Umberto Eco, Jean Wyllys, Cleidenilson, “jornalismo” e linchamentos

Capa do Extra (RJ) de hoje (8). Reprodução
Capa do Extra (RJ) de hoje (8). Reprodução

 

Tenho certeza que todos/as os/as coleguinhas que passaram pela faculdade de jornalismo viram O nome da rosa, de Jean-Jacques Annaud, baseado no livro de Umberto Eco.

Há quase um mês o escritor italiano declarou que “as redes sociais dão o direito à palavra a uma “legião de imbecis” que antes falavam apenas “em um bar e depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade””.

Recorro ao mestre – que talvez me localizasse nesta “legião de imbecis” – para tratar do assassinato de Cleidenilson Pereira da Silva, de 29 anos, segunda-feira passada (6), por volta de meio dia, no Jardim São Cristóvão.

O caso já é por demais conhecido, sobretudo após ganhar repercussão nacional: depois de uma tentativa de assalto a um bar na região, Cleidenilson foi rendido, amarrado a um poste, despido, e assassinado a socos, chutes, pauladas, pedradas e garrafadas, sangrando em via pública até o óbito.

Nada justifica o ato selvagem, a barbárie nossa de cada dia, a “vingança” coletiva – São Luís tem uma média de um linchamento mensal, embora nem todos ganhem a mesma repercussão. O ato, além de tudo, foi extremamente covarde, já que a vítima estava imobilizada.

A maioria dos comentaristas de internet faz jus à sentença de Eco: “o drama da internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade”. Quase nenhum deles consegue ir além das tentativas de justificar o crime pela exceção: “e se invadissem sua casa?”, “e se estuprassem sua filha?”, “leva pra casa!” – este último comentário em relação ao adolescente que sobreviveu à turba enfurecida que assassinou Cleidenilson. A maioria não apenas concorda, como teria ajudado a linchá-lo se lá estivesse presente. E além: ajudarão a linchar qualquer um/a em qualquer circunstância, se no futuro tiverem oportunidade.

De minha parte, prefiro acreditar no – e lutar pelo – aperfeiçoamento dos sistemas de justiça e segurança pública, entre outras políticas públicas garantidoras de direitos, para que não existam Cleidenilsons – não no sentido de aniquilá-los, mas no de que deixem ou sequer ingressem no mundo do crime – nem linchadores, com suas práticas medievais em pleno século XXI.

À “legião de imbecis” que aplaudiu o linchamento – segundo o carioca Extra, que deu uma bela capa hoje (8) sobre o assunto, 71% dos que comentaram a notícia no perfil do jornal no facebook são a favor da prática – soma-se agora a que critica o deputado federal Jean Wyllys (PSol/RJ), justamente por ele ter emitido opiniões contrárias à manada enfurecida que bate/u palmas para o preto tingido de vermelho sob o sol inclemente de São Luís do Maranhão em pleno meio dia.

Uns revoltaram-se com as expressões “turba de psicopatas” e “multidão surtada de fascismo”, usadas por ele. “A carapuça só assenta na cabeça de quem usa”, já diria minha sábia vozinha. Acham ilegítimas as manifestações do parlamentar pelo fato de ele ser baiano, ter sido eleito pelo Rio de Janeiro e pouco visitar o Maranhão (à distância só se pode incentivar o linchamento?).

O diabo não é o “idiota da aldeia” ou a “legião de imbecis”: estes são o autointitulado “cidadão de bem”, propagador do senso comum – alimentado pelos programas policialescos de rádio e tevê, cabe lembrar – de que “bandido bom é bandido morto”. O diabo é jornalistas e veículos ditos “sérios” embarcarem no tom monocórdio, em vez de separar o joio do trigo.

A também muito boa capa de O Estado do Maranhão de ontem (7). Reprodução
A também muito boa capa de O Estado do Maranhão de ontem (7). Reprodução

Cesar Teixeira louvou São João em repertório autoral, com direito a inéditas e bis

Fotosca: ZR (24/6/2015)
Fotosca: ZR (24/6/2015)

 

Estacionando o carro, brinquei com minha esposa: “Cesar está começando o show antes da hora”. Descemos ao som dos primeiros acordes de Bandeira de aço, clássico que caminha para os 40 anos desde que Marcus Pereira lançou o disco homônimo (1978) de Papete, em que pela primeira vez Cesar Teixeira, Josias Sobrinho, Ronaldo Mota e Sérgio Habibe eram gravados em disco. O Brasil ainda vivia sob a égide da ditadura militar e a música de Cesar, ainda que festiva, é carregada de metáforas sobre aquele momento.

Com outros, Cesar Teixeira havia fundado, em 1972, o Laboratório de Expressões Artísticas do Maranhão (Laborarte), em que realizou um trabalho de pesquisa sobre as manifestações da cultura popular do estado. Era o início de um diálogo entre o que se ouvia em terreiros, sedes de grupos de bumba meu boi e tambor de crioula, entre outros, com a música ensinada na recém-fundada Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo (1974), até então mais puxada à formação erudita.

Bandeira de aço, que abriu o show que ele apresentou em plena noite de São João, no arraial da praça da Casa do Maranhão (Praia Grande), é um primeiro exemplo da grandiosidade da obra de Cesar Teixeira. Determinadas músicas de sua autoria são cantadas a plenos pulmões em plateias diversas, não apenas no Maranhão, tendo muitas vezes a autoria erroneamente atribuída ao intérprete e/ou mesmo consideradas de domínio público. Um caso típico é o da toada Boi da lua, também gravada em Bandeira de aço, que ele também cantou ontem (24), com o sax de Lee Fan emulando toda uma orquestra.

Acompanhado por Bruno Agrella (bateria), Kleuton (contrabaixo), Lee Fan (flauta e sax), Luiz Cláudio (percussão), Luiz Jr. (guitarra e viola) e Renato Serra (teclado), Cesar Teixeira louvou São João desfilando um rol de clássicos em repertório completamente autoral, grande parte registrada em seu único disco lançado até hoje, Shopping Brazil (2004): Xaveco, Parangolé, Mutuca e Namorada do cangaço.

Aparições de Cesar Teixeira em palcos têm sido um tanto raras, e engana-se quem pensa que o compositor, jornalista de profissão, viva dos louros (não) colhidos no passado. Embora parte do repertório tenha sido composta entre o fim da década de 1960 e início da de 70 – casos de Boi da lua e Bandeira de aço; Namorada do cangaço foi gravada por Dércio Marques em Fulejo (1983) –, o artista segue compondo e ontem brindou o fiel público presente com três inéditas: Boi de medonho (toada de sotaque de zabumba), Praia dos Lençóis (adaptação dele para Três navios, tambor de mina de domínio público) e Adeus, garota!, toada com que se despediu do público.

Com atrasos em programações dos arraiais localizados na Praia Grande – praças da Casa do Maranhão, Nauro Machado e Faustina – seu público pode dar-se ao luxo de gritar “mais um” e ser atendido com dois números no bis. O artista tornou ao coco Parangolé e atacou de Rayban, um choro em pleno arraial: inconformados, Cesar Teixeira e sua obra nunca estiveram a serviço da manutenção do status quo.

Um roteiro inteligente e divertido

Fotosca: ZR (23/6/2015)
Fotosca: ZR (23/6/2015)

 

Durante muito tempo certa repetitividade era ingrediente inevitável na programação dos arraiais juninos em São Luís do Maranhão. Desde que, há mais de 20 anos, Roseana Sarney monetizou a coisa em definitivo e fez disso moeda de troca eleitoral, num tempo em que showmícios e que tais ainda eram permitidos por lei.

Explico: até bem pouco tempo – e talvez isto ainda aconteça, em maior ou menor escala – inchava-se a programação junina mesmo com artistas sem nenhuma relação ou intimidade com o período, longe de algo parecido, guardadas as devidas proporções, com o carnaval multicultural do Recife, por exemplo.

O que acontecia: o turista ou nativo que optasse por passar a noite inteira em um mesmo arraial, invariavelmente ouviria a mesma música repetidas vezes, no show deste ou daquele artista, por repertórios montados a toque de caixa ou quaisquer outros motivos, sem qualquer preocupação ou (maior) ambição estética.

O show apresentado ontem (23), às 21h, na praça da Casa do Maranhão (Praia Grande), por Alexandra Nicolas, artista das mais simpáticas e talentosas surgidas em nossa terra nos últimos 20 anos, dá pistas de como superar um modelo falido de São João. Sua apresentação dá várias pistas disso.

Primeiro, Alexandra Nicolas tem público cativo, independentemente de palcos sazonais oferecidos pelo poder público. Segundo, não é forçar a barra a artista integrar a programação junina da Secretaria de Estado da Cultura do Maranhão: sua obra, mesmo que fiquemos apenas em Festejos (2013), seu único disco gravado até aqui, mostra sua intimidade com o forró, o xote, o coco, o bumba meu boi e o tambor de crioula, para ficarmos em algumas nordestinidades em um disco em geral rotulado como de samba – pelo repertório, todo de autoria de Paulo César Pinheiro – ou de choro – pelos músicos acompanhantes.

Alexandra tem os pés (descalços) no terreiro e os olhos e ouvidos nas janelas do Brasil. Seu repertório demonstra um trabalho de pesquisa, não se dissociando, mesmo para o que poderia ser um mero show de São João, de sua carreira fonográfica, não se limita ao óbvio nem ao local, erro comum em artistas em busca de, digamos, legitimidade junina.

Como o turista que anda por São Luís, e havia vários na praça ontem, empunhando suas máquinas fotográficas, “entra em beco, sai em beco”, Alexandra chega chegando com Madalena (Isidoro), hit de Gilberto Gil, para depois passear pela Feira de mangaio (Sivuca e Glorinha Gadelha). Depois decreta: É proibido cochilar (Antonio Barros). Mas disso todo mundo já sabe, atento que está o público para a ginga, o rodar da saia, a empatia da artista com a plateia, de gente que dança agarrada ou só, entre um selfie e outro.

Depois das escamas da Serpente da lua cheia (Ronald Pinheiro), ela pega carona nas asas da Pipira (João do Vale e José Batista) e, continuando o passeio pelo Maranhão, desvenda O segredo do coco (João Madson). “Esta eu aprendi a cantar com Didã”, revela, referenda. “Vai estar no próximo disco”, anuncia. Depois do Maranhão, volta a Festejos, disco que (quase) dá nome ao show, Festejo no Arraial. Emenda o coco do maranhense radicado em São Paulo ao Coco de Paulo César Pinheiro, levando a plateia a arriscar-se no trava-língua, que ela canta acelerando, ao final, sem correr risco nenhum, a esta altura, acompanhada apenas pelo pandeiro frenético de Marquinhos: “peguei no taco/ com o taco bati no coco/ que o coco deu um pipoco/ por pouco o coco não cai/ galo, no oco/ do toco, que ronda o choco/ o galo tá no sufoco/ dá soco que o galo sai”.

A banda, aliás, merece destaque à parte: além do citado percussionista, Fleming (bateria), Carlos Raqueth (contrabaixo), Rui Mário (sanfona) e Robertinho Chinês (cavaquinho), todos senhores de si em seus instrumentos – dispensariam ensaios, mas disto a artista não abre mão, para a coisa fluir da maneira mais descontraída e com a melhor qualidade possível.

