Da Europa à Ilha

O grupo Quartabê se apresenta pela primeira vez em São Luís hoje (24). O show acontece às 21h30, na Praça Nauro Machado (Praia Grande), na programação do Festival BR 135 Instrumental – a programação de hoje na praça tem início às 19h e por ela passarão ainda os maranhenses DJ Pedro Sobrinho e Black & Tal, o paraense Lucas Estrela, além do Instrumental Pixinguinha, às 17h, na Feira da Praia Grande. A programação completa pode ser acessada no site do festival.

 

O Quartabê estreou em disco em 2015, com o ótimo Lição #1 Moacir, dedicado ao repertório de Moacir Santos. Este ano lançaram o EP Depê, também dedicado ao repertório do genial maestro pernambucano, com participações especiais de Juçara Marçal, MC Sofia, Tulipa Ruiz, Tim Bernardes e Arrigo Barnabé.

 

Após uma baixa – a saída da contrabaixista Ana Karina Sebastião –, Joana Queiroz (saxofone tenor, clarinete, clarone e flauta), Maria Beraldo (clarinete, clarone e sax alto), Mariá Portugal (bateria) e Rafael Montorfano, o Chicão (teclados) acabaram de chegar de sua primeira turnê europeia. O agora quarteto passou por Alemanha, Áustria, Espanha, França e Portugal. Foram 10 apresentações em 22 dias.

“Rumamos para o Festival BR135, no Centro Histórico de São Luís do Maranhão! Primeira vez da banda no Estado! Estamos ansiosíssimos para chegar nessa cidade maravilhosa que é São Luís, num Festival lindão, DE GRAÇA, tão cheio de gente bacana tocando. Dia 24 (sexta)”, assim a banda anunciou sua chegada à ilha em um boletim distribuído por e-mail a seu fã clube.

Por e-mail a baterista Mariá Portugal conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.

O quarteto em foto de José de Holanda

Vocês estiveram recentemente em turnê pela Europa e gravaram um single na Alemanha. Como foi a receptividade do público? Este single aponta algum caminho para um novo disco?
Na verdade gravamos um single na Espanha junto com a banda Forastero, dentro do Projeto SON Estrella Galicia, depois de ter dividido o palco no El Sol, em Madrid. Já participaram deste projeto Anelis Assumpção e Tulipa Ruiz. Este single significou principalmente uma troca de vivência com a banda, o que é uma forma muito interessante de entrar no ambiente musical do lugar, bem mais profundo que apenas fazer um show e ir embora. Passamos um dia inteiro no estúdio e gravamos uma música deles, e eles uma nossa.

No primeiro disco vocês homenagearam Moacir Santos. O próximo disco seguirá a trilha das lições de um mestre? Quem será o homenageado?
Sim, já estamos preparando nossa Lição #2, que será novamente sobre um compositor brasileiro (que não podemos revelar por enquanto, mas quem for ao nosso show consegue adivinhar).

A Quartabê agora é um quarteto. Como é se adaptar à nova formação?
Sim, desde setembro somos um quarteto. Como agora não temos baixista, dividimos a função do baixo entre nós quatro – ora o Chicão faz o baixo com sintetizadores, ora Joana ou Maria no clarone com auxílio de pedais, ora eu faço no MPC. Estamos bem felizes com a sonoridade que conseguimos, que sai do formato tradicional de quinteto de jazz que tínhamos com a Ana Karina Sebastião. Creio que essa mudança abriu uma série de possibilidades estéticas bem interessantes, e que com certeza refletirão no Lição #2.

A ida de Joana para uma residência artística na Argentina ano que vem pode vir a modificar novamente a formação do grupo? Ou ainda não se pensa efetivamente nisso?
A residência da Jojô será de apenas duas semanas, mas a verdade é que já estamos acostumadas com o fato de nós quatro sermos muito ativas profissionalmente e termos projetos paralelos. Isso é uma das coisas que fazem com que a Quartabê seja a banda que é. Todos nós estamos bem empolgadas com as conquistas dos últimos tempos e a fim de fazer acontecer. Ao que tudo indica, 2018 será um ótimo ano para a Quartabê.

