Chorografia do Maranhão: Ignez Perdigão

[O Imparcial, 19 de janeiro de 2014]

Radicada no Rio de Janeiro desde a década de 1970, a multi-instrumentista maranhense Ignez Perdigão é a 24º. entrevistada da série Chorografia do Maranhão

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVÂNIO ALMEIDA SANTOS

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Ignez Eleonora Moraes Perdigão nasceu no Hospital Português, em 27 de maio de 1954. De lá foi direto para o Monte Castelo, onde morou até os 16 anos, quando se mudou para o Rio de Janeiro, onde vive até hoje. A casa de sua família – hoje uma loja de armas que ela não reconhece mais – ficava entre o antigo Cine Monte Castelo e a Igreja de Nossa Senhora da Conceição.

A multi-instrumentista nasceu em uma família de músicos, nem todos profissionais. Seu pai, o advogado Fernando Eugênio dos Reis Perdigão, teve formação musical que lhe permitiu um duo de violino e piano com Eder Santos, seu compadre, padrinho da menina Ignez. Sua mãe, Joina Cavalcante de Moraes Perdigão, gostava muito de cantar em casa, acompanhando a enorme coleção de discos que punham para tocar.

Do avô, Ignez herdou uma flauta de ébano – “está até hoje comigo”. O violino de seu Fernando foi herdado por Matias Correa, seu filho, contrabaixista, colega de Choro na Feira: “foi o primeiro instrumento do Matias”. A linhagem musical, iniciada com um bisavô violinista, continua: seus três filhos seguiram a profissão da mãe e, como ela, tocam vários instrumentos. Além de Matias, as cantoras Mariana Bernardes [cavaquinhista e violonista] e Alice Passos [flautista]. Ignez domina, além do cavaquinho pelo qual é mais conhecida, flauta, violão, piano e percussão.

Na cadência do samba. Capa. Reprodução

Aproveitando a passagem da musicista por sua São Luís natal, ocasião em que veio passar as festas de fim de ano com a família maranhense, a chororreportagem ouviu seu depoimento no Bar do Léo, em uma tarde de sábado cujos trabalhos foram iniciados com a audição de Na cadência do samba, disco de estreia do Choro na Feira, grupo integrado por ela – com o filho Matias, mais Clarice Magalhães [percussão], Marcelo Bernardes [saxofone, flauta e clarinete], Franklin da Flauta e Domingos Teixeira, o Bilinho [violões de seis e sete cordas].

À equipe da Chorografia do Maranhão juntou-se Leonildo Peixoto, proprietário do estabelecimento e DJ residente, que, entre idas e vindas no cuidado com os fregueses e o repertório, ouviu atentamente o trecho em que Ignez contou de sua convivência com Mário Lago [compositor, ator, dramaturgo e escritor], e lamentou um show perdido há 15 anos. Leia a seguir os melhores momentos das quase quatro horas de conversa.

Como era o universo musical na família? Meu pai ouvia muita música nos momentos de lazer dele em casa, que eram raros, praticamente fim de semana. Sabadão, domingo, ele botava o uisquinho dele, botava música, tinha uma boa quantidade de discos de 78 rotações, e 45 e, sobretudo, dava livre acesso a gente, a manusear estes discos. A gente tinha uma radiola. A infância mais remota, que eu lembro, eu era a irmã mais nova, minha irmã na escola, eu sozinha em casa, de criança, ouvindo música. Eram aqueles disquinhos da série Disquinho, do João de Barro [compositor], com arranjo do Radamés Gnattali [arranjador, compositor e instrumentista], e eu fascinada com aqueles arranjos, ouvindo aquilo. Às vezes de tanto tocar, o disco arranhava. Eu digo que a origem da minha composição com compassos alternados vem daí: o disco arranhava e eu não tirava, eu ficava assim: “pela estrada afora, eu vou/ pela estrada afora, eu vou/ pela estrada afora, eu vou” [cantarola simulando o arranhão do vinil, risos dos chororrepórteres]. E o barato era eu conseguir cantar junto, por que aquilo é uma conta complicada em termos de fração do tempo. Até minha mãe vir lá de dentro [imita um grito]: “Ignez Eleonora, tira esse negócio!”

Você tem essa lembrança a partir de que idade? Muito pequena. Eu fui pra escola já com cinco anos, à beira dos seis. É essa fase de quatro a cinco anos. Eu fui pra escola em 1960, com cinco anos, no mesmo ano eu fiz seis.

Que discos teu pai tinha? O que a gente ouvia lá. Meu pai tinha de tudo. A gente ouvia muito o Bolero de Ravel, tomando o uisquinho dele lá, ele regia junto, se empolgava. E eu também punha, sem ele mesmo, só para ouvir. Eu queria ouvir aquela coisa que fascinava meu pai e de certa forma passou a me fascinar também. Se ouvia muita música erudita e um pouco de jazz também, ele ouvia bastante.

Teus filhos são todos músicos? Eles vivem de música ou a música é um hobby? Não tem nenhuma ovelha negra na família [risos dos chororrepórteres e da entrevistada]. A gente sobrevive de música. Quem faz música instrumental, sobrevive de música, no caso, eu e o Matias. As minhas filhas são cantoras, basicamente. A Mariana toca cavaco, toca violão, desengoma um piano direitinho, mas ela é cantora, inegavelmente a força maior de expressão dela é o canto. A Alice [Passos] também. Alice toca flauta, toca na Orquestra Corações Futuristas do Egberto Gismonti [compositor e multi-instrumentista].

Os discos do Choro na Feira [grupo integrado pela entrevistada] são independentes. O primeiro [Na cadência do samba, 2000] foi feito sob encomenda. Fale um pouco desse processo. O rumo que meu grupo de choro tomou é o seguinte: a gente grava, a gente vende, o dinheiro que a gente apura com a nossa carreira discográfica é para alimentar nossa carreira discográfica. Ninguém bota dinheiro no bolso. É completamente independente, salvo o primeiro disco, esse que estava tocando aqui [Léo havia tocado o disco instantes antes do início da entrevista], ele foi feito sob encomenda para que fizesse parte do livro do Haroldo Costa, Na cadência do samba, que é mais ou menos um álbum fotográfico comentado, de músicas, de músicos, dos 100 anos do samba. Foi feito por décadas, um samba de cada década. Tudo foi decisão deles, os arranjos nossos, a produção nossa, eles pagaram estúdio, convidados, direitos autorais, é um disco caro, as cópias, nos deram mil cópias, e nós somos donos do disco.

Então ele está esgotado, mas vocês podem fazer novas edições. Podemos. Acontece que ele é muito caro, por conta dos direitos autorais. A gente vendeu esses mil discos e a partir daí fizemos o segundo [Choro na Feira, 2003], com o dinheiro do segundo fizemos o terceiro [Maxixes, pitombas e afins, 2005]. A partir do segundo ele tomou um rumo bastante autoral. Este último [Pedra riscada, 2010], as músicas são todas de compositores do grupo, tirando uma faixa do Pedro Paes, um clarinetista maravilhoso.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

Quando e como é que você começou a se interessar pela música, a praticá-la efetivamente? Eu comecei a tocar violão na casa dos vizinhos, eu não tinha violão. Como eu estudava piano, mas também não tinha piano em casa para treinar. E violão era uma coisa mais portátil, eu fiquei brincando, comecei a aprender umas coisas. Meu pai quando se deu conta que eu estava tocando, no primeiro Natal, me deu um violão, eu devia ter de 10 para 11 anos. Aí ele me colocou logo para ter aula com Ubiratan [Sousa, músico, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 12 de maio de 2013], meu primeiro professor de violão. Ele me dava um repertório meio erudito, sempre mais para o solo, uma aproximação mais técnica. É uma coisa que eu guardo hoje em dia. Eu não tenho aula de instrumentista, eu não tenho pendor. Eu amo tocar todos os instrumentos que eu já toquei e toco, mas eu não tenho espírito, aquela disciplina de estudar todo dia. Aquilo que Ubiratan me deu, misturado um pouco, quando eu fui pro Rio, com o que [o violonista] Jodacil Damasceno me deu, me deram a base técnica. Eu saí daqui com 16 anos e já me encontrava e reunia, nós nos reuníamos muito. Quem? [Os compositores] Sérgio Habibe, Giordano Mochel.

Cesar Teixeira? Cesar não. Cesar eu fui conhecer no Rio. Foi ele quem me apresentou o cavaquinho. Eu tocava flauta, que quem me apresentou foi o Sérgio, e eu comecei a tocar flauta, eu era violonista, cantava e tocava violão. [O compositor] Ronaldo Mota também, era uma turminha que se reunia, ouvia música, eu ficava encantada com as músicas deles, todos já compunham. Eu era mascote total. Popó [o compositor Claudio Valente]…

Tua saída com 16 anos foi para o Rio já? Ela deveu-se à música ou foi por outra razão? Essa saída foi por que o meu pai aposentou-se aqui e já há alguns anos era convidado pelo João Calmon, um amigo dele, para ir trabalhar no Rio, no serviço jurídico dos Diários Associados [rede de meios de comunicação de propriedade de Assis Chateaubriand]. Mas meu pai muito ligado à faculdade [de Direito da Universidade Federal do Maranhão], foi secretário da faculdade e aposentou-se como diretor. Aí o João disse: “agora, Fernando, vens ou não vens?” Minha mãe quis ir, se ela não quisesse não teríamos ido, ficou botando pilha, e nós aceitamos. Fomos, portanto, por questões de trabalho do meu pai, que resolveu mudar para lá com minha mãe. Meu pai foi seis meses antes, para ajeitar o terreno, e nós fomos depois.

Desde então você está no Rio? Desde então. Falando no Monte Castelo, a minha maior influência foram os tambores. Em algum lugar ali que eu não sei precisar onde, tinha uma casa de mina, onde também tocavam outros tambores festeiros. Todas as noites eu dormia ouvindo o tambor. Tanto que a primeira vez que eu dormi no Rio, fui de férias, devia ter uns sete anos, eu deitei para dormir e ouvi o tambor. Ecoava dentro da minha cabeça. Isso sim foi uma grande influência em toda a minha compreensão musical. Eu tenho uma compreensão de tambor que eu fui identificando depois, quando eu estive em festivais de música africana, com representantes de música de toda África, negra, muçulmana, vários tipos de música, a minha identificação foi muito forte.

Tua chegada ao Rio com 16 anos: como é que foi tua inserção no mundo musical do Rio de Janeiro? Nesse ano em que eu cheguei ao Rio, em 1971, a minha ligação foi com o Jodacil Damasceno. Eu fui imediatamente matriculada para ter aula particular na casa dele. E depois eu fiz um curso na Proarte, isso já em 1971, 72, eu já estava na PUC, entrei para Direito. Aí sim, foi meu primeiro contato com choro, apesar de Jodacil já me apresentar algumas coisas de choro ao violão. Eu tinha alguma técnica, então ele foi logo me aplicando esse repertório. Na Proarte eu fui aluna do Léo Soares, também um grande professor de música, tudo em curso de verão. Como eu já tocava cavaquinho, fui convidada a integrar grupos de choro que se formaram lá, na Proarte. E o cavaquinho se deve ao Cesar, que veio com o pessoal do Laborarte, acho, e levou o cavaquinho. E numa festa eu peguei o cavaquinho e comecei a entender a afinação, rapidamente entendi e comecei. Aquele instrumento no meu colo parecia um neném e eu não queria mais largar.