Feito o destaque, voltemos ao repertório. “Os meninos da banda brincam comigo que tem muita Madalena no meu disco, que dava pra fazer um disco só com Madalena. Tem alguma Madalena aí?”, indaga à plateia. E canta Bisavó Madalena (Paulo César Pinheiro e Wilson das Neves). Depois pede licença para bulir com a plateia: “quero ver se vocês conhecem. Essa eu pesquei do fundo do baú do baú do baú”, avisa, dando a devida ideia da profundidade do guardado que ela re-revela. “As pessoas tendem a achar que fuleiragem é coisa ruim. Eu gosto muito de uma fuleiragem. Fuleiragem, catrevagem, sacanagem, tudo é coisa boa”, provoca, entre risos seus, dos músicos e da plateia contagiada. E canta Bulir com tu (Cecéu), lançada por Hermelinda em 1988: “Se você pensa que chega de madrugada/ assim como quem não quer nada/ meu bem se enganou/ não adianta se deitar na rede/ por que a minha sede/ você não matou/ mas se você dormir/ eu vou bulir, eu vou bulir, bulir com tu”.

Do repertório de Jackson do Pandeiro pesca Sebastiana (Rosil Cavalcanti), para depois voltar a João do Vale com o Forró do beliscão (João do Vale, Ary Monteiro e Leôncio Tavares), antes de despedir-se com o bumba meu boi São Luís do Maranhão (Paulo César Pinheiro), que passeia pelo tambor de crioula, fecha seu disco e fechou seu show.

A dinâmica dos arraiais não permite bis, já que após o show de Alexandra Nicolas os brincantes do bumba meu boi de costa de mão de Cururupu já se preparavam para sua hora de apresentação. “Se pudesse seria bom demais”, resignou-se o mestre de cerimônias oficial, rendendo-se aos encantos da artista.

Agenda

Alexandra Nicolas volta a apresentar Festejo no Arraial nesta sexta-feira (26), às 21h, no Arraial Terreiro de Maria (Praça Maria Aragão, Centro).

Hoje (24), às 21h, na praça da Casa do Maranhão (Praia Grande), quem se apresenta é o compositor Cesar Teixeira.

Pé-de-serra no alto da Montanha Russa

Divulgação
Divulgação

 

Já louvei várias vezes, sempre que pude, e louvo sempre que posso, o que torno a fazer agora, a ocupação e resistência, por parte do Centro Cultural Mestre Amaral, de uma edificação em que funcionou um restaurante chique no Centro Histórico ludovicense, mais exatamente na Rua da Montanha Russa, nas imediações da Praça Pedro II, onde ficam localizadas as sedes dos poderes executivos estadual (Palácio dos Leões) e municipal (Palácio La Ravardiere), judiciário (Palácio Clóvis Bevilácqua) e eclesiástico (Igreja da Sé).

Sediar ali este importante centro cultural é uma das mais bem sucedidas e populares experiências de ocupação e reuso do espaço urbano em nossa Ilha capital. Oxalá outras iniciativas culturais tomem o mesmo rumo! A história nos ensina e prova que, mais que com prédios, a revitalização dos espaços públicos em geral, e dos centros históricos em particular, é feita com a circulação de pessoas. Quando a gente do lugar e de fora pode circular respirando arte temos uma experiência exitosa para mostrar aos poderes constituídos como é que se faz – para mim, o Mestre Amaral, como é simplesmente chamado o lugar, hoje, é isso. Só não vê quem não quer.

A agenda cotidiana do lugar inclui rodas e oficinas do Tambor de Crioula de Mestre Amaral, discotecagens, brechós, e muito mais. Basta colar no espaço, sobretudo aos fins de semana, mas não só. Não à toa o Centro Cultural foi incluído na programação Caia na Rede, da 9ª. Aldeia Sesc Guajajara de Artes, ano passado. A proposta da Caia na Rede era atrelar o evento realizado pelo Sesc/MA a iniciativas que já existiam em São Luís, com o fornecimento de infraestrutura, divulgação e pagamento de cachês – outras contempladas foram A vida é uma festa (Praia Grande) e Sebo no Chão (Cohatrac).

Como se não bastasse tudo isso, o Centro Cultural Mestre Amaral volta a surpreender e anuncia para esta sexta-feira (19), um arraial com um quê de inusitado. O Arraial do Amaral terá como principal atração um show do duo Criolina (Alê Muniz e Luciana Simões), que na onda de seu recém-lançado ep Latino-americano, atacam de forró-pé-de-serra. No show prestarão reverências a nomes fundamentais de sua formação musical – e de resto, da maioria dos artistas nordestinos –, como Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro e João do Vale, entre outros.

A festa, que conta com o apoio da Rádio Casarão, contará ainda com as participações de Madian, Coletivo Gororoba e da dj Joana Golin. A produção promete: “o tambor também vai apanhar a noite inteira com a turma de Mestre Amaral”. O som está anunciado para começar às 21h. Os ingressos custam R$ 10,00 e podem ser adquiridos no local.

Chorografia do Maranhão: Carbrasa

[O Imparcial, 19 de dezembro de 2014]

O percussionista, que já integrou grupos como o Regional Tira-Teima, Instrumental Pixinguinha e Espinha de Bacalhau, é o 42º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVANIO ALMEIDA SANTOS

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

Mais conhecido como Carbrasa, o percussionista João José Pinto Silva não sabe a origem do apelido. Um vizinho começou a chamá-lo e pegou.

Nascido em Cururupu, em 17 de abril de 1954, Carbrasa aportou na Ilha capital aos 13 anos de idade, motivado pela vontade de estudar. Aos 18, como carteiro, começou nos Correios, de onde ainda é funcionário.

Carbrasa é filho de João Pedro Silva, proprietário de embarcação, “tinha o Iate São João e transportava mercadorias”, e Maria Ferreira Pinto Silva, doméstica.

O percussionista participou de alguns dos grupos mais importantes do samba e choro no Maranhão, tendo integrado o Instrumental Pixinguinha – primeiro regional maranhense a gravar um cd, já sem ele na formação –, Regional Tira-Teima – o mais longevo em atividade, prestes a lançar disco de estreia – e o Espinha de Bacalhau.

Hoje Carbrasa integra o Três no Choro, formado por três Joões: ele, João Neto [flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 2 de fevereiro de 2014] e João Eudes [violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 16 de fevereiro de 2014].

Fazia uma tarde nublada em São Luís quando Carbrasa concedeu seu depoimento à Chorografia do Maranhão, o 42º. da série, na Fonte do Ribeirão.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

De onde vem o apelido Carbrasa? Meu nome é João José Pinto Silva e eu venho de uma cidade do interior chamada Cururupu. Lá, se você verificar, tem bastante pessoas que são músicos, compositores. Um exemplo disso é Tião Carvalho. Vim pra São Luís, aqui estou há mais de 50 anos. Na minha adolescência eu vim morar num bairro chamado Boa Vista, entre o Monte Castelo e Camboa. Depois fui morar num bairro chamado Vila Bessa. Nesse bairro, na Rua Nova, precisamente, defronte à minha casa tinha uma pessoa que nós fizemos uma grande amizade. Ele toca violão, e nós estudantes de segundo grau, depois vestibular, ele foi ser bioquímico e farmacêutico. Mas ele era daqueles camaradas que gozava de todo mundo. Não sei por que cargas d’água ele me colocou esse apelido de Carbrasa. Aí ficou no bairro: Carbrasa, Carbrasa, Carbrasa… Lá perto, no bairro, tinha um restaurante, naquela época, aqui chamavam restaurante de base: Base do Germano, Base do Rabelo… essa era a Base do Edilson, um senhor que tomava de conta, era o dono da base, ele e a esposa dele. Eu tinha começado a trabalhar, hoje ainda sou funcionário dos Correios, e nos finais de semana, principalmente aos sábados, nós íamos para a Base do Edilson tomar cerveja e fazer uma brincadeira lá, de violão e percussão. Lá nós, eu e mais três amigos, Joacilo [Frota, cavaquinista, hoje perito criminal em Imperatriz], Luiz Carlos, começamos a fazer uma roda, violão e percussão, um ganzá, um tamborinzinho, e as pessoas gostavam, tanto é que a conta nós não pagávamos. As pessoas que estavam nas mesas e gostavam de nossa apresentação musical pagavam. Daí essa coisa foi evoluindo. Depois esse meu amigo aprendeu a tocar cavaquinho, já fazia umas coisas de choro, aqueles choros de Waldir Azevedo, próprios para cavaco, ele já fazia aquilo ali.

Como era o ambiente musical de tua infância? O que você ouvia quando era criança? Lá no interior era música popular brasileira da época. Nelson Gonçalves, Jamelão, Orlando Silva. No interior acontecia o festejo, Nossa Senhora das Graças, e o Carnaval. Quando viemos para São Luís eu já comecei a separar, já fui ouvir Chico Buarque, principalmente, Caetano, Gil, a nata da música popular brasileira. Mas também não deixando de lado o que se chamou na época de Jovem Guarda, Roberto Carlos nem tanto, mas o resto da Jovem Guarda.

Você ainda lembra muito da infância em Cururupu? Recordo. Na verdade eu vim embora para São Luís com 13 anos. Lembro de colégio, das brincadeiras de roda. Meu lugar, eu nasci num povoado, Valha-me Deus, numa das ilhas do arquipélago de Maiau, nas reentrâncias maranhenses, são várias ilhas, cada uma um povoado. Era uma ilha que eu considero um paraíso, guardadas as devidas proporções. Eu volto lá até hoje, meu irmão tem casa lá, eu até convido vocês para irem um dia visitar o lugar. Tem um festejo lá, o Festejo de Nossa Senhora das Graças, em maio, é uma festa grande. Vai muita gente de São Luís, tanto conterrâneo como pessoas do entorno, de outros povoados, Ajerutiua. A atividade de sustento das famílias era a pesca, somente pesca. Como é uma ilha, não permitia você ter plantios, a força mesmo era a pesca. Na minha família são cinco irmãos, quatro homens e uma mulher.

Não tinha muita musicalidade envolvida? Não tinha. Lá só tinha um serviço de alto-falante. Não lembro se nesse serviço de alto-falante tocava choro, por exemplo. No rádio, meu pai comprou um rádio, a gente ouvia principalmente a rádio Educadora e a Difusora, que tinham uma potência maior na transmissão, aqueles programas que rodavam música popular brasileira. Quando eu vim embora para São Luís, lá onde eu morava tinha Seu João, acho que ele já até morreu, esse senhor, e nos finais de semana ele botava os discos dele de choro, Jacob [do Bandolim], Carlos Poyares.

Aquilo já te chamava a atenção? Que idade você tinha? Já. De 13 pra 14 anos. Me chamava a atenção, pô, que música é essa?

Com 13 anos de idade o que te trouxe à São Luís? A vontade de querer estudar.

Você veio sozinho, então? Vim sozinho, morar com uma tia. Fui estudante de colégio público, Universidade. Sou bacharel e licenciado em Geografia.

Você chegou a exercer a profissão? Não. Eu fui trabalhar nos Correios e eu não fui para o lado de professor.

