junho

finalmente foi para as bancas o mais novo número do almanaque jp turismo. o texto abaixo não tem nada a ver com o período junino. é meu “quintal poético” da edição, que ainda não cheguei a ver. foi escrito em uma tarde entre sol e chuviscos, após uma caminhada pela rua grande até o trabalho, de onde tirei várias das reclamações abaixo, além de uma de paula brito, colega de trabalho. e você? reclama do quê?

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Rabugices do nada

por Zema Ribeiro

É quase uma hora da tarde, o calor é de rachar e a maior via comercial da cidade é toda – ou quase toda – minha. Ando pelo meio dela, ali pelos paralelepípedos, onde ninguém anda. Todos querem um pedaço da pouca sombra a essa altura do campeonato. O suor escorre e eu, duas mãos ocupadas, não posso apanhar o lenço no bolso. Uma mão carrega uma pasta, a outra o guarda-chuva, que nestes tempos loucos ninguém sabe quando é que o tempo vai virar. Ando apressado, aperto o passo na tentativa de recuperar o tempo perdido, o atraso. O óculos começa a escorregar – o suor – por sobre o nariz e com a mão ocupada pelo guarda-chuva, no mesmo braço que leva o relógio, consigo ajeitá-lo, e depois vejo as horas, o atraso, o atraso. Vejo pessoas reclamando do calor, as mesmas pessoas que reclamam quando chove. Os paralelepípedos passam, os minutos passam, tudo passa, só não passa o meu amor por você. Penso num poema que ainda não escrevi e que provavelmente nunca escreverei, já que, com as duas mãos ocupadas, não anoto esta – que eu julgo – boa idéia e até chegar ao trabalho já terei esquecido do poema que não escrevi. Meus melhores poemas são os não escritos, é só com eles que me satisfaço. O sinal está fechado para os pedestres e eu vejo pessoas reclamando. As mesmas pessoas que, dirigindo, reclamam quando o sinal está aberto para os pedestres. As faixas cortam o asfalto, uma amarela, outra branca, amarelo, branco, a calçada do outro lado, um prédio a querer cair. Pessoas reclamando do risco iminente de desabamento e do descaso do poder público. As mesmas pessoas que reclamam quando um tapume ocupa o espaço da calçada, obrigando-as ao meio da rua, mesmo que veículos não trafeguem naquela rua. Desço uma ladeira e uma pessoa reclama que aquilo bem poderia ser uma escada. Há uma escada ao lado, por detrás da praça. Lá, certamente as pessoas reclamam que aquela escada – ao lado da ladeira – bem poderia ser uma ladeira. As mesmas pessoas que nunca estão satisfeitas com nada. Sigo meu caminho, tentando não reclamar de nada – embora só esteja realmente satisfeito contigo. Silencio. Contento-me em ouvir as reclamações dos leitores, que me acusam – justamente, é certo – de dizer nada.

2 respostas para “junho”

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