As gratas surpresas de Roberta Campos

A cantora e compositora Roberta Campos. Fotosca: Zema Ribeiro

“Casinha branca” foi a segunda música cantada por Roberta Campos no show de ontem (8), no Teatro João do Vale (Praia Grande), em São Luís. Era a segunda apresentação da cantora mineira na capital maranhense, em sua primeira viagem até aqui.

O compositor Gilson (autor do hit, com Joram) é pouco falado, mas tem parcerias com Carlos Colla e Aldir Blanc, entre outros, e já foi gravado por nomes como Maria Bethânia, Roberto Carlos, Rosa Maria e Zeca Baleiro.

Era apenas a primeira grata surpresa de um show de voz e violão que cativou o bom público presente pela delicadeza do canto, repertório e simpatia da artista, ela mesma uma colecionadora de hits que vem enfileirando nas paradas das rádios brasileiras e trilhas sonoras de telenovelas.

Com a reação da plateia ela chegou a gracejar: “eu pensei em fazer uma competição entre as plateias de ontem e hoje”, estimulando o público a cantar junto e bater palmas, o que conseguiu sem maior esforço, muito à vontade no palco.

Entre os hits desfilados no show de cerca de hora e meia, “Todo dia”, trilha sonora da novela “Órfãos da terra” – gravada por ela no dvd com que celebrou seus 10 anos de carreira discográfica, em 2019 –, “Miragem”, faixa de “O amor liberta” (2021) – seu disco mais recente, que dá título ao show –, gravada com a adesão do Natiruts, e “Começa tudo outra vez”, do mesmo disco, parceria com Humberto Gessinger, gravada em dueto com o Engenheiro do Hawaii.

Outros covers se fizeram presentes ao set list da sexta-feira: “Não vá embora” (Arnaldo Antunes/ Marisa Monte) e “Quem sabe isso quer dizer amor” (Lô Borges/ Márcio Borges), lançada por Milton Nascimento em 2002 (no disco “Pietá”) e só gravada por Lô Borges no ano seguinte (em “Um dia e meio”). A cantora revelou sua relação com a música, que gravou em “Varrendo a lua”, seu disco de 2010: “é uma das músicas mais bonitas que eu ouvi nos últimos tempos e durante muito tempo cantei achando que era do Milton; só depois eu descobri que era dos irmãos Lô e Márcio Borges e depois eu mergulhei na leitura do livro do Márcio, “Os sonhos não envelhecem” [Histórias do Clube da Esquina, Geração Editorial, 2009], que eu recomendo também a todos vocês”.

Como boa mineira, Roberta Campos revelou-se também uma engraçada contadora de causos – e contou um real: “durante a pandemia eu fiz muitas lives, dei muitas entrevistas. Um dia eu estava gravando uma e a entrevistadora falou “o pai dela” e eu fiquei assim [faz cara de assustada]… Quando ela repetiu, ligou o alerta. E de novo: “ah, ela não fala no pai dela, mas o pai dela sempre fala nela nas entrevistas”. Eu pensei: meu pai está lá na roça, no interior de Minas… não que ele não pudesse dar entrevista, mas eu acho que eu estaria sabendo. Eu resolvi perguntar: peraí, quem é meu pai?”. Após as gargalhadas da plateia, ela continuou, repetindo a pergunta da entrevistadora: “ué, você não é filha do Nando Reis?”, fazendo a plateia rir novamente. “Ela achando que eu era filha do Nando Reis… em menos de um mês essa música completa 23 anos, essa música tem quase a minha idade”, completou, antes de cantar “De janeiro a janeiro”, que ela gravou com a participação especial do ex-Titãs, e ontem cantou em dueto com o maranhense Sfanio, ela tocando violão.

A participação especial revelou afeto mútuo. Ela o descobriu por acaso numa plataforma de streaming. Em meio ao isolamento social imposto pela pandemia de covid-19 passaram a se corresponder virtualmente. “Aí hoje eu me toquei: ei, o Sfanio mora em São Luís!”, comentou Roberta. “Eu recebi o convite por volta de duas da tarde, ela perguntando se eu aceitaria fazer uma participação especial no show, e eu não sabia o que ia cantar, nem nada, mas é claro que eu aceito”, ele revelou não ter titubeado. Na sequência, ela lhe passou o violão (havia outro numa estante, mas somente um foi usado ao longo de toda apresentação) e cantaram juntos “Covardia” – “a minha música preferida dele”, ela revelou –, do refrão “sentir é foda, né?/ sentir é foda/ dá logo a covardia/ e covardia mata”, que o público também cantou junto.