A partir de quando e de que estímulo você passou a se envolver com música? A partir da minha adolescência, quando eu fui morar na Vila Bessa e eu conheci esse amigo. Antes, já tinha um grupo de pessoas no Caminho da Boiada, apesar de eu não morar lá, mas conheci as pessoas, no carnaval nós saíamos nos blocos de rua. Depois, no Caminho da Boiada, existia um bloco chamado Turma do Lamê, um dos primeiros blocos organizados, eu participei desse bloco, durante vários anos. Era aquela coisa do samba enredo, nós fazíamos aquela coisa do samba. A música, o que me despertou maior interesse, foi exatamente o samba. Daí, consequentemente, veio o choro, junto.

Você sempre foi percussionista? Que instrumentos você toca? Sempre fui percussionista. Toco pandeiro, na verdade, meu primeiro instrumento percussivo profissional foi um instrumento chamado timba. É um atabaque atravessado na horizontal tocado com uma vassourinha de aço, a mão direita na vassourinha, a mão esquerda no couro. Esse instrumento, eu tive contato com ele quando Roberto Rafa [cantor e compositor], que morava também lá na Vila Bessa, essa coisa de ele me conhecer tocando lá na Base do Edilson, com Joacilo, a gente fez amizade, ele sempre participava de festivais de música popular maranhense, e ele me chamava, às vezes, para fazer um zabumba, e eu ia com ele. Depois ele começou a tocar na noite, num barzinho chamado Duas Nações. Do lado da Prefeitura [o prédio sede da Prefeitura Municipal de São Luís, na Praça Pedro II, Centro] tem um local agora que é uma coisa de tambor de crioula [o Centro Cultural Mestre Amaral], era a Base da Lenoca, e antes era o Bar Duas Nações. Lá tinha uma música ao vivo e Roberto Rafa foi pra lá. Como ele precisava de uma percussão, ele me chamou.

Isso era mais ou menos quando? Década de 1980. Ele viu uma pessoa chamada Biriba, que tocava essa percussão, dessa forma. Biriba viu alguém no [Hotel] Quatro Rodas tocando isso [timba], um cidadão chamado Paulo Tripa, era paulista, veio com o irmão, Joran Coelho, tocar no Quatro Rodas. Lá em São Paulo essa coisa era muito difundida, essa timba. Ele aprendeu, aí, “Carbrasa, Biriba aprendeu a tocar uma percussão, tu não quer aprender com ele?”. Eu disse que precisava do instrumento, a vassourinha, para saber como era a levada. Biriba foi lá em casa, me passou a informação, em meia hora eu já estava tocando, modéstia à parte. Isso foi numa quinta, quando foi na sexta, a gente já foi para o bar, lá pro Duas Nações. Aí começamos a fazer MPB.

Você começou fazendo MPB com Roberto Rafa. E tua inserção nos grupos de choro, deu-se a partir de quando? Com essa coisa de tocar com Joacilo, fui conhecendo outras pessoas, aí já me apresentaram um pandeiro. Só que o pandeiro, na época, não existia pandeiro em São Luís. Existiam uns pandeiros com uma platinela diferente, não era pandeiro como é hoje. As platinelas eram diferentes do que são essas platinelas, hoje côncavas. Fui apresentado a uma pessoa, não lembro o nome, ele me passou a forma de como se toca o pandeiro hoje. A minha namorada, que hoje é minha esposa, foi para o Rio e de lá ela trouxe um pandeiro da Ao Bandolim de Ouro [famosa loja carioca de instrumentos musicais, reduto de chorões]. Mas antes, para eu tocar, eu comprei um pandeiro que tinha as platinelas diferentes, e tinha uma pessoa, Joquinha, do 310 [o Regional 310, famoso grupo de samba e pagode do circuito ludovicense], ele fazia, não sei de que forma, as platinelas côncavas, e a gente ouvia esse som que se ouve hoje. Também não me passou a forma de como ele fazia, a gente entregava o pandeiro para ele, ele arrumava, e ia. O pandeiro melhor que eu tive, eu ganhei de presente, da Ao Bandolim de Ouro. Aí já comecei a tocar pandeiro, aí chegou Paulo Trabulsi [cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 22 de dezembro de 2013], começando a tocar cavaquinho, eu já comecei a conhecer as pessoas, tipo Biné [do Cavaco], Zequinha [do Sax], os Irmãos Gomes [o trio se completa com o violonista Bastico, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 22 de junho de 2014], conheci Agnaldo [Sete Cordas, violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 17 de março de 2013], conheci mestre Sampaio [violonista sete cordas], mestre Serra da Flauta [Serra de Almeida, flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 3 de março de 2013], e outros que tocavam, que já morreram, que tocavam choro. Dos que estão vivos aí, mestre Pitoco, tocava sax, com esses todos eu toquei choro, participei de rodas. Grupos mesmo foi quando fui convidado para compor o Regional Tira-Teima.

Então você chegou a compor o Tira-Teima durante uma época? Sim. Lembro muito bem que era bandolim, Adelino Valente [bandolinista e pianista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 20 de julho de 2014], violão era mestre, o mestre dos mestres, que eu considero, Ubiratan Sousa [multi-instrumentista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 12 de maio de 2013], Fernando Cafeteira [violonista], Vieira [Antonio Vieira, compositor e percussionista], na percussão, Hamilton Rayol [cantor], que fazia voz, o cavaquinho base era Paulo Trabulsi. Aí depois eu saí. Até hoje o Tira-Teima se mantém, com outra formação. Depois disso eu já conheci Jansen [o bandolinista César Jansen, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 21 de setembro de 2014] e outros mais novos do choro, Juca do Cavaco [Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 13 de abril de 2014], a gente tinha um grupo, a gente sempre saía. Aqui na Rua do Ribeirão existia um barzinho, onde é a secretaria [pensativo, tenta lembrar], como é o nome dessa secretaria aqui? [os repórteres respondem: Fundação Municipal de Cultura]. Embaixo dessa secretaria tinha um bar chamado Cafofo, lá nós nos reuníamos, eu, Juca, Vadeco [percussionista], Natan, todas essas pessoas tocavam choro. Tocam choro! Nós com nossas namoradas, éramos um grupo grande, mais de 10 pessoas. Todo fim de semana ou estávamos no aniversário de alguém, ou no Cabeça Branca, um bar que tinha na Ponta d’Areia. Depois veio o grupo Alma Brasileira, que teve vida curta, muito curta mesmo, depois fui para o Regional Pixinguinha [o grupo Instrumental Pixinguinha]. Na época que a Escola de Música [do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo] era na Rua Antonio Lobo, esse grupo ensaiou a Suíte Retratos [do maestro gaúcho Radamés Gnattali], era a peça principal, e outros choros, para compor o repertório do espetáculo, que apresentamos no teatro [Arthur Azevedo]. Acho que foi o show de choro, em São Luís, que eu participei, e o melhor que eu já vi, acabamento, arranjos, detalhes. Tanto é que ensaiamos quase oito meses.

Então você é um dos fundadores do Pixinguinha? Sim, fundador do Pixinguinha. Eu, Jansen, Biné, Paulinho [Santos, flautista], Solano [o violonista sete cordas Francisco Solano, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 26 de maio de 2013], Domingos [Santos, violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 16 de março de 2014] e Marcelo [Moreira, violonista]. Esse era o Regional Pixinguinha.

Quando você aprendeu a tocar já estava praticamente adulto. Ainda estava morando com teus pais? Eles não criaram nenhum problema nessa tua opção pelo batuque? É, eu tinha por volta de 17 anos. Não criaram, até me incentivaram.

Você conciliou os estudos? Estudos, trabalho. Eu já trabalhava na época, era carteiro. Fiz o concurso dos Correios com 18 anos, foi logo meu emprego.

Se você tivesse que definir quem foi o seu principal mestre, quem você apontaria? Percussão? [pensativo] Deixa eu pensar. Que me ensinou percussão, assim, eu não tive um professor específico. Eu ia pela coisa da intuição e do interesse de aprender, de ouvir, colocar o ouvido naquilo ali e depois fazer e executar. Logicamente que eu rendo graças a essa pessoa chamada de Biriba, que me ensinou e daí eu fui desenvolvendo. Com essa percussão eu toquei durante muito tempo, com [os cantores] Lula Bossa, com J. Nogueira. Nos bares da vida, na noite de São Luís, praticamente com todo mundo, com Betto Pereira [cantor, compositor e artista plástico], principalmente com ele. O primeiro local em que tocamos foi um bar chamado Cabeça de Peixe, na Camboa, começamos lá, eu e Betto, violão e timba. Depois fomos incorporando outras pessoas ao grupo, Zezé da Flauta [Zezé Alves, flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 9 de junho de 2013], Jeca de percussão e Mauro Travincas de contrabaixo. Eu lembro muito bem que a gente fez até uma bandinha chamada Amor de Canela. Nós ensaiávamos essa banda lá na casa de Betto, a gente passava o repertório para tocar no Cabeça de Peixe. Depois fomos tocar no Bar Ruínas, na avenida Beira Mar, subindo a Rua do Egito. Era Ruínas por que lá eram só pedras, sem reboco. Tocamos em outros locais. A noite de São Luís acontecia ali na [avenida] Castelo Branco. Eu, Betto Pereira e Zezé fomos tocar na inauguração de um bar, chegou um cidadão e ele simplesmente pegou o extintor de incêndio, bêbado, abriu, aquele pó químico e sujou todo mundo. Era o bar Trem das Onze. Depois esse barzinho acabou, mas não em função deste episódio, mas aconteceu isso [Carbrasa batuca o pandeiro posando para fotos].

Você já viveu de música? Ou a música sempre foi uma atividade complementar? A música para mim sempre foi uma atividade complementar, nunca sobrevivi de música. Já recebi cachês, que complementam a minha renda familiar. Eu continuo tocando, não com a mesma intensidade que era na época. Hoje eu participo de um grupo de choro chamado Três no Choro, eu, João Eudes e Neto, a gente toca todo sábado na Caves du Vin. São três Joões. Como Neto viajou, acho que foi defender a dissertação dele lá em Minas, aí nesse mês agora, quem vai tocar lá é Robertinho Chinês [bandolinista e cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 28 de abril de 2013].

Além de grupos como o Tira-Teima, Instrumental Pixinguinha, Alma Brasileira e Três no Choro você também já participou de grupos de samba. Quais foram? De grupo profissional eu participei do Arco Samba. Por que Arco Samba? Arco era nossa associação dos Correios, uma associação recreativa. A associação na época comprou os instrumentos pra gente, éramos eu, Jansen, Raimundo Luiz [bandolinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 15 de setembro de 2013], Josebel, que saiu dos Correios, Bento, que era funcionário dos Correios, mas morreu, Djalma, que tocava ganzá. Foi feito pra gente fazer uma coisa informal na associação, a gente se reunia para tomar cerveja, as pessoas foram conhecendo e chamando a gente para tocar, nas casas de São Luís. E teve também o Espinha de Bacalhau, eu, Vadeco, Chico Chinês [percussionista], Benivaldo [percussionista], o violão sempre quem tocava era Costa Neto, era considerado no violão. Às vezes ele não ia, chamavam João Eudes, Luiz Jr. [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 4 de agosto de 2013] Se bem que Luiz Jr. quando foi, eu já tinha saído. Dos novos eu já tive contatos, amizades com todo mundo, Robertinho, Wendell [Cosme, bandolinista e cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 24 de novembro de 2013], mais recentemente Rafael Guterres [cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 18 de maio de 2014], ele organiza grupos para tocar em eventos, me chama para tocar.