Vocês tocam pela primeira vez em São Luís. Quais as expectativas? Musicalmente, o que vem à sua cabeça ao ouvir falar no Maranhão?
Estamos super empolgadas! Sabemos da riqueza musical maranhense e que tem muita gente esperando pela Quartabê por lá. Musicalmente nos vêm muitos nomes como os de Mestre Antonio Vieira, Dona Teté, Papete, a geração de Zeca Baleiro e Rita Benneditto, todo o mundo do Boi e do Tambor de Croula, toda a cena de reggae maranhense, Tião Carvalho, Lopes Bogéa… tantos outros. Pessoalmente, tenho uma história antiga com São Luís. Quando tinha por volta de 17 anos me hospedei junto com minha mãe na casa do percussionista Arlindo Carvalho. Aprendi muita coisa com ele e conheci vários outros músicos incríveis. Foi uma experiência inesquecível e transformadora.

E para além de musicalmente?
Arroz de cuxá, camarão seco com farinha d’água do Mercado Central e Guaraná Jesus!

Qual a base do repertório que vocês estão preparando para tocar aqui?
Será uma mistura dos nossos dois discos, Lição #1: Moacir e Depê (ambos dedicados à obra de Moacir Santos), com uma palhinha do Lição #2.

Você e Maria gravarão no próximo disco de Elza Soares. Para você, qual o significado de estar no sucessor de A mulher do fim do mundo?
Sem dúvida é um privilégio imenso. Nos dá a sensação de que estamos fazendo parte de um momento histórico. Só temos a agradecer.

Ceumar faz show na Ponta do Bonfim

Projeto terá ainda apresentações da DJ Vanessa Serra e dos cantores Fernando de Carvalho e Mano Borges. A cantora mineira conversou com exclusividade com o blogue

Foto: divulgação

“É sempre uma alegria voltar pro Maranhão”, revela Ceumar em conversa exclusiva com Homem de vícios antigos. A cantora mineira se apresenta novamente em São Luís neste sábado (4), no projeto Ponta do Bonfim – Amizade, Música e Por do Sol, iniciativa de um grupo de amigos que se reúne e viabiliza a vinda de artistas que lhes interessam, em clima de confraria, que já chega a sua sexta edição. O evento acontece em uma casa na localidade que dá nome ao evento, os ingressos são limitados e o fundo de palco são o mar e a cidade de São Luís vista do outro lado. Pelo palco do projeto já passaram nomes como Cida Moreira, Danilo Caymmi, Paulinho Pedra Azul e Renato Braz, entre muitos outros.

“Lembro muito bem da primeira vez que eu fui [ao Maranhão]. Fui muito bem recebida, um carinho tão grande de todo mundo, com certeza por causa de Zeca [Baleiro, cantor e compositor que produziu Dindinha, álbum de estreia dela, de 2000], de Josias [Sobrinho, compositor de quem gravou As ‘perigosa’ e Rosa Maria em Dindinha], de Rita [Benneditto, cantora], que foi minha parceira de apartamento em São Paulo. Eu tinha uma curiosidade muito grande em conhecer a energia aí do Maranhão. E vocês todos, Gilberto [Mineiro, radialista, já produziu shows de Ceumar em São Luís], você, sempre gente muito querida, com paixão mesmo, fazendo tudo com paixão. A experiência o ano passado foi incrível, no festival de jazz [Ceumar se apresentou no 3º. São José de Ribamar Jazz e Blues Festival], achei muito massa participar com meu sobrinho [o contrabaixista Daniel Coelho], e este ano eu percebi mesmo o empenho dessas pessoas para que eu pudesse ir participar desse projeto”, relembra Ceumar.