Outra história contada por Roberta Campos foi quando, ainda em 1998, antes de estrear em disco, mandou uma carta para Fernanda Takai, perguntando se podia enviar uma fita demo para o Pato Fu, banda que ela ouviu bastante na adolescência e por quem sonhava ser gravada. “Ela respondeu a carta à mão, eu tenho até hoje essa carta lá em casa”. Ela, John Ulhoa (guitarrista da banda e marido de Fernanda) e Ricardo Koctus (baixista), tornaram-se parceiros e o Pato Fu gravou “Eu era feliz” em “Não pare pra pensar” (2014). Ela cantou ainda “Abrigo” (Fernanda Takai/ Roberta Campos).

Antes de cantar “Minha felicidade”, tema de abertura da novela “Sol nascente”, agradeceu novamente a presença do público: “toda vez que eu voltar aqui espero reencontrá-los”, disse. “No meio da música eu ensino o refrão pra vocês, pra gente cantar junto”, e cumpriu mais uma promessa: “lembra aquele tempo amor/ onde a gente se encontrou/ foi ali que começou/ minha felicidade”.

Aos pedidos de mais um, voltou ao palco e no bis mandou “Quase sem querer” (Dado Villa-Lobos/ Renato Russo/ Renato Rocha), sucesso da Legião Urbana que ela regravou como single em 2018. Deu tempo ainda de “Varrendo a lua”, faixa-título de seu segundo disco, encerrando o show com um último exemplo de sua comunhão com o público ludovicense: “e eu que não queria mentir/ passei então a sorrir do seu lado/ e eu que sempre quis te seguir/ criei meu mundo, meu mundo ao teu lado”.

Cronovisor funciona como tributo

[Sobre Cronovisor – Renato Russo, de corpo e alma, Cine Teatro da Cidade de São Luís, sexta-feira, 20/1]

Foto: ZR (20/1/2017)
Foto: ZR (20/1/2017)

 

Costurado por depoimentos de Renato Russo (1960-1996) e projeções diversas, Cronovisor – Renato Russo, de corpo e alma é um passeio por grandes sucessos da Legião Urbana. O nome do espetáculo é tomado emprestado de uma máquina do tempo supostamente inventada por um padre italiano e destruída pela Igreja Católica século passado.

Samuca Luna, cantor e psicólogo, se apresenta sozinho no palco, acionando as projeções a partir de um laptop e cantando, ora acompanhando-se ao violão e por um par de bumbos acionados com os pés, ora por bases pré-gravadas.

O espetáculo funciona bem como tributo ao líder da maior banda de rock já surgida no Brasil, mas não vai além disso. Entre sucessos como Ainda é cedo, Geração Coca-cola, Meninos e meninas, Pais e filhos, Giz e Teatro dos vampiros, entre outras, informações por demais conhecidas da vida de um personagem bastante documentado, dado o interesse contínuo por Renato Russo, mesmo 20 anos após sua morte.

É um erro, aliás, afirmar, sobre uma das poucas músicas do roteiro não assinadas por Renato Russo, que ele tornou sua Hoje a noite não tem luar (versão de Carlos Colla para Hoy me voy para Mexico, de C. Villa, A. Monroy e M. Pagan, sucesso dos Menudos). A música é um hit póstumo da Legião Urbana, registrada durante um intervalo da participação do grupo no Acústico MTV – o show, gravado em 1992, o segundo da série no Brasil, só foi lançado em disco em 1999.

As outras músicas não assinadas pelo homenageado são o Opus 17, de Robert Schumann, que Renato Russo ouvia obsessivamente perto de morrer, e Love of my life (Freddie Mercury), hit do Queen, que Luna mescla a Os barcos. Em Por enquanto, uma homenagem a Cássia Eller (1962-2001), para delírio da plateia que lotou o Cine Teatro da Cidade de São Luís.

Antes de cantar Baader-Meinhof Blues, a projeção exibiu a estrela vermelha símbolo da organização guerrilheira alemã que dá título à música. Vestido numa camisa vermelha, Samuca tirou onda: “calma, gente! Não é a estrela do PT!”. Ao cantar Que país é este? a projeção exibiu as fotografias de todos os presidentes da república, incluindo os militares, com os respectivos mandatos, de Deodoro da Fonseca ao ilegítimo, cuja foto, acompanhada da legenda “atual” foi saudada por gritos de “Fora Temer!” em uníssono, coro que se repetiu para acompanhar a letra quilométrica de Faroeste caboclo.

