Quase crônica em comentário a telefonema de ouvinte a rádio AM

O chargista Carlos Latuff dando a real sobre a redução da maioridade penal em charge de 2010
O chargista Carlos Latuff dando a real sobre a redução da maioridade penal em charge de 2010

 

Em comentário em rede social que cito de memória, Bruno Azevêdo afirmou, certa vez, que telefonemas a rádios AM dariam bons contos. Ou crônicas, já não lembro. Tão bons que bastaria gravar e transcrever as ligações e publicar. Escriba de raro talento, ele tem razão.

Como se o trânsito já não me estressasse o suficiente, normalmente dirijo ouvindo AM. Vez por outra sintonizo uma FM, a depender do horário, da qualidade da música tocada e, o que quase sempre enseja a mudança, das opiniões reacionárias propagadas pelas amplitudes moduladas: enojam-me mais as de certos colegas radialistas que as de ouvintes em geral.

O fato é que, hoje pela manhã, enquanto dirigia, após ouvir diversas notícias entre as quais as dos assassinatos de um vereador em Santa Luzia, domingo, e de um estudante, durante um assalto a ônibus na capital, ontem, o telefone começou a ser usado pelos ouvintes para as esperadas colheradas no angu.

No caso, a defesa da redução da maioridade penal é uma espécie de unanimidade burra, como advertiria Nelson Rodrigues. O ouvinte começa seu alô dizendo o nome e o bairro em que mora, depois saúda o locutor e os ouvintes da rádio e do programa. A certa altura da ligação, ouvimos um “eu sou policial também”. Depois emenda com um “não estou incitando a violência” para finalmente destilar sua opinião – veneno que ninguém pediu.

Antes de desligar, ameaça a torto e a direito: “não nasci com farda na costa nem tenho paixão por emprego: comigo é elas por elas. Adolescente vagabundo que vier se meter com soldado Carlos vai levar” – omiti o nome real do policial, mas o programa tem grande audiência, então é capaz de os poucos mas fiéis leitores o saberem.

Não culpo Carlos por sua postura pública. Embora ele não tenha dito na ligação se é policial civil ou militar, disse que a profissão “é de risco”. Neste aspecto ele sabe o que fala. Ademais, na hipótese de ser militar, repete a opinião dos hierarquicamente superiores, incluindo seus representantes na Assembleia Legislativa e Câmara Federal.

Feito Carlos, grande parte dos que defendem a famigerada medida apenas repete clichês surrados ouvidos aqui e acolá. Desconhecem, por exemplo, estatísticas que dão conta de que cerca de 1% dos homicídios são cometidos por pessoas com 16 e 17 anos. Ou seja: você não soluciona um problema e, de quebra, aprofunda outro, gravíssimo, inchando ainda mais os superlotados locais de privação de liberdade do falido sistema penitenciário brasileiro.

Arte como arma: Chico César peita os reis do agronegócio

Para vocês, que emitem montes de dióxido,
Para vocês, que têm um gênio neurastênico,
Pobre tem mais é que comer com agrotóxico,
Povo tem mais é que comer, se tem transgênico.
É o que acha, é o que disse um certo dia
Miss Motosserrainha do Desmatamento.
Já o que acho é que vocês é que deviam
Diariamente só comer seu “alimento”.
Vocês se elegem e legislam, feito cínicos,
Em causa própria ou de empresa coligada:
O frigo, a múlti de transgene e agentes químicos,
Que bancam cada deputado da bancada.
Té comunista cai no lobby antiecológico
Do ruralista cujo clã é um grande clube.
Inclui até quem é racista e homofóbico.
Vocês abafam mas tá tudo no YouTube.

Trecho de Reis do agronegócio, parceria de Chico César (música) e Carlos Rennó (letra). Uma porrada de arrepiar!  Vejam e ouçam a obra-prima completa:

Arte e política em festa coletiva

O Coletivo Gororoba. Foto: divulgação
Show marca ingresso de Áurea Maranhão no Coletivo Gororoba. Foto: divulgação

 

Um acontecimento artístico plural e com componentes políticos. É o que promete ser a ManiFesta, cujo título já traduz suas pretensões. Realização do Coletivo Gororoba e Conexão Espaço Habitação, o evento acontece neste sábado (25), a partir das 20h, na Guest House (Rua da Palma, 142, Centro). Os ingressos custam R$ 20,00 (R$ 10,00 antecipado, meia entrada e na lista amiga, pelo e-mail coletivo.0.gororoba@gmail.com

A programação junta cinema, instalação, teatro, fotografia e música. Membro do Coletivo Gororoba, Ramusyo Brasil exibirá, na abertura da ManiFesta, o filme Maranhão 669 – Jogos de Phoder. “Nessa exibição será realizada uma tríplice projeção, com inclusão de imagens que ficaram fora da montagem final, além de jogos de percepção e atenção a partir das imagens projetadas nas diferentes telas”, anuncia o material de divulgação distribuído aos meios de comunicação.

Com Nayra Albuquerque e Luciano Linhares, Ramusyo Brasil também é autor da vídeo-performance Massa estanque, baseada na intervenção urbana Cegos, do grupo paulista Desvio Coletivo, apresentada pelas ruas de São Luís na 9ª. Aldeia Sesc Guajajara de Artes do ano passado. Às 21h a vídeo-performance será trilhada ao vivo pelo trio de autores.

A partir das 21h30, de meia em meia hora, Áurea Maranhão, Luciano Teixeira, Tieta Macau e Ruan Paz apresentam, respectivamente, Tá tudo à venda, Não é vício, A loira no banheiro, O’Culto. A primeira performance de corpo, um work in progress, terá escolha de três cenas pelo público, a serem interpretadas pela atriz.

Fotografia de Adnon Soares foi amplamente repercutida em redes sociais denunciando o exagero do aparato policial para conter manifestações de estudantes contra o aumento das passagens de ônibus em São Luís
Fotografia de Adson Carvalho foi amplamente repercutida em redes sociais denunciando o exagero do aparato policial para conter manifestações de estudantes contra o aumento das passagens de ônibus em São Luís

 

Desde as 20h, a fotografia também ocupará a Guest House. Diones Caldas exibirá a fotomontagem Fotos preto e branco de um banho de chuva, com fotografias realizadas e editadas com um telefone celular. No ensaio fotográfico R$ 2,80 é um roubo, Adson Carvalho explora as tensões das manifestações contra o aumento das passagens de ônibus na capital maranhense e os conflitos entre a Polícia Militar e estudantes nas ruas de São Luís. A foto-instalação Atlas #ProtestoBR, projeto de Bruno Barata, Carolina Libério e Jane Maciel, do Laboratório Experimental de Pesquisa em Redes, Visualidades, Tecnopolíticas e Subjetividades (MediaLab), vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), coleciona, através de uma plataforma online imagens dos protestos ocorridos no Brasil a partir de 2013.