Pergunto-lhe se iniciativas como a deste grupo de amigos podem ser uma alternativa, num momento de sucessivos golpes à cultura brasileira. “Acredito que é um caminho muito possível e necessário nesse momento em que os projetos estão cada vez mais escassos, que as pessoas que gostam de música, são apaixonadas e que possam contribuir, como mecenato, acho muito válido, é uma saída bastante importante para nós nesse momento”.

Em uma tarde que terá ainda apresentações da DJ Vanessa Serra – que começa a tocar seus vinis às 14h30 – e dos cantores Fernando de Carvalho e Mano Borges, Ceumar subirá ao palco da Ponta do Bonfim com seu violão, para um show intimista. Ela adianta: “Já vou soprar que vou ter um convidado especial, meu amigo Luiz Cláudio [percussionista] se prontificou a ir lá tocar algumas coisas comigo. Ele é muito importante pra minha história, trouxe muitas sonoridades incríveis pro Dindinha, o primeiro disco, Luiz Claudio chegou cheio de Maranhão na linguagem e foi muito rico, assim. Luiz vai dar uma canja. Eu quero mostrar um repertório variado, não vou fazer o show do cd novo, o Silencia [de 2014], vou passear um pouquinho pelos outros álbuns”.

Insisto no momento conturbado que o país atravessa. Ela responde com a elegância habitual. “Eu voltei da Holanda já faz quase dois anos, muito por que eu me sinto mais útil aqui no meu país, principalmente agora, num momento tão caótico. O que minha música traz, o que eu tento trazer através dela é o lugar da emoção, do contato direto com as emoções mais profundas de cada ser. Não sei se eu consigo fazer da melhor maneira, mas é o meu intuito, que as pessoas despertem para o que elas têm de melhor e através desse bem maior, assim, a gente possa, cada um possa fazer o seu papel. Acho que é essa a minha função dentro da minha música, dentro do meu país, trazer um pouco de humanidade e de alento também, para que a gente tenha força para lutar quando for necessário, se juntar e lutar pelo que a gente merece, como povo, como país, com essa riqueza toda. Eu sei que não é fácil, sou apenas uma mera cantadeira, mas acredito que o afeto ele segura muita coisa e não quero que pareça pretensioso, mas o povo brasileiro é muito afetivo, a gente não pode perder essa força que a gente tem no abraço, no sorriso, para que a gente tenha um futuro mais organizado pros nossos filhos, pras nossas famílias e essas crianças que vão vir por aí”.

Pergunta sempre inevitável: e o disco novo? “Ano que vem tem disco novo, já estou começando os trabalhos, escolha de repertório, composições novas, uma nova sonoridade também que eu estou buscando, o processo natural. Eu sou uma mineira bem [risos] caipira, faço tudo no meu tempo e assim vou indo. Mas tem um projeto para 2018 e vamos lá!”.

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Ouça Ceumar em Rosa Maria (Josias Sobrinho), com a participação especial de Itamar Assumpção fazendo a “voz de preto velho” na introdução:

Sobras completas

Conversei com a cantora e flautista carioca Alice Passos e o violonista paulista João Camarero por whatsapp. Fiz três perguntas a cada um, para usar no release de divulgação do projeto RicoChoro ComVida na Praça, de que sou assessor de comunicação, que os traz à Ilha para uma roda de conversa sexta-feira (27) e uma apresentação sábado (28), em noite que terá ainda o DJ Franklin e o Trítono, na ocasião um quarteto: com o violonista Israel Dantas viajando, além dos integrantes da formação original Rui Mário (sanfona) e Robertinho Chinês (bandolim e cavaquinho), a estes somam-se Mauro Sérgio (contrabaixo) e Ronald Nascimento (bateria). Veja a programação completa aqui.