Hoje você está só no Três no Choro? O Espinha de Bacalhau acabou? É. Do Espinha de Bacalhau eu saí. Atualmente eu só integro o Três no Choro.

Além de percussionista você desenvolve outras habilidades na música? Não. Só toco percussão. Qualquer dos instrumentos populares brasileiros, os instrumentos de samba todos.

Você já participou de gravações de discos? Lembra alguns? Já. [pensativo]. Não sei se esse disco já está pronto, mas do grupo Café com Leite e Pão, um grupo de samba que é Neto, Quirino [percussionista]. Gravei no primeiro disco de Rosa Reis, com o Pixinguinha, ela gravou Estrela, de Joãozinho Ribeiro, o grupo participou. Disco de carnaval, eu fiz um ano toda a parte de percussão.

E shows? Que artistas você acompanhou além de Roberto Rafa? Betto, Lula Bossa, passei seis anos tocando com ele. Desses que hoje são famosos praticamente todos. Com Lula Bossa foi aí que me apurou mais o ouvido para a questão da bossa nova. Nós fomos também colegas de colégio. De figuras nacionais participei de shows de Dona Ivone Lara e Diogo Nogueira. Fiz participação tocando também com J. Nogueira, hoje ele mora em Londrina, grande voz. Eu participei também de um grupo que não tinha nome, era eu, Paulo Trabulsi, Serra e Sadi [Ericeira, violonista], irmão de Paulo.

Para você o que significa o choro, qual a importância dessa música para você? Em termos de música brasileira, instrumental, é a principal música para mim. É a música que eu mais gosto de tocar. Ela exige muito.

Você se considera um chorão? Eu me considero. Pela experiência que eu tenho, pelo tempo vivido tocando choro, a coisa formal, a informalidade, as rodas de choro. Só por isso aí eu já me considero um chorão.

As visões de Chico Nô

Divulgação
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Às margens do Rio Tocantins, Imperatriz tornou-se famosa por aglutinar um grupo de músicos, a partir de meados da década de 1980, responsáveis por uma estética particular. Nomes como o paraense Neném Bragança, o tocantinense – como entrega o sobrenome artístico – Zeca Tocantins, o potiguar Nando Cruz, o pernambucano Carlinhos Veloz e os maranhenses – nenhum nascido lá – Erasmo Dibell, Chiquinho França, Luis Carlos Dias, Wilson Zara e Gildomar Marinho, entre outros.

Dos mais simpáticos músicos já surgidos no Maranhão, Chico Nô é dos poucos de fato nascidos em Imperatriz, embora já há muito radicado na capital maranhense. Também já viveu no Rio de Janeiro, onde aprofundou os estudos e aproximou-se do universo de Noel Rosa, uma de suas mais importantes referências.

No entanto, ao contrário do carioca falecido pouco antes dos 27, engana-se quem pensar numa figura eminentemente boêmia, de vida desregrada ou coisa parecida. Apesar do sorriso constante e do jeito simples, Chico Nô é também um dos mais dedicados artistas militantes, figura em extinção num estado em que a política – sobretudo a cultural – é, ainda, fortemente marcada pelo clientelismo e pela troca de favores. Não é raro vê-lo envergando um boné do Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais Sem Terra (MST), envolvido em eventos organizados pelo próprio, entre outros movimentos e organizações sociais.

Conhecedor de um invejável repertório de terceiros, capaz de fazer inveja a qualquer profissional da noite e do “som do barzinho”, Chico Nô é também um admirável compositor, dono de obra robusta, em volume e qualidade. Para ficarmos em poucos exemplos, citemos Chorinho de herança (com letra de Ricarte Almeida Santos) e Pequenininho, ambas gravadas por Lena Machado em Samba de minha aldeia (2009), além de Taperoá voou, homenagem ao genial e pouco falado Vital Farias, Baião dos excluídos, gravada em Regar a terra (2005), disco coletivo que celebrou os 20 anos de MST no Maranhão, e Visões de Lampião (as três em parceria com Bruno Gueiros e Vergara), que dá nome ao show em que ele faz o pré-lançamento do disco homônimo, dividido com o músico e produtor Zé Paulo.

Note-se o equilíbrio de seu repertório, tanto afeito aos problemas sociais quanto à festa, quando não às duas coisas.

Visões de Lampião, o show, acontece hoje (29), às 21h, no Barulhinho Bom (Rua da Palma, 217, Praia Grande), e terá participações especiais de Patativa e do grupo Xaxados e Perdidos, além de discotecagem de Girleno. Os ingressos custam R$ 20,00 e podem ser adquiridos no local.

As conexões de Alê Muniz e Luciana Simões: latino-americanos de sangue, alma e música

Foto: Laila Razzo/ Divulgação
Foto: Laila Razzo/ Divulgação

 

Parceria de Alê Muniz e Luciana Simões com o poeta Celso Borges, São Luís Havana, faixa de Cine Tropical (2009), segundo disco do duo Criolina, resume bem o espírito musical do casal: a ponte cultural entre as ilhas de São Luís e Cuba, citando mestres da música popular daqui e de lá.

Os ventos caribenhos que sopram nesta direção e ajudam a explicar as origens do reggae por estas plagas foram, desde o início, uma marca do som do Criolina, sempre impregnado desta latinidade.

Luciana Simões foi vocalista de banda de reggae, com sucesso nacional; Alê Muniz gravou alguns discos, participou de festivais, compôs em parceria com diversos nomes da cena local; ambos fixaram residência por longa temporada em São Paulo e decidiram voltar ao Maranhão, num ato de resistência, para produzir a partir daqui. Com o BR-135, projeto idealizado e tocado por eles, movimentaram a cena autoral da música produzida hoje no Maranhão, ajudando a revelar novos nomes e revalorizar outros.

“Muita gente pergunta, ainda com aquela ideia de sul maravilha, como uma necessidade indispensável. Por que São Luís? Vocês voltaram por quê? Hoje em dia é bem mais fácil tocar o barco daqui do que em outros tempos. Para quem quer fazer sucesso, não há a necessidade de morar no eixo Rio-São Paulo. Conhecemos vários artistas que conseguiram visibilidade e agenda morando nas suas cidades fora do eixo, como Siba [ex-Mestre Ambrósio], Lirinha [ex-Cordel do Fogo Encantado], artistas de Belém, Recife etc. Existem circuitos de festivais e mostras se consolidando no norte/nordeste e centro-oeste. As distâncias se encurtaram e também tudo depende da sua visão de carreira: artista não é só aquele que estoura, é também aquele que faz parte da trincheira, da resistência”, explica Alê Muniz.

Ele continua: “O fato é que, apesar dos pesares, nesse momento eu prefiro viver em São Luís, mesmo com todos os problemas da cidade. Aqui criamos e desenvolvemos projetos que acreditamos interferir positivamente na construção de uma São Luís que desejamos. A cidade nos inspira. A cultura local, as melodias, os sotaques, os personagens, os ritmos que visitam a nossa cabeça enquanto convivemos com a cidade. Aqui também temos a nossa família, amigos, o que nos alimenta também. É claro que dúvidas pairam sobre a cachola, porque não é tão simples assim; e seria muito sem graça se fosse. Afinal somos uma dupla dinâmica [risos]. Gostamos de aventura. Não é a toa que o Bye Bye Brasil serviu de inspiração para nosso segundo disco, onde percorremos o Brasil profundo de forma alternativa, semelhante à Caravana Rolidei de Cacá Diegues. E explorar o Brasil a partir daqui é muito legal. Às vezes acho que a receita é não ter receita. Sal, pimenta e farinha a gosto!”

Sempre cobrados pelo terceiro disco, o sucessor de Cine Tropical – estrearam com o homônimo Criolina, em 2007 –, eles se preparam para um aperitivo: o EP Latino-americano, que lançam no próximo dia 21 (quinta-feira), às 20h, no Barulhinho Bom (Rua do Giz, 217, Praia Grande). O ingresso (R$ 20,00) dá direito a um EP. Além de pocket show da dupla, haverá discotecagem de Jorge Choairy e os presentes assistirão em primeira mão o videoclipe da faixa-título, produção da Gataria Filmes, dirigido por Tatiana Natsu, que também assina o roteiro, e Diego Carvalho Sá. O clipe foi realizado com recursos obtidos com financiamento coletivo, através de uma campanha virtual.

O crowdfunding vem se consolidando como uma ferramenta interessante de financiamento de obras artísticas, sobretudo musicais, em tempos de mudanças rápidas e radicais na indústria fonográfica e, em sentido diametralmente oposto, do engessamento e estagnação das leis de incentivo. “Achamos incrível testar novos modelos de produção. Acredito que seja uma forma nova de passar o chapéu e uma forma de mobilizar e envolver o público, que sai da posição passiva para a prática concreta de apoio à produção cultural. Nós podemos sentir o sabor de realizar algo financiado diretamente pelo nosso público. E acho que o público também deve sentir o prazer que é contribuir com o que gosta”, opina Luciana.

Indagada sobre as dores e as delícias desses modelos alternativos, a partir da diminuição do espaço das grandes gravadoras, ela também se manifesta, sem esconder suas dúvidas e preocupações. “A música foi a linguagem artística que sofreu mais impacto dos avanços da tecnologia. Passamos de vinil para cd, de cd para download, de download para streaming num piscar de olhos, e acho que muita água ainda vai rolar até os artistas conseguirem monetizar a música através de venda digital ou outro caminho que ainda não conhecemos. As mudanças foram muito bem vindas para a cena independente, mas já evoluímos para um segundo ponto; o processo de gravação não é barato, é mais acessível do que já foi, mas você tem muitas pessoas envolvidas: músicos, estúdio, designer gráfico, fábrica, fotógrafo, técnico de gravação, técnico de mixagem e masterização. E aí o que acontece? Você disponibiliza para download. A conta não fecha. Como o compositor paga as contas? Vivemos um período ainda onde o direito à propriedade intelectual está em xeque”, diz.

Latino-americano inaugura também a parceria da dupla com o cantor e compositor Bruno Batista. “Nos identificamos muito com Bruno, ele compõe muito bem. No segundo semestre do ano passado passamos cinco meses em São Paulo e morávamos no mesmo bairro. Cada dia que a gente se encontrava saía uma ideia, muito bacana. Adoramos nos encontrar e ainda vamos fazer mais coisas juntos”, elogia e promete Luciana.

O EP antecipa um CD cuja previsão de lançamento é agosto que vem. Além da faixa-título e Pra ver se ela gosta, parcerias com Bruno Batista, Latino-americano reinventa covers de Osvaldo Farrés [Quizás] e Reginaldo Rossi [Garçom]. Na bolachinha, a Alê Muniz (guitarra e voz) e Luciana Simões (voz), juntam-se Gerson da Conceição (contrabaixo), João Simas (guitarra), Isaías Alves (bateria) e Marco Stoppa (trompete).