Haverá ainda discotecagem de Dani P e Fernanda Preta. Às 23h30 acontece o show Coração Cordel Canção, do Coletivo Gororoba, com participações especiais de Madian, Criolina e Walberth Guimarães. O espetáculo tem “inspiração visual e sonora na música e no estar-no-mundo nordestinos”.

Futebol, política e rock n’ roll em debate

 

No geral, nada importa mais para o brasileiro médio que o futebol. Por causa do esporte se morre e se mata, num fanatismo inexplicável. Não à toa o tricampeonato mundial da Seleção Brasileira, no México, em 1970, com Pelé e companhia, foi usado como um reforço ao “ame-o ou deixe-o” travestido de civismo – e cinismo – da ditadura militar. Anos depois, o fim daquela década deu início ao maior movimento de contestação do regime dos generais em um clube de futebol: a Democracia Corinthiana.

O auge se deu em 1982 – quando a ditadura militar brasileira chegava à maioridade – e 83, com o Corinthians ganhando um bicampeonato paulista, com sobras de talento, futebol-arte, elegância e coesão. “Ganhar ou perder, sempre com democracia” era o slogan.

Paraense de nascimento, médico de profissão, socialista por opção, filósofo Brasileiro de batismo, Sócrates era o comandante da guinada à esquerda dentro do clube paulista, em que tudo passou a ser decidido coletivamente, reagindo a outra ditadura que ali se perpetuava, ganhando outras dimensões e conotações.

Os tempos eram outros, o rock brazuca, em seu nascedouro, ainda tinha algo a dizer, estádios não eram arenas, o futebol ainda não era apenas um esquema globalizado de jogadores com salários de cifras incontáveis, fora a publicidade, e ninguém tinha nada a ver com a vida privada dos craques.

Uma fala do apresentador Serginho Groisman sintetiza Democracia em preto e branco – futebol, política e rock n’ roll [Brasil, documentário, 90 min., direção: Pedro Asbeg], filme que resume bem essa história: estão ali os três assuntos do subtítulo, que em geral somos ensinados a não discutir – certamente por ranço da ditadura –, o último por mera questão de gosto (cada um tem o seu). Às vezes a conta era fechada com religião, outro assunto indiscutível – ouvi a advertência muitas vezes na infância e adolescência.

Narrado por Rita Lee e fartamente ilustrado pelo nascente brock e por golaços corintianos da época – torça-se ou não pelo alvinegro do Parque São Jorge, é inegável a categoria daquele elenco –, o filme traz depoimentos de músicos, jornalistas, jogadores de futebol e políticos, para contar um capítulo importante da história recente do Brasil, sob uma ótica bastante original.

*

Acontece hoje (24), às 16h, no auditório Mário Meireles (Centro de Ciências Humanas da Universidade Federal do Maranhão), a sessão de abertura da mostra Cinema Pela Verdade, que em 2015 chega à sua quarta edição.

Após a sessão, gratuita e aberta ao público em geral, este que vos perturba participa do debate com os professores Luiz Eduardo Lopes (História/ UFMA/ Pinheiro) e Adriana Facina (Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social/ Museu Nacional/ UFRJ), coordenadora pedagógica do projeto.

O “premium” dos maranhenses

Cesar Teixeira
Cesar Teixeira

 

Acabou se configurando profecia a charge acima, publicada no Vias de Fato de janeiro de 2010.

Utilidade pública

Cássio Loredano. piauí, #98, novembro/2014

 

“O declínio dos Sarney”. A manchete de capa da piauí #98, de novembro/2014, anuncia a ótima reportagem em que Malu Delgado relata a derrota eleitoral do mais longevo grupo político brasileiro.

Fui assinante da revista, em seu início, por dois ou três anos. Hoje é das que compro em banca, sempre.

Neste novembro já passei por Dácio (Praia Grande), Angela (Deodoro), seu João (João Lisboa) e outras bancas Ilha adentro. Nem sinal da publicação.

Pode ser uma espécie de último suspiro antidemocrático da oligarquia, como já fizeram com a Caros Amigos, quando a revista trazia “A candidata que virou picolé”, sobre o aborto das intenções presidenciais de Roseana Sarney, matéria de Palmério Dória (que depois transformou o texto num livrinho, que saiu pela mesma editora Casa Amarela que publicava a revista). À época também desapareceu das bancas maranhenses.

Diante de meus reclames, amigos e amigas ofereceram-se a comprar a revista em outros estados e me enviar, me ceder seu código de assinante, colar a matéria em word e me enviar e até mesmo me ensinar: “digite quaisquer nove números no campo do código de assinante e dá pra ler a íntegra do texto”.

Com o texto em mãos, colei-o na íntegra do facebook, anunciado por boa parte desse texto que colo aqui de novo. Sabe-se lá por que, talvez algum limite de caracteres por post que eu desconheça, a rede social publicou-o incompleto. Pois baixem-no aí em pdf e espalhem!

Comunicação e Cultura: tentando colaborar com o debate ausente

[Do site do Vias de Fato]

Vias de Fato entrevistou, por e-mail, dois escritores, um professor de Comunicação Social, uma cantora e um compositor sobre dois temas completamente ocultados pelo debate eleitoral no Maranhão (e no Brasil)

POR ZEMA RIBEIRO

16 de setembro de 2014, 8h31. Disparo um e-mail para mais de 50 destinatários, com cinco parágrafos explicando a ideia e sete perguntas.

O texto era esse aqui.

Abre aspas.

Se você recebeu este e-mail, certamente tem atuação nas áreas que pautam a pequena entrevista abaixo – comunicação e/ou cultura.

A entrevista coletiva – ao contrário do usual, um pergunta e vários respondem – está sendo enviada a várias pessoas, que responderão o que quiserem, como quiserem – só não vale usar pseudônimo. Pedimos apenas que o façam até a próxima sexta-feira (19), sem falta, para que possamos batucar a edição no fim de semana e fecharmos o próximo número do jornal Vias de Fato.

O modelo de questionário tem origem no Fluxo (a série de entrevistas Sociedade da informação), coletivo de jornalistas sediado em São Paulo. Lá eles trataram a política de forma mais abrangente e entrevistaram apenas escritores. Aqui, restringimos a pauta à cultura e comunicação e ampliamos o leque de entrevistados – escritores/as, cantores/as, compositores/as, instrumentistas, atores/atrizes, artistas plásticos/as, professores/as, jornalistas, produtores/as, djs etc., etc., etc.

A ideia é abarcar os problemas relacionados aos assuntos e tentar colocá-los na agenda eleitoral, que os esqueceu completamente, sobretudo no Maranhão, onde os temas carecem de debates urgentemente. Caso tenhamos esquecido de mencionar algum aspecto que você julgue importante, fique à vontade para fazê-lo.