Alice é filha da cavaquinhista maranhense Ignez Perdigão e lançou seu disco de estreia, Voz e violões [Fina Flor, 2016], ano passado, em diálogo com grandes mestres, entre compositores e instrumentistas, num time que inclui Aldir Blanc, Guinga, Mário Gil, Paulo César Pinheiro, Théo de Barros e Zé Paulo Becker, além do jovem e talentoso João Camarero, que chega à São Luís com a responsabilidade de representar esta constelação.

Para não perder nada, resolvi colar a seguir as duas nanoentrevistas.

João Camarero e Alice Passos. Foto: divulgação

ALICE PASSOS

Você já participou do projeto, antes de ele ser gratuito e ganhar as praças. Qual a sua lembrança e quais as expectativas para esta nova participação?
Sim! Lembro de ser muito bem recebida, tanto pelos músicos, pela produção e pelo público. Cantar em praça é uma delícia. É um desafio fazer a maioria de show de voz e violão – no final teremos a participação do Trítono – mas vamos com muita vontade de levar a música do Rio de Janeiro, fazer uma homenagem ao [violonista e compositor] Baden Powell, que estaria fazendo 80 anos este ano.

Você vem acompanhada por João Camarero, um bom representante desta nova safra de violonistas. Como começou essa parceria?
Conheci o João em São Paulo, começamos tocando juntos sem pretensão e logo estávamos fazendo diversos shows no Rio e fora dele. Temos o gosto musical muito parecido e por isso a parceria flui super bem!

Qual a base do repertório da apresentação de vocês?
Vamos fazer uma homenagem aos 80 anos do Baden Powell, incluímos músicas do João Camarero em parceria com o Paulo César Pinheiro e alguns clássicos da música brasileira, como A voz do morro, de Zé Keti.

JOÃO ​CAMARERO

É sua primeira vez em São Luís? Quais as expectativas?
É a minha primeira vez, sim. ​​As expectativas são as melhores possíveis. Há tempos que quero conhecer São Luís e os músicos do Maranhão e tenho certeza que essa oportunidade vai me proporcionar grandes encontros.

Você participou do disco de estreia da Alice Passos, ao lado de grandes mestres do instrumento. Qual a sensação e o tamanho da responsabilidade, inclusive de vir à ilha representando aquele grupo?
​​Pra mim é uma responsabilidade grande, mesmo. Porém, como eu e Alice já desenvolvemos um trabalho juntos há algum tempo, isso deixa com que as coisas possam fluir com mais naturalidade. De qualquer maneira, gosto de encarar essa experiência de ler a música de outros violonistas sob a ótica deles.

São Luís tem ao menos três nomes de destaque internacional em se tratando de violão: Turibio Santos, João Pedro Borges e Joaquim Santos. Qual a sua relação com a obra deles?
O Maranhão é uma terra pródiga em artistas; não seria diferente com o violão. Joaquim Santos e o João Pedro Borges eu conheci através da Camerata Carioca. O grande Turíbio Santos é um caminho quase que obrigatório pra qualquer violonista brasileiro. Todo mundo acaba passando por ali em algum momento. Tive o prazer de conhecê-lo pessoalmente há pouco tempo, e tocamos um pouco juntos. Sou um grande admirador do seu legado.

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Veja Alice Passos e João Camarero em Poema dos olhos da amada (Baden Powell/ Vinicius de Moraes):

Cinema, amor, sonhos e revoluções

Manuel Bernardino: o Lenin da Matta. Cartaz. Reprodução

 

Enquanto mais um golpe se consuma no Brasil, a equipe da cineasta Rose Panet acabou apelidada de Liga de Defesa contra o golpe, por um de seus membros, em alusão ao grupo liderado por seu protagonista, Manuel Bernardino, no início do século passado, na região do hoje município de Dom Pedro, interior do Estado.

Um personagem inusitado, Manuel Bernardino veio do Ceará para o Maranhão em busca de oportunidades de trabalho e acabou se configurando uma destacada liderança: camponês, socialista, espírita e vegetariano.