Com Samuca Luna cantando, sobre bases pré-gravadas, Vento no litoral e Tempo perdido, mais dois hits da Legião Urbana, o show termina entre a sensação de missão cumprida, isto é, lotar o teatro e emocionar o público, e a falta de risco e ousadia a um mergulho mais profundo na vida e obra de Renato Russo, artista que sempre arriscou saltos sem medir distâncias.

Banda imaginária ajuda a entender melhor artista de real grandeza

 

The 42nd St. Band - Romance de uma banda imaginária. Capa. Reprodução
The 42nd St. Band – Romance de uma banda imaginária. Capa. Reprodução

Renato Russo ainda era apenas Renato Manfredini Jr. quando, entre 1975 e 76, com de 15 para 16 anos de idade, recluso em seu quarto por conta de uma epifisiólise, rara doença óssea, escreveu The 42nd St. Band – Romance de uma banda imaginária [Companhia das Letras, 2016, 221 p.; org.: Tarso de Melo; tradução: Guilherme Gontijo Flores; leia um trecho]. O nome da banda tem origem no endereço do bar Stonewall, palco de um massacre a LGBTs, que o cantor já havia homenageado em seu primeiro disco solo, The Stonewall Celebration Concert [1994].

O livro é uma espécie de diário da banda, como se um fã recortasse revistas e jornais sobre os ídolos e guardasse os recortes em uma pasta. Há entrevistas, formações, discografia, cronologia. O futuro líder da Legião Urbana constrói seus personagens inclusive do ponto de vista psicológico, uma prova disso é o comportamento dos integrantes da banda que dá título ao livro durante as entrevistas.

Renato Russo demonstra profundo conhecimento sobre a música pop mundial. Sua banda – Eric Russell, protagonista de The 42nd St. Band, é seu alter ego – tinha Jeff Beck (ex-Yardbirds) e Mick Taylor (ex-Rolling Stones), misturando personagens reais a personagens imaginários.

O mesmo acontece com faixas gravadas pela banda. No livro, Let me die in your footsteps é de Russell (e não de Bob Dylan) e Close the door lightly (when you go) é de Dylan (e não dos Smiths). Há vários outros exemplos e fica explícito a adoração da banda imaginária – e do autor – por Beach Boys, Stones, Beatles, Dylan.

Há algo de premonitório na obra. Renato Russo acabaria sendo um dos maiores nomes do pop rock brasileiro em todos os tempos e o livro relata (ab)uso de drogas, shows lotados, turnês bem sucedidas, amor e ódio da crítica especializada e mortes trágicas – entre os membros das várias formações da The 42nd St. Band, John Robbins morre de overdose aos 45, John Buck em um acidente de avião aos 62, e Eric Russell de câncer de pulmão aos 67 (Renato Russo morreu há 20, aos 36, de complicações decorrentes do vírus da aids). Aloha, título de uma música de A tempestade [1996], último disco lançado pela Legião Urbana com Renato Russo ainda vivo, já aparece no romance, como uma das faixas gravadas pela The 42nd St. Band.

É um romance fragmentário, montado a partir de anotações (em inglês) deixadas por Renato Russo em diversos cadernos, que muito provavelmente não seria publicado se ele ainda estivesse vivo. Como os diários de sua passagem por um rehab – Só por hoje e para sempre – Diário do recomeço [Companhia das Letras, 2015, 168 p.; org.: Leonardo Lichote] –, The 42nd St. Band – Romance de uma banda imaginária ajuda a compreender a mente inquieta e o espírito criativo de um dos maiores artistas surgidos no Brasil na segunda metade do século passado.

Renato Russo & Fellini

Wagner Moura na capa da Rolling Stone BR de outubro de 2010

Dia 29 de maio, acompanhado de Dado Villa Lobos e Marcelo Bonfá, Wagner Moura grava cd e dvd MTV ao vivo – Tributo a Legião Urbana, onde cantará sucessos do grupo brasiliense. Vocalista da Sua Mãe (a banda do ator), ele não interpretará Renato Russo: ele cantará o repertório da lavra do Trovador Solitário e de seus companheiros de banda.

Na sequência, o protagonista de Tropa de Elite 1 e 2 interpretará o cineasta italiano Federico Fellini em um filme independente americano.