Junto às respostas, pedimos ainda a gentileza de encaminhar uma foto, para usarmos na ilustração do material, e um pequeno currículo/biografia, de em torno de cinco linhas. Zema Ribeiro e o Vias de Fato agradecem antecipadamente a sua contribuição.

Fecha aspas.

O e-mail tinha o título “Entrevista: Comunicação e cultura ausentes da agenda nas eleições 2014”.

20 de setembro de 2014, manhã. Esgotado o prazo estipulado, apenas cinco mensagens de retorno, com as devidas respostas: Bruno Azevêdo, Carlos Agostinho Couto, Tássia Campos, Herbert de Jesus Santos e Gildomar Marinho (na ordem da chegada de suas respostas).

Admito: não era um questionário de entrevista dos mais fáceis e curtos.

De acordo com as minibiografias enviadas, Bruno Azevêdo (também um dos entrevistados pelo Fluxo) é “escritor, editor e galã de fotonovelas. Escreveu O Monstro Souza, A intrusa, Breganejo Blues e mais cinco livros de ficção. Em novembro lança Em ritmo de seresta, sobre a seresta e a música brega no Maranhão”; Carlos Agostinho Couto é “jornalista e professor da UFMA. É editor da revista Cambiassu do Departamento de Comunicação Social da UFMA e, entre outras obras, publicou os livros Estado, Mídia e Oligarquia, pela EDUFMA e Onde está a Ideologia, pela editora Ética”; Tássia Campos é “cantora e musicista e comete impropérios desde 1986. Gosta de rap, sushi e cachaça e acredita/luta pelo bom e pelo justo no mundo”; Herbert de Jesus Santos “nasceu em São Luís, é jornalista, revisor literário e escritor (poeta, cronista, contista, novelista e romancista), e tem onze títulos publicados, além de diversos inéditos, e prêmios literários, além de jornalísticos. Egresso do Curso de Comunicação Social da UFMA, trabalhou em diversos matutinos locais, de repórter a editor-geral; e, atualmente, é colunista do Sotaque da Ilha, do JP Turismo, suplemento semanal do Jornal Pequeno”; Gildomar Marinho é “cantor, compositor e violonista e tem três discos gravados: Olho de Boi (2009), Pedra de Cantaria (2010) e Tocantes (2013). Atualmente está gravando o quarto, Mar do Gil, com previsão de lançamento para o primeiro semestre de 2015”.

Dois escritores, um professor de Comunicação Social, uma cantora e um compositor. Apesar dos poucos retornos, Vias de Fato – que agradece encarecidamente ao quinteto partícipe – ainda conseguiu alguma diversidade ao pautar dois temas absolutamente excluídos do debate eleitoral no Maranhão.

À/s entrevista/s, pois.

"O único tema que está sendo efetivamente debatido nessas eleições é deus e o filho dele, todo o resto é vírgula". O escritor Bruno Azevêdo em foto de Márcio Vasconcelos
“O único tema que está sendo efetivamente debatido nessas eleições é deus e o filho dele, todo o resto é vírgula”. O escritor Bruno Azevêdo. Foto: Márcio Vasconcelos

 

Tanto na esfera federal quanto na estadual, os temas comunicação e cultura não entraram na agenda política de candidatos nem nos debates até aqui realizados. No entanto, são dois temas alardeados como fundamentais para o desenvolvimento do país ou de qualquer estado. A seu ver, qual o motivo do desinteresse por estas pautas?
Bruno Azevêdo – Acho que o único tema que está sendo efetivamente debatido nessas eleições é deus e o filho dele, todo o resto é vírgula, nota de rodapé, nada me parece sair da boca dos candidatos que não seja a afirmação da existência de deus e sua adesão a essa existência. Isso certamente nos diz algo sobre a possível política cultural que teremos ao fim do pleito: um investimento cavalar em arte religiosa e um processo de esvaziamento de produtos e processos que possam gerar constrangimento religioso. Não sei quem vai perder as eleições, mas sei que o Nazareno vai ganhar e isso é um passinho pra frente na beira do poço, direto pra idade média. Fudeu.
Carlos Agostinho Couto – Diante de tantas mazelas que o Estado brasileiro apresenta, é comum alguns temas serem deixados de lado no período eleitoral para que os candidatos possam tratar de promessas, assistencialismo e atendimento aos interesses dos que os apoiam. Cultura e comunicação estão entre esses temas. Agrava a situação o fato de que o controle dessas áreas é concentrado em poucas mãos, que não têm interesse em qualquer tipo de mudança. Excetuando-se os experimentos alternativos e verdadeiramente populares, as indústrias da cultura e a da comunicação pressionam os candidatos e partidos (com exceções, claro) que, temendo as reações dos grupos poderosos, desprivilegiam os assuntos e os tiram da pauta política.
Tássia Campos – Analisando a realidade maranhense há um problema: os meios de comunicação são de políticos. As emissoras, jornais, falo dos de grande circulação e maiores audiências escolhem um lado. Logo é realmente delicado tratar da comunicação quando não temos ainda mídias livres abrangentes e focadas no código de ética do jornalismo, por exemplo. Já a cultura… acredito que nunca foi prioridade em nenhum governo, por isso a ausência de debate. O que é claramente um erro.
Herbert de Jesus Santos – Por absoluta ignorância sobre o assunto da maioria das candidaturas, especialmente na parte que toca à cultura, muito abrangente para os miolos de quem só vê na frente ganhar eleição, a todo custo, e se dar bem depois. Por outro lado, acham que Comunicação é só botar um assessor para isso e pronto!
Gildomar Marinho – Eu não diria desinteresse, diria interesse estratégico em afastar este tema do calendário eleitoral, sobretudo, pelo papel que os meios de comunicação exercem atualmente. Um tema delicado como o da comunicação, que no Brasil permite, em nome da liberdade de imprensa, a manutenção de verdadeiros latifúndios das comunicações não parece ser um tema atrativo para os candidatos mais bem posicionados e que têm nessas mídias seus principais pilares de sustentação. Quanto à cultura, percebo que o tema é colocado de forma transversal pela maioria dos candidatos, sendo mais uma vez tratada como um paliativo social à expansão do consumo de drogas e da violência. Consegui enxergar um debate mais audacioso no programa de governo do PSOL, que defende uma distribuição mais equilibrada de recursos, dentro de uma política que, ao menos, traz o tema cultura para uma posição mais evidente, não como um apêndice da educação ou do turismo, por exemplo, mas como um recurso estratégico, já que pode potencializar o nosso maior capital: o povo brasileiro.

