ALCÂNTARA DEVERIA SER QUESTÃO DE HONRA PARA O MARANHÃO

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Como você acha que a sociedade maranhense, a classe política e as organizações sociais do Maranhão deveriam tratar esta questão de Alcântara?

Para mim Alcântara deveria ser uma questão de honra para o Maranhão, para a classe política, para a elite, para nós todos cidadãos maranhenses. Além de ser uma cidade histórica, tombada como patrimônio nacional desde 1948, é um local onde proliferam as manifestações da cultura popular, as festas religiosas, os saberes (como a cerâmica de Itamatatiua, a carpintaria naval de São João de Cortes). É, junto com outros municípios da Baixada, praticamente o berço de várias manifestações culturais maranhenses das mais tradicionais, como o bumba-meu-boi às mais recentes, como o reggae. Além disso, foi o celeiro de São Luís durante todo o século XIX. Abasteceu e continua a abastecer a capital de pescado, peixe seco, farinha, carvão e outros produtos. No tocante às terras dos quilombolas tem uma situação semelhante ao território indígena de Raposa Serra do Sol. Alcântara é um extenso território étnico, sendo a maior do Brasil em terras contíguas. São mais de 150 comunidades. Cuidar das terras de quilombos, titulá-las a esses grupos é saldar uma dívida histórica do nosso país. Então, para implantar uma base de foguetes, que poderia ser feita em outro lugar ao longo da linha do equador, você passa por cima de tudo isto? Você vai destruir estas comunidades? Vai matá-las de fome? Vai exterminar todo esse patrimônio imaterial? Alcântara é uma referência cultural no país, é uma joia… Em qualquer lugar do mundo isto seria valorizado. A elite do Maranhão, esta elite dirigente, não gosta do seu povo e não gosta desses lugares! Eles se aproximam da cultura popular apenas para servir a seus interesses eleitorais…

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Este conflito social em Alcântara provocou uma denúncia de algumas organizações sociais contra o Brasil na OEA (Organização dos Estados Americanos). Sobre este assunto, você esteve em uma audiência em Washington e, na presença dos representantes do Ministério das Relações Exteriores do Brasil disse que, em Alcântara, estava sendo colocado em prática um processo de “limpeza étnica”?

É verdade. E a representante do ministério não gostou, mas não teve como responder. Trata-se mesmo de um grande processo de limpeza étnica. Eles impedem as famílias de se reproduzir material e socialmente. Nós os antropólogos temos classificado esta situação de limpeza étnica. Nas agrovilas, os mais velhos vão morrer. Os mais jovens foram jogados nas periferias de Alcântara e São Luís. Ou seja, em um breve espaço de tempo aquelas áreas estarão limpas de pessoas, de grupos étnicos.

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A implantação da Base trouxe algum benefício para o Município de Alcântara?

Nenhum! Ela está implantada há mais de 20 anos e além de todos os problemas que nós já falamos, se você for ver o Índice de Desenvolvimento Humano do município não melhorou em nada. O Maranhão é uma das unidades da Federação cujos índices de desenvolvimento são mais baixos. Alcântara e outros municípios da Baixada são aqueles que apresentam a pior situação nesses índices. Como se explica isto, se ali existe uma base de lançamento de foguetes, teoricamente uma tecnologia de ponta? Não seria para o município estar vivendo muito bem? A propaganda oficial fala em emprego, mas na verdade os empregos não existem. O que tem, às vezes, são pequenos trabalhos que duram no máximo três meses. E o que dizer da situação educacional do município?

Hoje, estamos às vésperas de mais uma eleição. Como observadora da realidade social do Maranhão, não lhe parece que as questões referentes a índios, quilombolas, lavradores, quebradeiras de coco, sem terra, estão fora da agenda dos partidos e seus candidatos?

Infelizmente não existe lugar para este discurso. Diante desta pergunta eu fico pensando: será que é porque não dá voto? De fato, não se vê ninguém falando de quebradeira de coco, de quilombola, de índios, de camponês, do pequeno trabalhador rural. Será que é porque a classe média não se interessa por estes temas? O fato é que os partidos políticos ficam indiferentes. Todos! Não seria correto esperar que, ao menos os tidos como à esquerda, tratassem dessas questões? Mas, qual o partido no Maranhão que fala sobre os danos causados pela Siderúrgica, pelo Centro de Lançamento de Foguetes de Alcântara, pelo Agronegócio?

Sobre os efeitos negativos da Soja, do Eucalipto, da Vale, da Alumar…

Pois é! Ninguém fala!

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O Vias de Fato e Maristela de Paula Andrade falam. A antropóloga e professora da UFMA é a entrevistada do mês de julho do único jornal local que tem coragem de tocar os dedos nas feridas (no plural, que as feridas são muitas).

Outro destaque do número 10 (que é a nota do jornal também!), ora nas bancas, é a matéria O escândalo do “Projeto da EMSA” (com fotos deste blogueiro) sobre o rol de problemas (para usarmos um termo bem leve) do projeto Tabuleiros de São Bernardo, em Magalhães de Almeida/MA, cuja implantação começou há 23 anos, quando Sarney era presidente da República. O projeto de fruticultura irrigada até hoje ainda está sem funcionar plenamente.

Vias de Fato pode ser encontrado nas melhores bancas. Para assinar: (98) 8145-5052, 8123-5184, jornalviasdefato@gmail.com

2 respostas para “ALCÂNTARA DEVERIA SER QUESTÃO DE HONRA PARA O MARANHÃO”

  1. As mazelas socio-políticas do MA parecem impossíveis de curar. Em meio a curativos mal feitos e placebos, a grande maioria do povo parece não perceber os efeitos da metástase… e o espetáculo continua. A elite sorri, os menos favorecidos sofrem, e a grande mídia maranhense, controlada, anuncia com ORGULHO que já não somos o estado mais pobre do país… nossa, “como evoluímos” (??), agora somos APENAS o penúltimo!
    Os discursos políticos e midiáticos, construídos a partir do interesse de uma minoria, visam manter a inércia e o conformismo da população.
    Bela entrevista da professora, parabéns ao Vias de Fato e a ti, Zema, por reproduzír o texto aqui, e pelos teus próprios textos tb!
    Abração,

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