Parece que é o instrumento pelo qual você é mais reconhecida. É. Na verdade, os anos foram moldando a minha prática instrumental. Todo o tempo que eu trabalhei com Mário Lago, eu toquei violão. Tocava cavaco também e flauta, mas basicamente violão, fui diretora dele. Toquei violão algum tempo com o Zeca [Pagodinho, cantor], toquei com a Jovelina [Pérola Negra, cantora], toquei com Dominguinhos do Estácio [intérprete de sambas-enredo da Estácio de Sá, escola de samba carioca]. Aí passaram a me requisitar mais pro cavaco, a Cristina Buarque [cantora] e o Mauro Duarte [compositor], toquei muitos anos com eles. Tocava cavaco por que tinha o Paulão Sete Cordas no violão.

Como era a figura de Mário Lago, na convivência artística? [Fã de Mário Lago, Léo é convidado pelos chororrepórteres a sentar e ouvir o depoimento da entrevistada sobre o ídolo] Mário era uma figura extraordinária. Tinha meia dúzia de pessoas naquele Teatro Arthur Azevedo [ela comenta um show de Mário Lago em São Luís, em 1998, que Léo confessou lamentar ter perdido].

Você estava no palco? Estava. Eu dirigia o show dele nessa época. Eu tinha feito o roteiro e os arranjos e ele a direção musical. O Mário ocupou dentro do meu imaginário a figura do pai. A figura física, um ser conversador, contador de histórias, bem humorado. Não tinha cansaço pra ele. Um homem já com 80 e poucos anos, viajava como estudante, mochileiro [risos]. Ia pros jantares, só não ia pras noitadas depois, mas até o jantar depois do show ele acompanhava. Era uma pessoa sensacional. Pra você ter uma ideia de um ser coerente com as convicções dele, a gente ganhava um, ele ganhava dois. Era essa a proporção. Ele escrevia, toda a parte de texto era dele, e isso era tudo muito aberto. Às vezes ele recebia o dinheiro e dava pra gente contar. Às vezes o filho dele não tava, quem fazia isso era o Mariozinho, o filho tinha ido fazer qualquer coisa, ele dizia: “contem aí que eu não tenho saco de contar dinheiro. Divide o meu pacote, divide o de vocês”, era uma pessoa sensacional. Tinha uma característica dele que eu adorava, que era o seguinte: a ligação dele, como autor de teatro, teatro de revista, fez muita televisão, e como tinha trabalhado muito com música para teatro, depois de cada show ele dizia: “Ignez, aquela entrada demorou um pouco”, e eu dizia “é isso mesmo, aconteceu de uma coisa não estar no lugar, na hora de o menino pegar a percussão…”, ele cobrava muito isso, era um cara muito esperto. Às vezes a gente ia fazer um show num lugar e acontecia de pedirem para ele fazer um comercial, sei lá, sabonete, uma coisa dessas. Ele sempre precisando de dinheiro, velho comunista sempre precisa de dinheiro [risos], ele topava fazer, mas chegava na hora, ele dirigia o comercial, ele mudava o texto [risos dos chororrepórteres], ficava ensinando todo mundo como fazer. “Não, isso aqui tá uma porcaria, não se pode dizer isso”. Ele era uma figura adorável, tenho muita saudade dele.

Maxixes, pitombas e afins. Capa. Reprodução

Em que grupos e projetos musicais você se envolveu? Originalmente, se eu tivesse um temperamento de pensar mais em meu potencial musical e a minha vontade, eu teria sido compositora. Teria ido pra UFBA, que era meu projeto inicial quando eu larguei Direito. Fazer composição lá. Lá estavam [o compositor e regente] Lindembergue Cardoso, [o musicólogo e professor alemão Hans Joachim] Koellreuter, [o violoncelista e professor suíço Anton Walter] Smetak, o pessoal de música eletroacústica, que era uma coisa que me interessava muito. Mas não lamento nada, o que aconteceu, aconteceu. Não fui, não tive como, não poderia trabalhar e fazer um curso de composição, que era um curso pesado. Acabei ficando no Rio, fazendo a Fifierj do Instituto Villa-Lobos, que pertencia à Fifierj, hoje pertence à Unirio. Abandonando o curso, larguei no segundo ano, larguei grávida da minha filha mais velha [Mariana Bernardes], e fazendo cursos. Aqui e ali, estudei particular com Koelreutter, estudei harmonia e contraponto na casa dele, estudei um pouco com João Pedro Borges [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 14 de abril de 2013], antes, estudei teoria e solfejo, e fui fazendo um currículo meu. E trabalhando. Já tocava choro, e nesse ano, 1975, 76, formamos o primeiro grupo de choro, com volume de trabalho, chamava Éramos Felizes. Era Zé Renato, Juca Filho, que hoje em dia faz mais textos de programas de humor, Marco Aurélio, bandolinista, Marcelo Bernardes [clarinetista e saxofonista], eu, e o Petchó, que era cartunista paulista, já morreu, meu primeiro pandeirista. Esse grupo percorreu grande parte das praças do subúrbio, tínhamos um contrato com a então Secretaria de Esportes e Lazer do Rio de Janeiro. A gente fazia a primeira ou última sexta-feira do mês, pegava um trem, num ponto qualquer de estação, a secretaria montava a estrutura de palco e som, e nós tocávamos choro ali. Tínhamos alguns contratos, viagens, e esse mesmo grupo, essas mesmas pessoas, tinham outro grupo que chamava Cantares, e aí no Cantares a gente tocava as composições de Zé Renato, do Juca. A gente ouviu muita coisa, tocava muito choro. Eu me lembro dum choro que a gente aprendeu com um senhor que vendia amendoim perto da estação, da parada de ônibus onde a gente ia pegar ônibus pra Usina, foi onde a Mariana nasceu. Depois, num desses discos do Choro na Feira [Maxixes, pitombas e afins] a gente gravou esse choro [Chorinho do Zé Feio], que não era do homem do amendoim: ele mostrou pra gente no lá-lá-ia, o Marcelo tirou no clarinete e a gente nunca esqueceu esse choro. Era dum amigo dele, chamado Zé Feio [José Ignácio de Oliveira]. Ele era de Minas, esse vendedor de amendoim, e o Zé Feio também era de Minas. A gente conseguiu chegar na família do Zé Feio, pra pedir autorização pra gravar. Nem a família conhecia, ele era alcoólatra, a família era contra o fato de ele ser músico, então ele escondia a produção. Foi a primeira música do Zé Feio gravada, foi muito interessante. A música instrumental era para nós a maior expressão. Eu me considero bem mais da música instrumental que da canção. Hermeto [Pascoal, multi-instrumentista] era um grande mestre. Milton [Nascimento, cantor, compositor e multi-instrumentista] foi outra grande influência, como cantor, mas também como músico maravilhoso que é. A vida me levou pra junto dele, acabei fazendo arranjo pra música dele.

Você começou a estudar e tocar ainda na infância. A partir de que momento você percebeu que a música tomaria um rumo profissional? O piano eu não diria que foi algo somente para contribuir na educação da moça. Eu não segui no piano por que minha mãe decidiu não comprar o instrumento, por que era um móvel muito grande para a sala. Eu tenho paixão por piano, eu sempre tive piano, eu ganhei um piano na gravidez da Mariana, e desde então eu tenho piano em casa, todos tocam piano, Matias tem uma boa técnica. O que acontece: enquanto eu morava aqui, eu não vislumbrava uma carreira profissional. Eu nunca estive com pessoas que fossem músicos profissionais, que pra mim fossem uma referência. Eu acho que não existia, na época. Existiam músicos de banda, tinha baile, músicos de baile, o pessoal da Escola Técnica [hoje Ifma], que era ali pertinho. Pra mim a música não era uma profissão, era uma coisa que se fazia, não tinha faculdade de música, aliás, recentemente é que aqui foi ter. Não tinha a Escola de Música. Tinha a Scam [Sociedade de Cultura Artística do Maranhão]. Isso começou a se desenhar pra mim, na verdade, quando entrei na PUC, pra fazer Direito, e fui para o grupo universitário de música, um grupo de música que, digamos, dava uma feição permitida aos movimentos estudantis. A gente tocava coisas da Violeta Parra, Mercedes Sosa. Eu conheci músicos e fui me inteirando da possibilidade da música profissional. Eu já estava há quatro anos, 1975 foi meu ano limite, estava querendo chutar o balde e chutei. Abandonei o curso de Direito, para desespero de meu pobre pai.

Com o abandono do curso de Direito você nunca teve outra profissão na vida que não fosse a música? Não, nunca. A partir daí, eu queria ir pra UFBA, não fui, não tinha condições, não tinha mais nenhum apoio familiar. Entrei no IVL [o Instituto Villa-Lobos], larguei o IVL, que era dirigido por um médico general que fazia arbitrariedades ali naquele curso de música. Saí grávida e voltei grávida: fiz vestibular novamente com a Mariana.

E o Choro na Feira? O grupo surge por conta dos saraus na feira livre? Depois do Éramos Felizes eu sempre estive perto do choro, tocando aqui e acolá, mas não tive mais nenhum grupo de choro. Perfeitamente: eu morava em Laranjeiras e tinha uma feira, onde eu frequentemente ia, onde ficava o cavaquinhista do [conjunto] Galo Preto até hoje, Alexandre [Paiva]: ele era produtor de vegetais hidropônicos, ele e a mulher. Um belo dia ele disse pra mim: “Ignez, toca pra esse rapaz aí! Ele está me perturbando, querendo que eu toque pra ele e eu não posso tocar agora” Era um menino que entregava sacolas pra ele, e eu fiquei tocando, e me divertindo com o cavaquinho, com o menino, com as pessoas que passavam. Uns riam, outros paravam meio assustados. A gente já tinha tido essa experiência, de tocar nas praças, mas com a estrutura do Estado. De certa maneira isso afasta as pessoas, impõe uma distância, o cidadão desconfia por princípio, tem sempre alguém ganhando muito mais do que o que está sendo feito. A gente tinha tido uma iniciativa, em outras épocas, com o [violonista sete cordas] Raphael Rabello, Antonio Santana, de tocar no Largo do Machado, sem estrutura nenhuma. Fizemos isso umas duas vezes, mas não foi adiante. Aí eu resolvi chamar o Bilinho [o violonista Domingos Teixeira], a falecida Tina Pereira, tocava flauta, e ia chamar a Mariana, minha filha, tocava pandeiro bem, e eu chamei a Clarice. Depois no programa do Altamiro Carrilho [flautista] na Rádio MEC, eu fui saber pelo rádio, ao vivo, que ela, quando foi chamada, pensou que tivesse dinheiro nisso [risos], e não tinha nada. Aí passamos a ir toda semana, esses quatro. Depois foram chegando o Marcelo, que mora ali em Laranjeiras, o Franklin [da Flauta], pai do Matias, também chegou, o Matias foi o último que chegou no Choro na Feira. E a partir daí o produtor encomendou o disco, pro livro Na cadência do samba, e tudo começou. Nesse primeiro o Matias não gravou, quem gravou foi o Sérgio Barroso, um baixista super conhecido, da bossa nova.

Esse projeto da feira acabou? Nós ficamos de 2000 a 2010, 10 anos tocando todo sábado na feira. Aí isso foi passando por uma transformação. Aquilo não é uma praça exatamente, é uma ilha urbana, tecnicamente. Juntou um monte de gente. Juntando muita gente sempre aparece político e comerciante. Apareceram os vendilhões do templo [risos] e a música foi ficando assim [em segundo plano]. O pessoal que ia, Elton Medeiros [compositor], Cristina [Buarque], que eram frequentadores habituais, de todo sábado, foram embora, por que eles não conseguiam mais ouvir. As pessoas bebendo se exaltavam, falavam mais alto. O Elton Medeiros falou que nós éramos a única sala de concerto a céu aberto que ele tinha conhecido.

Senado

Ouvi há pouco na Rádio Senado (em São Luís desde 11 de novembro na frequência 96,9MHz) o programa Curta Musical, cuja edição de hoje era dedicada ao mítico guitarrista Lanny Gordin, um dos nomes fundamentais da Tropicália.

O programa faz jus ao nome, é uma pílula com entre seis e sete minutos e produção de Guilherme Miquelutti, sempre abordando algum tema dentro do universo que é a música popular brasileira – numa busca no portal da Rádio Senado encontram-se rapidamente para audição programas dedicados ao Dia Nacional do Forró, aos 20 anos do falecimento de Tom Jobim ou ao lendário Paebirú, disco de Zé Ramalho e Lula Cortez, hoje raríssimo, entre outros.

Curta Musical tem uma pesquisa interessante e a apresentação flui bem. No entanto, ao abordarem Lanny Gordin e sua importância para a música brasileira esqueceram-se do fundamental disco de estreia de Jards Macalé (cuja capa abre este post, ilustrando Revendo amigos, uma das faixas do disco) – tudo bem, ali ele toca contrabaixo, formando um power trio vigoroso com o próprio Macalé (ao violão) e Tutty Moreno (bateria). Mas não é qualquer contrabaixo: Jards Macalé [1972], o disco, traz algumas das melhores linhas de baixo da história da música ainda que impopular brasileira.

De todo modo, o programa trouxe a colaboração de Lanny com nomes como Caetano Veloso, Gilberto Gil e Gal Costa – o núcleo central da Tropicália, por assim dizer –, além da retomada da carreira nos anos 2000, quando a Baratos Afins lançou seu primeiro disco solo e deu vazão a outros projetos do guitarrista nascido na China. Novamente a pesquisa do programa esqueceu-se de Aos vivos, estreia de Chico César, lançado em 1994, em que Gordin comparece em algumas faixas.

Apesar da ranzinzice inicial, destaco a qualidade acima da média da programação musical da Rádio Senado e a importância da FM chegar a mais cidades – São Luís é a 10ª. capital a receber seu sinal, que chega também a outros 19 municípios do Maranhão –, permitindo a quem interessar possa acompanhar pautas e sessões legislativas, incluindo o comportamento de nossos representantes na casa.

As sessões e reuniões de comissões são transmitidas ao vivo, na íntegra, sem edição, garantindo transparência aos atos. A instalação da rádio na capital maranhense foi possível graças a uma parceria com a Assembleia Legislativa do Estado do Maranhão, que dispõe de um vistoso complexo de comunicação, cuja programação tem dado espaço a pautas por vezes ignoradas pela mídia tradicional. Isto é, a TV Assembleia tem cumprido seu papel de emissora pública.

Engana-se quem pensa que o ouvinte da Senado será passivo. Diversos canais de comunicação estão à disposição da população: e-mail (radio@senado.leg.br), facebook (radiosenado), tuiter (@radiosenado) e whatsapp (61-86119591), além do site da rádio, onde é possível visualizar a grade e ouvir a íntegra de sua programação.

Bem vinda, Rádio Senado! E que cheguem logo outras rádios e tevês públicas a São Luís e mais e mais cidades do Brasil!

Danilo Caymmi encerra ano de homenagens a Dorival Caymmi com show em São Luís

[JP Turismo, Jornal Pequeno, ontem]

Apresentação acontece no Teatro Arthur Azevedo, amanhã (20). O repertório é composto por clássicos de autoria do compositor baiano, que completaria 100 anos em 2014

POR ZEMA RIBEIRO

Danilo Caymmi com o violonista André Siqueira durante apresentação na Ponta do Bonfim em agosto passado. Foto: Doriana Camello
Danilo Caymmi com o violonista André Siqueira durante apresentação na Ponta do Bonfim em agosto passado. Foto: Doriana Camello

 

“Quem não gosta de samba bom sujeito não é”, cravou Dorival Caymmi no antológico Samba da minha terra, recriado por tantos ao longo dos tempos, em especial Os Novos Baianos, uma de suas tiradas imortalizadas para além de palcos e rodas de samba mundo afora.

“O que é que a baiana tem?”, perguntou, para responder em seguida, seu primeiro sucesso a extrapolar os limites do país, imortalizado e para sempre lembrado na voz de Carmen Miranda, a pequena notável.

“Quem quiser vatapá, que procure fazer: primeiro o fubá, depois o dendê”. Como bom baiano Dorival Caymmi era chegado a boa comida, mesa farta. E ensinou receitas de bem viver e boa música. O longevo compositor baiano faleceu em 2008 aos 94 anos.

“Doralice, eu bem que te disse, amar é tolice, é bobagem, ilusão”, advertia a voz de João Gilberto em disco com Stan Getz que acabou por tornar a bossa nova – e consequentemente a música brasileira – objeto de culto em terras estrangeiras. A música é dele, Dorival Caymmi.

Autor de inúmeros clássicos, como demonstram os parágrafos iniciais, o autor de Oração da Mãe Menininha, nos legou também uma prole musical importante para a MPB: é pai de Dori, Nana e Danilo Caymmi.

O terceiro volta à São Luís amanhã (20) para encerrar a temporada de homenagens ao pai, pelo centenário que teria completado neste 2014. Acompanhado dos músicos André Siqueira (violão) e Davi Mello (guitarra), Danilo Caymmi (voz e flauta) apresenta o show Dorival 100 Anos no Teatro Arthur Azevedo (Rua do Sol, Centro), às 20h.

O repertório é inteiramente dedicado à obra de Dorival, mas Danilo deve lembrar também alguns clássicos seus, indispensáveis, caso de Andança (parceria com Edmundo Souto e Paulinho Tapajós) e O bem e o mal (parceria com Dudu Falcão), tema da minissérie global Riacho Doce.

Com mais de 40 anos de carreira, tendo integrado as míticas Som Imaginário e Banda Nova – que acompanhou Tom Jobim em diversas turnês internacionais – é a segunda vez que Danilo Caymmi visita a Ilha. A primeira foi em agosto passado, quando ele se apresentou para um público restrito no projeto Ponta do Bonfim – Música e Por do Sol, equilibrando no repertório temas autorais e de autoria de seu pai.

2014 foi um ano marcado por diversas atividades alusivas ao centenário de Dorival Caymmi. Foram lançados diversos discos e realizados diversos shows e exposições, em várias partes do Brasil.

Os ingressos para Dorival 100 Anos, à venda na bilheteria do Teatro, custam R$ 40,00 (balcão e galeria), R$ 50,00 (frisa e camarote) e R$ 60,00 (plateia). O show tem produção de 4P Produções, patrocínio de Potiguar Casa OK, Marcos Peixoto Arquitetura, UVA/IDEM, Calado e Correa Advogados Associados e Premier Hotel, e apoio do jornal O Imparcial e Opus Estúdio.

Céu para deleite e delírio

Céu: talento e entrega. Fotosca: Zema Ribeiro
Céu e banda: talento e entrega. Fotosca: Zema Ribeiro

 

O público lotou as dependências do Teatro Arthur Azevedo para a noite de abertura do Festival BR-135, ontem (18). Os ingressos foram trocados por um quilo de alimento não perecível.

Áurea Maranhão é a Tatá Werneck local: todo mundo acha graça, menos eu. A mestra de cerimônias carregou nas tintas ao encarnar uma “aborrecente”, forçando por demais a barra para parecer descolada.

Secretária de Estado da Cultura, Olga Simão era dispensável no púlpito. É tipo “jabuti trepado”, alguém sem nenhuma organicidade. Apesar de o órgão ser um dos patrocinadores do evento – ao lado de Cemar e Vivo –, ela não combinou com o resto da noite.

Acsa Serafim e Otília são talentosas. A primeira cantou uma música autoral e, juntando-se à segunda e ao guitarrista Márcio Glam, emendaram um repertório de covers de Beatles, Janis Joplin – Otília evocou-a nas vestes – e Queen. O Maratuque Upaon Açu acompanhou-os nos dois últimos números e foi interessante vê-los evocar a ciência do pernambucano Chico, mesmo sem citar seu nome ou tocar seu repertório.

O show de abertura era uma espécie de micropanorama da diversidade proposta pelo BR-135, projeto idealizado pelo casal Criolina – os músicos Alê Muniz e Luciana Simões –, que desde 2012 vem movimentando a cena autoral de São Luís.

A noite de ontem (18) era um cartão de visitas do Festival que eles realizam até amanhã (20), no Centro Histórico da capital maranhense. Além de shows estão previstas atividades formativas, através de debates, seminários, palestras, rodas de conversas e negócios, oficinas etc.

O BR-135 pode orgulhar-se de mais um feito, entre tantos mostrados em vídeo, ontem, na abertura do Festival: trouxe à São Luís, pela primeira vez, a cantora Céu, contando 10 anos de carreira, com cd e dvd Ao vivo [2014] recentemente lançados.

Calçando havaianas, o brilho de seu vestido curto reforçou seu brilho: é das mais talentosas cantoras em atividade neste país de cantoras. E é autora de quase todo o seu repertório. O do show de ontem tinha por base Caravana sereia bloom [2012], mais recente álbum de estúdio.

Mas não faltaram músicas de Céu [2006], Vagarosa [2009] e mesmo do Ao vivo. Deste último pinçou suas recriações para Piel Canela, bolero cinquentista de Bobby Capó, do repertório de Eydie Gormé com o trio Los Panchos, e Mil e uma noites de amor, sucesso oitentista de Pepeu Gomes, parceria dele com Baby Consuelo e Fausto Nilo.

Céu (voz, teclado e percussão) estava acompanhada de DJ Marco (scratches e MPC), Dustan Gallas (guitarra, teclado e vocais), Lucas Martins (contrabaixo e vocais) e Bruno Buarque (bateria e vocais), a mesma banda de Ao vivo. Ao cantar o bolero ela os apresentou como “quarteto Los Panchos”.

Ela ainda encarou outros covers: Mora na filosofia, de Monsueto de Menezes e Arnaldo Passos, aparece como incidental em Malemolência [Alec Haiat/ Céu] e Visgo de Jaca, de Rildo Hora e Sérgio Cabral, lançada por Martinho da Vila, ganhou uma interpretação característica desde que a gravou em Vagarosa.

O público delirou com a sequência de reggaes Concrete jungle, Slave driver e Kinky reggae, do antológico Catch a fire, de Bob Marley, disco que completou 40 anos em 2013 e que ela vem tributando em shows há algum tempo. De repente formou-se uma clareira na plateia e os corredores laterais viraram um clube de reggae, com muita gente dançando em pé.

À cantora não faltou simpatia. Elogiou a beleza do teatro e da cidade e revelou que espera voltar o quanto antes. “É muito bom tocar lá fora [no exterior], mas chegar aqui [no Brasil], é outra coisa. Nossa cultura é muito forte”, disse.

Para não deixar de citar, de sua lavra, ela foi de Falta de ar [Gui Amabis], Retrovisor [Céu], Sereia [Céu], Grains de beauté [Céu/ Beto Villares], Cangote [Céu], 10 contados [Alec Haiat/ Céu] e Lenda [Alec Haiat/ Céu/ Graziella Moretto], entre outras.

O bis, magro, trouxe Chegar em mim [Jorge du Peixe]. “Não dá para fazer outro, não há tempo”, justificou-se. Não sei se se referia a algum limite de horário do teatro ou a seu voo de volta ao Rio, onde ela tem show hoje (19), fazendo ao vivo justamente o repertório de Catch a fire.

A depender do público não haveria limite. Céu é o limite.

BR-135: mais que música

Nem só de música vive o BR-135. Um resumo da história poderia defini-lo assim: uma ideia gregária do duo Criolina – o casal Alê Muniz e Luciana Simões, que depois de temporadas fora resolveram voltar à Ilha e viver de música –, que mostrou a quem se interessou novos e velhos nomes da música autoral produzida no Maranhão. Foram vários shows com a presença de um sem número de artistas dessa cena.

Já é hora, por exemplo, do Criolina lançar o terceiro disco, mas estes trampos mais coletivos têm contribuído um bocado para este justificável atraso. Certamente valerá a pena quando sair.

Pela primeira vez em São Luís, a cantora Céu é uma das atrações do Festival BR-135. Foto: divulgação
Pela primeira vez em São Luís, a cantora Céu é uma das atrações do Festival BR-135. Foto: divulgação

Sua empreitada mais recente é o Festival BR-135, que já selecionou as bandas que dele participarão nos próximos dias 18, 19 e 20 de dezembro, na Praia Grande, ocasião em que cantarão por aqui também nomes como Céu (foto), Filipe Cordeiro, Dona Onete e Mombojó. Um disco, com as bandas e artistas selecionados, foi lançado.

Não é pouco. Mas tem mais. Atrelado ao BR-135, o Conecta Música, com inscrições gratuitas, discutirá diversos aspectos sobre a produção musical, mercado, novas tecnologias, jornalismo cultural, crítica musical, cultura digital, arte e cidadania, entre muitas outras pautas. Um prato cheio!

Confira maiores informações e programação completa no site do BR-135.

Danilo Caymmi volta à São Luís para encerrar temporada de homenagens ao pai

[release]

Filho de Dorival Caymmi, músico se apresentou na capital em agosto passado. Show acontece sábado (20), no TAA

Divulgação

Entre tantos eventos e efemérides, 2014 marcou o centenário do compositor baiano Dorival Caymmi, dono de monumental obra talhada ao longo de quase oito décadas de carreira, ele responsável por um sem número de sucessos e por uma das proles mais musicais do Brasil.

Caymmi projetou a musical Bahia que hoje todos conhecemos tendo sido hit na voz de Carmem Miranda. A O que é que a baiana tem?, imortalizada pela brazilian bombshell, seguiu-se obra lapidar que todo mundo, vez em quando assobia, mesmo às vezes desconhecendo seu autor. “Quem não gosta de samba bom sujeito não é”, cravou certeiro numa delas.

O ano foi de muitas homenagens e não faltaram exposições, debates e, principalmente, shows. Juntos ou em espetáculos solo, os irmãos Nana, Dori e Danilo, herdeiros diretos de Dorival, percorreram bons pedaços de Brasil, mostrando o que é que os Caymmi têm.

Danilo Caymmi volta à São Luís para um show inteiramente dedicado à obra do pai. Dorival 100 Anos, o espetáculo, será apresentado no próximo sábado (20), às 20h, no Teatro Arthur Azevedo (Rua do Sol, Centro). Os ingressos custam entre R$ 40,00 e 60,00 e estão à venda na Bilheteria Digital (Rio Poty Hotel, até o dia 18) e bilheteria do TAA (na véspera e no dia do show).

Cantor, compositor, flautista e arranjador, Danilo Caymmi esteve em São Luís em agosto passado, quando se apresentou no projeto Ponta do Bonfim – Música e Por do Sol. Com cerca de 40 anos de carreira, era a primeira visita do artista à Ilha, que o encantou.

Danilo Caymmi integrou as míticas Som Imaginário, com Wagner Tiso e outros, e a Banda Nova, do maestro soberano Tom Jobim, tendo feito diversas excursões internacionais, integrando-a. É autor da trilha sonora da minissérie Riacho Doce, baseada na obra de José Lins do Rego, que foi ao ar em 1990 pela Rede Globo, além do clássico Andança, parceria com Edmundo Souto e Paulinho Tapajós, gravada, entre outras, por Beth Carvalho e Maria Bethânia.

O repertório de Dorival 100 Anos concentra-se na produção musical de Dorival Caymmi, mas Danilo não deixará de lembrar sucessos seus, inclusive músicas como Vamos falar de Tereza (tema de Teresa Batista Cansada de Guerra, minissérie baseada na obra de Jorge Amado), parceria dele com o pai.

Dorival 100 Anos tem patrocínio de Potiguar Casa OK, Terra Zoo, Marcos Peixoto Arquitetura, UVA/IDEM, Calado e Correa Advogados Associados e apoio do jornal O Imparcial e Opus Estúdio.

Serviço

O quê: show Dorival 100 Anos
Quem: Danilo Caymmi
Onde: Teatro Arthur Azevedo (Rua do Sol, Centro)
Quando: dia 20 de dezembro (sábado), às 20h
Quanto: R$ 60,00 (plateia), R$ 50,00 (frisa e camarote) e R$ 40,00 (balcão e galeria)
Maiores informações: (98) 991170970, 996036525 e 991168736

Para ouvidos, mentes e corações abertos

[Sobre Hein?, show de Bruno Batista e Claudio Lima, Teatro da Cidade de São Luís (antigo Cine Roxy), 27/11]

Foto: Aparecida Batista
Foto: Djalma Raposo

 

Hein? não é para surdos. É para ouvidos atentos, ávidos. Não é para quem está acostumado a mesmice. Ou é, se se quiser sair desta zona de conforto.

É um show em que Bruno Batista e Claudio Lima divertem-se no palco e nós nos embevecemos na plateia. Em determinada altura, ao agradecer carinhosamente a presença de todo mundo, o segundo comenta a importância do público: “sem vocês nós não estaríamos aqui cantando, fazendo música. Estaríamos em casa, estudando”.

Parece simples a ideia de reunir um amontoado de canções, subir no palco e cantar. Pode até parecer, mas está longe disso. Há uma preocupação em reinventar, em recriar, em recompor.

Claudio Lima está cantando cada vez melhor, no palco sua entrega é total, seus elegantes suspensórios não contêm o talento que lhe cabe. Bruno Batista, a despeito de ainda bastante jovem, já é um senhor compositor, sua boina deve ser a primeira a saber das ideias musicais originais que estão sempre a fervilhar sua cabeça.

A poesia forte de Gonzaguinha é recitada ao final de Comportamento geral, que abre o show. Uma música forte, que parece dizer que, apesar de estarem se/nos divertindo e deliciando, a dupla não está para brincadeira.

Noturno (Graco/ Caio Silvio), sucesso de Fagner, ganha clima jazzy na interpretação límpida de Claudio Lima. Sozinho, acompanhando-se com um maracá, canta Kaô (Gilberto Gil/ Rodolfo Stroeter), o risco e a experimentação marcas deste inspirado artista.

Zanza (Carlinhos Brown) ganha grand finale de boi de zabumba, no arranjo inspirado acompanhado pela banda, enxuta e competente: Rui Mário (teclado e sanfona), Luiz Jr. (violões de seis e sete cordas e viola) e João Simas (guitarras).

Antes de cantarem Guaraná Jesus (versão de Carlos Careqa para Chocolate Jesus, de Tom Waits) Bruno Batista contou a história de como chegou à música, de como chapou com À espera de Tom, o disco em que Carlos Careqa canta apenas versões de Tom Waits, ele “fãzaço” declarado de ambos.

Claudio Lima brinca com a voz e torna sublime o fecho de Menina amanhã de manhã (Tom Zé), cantada por ambos e acompanhada por Bruno Batista ao violão – o que ele faz em boa parte do show.

Vê se me esquece (Itamar Assumpção/ Alice Ruiz) é uma música que Bruno Batista escolheu para chamar de sua. Ciranda para Janaína (Kiko Dinucci/ Jonathan Silva) demonstra sua inserção na cena paulistana, onde reside.

“A culpa é dele”, Claudio Lima acusa Bruno Batista ao interpretar Teu corpo (parceria de Bruno com Paulo Monarco e Dandara Modesto), uma das inéditas da ótima safra recente do compositor. Também foram reveladas Madrigal (também parceria de Bruno com Monarco e Dandara) Senhora da alegria – cantada como se rezassem, linda oração que a música é –, O queixo, um tango engraçado, e Caixa preta. Coisas lindas que eu espero que eles gravem logo nos discos prometidos em entrevista, pois não é justo ficarmos reféns de apresentações que não acontecem com tanta regularidade – infelizmente.

O show foi fechado com Hein? (Tom Zé/ Vicente Barreto), que batiza o show. Bruno Batista e Claudio Lima apresentaram a banda e agradeceram novamente aos patrocinadores e apoiadores e a presença do público. Voltaram para o bis: Rosa dos ventos, com que venceram um festival há dois anos, em São Luís, se juntou a Tarantino, meu amor, únicas autorais já gravadas pelo compositor.

Esqueceram-se de comentar o belo cenário, assinado por Claudio Lima: formado por espelhos, um ponto de interrogação em forma de orelha – ou vice-versa –, espécie de logomarca de Hein?, usada também na divulgação do espetáculo desde sua primeira edição, em 2008.

Que venham temporada e turnê, como também prometido em entrevista. Mais gente precisa ouvir e conhecer Bruno Batista e Claudio Lima, dentro e fora do Maranhão.

p.s. (como na música de Itamar e Alice): houve certo exagero no uso de gelo seco, às vezes mais de um jato por música. A máquina faz muito barulho.

Seis anos depois, Bruno Batista e Claudio Lima reapresentam Hein?

Blogue conversou com os artistas sobre o show, parceria, amizade, projetos e discos futuros

Foto: Vivian Pereira
Foto: Vivian Pereira

 

Quando me abriram a porta do Estúdio Sonora, do músico Luiz Jr., ele (violão sete cordas), João Simas (guitarra) e Rui Mário (teclado) acompanhavam Bruno Batista (voz e violão) e Claudio Lima (voz) em Zanza (Carlinhos Brown).

Passaram a música várias vezes, com Rui Mário chegando a trocar o teclado pela sanfona, para ver o que soava melhor no arranjo. Estavam arredondando-a para o espetáculo Hein?, sucesso de público e crítica que depois de seis anos volta a ser apresentado hoje (27), às 20h30, no Teatro da Cidade de São Luís (antigo Cine Roxy, Rua do Egito, Centro; ingressos: R$ 30,00, à venda na bilheteria do Teatro).

Bruno Batista e Claudio Lima são dois dos mais interessantes artistas da música produzida no Brasil atualmente. O primeiro tem três discos gravados: o homônimo Bruno Batista (2004), Eu não sei sofrer em inglês (2010) e (2014). Claudio Lima estreou antes, com um disco que levava seu nome (2001), e depois lançou Cada mesa é um palco (2006), dividido com o pianista Rubens Salles.

Responsável pelos belos projetos gráficos de seus dois discos, Claudio Lima assinou também o do segundo de Bruno Batista. Atualmente está gravando seu terceiro disco, ainda sem título.

Quando apresentaram a primeira edição de Hein?, em 2008, no Teatro Alcione Nazaré (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho), ninguém – nem eles mesmos – entendeu o porquê de o show não ter ganhado uma temporada ou turnê – promessa que já fazem para a edição de agora.

Depois de Zanza, o grupo deu um break para café e cigarros. Este blogue aproveitou para conversar com Bruno Batista e Claudio Lima, que além de Hein?, falaram de amizade, parceria, projetos e discos futuros. Depois da conversa o blogue ainda ouviu Menina amanhã de manhã, outra de outro baiano, Tom Zé, que comparece ao repertório do show, batizado por uma parceria dele com Vicente Barreto.

Claudio sempre me parece mais tímido fora do palco. No palco ele cresce…
Bruno Batista – [risos] Agora… por que no palco, antes, era a mesma coisa.
Claudio Lima – A mão no bolso [risos].

Eu li que Guaraná Jesus [Chocolate Jesus, de Tom Waits, versão de Carlos Careqa] está no repertório do show.
Bruno –Eu sou fãzaço do Tom Waits. Quando Careqa fez aquele disco de versões [À espera de Tom, 2008], eu falei “pô, que massa!”. E quando chegou em Guaraná Jesus eu fiquei puto: “quem era pra ter feito isso era eu!” [risos]. Tinha que ter tido essa ideia, sensacional a sacada dele. Aí a gente resolveu colocar no show, eu trouxe pra Claudio, ele se amarrou também, tá legal pra caramba.

Seis anos depois vocês voltam com Hein? O show na época foi sucesso de público e crítica e havia uma cobrança. Por que a demora? E o que significa essa volta?
Claudio – Foi até uma surpresa na época.
Bruno – Ambos tínhamos lançado apenas um disco [nota do blogue: Claudio Lima já havia lançado Cada mesa é um palco, de 2006]. Claudio Lima tinha o Claudio Lima, que foi um disco arrebatador, todo mundo falava. Eu lancei o meu [Bruno Batista, de 2004] dois ou três anos depois, e quando eu lancei o meu a gente se conheceu. Eu já o conhecia através do trabalho do disco dele, ele conheceu o meu, a gente se aproximou através de amigos em comum, e já rolou aquela energia boa, a gente se gostou de cara.
Claudio – Acho que a primeira vez que a gente sentou, na casa de Alex [Palhano, jornalista], tu me mostrou “hoje eu quero solidão” [cantarola o verso inicial de Despedida, de Bruno Batista], eu falei: “eu quero!”.
Bruno – Exatamente! Na verdade, foi na audição do disco. Eu tava com o disco pronto, fui fazer uma audição e tu tava lá. Nesse mesmo dia tu gostou de Despedida e de Eu não ouvi todos os discos, quis gravar e tal. Afinou, pessoalmente, musicalmente, fizemos o primeiro Hein? O show foi um sucesso. A gente cometeu um erro, na época, de não ter feito uma temporada do show.

Por que não ter repetido antes?
Claudio – Eu provoquei bruno no face [a rede social facebook]: “vamos ressuscitar o Hein??” Foi só um comentariozinho.
Bruno – Exatamente!
Claudio – Eu tou vendo que a cena aqui tá bem legal.

Quando foi essa provocação?
Claudio – Foi esse ano, começo desse ano.
Bruno – A provocação para refazer o Hein? foi esse ano, mas a gente já tinha um projeto de fazer um disco juntos. E como a gente ainda não conseguiu fazer isso, bom, tá demorando demais, talvez por causa do disco que venha a ideia de refazer o Hein?

Mas vão conseguir fazer o disco juntos, não é?
Bruno – [enfático:] Vamos! É um projeto pessoal nosso, meu e dele. Agora não vai dar, ele vai lançar o disco dele proximamente. Não vai demorar, né?
Claudio – [irônico] Não, não vai demorar. Depende só de… grana [risos].

Como está essa feitura de teu disco novo, o terceiro disco?
Claudio – A pré-produção tá pronta, com as bases de Eduardo Patrício [músico maranhense radicado em Curitiba, assinou as bases eletrônicas de Cada mesa é um palco]. Eu fiz um show, Rosa dos ventos [título de uma música de Bruno Batista, vencedora do Festival Viva 400 anos, que celebrou o aniversário de fundação da capital maranhense], eu estava excitado com as bases do Eduardo e chamei Luiz Jr., briguei com Luiz Jr. para ele tocar em cima das bases [risos].

Há um momento muito bonito de Rosa dos ventos [o show aconteceu dia 21 de fevereiro de 2014, no Teatro da Cidade de São Luís], que está no youtube, que é Salomé, de Fabreu [o poeta Fernando Abreu] e Magah [o cantor e compositor Marcos Magah]. Ela está no teu disco novo?
Claudio – Não sei. Não sei, mas eu acho que sim.
Bruno – É linda aquela música!
Claudio – Por que o que acontece: eu tou com essas bases, aí vou chamar músicos, começar a gravar, alguma coisa pode acontecer. Essa é uma. Tem outra do Magah que eu também tou com vontade, dele e de Acsa [Serafim, cantora e compositora], nunca foi tocada.

E o que tem no repertório desse novo Hein??
Bruno – O repertório é todo diferente. A gente pensou em fazer umas canções de que a gente gostava, começou com isso. A gente não sabia muito bem o que fazer e começamos apanhando algumas canções de que a gente gostava pessoalmente. No meio do processo eu senti Claudio cutucando ali, mas não falava direito o que era. Aí ele falou: “Bruno, eu tou sentindo falta de inéditas”. Aí eu achei que isso seria o grande lance. Eu tinha acabado de lançar um disco [Lá, 2014], no começo desse ano, e quando você lança um disco você acaba com seu estoque, as que eu tinha eu gravei [risos]. Como o disco saiu em março, eu já vinha compondo algumas coisas, comecei a apresentar uma série de canções pra ele.
Claudio – Começou a vasculhar as gavetas, os sentimentos.
Bruno – Tanto que tem música que ainda não estava pronta, que está sendo terminada agora, terminando a letra agora, eram só embriões. Mas o repertório do show, basicamente é esse: canções que a gente gosta de cantar, que a gente tem afinidade.
Claudio – Mas a gente manteve um formato, intuitivamente, um formato que foi o primeiro Hein?. Tipo colocar uma música muito conhecida, colocar inéditas. Por que quando eu cantei Rosa dos ventos no primeiro Hein? – eu cantei Rosa dos ventos –, era inédita. Foi a primeira vez que a música foi cantada. Teve mais inéditas?
BrunoHilda Regina [faixa de Eu não sei sofrer em inglês, de 2010] era inédita, eu fui gravar depois. Mas eu acho que esse show tem mais inéditas que o anterior, tem quatro ou cinco. Por que se depender da gente, a gente bota só as coisas que são meio lado b, então a gente tenta dosar um pouquinho.

Então Hein? mescla um pouco de um tributo a artistas que acabaram colaborando por moldar vocês enquanto artistas, quer dizer, referências – Tom Zé, Tom Waits – a um repertório inédito teu. Tudo que é inédito é teu ou há inéditas de outros artistas?
Bruno – Não. Até poderia ter tido. Calhou de ser. A gente não pensou isso: “vamos botar inéditas minhas”. Acabou acontecendo. Comecei a mostrar algumas coisas e elas preencheram o show e a gente não foi atrás [de repertório inédito de outros compositores]. Basicamente é isso: inéditas minhas e um tributo a artistas que nos formaram musicalmente.

Estou sentindo uma timidez de vocês em não entregar o ouro [risos]: Tom Zé eu sei que tem por conta da faixa-título, Tom Waits por que eu li na matéria [#hein? A volta, de Patrícia Cunha, nO Imparcial de 23 de novembro de 2014], Carlinhos Brown por que ouvi vocês cantando. O quê mais?
Bruno – Fagner. Roque Ferreira, que é um cara que cada vez que passa, desde que eu descobri a obra dele, me apaixonei, a gente vai botar uma música dele. Carlinhos Brown, Tom Waits, Carlos Careqa, Tom Zé. É o seguinte: se fôssemos pegar os formadores mesmo, teria que botar Elomar, Chico Buarque. O repertório é de coisas que a gente está ouvindo e gosta de cantar e de alguma forma influenciam no que a gente faz.
Claudio – Tem [Gilberto] Gil também.
Bruno – Sim, Gil, um dos grandes mestres nossos.

E vocês, fora de Hein?, têm se encontrado de vez em quando, às vezes não no palco. Teve Rosa dos ventos, com que vocês ganharam o festival, um compondo, outro cantando. Estão sempre em contato.
Claudio – Que pagou a pré-produção de meu disco.
Bruno – Sempre. Sempre que eu venho à São Luís a gente se encontra. Nós, além de parceiros musicais, somos amigos. As primeiras audições de meu disco, eu sempre mando pra Claudio, música nova. Tem uma música que vai entrar no Hein?, chamada Senhora da alegria, que, assim que eu fiz, mandei pra Claudio. A gente se conhece, sabe que o outro vai gostar de ouvir. A gente está sempre em contato, é amigo.

E teu disco novo? Por que você mostrou muita coisa inédita lá na Ponta do Bonfim [Bruno Batista cantou na edição do evento que trouxe Danilo Caymmi à São Luís].
Bruno – Mostrei. Mas esse disco não vai ser para agora. Eu lancei o em março de 2014. Esse ano foi atípico para a produção no Brasil. Todo mundo lamentou não ter circulado, Copa do Mundo no Brasil, eleições, o dinheiro ficou apertado para todo mundo, não tinha verba de incentivo. Eu ainda não consegui fazer esse disco andar da maneira que eu gostaria. O ano que vem vai ser dedicado a tentar andar com , colocar ele na roda, então meu próximo disco vai ficar provavelmente para 2016. Mas a criação, a composição ela não para. Ainda bem.

Claudio, você está trabalhando no terceiro disco e já comentaram o projeto de gravar um disco em conjunto. Algum sonho de fazer um disco teu cantando só músicas de Bruno?
Claudio – [gargalhadas]. Eu faria um disco só com músicas de Bruno.
Bruno – É. Tem dois discos para fazer: o nosso e esse, que eu farei com o maior prazer do mundo.

E você está envolvido com o de Naeno [compositor piauiense, tio de Bruno], não é?
Bruno – O disco de Naeno é um disco que me deu um superprazer. Além de ser meu tio é um compositor que eu acho maravilhoso. Inclusive, agora que tu falou, me deu uma pena de não ter colocado uma música de tio Naeno nesse show, cara.

Ainda dá tempo!
Bruno – [gargalhadas] O disco de Naeno eu fiz a produção artística, chamei Swami Jr. [violonista] e Guilherme Kastrup [percussionista] para a produção musical, tem participações especiais de Monica Salmaso, Chico César, Zeca Baleiro. Eu peguei o repertório dele todo, selecionamos 13 faixas, algumas já gravadas, outras completamente inéditas. Eu queria fazer um panorama da obra dele. Era a primeira vez que ele ia fazer um disco fora, com esse tipo de músico, esse tipo de produção, achei que merecia isso. Tá lindo, tá muito bonito, está sendo prensado agora, até o Natal deve estar pronto, e a gente deve lançar ano que vem. Esse disco tem uma curiosidade: o Dominguinhos ia participar dele. Eu liguei para Dominguinhos, ele estava saindo de Recife para Fortaleza, e falou “olha, chegando em Fortaleza daqui a uma semana”, ele só andava de carro, “e lá eu vou gravar a participação no disco de Naeno. Nesse meio tempo ele adoeceu terminalmente e a gente não teve a oportunidade de ter Dominguinhos no disco, que é uma grande referência pra meu tio. Nossa, seria pra gente uma honra imensa. Mas apesar disso o disco está maravilhoso.

Apesar de uma banda enxuta estão escudados pelo que há de melhor, em termos de instrumentistas, em São Luís, no Maranhão. Como é que foi a escolha dessa banda, o entrosamento de vocês?
Claudio – A gente já trabalha com Luiz Jr., eu, Bruno separadamente. Você já fez um show com essa formação, né?
Bruno – Só Jr. e Rui Mário.
Claudio – E deu vontade de chamar alguém da nova geração pra dar uma provocada. A gente chamou o Simas.
Bruno – Pra misturar as linguagens.
Claudio – E tirá-los de uma zona de conforto. Eu adoro estranhamento, adoro botar músico pra brigar [gargalhadas]. Meu primeiro disco foi um dj [Eduardo Corelli], não é músico, tem uma cultura musical maravilhosa. Na época ele se travestia, tu imagina o cara vir de São Paulo e chegar lá no estúdio de Henrique Duailibe [gargalhadas]. No primeiro momento já teve aquele [gesticula e imita sons de objetos se quebrando]. E ele não sabia da linguagem musical, andamento, tom. E me perguntavam: “como é que tu quer, Claudio?” “Eu não sei, resolvam!”. Foi assim que surgiu o primeiro disco.
Bruno – É isso! A gente queria misturar linguagens. Tem o Jr. e o Rui, que a gente toca há muito tempo, eu sou fãzaço dos dois, e a gente queria fazer um show acústico. Eu sou compositor, por excelência. Claudio é intérprete, adora canção, adora letra, aquele universo da canção. A gente pensou numa formação mais acústica, menor, onde a canção fosse a vedete e as letras fossem bem ditas, bem compreendidas, e nisso, querendo misturar linguagens, a gente optou por essa formação, que tá dando o maior pé, da maneira como a gente pensava ser. Vai ficar foda!

Há perspectiva de temporada, turnê?
Bruno – [enfático] Tem! Eu não vou ter medo de falar isso em entrevista, é até uma forma de a gente se cobrar depois.

Tim Maia: bom filme, apesar dos problemas do livro que o inspirou

 

Em Vale tudo: o som e a fúria de Tim Maia [Objetiva, 2007, 392 p.], de Nelson Mota, o cantor genial e doidão começa pesando 60 quilos em 1954 e termina com 120 em 1997 – morreria em 15 de março de 1998, e a última frase do livro trata justamente disso.

Maior problema do livro, essa cronologia do peso – por que por demais linear – é também o maior problema de Tim Maia [Brasil, biografia, 140 minutos], filme de Mauro Lima inspirado no livro do jornalista.

Talvez por que a vida de Sebastião Rodrigues Maia tenha sido, por si só, cheia de altos e baixos. Do menino entregador de marmitas ao primeiro lugar nas paradas com o disco de estreia, à prisão por roubos e posse de drogas nos Estados Unidos, à gravação de Roberto Carlos para Não vou ficar, à adesão do artista a seita Universo em Desencanto: está tudo lá.

Tim Maia, o filme, de fotografia inspirada, consegue resgatar o clima e o ambiente de uma época, percorrendo o que de mais importante aconteceu na trajetória meteórica do biografado, cuja vida curta – morreu aos 55 anos, vítima dos excessos a que se submeteu – mesclou, em iguais proporções, a genialidade e a doideira.

Um dos grandes trunfos do filme é justamente não optar por um ou outro Tim Maia, mas tentar mostrar que suas duas bandas se retroalimentavam – e às vezes entravam em curto-circuito.

Outra opção interessante é a história ser narrada por Fábio (Cauã Reymond) – Juan Zenón Rolón, cantor paraguaio radicado no Brasil, inicialmente padrinho de Tim na noite carioca, depois músico de sua banda –, autor de outro livro sobre o professor de violão de Roberto e Erasmo: Até parece que foi sonho: meus trinta anos de amizade e trabalho com Tim Maia [Matrix, 131 p.], lançado no mesmo ano do livro de Nelson Motta.

Personagem controverso, sobretudo depois das discussões sobre biografias não autorizadas – suscitadas sobretudo a partir da censura que impôs a Paulo César de Araújo e a Editora Planeta por Roberto Carlos em Detalhes –, o Rei, ainda antes de receber a coroa, é retratado de forma exageradamente caricata.

Por falar em biografias, Tim Maia é um capítulo importante da cinematografia brasileira de um gênero que, apesar de cada vez mais difícil de ser realizado, tem produzido bons frutos ao longo dos últimos anos.

Chorografia do Maranhão: Osmarzinho

[O Imparcial, 5 de janeiro de 2014]

Radicado há três anos em Belo Horizonte/MG, onde cursa bacharelado em Música na UFMG, Osmarzinho é o 23º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVÂNIO ALMEIDA SANTOS

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Acompanhado do pai coruja Osmar do Trombone [Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 23 de junho de 2013], o saxofonista Osmarzinho recebeu a chororreportagem no aconchegante Cafofo da Tia Dica, botequim-restaurante por detrás da Livraria Poeme-se, na Praia Grande.

A cidade andava a passos lentos, no recesso entre o Natal e o Ano Novo e no Centro Histórico não era diferente: o movimento era fraco para uma tarde de sexta-feira. A Chorografia do Maranhão aproveitou a passagem do músico pela Ilha: ele veio visitar e passar as festas de fim de ano com a família.

Osmar Pereira Furtado Junior nasceu em 4 de março de 1982, em São Luís. Filho de Osmar Pereira Furtado, o Osmar do Trombone, e Anete Lauleta Furtado, dona de casa, hoje sócia-proprietária da Lauleta’s Pizzas, na Cohab.

Osmarzinho – como era chamado nas rodas de choro em São Luís – ou Osmar Jr. – como é conhecido nas de Belo Horizonte –, como preferir o freguês, cursa Bacharelado em Música na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com o saxofone como instrumento específico. O primeiro entrevistado da série em 2014 mora há três anos na capital mineira e terminará a graduação no fim deste ano.

Antes de resolver dedicar-se integralmente à música, com o apoio da família, cursou ainda quatro períodos de Administração e, antes, arriscou-se num curso técnico em Eletrônica, de nível médio. Mas confessa: entrou no Cefet [hoje Ifma] só por causa da banda de música: “passou dois anos, eu não toquei nem uma vez, aí eu larguei o curso”.

A entrevista que Osmarzinho concedeu à Chorografia do Maranhão foi musicalmente ilustrada por Natureza, de Saraiva, e Saxofone, por que choras?, de Ratinho, imortalizada por Abel Ferreira, referências para seu fazer musical. Os irmãos Almeida Santos seguraram as lágrimas ao lembrar-se de Raimundo Juruca, para quem o primeiro era simplesmente “o rei do sax soprano”. Afinal de contas, é ao falecido pai que devem a paixão pelo choro.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Além de músico você tem outra profissão? Hoje em Belo Horizonte você está trabalhando profissionalmente com música? Não. Só músico mesmo. Eu trabalho com música. Estou em Belo Horizonte só com música mesmo. Profissionalmente com música. Em vários grupos.

Não tem uma pensão do Osmar [do Trombone, pai de Osmarzinho]? De vez em quando ajuda. Eu ganho uma bolsa da faculdade, mas quando a coisa aperta eu digo “opa, manda uma grana aí que o negócio apertou!”

[Osmar do Trombone] Tu fizeste ainda o quarto período de Administração.

[Osmarzinho] É, fiz o quarto período, mas minha cabeça estava voltada só para a música. Aí eu não consegui, peguei e tranquei, falei lá em casa: “ó, o meu lance é música. Eu vou estudar pra fazer o vestibular de música”. Aí eu lembrei que tinha Belo Horizonte, eu tinha pegado uma aula com um professor de saxofone, o Dilson Florêncio. Aí passei na primeira etapa, fui fazer a segunda, voltei pra São Luís, pra receber o resultado, passei, e fui embora em definitivo, pra começar o ano letivo.

Você tinha parentes em Belo Horizonte? Não.

Osmarzinho, o fato de você vir de uma família musical, ajuda ou atrapalha? Ajuda muito. Eu tive muito contato, no ambiente familiar, muito contato com a música a partir daí. Ouvindo muita música instrumental, principalmente samba, choro. Eu peguei o choro e o samba como referências.

Como é que o sax apareceu para você? Como é que foi essa decisão? Desde quando você começou a estudar música e a partir de quando você escolheu o sax? Foi aos 14 anos. Eu comecei a ter o contato com a música mesmo. Eu aprendi a ler partitura, primeiro, com meu avô, aí eu comecei a tocar teclado. Comprava revistinhas. Aí fui passar as férias na casa de meu avô e ele chegou pra mim: “meu filho, tu não quer aprender a tocar saxofone?” “Eu quero!”. Aí eu me interessei, ele me passou a escala do instrumento, eu fui praticando, peguei afinidade com o instrumento. Já com o trombone, antes de eu pegar saxofone eu tentei soprar o trombone, mas não tinha jeito, não tinha embocadura nenhuma.

[Osmar do Trombone] Eu fiquei frustrado com isso [risos dos chororrepórteres].

[Osmarzinho] Até hoje eu tou só no saxofone.

[Osmar do Trombone] Todos os saxes, né, Junior?

[Osmarzinho] Isso, todos os saxes.