"O controle dessas áreas é concentrado em poucas mãos, que não têm interesse em qualquer tipo de mudança". O professor universitário Carlos Agostinho Couto. Foto: acervo pessoal
“O controle dessas áreas é concentrado em poucas mãos, que não têm interesse em qualquer tipo de mudança”. O professor universitário Carlos Agostinho Couto. Foto: acervo pessoal

Após a morte de Eduardo Campos, a ascensão de Marina Silva levou Dilma Rousseff a convidar Juca Ferreira, ex-ministro da Cultura, a comandar o setor cultural de sua campanha. A dobradinha formada por ele e seu antecessor, Gilberto Gil, no MinC, goza de quase unanimidade no meio artístico. Qual a sua opinião a respeito do período e do que se viveu depois, no país?
Bruno – Acho que se fez um belo trabalho em fazer gente rica ficar mais rica, que é a minha opinião geral sobre a política cultural no país. Ainda não consegui ver este processo de forma diferenciada, independentemente de quem sente na poltrona do poder. Não consigo enxergar uma política que faça o que se proponha: desenvolver através de iniciativas sistêmicas e pontuais a possibilidade de industrialização e mercantilização da arte brasileira [grifo do entrevistado]. Se o projeto não é esse, então a bagaça não passa de assistencialismo (e sou contra, que arte também é trabalho); se é esse, o Estado falha em manter em suas tetas artistas/produtoras que já possuem relações de mercado bem estabelecidas.
Carlos – A política cultural do país teve alguns avanços, como o incentivo à produção audiovisual local e o reconhecimento de manifestações culturais regionais na esfera nacional. Não podemos deixar de reconhecer que – apesar da riqueza cultural do país – a pasta ministerial é considerada menor, de pouco peso, e serve a interesses pessoais, tanto quanto outras, como no caso do financiamento de fundações de interesse privado, como aconteceu no Maranhão.
Tássia – Sei que houve avanços, foi nesse período que se iniciou a discussão das leis de incentivo, mas honestamente acompanhei muito pouco. Não tenho opinião formada.
Herbert – Realmente, houve um movimento interessante nos mais variados setores culturais, no país. Agora, nem parece que há órgãos culturais com tamanha importância, talvez, com desvio de função, ocupando outras atividades.
Gildomar – Isso denota uma diferença na condução da política de cultura entre os governos Lula e Dilma, para ficar nos presidentes que tentaram levar a sério esse tema. Tenho a percepção de que o Gil trouxe à esfera pública a sua carga pessoal de quem compreende e vivencia a cultura de forma humana, diversa, plural e, por que não dizer, empresarial, já que não se pode esquecer que o próprio Gil é uma grife com valor econômico. Essas características tornaram os diálogos (e havia diálogos) ricos, e dentro de um sentimento de valorização da cultura, com toda a diversidade que enriquece o Brasil. O que veio depois foi uma mecanização de processos e tentativas de profissionalizar o fazer cultural que permite, por exemplo, a destinação de R$ 4,5 milhões para um único artista apresentar-se em parcos eventos (pagos, diga-se), em contraponto à exclusão de milhares de projetos espalhados Brasil afora (ou adentro). A aproximação com o ex-Ministro Juca pode sinalizar uma boa notícia, se com ele vier uma política que, de fato, coloque a cultura como um valor estratégico para o país, que restabeleça o diálogo com a sociedade e que, de fato, retorne a cultura à pauta política. Aos que consideram cultura como custo, vemos o exemplo da “Mona Lisa”, cujo governo francês estuda vender para sanar suas dívidas. A arte salvando a economia. Quantos “Da Vinci”, “Gonzagas”, “Suassunas” se espalham por este país, aguardando uma chance de desenvolver seu potencial artístico? E quantos são abortados por falta de oportunidade? Considero um desperdício ver uma geração potencial sendo cooptada diariamente pela indústria cultural pela simples falta de oportunidade.

“NUNCA HOUVE POLÍTICAS PÚBLICAS CULTURAIS NO MARANHÃO”. A cantora Tássia Campos. Foto: acervo pessoal

O Maranhão é sempre propagandeado como um dos estados culturalmente mais ricos do país. A indústria do entretenimento é das que mais geram divisas mundo afora. Na sua opinião, qual o motivo de o estado permanecer nas últimas posições do ranking quando se trata de indicadores sociais, na contramão do que se propagandeia?
Bruno – Acho uma balela esse lance de “culturalmente rico”, que não há como medir isso. Geralmente esse título vem acompanhado de um ou dois símbolos de diversidade que se repetem infinitamente a despeito de outras possíveis realizações do lugar; é uma pecha, não um mérito. Não há indústria por aqui, nem mercado… talvez haja prum ou outro parafolclórico, pelas relações que estes estabelecem com o Estado via secretaria de cultura.
Carlos – A cultura no Maranhão é rica – de folguedos à culinária, passando pela arquitetura e outras artes – mas excessivamente centralizada em alguns polos e sofre um processo danoso de controle político pelo qual um único grupo produtor de eventos indica os caminhos da área para todo o estado e praticamente monopoliza os recursos. Faltam descentralização, visão voltada também para a cultura da parte continental do estado e o fim dos benefícios por interesses estritamente pessoais.
Tássia – NUNCA HOUVE POLÍTICAS PÚBLICAS CULTURAIS NO MARANHÃO [grifo da entrevistada].
Herbert – Só numa administração democrática, o gestor vai querer a cultura (colocando-se aí sua parceria com o turismo), quanto atividade lucrativa, em termos de autoestima popular, e de geração e distribuição de renda. Todos os outros segmentos, envolvidos no fazer que diverte e recreia, saem lucrando, financeiramente. O modelo do atraso nunca teria interesse em ver o comunitário, além do amor-próprio lá em cima, com mais recheio na poupança.
Gildomar – De fato, a riqueza cultural do Maranhão é inquestionável, pela diversidade do seu povo, pela sua riqueza histórica e, vá lá, com uma forcinha do erário público que sempre arruma um jeito de manter vivas algumas festas tradicionais, mesmo com contradições e, por vezes, chocando com princípios e valores da sociedade contemporânea, a exemplo do que ocorre com a intervenção do Ministério Público, Juizado da Infância e outros órgãos de controle, sem contar a grande engenharia financeira para contemplar os diversos grupos, associações e grêmios nesse processo todo. O desafio é saber qual manifestação se mantém independente dos recursos públicos. Não faço apologia à retirada do apoio público, pois ele é fundamental. No entanto, sem uma política consistente, corremos o risco de mantermos os eventos apenas por mantê-los ou, numa dimensão sociológica, transformá-los ao sabor das exigências da atualidade até descaracterizá-los por completo como manifestação cultural. Isso sem contar o risco sempre presente do apadrinhamento, da privatização do recurso público. Aliás, algumas brincadeiras do Maranhão figuram como uma paródia, que beira o real, da relação social que insiste em atravessar os séculos. Por tal, vemos as figuras do padrinho, da madrinha, do ritual de poder e de uma relação de servidão que nos remete ao tempo que se quer representar. Como se o amo e os vassalos estivessem para sempre presos ao folguedo, por dentro da manifestação, e à realidade, por fora dela. Não há como fazer uma previsão, mas é um desafio pensar como seriam as manifestações tradicionais do Maranhão em um cenário onde todos tivessem acesso à educação, saúde, emprego e moradia, e independentes de padrinhos. Este, para mim, é o maior desafio, buscar uma solução que aproxime o desenvolvimento, mantendo a nossa identidade.

"[As gestões culturais federal, estadual e municipal] São de medíocres para inoperantes". O escritor Herbert de Jesus Santos. Foto: acervo pessoal
“[As gestões culturais federal, estadual e municipal] São de medíocres para inoperantes”. O escritor Herbert de Jesus Santos. Foto: acervo pessoal
Quais as suas opiniões sobre as gestões culturais ora vividas no Brasil, no Maranhão e em São Luís?
Bruno – A do estado é uma bela merda, e nem tem como não ser. Recentemente um grupo de artistas foi numa secretaria pedir auxílio pra participar de um festival e ouviu a desculpa de que “todo o dinheiro já tinha sido levado pra campanha”; isso é dito em tom de amizade, tipo “tô te dando um toque pra ti não perder teu tempo apresentando projeto”. Esse mesmo grupo (que vou chamar aqui de uma “cena”) conseguiu o apoio da Func [Fundação Municipal de Cultura] (tradicional geradora de patacoadas) porque o prefeito viu o show de uma das bandas e achou por bem apoiar a causa. É massa e necessário que a prefeitura apoie bandas que representam mais de 10% dos concorrentes num grande festival, mas a forma como o apoio ocorre mostra que a gente ainda não superou a pessoalização, e que não temos uma política de cultura que veja algum tipo de mérito por outras formas que não fazer umas centenas de pessoas cantarem em praça pública que aquela banda é legal na cara do prefeito. Chico Gonçalves [presidente da Func] me parece estar fazendo um bom esforço ali, tentando acertar mil pendências, vamos ver no que dá.
Carlos – Percebem-se tentativas de mudança e de tratamento isonômico e republicano dos recursos para as áreas. Porém, enquanto a lógica permanecer a de submissão aos interesses da grande indústria da cultura, do patrimonialismo e compadrio regionais, pouco mudará.
Tássia – Nunca trabalhei pro Estado ou pra prefeitura. Mas vejo na atual gestão da Func, por exemplo, um canal mais aberto pra possibilidades e diálogo. E não esperaria outra coisa de alguém como professor Chico [o presidente da Func é professor do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal do Maranhão]. É a prova de que estudo e preparo fazem muita diferença em qualquer gestão.
Herbert – São de medíocres para inoperantes. Onde não se contempla, com o máximo destaque, a literatura entre os outros também relevantes setores, é pretender por o carro na frente dos bois. Procede a comparação, em nosso ambiente doméstico, de que, dentre planos editoriais e concursos literários, vários, até os 1990, só restando o Cidade de São Luís, da Func, precariamente, defasado em anos, a oferta maior seria para o circo, aliás, mais que o pão.
Gildomar – Por estar atualmente morando fora do Maranhão, é difícil tecer uma opinião acerca da gestão cultural atualmente exercida no estado. No entanto, o que é publicado fala por si. À exceção de um breve espaço de tempo em que a cultura foi amplamente discutida no estado, o que percebo é uma nova parábola do bumba meu boi, onde a cada ano muda o couro, mas o boi é o mesmo. Sinto falta de uma política cultural no Estado que abranja a totalidade do seu território e, mais ainda, que garanta uma programação mais abrangente. Quando partimos para uma visão nacional, a percepção que se tem é que todo o esforço do Minc para capacitar os produtores culturais, mercê do esforço na criação dos Sistemas Municipais de Cultura, não surtiu os efeitos desejados de descentralização e interiorização dos recursos da cultura. Outro ponto de destaque foi a descontinuidade percebida nas gestões que seguiram as do Gil e do Juca.

"As concessões dos meios de comunicação foram desenhadas para a construção e manutenção dessa latimídia". O compositor Gildomar Marinho. Foto: Paulo Caruá
“As concessões dos meios de comunicação foram desenhadas para a construção e manutenção dessa latimídia”. O compositor Gildomar Marinho. Foto: Paulo Caruá

No Maranhão, particularmente, é bastante complicada a relação entre governos e mídia. É possível vencer o latifúndio comunicacional, com grandes proprietários e capatazes dispostos a tudo para defendê-los, e avançar para uma efetiva democratização da comunicação?
Bruno – É. Acho. Ocupando esses espaços. Não se trata aí de uma efetiva democratização, mas de um distúrbio possível, que também interessa.
Carlos – No modelo que temos hoje, isso é impossível. Poucos controlam os meios de comunicação, a política regional, os recursos para a área cultural e de divulgação artística e ainda submetem os produtores culturais menos críticos à reprodução do modelo “me apoia que libero recursos”, o que faz as áreas de cultura e mídia andarem para trás. Possivelmente o avanço tecnológico (com mais gente com liberdade para veicular) e a democratização das ações (formas de participação e acesso a recursos, por exemplo) poderão alterar o quadro, mas seria outro modelo.
Tássia – Sim! Existem outras formas de comunicação hoje sem ser TV, impresso e rádio. Hoje temos a internet. Existem outras vias para estabelecer uma rede de comunicação. Acredito que a internet será a responsável por uma reforma que vai construir uma comunicação mais democrática, com mais lados pra que as pessoas formem suas opiniões sem que sejam induzidas.
Herbert – Só se houver, finalmente, um governo estadual democrático da cabeça aos pés.
Gildomar – Não considero complicada esta relação. Pelo contrário, é por demais harmoniosa. Não só no velho estilo hay gobierno? estoy dientro [grifo do entrevistado], mas pelo fato de o quarto poder exercê-lo em níveis de países totalitários. É claro que a simbiose do serviço de utilidade pública, papel dos meios de comunicação, confunde-se no Maranhão com propaganda deliberada da cosanostra [grifo do entrevistado]. Considero complicada a relação da mídia maranhense é com a verdade dos fatos, pois ela confunde, persegue, bajula de forma despudorada, como se seu ombudsman [grifo do entrevistado] tivesse o condão de ser, parecer e fabricar a verdade apenas replicando o mantra dos seus patrões. Até mesmo a internet, que advoga para si o espaço da democracia da informação consegue ser ludibriada por blogueiros e fantoches que ganham a vida manipulando, requentando e, mesmo, inventando factoides para manter a si e sua “notícia” em evidência, não importando quanta aderência sua “verdade” tenha com a realidade. Não podemos perder de vista que as concessões dos meios de comunicação no Maranhão, aliás, no Brasil, foram desenhadas para a construção e manutenção dessa, perdão pelo neologismo, latimídia. Não por acaso, executivos e legisladores de então gozam de sua plena liberdade de expressão.

Se convidado pelo governador eleito, aceitaria o cargo de secretário de Estado da Cultura ou Comunicação? Em caso positivo, encararia o desafio em qualquer das seis possibilidades? Que ações desenvolveria ao longo de quatro anos de governo? Em que governo não aceitaria cargo de jeito nenhum?
Bruno – Nem fodendo. Nenhum deles. Acho que a pessoa precisa ter algum tipo de distúrbio moral pra se dispor a ocupar certas posições, ou ter aversão ao trabalho, não sei, meu preconceito supera a razão nesses casos.
Carlos – Gostaria muito de contribuir pragmaticamente com o meu estado e povo, principalmente nas áreas de ampliação de informações e direitos, mas não aceitaria cargo de secretário (também tenho clareza de que não seria chamado). Nunca trabalharia com os políticos conservadores que dominam o estado há décadas.
Tássia – Nunca trabalharia pra quem quer que esteja envolvido com o grupo Sarney. Eu não sei responder ao restante da pergunta. É uma reflexão muito íntima. Só digo o que eu jamais faria [risos].
Herbert – Para a Cultura, não, onde os supérfluos intrusos são até mais contemplados que os genuínos valores maranhenses, em certos casos! Em Comunicação, só com uma equipe competente, nas assessorias setoriais, implicando não ingerência de dedos políticos na constituição do time. No da continuação da oligarquia, eu nem sequer seria convidado; num deles, já tive cargo de assessor-chefe, na Secom estadual, fazendo jus ao cargo e ao salário, funcionário de carreira, e, onde não queriam o melhor trabalho, colocaram, pelo ordenado, em meu lugar, um apadrinhado sem habilidade na área direcional e na profissão jornalística.
Gildomar – O cargo de secretário só tem sentido dentro de um projeto maior, que enseje em uma mudança de atitude de poder. Uma nova cultura política, que aponte para a valorização do povo maranhense, que eleve sua autoestima ante si mesmo, ante seus vizinhos e ante o país. Isso passa por uma mudança, inclusive na estrutura hoje tão imbricada por parentes, amigos e amigos de amigos de um grupo que está há cinco décadas no poder. São duas gerações. Meio século de história. Não é uma mudança fácil. Isso requer um esforço político, técnico, acadêmico e um diálogo muito forte com a sociedade, além de ações assertivas. A cultura, parte com que mais me identifico, carece de um planejamento estratégico, plurianual, plural e que aponte para sua sustentabilidade, que permita potencializar a nossa riqueza cultural, garanta a democratização dos meios e equipamentos culturais e, mais importante, que nos faça sentir orgulhosos de nossa maranhensidade. Não almejo esse cargo, mas se eu fosse sondado por algum grupo para sê-lo, parece evidente que meu mais redundante NÃO teria endereço certo.

Você declara/ria voto? Em quem vai votar nas próximas eleições? Por quê?
Bruno – Declaro: nulo.
Carlos – Declararia e declaro, mas ainda não fechei a chapa. Ainda tenho dúvidas entre o voto de protesto, a abstenção, a anulação em alguns cargos, ou o voto pragmático em pessoas menos ruins.
Tássia – Difícil, hein? Pela dicotomia, voto Flavio Dino governador. Deputado estadual não tenho; federal não tenho. Senador Haroldo Sabóia e presidente Dilma.
Herbert – Nas majoritárias: para governador do Maranhão, em Flávio Dino, pela possibilidade de mudar o rumo dessa conversa da oligarquia (escorchante, exclusivista, antiprogressista etc.); para presidente da República, em Aécio Neves, por ter um plano consistente de governo, moldado em resultados concretos, em suas gestões no executivo mineiro; Dilma, o poste de Lula, sem nenhum tino gerencial, está esquentando o assento para este, a maior decepção republicana, por aliar-se aos que mais contestou e se corrompeu e corrompeu, para quem sabe o que é política correta e íntegra, e sem passar de uma farsa até em se achar estadista; Marina continua sonhando muito e é lenta para acordar. O Brasil não pode errar mais em quem já errou muito nem viu (que nem Lula nunca viu a sangria do dinheiro público no mensalão, etc.) o rateio entre os da velha política da mamata da riqueza do povo brasileiro na Petrobras; e em quem é mais dúvida que certeza.
Gildomar – Voto Flávio Dino porque, apesar das múltiplas forças contraditórias em torno de sua candidatura, acredito na sua capacidade de trabalhar essa diversidade e criar um novo ciclo político no Maranhão. E que nossa capacidade e liberdade de transformar nos seja guia a um Maranhão livre e justo.

A raposa e as urnas

[letra pra um samba de breque e ocasião, que permanece sem melodia. Escrevi por conta deste episódio e o título me veio, óbvio, inspirado no saudoso Reginaldo Rossi]

 

Charge de Carlos Latuff originalmente publicada no Vias de Fato (agosto/2014)
Charge de Carlos Latuff originalmente publicada no Vias de Fato (agosto/2014)

Vocês se lembram por que
O urubu ficou com raiva do boi
Mas a raposa tá contente
Eu vou contar por que foi

Um amigo do rei ganhou
Uma licitação
Pra cuidar de urna eleitoral
(num curral)
Lá no Maranhão

É muita cara de pau
Um amigo da família
Vestir pele de cordeiro
Pra beneficiar a matilha

Refrão

As urnas vão
De ferry atravessar a baia
E o Maranhão continua
A ser notícia ruim todo dia

É tanta água
Mas não mata minha sede
Agora além do ferry (e da lancha)
A urna também é do Cantanhede

Este blogue tem lado!

Em 10 anos de blogosfera nunca tive anunciantes. A relativa longevidade de minha atividade blogueira é fruto de pura teimosia. E do carinho e incentivo de alguns poucos mas fiéis leitores.

Embora o jornalismo cultural seja nossa pauta prioritária, durante este tempo não abrimos mão de debater outros temas, principalmente direitos humanos e política.

Como em outros pleitos, este blogue tem lado e anuncia. Declara voto e pede o seu! Sem medo de perder eventuais patrocinadores (mesmo sem nunca ter recebido um centavo de quem quer que seja) e/ou leitores – a razão de ser do espaço.

O que não podemos é nos dar ao luxo da omissão, diante do trágico quadro político vivido no Maranhão, sempre tão ruim e, por incrível que pareça, certamente piorando com o passar dos anos.

Votarei em Luis Antonio Pedrosa (PSol, 50) para governador do Maranhão. E em Haroldo Sabóia (PSol, 500) para senador da república.

Nunca enganamos e/leitores. E acho que o gesto de declarar votos, além de demonstrar honestidade, colabora para o bom debate político, tão necessário e urgente.

Para os outros cargos em disputa ainda tenho dúvidas. Mas não deixarei de tomar a mesma atitude em relação a candidatos à presidência da república e deputados estaduais e federais. Questão de tempo.