Apesar do pouco estudo, Manuel era alfabetizado e lia o que lhe caísse às mãos. Assim tornou-se este cruzamento de referências, raro até mesmo para os dias de hoje, em que mais Bernardinos se fazem necessários.

Manuel Bernardino: o Lenin da Matta é um telefilme de 52 minutos, selecionado em edital público do Programa de Desenvolvimento do Audiovisual Brasileiro (Prodav), do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) da Agência Nacional do Cinema (Ancine), vinculada ao Ministério da Cultura (MinC). Por uma feliz coincidência o filme foi lançado este ano, quando se comemora o centenário da Revolução Russa.

O filme mescla documentário e seu próprio making of e foi o único selecionado em sua categoria – ao todo foram premiadas 94 obras –, entre as mais de 700 obras inscritas no certame, oriundo da região Nordeste e dirigido por uma mulher. Manuel Bernardino: o Lenin da Matta está sendo exibido desde julho pela TV Universitária de Pernambuco e deve estrear em breve na TV UFMA, além de em outras emissoras públicas do Brasil.

Rose Panet é doutora em antropologia pela École Pratique des Hautes Études (Paris), em cotutela com a UFMA, professora da Faculdade de Arquitetura da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA) e cineasta, com mais de uma dezena de filmes no currículo, alguns institucionais, realizados quando de sua passagem pela Secretaria de Estado da Educação.

O documentário sobre o líder que arregimentou cerca de 200 homens para a Coluna Prestes quando de sua passagem pelo Maranhão, talvez seu maior contingente, foi narrado por Zeca Baleiro, tendo o roteiro sido construído sobre o depoimento que ele prestou em 1921 em uma delegacia de polícia em São Luís – jornais da capital alcunharam-lhe “o Lenin da Matta”.

Sua ficha técnica completa-se com nomes como os irmãos Santos, Murilo, diretor de fotografia, e Joaquim, autor de parte da trilha sonora original – completada por compositores russos e canadenses. A produção é da Lume Filmes e Rose Panet assina pesquisa, roteiro e direção.

Ela conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos – a entrevista já havia rendido este texto pro site do Itaú Cultural, onde assino mensalmente a coluna Emaranhado. Manuel Bernardino: o Lenin da Matta terá nova exibição pública e gratuita na próxima segunda-feira (16), às 19h, no Auditório da Faculdade de Arquitetura da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA, Rua da Estrela, 475, Praia Grande), instituição da qual ela integra o corpo docente, ministrando as disciplinas Metodologia científica, Estudos socioambientais, Cidade, indivíduo e sociedade e Antropologia urbana e coordenando grupos de pesquisa. A sessão tem apoio cultural da Secretaria de Estado da Cultura e Turismo do Maranhão (Sectur). O filme volta a ser exibido gratuitamente dia 6 de novembro, às 17h30, no Cine Praia Grande, na programação do Simpósio de Lutas Sociais, organizado pelo Grupo de Estudos de Política, Lutas Sociais e Ideologia (Gepolis) da UFMA.

A cineasta Rose Panet. Foto: Zema Ribeiro

Quais as etapas até o filme Manuel Bernardino?
Foram 94 obras aprovadas no Prodav 2014. Eu inscrevi o projeto no começo de 2015, em agosto de 2015 saiu o resultado, em fevereiro de 2016 saiu o dinheiro, aí eu intensifiquei a pesquisa, comecei a pré-produção e a filmagem foi em abril.

O que o Prodav banca? Desde a ideia, roteiro, ou só filmagem?
Ele banca a produção, não é separado. Se fosse separado seria muito pouco o valor destinado para roteiro. Ele banca o filme, você tem que fazer seu orçamento. Inclusive o orçamento é um item do edital, você coloca já a sua proposta e coloca o orçamento junto.

É uma proposta do cineasta? Não é um valor fechado, tipo, tem cem mil pra você fazer um filme, por exemplo?
Não, pra cada modalidade tinha [uma faixa de valor]. O meu era um filme isolado, então tinha um valor certo, um valor fechado, a gente tinha que fazer o filme com aquele valor.

Página do catálogo da Ancine dedicada ao filme de Rose Panet. Reprodução

Quanto era?
Foram 156 mil para um filme de 52 minutos. Foram 768 propostas, isso está no catálogo, essa informação, eles botaram que consideraram desde a criação do Prodav um recorde de inscrições. Dessas, 94 foram aprovadas. Nós temos para 2017 o lançamento de 94 obras novas. Dessas 94, muitas são animações, filmes para crianças, muitas são também séries. O meu está junto com mais 10 filmes, é um filme único de 52 minutos. O meu é o único do Nordeste nessa modalidade, de filmes de 52 minutos.

Eu queria voltar pro começo: quem é Rose Panet?
[risos] Até eu quero saber. Eu sou uma metamorfose ambulante. Não sei, eu sou alguém às vezes muito empolgada, noutras vezes muito desanimada, quase sempre muito empolgada.

É importante a balança pesar mais para este lado. Quem faz cinema é chamado de realizador. A pessoa precisa de empolgação para realizar.
Sabe, falando isso eu estou me tocando que eu acho que desde criança eu sempre fui muito empreendedora. Quando eu era criança, acho que com uns 10 anos, eu achei que na minha rua faltavam alguns itens, então eu juntei as crianças da rua, isso não precisa colocar não [risos], é só por que eu lembrei, aí eu coloquei papéis para todas as crianças.

Tinha uma liderança.
É. Então eu assumi o papel de professora, eu gostava de ensinar, de tirar dúvida de todas as crianças da rua. Eu transformei o terraço da casa de mamãe em escola, botei as cadeiras assim, pedi para mamãe comprar um quadro. Eu me dei os papéis de professora e médica, eu andava com uma caixinha com mertiolate, e eu dizia pra eles que se alguém estivesse brincando e se machucasse, tinha que me chamar, que aí eu botava curativo, passava mertiolate, era muito legal. Eu inventei espetáculos lá em casa, de fantoches. Eu acho que eu nunca tinha percebido assim esse empreendedorismo desde criança. Quando eu tinha 18, 17 anos, eu comecei a fotografar, e comecei a lutar, batalhar pelas exposições. Então, na cara de pau, eu ia conversar com empresários para conseguir dinheiro para minhas exposições de fotografia, e conseguia. Então com 20 anos em João Pessoa eu era bem conhecida, por que eu já tinha dado entrevista em jornal, nesses programinhas de tevê, já tinha sido chamada para rádio, para dar entrevista, até que com 21 anos eu me formei em Ciências Jurídicas e Sociais e saí de João Pessoa. João Pessoa ficou pequena pra mim, aí eu fui pra São Paulo. Lá em São Paulo eu passei num concurso e fiquei trabalhando junto com um juiz de direito. Passei dois anos em São Paulo, São Paulo ficou pequena pra mim. Lá em São Paulo eu continuei fotografando, mas não fiz nenhuma exposição, eu me envolvi muito com o trabalho, era cansativo, até que eu enchi o saco e larguei.

