Fé, Pindaré, Penalva, seu Apolônio. Representa o guarnicê, juntar para começar o show. É a toada que abre a nossa história.

Sensações – É um bloco tradicional, eu fiz inspirado no ritmo do bloco tradicional. Fala um pouco dessa história do carnaval maranhense. Retrata as sensações que eu sinto quando entro no mar. A lua é minha madrinha, o mar é meu padrinho. Desde criança eu fui dado como afilhado deles. As sensações que eu sinto quando entro no mar, liberdade. É um ritmo maravilhoso, pouco conhecido no Brasil, pela beleza, o próprio suingue da música, balançado dos contratempos, ritinta, agogô, cabaça, passeia um pouco por lembrar o carnaval maranhense e exaltar esse ritmo pouco explorado pela música dos compositores maranhenses.

Coreira de tambor – Foi a música que eu fiz para dona Maria Grande, exalta a beleza que o tambor de crioula tem, é um dos ritmos mais complexos do mundo. Onde eu passo fazendo oficina, até para músicos supercultos, se perdem nesse universo, de música diferente, que precisa ser mostrado. Essa poesia é inspirada na coreira, essa relação entre a coreira e o tocador, o tocador e o povo, a música e essa junção de gente em volta e a beleza que é a roda de tambor de crioula.

Coco de Ainé – É um pouco Pernambuco e um pouco maranhense. É para mostrar que o coco não é só pernambucano, não é só alagoano, não é só maranhense: o coco é do Brasil. Eu faço uma mistura desses dois ritmos, juntando Pernambuco com o Maranhão, e a beleza da brincadeira do coco, dançar, quebrar o coco, muita gente nem sabe, e falo dos cocos que existem, coco pirinã, coco de anajá, coco de embolada, exaltar um pouco da história dos brincantes do Brasil, os trabalhadores que utilizavam o coco para se divertir enquanto trabalhavam, um pouco de alegria na lida do trabalho braçal.

Estrela de Davi – É uma coisa do coração, uma homenagem que fiz para minha esposa, Natália. A história da lua, quando ela está só aquele sorriso, e tem aquela estrela embaixo, a lua nova e a estrela de Davi. Ela é a lua e eu sou a estrela, é um reflexo de nós dois.

Rio 3×4 – Foi a música que eu fiz em homenagem a minha filha, quando a encontrei. Demorei muito para descobri-la, rodei muito, passei por muitos lugares, Pavuna, Recreio, Iguaçu.

Brisa de mulher – Foi inspirada no reggae. É algo que sempre foi muito presente para mim, aqui no Maranhão. Sentia uma brisa, o cheiro de uma moça, mas exaltando o reggae, o regueiro que ia curtir reggae, Retiro Natal, Pop Som, Espaço Aberto, Toque de Amor [clubes de reggae em São Luís], exaltar um pouco do que eu vivenciei em termos de reggae.

São Jorge na Lua – Veio um pouco de minha influência mais pop, mais paulistana, eu comecei a descobrir esse ritmo, rock, mais moderno. É algo para mostrar que eu não sou apenas manifestação tradicional, mas eu também passeio por outros universos musicais.

Na roseira – Vem exatamente da minha primeira matriz, a Casa Fanti-Ashanti. Essa música eu fiz em homenagem a um caboclo da Casa Fanti-Ashanti, o Caboclo da Mata Linheiro, eu fiz essa doutrina do tambor de mina e coloquei a citação de um trecho da doutrina dele. [Cantarola:] “fala caboclo, caboclo guerreiro/ fala caboclo da Mata Linheiro”.

Caminho de pescador – É uma homenagem a minha mãe e minha avó, minha mãe Zezé e minha vó Iemanjá. Esse carinho que minha mãe tem, essa vivência, esse amor por essa entidade. Inspirado nisso eu fiz essa música para exaltar minha vó Iemanjá.

Por trás da serra – É uma homenagem a mestre Humberto de Maracanã. É uma toada de boi da ilha, sou praticamente só eu, toco todas as percussões, violão, e chamei o meu amigo Fabio Leão, que faz o violoncelo. É lembrando o universo de melodias, eu me inspiro no jeito dele compor, as melodias, a poesia. [Cantarola:] “Passarinho cantando na estrada/ anuncia o alvorecer”, ele é o passarinho dessa música.

Brasa em candeeiro/ Touro da beira do marBrasa em candeeiro vem para matar minha saudade dos bois de zabumba, o boi de seu Constâncio era praticamente no fundo de nossa casa, no Bairro de Fátima. Era umas três ruas depois, mas era como se estivesse lá dentro de casa, todo tempo aquela [imita com a boca o som da percussão do boi de zabumba]. É uma homenagem ao boi de seu Constâncio, de zabumba, lá do Bairro de Fátima. É um pot-pourri com Touro da beira do mar, que até Tião Carvalho faz uma participação nela.

Dança de criança/ Lua flor de canela – Cirandas em homenagem a Pernambuco, homenagem às crianças. A ciranda é um momento de juntar as mãos, eu utilizo muito quando fecho minhas oficinas, é hora de dar as mãos, fazer a roda, eu lembro de a gente criança em volta de uma mangueira, meu avô cantando, a gente girando. Ela junta, dá as mãos, fecha o ciclo.

Arte como arma: Chico César peita os reis do agronegócio

Para vocês, que emitem montes de dióxido,
Para vocês, que têm um gênio neurastênico,
Pobre tem mais é que comer com agrotóxico,
Povo tem mais é que comer, se tem transgênico.
É o que acha, é o que disse um certo dia
Miss Motosserrainha do Desmatamento.
Já o que acho é que vocês é que deviam
Diariamente só comer seu “alimento”.
Vocês se elegem e legislam, feito cínicos,
Em causa própria ou de empresa coligada:
O frigo, a múlti de transgene e agentes químicos,
Que bancam cada deputado da bancada.
Té comunista cai no lobby antiecológico
Do ruralista cujo clã é um grande clube.
Inclui até quem é racista e homofóbico.
Vocês abafam mas tá tudo no YouTube.

Trecho de Reis do agronegócio, parceria de Chico César (música) e Carlos Rennó (letra). Uma porrada de arrepiar!  Vejam e ouçam a obra-prima completa: