O “Novo mundo” de Arnaldo Antunes, trilha sonora de amor antigo

“Novo mundo” – capa/ reprodução

A faixa-título do mais recente álbum de Arnaldo Antunes diz a que veio logo nos primeiros versos: “cada vez mais plástico e menos água/ cada vez mais casca e menos substância”, canta em “Novo mundo”, parceria com Vandal (com quem dueta na criação a quatro mãos), numa música que alerta para uma série de problemas de nossos tempos, sobretudo na seara da internet e redes sociais, mas não só.

Curioso que o álbum lançado em março tenha passado batido ao crítico de música, este resenhista que vos escreve, que defende o jornalismo cultural como uma curadoria possível desta época, em contraponto a sermos nós, público e crítica, eternas vítimas em looping (redundância intencional) dos algoritmos (e agora inteligências artificiais) a serviço sabemos de quem.

Curioso também é que tenha sido minha companheira Diana Melo quem me tenha chamado a atenção para o álbum — ou mais especificamente para algumas faixas dele — graças a uma espécie de pegadinha dos algoritmos (a contradição possível, enfim): lendo as letras (antes, para depois ouvir as músicas) postadas na conta no instagram do artista. Explico: ambos seguimos o ex-Titãs (o eterno Titãs?) nas redes sociais e duas letras bonitas (aqui um pleonasmo, em se tratando de Arnaldo Antunes) lhe tenham chamado a atenção em um certo intervalo. Devo dizer que mesmo morando juntos há algum tempo, eu e ela passamos os dias nos mandando memes e músicas, não necessariamente nessa ordem, e temos uma playlist alimentada a quatro mãos com músicas bonitas, capítulos importantes de nossa história de amor, reencontro, conquista e propósitos mútuos.

A primeira é “Acordarei”, composição solitária de Antunes: “amanhã amanhã/ de manhã de manhã/ acordarei/ acordarei feliz/ porque você também/ acordará”, começa a letra; “que bom que há você aqui/ pra brisar/ risos em teus zelos/ asas em teus pesos/ pazes em teus pesadelos/ pra ficar feliz/ que bom que há você aqui/ pra brincar”, canta em “Pra brincar”, outra também assinada somente por Antunes.

Se “Novo mundo” abre em tom apocalíptico, o álbum se desdobra em camadas de amor. Citei aí duas letras que fazem sentido e podem ser trocadas por links enviados em aplicativos de mensagens ou acopladas em playlists não só pelo repórter e sua companheira mas por qualquer casal apaixonado, mas há várias outras que caberiam no soundtrack de nossa love story (e da sua também, caro leitor, cara leitora, permita-se). Amar é brega, é piegas e se é amor não há como fugir disso. Minto: há. A forma como Arnaldo Antunes canta o amor é tão sofisticada que você pode tentar conquistar, conseguir conquistar e/ou manter acesa a chama da conquista, da paixão e do amor, com suas composições, sem ser tachado de brega ou piegas.

Se não acreditam, leiam o começo da letra de “O amor é a droga mais forte” (mais uma faixa de assinatura solitária): “o amor é a droga mais forte/ que vicia logo no flerte/ e o que vem depois se reparte/ cicatriz por cima do corte/ o destino faz sua parte/ fora isso só mesmo a sorte”.

Arnaldo Antunes acerca-se de parceiros novos e antigos: canta com o takling head David Byrne em “Body corpo” e “Não dá para ficar parado aí na porta”, ambas parcerias da dupla; com Marisa Monte, parceira em “Sou só”; e com Ana Frango Elétrico em “Pra não falar mal” (Arnaldo Antunes), exercício de empatia, altruísmo e… amor: “”Se pra melhorar a gente/ precisa ter mais cuidado/ pra não falar mal de ninguém/ não pensar mal de ninguém/ pra não ficar mal com ninguém/ não querer mal a ninguém/ pra ser o amor de alguém/ amar alguém também/ pra tudo ficar bem”, diz a letra.

