ERIKA LARISSA

Erika me procurou ontem com a pressa típica de quem está às vésperas de defender monografia. A dela era acentuada, ela já não estava às vésperas: a defesa seria ontem mesmo. Perguntava-me se podia ajudar com a apresentação de slides para a defesa. “Posso”, respondi, mesmo assustado com o prazo. Tivemos sorte, a turbulência da maré de problemas deu um tempo e eu consegui montar o power point com base no roteiro que ela havia me passado por e-mail.

Erika, minha prima, que já havia sido aprovada em vestibulares para Serviço Social (UFMA, cuja matrícula trancou) e Direito (UFMA, que continua a cursar), estava terminando o curso de Letras (Santa Fé), ela, oito ou nove anos mais nova que eu, ela, que começou o curso depois que eu comecei Jornalismo, eu montando os slides sobre Literatura em Língua Portuguesa: os casos de Goa, Macau e Timor Leste, seu trabalho de conclusão de curso, a monografia que ainda não li.

Enquanto ia armando a sequência dos slides, procurava distraí-la, msn aberto. Trabalhava e papeava: avisava-lhe do lançamento do 19º. número da Coyote e perguntava o que ela havia achado da edição anterior, que lhe dei: “Ainda não li. Tem tempão que não leio nada que não seja assunto da mono”. Respondi com um “e o vagabundo aqui tem tempão que não lê nada pra mono. ‘Tou terminando o Pornopopéia, novo do Reinaldo Moraes, calhamaço de quase 500 páginas, hilário”. Ela ria.

“Onde vai ser o chopp do dez?”, perguntei. “Vai ser dez não. Já perdi ponto em normalização”. Disse que duvidava, que não se perde pontos por isso. No máximo, a banca dá prazo pro aluno corrigir etc. e tal. E mostrei minha birra: “Porra! Tu com um revisor/normalizador na família, vai perder ponto nisso?”. “Pois é, papai me disse. Mas terminei muito em cima, não deu tempo”, ela se justificou e eu me prontifiquei: se preciar mexer em algo depois, me avisa.

Sua conexão caiu e eu precisava sair para buscar a esposa no cursinho e ir almoçar. Terminei a apresentação de slides e mandei por e-mail, que tinha por resposta, ao tornar do bandeco, um singelo “valeu! Depois a gente acerta. E cuida logo com a tua!”.

Acabei não indo tomar umas com Erika, ontem, para celebrar o dez que ela obteve. Dijé, a mãe cujo sorriso largo eu podia ver na face mesmo por telefone, havia me ligado há pouco dando a notícia. Susalvino, o pai, me ligou pouco depois convidando para a celebração, merecida. Devolvi a ligação, parabenizando-os e pedindo para falar com a garota nota mil: “Olha, posso até não ter defendido a minha ainda, mas de monografia eu entendo”, disse-lhe “arrogantemente”, entre um sorriso de parabéns arrematado com a pergunta “eu não te disse que era dez?”.

Fiquei feliz como se eu mesmo tivesse tirado aquele dez, recompensa por todo seu esforço – ela, às vezes, tida como “chata”, por ficar no quarto entre livros enquanto a família-turma bebia ou via um jogo da seleção. Ou as duas coisas ao mesmo tempo. “Esses jogadores estão todos de vida ganha”, era adágio que ela bem poderia ter dito em alguma ocasião – eu mesmo nunca ouvi.

Erika agora vai ter tempo de sobra para ler a Coyote anterior, a que está por chegar e a edição de Quampérius que tenho para presenteá-la.

2 respostas para “ERIKA LARISSA”

  1. Não tenho nem palavras para expressar a minha gratidão com um depoimento desse de tirar o fôlego!
    A única coisa que posso dizer é “Obrigada”, por todo o apoio que sempre encontrei nesse primo tão inteligente…Que sempre apostou em mim e auxiliou nas horas em que mais precisei. Fico radiante em saber que ficou muito feliz com minha aprovação na mono com uma nota que, sinceramente, sem hipocrisia alguma, não esperava obter. Enfim, sei que o mesmo vai acontecer quando da defesa da sua e, por favor, não esqueça de me convidar, que faço questão de assistir! Um abraço dessa prima que te admira demais…

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