O poeta e editor Lawrence Ferlinghetti, proprietário da City Lights Bookstore em San Francisco, declinou de um prêmio húngaro de mais de 64 mil dólares, alegando preocupações sobre direitos civis e liberdade de expressão.
Não é pequena a ironia de que o prêmio recusado por Ferlinghetti, o Prêmio Internacional de Poesia Janus Pannonius (Janus Pannonius International Poetry Prize) seja oriundo de uma divisão húngara do PEN (caneta em inglês, a sigla), organização internacional que apoia a liberdade de escrever e frequentemente realiza campanhas para ajudar escritores que foram presos ou silenciados.
Ao saber que o prêmio foi parcialmente financiado pelo governo húngaro, Ferlinghetti escreveu uma carta expressando suas preocupações. “Se o prêmio é em parte financiado pelo governo húngaro, e as políticas de direita deste regime tendem ao autoritarismo e o consequente cercear das liberdades de expressão e civis, penso ser impossível, para mim, aceitá-lo nos Estados Unidos. Assim, devo recusar o prêmio em seus termos atuais”, diz um trecho.
Ferlinghetti (93) serviu a Marinha na Segunda Guerra Mundial. Estava na invasão da Normandia e visitou Nagasaki uma semana depois da bomba atômica. Ela “era como um par de quilômetros quadrados cobertos de nada, mas com cabelo humano e ossos saindo, algo horrível de se ver”, declarou ao PBS (Public Broadcasting Service) há 10 anos. A experiência relatada foi o início das convicções políticas do pacifista.
Mas Ferlinghetti é também um lutador. Em 1956 ele colocou sua jovem livraria e editora no centro dos debates sobre a liberdade de expressão ao publicar Uivo, de Allen Ginsberg. O editor chegou a ser preso, mas foi absolvido pela corte, após provar que o poema não era obsceno.
Ao rejeitar o prêmio, Ferlinghetti tentou doar o dinheiro a um fundo de apoio a casos de liberdade de expressão na Hungria, mas não ficou satisfeito com os esforços da PEN húngara em atender seu requerimento.
* O tradutor agradece a leituratenta e as dicas preciosas de Igor de Sousa e Reuben da Cunha Rocha.
Carlos Latuff é um artista contemporâneo fundamental. Incomoda fazendo arte. Faz arte incomodando. Quer transformar as pessoas, não nega. E assim, transformar a sociedade, torná-la melhor. É mais conhecido fora que no Brasil. Tem incomodado ditaduras no norte da África. Aqui incomoda a polícia. “A violência policial é um tema tabu”, diz ele que já foi levado a delegacias por pautar o assunto em seus desenhos.
Grande honra tê-lo chamado para desenhar o cartaz da Campanha de Combate à Tortura, da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos e organizações parceiras do Comitê Estadual de Combate à Tortura:
Vejam a seguir entrevista que o artista deu ao Globo News em Pauta, onde comenta estes e outros assuntos.
O rosto é familiar, quer você adore, quer você odeie o MST. A imagem não ficou restrita à capa do livro. Correu mundo. Virou quase sinônimo do Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais Sem Terra, que conta com a simpatia e o apoio deste blogue em suas lutas.
Há alguns dias ganhou repercussão nas redes sociais, a partir de matéria publicada na Folha de S. Paulo, o fato de a menina da capa ou a menina da foto ou a menina do livro, como ficou conhecida, ser ainda uma sem-terra, 16 anos depois de lançado o Terra, com fotografias de Sebastião Salgado, pela Companhia das Letras.
A matéria é boa, apesar do problema (da grande mídia de que dona Folha faz parte) de usar o verbo “invadir” em vez de “ocupar” para se referir às ações do MST na luta pela reforma agrária no Brasil.
Em determinada passagem do texto Joceli Borges, hoje com 21 anos, diz ter dois sonhos: um lote de terra e dois exemplares do livro cuja capa estampou aos cinco. Um para ela, outro para seu pai.
O livreiro José Arteiro, um dos proprietários da livraria Linha do Equador (Av. dos Holandeses), hoje, em seu perfil no Facebook, informa ter comprado dois exemplares usados do livro na Estante Virtual: “Vou doar os dois livros que ela pediu, um para seu pai e outro para ela. Fiquei comovido com o pedido”, desabafou.
