Caixa reúne álbuns clássicos de Cartola e compilação de parte menos conhecida de sua obra

O compositor mangueirense em fotografia de Walter Firmo de 1980, ano em que veio a falecer
O compositor mangueirense em fotografia de Walter Firmo de 1980, ano em que veio a falecer

 

Nome fundamental da música brasileira em qualquer tempo, Cartola foi um dos responsáveis pela popularização do samba, sendo um dos fundadores da Estação Primeira de Mangueira, uma das primeiras e até hoje mais populares escolas de samba do Brasil. Deixou ao menos dois discos definitivos, ambos batizados simplesmente com o nome do compositor, lançados pela gravadora Discos Marcus Pereira, em 1974 e 1976, respectivamente.

Como assim, Cartola só chega ao disco na década de 1970, se décadas antes havia ajudado a transformar o carnaval carioca? Pois é, a coisa se deu tardiamente, e ele já contava mais de 60 anos ao estrear no mercado fonográfico, após o escritor Sérgio Porto – ou Stanislaw Ponte Preta – descobri-lo lavando carros – já havia sido pedreiro, onde ganhou o apelido: usava um chapéu coco para proteger os cabelos contra a poeira das obras.

Depois da re/descoberta – já era um compositor apreciado em Mangueira – o produtor João Carlos Botezeli, o Pelão, responsabilizou-se pelo resto e a estreia de Cartola vendeu mais de 20 mil exemplares em poucos meses e é até hoje um dos mais bem sucedidos discos do catálogo de Marcus Pereira – que lançou mais de 100 discos ao longo de pouco mais de década de atuação, muitos deles inéditos no formato digital.

“Ele não só fundou a Estação Primeira como lhe deu o nome e as cores verde-e-rosa. Foi o seu primeiro diretor de harmonia”, afirma o jornalista Sérgio Cabral (não confundir com seu filho) no texto da contracapa do LP original. “Villa-Lobos […] era um grande admirador de Cartola e o convidou várias vezes para participar de espetáculos que promovia. Foi parceiro de Noel Rosa e seus sambas foram gravados por intérpretes como Francisco Alves, Mário Reis, Silvio Caldas, Carmen Miranda, Elizeth Cardoso e Paulinho da Viola. São muitos, portanto, os títulos de Cartola, o mestre de tantos compositores importantes (o próprio Paulinho da Viola o aponta como a sua grande influência)”, continua, destacando a importância do mangueirense.

Todo tempo que eu viver. Capa. Reprodução
Todo tempo que eu viver. Capa. Reprodução

“O sucesso de vendas e de crítica do LP de estreia de Cartola abriu as portas de um novo mundo para o sambista, que passou a fazer muitos shows por todo o país. Pela primeira vez, Cartola estava vivendo apenas de sua arte. Os mais de 50 mil LPs vendidos em menos de um ano também animaram a gravadora Discos Marcus Pereira a levar Cartola novamente para o estúdio”, aponta o jornalista e pesquisador musical Eduardo Magossi em texto no encarte da reedição do disco de 1976, que, ao lado da estreia e de Tempos idos, integra a caixa Todo tempo que eu viver [Universal, 2016, R$ 79,90], caprichada reedição que inclui fichas técnicas e textos das contracapas dos LPs originais.

Pelão e o diretor artístico Aluízio Falcão haviam deixado a Marcus Pereira no ano anterior e a produção do novo disco ficou a cargo de Juarez Barroso, que trabalhava no caderno cultural do Jornal do Brasil. Dino 7 Cordas, arranjador do disco anterior, foi mantido no posto.

Se, do primeiro disco, além de Dino, haviam participado da gravação músicos como Elton Medeiros (ritmo), Jayme Florence, o Meira (violão), Canhoto (cavaquinho), Copinha (flauta) e Raul de Barros (trombone), entre outros, o segundo trazia também Abel Ferreira (sax tenor) e Altamiro Carrilho (flauta), além de marcar a estreia em disco do violonista Guinga.

Se a estreia era completamente autoral, com algumas faixas assinadas em parceria, no segundo disco Cartola cantou sambas de sua lavra e de outros bambas. Considerado o oitavo melhor disco da música brasileira em eleição da revista Rolling Stone Brasil, o álbum de 1976 tem clássicos como O mundo é um moinho (Cartola), Sala de recepção (Cartola) – que Pelão arrependia-se de não ter incluído no repertório da estreia –, Preciso me encontrar (Candeia), Peito vazio (Cartola), Acontece (Cartola), Meu drama (Senhora tentação) (Silas de Oliveira) e Cordas de aço (Cartola). A inclusão do portelense Candeia e do imperiano Silas de Oliveira no repertório demonstra que as preocupações primeiras eram a beleza e qualidade dos sambas.

Hoje um clássico, Sala de recepção, foi composta em 1941 quando “Paulo da Portela, desgostoso com a escola que fundara, mudou-se para a casa de Cartola, na Mangueira. Queria mudar de escola, mas os mangueirenses convenceram-no do contrário: seu lugar era na Portela, para onde o levaram de volta, em comitiva. Sobre a permanência de Paulo na Mangueira, Cartola fez na época este samba, inédito e aqui apresentado em diálogo com Creusa [filha de criação de Cartola, ela também canta em Ensaboa]. O inimigo que, na Mangueira, “se abraça como se fosse irmão”, evidentemente é Pauo da Portela”, afirma em um faixa-a-faixa na contracapa do LP original o jornalista/produtor Juarez Barroso. Preciso me encontrar tem o fagote de Airton Barbosa, do Quinteto Villa-Lobos.

Se é bastante conhecido o repertório dos dois títulos inaugurais de Cartola, bem como de outros, lançados posteriormente, já fora da gravadora Marcus Pereira, a “surpresa” da caixa Todo tempo que eu viver reside em Tempos idos, que “compila toda a discografia avulsa de Cartola registrada durante os anos de 1967 e 1976 em discos de outros artistas e projetos especiais para gravadoras como Copacabana, Tapecar, Odeon, Discos Marcus Pereira, e até para uma série de fascículos da Editora Abril”, anuncia Eduardo Magossi em texto no encarte.

O jornalista, que assina a curadoria do lançamento, explica a origem da faixa que dá título ao terceiro disco da caixa: “ela foi composta em 1961 – ano em que Cartola voltava para a Mangueira depois de um afastamento de 21 anos – como candidata a samba-enredo da escola no carnaval. A música, contudo, que fazia um relato saudosista e poético da história das escolas de samba e do carnaval carioca, não foi escolhida, segundo a escola, por não ter elementos capazes de empolgar o público”.

“Pelos salões da sociedade/ sem cerimônia ele entrou/ já não pertence mais à Praça/ já não é samba de terreiro/ vitorioso, ele partiu para o estrangeiro/ e muito bem representado/ por inspiração de geniais artistas/ o nosso samba, humilde samba/ foi de conquistas em conquistas”, diz a letra da parceria com Carlos Cachaça.

A compilação inclui pot-pourris em que o compositor aparece ao lado de Clementina de Jesus e Elizeth Cardoso e Odete Amaral, Clementina de Jesus, Nelson Cavaquinho e Carlos Cachaça, além de gravações ao vivo de clássicos como Quem me vê sorrindo, O sol nascerá, Alvorada e Acontece. Traz ainda os sambas-enredo Vale do São Francisco, de 1948, e Chega de demanda, de 20 anos antes, “uma das primeiras composições de Cartola e o primeiro samba-enredo da recém-fundada Mangueira”, atesta Magossi.

Entre clássicos e músicas menos conhecidas, mas fundamentais para uma melhor compreensão do universo de Cartola, Todo tempo que eu viver é um mergulho indispensável na obra daquele que era considerado por Nelson Cavaquinho “o maior compositor da nossa música”, conforme declarou em entrevista a Sérgio Cabral.

Ouça Cartola e Creusa em Sala de recepção:

Praia Grande exibe hoje última sessão de Elis

De amanhã a quarta (22) será exibida a mostra Cinema por elas, com filmes dirigidos por mulheres e ingressos a preços promocionais

Andréia Horta encarna Elis à perfeição. Frame. Reprodução
Andréia Horta encarna Elis à perfeição. Frame. Reprodução

Elis [drama/biografia, Brasil, 2016], a cinebiografia da cantora gaúcha, emociona por diversos aspectos. Falar da trilha sonora é quase uma obviedade. O grande destaque é a atuação estonteante de Andréia Horta, no papel da protagonista: há ali uma entrega de tal maneira, que ela encarna a personagem à perfeição. É convincente e surpreendente, além de ousado: trata-se da estreia de Hugo Prata na direção cinematográfica, encarando logo um furacão cujo apelido era Pimentinha.

O filme se concentra entre a chegada de Elis Regina ao Rio de Janeiro para tentar o sucesso, no exato instante em que os militares tomavam o poder através de um golpe, até a morte da cantora, passando pelos casamentos e seus altos e baixos na carreira artística e na vida doméstica, além dos embates à direita e esquerda – Henfil (Buce Gomlevsky), cartunista dO Pasquim, desenhou-a cantando em um túmulo, quando a mesma, com medo, cantou nas Olimpíadas do Exército, a que acabou obrigada após críticas ao regime em entrevista a jornalistas durante uma turnê no exterior.

O cartunista e seu irmão Betinho, o sociólogo Herbert de Souza, então exilado, seriam homenageados em O bêbado e a equilibrista, parceria de João Bosco e Aldir Blanc, um dos maiores sucessos de Elis Regina até hoje.

Elis orbita em torno de personagens fundamentais para a carreira da artista: Ronaldo Boscôli (Gustavo Machado), Miéle (Lúcio Mauro Filho), Lennie Dale (Júlio Andrade), Nelson Motta (Rodrigo Pandolfo), Jair Rodrigues (Ícaro Silva) e César Camargo Mariano (Caco Ciocler), entre outros. É feliz ao reconstituir a atmosfera de uma época em que brigavam entre si a bossa nova, a jovem guarda e uma miríade de gêneros abrigada pela genérica sigla MPB, em cuja consolidação Elis Regina teve destacado papel, participando de festivais e programas de tevê.