Pergunto o que mais cabe no balaio do duo. “Cabe de tudo!”, vibra Luciana. E continua: “pra gente Maranhão é como o Caribe brasileiro, as conexões que temos com ritmos como merengue, reggae, salsa, causa uma curiosidade. Há uma série de teorias para justificar essa ligação: navios cargueiros que aportavam trazendo a música caribenha, ou as ondas de rádio do Caribe que invadiram a ilha, mas acho que o fato desses ritmos terem caído no gosto popular e até se incorporado como manifestações culturais se deve a nossa herança negra. Mas sim, aproveitamos os ritmos regionais, misturamos a ritmos cubanos, ao ska, ao rock, e ao tropicalismo: isso é bem antropofágico [risos]”.

Chorografia do Maranhão: Chiquinho França

[O Imparcial, 24 de agosto de 2014]

O bandolinista e guitarrista Chiquinho França é o 38º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVANIO ALMEIDA SANTOS

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Francisco Lopes da Costa nasceu em 14 de fevereiro de 1964, num lugarejo, a Fazenda Catanha, entre Santa Inês e Bom Jardim. Filho do agricultor Antonio Costa de Sousa e da doméstica Maria Lopes da Costa, tem 10 irmãos – dois já falecidos –, entre os quais o cantor e compositor Luis Carlos Dias, que lhe ensinou os primeiros acordes.

O França de seu nome artístico é corruptela do nome de batismo: sua mãe o chamava “Franca” e os amigos “França”, sempre diminuindo o Francisco, que acabou virando Chiquinho, um de nossos mais requisitados instrumentistas. “Um guitarrista que toca bandolim”, define-se.

Seus discos estão impregnados de rock, choro e ritmos da cultura popular do Maranhão. O primeiro, descobriu assim que ouviu o clássico The Wall, do Pink Floyd. O choro e o Maranhão estão fundidos em Santa Morena, clássico de Jacob do Bandolim que incluiu um bumba meu boi no arranjo de sua gravação. Seu registro instrumental para Filhos da precisão, de Erasmo Dibell, virou prefixo de programa de rádio – Chiquinho França havia se tornado, ele próprio, uma paixão da infância, quando subia em um muro para captar o sinal de uma rádio brasiliense e ouvir as gravações dOs Incríveis para Czardas – que acabou regravando – e O milionário.

Reprovado na banda de Raimundo Soldado, ele não desistiu da música – sorte a nossa! Sobre estes e outros episódios, Chiquinho França deu seu depoimento à Chorografia do Maranhão, o 38º. da série, no Bar do Jósimo, na esquina das ruas do Alecrim e Pespontão, no Centro de São Luís – cidade pela qual se apaixonou, de onde nunca mais saiu.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Seu primeiro trabalho foi vendendo bolo? Sim. Mamãe fazia bolos para a gente vender para conseguir a alimentação de casa. Eu comecei a trabalhar com 10 anos de idade. Inclusive nesses trabalhos que eu fazia na rodoviária foi aonde eu me encontrei com o choro. Foi na rodoviária de Santa Inês, ouvindo um ceguinho, chamado Francisco das Chagas, Chaguinhas, que chamavam. Um anão. Ele usava um megafone, esses megafones é que eram a rádio das pequenas cidades. Não tínhamos sinal de televisão nessa época, até os anos 1970. Só pegávamos o sinal da rádio Nacional de Brasília. Era o contato que a gente tinha assim com a música. Na época o choro era um sucesso. É até hoje, mas na época a gente ouvia na programação de rádio.

Como era o ambiente musical em tua casa? O que se ouvia de música lá? Quase nada. Nem rádio a gente tinha. Era tudo no do vizinho. Muita pobreza, pobreza mesmo! Eu me lembro de rádio na minha casa, já fui eu que comprei, um radinho de pilha sem antena, eu tinha que subir no muro do quintal para sintonizar a rádio Nacional para ouvir Czardas [música do violinista e compositor italiano Vittorio Monti] tocada pelos Incríveis [grupo musical da Jovem Guarda] e O milionário [título aportuguesado de The millionaire, música do guitarrista e compositor inglês Mike Maxfield] também pelos Incríveis, eu achava aquele instrumental a coisa mais linda do mundo. Ambas eram prefixo e sufixo de um programa que eu, infelizmente, não recordo mais o nome. Mas eu sabia exatamente o horário em que o programa começava e terminava e eu ia lá para o muro para ouvir. Eu já sabia que eu queria ser músico mesmo, que eu era músico. Eu já tinha certeza disso.

A partir de que momento você teve essa certeza? Desde que eu, criança, ouvia as músicas. Isso me chamava a atenção e me remetia a um êxtase, digamos assim, eu saía dessa vida aqui, me pegava imaginando eu tocando aquele instrumento. Me impressionava muito como eles imprimiam o áudio nos vinis, eu ficava olhando para aquele vinil, tudo isso me causava curiosidade com relação ao áudio, eu tinha muita curiosidade com relação a esse tipo de gravação. Ficava me imaginando ali, sabia comigo que eu tinha que aprender a tocar um instrumento. Até que com 12 anos de idade eu dedilhei um violão que meu irmão Luis Carlos Dias [cantor e compositor] conseguiu emprestado com um amigo e estava lá em cima da cama dele. Foi a primeira vez que eu tive contato com um instrumento. Mas eu já curtia o ceguinho lá na rodoviária.

Ele tocava algum instrumento ou só usava o megafone? Ele tocava cavaquinho numa afinação inventada por ele. Eu não consegui pegar um acorde dele. Ele usava um amplificador delta que era alimentado por umas baterias de carro e um arame amarrado no pescoço [segurando o megafone], que ele cantava, e a esposa dele tocava pandeiro. Não tinha acompanhamento, ele tocava só as melodias, era só ele esse pandeiro. E harmonizava, ele fazia a melodia e dava um acorde, era um som distorcido, a amplificação do som muito ruim. Na rodoviária antiga de Santa Inês, ali na Laranjeira. Quando eu não estava na escola ou vendendo eu estava ali ouvindo-o tocar. Eu jogava a moeda, ele ouvia, eu cansei de ouvi-lo tocar [os choros] Tico-tico no fubá [Zequinha de Abreu], Brasileirinho [Waldir Azevedo], Vê se gostas [Waldir Azevedo e Otaviano Pitanga], Delicado [Waldir Azevedo], enfim, essas músicas, Dilermando Reis [violonista], ele tocava algumas coisas, Waldir Azevedo [cavaquinista] e o próprio Jacob do Bandolim [Jacob Pick Bittencourt, bandolinista]. Esses choros todos ele tocava lá, eu já curtia.

Desse teu encontro com o violão emprestado de Luis Carlos Dias, dali já deslanchou? Não, não. Luis Carlos não deixava eu pegar, eu era muito criança, o violão era dum amigo dele. Ele apareceu tocando [cantarola] “hoje é o dia do Santo Reis” [trecho de A festa do Santo Reis, de Márcio Leonardo, sucesso na voz de Tim Maia], eu decorei esses acordes. Quando ele largou o violão eu percebi que tinha facilidade, ritmo, aptidão para a música. Eu comecei a economizar uns trocados, o violão foi o do Luis Carlos, meses depois ele comprou um violão e fui na sombra dele, aprendendo os primeiros acordes com ele.

Então o violão foi teu primeiro instrumento. Hoje você toca vários. A partir de que momento você passou para outros? O Luis Carlos já entrou numa banda, começou a tocar guitarra. Ele foi sempre me influenciando, eu fui seguindo os passos dele. Eu entrei numa banda de baile, a gente chamava de conjunto, era Chica Cão, ela tocava acordeom, tinha uma banda de forró. A gente passava a noite inteira tocando, eu aprendi os primeiros acordes, ela me ensinou aquela harmona [harmonia], e eu viajava com ela para tocar forró naqueles interiores ali, Alto Alegre, a gente andava de lancha, Rio Pindaré, tocando esses bailes a noite toda, começando de nove até cinco da manhã.

Tocando violão? Tocando já guitarra.

Além de você e Luis Carlos há algum outro músico na família? Meu avô tocava acordeom, mas era só para tomar as pinguinhas dele. Trabalhava na roça, chegava, fazia aquelas melodias de Luiz Gonzaga mais fáceis, só pra curtição mesmo, não foi profissional.

Como foi a reação de teus pais quando você e Luis Carlos começaram a enveredar pelo caminho da música? Foi surpreendente e até inusitada. A coisa que eu tinha mais medo era de falar isso para minha mãe. Eu trabalhava de manhã, vendia leite, bolo, doces na rodoviária, e à tarde eu estudava. E aí surgiu uma oportunidade de viajar para Imperatriz. Eu escutei num parque de diversões na cidade um cara requisitando músicos para formar uma banda em Imperatriz. Aí ele me encontrou: “rapaz, ouvi falar que você toca”, eu já tocava nessa bandazinha pequena de forró.

Você tinha que idade? 14 anos. Aí eu digo: “eu não vou, minha mãe não deixa, eu estudo, e aqui eu ajudo a trabalhar”. E ele: “não, eu falo com tua mãe”. E minha mãe deixou. “Meu filho, olha, se isso for bom pra ti, é isso que você quer, eu já percebi, pode ir. Mas lá arranje um jeito de estudar também”. Aí eu fui dessa forma, parti para Imperatriz, pra começar uma carreira musical mesmo, profissional nessa época.

E como foram as coisas em Imperatriz? Como foi sua inserção? Eu fiquei apenas três meses e voltei. O cara que me levou, me levou para tocar numa cidade do Pará, próximo à Marabá, eu não vou recordar o nome agora, para tocar num cabaré. E não falou pra mim. Eu não me adequei, fiquei com medo, e voltei pra Santa Inês. Fui trabalhar com Raimundo Soldado [cantor e compositor maranhense] em Caxias. Eu fui pro Raimundo Soldado substituir um guitarrista chamado Elias, um monstro de harmonia. E eu, fraco, estava começando. Eu só toquei um baile, fui reprovado. Um cara me chamou, “pô, Chiquinho, os músicos acharam que você tem que estudar mais” e não sei o quê. De lá eu fui tocar nos Jovens, uma banda mais pop. O Raimundo Soldado tocava muito forró, apesar de as músicas dele serem brega, as harmonias que o guitarrista fazia eram uma coisa absurda. Ele agradava muito, foi sucesso nacional. Raimundo Soldado ainda hoje toca em rádio em São Paulo. Ele estourou um disco todinho na [gravadora] Copacabana.

E o que te tirou do forró e do pop? Ainda ali pela rodoviária de Santa Inês tinha uma loja de instrumentos. Naquela época quem fazia sucesso era essa rapaziada aí, [os cantores] José Augusto, Fernando Mendes, Wanderley Cardoso, o próprio Roberto Carlos. A gente ouvia essa música, basicamente. E tinha dois álbuns duplos, empoeirados, mais de dois anos lá encalhados, e eu curioso, fui ouvir, tinha uma vitrola para você ouvir o vinil antes de comprar. Era o The Wall, do Pink Floyd, aquele branco, duplo, e o outro era Minha História, um álbum verde, uma coletânea, de Chico Buarque de Holanda. Eu achei aquilo muito diferente. Aí fui trabalhar para comprar, o cara me vendeu num valor barato, um custo assim, já queria se ver livre, me vendeu duas peças maravilhosas, e achando que estava me enrolando, que estava me vendendo um material de péssima qualidade [risos].

E estava mudando tua vida? Estava me dando caminhos, abrindo portas para eu tocar música de qualidade. Me apresentou o melhor do rock progressivo, que é Pink Floyd, e Chico Buarque de Holanda, que é referência de nossa música popular brasileira.

Se você tivesse que nominar quem você considera teus principais mestres, quem você citaria? São muitos. O ceguinho é o primeiro. Depois eu conheci Armandinho [Macedo, bandolinista] tocando bandolim. Antes de conhecer o trabalho de Jacob do Bandolim eu conheci o Armandinho tocando Jacob do Bandolim, aí foi impactante. A Cor do Som, eu comprava tudo dA Cor do Som, e o outro, Pepeu Gomes [guitarrista], que também toca bandolim. Eu lembro de um pot-pourri que ele começa, já fazia com banda, era tudo muito diferente. É o que eu faço hoje nos meus shows, eu gosto de tocar com banda, e não é inventando, é o que os baianos já faziam, Pepeu e Armandinho. Então, Pepeu Gomes, Armandinho, Robertinho de Recife [guitarrista]. Aí vêm os grandes mestres, Jacob do Bandolim, Pixinguinha, gosto de George Benson [guitarrista], David Gilmour [guitarrista e cantor, vocalista do Pink Floyd]. São meus mestres que me inspiram, minha fonte para a música. Luis Carlos Dias me ensinou os primeiros acordes, mas ele já mudou para Imperatriz e eu fiquei em Santa Inês. Depois eu aprendi, mas ninguém me ensinou: eu aprendi olhando todo mundo tocar.

Depois que você assumiu a música, você trabalhou com outra coisa? É possível viver de música? Só música! Eu sou um operário da música, eu vivo de música. Não é fácil, não. Você tem que ser artista duas vezes. Eu sou produtor, ultimamente meu faturamento é muito mais como produtor que com meus próprios shows, eu faço muito pouco show, toco muito pouco, me apresento pouco por aí.

Mas não por falta de vontade. É por que você vai ficando mais exigente, cada vez mais. Eu dispenso show se não for para fazer com qualidade. Só pelo cachê eu não vou, mesmo às vezes precisando. Por esse respeito, eu tenho muito cuidado com a qualidade, de como eu vou me apresentar. E isso tem imprimido um respeito, eu sinto que eu tenho esse respeito no mercado por conta disso.

São quantos discos gravados até aqui? Cinco cds e um dvd. O primeiro foi um vinil, Novos tempos, o segundo foi o primeiro cd, Em cartaz, o terceiro foi Chiquinho França Instrumental, aquele da capa vermelha que tem os instrumentos na capa, o quarto foi Chiquinho França Instrumental, que eu estou vestido de azul, com uma guitarra branca. Na verdade são quatro cds, os outros dois foram coletâneas, o que tem o dedo assim [faz o gesto de legal, com o polegar erguido] foi o quinto, e o sexto foi o Solos, gravado ao vivo no Teatro [Arthur Azevedo], que é cd e dvd.

E agora saiu esse conjunto bonito. É, agora a gente fez uma nova coletânea [Som do Mará, em cd e dvd]. Eu estava sem disco e fiz aquela coletânea, ficou bem apresentado, gostei do material gráfico.

A partir de quando o bandolim entra na tua vida? Quando eu fui reprovado e dispensado e mandado embora da banda do Raimundo Soldado, quando eu estava saindo com minhas malas, o baterista, que era um cara que ficamos amigos, dormíamos no mesmo quarto, em duas redes, ele conversava comigo e dizia: “rapaz, não desiste, você tem talento, por mim você ficava”. Ele pegou e ligou para seu Cícero, da banda Os Jovens, de Codó, e o cara veio me buscar, eu nem voltei pra Santa Inês, fui direto pra Codó. Lá a recepção foi outra, era uma galera mais jovem, já tocava mais pop, eu já tocava algumas coisas dA Cor do Som. Lá eu me encaixei, fiquei tocando seis meses. E falei pra seu Cícero, que eu gostaria de comprar um bandolim. E ele foi em Teresina e trouxe um bandolim de presente pra mim, um bandolim Trovador. Aí eu não dormi mais, fui estudar bandolim.

Você nasceu em Santa Inês, foi para Imperatriz, depois Codó. Como é que foi até chegar em São Luís? Fui para Imperatriz e formamos a banda Bumbum de Bebê. Era eu, Luis Carlos, eu tocava na Bumbum de Bebê, na parte acústica, bandolim, Luis Carlos, violão, Alfredo Varela, bateria, e Zé Raimundo era o crooner, vocalista. Quando entrava a banda eu tocava contrabaixo e Luis Carlos era guitarrista, ele tinha mais nome, foi o melhor músico, guitarrista e vocalista daquela região na época. Quando nós trocamos o nome para Banda Quatro, aí eu assumi a guitarra e Luis Carlos o contrabaixo. Eu fiz meu primeiro show em Imperatriz, instrumental, e aí percebi a coisa de começar a tocar música instrumental. O primeiro disco, vinil, gravado em Imperatriz, que eu fiz de favor, no estúdio do Carlito Santos, na [rua] Coronel Manoel Bandeira, em Imperatriz, o disco chegou, eu coloquei nas lojas, e eu passava de 30 em 30 dias para pegar a grana, e estavam lá todos os discos [risos]. Rapaz, eu não consegui vender um exemplar nas lojas. Eu já tinha até vergonha, um cara ficava com pena de mim, um dono de loja, “pô, Chiquinho, não vendeu nenhum”. Eu gravei Filhos da precisão, do [cantor e compositor Erasmo] Dibell. Esse vinil veio pra cá pra São Luís e virou tema de abertura do programa MPM, que César Roberto apresenta, ele abria e fechava [o programa Mirante Popular Maranhense] e nas entrevistas tocava Filhos da precisão instrumental.

Foi a primeira gravação de Filhos da precisão? Antes do próprio Dibell? Foi. Foi antes do Dibell gravar. Destacou essa música instrumental, eu fiz um show instrumental, tentei fazer o lançamento desse disco em Imperatriz várias vezes, público nenhum. Eu tentei fazer um show instrumental no Teatro [Ferreira Gullar]. Chico Brasil era gerente do Armazém Paraíba, em Imperatriz. Eu falei “Chico, eu quero fazer um show instrumental no teatro. Tu patrocina?” Ele disse “na hora!”. Ninguém colocava gente naquele teatro, nem Neném Bragança [cantor]. Luís Brasília me deu a mídia na Mirante e aí nós fizemos uma mídia de um concerto instrumental no teatro. Na época a gente cobrava, tipo 10 reais hoje, como se fosse na moeda corrente de hoje, e os shows nacionais lá eram 60. Aí eu puto de raiva cobrei 60 reais, pra ninguém ir mesmo. Meu amigo, venderam todos os ingressos quatro horas da tarde, a 60 reais, e a gente teve que fazer duas sessões. Ganhei dinheiro e fiquei surpreso, uns 30 dias sem entender.

Que ano foi isso? 1983.

Uma coisa que se percebe em teu trabalho é o diálogo permanente entre rock, choro e ritmos da cultura popular do Maranhão. É intencional? Você se sente mais à vontade nesses gêneros? Há quem até me critique, “pô, teu disco não dá para ouvir, vem num estilo, de repente muda, não tem um estilo”. Mas são os estilos que eu gosto. Como é que eu vou fazer? Só se eu fizer discos diferentes. Eu fico com ciúme de fazer um disco só de guitarra e não colocar meu bandolim. É intencional mesmo, é meu estilo, é minha forma de fazer. Já tem pessoas que curtem isso, é interessante, é complicado você querer agradar todo mundo. É o que eu costumo dizer: eu nunca gravo o que eu não gosto. Agora, dentro do repertório que eu gosto, eu tento conciliar com o que meu público curte. Eu sempre escolho meu repertório no palco. Primeiro eu toco, se eu sentir que não houve empatia, eu fico “essa entra, essa não”, é dessa forma que eu monto meu repertório. Tem dado certo.

Além de bandolim, guitarra, baixo e violão, você toca algum outro instrumento? Na verdade eu toco guitarra e bandolim, são meus instrumentos. Nem violão, eu não acho que sou um violonista. Agora no estúdio eu toco até teclado, emendando, né? Mas eu não diria que eu toco. É guitarra e bandolim mesmo.

Algum projeto de disco pensado para breve? Eu sempre estou. Estou com um projeto agora, um trabalho novo, autoral, com ritmos maranhenses. Eu vou pegar, fazer uns dois sotaques de boi, cacuriá, tambor de crioula, pegar isso e transformar numa pegada universal. Pegar células desses ritmos, estou devendo há muito tempo. Era para esse ano, mas eu vou me ocupar, acabei aprovando um projeto na lei [estadual de incentivo à cultura] e consegui captar junto à Cemar [Companhia Energética do Maranhão] e estou trabalhando esse projeto, que é viajar com esse show Som do Mará, só que está indo com outro nome, não vai ser Som do Mará. Esse projeto foi criado para a Vale. O nome ficou Sons e Trilhos, a gente ia fazer o percurso até Parauapebas. Eu vou ficar ocupado com esse projeto até meados de outubro. Então eu não vou ter tempo de fazer esse meu trabalho esse ano, que seria Francisco 5.1, eu estou completando 51 anos de idade e é a sonoridade de dvd.

Fora os teus, que discos têm teus instrumentos na ficha técnica? São muitos, eu não vou lembrar [longa pausa, pensativo]. O Canta Imperatriz [disco com as finalistas de um festival de música da cidade] é um disco que ficou bom, que eu gosto, o projeto Viva 400 Anos [festival realizado em São Luís por ocasião dos 400 anos de sua fundação] tem o dedo da gente, eu assinei a produção daquele trabalho, aquele disco que Augusto [Bastos] produziu, Louvação a São Luís [disco comemorativo dos 390 anos da capital maranhense]. Aí tem os discos de Luiz Jr. [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 4 de agosto de 2013], participei, toquei bandolim, [os cantores e compositores] Zeca Tocantins, Neném Bragança, Wilson Zara. São pequenas produções em disco.

Você tem quantas composições? Muito pouco. Acho que umas 40. Mas nenhum choro. É incrível, eu gosto de choro, mas não consigo fazer. Eu tento, mas nem guardo, não gosto. Eu componho na pressão, eu sou um “jingleiro”. Se tu deixar aqui, pode passar à tarde para pegar, mas sou meio preguiçoso para compor. Mas choro eu não consigo.

Com essa tua dificuldade em compor choro, você se considera um chorão? Não, não me considero. Eu sou meio desconfiado. Por que eu não toco choro, aquele choro tradicional, eu não consigo ficar ali, tocar do jeito que é. Eu pego, boto uma correia no bandolim, faço com batera [bateria], contrabaixo, uma coisa mais pop, e já fiquei sabendo que tem chorão que não gosta. Eu acho que eu sou um guitarrista que toca bandolim.

Pra você, o que é o choro? É a nossa música brasileira, é o nosso jazz. Se duvidar, é o jazz mais bonito, mais complicado, mais rico do mundo, se formos colocá-lo no patamar de jazz. O choro normalmente tem três partes. Tem choros que têm três tons diferentes. Se você realmente não for um músico que conheça o choro você não sai tocando choro. Só se já conhecer as melodias e tiver uma noção do que é choro. Pode ser o músico que for, ele se perde, não acompanha. É complicado! O choro é abrangente, é baião, é frevo, é xote.

Ele pode ser bumba meu boi? Pode ser cacuriá? Pode, desde que se tenha a pegada do choro.

Você fez isso bem em Santa Morena [Jacob do Bandolim]. É, coube ali, ficou legal, né?

Papiros do Egito segue aberto

O Papiros do Egito e a memória de dona Moema seguem vivos. Foto: ZR (25/4/2015)
O Papiros do Egito e a memória de dona Moema seguem vivos. Foto: ZR (25/4/2015)

 

Entre a costureira e o supermercado, subindo a Sete de Setembro, dei com o portão do Papiros do Egito aberto. A placa de venda continua lá, com o número de um celular e do velho 32310910 com o qual, vez por outra, perguntava a Moema Alvim, se tinha isso ou aquilo. “Fala alto, que eu sou surda!”, retrucava gritando, depois de um alô, para eu então aumentar o tom de voz, ser reconhecido e ela me responder se tinha e quanto era o livro ou disco que eu procurava.

Desci do carro e fui até lá. Um segundo portão é mantido fechado, por questões de segurança, e por um espelho que serve de retrovisor, dei de cara com Josilene, que há alguns anos abrira um sebo especializado em livros escolares, na Rua do Egito, a partir de uma cota da generosidade de dona Moema – também conheci sua ex-funcionária há mais de 20 anos, quando ainda menino comecei a frequentar o Papiros do Egito, cujo nome herdou da rua do primeiro endereço, no Centro, à época já funcionando na Rua dos Afogados, depois mudando-se para a Sete de Setembro, onde permaneceu até o falecimento da proprietária, em outubro passado. A última vez que havíamos nos visto fora justamente no velório e sepultamento da amiga comum.

Entabulei rápida conversa com Josilene, afinal de conta os vícios antigos são importantes, mas o supermercado não poderia esperar muito. Lembramo-nos de dona Moema. “Ela parecia uma adolescente, era só nesse negócio de face, direto”, ela comentou, lembrando o ativismo da professora aposentada na rede social. Rimos, saudosos. Ela me disse estar abrindo o sebo já há algum tempo [de segunda a sexta das 10h às 17h; sábados de 9h ao meio dia], cuidando de catalogar o acervo – até para avaliá-lo, já que pretende comprá-lo, junto com o casarão – e devolvendo as consignações aos donos. Dei-lhe parabéns, era importante a manutenção do Papiros do Egito aberto e, consequentemente, viva a memória de dona Moema. Desejei-lhe sorte e fiquei de aparecer com mais tempo e dinheiro. Esperei-a terminar um telefonema e pedi: “Deixa eu tirar uma foto tua, pra botar na internet e divulgar que estás abrindo o sebo”. Vaidosa, ela recusou-se, alegou estar descabelada. “Tira só do sebo”, devolveu, entregando-me a sacola com os três discos que catei, para não perder a oportunidade e o hábito.

Celso Borges e Nosly celebram longeva parceria

Os parceiros no misto de ensaio e entrevista. Foto: Zema Ribeiro
Os parceiros no misto de ensaio e entrevista. Foto: Zema Ribeiro

 

Uma das parcerias mais recentes de Celso Borges e Nosly é A ceia do mundo, em que ambos musicaram poema de José Chagas, cantada pelo segundo, em disco produzido pelo primeiro com Zeca Baleiro em tributo ao poeta [A palavra acesa de José Chagas, de 2013], falecido meses depois do lançamento: “A esta mesa sozinho, eu me sento em vão./ Não bebo deste vinho nem como deste pão./ Falta-me convite para a paz da ceia,/ e humano apetite ante a comida alheia/ Eu busco outra mesa onde muitos estão,/ sob uma gula acesa de outro vinho e outro pão/ Mesa onde se permite uma fome tão forte,/ que nos dá apetite até para a morte”.

Uma das primeiras parcerias é Proposta de quase eternidade [1984], deles com Zeca Baleiro, gravada pela cantora Rosa Reis em seu disco de estreia. “Era a época do show Um mais um, que Nosly faria com Zeca, a primeira vez que Zeca subia num palco”, recorda-se Celso Borges. “Eu vi esse poema publicado no jornal [O Estado do Maranhão, Celso à época era funcionário do Sistema Mirante], a gente acompanhava sempre, fim de semana rolava um poema, um poeta”, lembra Nosly.

Parceiros há 31 anos, eles apresentam neste sábado (25), às 19h, na Livraria Graúna [Rua Riachuelo, 337, telefone: (99) 35211873], em Caxias/MA, Palavra tem som, espetáculo com cerca de hora e meia de duração, misto de show musical e recital poético, com entrada franca. Na ocasião, autografarão livros e cds a interessados.

O blogue foi à casa de Celso Borges em uma tarde chuvosa da semana passada. Presenciou um ensaio – ou quase isso – bastante despojado, em que os parceiros brincavam entre si, tentavam lembrar letras e melodias de suas parcerias e respondiam a algumas perguntas, por exemplo, sobre como surgiu a ideia do show. “Pintou de um puxão de orelha que eu dei em Nosly, “poxa, a gente nunca fez nada em Caxias, tu é de lá”. O lançamento é um misto de show, recital e bate papo sobre nossa parceria”, antecipou Celso. A ideia é realizar apresentações em outros locais.

Palavra tem som é dividido em quatro partes: na primeira, Celso Borges diz alguns poemas, com intervenções de Nosly ao violão; na segunda, comentam suas parcerias, interpretadas por Nosly; na terceira, contam com a participação de um artista local [o nome não havia sido confirmado até o fechamento desta matéria]; na última, Nosly canta parcerias suas com outros poetas e músicos, entre as quais Noves fora, com Zeca Baleiro, Nome, com Olga Savary, Para uma grande dama, com Fernando Abreu, Voo noturno, com Sérgio Natureza, Sancho Dom Quixote, com Ferreira Gullar e Parador, com Gerude e Luis Lobo.

A tarde corre e a chuva para; as lembranças continuam: “Blues para um anjo torto foi nossa primeira parceria pelo Correio”, recorda Celso, que em seguida conta a história de uma letra que fez para a primeira filha de Nosly: “Gabriela é depois de June [outra parceria de ambos]. A história dela é linda. As histórias de minhas parcerias com Nosly são as mais lindas possíveis: eu fui para Belo Horizonte lançar um livro e estava em uma mesa na Universidade [Federal de Minas Gerais]. Conversando com a menina que produz, soube que ela era ex-namorada de Nosly, mãe de Gabriela, a primeira filha dele. Aí ela disse: “olha a foto dela” e eu vi a foto de uma menina de óculos, com sete anos. Quando eu vi aquele retrato eu fiz uma letra e mandei pra Nosly: “fiz pra tua filha”. [Cantarola/recita a letra:] “Menina que foi e veio/ carinha que vejo pelo meio/ pela frente, pelo dente, pela foto/ pelo fio do vestido de fivela/ eu sei quem é ela/ é Gabriela/ menina eu vi, viu?/ frente a frente/ distante tua fonte/ Belo Horizonte/ tua pele de princesa bela/ eu sei quem é ela/ é Gabriela/ a alma dela está ali/ sonhando além daqui/ daqui perto de mim/ como tinta numa tela de aquarela/ como boca num beijo de novela/ é ela que vai e vem/ colorindo seu estilo/ na berlinda linda das estrelas”. Em seguida Nosly se junta a ele, acompanhando a melodia ao violão.

 

Indago sobre a quantidade de parcerias e Nosly arrisca “que sejam umas 40”. “Muitas [estão] perdidas”, confessa Celso Borges. A já citada June é outra feita por correspondência. Ele relembra: “Nosly estava em Belo Horizonte, eu em São Paulo. Depois ele me liga: “CB, fiz a música”. Quando eu mandei a letra, eu já sugeri a incidental de Alegria, alegria [de Caetano Veloso; cantarola:] “por que não?/ por que não?”. Nosly complementa: “eu estava em casa estudando Sons de carrilhões, de João Pernambuco. Essa música, eu acho que foi um transe tão grande que hoje eu não me sinto capaz. Eu não conseguiria fazer essa melodia hoje. Na carta, é capaz de eu ter essa carta em casa, ele já sugeriu um aboio”.

Nosly afirma ter “um calhamaço, com parcerias, algumas inacabadas, com Gerô [o artista popular Jeremias Pereira da Silva, morto pela Polícia Militar em 2007], Zeca, Joãozinho [Ribeiro], Lobo [de Siribeira], Celso Borges. Tem mais de 10 anos que não abro, um dia eu mostro pra vocês”.

Celso Borges revela ter um punhado de fitas com parcerias deles gravadas e puxa da gaveta um hd externo, onde repassa, na tela de um laptop, nada menos que 83 parcerias, todas prontas, com Nosly, Zeca Baleiro, Gerson da Conceição, Chico César, Fagner, Otávio Rodrigues, Alê Muniz, Lourival Tavares, Mano Borges, Papete, César Nascimento, Tutuca, Djalma Lúcio e Madian. Empolgado, cantarola trechos de algumas letras e recita outras – em algumas tem mais dificuldade; talvez estivessem no rol das que ele já considerava perdidas.

“Essa aqui [In, gravada por Nosly no livro/cd XXI, de Celso, lançado em 2000] eu tinha feito a letra, um poema de amor [declama:] “te ponho dentro do poema/ entre vírgulas, parênteses/ tua pele passa/ e brilhas folha a folha/ te vejo entre aliterações e rimas/ teu corpo vivo/ nu no verso/ teu corpo verso, viva o verso/ no universo de teu corpo vivo”. Eu estava em Niterói, a segunda parte eu sabia [arrisca-se ao violão, cantarolando:] “o futuro não é delicado com a gente/ mas delicado multiplica-se nas páginas/ tu és o livro do mundo e ponto final”, eu fiz isso, mas eu não sabia fazer o começo”, remonta a feitura, esta com os parceiros lado a lado.

 

Os dois rememoram ainda Motor [gravada por Vange Milliet em Música, livro/cd de Celso, lançado em 2006] e Aldeia [parceria registrada em Parador, de 2011]. A primeira, realizada por e-mail; a segunda, uma morna com boi de zabumba: “eu fiquei vários dias ruminando isso [cantarola:] “as flores do norte perfumam/ juro que sei de onde vem”. Quando ele foi fazer o disco, eu cheguei, “tá quase pronta!”, Zeca gravou com ele. Ficou linda!”, derrete-se Celso.

Pergunto sobre a importância da parceria e ambos não escondem a admiração um pelo outro. “Eu tenho a sorte de ter parceiros muito musicais e Nosly não foge à regra. Hoje ainda conseguimos sentar e compor, conversar”, vibrou Celso. “Celso é um dos caras que mais incentivou a gente, lá no começo. Eu e Zeca, ele foi o primeiro cara que realmente nos impulsionou para a composição. A gente ficava acompanhando no jornal os poemas que ele publicava, a gente se identificava, gostava de ler. Ele despertou na gente essa coisa da composição. Nosso contato com o instrumento não era só o afã de tocar um pouquinho mais, passou a ser também o de compor, o de criar melodias. Depois ele fez um programa, Contatos imediatos, a gente ia, gravava, e ele botava no ar. Sempre estivemos muito próximos, embora depois eu tenha ido para Belo Horizonte, ele ficou aqui, depois eu fui para o Rio, ele para São Paulo, mas a gente nunca perdeu esse contato”, devolveu Nosly.