Arteiro está tentando contato com a menina para providenciar o envio. Quem tiver informações escreva para arteiromuniz@hotmail.com
Feira na Praia – Entre os próximos dias 30 de agosto e 2 de setembro, sempre das 16h às 22h, na Av. Litorânea (Calhau), próximo ao parquinho, diversos livreiros de São Luís realizarão uma Feira do Livro, a exemplo do que já fizeram em shopping centers e paisagens outras da capital maranhense. Oportunidade de comprar livros a preços promocionais curtindo a brisa (já que banho de mar, nem pensar!).
Rosa Reis é rainha. Negra da música de todas as cores. O título de seu mais novo disco, Brincos, entrega o som que a moça faz: música para pendurar nos ouvidos.
Rosa Reis é Maranhão, a beleza e a pluralidade de nossa música, um passeio por nossa diversidade rítmica, muita coisa só se vê e ouve por aqui.
“Minha terra tem tambor de crioula, a tua não tem”, dizia, orgulhoso de nossa terra, o saudoso Antonio Vieira. Tem tambor de crioula, tem bumba meu boi, tem lelê, tem cacuriá, tem samba, tem choro, tem baião. Depois do passeio gastronômico, vamos ao passeio musical.
Ao mesmo tempo em que Rosa Reis é guia, é também o prato principal no menu da música, que temos o prazer de servir agora. Apreciem sem moderação. Com vocês, Rosa Reis!
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Textinho que escrevi, às pressas, minutos antes de degustar a cerveja gelada e a deliciosa comida preparada para a comunidade e membros das Cáritas do Nordeste, enquanto esperava o show em que Rosa Reis aprontou tudo o que anunciei, para deleite dos presentes.
As Cáritas visitavam o Vinhais Velho para conhecer uma experiência de resistência, programação que integrou o Encontro Inter-regional Nordeste da Cáritas Brasileira, realizado em São Luís entre os últimos dias 15 e 17 de agosto (a visita e o show de Rosa Reis aconteceram dia 16).
A cantora Lena Machado, com quem trabalho no Secretariado Regional da Cáritas no Maranhão, a quem dei o texto para uma primeira lida após terminá-lo, gostou tanto que se dispôs a lê-lo no palco, apresentando Rosa Reis. Ela guardou o manuscrito e eu resolvi publicar aqui.
Acontece até o próximo dia 17 o Encontro Inter-regional Nordeste da Cáritas Brasileira, na Casa das Irmãs de São José de São Jacinto, Filipinho, São Luís. O tema do evento é “Estiagem, grandes projetos e políticas públicas”. Este que vos bafeja fez o desenho utilizado pela Cáritas em adesivos (colados nas pastas distribuídas aos presentes) e nas faixas. Vejam abaixo.
Jessyca Segadilha concedeu há pouco uma entrevista ao programa Balanço Geral, da TV Cidade/ Rede Record. Falava, pelo que entendi, representando o Procon/MA e a conversa com o apresentador Sérgio Murilo tinha por mote a medida da Anatel que proíbe, a partir de segunda-feira próxima (23), a venda de chips das operadoras Claro, Oi e Tim em alguns estados brasileiros. No Maranhão a proibição afeta apenas a terceira.
Não vi a entrevista inteira: quando liguei a televisão para dar aquela descansada após o almoço, o papo entre a, suponho, servidora da Secretaria de Estado de Direitos Humanos, Assistência Social e Cidadania (Sedihc) e o jornalista já estava em andamento. Para além da pauta que cobria os problemas referentes aos serviços de telefonia móvel a conversa enveredou, por exemplo, por cartões de crédito e suas abusivas taxas de juros.
“Como denunciar?” À pergunta de Sérgio Murilo, Jessyca Segadilha recomendou que os clientes, particularmente no tocante às operadoras de telefonia, reclamassem primeiro junto à empresa, garantindo assim o número de protocolo e só depois reclamassem ao Procon. Passou aos telespectadores o endereço do órgão, hoje localizado na Rua do Egito, nº. 207, no Centro de São Luís.
Indagada sobre os números de telefone do Procon ela não soube dizê-los e informou que os mesmos estavam no site do órgão; questionada sobre este endereço eletrônico, “bateu um branco”, ela novamente não soube informar e recomendou aos interessados entrar no site do Governo do Estado, depois no da Secretaria de Direitos Humanos e então acessar o link do Procon.