Parceria com Marcia Xavier, “Tanta pressa pra quê?” versa sobre a instantaneidade e o excesso de noticiários do “cristal líquido da tela”, mas é ao mesmo tempo pergunta-síntese e ensinamento: problema nenhum em ouvir, achar bonito e escrever sobre um disco sete meses após seu lançamento; como problema nenhum em reencontrar um amor 20 anos depois e resolver vivê-lo e também, a seu modo escrevê-lo, cuidando também da trilha sonora.

Acervo pessoal – reprodução

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Ouça “Novo mundo”:

“Comida, diversão e arte”

[release]

RicoChoro ComVida na Praça terá três edições presenciais em agosto; projeto estabeleceu parceria com a Ação da Cidadania na campanha “Pacto pelos 15% com fome”

Chorinho (1942). Candido Portinari. Reprodução

15% da população brasileira não têm o que comer atualmente, no maior retrocesso da história do país. É pensando nestes mais de 33 milhões de brasileiros que a Ação da Cidadania lançou, no último dia 15 de julho, a campanha “Pacto pelos 15% com fome”, que visa “promover uma grande aliança entre entidades da sociedade civil e empresas, grupos de mídia, agências de comunicação e publicidade, pessoas físicas, artistas e influenciadores, para atuarem na linha de frente no combate à fome e às desigualdades sociais”. O objetivo é “viabilizar doações diretamente para as instituições do Pacto e cadastrar voluntários na luta contra a insegurança alimentar”.

No Maranhão, a primeira iniciativa a abraçar a causa é o projeto RicoChoro ComVida na Praça, que terá três edições presenciais em agosto: dias 6, 20 e 27, nas praças do Letrado (Vinhais), Nossa Senhora de Nazaré (Cohatrac) e Largo da Igreja do Desterro, respectivamente, sempre às 19h. Os eventos são gratuitos e abertos ao público.

“Este evento sempre prezou pelo diálogo e pela diversidade, além do afeto. Palco e plateia em comunhão no exercício de fazer e fruir boa música, alimento para a alma. Agora, diante da tragédia social brasileira, irmanamo-nos a esta importante iniciativa da Ação da Cidadania, sempre lembrando o início de tudo, com os ideais do sociólogo Herbert de Souza, o Betinho. É colocar em prática a máxima dos Titãs: “a gente quer comida, diversão e arte”, aproveitando ainda para agradecer à sensibilidade do deputado Bira do Pindaré, pelo apoio ao projeto, e à Prefeitura de São Luís, através da Secretaria Municipal de Cultura, fundamental para viabilizá-lo”, comenta o sociólogo e radialista Ricarte Almeida Santos, idealizador e coordenador de RicoChoro ComVida na Praça.

No primeiro sarau, as atrações são a dj Josy Dominici, o Regional Caçoeira e os cantores Vinaa e Djalma Chaves; depois é a vez do dj Marcos Vinícius, Instrumental Tangará, a cantora Bia Mar e o cantor Carlinhos da Cuíca; e na última edição desta temporada, o sarau terá como atrações o dj Jorge Choairy, o Quarteto Crivador e o cantor Cláudio Lima, com a participação especial da cantora Dicy.

RicoChoro ComVida na Praça é uma produção de RicoChoro Produções Culturais e Girassol Produções Artísticas. O evento garante acessibilidade cultural para pessoas com deficiência, com assentos prioritários, banheiros acessíveis, audiodescrição e tradução simultânea em libras, a língua brasileira de sinais.

Arnaldo Antunes não faz mais do mesmo

[sobre Acústico, show que Arnaldo Antunes apresentou sábado passado (9), no Mandamentos Hall, Lagoa, São Luís. Desaviso: isto não é jornalismo!]

Acústico MTV (2012) é o terceiro disco ao vivo de Arnaldo Antunes em cinco anos, mas isso não o coloca no rol daqueles compositores brasileiros que todos os anos lançam o mesmo disco. O ex (ou eterno?) titã está em outro grupo: o dos mais instigantes e interessantes compositores brasileiros na ativa.