Compositor que Elis Regina ajudou a projetar, Belchior abre e fecha o filme, com as interpretações da cantora para os clássicos Como nossos pais e Velha roupa colorida, ambas gravadas por ela no disco Falso brilhante [1976], após o sucesso da turnê homônima. Desaparecido há alguns anos, reside aí bela homenagem ao cearense – e mais um bom motivo de emoção para o espectador.

Elis terá sua última sessão no Cine Praia Grande hoje (15), às 18h. Os ingressos custam R$ 16,00 (metade para estudantes com carteira e demais casos previstos em lei).

A partir de amanhã (16), além da programação normal, entra em cartaz a mostra O cinema por elas, inteiramente composta por filmes dirigidos por mulheres – com ingressos promocionais a R$ 6,00 para todos/as –, que exibirá os seguintes títulos:

Amanhã (quinta, 16)
16h20: A cidade onde envelheço, de Marília Rocha
18h20: Às cinco da tarde, de Samira Makhmalbaf

Sexta (17)
16h20: As patricinhas de Beverly Hills, de Amy Hackerling
18h: Selma, de Ava DuVernay

Sábado (18)
16h: Olympia – Volume 1, de Leni Riefenstahl
18h: Point break: caçadores de emoção, de Kathryn Bigelow

Domingo (19)
16h20: Tomboy, de Céline Sciamma
18h: Encontros e desencontros, de Sofia Coppola

Segunda (20)
16h20: Pasqualino Sete Belezas, de Lina Wertmuller
18h15: Psicopata americano (versão da Diretora), de Mary Harron

Terça (21)
16h20: Um divã em Nova Yorque, de Chantal Akerman
18h: Fogo sagrado, de Jane Campion

Quarta (22)
16h20: Maldito coração, de Asia Argento
18h: Sessão Especial Coletivo Salé (entrada franca)

MPB-7

Quase 1.500 almas lotaram completamente ontem (11) o Centro de Convenções Pedro Neiva de Santana para prestigiar um histórico encontro de gigantes: MPB-4, Toquinho e Ivan Lins (por ordem de subida ao palco) trouxeram à ilha o espetáculo com que comemoram seus 50 anos de carreira, com produção local de Mário Moraes e Alegria Produções. Vinham de Teresina/PI, onde a apresentação foi cancelada por falta de público.

“50 anos da gente, mais 50 do Toquinho, mais 50 do Ivan Lins, que eu acho que esconde a idade, são na verdade 150 anos de música”, brincou Miltinho (voz e violão), após abrirem com De frente pro crime (João Bosco/ Aldir Blanc).

É um show descontraído, não há guerra de egos ou coisa que o valha. Estão todos irmanados em oferecer o melhor de si, em nome da música, com muito bom humor. “Espero que vocês aí gostem. Aqui no palco, podem ter certeza que adoramos”, continuou Aquiles (voz) – o grupo se completa com Paulo Malaguti (voz, teclado e percussão) e Dalmo Medeiros (voz e percussão, ex-Céu da Boca).

Destaque, na apresentação do MPB-4, para a sequência Chico Buarque, em que entoaram Yolanda (Pablo Milanés, versão de Chico Buarque), Apesar de você, Roda viva e Cálice (Chico Buarque/ Gilberto Gil).

A interpretação de Amigo é pra essas coisas (Aldir Blanc/ Silvio Silva Jr.), certamente uma das mais aguardadas da noite, foi algo sublime, de arrepiar, um show à parte.

O espetáculo como um todo, não podia ser diferente, era uma espécie de antologia ao vivo. Não à toa surgiu Toquinho, violão em punho, atacando de Tarde em Itapuã (Toquinho/ Vinicius de Moraes). Ainda com o MPB-4 no palco desfilou seu repertório infantil: A casa (parceria com Vinicius de Moraes), Ar (O vento) (idem), A bicicleta (Mutinho/ Toquinho), O caderno (Toquinho/ Mutinho) e Aquarela. Em meio a tudo isso, O pato (Toquinho/ Vinicius de Moraes), com direito a incidental de Miltinho imitando a voz do Pato Donald ao entoar Ninguém me ama (Antonio Maria). “O pato tá fodido!”, gracejou ainda no timbre do personagem da Disney.

Discípulo de Paulinho Nogueira, Toquinho reverenciou seus mestres do violão, incluindo Gente humilde (Garoto; a música depois ganhou letra de Chico Buarque e Vinicius de Moraes) no repertório. Não esqueceu também seu primeiro sucesso: Que maravilha (parceria com Jorge Ben). Tampouco deixou de fora Samba de Orly, outra parceria “adulta” com Vinicius de Moraes.

Antes de sair do palco, anunciou Ivan Lins, que seria acompanhado, na percuteria, por outra lenda viva da música brasileira, o que garante a sigla-soma do título desta resenha: João Paraíba, integrante do mítico Trio Mocotó – que gravou com Jorge Ben no início da carreira, e com o jazzista Dizzy Gillespie, cujas sessões, por anos desaparecidas, renderam o ótimo Dizzy Gillespie no Brasil com Trio Mocotó, gravado em 1974 e lançado apenas em 2010.

Pouco depois de subir ao palco, Ivan Lins reclamou do excesso de luzes de celulares apontados em direção ao palco. Alegou desconcentrar-se e pediu a compreensão da plateia. Em sequência, pouco ligando para se a plateia atendeu ou não a seu apelo, passeou por repertório autoral, incluindo, entre outras, Abre alas, Lembra de mim e Madalena, além de Sou eu (parceria com Chico Buarque). A plateia foi ao delírio.

Foi um show recheado de histórias engraçadas, muito bem humorado. Toquinho, por exemplo, lembrou de quando o compositor e cronista Antonio Maria se passou por Vinicius de Moraes ao encontrar uma mulher muito bonita num avião, lendo um livro do poetinha – não havia no livro foto de seu autor e Maria morria de medo de aviões. Levou a mentira até o fim, tendo saído com a mulher, a quem convidou para jantar. Ao encontrar Vinicius, contou: “você broxou!”.

Ivan Lins lembrou-se de quando, entrevistado por Alcione, Tom Jobim respondeu que a única saída para a música popular brasileira era o aeroporto – resposta que ele não mudou apesar da insistência da direção da emissora. “Era um tempo em que a Globo ainda tinha programas de tevê dedicados a boa música. Mas isso foi há muito tempo”, afirmou, entre o lamento e a galhofa, para aplausos da plateia.

Lembrou-se também de Cauby Peixoto, gravando um “difícil” como “difíxil”, como se imitasse o Jorge Ben de Por causa de você menina, o “você” pronunciado como se grafado com x. Lembrou-se até de Latino, que gravando uma participação em um disco, foi advertido várias vezes pelo diretor: “você desafinou”, seguido de “está fora do ritmo”, “tem que ter sentimento”. Ao que o cantor retrucou: “eu sou só um: ou canto afinado, ou no ritmo, ou com sentimento”.

O apoteótico final reserva o encontro no palco de sete grandes artistas, passeando por Regra três e, no bis, Quem te viu, quem te vê, dos onipresentes Vinicius de Moraes (parceria com Toquinho) e Chico Buarque, respectivamente. “Noite de gala”, como (quase) diz a letra da saideira.

BASTIDORES

Passagem de som de 50 anos de música. Foto: Zema Ribeiro
Passagem de som de 50 anos de música. Foto: Zema Ribeiro

Pouco antes do show, Homem de vícios antigos foi até os camarins e conversou rápida e exclusivamente com os astros da noite

Homem de vícios antigos – Vocês têm uma relação com o Maranhão de longa data, desde que defenderam Gabriela, num festival em 1967, e depois gravaram Descampado verde, ambas de Chico Maranhão. Qual a sensação de visitar a terra de um parceiro das antigas? Vocês mantêm algum tipo de contato até hoje? Há algum número de Chico Maranhão previsto no roteiro?
Aquiles
– Não. A gente não canta há muito tempo Gabriela, nem Descampado verde. Descampado verde por acaso eu até ouvi recentemente a gravação. Eu falo com ele por facebook, ele disse que vai a São Paulo e a gente está combinando de se encontrar para tomar uma cachaça. Ele falou que vai para passar um tempo, tem umas coisas para fazer, e a gente vai se encontrar. A gente foi muito junto com ele, no início da nossa carreira, exatamente aquele festival, outros festivais, a gente andava junto, era uma turma de amigos que por acaso cantavam, faziam sucesso, a gente ficou bem próximo naquela época, depois cada um espalhou. A gente já veio algumas vezes, fazia tempo que a gente não vinha à São Luís e eu espero que para vir uma próxima vez não demore tanto.

Vocês estão comemorando 50 anos de carreira, começaram dentro de um período turbulento da história brasileira, a ditadura militar. Que paralelo vocês fazem com o momento político vivido no Brasil, hoje?
Aquiles
– Quando a gente começou a gente vivia sob uma ditadura. Agora a gente não vive sob uma ditadura, ao contrário, estamos em um regime democrático, mas existe uma crise política muito forte, que em alguns momentos parece até que não estamos em uma democracia. Mas o fato é que a gente está numa democracia e temos que descobrir jeitos de endireitar o que está torto, completamente torto.

Você tocou muitos anos com Papete, que nos deixou recentemente. Qual o lugar e a importância de Papete?
Toquinho
– Eu conheci o Papete e trabalhei com ele durante muitos anos. Fizemos tantos shows, fora do brasil, aqui. Papete era um dos melhores percussionistas do mundo. Ele tinha uma precisão incrível, matemática, parecia um cientista tocando percussão. Ele tocava tudo, eu fazia meus discos com ele. Eu queria fazer uma escola de samba, ele gravava toda a escola de samba, gravava o bumbo, depois o pandeiro, depois o tantã, repinique, ele fazia instrumento por instrumento, gravava tudo. Cantava muito bem, fez vários discos importantes, resgatando toda uma cultura popular, tanto daqui quanto de outras regiões do Brasil. Era um músico fantástico, trabalhou com pessoas importantes, não só comigo, com Vinicius, Almir Sater. Fiz uma turnê com ele, só violão e percussão na Itália, nós trabalhamos muito, gravamos muito, muitos discos. Eu tinha uma confiança enorme musical nele, como amigo também, claro. Dividimos vários momentos, não só no palco, mas no cotidiano, fizemos grandes investidas musicais. Meus discos quase todos foram gravados com a percussão do Papete. Era um dos maiores percussionistas do mundo, não só do Brasil. Acho que se ele tivesse ido para os Estados Unidos ele seria um percussionista como alguns brasileiros que estão lá e são conhecidos mundialmente. Ele seguramente estaria ali no nível desses grandes músicos, mas aqui no Brasil ele fez um trabalho muito bonito mesmo, vai deixar saudade e uma lacuna que não pode ser preenchida facilmente. Ou melhor, não vai ser preenchida à maneira dele. Ele tinha uma sensibilidade, uma precisão e uma sutileza para tocar que realmente eu não vejo em outros percussionistas até hoje.