Um tortuoso caminho – como quando você chega numa repartição e é jogado de um funcionário a outro –, burocrático e que não atende à grande maioria da população que via o misto de noticiário e entretenimento. O Procon, que deve combater, por exemplo, abusos como as infinitas transferências de ligações entre atendentes de telemarketing, “eu vou estar te transferindo para que você possa estar resolvendo seu problema”, até que você desiste, a ligação cai ou, de um modo ou outro, seu problema continua sem solução. Pela lógica da entrevistada, repito, você acessa um site, para chegar a outro e ali encontrar o link e os telefones do Procon. Isso se a internet não cair, antes de você completar a operação – o que em São Luís é muito comum, sobretudo quando chove.
Serviço – O Procon tem quatro unidades de atendimento no Maranhão (número bastante aquém do ideal. Será que adianta reclamar… no Procon?): duas em São Luís – no endereço da Rua do Egito, acima, e no Viva Cidadão da Praia Grande –, uma em Balsas e uma em Caxias. Essa informação foi dada pela Jessyca Segadilha na citada entrevista. O blogue dá aqui o que ela não soube há pouco: http://www.procon.ma.gov.br, proconsede@procon.ma.gov.br, (98) 3261-5100. Boa sorte!
Nem lembro quando e como conheci o trabalho de Carlos Latuff. Provavelmente a primeira lembrança que tenho de um cartum seu é a famosa imagem abaixo, em que o jornalista Vladimir Herzog aparece enforcado vestindo uma florida camisa de turista tomando um coquetel (ou caipirinha ou “refresco”) com aquela fruta espetada na beirada do copo, enforcado por um cinto, o suicídio inventado, paródia da talvez mais conhecida foto do ex-diretor de jornalismo da TV Cultura. Aludia ele ao episódio em que a Folha de S. Paulo afirmara que a ditadura brasileira não passara de ditabranda.
Latuff é um gênio! Menos conhecido no Brasil que fora dele, nem sei dizer se infelizmente. Lá fora tem cumprido utilíssimo papel ao fazer críticas bem humoradas com seus traços e cores a diversos acontecimentos políticos. De sua arte também não escaparam episódios nacionais como o massacre de Pinheirinho, em São Paulo, e a ocupação do Morro do Alemão, no Rio de Janeiro, apenas para citar alguns dos mais recentes. Quem quiser saber e ver mais do trabalho do rapaz, basta acessar seu blogue, o dele, digo.
Em março passado, mais precisamente dia 22, quando se completaram cinco anos do assassinato do artista popular Jeremias Pereira da Silva, o Gerô, espancado até a morte por policiais militares em 2007, Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional Maranhão (OAB/MA), Ouvidoria de Segurança Pública e Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH) lançaram Campanha de Combate à Tortura.
Dias antes, fiz contato com Latuff, cujo compromisso com causas e ideais nobres eu já conhecia. Um e-mail e alguns telefonemas depois, ele me encaminhou a bela arte do cartaz da Campanha, que abre este post e eu já havia publicado em alguns lugares.
Hoje é Dia Mundial de Apoio às Vítimas de Tortura. Roubo do perfil do jornal Vias de Fato no facebook a imagem abaixo, que o carioca desenhou há dois anos. A imagem permanece atual: infelizmente a tortura ainda é prática recorrente em nosso país. É preciso mudar este quadro, urgentemente!
Começa amanhã (19) em São Luís a mostra Cinema Pela Verdade, que debaterá a ditadura militar brasileira após a exibição de documentários sobre o período. Suas sessões ocuparão auditórios na UEMA, UFMA e Campus Centro Histórico do IFMA. Programação completa na página da SMDH na internet (no link, sinopses e horários das sessões, seguidas de debates e gratuitas). Abaixo, trailers de Cidadão Boilese, Condor e Hércules 56, documentários que compõem a mostra.
Amanhã (19), às 8h30min, estarei na UEMA para, após sua exibição, debater o filme Condor. Entre os debatedores da mostra, em outras sessões, estão o advogado Luis Antônio Câmara Pedrosa e o jornalista Emílio Azevedo. A curadoria local da Cinema Pela Verdade é de Andressa Brito Vieira, estudante de Ciências Sociais da UFMA.
O jornalista Décio Sá foi brutalmente assassinado há pouco mais de um mês, quando se preparava para jantar em um bar e restaurante na avenida Litorânea, local que habitualmente frequentava. Um pistoleiro descarregou seis balas de uma ponto 40 em sua cabeça e tórax, numa história já por demais conhecida, de tão discutida, mais no início, nas horas e dias que se seguiram ao crime. Embora menos, o assunto ainda é pauta de veículos de comunicação e blogueiros independentes (aqui, no sentido de não vinculados, ao menos não diretamente, a qualquer desses veículos, sejam impressos ou eletrônicos), sobretudo pelo fato de, com mais de um mês, as investigações pouco ou nada terem avançado e o crime continuar sem elucidação e impune.
Muito se viu, ao longo dos dias, óticas as mais variadas sobre o assunto. Hipóteses, críticas ao governo, elogios e críticas à vítima, discussões as mais diversas sobre (a volta dos) crimes de pistolagem ao Maranhão, polêmicas sem qualquer sentido e até aproveitadores de plantão, disputando a audiência do blogueiro assassinado, como se leitores pudessem ler apenas um único blogue diariamente e tivessem a obrigação da fidelidade e de uma monovisão sobre os muitos assuntos que comporta a blogosfera maranhense, com ou sem talento, com ou sem diploma, com ou sem caráter.
Após alguns dias sem acessar a internet, hoje dou de cara com a polêmica já bastante repisada em que insistem em tornar vilão o advogado Luis Antonio Câmara Pedrosa, presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil, seccional Maranhão e, por outro lado, “santificar” Décio Sá, o jornalista assassinado, então funcionário do Sistema Mirante de Comunicação, de propriedade da família Sarney, da governadora Roseana Sarney Murad.
A falsa polêmica plantada já comentei (leia pelos links acima ou nos arquivos deste blogue). O que é estranho é que ela volta à carga em um texto de Haroldo Silva (quem é?), jornalista e radialista profissional, como assina, publicado ontem (domingo, 27) no… Blog do Décio. Não é estranho?
A pergunta se justifica: numa empresa como o Sistema Mirante de Comunicação, é muito provável que o setor de informática detenha informações como logins e senhas e outras de seus funcionários, não no sentido de vigiar-lhes 24h ou cobrar-lhes produtividade, “e aí, meninos e meninas?, estão escrevendo suas matérias do dia ou estão de trololó nos msns e gtalks da vida? O quê?, ‘tão atualizando seus facebooks pessoais e o trabalho atrasado?”, não, não é disso que falo.
Falo do seguinte: uma das primeiras hipóteses levantadas quando do assassinato de Décio Sá, seja pelo mais gabaritado especialista em segurança ou pelo mais leigo leitor/ouvinte/espectador comum que acompanharam o crime, foi a possibilidade de queima de arquivo. A tese seria a de que Décio possivelmente teria publicado algo que desagradou a alguém e foi, por isso, eliminado. Este blogue fica com uma das segundas hipóteses: a de que Décio teria sido eliminado por algo que ainda não havia publicado, alguma informação bombástica sobre sabe-se lá quem, certamente com alguma grana, fama e prestígio (seja lá o que signifiquem hoje e no Maranhão), informação cuja “noticiabilidade”, “interesse público” e outros fatores determinantes em jornalismo para sua veiculação ou não, ainda estavam em debate e/ou disputa (ou negociação).
Uma das chaves para sabermos que hipótese estaria/está/estará correta seria sua quebra de sigilo telefônico e eletrônico: as ligações que fez e recebeu no dia e dias antes de sua morte, as senhas de acesso a e-mails, conta do blogue e aparelhos tecnológicos outros. Confesso que não tenho acompanhado o caso com a mesma atenção e interesse de outros blogueiros, por motivos os mais diversos. Mas a morte de Décio Sá, qual um vídeo “para nossa alegria” no youtube ou fotos de Carolina Dieckman nua (nem de longe estou vulgarizando a primeira ocorrência, diga-se), é coisa que nos chega aos óculos mesmo que não queiramos, basta a leitura diária de jornais e blogues e as passadas d’olhos nos telejornais e quetais: invariavelmente ela estará lá, mesmo trazendo novidade nenhuma, mesmo trazendo abobrinhas desinteressantes, mesmo realimentando falsas polêmicas.
Quem tem alguns dos acessos que apresentamos acima como possibilidades sabe como ler (e apagar, se conveniente) comentários publicados ou não no blogue, e-mails, recados nas redes sociais etc. O texto postado ontem no Blog do Décio, mais de um mês após o seu assassinato, voltava a elogiá-lo e a atacar ferozmente, ainda que sem citar o nome, quem ousou colocar os pingos nos is. Até o momento em que clico em publicar, cá neste blogue, já havia recebido nove comentários, todos elogiosos a Décio Sá e/ou a Haroldo Silva (quem é?), autor dos elogios a ele, ou ainda criticando Pedrosa. Ou seja, possivelmente outros comentários passaram pelo crivo do moderador, que detém a senha de acesso ao blogue. Pergunto-me: seria publicado, ali, algum comentário pró-Pedrosa e anti-Décio e anti-Haroldo?
Emocionantes, cada qual a seu modo, os dois vídeos abaixo, A cara do Brasil, a música de Celso Viáfora e Vicente Barreto, interpretada pelos mesmos, e o Pé na rua, programa de tevê, o personagem Ezequiel Souza e Silva, catador:
“Aqui é minha casa quatro horas por dia”. As palavras foram ditas por Vinicius de Oliveira Melo, 35 anos, bem longe de casa. Pendurado a sete metros de altura, ele é um dos ativistas que estão se revezando para impedir a saída do navio Clipper Hope, próximo a São Luís do Maranhão.
O cargueiro rumava para o Porto do Itaqui, onde seria carregado com ferro gusa – matéria-prima do aço – manchado por desmatamento e trabalho escravo. Nos últimos sete dias de bloqueio, Vinicius se acostumou à rotina. Com uma garrafa de água, algumas frutas e muita disposição, ele tem encarado a tarefa numa boa.
Engana-se quem, à menção da Marcha das Vadias, pensa logo e apenas em oba-oba e/ou zoada sem propósito. O vídeo a seguir dá uma ideia do que será o protesto, que chega à São Luís no próximo dia 26 (sábado):
Chegar à Ilha no próximo sábado é modo de dizer. A Marcha, movimento internacional também conhecido por Slut Walk, tem diversas atividades antes da caminhada em si, conforme programação abaixo, que este blogue recebeu por e-mail da assessoria de comunicação local (há atividades desde sábado passado, 19, o blogue anuncia apenas o que está por vir):
22 (terça-feira), 19h, Odeon Sabor e Arte (Praia Grande): Seminário da Primeira Marcha das Vadias de São Luís, com entidades da sociedade civil organizada, órgãos públicos e pessoas interessadas em discutir a causa;
23 (quarta), 10h, Praça Deodoro: Intervenção artística e conscientização > 18h, Praia Grande: intervenção artística de conscientização no Tambor de Crioula de Mestre Amaral;
24 (quinta), horário e local a definir (o blogue avisará tão logo receba a informação): Mesa-redonda de conscientização da população e comunidade acadêmica sobre questões de gênero;
25 (sexta), 19h: Rota de arrecadação, divulgação e conscientização em bares e boates da cidade (circuito Praia Grande, Lagoa da Jansen, Av. Litorânea, Choperia Marcelo, Choperia Kabão etc.);
26 (sábado), 13h, Av. Litorânea: 1ª. Marcha das Vadias de São Luís: concentração no início da avenida, próximo ao bar Raízes, marcha até a Praça dos Pescadores, seguida de programação cultural.
Movimento internacional de mulheres criado em Toronto, no Canadá, a Marcha das Vadias já percorreu mais de 30 cidades em diversos países. A de São Luís ocorrerá simultaneamente às de Belo Horizonte, Brasília, Curitiba, Florianópolis, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo.
Maranhão tem 161 escolas com nome dos Sarney, mas 61% dos moradores não têm ensino básico
CHICO OTÁVIO
Nome de Roseana Sarney ainda não cobriu o de Paulo Freire em escola rebatizada, mas já está nos uniformes escolares
No ano em que foi declarado patrono da educação brasileira, Paulo Freire (1921-1997) ficou menor no Maranhão. Por decisão da Secretaria estadual de Educação, o nome do educador será apagado da fachada do prédio anexo de uma escola pública de Turu, bairro de São Luís. Em seu lugar, será pintado o novo nome da escola: Centro de Ensino Roseana Sarney Murad. Os uniformes dos alunos já foram mudados.
No Maranhão, o sobrenome Sarney já está em 161 escolas, mas a mudança em Turu não deve ser interpretada apenas como mais um sinal do culto à família de Roseana. Para a direção da escola, o importante é ter a certeza de que o nome da governadora pintado na fachada atrairá mais recursos e outros paparicos da administração central de um estado onde 61% das pessoas, com 10 anos de idade ou mais, não chegaram a completar a educação básica (de acordo com dados do Censo 2010). Isso é sarneísmo, movimento político liderado pelo senador José Sarney (PMDB), que comanda o Maranhão há quase cinco décadas.
— Sarney nem mora aqui. Seu controle só é ativado em momentos muito específicos — disse o professor Wagner Cabral, do Departamento de História da Universidade Federal do Maranhão (UFMA).
Sarneísmo, uma história de 47 anos
Reportagem publicada ontem no GLOBO revelou a existência de uma rede de falsas agências de turismo que fornece mão de obra barata, arregimentada no interior do Maranhão, para a lavoura de cana-de-açúcar e para a construção civil do Sudeste e do Centro-Oeste. Para os especialistas ouvidos pelo jornal, o fenômeno é resultado de uma perversa combinação de fatores, da má distribuição da terra à tragédia educacional no estado, todos fortemente associados ao sarneísmo.
Desde 1965, quando José Sarney (PMDB) assumiu o governo maranhense, o grupo do atual presidente do Senado venceu dez eleições para governador, chefiou o Executivo local por 41 anos e só perdeu o controle político do estado em duas ocasiões: quando o aliado e então governador José Reinaldo Tavares rompeu com o sarneísmo, em 2004, e dois anos depois, quando Jackson Lago (PDT) derrotou sua filha e herdeira política, Roseana, que concorria ao terceiro mandato de governadora. Mesmo assim, por pouco tempo: em 2009, Lago teve o mandato cassado por compra de votos.
O sarneísmo é um movimento diferente de outras correntes políticas, como o getulismo ou o brizolismo. Não se sustenta na adoração da figura do líder e nem tem uma base popular. Em lugares como Codó, Timbiras e Coroatá, cidades a 300 quilômetros de São Luís, que formam uma espécie de enclave do trabalhador barato no interior do estado, só se vê o nome Sarney em prédios públicos. Todavia, a cada abertura das urnas eleitorais, a família reafirma um poder que nem a estagnação econômica foi capaz de ameaçar.
— De um lado, Sarney é homem de ligação com o governo federal. Tem poder em Brasília por ser uma peça fundamental no jogo da governabilidade. De outro, mantém as prefeituras de pires na mão — sustenta Wagner Cabral.
— Ele fala por uma questão ideológica e política. Sarney proporcionou um salto de progresso no estado. Os fatos históricos são diferentes — rebate o jornalista Fernando César Mesquita, porta-voz de Sarney.
No Maranhão, a força do sarneísmo está na pequena política. Quando descobriu que a escola Paulo Freire, onde trabalha, seria rebatizada com o nome da governadora, a professora Marivânia Melo Moura começou a passar um abaixo-assinado para resistir à mudança. A retaliação não demorou:
— A direção ameaçou transferir-me — disse a professora, que mora no mesmo bairro da escola e vai de bicicleta ao trabalho.
A Secretaria de estado da Educação alega que o anexo da escola Paulo Freire mudou de nome porque foi incorporado à estrutura, já existente, do Centro de Ensino Roseana Sarney Murad, “devido à necessidade de uma estrutura organizacional, com regimento, gestão e caixa escolar próprios, no referido anexo”.
O Maranhão, onde quase 40% da população é rural, é uma espécie de campeão das estatísticas negativas. Enquanto o Brasil tem 28% de trabalhadores sem carteira assinada, o percentual no estado supera os 50%. Na relação dos 15 municípios brasileiros com as menores rendas, listados pelo IBGE, nada menos do que dez cidades são maranhenses. O chefe do escritório regional do Instituto, Marcelo Melo, acrescenta ainda que apenas 6% dos maranhenses estudam em cursos de graduação, mestrado e doutorado. Separados, os números já assustam. Se combinados, o efeito é devastador.
— O resultado desses índices de qualificação é uma mão de obra de baixa qualidade.
O professor Marcelo Sampaio Carneiro, do Centro de Ciências Sociais da UFMA, explicou que a estrutura do mercado de trabalho no Maranhão possui duas características principais. A primeira é a elevada participação do trabalho agrícola no conjunto das ocupações, com destaque para os postos de trabalho gerados pela agricultura familiar. Por conta de diversos fatores, ele disse que tem havido uma forte destruição de postos de trabalho nesse setor. De acordo com o Censo Agropecuário, em 1996 existiam 1.331.864 pessoas ocupadas no campo maranhense; em 2006 esse número baixou para 994.144 pessoas. Isso explica, por exemplo, o arco de palafitas miseráveis que cerca o centro histórico de São Luís.
A segunda é a inexistência de ramos industriais dinâmicos que consigam absorver essa oferta de mão de obra, já que a principal atividade industrial no Maranhão é o beneficiamento primário de produtos minerais, como a fabricação de alumínio e alumina pela Alumar e a produção de ferro-gusa por pequenas unidades fabris instaladas ao longo da Estrada de Ferro Carajás. Por esse motivo, o estado, que nos anos 50, 60 e 70 do século passado recebia migrantes, passou, a partir dos anos 1980, a exportar mão de obra. E nem mesmo a sistemática transferência de recursos, via programas sociais, foi suficiente para deter esse esvaziamento:
— A transferência de renda pode até livrar as famílias da fome, mas não é capaz de dinamizar a economia da região — disse Carneiro.
No Maranhão, agências são fachada para exportar operários para obras no Sudeste.
CHICO OTÁVIO
COROATÁ (MA) – Se não havia como vencer a miséria, o motorista Júnior Rachid, de 34 anos, decidiu valer-se dela para sobreviver. Há um ano, comprou um ônibus Scania 112, de 1990, e passou a fazer parte do único negócio que prospera em Coroatá, cidade maranhense a 276 quilômetros de São Luís: o transporte clandestino de trabalhadores para as regiões Sudeste e Centro-Oeste do país, onde o corte da cana de açúcar e a construção civil os espera. A cada viagem, Rachid leva cerca de 50 pessoas, a maioria homens jovens, que apostam na estrada como a única chance de escapar da vida miserável e sem esperança no interior do Maranhão.
— Levo iludidos e trago arrependidos — diz o motorista.
Ao contrário dos migrantes do passado, que fincavam raízes onde desembarcavam, os passageiros de Rachid cumprem jornadas de trabalho temporário e depois voltam. No Maranhão, a migração sazonal movimenta de 500 mil a 1 milhão de pessoas todo ano. Quem quiser conhecê-la, basta chegar cedo às rodoviárias de Coroatá e das cidades vizinhas de Codó e Timbiras, todas as sextas-feiras, e acompanhar as cenas de famílias humildes despedindo-se do filho que sobe no “ônibus de turismo”.
A região dos Cocais, onde fica Coroatá, entre os vales dos rios Itapecuru e Mearim, no centro do Maranhão, é uma espécie de enclave da mão de obra barata que abastece o país. Uma estrutura fundiária extremamente arcaica, caracterizada pela predominância da grande propriedade, pela agricultura de subsistência e pela produção de óleo de babaçu, processo artesanal que lembra o homem coletor da pré-história — somada à ausência de alternativas de trabalho urbano —, faz da população local presa fácil para a indústria do tráfico de pessoas. Muitos que embarcam mal sabem para onde estão indo:
— Estou esperando um companheiro. Se ele aparecer, vou para as bandas de lá. Não sei exatamente onde, mas sei que é São Paulo — comenta Edmilson Gomes, de 46 anos, enquanto aguarda o embarque em Codó.
Ao pegar a estrada, o ônibus de Edmilson passa em frente à Unidade de Ensino José Sarney, em Timbiras. Prédios como este servem muito mais para homenagear a família que, há quase cinco décadas, domina o Maranhão do que para oferecer às cidades dali condições de romper a estagnação econômica. De acordo com o Censo de 2010, do IBGE, 72,15% dos moradores de Codó, com dez anos ou mais, não têm instrução ou não completaram o ensino fundamental.
Para o professor Marcelo Sampaio Carneiro, do Centro de Ciências Humanas da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), a onipresença de Sarney nos Cocais vai além de um nome na porta de uma escola. As raízes da estagnação, sustenta Carneiro, teriam crescido nos anos 1960, quando José Sarney, então governador do estado, criou a Lei de Terras, a pretexto de modernizar o Maranhão, e introduziu na região os grandes latifúndios, financiados com recursos da Sudene, e os grileiros:
— Os proprietários usaram a terra para acessar os fartos incentivos fiscais, formaram pastagens de baixa qualidade e compraram gado apenas para justificar o uso desses recursos. Hoje, a pecuária nem sequer é expressiva na região. Não há nenhum argumento que justifique o monopólio da terra.