A fotografia tinha começado, talvez não profissionalmente, mas tinha uma busca tua, empreendedora, por patrocínio para tuas exposições, lá em João Pessoa. Ela volta em São Paulo a ser um hobby?
Sim, como amadorismo mesmo, não pensei em partir para outro campo profissional, acho que meio que esqueci isso. A cidade grande, os encantos de São Paulo me fizeram esquecer isso. Eu ia muito pro cinema, é praticamente a minha casa, que ficava no Paraíso, eu caminhava todos os finais de semana pela Paulista para assistir filmes nos grandes cinemas ali, no Cine Belas Artes, na época, eu passava os fins de semana assistindo cinema. Então a minha paixão por cinema, que eu já tinha, só foi aumentando em São Paulo. Mas era só a paixão de assistir, a paixão do cinéfilo. Aí São Paulo, depois de dois anos e pouco, ficou pequena pra mim, novamente, eu fui pra Paris. Eu fui pra minhas origens, eu sou francesa de pai, fui pra França, e lá comecei a estudar antropologia. Aí fiz a carreira acadêmica, fiz a especialização, depois fiz mestrado, entre um e outro vim pra São Luís para fazer a pesquisa de campo com os índios Kanela. Eu voltei pra França ainda, comecei o mestrado. Aí eu engravidei de Tamie [sua primeira filha], fui grávida pra aldeia, mas não voltei pra França. Só voltei quando Tamie tinha três anos. E nisso eu já tinha trazido uma câmera Hi8 da França, quando eu fui pra aldeia eu já cheguei depois de um tempo de familiaridade com os Kanela, comecei a filmar. Dessas imagens eu fiz dois filmes que foram para o Guarnicê [o Festival Guarnicê de Cinema] quando eu morava aqui, na época, acho que em 2000, 2001, esses meus dois filmes participaram.

Quais são os títulos?
Um é O choro da vida e o outro é O mocó de Quelé. Quelé é avô na língua dos Kanela. Quando minha filha completou três anos, durante esse tempo era praticamente ela na minha vida, eu cuidava dela.

Quando você voltou para a França foi para defender a dissertação?
Não, eu larguei. Eu comecei outro [mestrado], em outra universidade. Eu abandonei.

E foi onde?
O mestrado foi na École des Hautes Études en Sciences Sociales, eu fiz o mestrado lá e ia me inscrever no doutorado, só que aí engravidei pela segunda vez, de Luc, o caçula, passei um ano em casa com ele, curtindo, amamentando, e lendo bastante, estudando, preparando o doutorado. Aí entrei no doutorado, também na França, desta vez na École Pratique des Hautes Études, defendi o doutorado em cotutela [com a UFMA], por que em 2007 nós voltamos, eu vim em 2005 fazer outro trabalho de campo, outra pesquisa com os Kanela, desta vez eu acho que só fotografei, acho que não filmei dessa vez, fiz muitas fotos, ao todo mais de três mil fotos, fiz muitas exposições, eu abri a Casa de Nhozinho, com uma exposição minha. Lá na França eu fiz uma grande exposição, foi muita gente, foi superbacana, ficou muito bonita, tinha objetos indígenas que eu tinha levado daqui, eu coloquei na frente das fotos, eu fiz uma montagem, ficou linda, aí a gente voltou, eu tinha assinado um acordo de cotutela de tese, que me permitia defender a tese aqui. Eu me inscrevi em 2007 e em 2010 eu defendi essa tese. Na época eu trabalhava na Secretaria de Educação [do Estado], apareceu a oportunidade de produzir, fazer e dirigir filmes educativos indígenas, para as escolas indígenas, eu realizei 14 filmes indígenas, muitos com imagens minhas e outros com imagens dos cinegrafistas, eu dizia o que era para filmar, depois eu montava, com um montador.

Cemitério do povoado Centro dos Bernardinos. Cena de Manuel Bernardino: o Lenin da Matta. Frame. Reprodução