Você ficou muito conhecido por Aquarela, há pouco na passagem de som você tocou O vento, A bicicleta. Tua obra vai muito além dessa faceta infantil. O fato de você ser mais reconhecido por ela te incomoda?
Toquinho
– Eu não concordo com isso, não acho que eu sou conhecido como música infantil. Acontece que essas músicas estão ficando mais que as outras. É um dos caminhos que eu segui. São gerações que estão passando e elas ficam novas para as crianças que estão vindo e vai ficando, de geração em geração. Essas músicas não estão morrendo. Tarde em Itapuã é uma geração que ouviu. Quando você pega Aquarela, A bicicleta, O caderno, os colégios estão fazendo festa de final de ano com elas. As crianças estão vendo essas canções como canções novas. O cara que tem 50 anos hoje cresceu ouvindo essas músicas, o filho dele, pode ser que ele já tenha netos. Na minha geração eu sou o único que tem essa vantagem. O que tem de gente, criança no shopping que vem me pedir autógrafo, às vezes a mãe quer o autógrafo, faz a criança cantar [risos]. Toda essa geração de 15 anos me conhece, pode conhecer o resto, mas vem por esse lado. Vem aqueles adultos falar comigo: “cresci ouvindo sua música” [risos]. [O disco] A Arca de Noé foi [lançado em] 1980, nós estamos falando de quase 40 anos. Aquarela é de 1983, são 33 anos. Quem tem 40 anos hoje, tinha sete quando ela foi feita. Isso que você ouviu [na passagem de som] é por que nós temos um momento no show só de música infantil. É de um show que eu faço com o MPB-4, nós resgatamos essa célula do show. Eu não posso deixar de fazer no show um momento lúdico. Eu tou pra fazer um show, uma produção grande, só de música infantil. Eu tenho quatro discos de música infantil, A Arca de Nóe [volumes] 1, 2, Casa de brinquedos e os Direitos da Criança [Canção de todas as crianças, de 1987], que é uma coisa reconhecida pela ONU. O público mais forte que existe é o infantil, ele carrega três quando vai assistir, leva mãe, pai, tia, avó.

Vinicius de Moraes é tua maior saudade na música?
Toquinho
– Ele me dá saudade mais pessoal do que musical. [Quando] Ele morreu, um ano antes eu já estava trabalhando sem ele. Me dá saudade dessa hora, ele aqui tomando uísque, o que ele diria do Brasil hoje, seria muito bom ouvir a piada dele com o Tom Jobim, eram pessoas muito inteligentes. Faz falta isso, o que eles diriam de tudo, que músicas eu teria feito com ele esse tempo todo. Mas ao mesmo tempo eu esgotei com o Vinicius. Foram 10 anos, a gente morava junto, foram mais de 130 músicas, mais de 1000 shows. Chegou um momento que tinha que parar a parceria, ele foi embora na hora que tava madura já a coisa. Parece que ele me deu um aval para seguir a carreira sozinho, e foi um grande aprendizado com ele, que eu tou usufruindo até hoje, nós estamos falando dele até agora. Ele quem me passou esse lado infantil, esse lado lúdico, eu nunca pensei que eu fosse fazer música infantil na minha vida. Ele era muito mais jovem que eu, o tempo inteiro, eu era muito mais o fio-terra da relação, ele era o cosmonauta, o Vinicius era jovem, eu era muito mais velho. Eu comecei a musicar os poemas infantis dele, O pato, O pinguim, brincando, nunca pensei que a gente ia ficar disco. A gente gravou na Itália, a gente não tinha coragem de gravar no Brasil, essas cançõezinhas, a gente não tinha noção de como ia ficar. Na Itália estourou o disco, La casa [cantarola trecho de A casa em italiano]. Aí o Vinicius falou “vamos gravar no Brasil”. Chamamos vários artistas, que é A Arca de Noé, Chico, Milton Nascimento, todos toparam, foi um estouro, especial de televisão, Globo. A gente percebeu que tinha um caminho que estava aberto, era o blá blá blá, o refrãozinho, a gente começou a fazer isso de uma maneira mais séria, sem subestimar a criança. Tá dando no que deu. Estou com um trabalho muito bonito para fazer com o Elifas Andreato, que é A casa dos sonhos. São sentimentos que ganham vida e cada sentimento tem uma canção. O primeiro sentimento que eu fiz foi a mentira, é uma personagem maravilhosa, é ela quem canta. Tem muita coisa para se fazer no mundo infantil, eles me ensinaram muito, as crianças. É muito mais difícil você fazer música infantil, tem que ter humor, e ao mesmo tempo não subestimar a criança. Tem coisas que ela não entende que vai perguntar pro pai, aí o pai já tem que se interessar pela música. O caderno é um exemplo típico, é uma canção que as pessoas se emocionam até hoje. É uma canção infantil, mas ao mesmo tempo não é, você mexe no emocional da mulher, da menina, o caderno acompanha a gente desde os primeiros rabiscos, passando por várias fases. É infantil isso? Não sei, mas ficou sendo. Aquarela? Nunca foi música infantil, é uma música, só que as crianças adotaram, a publicidade da Faber Castell foi importante, tem 25 anos já, fazendo Aquarela, Aquarela, claro, as crianças adotaram isso, a coisa do lápis de cor. A vida é feita de circunstâncias, você não tem às vezes a intenção de fazer aquilo ou de dar a dimensão que ela assume, é a vida que faz isso, não sou eu. Eu só faço a música.

Você é um dos artistas brasileiros de mais prestígio internacional. Qual o segredo?
Ivan Lins
– Essa aceitação não sou eu só, é toda uma comunidade de compositores que mantiveram dentro de sua música as raízes brasileiras. O grande diferencial que tem nisso tudo é o fato de que nós temos raízes brasileiras no nosso trabalho e ao mesmo tempo, quer dizer, nós temos a influência da música clássica, do jazz, da música folclórica brasileira. Nós somos uma mistura e a forma como nós desenvolvemos essa mistura é que cria essa identidade. Nossa linguagem é completamente diferente da deles. Tem similaridade nos acordes, nas harmonias, mas nós temos uma maneira muito particular de compor, e eu estou inserido nisso. Minha forma de compor agrada muito a eles pelas melodias e harmonias. Minhas harmonias vêm de Antonio Carlos Jobim, vem de Milton, vem de Dori [Caymmi], Ravel, Debussy, basicamente, Carlos Lyra, são assim os mais importantes. E veio também do jazz, antes de começar a compor eu era pianista de jazz e bossa nova, nem cantava, só música instrumental. Essa mistureba toda, a gente tem uma maneira muito particular de processar as informações, a gente percebe que fora, em outros lugares, é o que os encanta, surpreende. O Brasil também tem uma coisa, nós não temos uma escola definida de música. O Quincy Jones falou uma vez uma frase que eu achei incrível: “eu fico impressionado como vocês fogem da didática harmônica que é ensinada nos conservatórios. Vocês, depois de um dó maior perfeito, colocam um si menor com sétima, nona, décima primeira, com a maior naturalidade e totalmente fora da didática, e fica lindo, e fica lindo” [risos]. Talvez até pelo fato de grande parte da gente não estuda música da maneira como a música é ensinada no primeiro mundo, nesses conservatórios. Brasileiro é muito intuitivo e isso é o que faz com que a gente crie essa identidade completamente diferente, e eles levam um susto.

Boca para os melhores ouvidos

Curumin em foto de Ava Rocha
Curumin em foto de Ava Rocha

 

A cantora Ava Rocha, filha de Glauber, assina a arte de Boca, quarto aguardado disco do paulistano Curumin, cantor, compositor, produtor e multi-instrumentista. O álbum é produzido por ele, Lucas Martins e Zé Nigro, dupla de baixistas (que se revezam noutros instrumentos) que o acompanha já há algum tempo.

Músico cujo nome comparece a fichas técnicas de artistas como Arnaldo Antunes, Céu, Itamar Assumpção, Lucas Santtana, Marcelo Jeneci, Rodrigo Campos, Rômulo Fróes, Walter Franco e Zélia Duncan, Curumin tem três bem sucedidos discos solo: Arrocha (2012), JapanPopShow (2008) e Achados e perdidos (2003).

O artista esteve em São Luís na edição de 2015 do festival BR-135, ocasião em que conversou com este blogue e fez o melhor show daquele ano em nossa modesta opinião. Boca já é um dos lançamentos mais aguardados da música brasileira neste primeiro semestre. O disco sai pelo programa Natura Musical, o que certamente garantirá seu download legal e gratuito.

As várias facetas do movimento mangueBit

A grande serpente. Capa. Reprodução
A grande serpente. Capa. Reprodução

Em A grande serpente – poéticas da criação no mangueBit [mantenho na resenha a grafia da autora; Fundarpe, 2014, 224 p.], Paula Lira faz um profundo mergulho na história do surgimento do mais recente movimento organizado da música brasileira, cujo boom se deu no início dos anos 1990, no Recife.

De múltiplas formações, a autora baseia-se em dois trípticos: a poética, a ciência (desde o nome artístico de seu principal artífice) e a mitologia do mangue, que ajudaram a fecundar e eclodir o movimento, além da diversão, diversidade e brodagem, elementos também fundamentais para o despertar da grande serpente.

Para um ludovicense que acompanhou com algum atraso a r/evolução do movimento – a partir de fins da década de 1990 –, é impossível não ler o livro sem fazer dois exercícios: o de lembrar as descobertas, à época; e indagar-se o porquê de, apesar de condições parecidas, do ponto de vista musical e da biodiversidade, algo parecido não ter acontecido em São Luís – a riqueza da cultura popular e as grandes áreas de manguezal, além do imaginário ao redor de lendas, incluindo também uma serpente adormecida nos subterrâneos da ilha.