Osmarzinho, não teve nenhuma restrição à tua atividade musical? Ou sempre teve apoio? No sentido de que você vem de uma família musical em que todos desenvolveram atividades musicais paralelas, teu pai na Cemar, teu avô, salvo engano tinha outra profissão. Não teve um negócio do tipo “vai fazer outra coisa” e música ficar em segundo plano? Eu comecei a fazer Administração e minha mãe queria que eu seguisse outra profissão pra ver se eu tinha um retorno financeiro mais rápido, mais seguro. Só que eu comecei a fazer, achava que era isso que eu queria. Mas acho que a gente tem que escolher uma profissão que a gente goste realmente. Por que se não a gente não consegue fazer nada.

Você se sente feliz? Eu me sinto feliz ao fazer música. Independentemente de ganhar muito ou pouco ela está em primeiro lugar para mim.

Como é tua vida de músico profissional em Belo Horizonte? Com que frequência você toca e como é conciliar isso com as atividades acadêmicas? Lá eu toco mais nos fins de semana, nas sextas e sábados. Durante a semana, de segunda a sexta, eu fico mais na faculdade. Lá dentro eu participo de vários grupos, de formações diferentes. A gente tem esse trabalho, tem as disciplinas em que a gente pode se inscrever.

Um desses grupos é o Quarteto de Saxofones, que participou do disco de Osmar [do Trombone, Cinco Gerações, 2013], não é? É. O Quarteto de Saxofones é uma das disciplinas do meu curso, que eu posso ou não participar em cada semestre.

A tua chegada à universidade, sendo um cara que já tocava, inclusive muito bem, em vários grupos aqui em São Luís, como é que foi a acolhida junto a outros músicos, a professores? Como é que eles avaliaram a tua chegada e qual foi a repercussão imediata quando te viram tocar? Assim que eu cheguei lá eu escolhi um grupo, a Big Band. Fiz um teste para bolsista, passei, desde o primeiro semestre. Comecei a fazer os ensaios. Começaram a me ver tocar, com uma pegada já bem desenvolvida no instrumento, e fui aprimorando a cada semestre. Eles gostaram muito. Ficaram meio admirados, por eu vir do Nordeste, um lugar tão longe.

Você toca os quatro tipos de saxofone, não é? Sim. O sax soprano é o que eu toco, o que eu comecei. O saxofone alto é o que eu estudo no curso de bacharelado. Eu faço meu curso todo com o saxofone alto. Se eu quisesse optar pelos outros, em cada semestre fazer um tipo de saxofone, eu poderia. Mas eu optei pelo alto até acabar o curso. Mas nas outras disciplinas, em outras formações, outros grupos, eu toco sax tenor e o último saxofone, que eu estou passando a tocar agora, é o sax barítono, tem seis meses.

Para um leigo em música, além do timbre, quais as diferenças entre estes instrumentos? Sax soprano é o instrumento mais agudo. É sax soprano, contralto ou sax alto, tenor e barítono. Como se fosse a classificação da voz humana. Em questão de adaptação é mais a questão da boquilha mesmo, de jogar o ar pra dentro do instrumento, é de forma diferente. O timbre de cada um: mais agudo, mais grave, mais médio. Cada tipo de música a gente adapta para um instrumento diferente.

Você pretende fazer logo mestrado? Como você está encarando a questão acadêmica? Ou, terminando, pretende voltar logo para cá? Pra eu voltar pra cá, só se eu tiver uma coisa garantida, algum concurso.

O mercado lá é melhor pra você? O mercado lá é melhor. A gente ganha até mais, tocando na noite. Tem uma tabela, não se pode pagar menos. Com relação ao mestrado acho que vou fazer mais lá pra frente. Eu quero apostar mais na vida profissional, tocar em um grupo em que eu seja reconhecido. Estou apostando nisso.

Outro maranhense que está lá é [o flautista] João Neto. Vocês se encontram? Como é o convívio? Tem uma colônia maranhense? O João Neto foi pra lá agora recente e já está se enturmando. Eu o apresentei a algumas rodas de choro, ele enturmou com a galera, já está tocando em grupos de samba. Eu sempre ligo pra ele: “e aí, Neto, dá pra gente ir lá na roda hoje?”, e ele: “vamos lá, eu cheguei, não dá pra ficar sem tocar aqui, não”. O pessoal está gostando muito do trabalho dele.

Qual a importância do teu pai nas tuas escolhas musicais, na tua carreira? É muito importante. Dos quatro filhos eu fui o único que escolheu o lado da música e abraçou. Eu escolhi a música para seguir como profissão. No caso dele, ele teve que fazer outras coisas para sobreviver. Era outra época. Ele me influenciou muito no ambiente familiar, eu sempre escutei música através dele. Isso me influenciou bastante para eu ter uma escolha musical assim.

Quem foram os teus grandes mestres do sax, além de teu avô, José Furtado? Assim que eu entrei na Escola de Música [do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo], eu tive o professor Cleômenes Teixeira, que chegou a dar aula lá, depois faleceu. Depois a Javandilma [Ferreira], peguei muita aula com ela, está em Recife agora. E teve Tomaz de Aquino, mestre Tomaz. Depois disso a convivência com meu avô e com meu pai, tocando em rodas de choro, música carnavalesca.

Você falou há pouco que participa de vários grupos dentro da universidade, entre eles o Quarteto de Saxofones. Eu queria que você falasse dos outros e mesmo de grupos de que você participou aqui em São Luís e participa lá em Belo Horizonte, fora do universo acadêmico. Lá dentro da universidade eu toco na Big Band, no Quarteto de Saxofones. Tem um grupo, em uma matéria em que a gente toca as músicas do Moacir Santos…

[Os chororrepórteres interrompem, espantados] Moacir Santos é uma matéria? Isso é sensacional! É. Tem dois anos que eu tou fazendo essa disciplina. São esses grupos em que eu trabalho dentro da universidade. E fora da universidade eu toco em banda de samba rock, Joãozito e A Parceria. Joãozito é o nome do cantor e o resto do conjunto é A Parceria. Também fazemos banda de baile. Tem um grupo instrumental, Os Oito, é bem recente, tem um ano agora, são seis sopros, três saxofones, um trompete, dois trombones, um baixo e uma bateria. A gente toca só música brasileira. No último evento em que a gente tocou Silvério [Pontes, trompetista] veio, tocou uma música dele, o grupo fez o arranjo para ele tocar, foi muito bacana. Lá em Belo Horizonte é isso.

E antes, em São Luís? De que grupos você participou? Em São Luís eu participei de bandas de forró, Fogo da Paixão, Cana com Uva, bumba meu boi, Osmarmanjos, Os Cinco Companheiros.

O que significou para você, como músico, tocar nOs Cinco Companheiros? Foi o primeiro grupo em que eu pratiquei o repertório de choro e samba. Isso me ajudou muito a pegar experiência como músico. Até meu pai, quando eu tocava, bem no começo, eu tocava só lendo partitura. E ele falou: “rapaz, tem que tocar de ouvido, se não tu vai ficar bitolado”. Aí eu fui desenvolvendo o ouvido. Me ajudou bastante.

Você acha que Os Cinco Companheiros acabou ou está de recesso? [Osmar do Trombone] Ele [o grupo] está adormecido.

[Osmarzinho] É, ele está de recesso, adormecido. Aqui [em São Luís] eu acho que o Clube do Choro ainda vai voltar a juntar a galera. Não pode deixar morrer. Tem que juntar os grupos, mesmo que não tenha retorno financeiro, nem que seja uma vez por mês, numa praça.

O que significou para você tocar neste disco [Cinco Gerações]? Achei muito importante. Pelo fato de eu ter saído para Belo Horizonte, eu já fui divulgar a nossa música, maranhense, como resgatar as coisas da minha família. Foi uma coisa que eu conquistei durante esse tempo que eu estou lá. É a realização de um sonho, não só meu, mas de meu pai também, da família toda.

[Osmar do Trombone] Fala do último dia 4 [de dezembro de 2013], que a gente foi homenageado lá no Palácio das Artes.

[Osmarzinho] No Palácio das Artes meu pai foi entrevistado. Eu fiz uma prova para ser bolsista de um grupo de choro do Palácio das Artes. A diretora do Palácio das Artes, Patrícia Avelar, deu oportunidade para cada componente, se tivesse uma música autoral, inserir no repertório. Eu peguei e coloquei uma música do meu pai, que é o título do cd, Cinco Gerações. Ela pegou e falou: “tu não quer fazer uma entrevista com teu pai? Contando a história das cinco gerações?” Eu topei na hora, marcamos os dias, coincidiu de meu pai estar lá na data. Ele deu a entrevista, falou sobre as cinco gerações, tocou a música. No dia 4 teve um show no teatro do Palácio das Artes, eles mostraram a entrevista no vídeo, aí eu chamei meu pai para tocar a música junto comigo.

Você falou de sua receptividade em Belo Horizonte, mas a gente percebe que teu pai também foi muito bem acolhido. Como você percebe, como filho, a chegada de teu pai na capital mineira? Antes de meu pai ir à Belo Horizonte eu já falava de meu pai: papai toca trombone, toca choro pra caramba. Ele foi lá e a primeira roda que eu levei foi lá no Mosteiro [bar, reduto chorístico da capital mineira]: “esse aqui que é meu pai”. “Ah, rapaz, tu trouxe teu pai mesmo. Tu vivia falando, agora eu quero ver”! Aí ele tirou o instrumento e mandou ver.

[Osmar do Trombone] Apareceram vários anjos da guarda lá, inclusive gente que patrocinou o cd.

Cinco Gerações foi tua primeira experiência de estúdio ou você já tinha feito outros discos? Eu já tinha gravado outras músicas em outros CDs, de amigos. Mas experiência de produzir um cd, é a primeira vez, assim. E não é muito fácil, não. Fazer arranjos, pensar um monte de instrumentos.

Por falar nisso, além de instrumentista, que outras habilidades você desenvolve na música? Eu gosto de interpretar, estudo pra isso. Composição tem um choro em que eu comecei a trabalhar. Faço arranjos, principalmente de sopro.

[Osmar do Trombone] Tem uma disciplina [de arranjo, na faculdade].

Você falou em discos de amigos nos quais gravou. Pode citar alguns? Gravei disco de vários estilos: brega, Tatau Matos, Fuzileiros da Fuzarca, Vagabundos do Jegue, Gabriel Melônio, Boi Brilho da Ilha, Boi de Palha. Basicamente foram esses.

O que é o choro para você? E qual a importância dessa música, na tua opinião? É um dos gêneros musicais que eu mais aprecio e mais tenho prazer em tocar, mais me satisfaz musicalmente. Apesar de eu tocar outros gêneros.

O choro é uma escola, para você? É uma escola. A gente pode pegar técnica, sonoridade, improviso. Se eu for escolher uma música para improvisar eu prefiro improvisar dentro do choro.

Osmarzinho, você se considera um chorão? Considero. Hoje eu me considero. Por essa jornada, esse mergulho que a gente deu. Hoje tenho uma identidade de chorão.

Em algumas rodas de choro, toda a experiência musical por que você passou, você foi levado por seu pai, suponho. Quando você faz isso com ele em Belo Horizonte, tem uma retribuição aí? Ele te apresentou ao mundo da música e você agora apresenta a ele a Minas da música. Tem. Até hoje eu tenho aprendido com ele. A gente nunca deixa de estar aprendendo. Todo dia a gente está aprendendo alguma coisa com alguém. Você tem um conhecimento, eu tenho outro, a gente troca e está sempre aprendendo.