Em tempo, a quem interessar possa: estou engajado na campanha de Pedrosa na medida do possível, colaborando sobretudo com ideias. Nem fiz doação financeira para a campanha (que, embora modesta, carece) nem recebi ou receberei qualquer remuneração por isso.

Em tempo, a quem interessar possa 2: este blogue não se transformará, no período de campanha, em palanque virtual das candidaturas que têm meu apoio. A programação segue normal, com eventuais opiniões sobre determinados episódios, principalmente contraponto os esforços de manipulação da mídia oligárquica.

Em tempo, a quem interessar possa 3: o anúncio de apoio às candidaturas permanecerá visível neste blogue até a realização do primeiro turno.

Lobão Filho e Zé Luis Lago faltam a debate

Candidatos do PMDB e PPL sequer mandaram justificativas para as ausências, num flagrante desrespeito à organização e ao público presente

Fotosca: Zema Ribeiro
Fotosca: Zema Ribeiro

 

As cadeiras de Edison Lobão Filho (PMDB) e Zé Luiz Lago (PPL) ficaram vazias, ontem (20) à noite, no debate promovido pela Comissão Arquidiocesana de Justiça e Paz e Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – Regional Nordeste 5 (CNBB), no auditório da Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional Maranhão (OAB/MA).

Não lhes seguiram os passos o público, que lotou o espaço, para assistir ao debate entre os candidatos Saulo Arcangeli (PSTU), Professor Josivaldo (PCB), Luis Antonio Pedrosa (PSOL) e Flávio Dino (PCdoB). Os candidatos faltantes, cuja presença foi previamente confirmada pelas assessorias, sequer mandaram qualquer justificativa, demonstrando um profundo desrespeito com os movimentos sociais do Maranhão e seus militantes.

Em quatro blocos, os candidatos responderam perguntas elaboradas pela organização do evento e do público presente, sobre temas diversos: educação, saúde, segurança pública, economia, desenvolvimento, controle social e participação popular, entre outros. Pedro Gontijo, da CNBB, foi o mediador.

Saulo Arcangeli criticou o financiamento das duas maiores campanhas no estado e as alianças de Dino com candidatos ligados ao trabalho escravo. O socialista culpou ainda a oligarquia Sarney, que governa o Maranhão há 50 anos, pelos problemas enfrentados pelos trabalhadores. O comunista rebateu, pedindo respeito.

Flávio Dino se sentia à vontade: o candidato tem o apoio declarado de entidades do movimento social maranhense, fator criticado por Pedrosa: “O movimento social tem que ser autônomo para fiscalizar e cobrar a gestão. Se eu puder vou construir um palanque na porta do Palácio [dos Leões] para todo dia ter movimento lá, eu ouvir e dialogar com os movimentos”, disse.

Dino afirmou que, apesar das divergências, as candidaturas presentes estavam no mesmo campo político, da esquerda – o que despertou olhares espantados dos outros três presentes.

Professor Josivaldo teve um desempenho sofrível, embora bem humorado: comentando uma resposta de Saulo Arcangeli, tirou onda de si mesmo: “fui pedir emprego, acabei me atrapalhando com o tempo”, disse para risos dele e da plateia. O candidato do PSTU havia defendido um piso salarial de 3 mil reais para professores da rede pública, ao que o pecebista disse que “se sentiria contemplado com um governo do Saulo”.

Luis Antonio Pedrosa encerrou o debate comentando a recém-aprovada Política Nacional de Participação Social. “Para além de um decreto na esfera nacional ou estadual é preciso fazer essa política valer de verdade. Ninguém governa sozinho, então não adianta prometer se a coligação tiver gente puxando o governo para o outro lado, da falta de transparência, como o Maranhão já vem sendo governado. A mudança tem que ser completa, de verdade”, afirmou.

Na divulgação do debate de ontem à noite, a Comissão Arquidiocesana de Justiça e Paz reafirmou seu compromisso com o fortalecimento da democracia. Público e candidatos presentes colaboraram com o atingimento do objetivo. Dos candidatos faltantes não se pode dizer o mesmo.

Baratão 66: ficção e realidade se confundem tanto quanto público e privado

[Vias de Fato, julho/2014]

Bruno Azevêdo e Luciano Irrthum colam discurso de Sarney filmado por Glauber Rocha para tirar sarro da cultura (política) oficial. Baratão 66 foi indicado ao troféu HQMix 2014.

Uma das capas de Baratão 66. Reprodução
Uma das capas de Baratão 66. Reprodução

 

Um quadrinista que não desenha. Eis uma boa definição para Bruno Azevêdo, que agora foi buscar o Luciano Irrthum para dar vida a Baratão 66 [Pitomba/ Beleléu, 2013, 190 p.], a estória de uma casa de depilação (de dia) que vira puteiro (à noite), o Baratão 69.

A dupla ilustra a história do Brasil profundo, onde puteiros viram extensões dos gabinetes, climatizados ou não, das administrações públicas, as putas espécies de assessoras especiais com sexto sentido e o sonho de fisgar um figurão destes e largar a vida “fácil”.

O livro traz a clássica referência à distinção entre ficção e realidade, o que em se tratando da nossa, torna qualquer linha entre uma e outra bastante tênue. Como o é, bem sabemos, principalmente em se tratando de Maranhão, a que separa interesses privados de interesses (de homens) públicos.

Luciano Irrthum desenha o roteiro ditado por Bruno Azevêdo, autor cujo romance A intrusa foi publicado em capítulos neste Vias de Fato. Com duas capas, a gosto do freguês, como as “estampas” de depilação que ditam moda, Baratão 66, impresso em roxo, apresenta a tragicomédia das pequenas cidades do interior do Brasil – embora o livro seja ambientado em São Luís do Maranhão, capital que delas não guarda lá muitas diferenças.

O traço “grotesco” de Irrthum ilustra a “boca suja” de Azevêdo. Reprodução

Esqueçam a moral e os bons costumes e preparem-se para entrar na rotina dos inferninhos, em uma aventura hilariante, seja pelo traço, propositalmente grotesco, como a traduzir os personagens do livro e de nossa política, seja pelo enredo – “com cu ou sem cu?”, “cu fiado a gente não faz”, “só quem dá cu sem aviso é qualhira”, ouvem-se aqui e ali das bocas sujas que povoam as páginas.

Personagens bizarros, malditos, marginais compõem o cenário: a proprietária da casa de depilação que espera pela volta do “falecido”, herói de guerra com quem sonha, um porteiro “viado” apaixonado pelo padre, pecador mais que as ovelhas de seu rebanho, um carteiro que entrega os catálogos da Piu Piu, franquia em que se tornará o Baratão 66, o governador, habitué da zona. Também aparecem em Baratão 66 Ribamar Willer, taxista fã de Waldick Soriano e música brega, incluindo Adailton e Adhaylton, dupla sertaneja que protagoniza Breganejo blues, outro livro de Azevêdo, além dO Monstro Souza, serial killer e loverboy, saltado das páginas de outra obra-prima do autor, que vai pedir emprego no Baratão.