O livro de Paula Lira é fruto de uma pesquisa de mestrado mas consegue tornar-se acessível ao leitor comum, de fora dos muros da universidade. Sem abrir mão dos rigores da ciência, o resultado é poético, como afirma o subtítulo, dando conta da complexidade e variedade do que foi/é o movimento mangueBit, para além da música e dos símbolos por que ficou mais conhecido, os caranguejos com cérebro e a antena parabólica enfiada na lama.

Por vezes como elemento partícipe, a autora acompanha festas, discos, moda – a partir dos primeiros shows de Chico Science, garotos adotam o chapéu de palha, apontando para a criação de uma estética mangue –, e entrevista nomes fundamentais do movimento, entre músicos – sobretudo integrantes da Nação Zumbi e mundo livre s/a, DJ Dolores – e gente de outras áreas –, o jornalista Renato L, ministro da informação do movimento mangue, e h. d. mabuse, ministro da tecnologia, sem nunca perder de vista o elemento diversão, a “greia”.

A pesquisa de mestrado ganhou adendos para tornar-se livro e é possível perceber uma r/evolução (das periferias) recifense/s a partir do movimento mangue: de quarta pior cidade do mundo para se viver, como apontava o noticiário da época, a uma cidade onde as coisas acontecem, apontando o desejo de uma inversão no fluxo migratório: em vez de jovens recifenses quererem sair para Rio de Janeiro e São Paulo, passa a acontecer o contrário. De música para se divertir – fazer o que se quer ouvir, mesclado ao do it yourself do movimento punk, também fonte de inspiração – a questionamentos sobre a realidade social, sem perder o ritmo, o elemento dançante, mas com diversidade, ao contrário do axé baiano. Nação Zumbi não é mundo livre s/a, que não é Eddie, que não é Mestre Ambrósio e versa-vice.

Aos mais de 20 anos de movimento, que deu à música brasileira discos hoje antológicos como Da lama ao caos [1994] e Afrociberdelia [1996], os dois primeiros da Nação Zumbi, ainda sob o comando do inovador Chico Science, morto precocemente em um acidente automobilístico no carnaval de 1997, passando pela estreia da mundo livre s/a Samba esquema noise [1994] – título fortemente influenciado pelo Samba esquema novo [1963] de Jorge Ben (depois Jor), cujo A tábua de esmeraldas [1974] é uma espécie de horizonte estético do movimento –, e Samba pra burro [1998], de Otto (não à toa ex-percussionista de ambas), seguiu-se a consolidação do Recife como metrópole não apenas musical brasileira, com resultados positivos em áreas diversas como cultura, turismo e patrimônio. “Um passo à frente” em relação à mpb de Geraldo Azevedo, Alceu Valença e cia. que antecedeu os mangueboys.

Não se pode desprezar também o fato de que Pernambuco é, hoje, o maior polo cinematográfico brasileiro, para o que já apontava também o início do movimento mangue, com cineastas como Paulo Caldas e Lírio Ferreira – diretores de Baile perfumado [1996], que conta a história de Benjamim Abraão, o homem que fotografou Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião. À trilha sonora comparecem expoentes do movimento, como Chico Science, Fred 04, Stela Campos e Mestre Ambrósio, entre outros.

Talvez seja impossível falar em mangue no singular, tamanha é a fertilidade do ecossistema e a contribuição à cultura brasileira dada pela turma de Chico Science e Fred 04 – talvez ainda não reconhecida como deveria. A edição de A grande serpente é importante pontapé inicial neste sentido, não à toa reconhecido como “o primeiro livro mangue” por Fred 04 ou “um livro para se ouvir” por Renato L: é caprichada, sem descuidar de qualquer aspecto: em um livro muito bem realizado do ponto de vista gráfico (a serpente perpassando as páginas), conteúdo fundamental para interessados na cena do Recife ou em música brasileira em geral.

Professor de sentimentos

Paulinho da Viola e o Elogio do Amor. Capa. Reprodução
Paulinho da Viola e o Elogio do Amor. Capa. Reprodução

 

Intérprete de Paulinho da Viola – de quem gravou Para ver as meninas em Canção brasileira – A nossa bela alma [1992] – Eliete (Eça) Negreiros propõe outra interpretação para a obra do príncipe do samba em Paulinho da Viola e o Elogio do Amor [Ateliê Editorial, 2016, 146 p., R$ 41,00], obra não à toa dedicada a, entre outros, Arrigo Barnabé – cujo antológico Clara Crocodilo [1980] tem incidental de Paulinho da Viola –, ícone do movimento a que se filia, a Vanguarda Paulista.

No livro, a cantora e filósofa se propõe a analisar a representação do amor na obra do compositor, quase nunca incluído em galerias de gigantes da música popular brasileira por apequenarem-lhe no rótulo de sambista. Divide o estudo em três partes, “o amor breve”, “o amor e a melancolia” e “o amor feliz”, para arrematar com “educação sentimental”, afinal de que trata o repertório do compositor, provocando a aproximação entre a obra do portelense e as ideias de pensadores como Montaigne, Walter Benjamin, Platão, Aristóteles, Roland Barthes e Sêneca, entre outros, recorrendo também a pensadores nacionais tão fundamentais quanto Marilena Chauí, Nuno Ramos, José Miguel Wisnik e Luiz Tatit.

“Mas longe de mim querer traçar uma ainda que breve história da felicidade, no pensamento, na literatura ou na canção. O que irei fazer é ver como a questão da felicidade aparece nas canções de Paulinho da Viola, como ela foi colocada por alguns poetas e filósofos e buscar as afinidades entre as suas canções e a nossa tradição ocidental amorosa”, afirma.

Eliete Negreiros faz um profundo mergulho em músicas mais ou menos conhecidas, como Coisas do mundo, minha nega, Foi um rio que passou em minha vida, Num samba curto, Onde a dor não tem razão, No velório do Heitor, Bebadachama, Eu canto samba, entre muitas outras, sem esquecer que “outro aspecto importante em sua obra é a presença do choro, não só em composições instrumentais, como Choro negro, Abraçando Chico Soares e Sarau para Radamés, mas também na composição de canções. Os sambas de Paulinho da Viola têm uma melodia muito elaborada, herdeira da tradição do choro. Sua iniciação musical se deu pela escuta dos maiores tocadores de choro brasileiro, Pixinguinha e Jacob do Bandolim, em saraus que aconteciam em sua casa”, afirma a autora sobre o filho do saudoso violonista César Faria, integrante da formação original do mítico Conjunto Época de Ouro.

A obra de Paulinho da Viola aproxima-se também – num paralelo dos tipos de amor que contém – das de Cartola, Nelson Cavaquinho e Lupicínio Rodrigues, de quem é intérprete, entre outros.

“O sambista só sabe que nada sabe, mas que deseja saber, que ama o saber. Nesta medida, nesta canção, o poeta é filósofo, é alguém que ama a sabedoria, que a deseja e que se dedica a isso através da canção. Cantar aqui se apresenta, pois, como um modo de refletir sobre si mesmo e sobre o mundo, um modo de buscar o conhecimento. Cantar, neste sentido, é filosofar”, anota sobre Coisas do mundo, minha nega, reflexão que de resto cabe perfeitamente na elegância que permeia o conjunto da obra de Paulinho da Viola.

“A canção popular brasileira se insere aqui como grande instrumento de autoconhecimento, de conhecimento, de dilatação e de intensificação da vida, quero dizer, como grande veículo de educação sentimental e estética da maioria dos brasileiros”, ao menos aqueles que já ouviram Paulinho da Viola – que nunca mais será simplesmente ouvido, isto é, ouvido do mesmo jeito, após a leitura de Paulinho da Viola e o Elogio do Amor.

*

Ouça Coisas do mundo, minha nega (Paulinho da Viola):

Amigos, artistas e intelectuais reafirmam grandeza de Adalberto Franklin em sua despedida

Adalberto Franklin durante sua posse no IHGM. Foto: Elson Araújo
Adalberto Franklin durante sua posse no IHGM. Foto: Elson Araújo

 

Faleceu ontem (2) em Imperatriz, o jornalista, escritor, historiador e bacharel em Direito Adalberto Franklin Pereira de Castro (Uruçuí/PI, 28/4/1962 – Imperatriz/MA, 2/3/2017), imortal da Academia Imperatrizense de Letras (AIL), de que é fundador, e membro do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão (IHGM). Foi ainda o primeiro presidente da Fundação Cultural de Imperatriz (FCI), secretário municipal de Desenvolvimento Econômico e Gestão Pública de Imperatriz e secretário de Comunicação Social da Prefeitura de Açailândia/MA. Teve ainda destacada atuação junto a movimentos da Igreja Católica.

Piauiense de nascimento, Adalberto Franklin mudou-se ainda criança para o Maranhão, onde morou em Balsas, depois estabelecendo-se em Imperatriz, em que construiu o legado vastíssimo de dedicação à cultura do Maranhão, em particular da região tocantina. Fundou a Ética Editora, que deixa um valioso catálogo. Foi também fundador do Partido dos Trabalhadores (PT), em Imperatriz, pelo qual concorreu, em 2012, à Prefeitura Municipal, mesmo ano em que havia recebido da Câmara Municipal o título de cidadão imperatrizense, pelos relevantes serviços prestados à cidade, sobretudo no campo cultural – foi um dos inventores do Salão do Livro de Imperatriz (Salimp), um dos mais bem sucedidos eventos literários do Maranhão.

Nunca buscou riqueza, tendo seguido firme na busca por um mundo justo – coisa de idealistas e abnegados, estes seres infelizmente cada vez mais “fora de moda”. Uma prova deste exemplo pode ser encontrada em seu site, quando disponibilizou seus livros Breve história de Imperatriz (2005) e Apontamentos e fontes para a história econômica de Imperatriz (2008) para download gratuito, por ocasião de um concurso público realizado pelo município. Alegava que “nem todos podem comprar, principalmente os menos favorecidos financeiramente e os que, desempregados, estão buscando um emprego estável”, comentando ainda os baixos índices de leitura no Maranhão e a insuficiência de bibliotecas públicas, temas que sempre lhe preocuparam.