Você viveu o choro em São Luís e agora vive o choro em Belo Horizonte. Dá para fazer um comparativo? As diferenças estão mais nas composições. As daqui vão puxar para o lado mais rítmico da região, eu já observei isso. Lá de Minas já puxa mais pro lado do congado, das danças mais tradicionais.

Você acha que a cultura popular influencia o choro tanto lá quanto aqui? Influencia muito. As células rítmicas, como têm aqui, no bumba meu boi, até as composições de meu pai, ele coloca algumas frases. Influencia bastante, está dentro da alma da pessoa, da cultura de cada região. Foi mais nesse aspecto que percebi.

Você acha importante atualizar o choro, renovar? Ou é importante ter as duas coisas: o tradicional e os inovadores? É importante renovar, mas com cuidado. Para não fugir da proposta que o choro passa. Às vezes as pessoas confundem tocar choro e inserir outros estilos dentro do choro, e começa a fugir um pouco da tradição do choro. Eu acho que não é muito interessante, não.

Você tem alguma influência do jazz no fazer musical, saxofonístico? Eu escuto mais jazz do que toco. Acaba que a gente pega uma influência, de tanto escutar. É como perguntaram para o Silvério Pontes: “você toca jazz?” E ele: “não, eu só escuto”. Chet Baker, Miles Davis, eu gosto de escutar, direto. Mas acaba que a gente vai absorvendo isso e a gente vai pegando umas frases naturalmente, sempre vêm. Não tem como deixar de ter [influência].

Os três anos que você está fora coincidem com o fim do [projeto] Clube do Choro Recebe. Você tem acompanhado a cena do Maranhão? O que você tem percebido depois disso? Em relação a cenário, comportamento de donos de bares e grupos, que não deixaram de existir, mas deixaram ao menos de se apresentar? Eu estou meio por fora. Quando as coisas estão acontecendo em um lugar, tem um movimento, a gente fica sabendo, logo de imediato, de um jeito ou de outro. Nunca mais eu ouvi falar nada de São Luís. Eu acho que está um pouco apagado, adormecido. Eu estava conversando com João Soeiro [violonista, integrante dOs Cinco Companheiros], ele disse que ia armar algo pra gente se encontrar.

Osmar, qual é a sensação para um pai, ver o filho fazer essa escolha e seguir a profissão do pai e ir além? [Osmar do Trombone, emocionado] Tu é doido? Sem palavras!

É motivo de orgulho? [Osmar do Trombone, chorando] Demais! Inexplicável, indescritível a emoção que a gente sente, de ver. Os outros filhos cada um seguiu uma profissão. Mas o filho que segue a profissão que você abraça, que você incorpora, a musicalidade. Isso aí é indescritível.

Noite de gala para Patativa

[texto escrito às pressas, ontem, a pedido do amigo Gutemberg Bogéa. Saiu no JP Turismo, Jornal Pequeno, hoje]

Emoção e autenticidade marcaram show em que a sambista de 77 anos lançou Ninguém é melhor do que eu, seu disco de estreia

TEXTO: ZEMA RIBEIRO
FOTOS: MARISTELA SENA

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Há certas facetas de que só Patativa é capaz. Lotar o Porto da Gabi em plena quarta-feira, por exemplo. Mas o motivo era dos mais justos: o lançamento de seu tão aguardado disco de estreia, que finalmente chegava aos ouvidos de quem aprecia a música de qualidade produzida no Maranhão.

O Samba na Fonte, grupo que ocupa com música a Fonte do Ribeirão, um dos cartões postais do Centro Histórico ludovicense, foi reverenciá-la. Vez por outra ela dá canjas na paisagem.

Os DJs Joaquim Zion e Marcos Vinicius, residentes da casa, misturaram reggae, merengue e música brasileira para recebê-la. A noite era dela, a diva, a madredivina dama, em noite de estreia e gala, aos 77 de idade, que nunca é tarde e “quem espera por Deus não cansa”, como ela mesmo não cansa de dizer.

Pelas mãos de Luiz Jr., produtor musical, e Zeca Baleiro, diretor artístico, Ninguém é melhor do que eu, o disco, chega ao mercado pela Saravá Discos, selo que Baleiro inventou e em que investe energia e um punhado de dinheiro do próprio bolso para lançar nomes em que acredita, que valem a pena. Foi assim com Antonio Vieira, com Lopes Bogéa e agora com Patativa, entre outros.

Ninguém é melhor do que eu tem participações especiais de Zeca Baleiro em Santo Guerreiro, Simone em Saudades do meu bem querer e de Zeca Pagodinho na faixa-título. No repertório, além de Xiri meu, por demais conhecida em rodas boêmias da Ilha, estão ainda Rosinha, gravada por Fátima Passarinho no único disco do grupo Fuzarca (integrado ainda por Rosa Reis, Cláudio Pinheiro, Inácio Pinheiro e Roberto Brandão), e Colher de chá, gravada por Lena Machado em Samba de Minha Aldeia (2009).

Após samba e discotecagem, a exibição de Xiri meu, documentário curta-metragem de Tairo Lisboa preparava o público – como se precisasse – para o que viria a seguir. A noite era dela, repita-se. Na tela, depoimentos de amigos e admiradores: o compositor e jornalista Cesar Teixeira, o ator e incentivador Fumaça, o sociólogo e radialista Ricarte Almeida Santos, o feirante Corintiano. Patativa caminha tranquilamente pela Feira da Praia Grande, ruas da Madre Deus e da Vila Embratel, onde mora atualmente. Tudo isso regado a seus sambas, trechos do que se ouviria completo no show.

Escudada por Luiz Jr. (violão sete cordas e direção musical), Robertinho Chinês (cavaquinho), Elton (flauta e sax), Davi (contrabaixo), Oliveira Neto (bateria), Lambauzinho (percussão), Wanderson (percussão), Philippe Israel (vocais) e Lena Machado (vocais), Patativa mostrou, sem ser arrogante, por que Ninguém é melhor do que eu.

Cantou quase o disco inteiro, um apanhado de sambas acima da média, além de cinco inéditas. Sua espontaneidade e jovialidade marcantes contagiaram o público, em uma noite realmente mágica. Tudo jogava a favor: o vento das margens do Bacanga, a qualidade do som, o ambiente, cuja proprietária e seu marido, Gabi e Josemar, são personagens de Samba dos seis, uma das músicas do repertório.

A noite foi coroada ainda com as participações mais que especiais de Lena Machado, que dividiu Colher de chá com a autora, e Zeca Baleiro, que cantou e fez graça com ela em Santo guerreiro e na faixa-título.

O som dos tambores dos Filhos de Dadinha (outro apelido da compositora, este da intimidade de sua casa) encerraram a noite em grande estilo. Até nisso Patativa surpreende: em vez de botar uma saia e rodar, mostrou ao público mais uma composição, no ritmo das batidas frenéticas de Josemar, Peixinho e cia.

*

Confiram Patativa em Ninguém é melhor do que eu (com participação especial de Zeca Pagodinho)

Ramusyo Brasil em dose dupla

Arte: Ricardo Coutinho (Maca)
Arte: Ricardo Coutinho (Maca)

Hoje o professoramigo Ramusyo Brasil tem dose dupla de lançamento: às 20h no Cine Praia Grande (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande) ele realiza sessão de pré-lançamento de Maranhão 669 – Jogos de Phoder, um “filme de terror político”. A entrada é gratuita. Os ingressos devem ser retirados na bilheteria com meia hora de antecedência.

Na sequência, às 23h, no Porto da Gabi (Aterro do Bacanga), ele lança O reggae no Caribe brasileiro, fruto de sua tese de doutorado Reggae no Maranhão: música, mídia, poder, defendida em 2011 no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da PUC/SP. Sua pesquisa foi contemplada com prêmios de Melhor Tese de Doutorado da Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Ciências Sociais (Anpocs, 2011) e Melhor Tese de Doutorado da área de Ciências Humanas e Sociais (Fapema, 2012). O livro, financiado pelo edital de apoio à publicação da Fapema, sai pela editora Pitomba.

Arte: Ricardo Coutinho (Maca)
Arte: Ricardo Coutinho (Maca)

Festival BR 135 será lançado quinta-feira (20) no MHAM

Divulgação

 

Nesta quinta-feira (20), às 19h, no Museu Histórico e Artístico do Maranhão (MHAM, Rua do Sol, 302, Centro), o duo Criolina, em evento para convidados, lança o Festival BR 135 e o Conecta Música, que ocorrerão em paralelo, em dezembro, na capital maranhense, e prometem sacudir a Ilha.

Já estão anunciados nomes como Céu, Dona Onete, Felipe Cordeiro e Mombojó, além dos selecionados pelo festival (lista completa na imagem acima).

Idealizador do Festival ao lado de Luciana Simões, Alê Muniz afirma que a intenção é mapear os vários Brasis existentes unindo-os através da música. Para ela é preciso “repensar o Centro Histórico, reconhecido patrimônio cultural da humanidade pela Unesco, mas abandonado pelo poder público”. “Nosso maior patrimônio não é o conjunto arquitetônico, mas sua relação com as pessoas da cidade”, provoca Luciana.

Shows – Céu abre o Festival BR 135 dia 18 de dezembro, no Teatro Arthur Azevedo. Os demais shows acontecem na Praça Nauro Machado (Praia Grande), dias 19 e 20. A programação do Conecta Música inclui palestras, oficinas e workshops. O blogue voltará ao assunto.

Confiram Céu em Retrovisor:

Obituário: Marco Cruz

Foto: Fernando Motta (facebook)
Foto: Fernando Motta (facebook)

Faleceu ontem (10), vítima de um câncer no estômago, o compositor Marco Cruz. Soube ao ligar o rádio para ouvir o Santo de Casa, na Universidade FM (106,9MHz). Não entendi direito – ou não quis acreditar – e liguei para a produção perguntando.

Tocaram duas músicas suas, em sequência: Bangladesh, em que ele divide os vocais com Mano Borges na faixa-título do disco que este lançou há aproximadamente 20 anos – justamente a primeira vez que ouvi sua bela voz e falar em Marco Cruz – e a toada Moderna Mocidade, do Boi da Mocidade de Rosário, grupo para o qual forneceu outras crias para o repertório.

As últimas menções ao nome de Marco Cruz em minha memória estão ligadas aos shows de gravação – de que integrei a equipe de assessoria de comunicação – e lançamento do disco ao vivo Milhões de uns, estreia de Joãozinho Ribeiro no mercado fonográfico. Este resgatou do cofo de parcerias Cidade minha, que interpretou junto com o Coral São João, e Tá chegando a hora, marchinha carnavalesca que encerra o disco fruto dos shows, em que, com todos os convidados, Joãozinho canta: “tá chegando a hora/ de anunciar a despedida”.

Há algum tempo não surgiam notícias que relacionassem o recém-falecido compositor, também técnico em informática, à música. No entanto, o também parceiro Zé Lopes anunciou que Marco Cruz deixa inacabado um disco em que estava gravando Salmos que havia musicado.