Festa para Pixixita reúne tribo da música

Em edição anterior da Tribo do Pixixita, a cantora Flávia Bittencourt, acompanhada pelo Instrumental Pixinguinha, com Chico Nô ao pandeiro. Foto: Taciano Brito
Em edição anterior da Tribo do Pixixita, a cantora Flávia Bittencourt, acompanhada pelo Instrumental Pixinguinha, com Chico Nô ao pandeiro. Foto: Taciano Brito

 

Não conheci José Carlos Martins (1/4/1952-12/4/2002), o Pixixita, pessoalmente. Sua fama, no entanto, está impregnada de tal modo na cidade que é impossível não se sentir, de algum modo, próximo dele.

Alguns músicos citaram-no como professor, amigo ou influência, ao longo da série Chorografia do Maranhão. A um deles, Ricarte Almeida Santos, um dos parceiros da empreitada, respondeu: “eu não tive a honra de conhecê-lo, mas conheci Nelsinho, um cara bacana, gente fina”.

É por aí.

Nelsinho é filho de Pixixita. Também é, já, uma espécie de lenda urbana, professor de capoeira, o sorriso sempre a iluminar a ensolarada São Luís, que vez em quando a gente encontra flanando por aí, por aqui, por ali.

Pixixita era professor da Escola de Música. Feições indígenas, entre a inocência de um curumim e a sabedoria de um pajé. Mais que a música, sua grande paixão, o professor foi um cultivador de amizades.

Maranhense de Imperatriz, o cantor e compositor Chico Nô é um dos que não escondem a amizade, admiração, carinho, respeito e saudades de Pixixita, falecido em 2002, em um acidente automobilístico.

Em 2004, no evento semanal A vida é uma festa, Chico Nô homenageou o mestre amigo. Da tertúlia capitaneada pelo poetamúsico ZéMaria Medeiros, a Tribo do Pixixita – como passou a ser chamada a homenagem – ganhou vida própria e não existe abril sem ela, no calendário cultural da cidade que Pixixita tanto amou.

Produzida por Luiza Maria, Chico Nô e Nelsinho, a Tribo do Pixixita chega em 2015 à sua 12ª. edição, agregando uma constelação de craques da música produzida por estas plagas (sem contar os que aparecem sem ser anunciados), mais “pixixitesco” impossível: Angela Gullar, Beto Ehongue, Chico Nô, Chico Saldanha, Criolina, Erivaldo e Didã, Flávia Bittencourt, Gerude, Instrumental Pixinguinha, Josias Sobrinho, Marcos Magah, Ronald Pinheiro, Rosa Reis e Sérgio Habibe.

A festa acontece no Malagueta (Renascença II), neste sábado (11), às 20h30. Os ingressos custam R$ 20,00, à venda no local.

Música com Z. Com dois ZZ

Foto: Joelma Santos
Foto: Joelma Santos

 

Para alguns a fórmula voz e violão pode estar desgastada. Para outros pode ser um momento de maior intimidade entre artista e público, sobretudo por que permite mostrar as canções mais próximas de sua feitura, além do risco maior ao erro – não há “cozinha” para encobrir qualquer vacilo. O formato enxuto permite ainda maior atenção às letras – o que deve sempre ser valorizado em se tratando do encontro de dois grandes compositores brasileiros.

É quase certo que todas as almas que lotaram completamente o Teatro Arthur Azevedo ontem (18) concordam que o formato “apartamento” do show intimista de Zélia Duncan e Zeca Baleiro enquadra-se na segunda categoria. O espetáculo será reapresentado hoje (19), às 21h, mas parece que os ingressos também já estão esgotados.

Duncan e Baleiro relembraram grandes sucessos seus e músicas importantes para sua formação, contaram causos – principalmente ele –, entre muitos gracejos mútuos, com um quê de teatral, mas bastante espontâneos.

O show que tem circulado por várias cidades brasileiras nasceu de um projeto abortado. Seria no mítico Teatro Castro Alves, em Salvador/BA, e reuniria várias duplas mais ou menos inusitadas. O projeto não aconteceu, mas a turnê do par de Zês, sim.

Como tudo começou na Bahia – como alguns advogam ao falar de samba e de Brasil – logo eles tinham na mão uma letra do lendário Galvão, letrista dos Novos Baianos. Parceria a três, Zélia e Zeca assinaram a melodia de Fox baiano, um dos pontos altos do show, em que Baleiro toca ukulele – a música já é hit em rádios e no youtube.

Por falar em Bahia, ela ataca de Eu queria ela (Amor proibido), de outra lenda viva do samba baiano, Clementino Rodrigues, vulgo Riachão, que ela apresentou dizendo tratar-se de um daqueles compositores populares na verdadeira acepção da palavra, daqueles que fazem músicas que dá vontade de sair cantando junto à primeira audição. Muitos dos presentes certamente não conheciam a música, mas quando Zélia repetiu a primeira estrofe, já cantaram junto com ela: “eu queria ela/ eu queria ela/ mas ela não me quis/ ela não me quer/ é problema dela”. Uma delícia!

“Vou cantar uma de um grande poeta aqui do Maranhão, Fernando Abreu”, Zeca anunciou Alma nova, parceria deles. “Deixa eu ser, por uns instantes, parceira de vocês. Posso, Fernando?”, pediu Zélia humildemente antes de dividirem os vocais.

“Quando começamos a montar o show, cada um trouxe coisas de seu baú afetivo. E eu adorei quando a Zélia trouxe essa aqui, do Roberto e do Erasmo, acho que mais do Erasmo, um lado b, o que em se tratando de Erasmo é quase um lado c”, contou Zeca antes de começarem a cantar Grilos.

Outra história contada por Zeca para gargalhada geral do público foi a seguinte, resumidamente: “uma vez uma colunista social foi entrevistar a Maria Creuza [cantora] e mandou: “como é ser casada com Antonio Carlos e Jocafi”?”. Ele ilustrava a mania quase geral – na qual ele mesmo se incluiu ao anunciar que iria cantar uma música “do Antonio Carlos e Jocafi” – de tratar a dupla como se fossem uma pessoa só. E mandou Você abusou.

Ela também contou um causo: “quando Catedral [versão dela e Christiaan Oyens para Cathedral song, de Tanita Tikaran] estourou eu comecei a rodar o Brasil. E eu sempre tive uma mania de visitar um lugar que muita gente aqui não conheceu, chamado loja de discos. E eu estava em uma loja de discos em Curitiba, sozinha, lá no fundo, quando um rapaz entrou e pediu: “eu quero uma música que tá tocando na novela”. E o vendedor perguntou: “é lenta ou é rápida?”. E ele: “é lenta”. “Quem canta é homem ou mulher?”. E o rapaz: “não sei”. Eu levantei o dedo e falei: “sou eu””.

Um vídeo exibido antes do espetáculo e uma fala idem, apresentando sua ficha técnica, traziam advertências sobre o uso de celulares para fotografá-lo e filmá-lo, devidamente desrespeitadas pela plateia. Com a elegância e o bom humor peculiares, tiraram onda e cantaram o samba inédito Ah, Eugênio (parceria deles com outro novo-baiano, Paulinho Boca de Cantor), sobre facebooks, iphones, selfies e a dependência nossa de cada dia de tecnologias e remédios controlados.

Não faltaram a parceria inaugural da dupla, Se um dia me quiseres, gravada por ela em Pelo sabor do gesto. Daquele disco, pescaram ainda Tudo sobre você (parceria dela com John Ulhoa). Nos momentos em que ficaram sozinhos no palco, primeiro ela, depois ele, ela cantou Tevê, parceria dele com Kléber Albuquerque, e Quase nada, parceria dele com Alice Ruiz, e ele cantou Nos lençóis desse reggae, parceria dela com Christiaan Oyens.

Aplaudidos de pé, voltaram para o bis em que cantaram assim, ampliando a comunhão com a plateia. Ajudados um pelo outro, e em uníssono pelo público, novamente de pé, cantaram Catedral, sucesso dela, e Telegrama, dele, em meio ao qual couberam, incidentais, Engenho de flores (Josias Sobrinho) e Vassourinha meaçaba (Chico Maranhão), fora a incidental natural Estrada do sol (Dolores Duran e Tom Jobim), cujos versos “me dê a mão/ vamos sair pra ver o sol” pareciam iluminar a noite ludovicense com o sol de Leminski: aqueles dois ZZ juntos não significam nem dão sono.

Adiado show de Patativa

Figa pra espantar o mau olhado. Foto: Beto Matuck
Figa pra espantar o mau olhado. Foto: Beto Matuck

 

O show que a compositora Patativa apresentaria neste sábado (14), no novo Barulhinho Bom (Praia Grande), foi adiado. Maria do Socorro Silva, a Patativa, “foi acometida por uma virose e não teria condições de cantar”, informou a produção.

Em novembro passado ela lançou seu disco de estreia, Ninguém é melhor do que eu, em show no Porto da Gabi. A ideia da apresentação cancelada era proporcionar ao público ludovicense nova oportunidade de vê-la no palco. Mês que vem ela deve realizar uma turnê no circuito Sesc/SP, com produção de Zeca Baleiro.

Em momento oportuno, a produção informará nova data para o show de Patativa, o que este blogue terá o maior prazer em divulgar.

Março fazendo água – É o segundo show adiado em São Luís este mês. Sexta passada (6), o lançamento de Milhões de Uns – vol. 1, de Joãozinho Ribeiro, que inauguraria uma temporada do compositor, anunciado para o Bar do Léo, não aconteceu. A produção do compositor também deve anunciar a nova data de estreia em breve.

Josias Sobrinho é o convidado de projeto que Nosly e Djalma Chaves estreiam hoje

O baixista Mauro Travincas entre os anfitriões. Foto: divulgação
O baixista Mauro Travincas entre os anfitriões. Foto: divulgação

 

Parceiros de longa data, Nosly e Djalma Chaves inauguram hoje (12), às 22h, no Amsterdam Music Pub (Lagoa da Jansen), uma temporada em que receberão mensalmente outros nomes da música. A estreia do projeto Nosly e Djalma Chaves Convidam contará com a presença de Josias Sobrinho.

A dobradinha repete a bem sucedida experiência de Andarilho Parador, turnê com que Nosly e Djalma percorreram vários palcos em Imperatriz, Teresina, Fortaleza, Belém e Brasília, além da capital maranhense. A turnê foi batizada por discos dos artistas, Andarilho, de Djalma Chaves, em fase de finalização, e Parador, mais recente trabalho lançado por Nosly, com produção de Zeca Baleiro.

Nosly (guitarra) e Djalma Chaves (violão) homenageiam e recebem Josias Sobrinho, acompanhados ainda por Mauro Travincas (contrabaixo) e Fleming (bateria). O repertório contará com músicas autorais dos anfitriões e do convidado, além de músicas de artistas que lhes servem de referência. A realização é da Satchmo Produções e os ingressos individuais custam R$ 20,00 e mesas R$ 110,00.