O repertório de seu novo disco passeia por várias fases da carreira: solo, com os Titãs, Tribalistas, além do registro em sua própria voz para músicas que fizeram sucesso na voz de outros intérpretes, casos de Alma (parceria com Pepeu Gomes, sucesso na voz de Zélia Duncan), Sem você (parceria com Carlinhos Brown gravada como Busy man pelo baiano com participação especial de Marisa Monte) e De mais ninguém (parceria com Marisa Monte gravada por ela e regravada por Nelson Gonçalves). E ainda há espaço para inéditas.

Arnaldo Antunes não é de se repetir: se em Ao vivo no estúdio (2007), os convidados eram os tribalistas Carlinhos Brown e Marisa Monte e os titãs Branco Melo e Nando Reis, em Ao vivo lá em casa (2011) eram Erasmo Carlos e Jorge Benjor; agora, neste Acústico MTV (2012) são Nina Becker e Moreno Veloso, o que dá ideia das possibilidades da obra de sua obra, tão diversa.

Foi basicamente o repertório de Acústico MTV que Arnaldo Antunes apresentou em São Luís sábado passado (9), no Mandamentos Hall (Lagoa). Um show irretocável. Nem mesmo as quase duas horas e meia de atraso para o início conseguiram diminuir seu brilho, a demora certamente uma estratégia da casa para vender sua bebida cara em seu ambiente climatizado, um som mecânico anos-80-remix criando o clima para quando a banda subisse ao palco.

Quem pagou pelos ingressos – salgados para os padrões ilhéus, pista a 70 reais, no dia – certamente achou bem pago, que valeu cada centavo, caso deste que vos perturba, que assistiu ao show às próprias custas, cantando quase todo o repertório e relevando até mesmo o comportamento da turma que assiste a shows não pelos próprios olhos, mas pelas lentes de máquinas fotográficas e/ou telefones celulares que servem de.

Mesmo a pouco mais de metro e meio do palco, por vezes tive que ver mãos e braços não batendo palmas ou se agitando alegremente ao som de Arnaldo Antunes e banda, mas empunhando o que há de mais moderno em se tratando de tecnologia. O palco da casa, a propósito, deveria ser mais alto, já que o público não-VIP assiste ao show de pé – ou seja, quem está mais distante do palco verá ainda menos artista e mais braços, mãos, máquinas, celulares, flashes.

Vestido de branco, qual um chef, a camisa com aqueles botões não ao centro, Arnaldo Antunes demonstra alegria o tempo inteiro sobre o palco, talvez feliz com sua ótima banda – ou melhor, constelação: Betão Aguiar (contrabaixo), Chico Salém (violão), Edgard Scandurra (violão), Marcelo Aguiar (bateria) e Marcelo Jeneci (sanfona e teclado) –, talvez feliz com a receptividade do público, com o novo disco, ou certamente com tudo isso ao mesmo tempo. É sincero o seu “espero que vocês estejam se divertindo aí tanto quanto nós aqui” dirigido ao público. Nem mesmo algumas falhas no som o irritaram. Ou ao menos ele não demonstrou. Nem mesmo a graça sem graça do despropositado grito de “toca Raul!”, se é que ele ouviu.

Hora e meia de show depois, bis incluso, hora de tentar comprar o disco novo e catar autógrafo. Não consegui. Um simpático Jeneci me informou que a caixa com os discos de Arnaldo Antunes já haviam sido guardadas, pois o músico pegaria em instantes uma van rumo ao aeroporto. Ele não havia trazido seu Feito pra acabar (2010), de que tenho somente cópia, como lhe disse. E Curumin, de quem também esperava comprar os discos solo, acabou não vindo. Já fui uns bons pares de vezes onde ainda se vendem discos em São Luís, em busca do Acústico MTV, hoje inclusive, sem sucesso. Tê-lo e ouvi-lo vez em quando certamente tornará ainda mais viva a lembrança da agradável passagem deste artista multifacetado e sua banda idem pela capital maranhense.

p.s.: agradecimentos do blogue a Bruna Castelo Branco e Polyana Amorim, pelo diálogo, e Samir Aranha Serra, pela fotografia que roubei de seu facebook.