Sem outras alternativas, essas cidades tiraram da desesperança sua vocação econômica. Na década passada, gente como Beto do Codó, Antônio Grosso, Francinaldo e Suelen começaram a montar uma rede de agenciamento de mão de obra barata nos Cocais. Eles se apresentam como donos de agências de turismo, que estão por toda parte, mas normalmente os ônibus partem cheios e voltam vazios. Uma das agências, em Coroatá, chama-se Clandestur.
O destino do esquema inicial era São Paulo, com suas usinas produtoras de cana de açúcar, mas o crescente processo de mecanização dessa lavoura reduziu as “encomendas” e os obrigou a diversificar o negócio. Na semana passada, por exemplo, a agenciadora Suelen, uma paulista de Pradópolis que não forneceu o sobrenome, embarcou 40 trabalhadores para as obras do programa Minha Casa Minha Vida em Macaé, no norte fluminense. Ela disse que o contrato com o “encarregado da obras”, que identificou apenas como Luís, prevê o envio de um total de 300 homens.
Em Coroatá, segundo a Comissão Pastoral da Terra, mais da metade dos 60 mil moradores são favorecidos com algum tipo de benefício social, principalmente a aposentadoria rural e o programa Bolsa Família. Mas, para os jovens locais, a renda é insuficiente para dar conta de seus sonhos. O maior deles, diz o vereador petista Sebastião Araújo, o Ciba, é a compra de uma motocicleta, ambição de nove entre dez “passageiros” das agências de turismo dos Cocais.
— Eles chegam a trazer as motos de São Paulo no bagageiro do ônibus. Por isso, mesmo com todas as mazelas do emprego que os aguarda, eles sempre querem ir — diz Ciba.
Antônio Carlos Gomes Lobo, de 31 anos, é um deles. Analfabeto, casado, dois filhos, trabalha na roça de mandioca, arroz e milho no povoado Nogueira, área rural de Coroatá. Ele viajou duas vezes — em 2006, para Uberaba (MG), e em 2009, para Guaribas (SP). Só não voltou porque ainda não conseguiu os R$ 170 cobrados por uma passagem nos ônibus de turismo.
— Quando eu conseguia cortar 300 metros de cana por dia, chegava ao fim do mês ganhando R$ 1,2 mil. Aqui, não existe emprego que pague a mesma coisa —garante.
Francisco Gilson Gomes Guimarães, de 33 anos, também gostaria de voltar, mas não poderá mais. Em 2008, conseguiu comprar uma moto com o dinheiro que ganhou no corte de cana em São Paulo. Dois anos depois, acidentou-se em Coroatá. Uma perna ficou mais curta e ele perdeu qualquer esperança de renda.
O presidente do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos Humanos, Pe. Jean Marie Van-Damme, publicou Nota sobre a violência no Maranhão, em que comenta os recentes acontecimentos/homicídios no estado. A nota pode ser lida no site da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos, no blogue do Tribunal Popular do Judiciário ou ainda no blogue Outros Olhares, do advogado Igor Almeida.
Nove entidades da sociedade civil maranhense, entre as quais a SMDH e a Cáritas Brasileira Regional Maranhão, ambas com assessoria de comunicação deste blogueiro, publicaram nota convidando a Federação Nacional de Jornalistas (FENAJ) a conhecer o Maranhão e seu ambiente de barbárie.
A nota é fruto de uma polêmica gerada por declarações do jornalista Emílio Azevedo à Rede Brasil Atual, no calor dos recentes acontecimentos/homicídios nas últimas semanas no Maranhão, sobretudo a execução do jornalista Décio Sá. Um dos coordenadores do jornal mensal Vias de Fato, Azevedo se viu alvo de uma campanha covarde e raivosa, por parte de jornalistas que não se veem na barbárie citada por ele, a exemplo do que já havia acontecido com o advogado Luis Antonio Câmara Pedrosa, presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB/MA.
Ambos foram atacados diuturnamente por jornalistas ligados à Mirante/Sarney, que preferem se enxergar no mundinho cor-de-rosa, cor-de-roseana que nem o bárbaro, cruel e covarde assassinato de Décio Sá serviu para provar que não existe.