Não sabemos mesmo o que é mais imoral: se os palavrões ou o discurso de posse de José Sarney quando eleito ao governo do Maranhão em 1966, captado pelas lentes de Glauber Rocha e colado por Bruno Azevêdo e Luciano Irrthum em determinada passagem de seu Baratão 66, numa alusão óbvia à película glauberiana que captou o discurso do então jovem bigodudo, Maranhão 66 – o trocadilho, como nada ali, é por acaso. No fundo, é como se o Maranhão fosse um imenso puteiro a céu aberto – com esgotos a céu aberto, ratos e baratas passeando entre nossos pés.

A política está presente, e Baratão 66 tira um sarro com a cultura dita oficial, infelizmente ainda não completamente democratizada. A HQ de Azevêdo e Irrthum não tem um centavo de dinheiro público.

Não é fácil classificar – isto é, enquadrar em um rótulo – Baratão 66, como de resto, a qualquer livro de Bruno Azevêdo, ele ao mesmo tempo bacharel em História, mestre em Ciências Sociais, professor universitário, músico e escritor. A HQ que assina com Luciano Irrthum demonstra uma série de influências, que passam por literatura, quadrinhos, música, história, cinema e política.

HQMixBaratão 66 concorre, este ano, em duas categorias do troféu HQMix, a mais importante premiação dos quadrinhos brasileiros: Publicação independente edição única e Novo talento (roteirista) – Bruno Azevêdo. O HQMix chega à 26ª. edição em 2014.

Novidades – Autor, editor e “contínuo” da Pitomba! livros e discos, Bruno Azevêdo atualmente trabalha na edição da fotonovela Nonato, meu tudo. Ainda em 2015 lançará Brega é tu, sua dissertação defendida no mestrado em Ciências Sociais da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), recentemente selecionada em edital da Fundação de Amparo à Pesquisa e Desenvolvimento Científico do Maranhão (Fapema). Fruto de pesquisa acerca da dita música brega em ambientes como choperias e serestas em São Luís, o livro terá pesquisa iconográfica assinada por ele e pelo fotógrafo Márcio Vasconcelos, que já havia colaborado com a edição de Onde o reggae é a lei, de Karla Freire, livro vencedor do Prêmio Cidade de São Luís, publicado pela Edufma com preparação editorial da Pitomba!

Por uma poética política

Fotosca: Zema Ribeiro
Fotosca: Zema Ribeiro

 

Sábado passado (19) um grupo de prosadores, poetas e músicos ocupou o Memorial Bandeira Tribuzzi, na Praia da Ponta d’Areia.

O elefante branco tem “35 anos de inexistência”, conforme decretou o poeta Celso Borges, enquanto lia poemas seus, de Marcos Magah e do poeta que empresta o nome ao monumento, falecido no dia em que a cidade da qual compôs o hino completou 365 anos.

O autor de O futuro tem o coração antigo também fez o papel de mestre de cerimônias, chamando ao microfone nomes como André Lucap, Beto Ehongue, Bruno Azevêdo, Fernando Abreu, Josoaldo Lima Rego, Madian, Luís Inácio Oliveira, Reuben da Cunha Rocha e outros. Sua senha-vinheta era “ê, Ponta d’Areia/ há muito tempo que eu não te vejo, não”, da Ponta d’Areia de Chico Maranhão, mixada com seu “eu quero ver” de A serpente (parceria com Ramiro Musotto e Zeca Baleiro).

Não fiquei até o fim do at(entad)o poético, formado em grande parte por amigos meus. Sua intenção é alertar para o abandono de lugares, em São Luís, que poderiam ser cartões postais, mas estão sendo roídos pelo salitre do descaso, do abandono, da insegurança.

Outras ocupações virão, promete o coletivo organizador do encontro. Torço para que com ampla divulgação e cobertura da mídia, falatório nas redes sociais e presença de pessoas ouvindo poesia e música, comprando livros, quem sabe até dividindo o microfone e reivindicando a reinvenção do espaço público.

Espero sobretudo a atenção e sensibilidade dos gestores públicos no sentido de revitalizá-los, não só no que tange à pedra, mas no que tange à gente.

Um acerto que deve servir de exemplo

Quer se concorde ou não com a escolha da candidata, a iniciativa da revista CartaCapital, de declarar apoio à reeleição de Dilma Rousseff, é digna de elogio.

A semanal da editora Confiança anunciou em editorial a opção pela petista. No texto, justificou a escolha, embora não lhe tenha poupado de críticas, sobretudo à equipe de ministros e ao duradouro relacionamento com o PMDB, partido do vice Michel Temer, também candidato à reeleição.

Impossível não lembrar o pioneirismo da revista Trip, quando abdicou da publicidade de cigarros e iniciou uma campanha que resultou no fim dos anúncios de tabaco em publicações brasileiras. A mesma Trip, depois, tomou partido quando do referendo do desarmamento.

Outros veículos nacionais e locais deveriam lhes seguir os exemplos e anunciar de que lado estão. A blogosfera, idem. Seria melhor para todos/as: candidatos/as, partidos, veículos, jornalistas e, principalmente, leitores/as. Afinal de contas, sabemos: imparcialidade jornalística é quimera.

Este blogue mesmo, como de praxe, anunciará em breve suas escolhas. Quantos mais terão coragem e independência?

Autoritarismo, truculência e outras palavras para (tentar) entender a UFMA

Divulgação

Autoritarismo é uma palavra que define bem a gestão do atual reitor da Universidade Federal do Maranhão Natalino Salgado.

Ilegítimo é outra para definir o processo eleitoral para a escolha do comando do Diretório Central dos Estudantes, num processo desprovido de quórum.

Faltam palavras, no entanto, para classificar a ação de alguns estudantes, para os quais também faltam palavras, que resolveram arrombar a sede do DCE e tomá-lo à marra.

A ação truculenta dos brucutus, sob a proteção do reitor, causa repúdio a quem preza por democracia, palavra cujo verdadeiro significado é tão caro aos que lutaram por ela, sobretudo em espaços universitários, e que o magnífico parece desconhecer. Ou prefere ignorar.

Os brucutus já haviam sido denunciados, com registro de boletim de ocorrência em delegacia de polícia da capital, pelo lacre do DCE, com a troca de cadeados, impedindo a atual direção – legitimamente eleita – de adentrar a sala, em pleno processo eleitoral. Ou arremedo, para usarmos uma palavra que define bem uma porção de coisas na UFMA, o país das maravilhas de Natalino Salgado.

A imagem que abre-ilustra este post já percorre as redes sociais desde ontem e foi enviada ao blogue por estudantes que não aceitam a truculência como método de solução de impasses ou de impor os caprichos do senhor reitor à comunidade acadêmica.