Adalberto Franklin sofreu um acidente vascular cerebral (AVC) quando participava de uma reunião na AIL, no último dia 9 de fevereiro. Desde então estava internado na UTI de um hospital particular em Imperatriz. Diabético, havia passado por cirurgia cardíaca recentemente. Sofreu uma pneumonia durante a internação, apresentando um quadro de melhora, mas não resistiu. Seu corpo será velado ao longo desta sexta-feira na residência da família e o sepultamento acontecerá amanhã (4), às 9h, no Cemitério Campo da Saudade, em Imperatriz.

Diversos amigos, artistas e intelectuais manifestaram pesar pelo falecimento de Adalberto Franklin. “Perda lamentável”, declarou o compositor Josias Sobrinho. “Literatura maranhense de luto. Deixa-nos um grande guerreiro político e ativista das grandes e justas causas: Adalberto Franklin”, manifestou-se o compositor Joãozinho Ribeiro, dando dimensão de sua grandeza. Para a assistente social Rose Teixeira, “Adalberto Franklin eternizou-se pelas suas obras, grande perda”. Procurado pelo blogue para um depoimento, o músico Wilson Zara devolveu uma pergunta: “como se descreve uma tristeza enorme?”.

“Um homem casado com as letras e profundamente apaixonado por nossa história. Bastava uma simples manifestação de interesse pela nossa literatura e já se tornava uma pessoa especial para Adalberto Franklin. Onde tiver espaço para os bons, lá é o lugar desse grande Ser Humano”, manifestou-se o poeta, compositor e escritor Zeca Tocantins, autor de diversos livros publicados pela Ética Editora, fundada por Adalberto Franklin.

“Destaca-se como o mais competente e consistente pesquisador da história imperatrizense e regional, para qual dedicava grande parte de seu tempo, talento, esforço, saúde e outros recursos. Publicou diversos livros, nas áreas de História, Economia, Religião, Metodologia. Editou mais de 1.000 livros de autores imperatrizenses, regionais, estaduais e nacionais. Deixa vários livros em fase de conclusão, pesquisa, projeto e reedições”, pontuou o jornalista Edmilson Sanches.

“Sinto um impacto no peito cada vez que perdemos pessoas que lutam, brigam e contribuem de forma significante e até mesmo contundente com a cultura e a boa arte. Nos últimos cinco anos perdemos muitos colegas, alguns deles, Ribamar Fiquene, Luiz Brasília, Papete, Neném Bragança, e agora o meu amigo, parceiro e admirável Adalberto Franklin. Estou muito triste. Logo agora que, numa conversa pessoal, demostrou alegrias com a ideia e me ofereceu ajuda no que fosse necessário para juntos realizarmos a volta do Faber [o Festival Aberto Estância do Recreio]  um dos maiores festivais brasileiros, realizado nos anos 1990. Descanse em paz, meu irmão! Você fez sua parte e deixou um legado na literatura, cultura e arte. Imperatriz chora!”, declarou com exclusividade a Homem de vícios antigos o secretário municipal de Cultura de Imperatriz, o músico Chiquinho França.

“Temos certeza que Adalberto Franklin está entre os que combateram o bom combate e acabaram a sua carreira, guardando a fé. O combate em prol da transformação da sociedade, a carreira rumo ao desenvolvimento com justiça social e a fé em Deus e na força do nosso povo”, afirmou o Diretório Municipal do PT de Imperatriz, em nota.

O Governo do Maranhão também emitiu nota de pesar, reconhecendo a trajetória de Adalberto Franklin “como escritor e editor, além de ativo militante político ligado às causas da democracia”.

O cantor e compositor Gildomar Marinho resume bem a grandeza de Adalberto Franklin, seu companheiro de militância política desde a década de 1980. “Percebe-se a importância de alguém que parte ao tentarmos definir quem de fato partiu. O político? O literário? O historiador? O economista? O humanista? Pessoalmente, amigo é a definição mais precisa para Adalberto Franklin. Daqueles em que um simples bate papo converte-se em uma verdadeira aula de vida. Homem de mil livros. Incentivador voraz da pesquisa e do registro de cada detalhe da história, em especial, de Imperatriz e Região Tocantina, terra que abraçou como sua. E, bem mais que pesquisa e registro, ele próprio é parte dela. Em minha lembrança estará para sempre o companheiro de militância, sempre presente nos movimentos populares, das lutas sindicais, da defesa vigorosa pela terra para todos em uma terra sem lei, retrato de um pedaço do Maranhão sangrento do último quarto do último século do milênio passado. Adalberto fez da vida sua profissão de fé. E, sendo um homem de fé, decerto alcançará a vida eterna. Falando nisso, vale um registro: sua generosidade o fez partícipe de inúmeros trabalhos acadêmicos e literários, o que reforça a franciscana frase “é dando que se recebe”, já que ficará imortalizado também aqui por esta terra por seu legado, sua história, sua luta e por seus registros a iluminar futuras gerações. Trazendo a lume o adágio de que ninguém é insubstituível, fico a imaginar quantos Aldalbertos seriam necessários para suprir a imensa lacuna que sua partida provoca, especialmente nestes tempos sombrios em que a sombra da mediocridade paira sobre esta Nação. Resta aferrarmo-nos ao seu sonho, seu ideal, sua utopia e, sobretudo, à sua luta. Adalberto Franklin. PRESENTE!”, declarou com exclusividade ao blogue.

La La Land é favorito até para quem não aposta nele

[O Imparcial, hoje]

O Imparcial ouviu três cineastas maranhenses para saber: qual o filme favorito no Oscar? Conheça as opiniões de Raffaele Petrini, Joaquim Haickel e Breno Ferreira

As apostas estão a toda, seja pelas redes sociais, mesas de bar ou almoços de família. Quais as suas apostas para o Oscar desta noite? Seja qual for o resultado da tradicional premiação da academia será impossível esquecer a injustiça do governo ilegítimo de Michel Temer (PMDB) para com Aquarius, de Kléber Mendonça Filho.

Unanimidade em qualquer lista de melhores filmes nacionais de 2016, o filme do pernambucano foi boicotado pelo Ministério da Cultura para ser o representante brasileiro no tapete vermelho, logo mais à noite. Uma reação às críticas que o diretor, Sônia Braga (que interpreta a protagonista, Clara) e toda a equipe de Aquarius dirigiram ao processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff (PT) em Cannes. Aquarius teve ainda a classificação indicativa do Ministério da Justiça para 18 anos – para efeitos de comparação, O som ao redor, longa anterior de Kléber Mendonça Filho, tem classificação indicativa de 16 anos.

De férias na Itália, o cineasta e crítico Raffaele Petrini, diretor do Cine Praia Grande, no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho (Praia Grande), conversou com a reportagem e apontou suas apostas para a premiação de hoje à noite. “Amo La La Land [de Damien Chazelle], por ser uma homenagem contemporânea a uma maneira de fazer cinema que não existia mais: um cinema romântico, sonhador, bonito de ver, divertido e emocionante. Meu favorito entre os indicados é Até O Último Homem, de Mel Gibson, que dificilmente levará estatuetas. Como melhor filme estrangeiro eu adoraria ver o alemão Toni Erdmann [de Maren Ade] ou o iraniano O Apartamento, de [Asghar] Farhadi, já vencedor do Oscar pelo belíssimo A Separação; inexplicável a ausência de filmes como Julieta, de [Pedro] Almodóvar ou de Elle [de Paul Verhoeven], um dos últimos grandes filmes de sempre, sem comentar o caso Aquarius”, declarou.

La La Land tem 14 indicações ao Oscar. Entre os prêmios possíveis, Petrini acredita que ele tem possibilidade de levar nove estatuetas: melhor filme, melhor diretor, melhor trilha sonora, melhor canção original [City of stars], melhor figurino, melhor montagem, melhor edição de som, melhor som e melhor direção de som.

O também cineasta Joaquim Haickel, diretor do Museu da Memória Audiovisual do Maranhão (Mavam), concorda com Petrini quanto ao filme de Mel Gibson: “Dos indicados a melhor filme é o meu favorito”, declarou, referindo-se a Até O Último Homem, que ele classifica como “um drama de guerra baseado em fatos reais, dirigido pelo sanguíneo Mel Gibson”.

E La La Land? Para Haickel não tem todo este mérito: “coisa da indústria que quer prestigiar um musical. Ora, para fazer um documentário você usa 10 pessoas; para fazer um drama, você usa 200 pessoas; para fazer um musical, você tem 600 pessoas, querem valorizar isso”, declarou.

O cineasta Breno Ferreira aposta sabendo que muito provavelmente perderá na bolsa. “Eu acredito que vá dar La La Land, apesar do Moonlight [de Barry Jenkins] estar chegando nesse momento final com força, mas o meu voto seria para Lion [de Garth Davis]”.

Numa coisa os três concordam: La La Land deve levar a estatueta de melhor trilha sonora. “Para La La Land devem ir também os prêmios de melhor trilha sonora e melhor canção original”, aposta Haickel. Breno é taxativo: “trilha sonora é impossível não dar La La Land”, afirma, colocando-se ao lado de Petrini, que já havia incluído a estatueta entre as possíveis do filme de Damien Chazelle.

Biografia de Zózimo Barrozo do Amaral está à altura de sua elegância, importância e bom humor

[O Imparcial, hoje]

Em mais de 600 páginas, Joaquim Ferreira dos Santos faz profundo e bem-humorado mergulho na vida do colega com quem trabalhou

 

O jornalista Zózimo Barrozo do Amaral em foto de Joëlle Rouchou
O jornalista Zózimo Barrozo do Amaral em foto de Joëlle Rouchou

Joaquim Ferreira dos Santos já contava quase década e meia de profissão quando foi contratado para ser repórter da coluna de Zózimo Barrozo do Amaral, quando este editou o mítico Caderno B do Jornal do Brasil, em 1983.

Enquanto houver champanhe, há esperança. Capa. Reprodução
Enquanto houver champanhe, há esperança. Capa. Reprodução

É minucioso e superengraçado o volume que dedica a retratar a vida do colega: Enquanto houver champanhe, há esperança: uma biografia de Zózimo Barrozo do Amaral [Intrínseca, 2016, 637 p.; R$ 69,90]. A frase-título encimava o “painel do ego”, diante do qual trabalhava o personagem, com fotos de celebridades colunáveis, às vezes com o colunista ao lado, os inseparáveis cigarro e copo de bebida nas mãos.

O livro começa pelo episódio em que o bem-nascido Zózimo esbanja grã-finagem e bom humor ao ser preso pelo regime militar e seguir por uma bem-sucedida sequência de episódios quase sempre hilariantes, a mais perfeita tradução do “ganha-se pouco mas é divertido”, embora este não fosse bem o caso do colunista social – como os leitores perceberão quando converterem, para valores atuais, seu salário quando da transferência para O Globo, já na década de 1990.

Aliás, chamá-lo simplesmente de colunista social talvez o diminua. O episódio da prisão, que abre o livro, demonstra inequivocamente, que Zózimo não se ocupava apenas de jantares elegantes da sociedade, regras de etiquetas e o ti-ti-ti do “quem come quem” (para usar uma expressão do autor) típico desta função supostamente mais fácil e glamourosa do jornalismo.

Jornalismo, com J maiúsculo, era o que praticava Zózimo Barrozo do Amaral, às vezes com pitadas de literatura – não raro só os implicados em suas notas cifradas entendiam d/o que ele estava falando. E nisso residia a graça: o leitor comum, o jornal ao lado de seu café com leite, pão e manteiga, adorava imaginar-se íntimo daqueles ambientes que por vezes sequer frequentava. Tudo temperado a muito bom humor.

O personagem de Joaquim Ferreira dos Santos frequentou as páginas do noticiário, sendo um dos jornalistas mais influentes do país, por mais de três décadas, até a morte, em 1997 – este talvez o único episódio triste de toda a narrativa, ainda assim contado de forma bem-humorada. Zózimo tinha consciência da importância de seu ofício e ia pessoalmente à cata de notícias, isto é, o expediente esticava diariamente por jantares, boates e restaurantes. De algum modo, morreu em consequência de seu ofício, e isto também o torna grande.

O que faz o autor, valendo-se de seu talento e da elegância de seu próprio texto, um dos melhores do jornalismo brasileiro, hoje, e servindo Zózimo como exemplo, é dar verdadeiras lições de jornalismo, história, cultura, política e sociedade brasileiros, passando por todos estes cenários, ao longo do período.

Num tempo em que se apregoa a morte – ou no mínimo um respirar por aparelhos – do jornalismo e as colunas sociais contentam-se com o copiar e colar de releases enviados por assessorias, Enquanto houver champanhe, há esperança é um livro necessário, não apenas para quem é do ramo.

Música para crianças de todas as idades

Antes de ser pai, meu interesse por música infantil era quase zero. Julgava o nicho de uma tremenda pobreza (letras pobres, arranjos idem etc.), o que não me despertava o menor interesse. Exceções havia, é claro, casos da Arca de Noé, de Toquinho e Vinicius, e de Os Saltimbancos, trilha da peça homônima, formada por versões de Chico Buarque para composições de Luiz Enriquez Bacalov e Sergio Bardotti, entre poucos outros.

Com algum atraso, no início dos anos 2000, o amigo Glauco Barreto apresentou-me aquele que considero um dos melhores discos de música infantil já produzidos no Brasil: Monjolear [1996], dos irmãos mineiros Dércio e Doroty Marques, cujos trabalhos “adultos” eu já conhecia e apreciava – em Erva cidreira [1980], ela gravou Chico Maranhão (Arreuni) e Sérgio Habibe (Cavalo cansado); em Fulejo [1983], ele gravou Cesar Teixeira (Namorada do cangaço).

José Antonio tem microcefalia e um ano e três meses e entre todas as experiências maravilhosas que me tem proporcionado está a revisão do repertório infantil. Desde a gravidez de Graziela intensifiquei a compra de discos de música infantil – com a desculpa de Homem de vícios antigos de presentear o que estava por vir, as recomendações de pediatras de ouvir música desde a barriga etc.

Não sei o que José Antonio vai ser quando crescer, nem se vai detestar música como João Cabral ou detestar poesia como João Donato. Não prevejo nada: tento fazer o melhor possível, o que inclui deixá-lo livre – sem condená-lo a ser como eu, o que seria uma grande crueldade, como já disse o amigo tetra-pai Jotabê Medeiros, com quem sempre aprendo bastante, para além do jornalismo.

O fato é que, desde a barriga, e desde antes, se isso for possível, meu filho sempre ouviu muita música. Do que eu ouvia em casa e no carro, entre minhas preferências e o que chega para resenhar, até os sambas que lhe cantava acalentando – o que gerou um comentário bem humorado do amigo também pai Fernando Matos: “com o pai cantando sambas, sem dúvidas o menino será roqueiro”.

Na crônica Dormir é para os fracos [Folha de S. Paulo, 19/7/2015], compilada em Trinta e poucos [Companhia das Letras, 2016], Antonio Prata, maior cronista brasileiro em atividade (sorry, Veríssimo!) e também pai, lista “catorze constatações a partir da paternidade”, incluindo: “11) Galinha Pintadinha é a imagem da Besta. 12) Galinha Pintadinha é uma bênção divina.”, referindo-se, obviamente, ao poder hipnótico que a azulzinha tem sobre os bebês – por isso o sarro de Diego Freire me fez gostar tanto mais de Bumba, nosso boi [Empíreo, 2016].

Digo, pois, sem falsa modéstia: José Antonio passou incólume por Galinha Pintadinha, amém! Se sobra na tela, até vê, sem reclamar – como o pai vendo, sei lá, uma Ana Maria Braga, por exemplo. Não ligo naquele canal, naquele horário, mas se tem alguém vendo não é necessário instaurar um conflito familiar.

Este texto não é ou se pretende um tratado sobre bom gosto musical infantil (ou adulto). Mas sabemos que, como em qualquer nicho, o que é melhor às vezes fica escondido pela mídia, cujo interesse, antes de informar, é simplesmente vender. José Antonio vê muito Palavra Cantada, Tiquequê, Grupo Triii, Partimpim (a persona “infantil” de Adriana Calcanhotto), o Zoró de Zeca Baleiro e a Arca de Noé (com grandes nomes da MPB interpretando composições de Toquinho e Vinicius), entre outros.

Um exercício a que me proponho é eliminar a barreira – se é que ela existe – entre música adulta e música infantil e os exemplos acima são ótimos. Brinco de aterrorizar minha esposa dizendo que ouvindo o que ouve na infância, o menino será admirador de Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção e Premeditando o Breque – que eu adoro e ela detesta! –, entre outros.

Fora o terrorismo conjugal, faz sentido: a Palavra Cantada, por exemplo, é formada por Sandra Peres e Paulo Tatit, este, ex-integrante do Grupo Rumo, outro nome fundamental da chamada Vanguarda Paulista. Aqui e acolá pintam parcerias com Arnaldo Antunes, além da participação do ex-Titãs em músicas, bem como Mônica Salmaso – outro nome cuja voz agrada bastante adultos que apreciam boa música. No que a dupla é craque: fazendo música para crianças, não se despreocupa da qualidade nas letras, melodias e arranjos, mesmo quando estão apenas interpretando alguma cantiga de roda ou tema de domínio público.

A seguir, 12 (+2) clipes musicais infantis, escolhidos entre o lobby de José Antonio (suas preferências) e o que mais agrada este pai coruja entre o que ele vê.

Cuida com cuidado (Paulo Tatit e Zé Tatit), Palavra Cantada
Esta chegou a integrar minha lista de melhores videoclipes de 2016, na tradicional eleição do site Scream & Yell – não fosse José Antonio, provavelmente eu nem a conheceria

O pinguim (Toquinho, Vinicius de Moraes e Paulo Soledade), Chico Buarque
Meu sogro é professor de matemática aposentado. Brinco com José Antonio dizendo que este é o clipe do avô dele

O gigante (Angelo Mundy), Tiquequê
Um grupo bastante interessante em um videoclipe realizado pelo mesmo estúdio que produz a Galinha Pintadinha (viram? É possível!)

Lindo lago do amor (Gonzaguinha), Adriana Partimpim
Música de adulto em belo videoclipe de roupagem infantil

Ciranda da bailarina (Chico Buarque), Adriana Partimpim
Para adultos e/ou crianças Chico é gênio! Pena que os filhos de pais de direita demorarão mais a perceber

Bolacha de água e sal (Sandra Peres e Paulo Tatit), Palavra Cantada
Saquem a pegada rock’n roll que agrada o menino. Talvez a piada de Fernando Matos não fosse apenas uma piada

Eu sou um bebezinho (Paulo Tatit), Palavra Cantada
Sem chiliques, José Antonio!

O ornitorrinco (Zeca Baleiro e Tata Fernandes), Zeca Baleiro
Entre os bichos esquisitos do maranhense há uma girafa regueira e uma onça pintada, entre outros

Rato (Paulo Tatit e Edith Derdyk), Palavra Cantada
Letra longa, cerzida a valsa e choro, mostra o capricho das produções da dupla

A Galinha d’Angola (Toquinho e Vinicius de Moraes), Ivete Sangalo
Clássico infantil originalmente interpretado por Ney Matogrosso

O ar (O vento) (Luiz Enriquez Bacalov, versão de Toquinho e Vinicius de Moraes), Boca Livre
Apesar do erro teórico, garante a diversão dos adultos. Sempre ouvi um ditado, ainda bem que nunca comprovado, que diz que “quem ri de peido caem os dentes”

História de uma gata (Luiz Enriquez Bacalov e Sergio Bardotti, versão de Chico Buarque), Nara Leão e Miúcha
Da trilha sonora de Os Saltimbancos. Há várias músicas com gatos – estes seres que adoram jazz – como protagonistas dos videoclipes

Bônus track

Completado o top dúzia, mais dois clipes animados. Não são infantis, mas José ficou quietinho vendo as novidades. Um prêmio para papais e mamães que se renderam aos encantos da boa “mpbaby”, aguentaram textão e perdoaram o clichê publicitário do título, vocês merecem!

Burn the witch (Radiohead), Radiohead
De A moon shaped pool, disco mais novo dos ingleses

The girl in the yellow dresses (David Gilmour e Polly Samson), David Gilmour
Clipe sensacional e jazz classudo do ex-Pink Floyd, aqui acompanhado pelo The Julian Joseph Quintet

Bloco do Baleiro: “o ritmo, a dança, a alegria”

Foto: Rama de Oliveira
Foto: Rama de Oliveira

 

Teve ótima receptividade mês passado o anúncio, pelas redes sociais, do Bloco do Baleiro, em que o anfitrião maranhense terá como convidados o paraibano Chico César e a paraense Fafá de Belém, além dos DJs Ademar Danilo e Jorge Choairy.

Os poucos que contrariaram o coro questionavam o pagamento dos cachês dos artistas, inventando uma falsa oposição entre a presença de três artistas renomados nacionalmente e a manutenção de manifestações da cultura popular, como escolas de samba e blocos tradicionais, entre outros.

Procurada pelo blogue, assim manifestou-se a Secretaria de Estado da Cultura e Turismo do Maranhão (Sectur), em nota: “o evento é realizado pelo Governo do Maranhão e pela Prefeitura de São Luís com o patrocínio da Skol, através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão. Pela parceria, o Governo do Maranhão ficou responsável pelos cachês dos artistas, a Prefeitura de São Luís pelo trabalho de bloqueio de vias e ordenação do trânsito, e a Skol pela produção do bloco”. A questão parece encerrada.

Nome fundamental no cenário da música popular brasileira ao menos nos últimos 20 anos – quando lançou Por onde andará Stephen Fry? [MZA, 1997], seu disco de estreia –, Zeca Baleiro é maranhense para além da geografia: ao longo de duas décadas de carreira tem sido um verdadeiro embaixador da arte e cultura maranhenses, produzindo discos, fornecendo composições e/ou participando de trabalhos de artistas locais, nomes entre os quais podemos citar – com o risco de esquecer muitos outros –, Antonio Vieira, Bruno Batista, Celso Borges, Chico Saldanha, Criolina, Flávia Bittencourt, Joãozinho Ribeiro, Josias Sobrinho, Lena Machado, Lopes Bogéa, Patativa, Rita Bennedito (antes Ribeiro) e Rosa Reis.

A realização do Bloco do Baleiro será certamente mais uma importante contribuição de Zeca à cultura do Maranhão. Ele conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.

Foto: Rama de Oliveira
Foto: Rama de Oliveira

Como surgiu a ideia e como foram as negociações para a realização do Bloco do Baleiro neste carnaval em São Luís?
Esse é um projeto antigo que eu e Samme Sraya, prima querida e produtora atuante no front cultural de São Luís, planejamos fazer há tempos. Mas só agora estamos tendo a chance de concretizá-lo. A ideia é fazer um grande baile num caminhão, uma “jardineira”, como os que deram origem aos trios elétricos, num circuito entre as praças da Casa do Maranhão e Maria Aragão. Um baile onde cantaremos de tudo, não só músicas “de carnaval”, mas música dançante em geral, de Tim Maia a Reginaldo Rossi. Será uma experiência, algo inédito, uma tentativa de aproximar o nosso show/bloco da tradição do carnaval de rua maranhense, ao invés de copiar modelos de carnavais de outros estados. Uma festa popular e gratuita. O único critério para entrar no cordão será estar fantasiado.

A principal força do carnaval da capital maranhense é a tradição do carnaval de rua, com suas diversas manifestações. Você passou a infância e a adolescência em São Luís. Quais as suas principais lembranças do período momesco na ilha?
Gostava muito de ver os blocos, os fofões, mascarados de rua… Nunca fui um grande folião, mas gostava de ver a festa. Tive um vizinho querido, o poeta e jornalista Paulo Nascimento Moraes, que saía todo domingo de carnaval fantasiado de fofão pelas ruas do Monte Castelo, uma figuraça. É uma lembrança muito lúdica e bonita que eu tenho da festa. E lembro também de alguns sambas-enredos antológicos, que quero homenagear no Bloco, como Haja Deus, da Flor do Samba, de Chico da Ladeira e Augusto Tampinha, e Bodas de ouro, de Zé Pivó, da Turma de Mangueira.

O Bloco do Baleiro terá como convidados Chico César e Fafá de Belém. Como será a participação deles e o que você diria a quem, por preconceito, torcer o nariz, dizendo tratar-se de artistas não identificados diretamente com o carnaval?
A quem torcer o nariz, sugiro que fique em casa, vendo o carnaval do Rio pela Globo. Mas para quem quiser se juntar a nós e celebrar com alegria, irreverência e música o carnaval, digo que venha. Eu, Chico e Fafá somos artistas identificados com o ritmo, a dança, a alegria. Isso deveria bastar. Mas, como diria Dias Gomes, quem abre caminho enfrenta as cobras.

São Luís parece despertar finalmente para experiências bem sucedidas como o carnaval do Recife, isto é, abrindo o leque, ampliando as possibilidades e realizando um carnaval verdadeiramente multicultural?
O carnaval de Recife é um grande exemplo de como a festa do carnaval pode servir de palco pra todo tipo de música ou manifestação cultural. Já toquei lá em mais de 10 edições, e sempre tem música pra todo gosto. Na mesma noite você pode ter shows de Ira!, Nação Zumbi, Zélia Duncan, Spok Frevo Orquestra, Elza Soares, Alceu Valença, rap, samba, frevo, rock, blues, tudo junto. E isso é lindo como proposta cultural.

Sua presença na programação do carnaval de São Luís tem um quê de afetividade, tendo em vista você ter nascido aqui, a evocação das memórias de que você já tratou. O que você e seus convidados estão preparando para o Bloco do Baleiro?
Sim, tem um quê de afetividade, de culto da memória também. Ainda vamos ensaiar, mas a ideia é dar um giro pela música dançante brasileira, do carimbó ao funk, do brega ao reggae. Estou preparando versões divertidas de clássicos da música pop também. O importante é louvar a alegria de viver num tempo tão obscuro como este em que vivemos.

Assista O abadá, versão bem humorada de Zeca Baleiro para Ob-la-di, ob-la-da (Lennon/McCartney), dos Beatles:

Um artista em constante metamorfose

Foto: José de Holanda
Foto: José de Holanda

 

O pernambucano Siba é um artista em constante processo de reinvenção. Entre meados dos anos 1990 e 2000 liderou o Mestre Ambrósio, banda que ajudou a consolidar o movimento manguebit. Com o fim do grupo, formou, com músicos da zona da mata pernambucana a Fuloresta do Samba. Só depois estreou em carreira solo, com Avante [2012], um bem-humorado disco de tons autobiográficos.

Em 2015 lançou De baile solto (seus discos solo e com a Fuloresta estão disponíveis para download no site do artista), com letras em geral com conteúdo político de grande força. Em Marcha macia, que abre o disco, por exemplo, criticava a tentativa de ingerência do poder público de mexer nas tradições dos maracatus em Pernambuco, com que trocadilha o título do álbum.

De baile solto foi o disco com cujo show Siba baixou na ilha no final de 2015, no Festival BR 135. Ele volta à cidade amanhã (10): se apresenta às 22h no Fanzine Rock Bar (av. Beira Mar, Praça Manoel Beckman, próximo à Delegacia da Mulher, Centro). Os ingressos custam R$ 40,00 (20,00 para estudantes com carteira e demais casos previstos em lei).

A produção local do show é novamente do BR 135, que pretende, ao longo do ano, realizar algumas apresentações, como a preparar o clima para o grande festival no Centro histórico – a edição de ano passado teve, entre as atrações, os também pernambucanos da Nação Zumbi.

Na apresentação de amanhã Siba (guitarra e voz) será acompanhado por Atife (guitarra), Thomas Harres (bateria) e Mestre Nico (percussão e voz). O artista conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.

Foto: José de Holanda
Foto: José de Holanda

Qual a base do repertório do show desta sexta em São Luís?
Esse show tem uma formação reduzida, é um quarteto que vai aí pra São Luís. São duas guitarras, bateria, percussão e vozes, e eu tenho usado este formato pra experimentar com repertório de vários momentos, desde a Fuloresta, do Avante, e também bastante coisa do De baile solto. Mas é uma formação que tá em metamorfose, sempre experimentando novas possibilidades, já tentando talvez apontar aí a direção para um novo projeto, esse ano ainda ou no ano que vem.

Em De baile solto você volta pela primeira vez em disco ao repertório do Mestre Ambrósio, com a regravação de Gavião. Qual a sensação da revisita?
A música Gavião foi regravada no De baile solto por que ela tinha uma relação muito profunda com o repertório, primeiramente musical. O De baile solto é um disco muito marcado pela retomada da rítmica que eu sempre tive como principal no meu trabalho, que é a da música de rua de Pernambuco, e Gavião era uma das músicas mais importantes, pra mim, no Mestre Ambrósio. Sendo que depois a letra dela tomou uma dimensão muito particular. Em contraponto com as letras mais diretamente políticas do disco, Gavião acaba se ressignificando, ao lado das outras músicas, eu acho.

Você se consagrou como rabequeiro, no Mestre Ambrósio e na Fuloresta, mas na carreira solo se acompanha com guitarra. Há uma razão para a mudança? E qual a chance de a rabeca reaparecer?
Com relação à rabeca eu considero o instrumento como uma ferramenta, somente. O instrumento não tem um valor em si, embora que o meio de onde ele vem ou a linguagem que ele representa pode sim agregar valor ou subtrair. No caso da guitarra, foi meu primeiro instrumento e eu precisei retomá-lo no momento onde eu carecia de mais recurso musical, que a rabeca é um instrumento, embora muito expressivo, também bastante limitado. Foi mais este motivo mesmo de retomar a guitarra, nenhum outro não, e até então tem sido meu instrumento principal.

Tua formação musical se dá entre ambientes urbanos e rurais e isto fica claro em tua música, sempre dançante. Há uma preferência? Há um lado com o qual você se identifique mais ou tudo se equilibra e se completa?
Esse contraste de urbano e rural ele é um pouco falso, eu acho, hoje no Brasil. Especialmente na música que eu faço, que eu pratico, não dá mais nem pra falar em mundo rural na Zona da Mata norte, que é o berço desses estilos que são a base do meu trabalho. De um modo geral são estilos que já são urbanos há décadas. A grande diferença está no fato de eles serem classificados como cultura popular e daí são formas de expressão que costumam sofrer bastante preconceito e ocupar sempre um lugar inferior na qualificação, no nosso panorama cultural de modo geral. Mas o rural em si, ele já é coisa do passado.

Outra característica muito marcante de tua obra é o conteúdo fortemente político, notadamente este disco mais recente. Como você tem acompanhado o noticiário acerca do conturbado momento político que atravessa o Brasil?
Eu acompanho o momento político do Brasil com muita preocupação, eu acho que é um momento muito pernóstico. As grandes forças mais reacionárias, o acúmulo de dinheiro e poder está se multiplicando e se reforçando de um modo assim assustador. Ao ver a versão da grande imprensa prevalecendo a gente fica com um sentimento de que a gente quase que perdia a oportunidade de ter construído um país melhor nos últimos anos aí. Continuo acreditando na possibilidade de o povo brasileiro de encontrar saídas, mas este realmente é um momento bem preocupante, que acho que vai reverberar negativamente por muito tempo ainda. A gente segue resistindo por que é a única maneira e cada um tem que encontrar o seu modo de escape, de saída, e tentativa de construir pelo menos pequenos modos de afirmação positiva dentro disso tudo.

Veja o clipe de O inimigo dorme:

A cidade onde envelheço inaugura Sessão Vitrine Petrobrás hoje no Cine Praia Grande

Still: Bianca Aun
Still: Bianca Aun

 

“É melhor acreditar em algo utópico que levar uma vida sem sentido”, diz Teresa (Elizabete Francisca Santos), recém-chegada de Portugal, em uma cena de A cidade onde envelheço [drama, Brasil-Portugal, 2016, 99 min., classificação indicativa: 12 anos]. Adiante, respondendo a Francisca (Francisca Manuel), afirma, utopicamente: “eu não vou envelhecer nunca!”.

As frases resumem bem o filme de Marília Rocha, rodado em Belo Horizonte, com inspiração na própria história da atriz que interpreta a personagem que mora há mais tempo no Brasil. Recém-chegada, Teresa é recebida por Francisca, que já tem algumas opiniões formadas sobre o Brasil e o brasileiro e, de certo modo, já está de saco cheio disso aqui. A tensão entre ficar e voltar é um dos fios condutores da trama.

É uma história bem humorada sobre amizade, saudade, decisões e as reviravoltas que a vida e o mundo dão. E também sobre estranhamentos: as diferenças culturais entre Brasil e Portugal são evidenciadas, por exemplo, na crítica de Francisca ao hábito “folgado” de os jovens da periferia “darem uma bola”, isto é, “filar” uma tragada do cigarro alheio – no meio da história tinha um cachorro.

Se os pensamentos de Teresa podem resumir A cidade onde envelheço, filme que levou os prêmios de melhor filme, direção, atriz e ator coadjuvante no 49º. Festival de Cinema de Brasília, ano passado, a sinuca também pode ser uma boa tradução: o ambiente é divertido, bebe-se, mas também se pensa sobre o futuro, metaforizado na melhor tacada para a próxima bola.

As paisagens de Belo Horizonte tornam o filme ainda mais bonito. Se o hábito incessante de fumar das protagonistas nos faz pensar em um filme de época, Jonnata Doll e os Garotos Solventes nos localizam no contemporâneo. Merece destaque à parte a trilha sonora: a banda cujo vocalista interpreta a si mesmo no filme, entre cerveja, rapé e passeios irresponsáveis, e o Jards Macalé do compacto de estreia, de 1970, com Só morto (Burning night) e Soluços.

A letra da última parece traduzir – num filme, afinal, de traduções, cujo português de Portugal falado pelas protagonistas é legendado – uma briga entre as protagonistas: “quando você me encontrar/ não fale comigo, não olhe pra mim/ eu posso chorar”. Mas que amigos não brigam para depois reconciliar-se? A cidade onde envelheço é, também, um filme sobre recomeço.

Serviço

A cidade onde envelheço estreia hoje (9), às 16h20, no Cine Praia Grande (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande), inaugurando a Sessão Vitrine Petrobrás, que exibirá mais de 15 títulos nacionais ao longo de 2017. Os ingressos custam R$ 12,00 (6,00 para estudantes com carteira e demais casos previstos em lei).

Veja o trailer de A cidade onde envelheço:

Uma obra-prima

Frida Kahlo: Para que preciso de pés quando tenho asas para voar?. Capa. Reprodução
Frida Kahlo: Para que preciso de pés quando tenho asas para voar?. Capa. Reprodução

 

É uma verdadeira obra de arte a graphic novel Frida Kahlo: para que preciso de pés quando tenho asas para voar? [Frida Kahlo: pourquoi voudrais-je des pieds puisque j’ai des ailes pour voler?, tradução: Fernando Scheibe; Nemo, 2016, 128 p.; veja as páginas iniciais], de Jean-Luc Cornette (texto) e Flore Balthazar (desenho e cores).

A HQ biográfica acompanha Frida, seu marido Diego Rivera, então um muralista mais conhecido que ela, e Leon Trotsky, de quando o casal recebe no México o intelectual marxista forçado ao exílio até sua morte, menos de quatro anos depois.

A rima é pobre, mas Frida sempre usou suas cores para superar suas dores, e uma palavra-chave deste álbum – como de resto em qualquer relato biográfico acerca da pintora – é traição, no amor, na amizade e na política.

Mulher livre, Frida viveu um polígono amoroso que é aqui exposto sem escamoteação, tampouco sem tirar a atenção para aquilo que verdadeiramente importa: sua obra, sua força, sua atualidade.

Num contexto de criação da Quarta Internacional, da perseguição a Trotsky pelo NKVD (o Comissariado do Povo para Assuntos Internos, na sigla em russo, espécie de Ministério do Interior) e de discussões acerca do rótulo de surrealista que André Breton quis impor à protagonista, o enredo de Frida Kahlo é urdido com bom humor.

Um glossário de perfis, por Jean-Luc Cornette, acompanha a trajetória dos personagens após 1940, ano da morte de Trotsky. Também ao fim do volume, as referências apontam, entre livros, filmes, reportagens, museus, exposições e murais de Diego Rivera, obras “que foram essenciais para nós e nos permitiram realizar esta graphic novel com o maior rigor possível”, no dizer dos autores.

A quem conhece minimamente a biografia de Frida, ao menos a partir do filme homônimo [2002], de Julie Taymor, baseado em Frida: a biografia [Globo, 2011], de Hayden Herrera, esta HQ não acrescentará novidades. Mas merece ser contemplada como obra-prima que é. Aposto que Frida aprovaria a bela homenagem.

Aqueles meninos somos nós

Os meninos da Rua Paulo. Capa. Reprodução
Os meninos da Rua Paulo. Capa. Reprodução

 

É bastante oportuna a presente reedição de Os meninos da Rua Paulo [Companhia das Letras, 2017, 271 p.], numa época em que valores como união, companheirismo, fidelidade, dignidade, honra, lealdade e humildade, entre outros – de que, afinal, trata o livro –, andam tão “fora de moda”.

Desde que foi lançado, há 110 anos, o clássico juvenil de Ferenc Molnár vem esgotando edições e conquistando, mais que leitores, gente que devota a ele algum pedaço importante de sua formação, como atesta o apêndice emocional do volume, com belos textos de Nelson Ascher e Michel Laub.

Para crianças de todas as idades, poderia recomendar o clichê publicitário, a aventura é por demais conhecida e emocionará leitores de primeira viagem e os que a ela retornam. Conta a história de adolescentes que brigam pelo direito de ocupar um terreno baldio, o grund, numa área de Budapeste. São dois exércitos organizados, com suas hierarquias, táticas, estratégias e muita disposição.

A tradução e as notas caprichadas de Paulo Ronái, ele mesmo nascido húngaro e tornado brasileiro, são um luxo, apontando detalhes que poderiam nos passar desapercebidos, da pronúncia dos nomes dos personagens a pequeníssimos escorregões do autor (por exemplo a confusão em torno da bandeira de um dos exércitos juvenis que protagonizam a aventura).

Até hoje não se sabe ao certo se Molnár foi integrante da Sociedade do Betume, embora duas passagens no texto indiquem que sim. O título do livro já nos instiga a simpatizar com ela, mas independentemente de para que lado se torça e dos vencedores, é um livro paradoxalmente triste, apesar de todas as lições que dele podemos tirar.

Um bom exemplo destas lições é a fala de Nemecsek, quando apanhado em território inimigo: “Preferi tomar um banho a ficar à beira do lago rindo de um camarada. Prefiro ficar na água até o Ano-Bom a conspirar com os inimigos dos meus amigos. Pouco me importa que vocês me tenham dado um banho. Outro dia caí na água sozinho: foi quando o vi aqui pela primeira vez, entre estranhos. Podem convidar-me a ficar com vocês, adular-me, cumular-me de presentes: nada tenho que ver com vocês. Se me botarem na água mais uma vez, ou cem vezes, ou mil vezes, voltarei sempre: amanhã, depois de amanhã, e me esconderei em algum lugar onde vocês não me verão. Não tenho medo de nenhum de vocês. E, se vierem à rua Paulo tomar-nos o nosso terreno, lá estaremos. Lá, verão que, quando nós também somos dez, sabemos falar em outro tom. Comigo a briga não foi difícil! Vence quem é mais forte. Os Pásztor roubaram as minhas bolas de gude no parque do Museu, porque eram os mais fortes! Dez contra um, é fácil! Mas a mim pouco importa. Podem-me dar uma surra, se quiserem. Bastava eu não querer para não entrar na água, mas recusei o seu convite. Podem afogar-me ou matar-me a pauladas: eu nunca serei traidor como certos indivíduos… como este…” (p. 125-6), uma verdadeira aula de dignidade em tempos golpistas.

Ou ainda: “Esta é a sorte do traidor: desconfiam dele mesmo quando fala a verdade” (p. 186). “Ao ler, este ou qualquer outro livro, queremos fantasiar – pleiteamos, mesmo que já adultos, um espaço livre para a imaginação, reivindicamos a infância de volta, o nosso terreno baldio”, afirma o editor Luiz Schwarcz na orelha-exceção, mesmo quando perdemos este terreno baldio para a especulação imobiliária, por exemplo.

Pode parecer apenas uma fábula juvenil, mas no fundo, Os meninos da Rua Paulo é um livro sobre cada um de nós, atualíssimo, mesmo após 110 anos de publicado.