Esses filmes são autorais ou institucionais? Eles constam em teu currículo como direção?
Sim. Mas são mais institucionais, tipo, eu já distribuí para muitas pessoas, mas eles não estão no youtube, eu nunca exibi esses filmes em festivais, nem nada. Isso foi só um exercício voltado mais para escolas indígenas. Nunca pensei em mostrá-los, em exibi-los, a não ser em sala de aula, em alguns eventos especiais, nunca fiz exibições, nem participaram de nenhum festival. Em 2013 eu era antropóloga de inventários e referência cultural, eu fiz um inventário da Petrobras e fui chamada para fazer o inventário de Codó, por que cada vez que aparece uma grande empresa que quer se instalar num determinado local é necessário fazer um estudo de referências culturais, é uma exigência do Iphan [o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional]. Na Petrobras foi por conta da refinaria Premium, que iria se instalar aqui, eu fui chamada para coordenar o Inventário Nacional de Referências Culturais, fiz, a gente publicou um livrinho, mas eu não mexi com cinema, com fotografia, com nada. A gente contratou [o fotógrafo] Márcio Vasconcelos, ele fez as fotos, dois anos depois eu fui chamada para fazer o [inventário] de Codó. Aí nesse de Codó eu viajei e nessa viagem eu conheci a história do Manuel Bernardino, entre outras, trouxe várias histórias curiosas. Mas a história de Manuel Bernardino me chamou a atenção, em particular, por que está associada ao cemitério, que é o Cemitério dos Afuzilados, que eu conheci separadamente, mas depois uma pessoa fez a junção, “ah, mas ele tem ligação com o Cemitério dos Afuzilados por que no Cemitério dos Afuzilados é onde estão enterrados os homens da Liga de Defesa, que eram liderados pelo Manuel Bernardino”. Aí quando eu chego em São Luís, eu vou procurar saber quem é esse Manuel Bernardino. Aí eu fui pesquisar.

Quer dizer que Manuel Bernardino chegou por acaso?
Foi. Exatamente. Falei sobre ele pra Murilo [Santos, cineasta, diretor de fotografia de Manuel Bernardino: o Lenin da Matta], eu lembro a noite que eu liguei pra Murilo, a gente passou umas duas horas ao telefone. Ele incentivou, “essa história é muito boa, escreve o projeto”, aí ele: “vamos marcar com o Maurício Escobar, que é o produtor da Lume, tem que apresentar esse projeto, é muito bacana, eu quero fazer a direção de fotografia”. Eu disse, “Murilo, no meu filme tu vai fazer o que tu quiser”. Até que a gente se encontrou com Maurício, ele ficou super empolgado, achou ótimo o projeto, fez alguns retoques, tipo, “Rose, melhora o perfil desse personagem, reescreve isso aqui”, não sei o quê, uma coisinha ou outra, tem um detalhe também muito bonito no projeto, que eu gosto muito de lembrar: ele foi inteiramente corrigido à mão por Nauro Machado [falecido poeta, pai de Frederico Machado, proprietário da Lume Filmes]. Isso é uma relíquia. Todo corrigidinho, o português.

Ah, a revisão gramatical, ortográfica.
Também. Aí Fred recebia e dizia “tem isso pra corrigir”. Ele frequentava muito, ia na Backbeat [locadora de dvds também de propriedade de Frederico Machado], na produtora, e Fred passava coisas para ele fazer. Entre essas coisas, correção de textos, então Nauro corrigiu meu projeto. Daí a gente submeteu nessas datas que eu te falei, eu sempre muito ansiosa, ligando pra Maurício, mandando mensagem, “já submeteu?” E ele: “Rose, eu ainda tou muito ocupado”. Bom, a gente entregou o projeto, enviamos no último dia, coisa que eu normalmente não gosto de fazer, sou bem precavida, mas deu tudo certo. Daí eu comecei a acender vela. Entre a entrega do projeto e o resultado eu fui apresentar dois trabalhos acadêmicos, dois textos em um evento de antropologia em Portugal, em Lisboa, aí fui em Nossa Senhora de Fátima, acendi uma vela e pedi por Manuel Bernardino, que o projeto fosse aprovado. Nesse momento acho que eu senti, eu acreditei tanto que eu senti um calor, e saí de lá com uma sensação, vai ser aprovado. Só que a gente não tem assim a certeza. Até que quando foi em agosto, não tenho a data exata, Fred entrou em contato comigo, pra me dizer, primeiro Maurício mandou uma mensagem pelo facebook, “parabéns, nosso projeto foi aprovado”. Foi muito bom, a alegria, não esqueço, eu ria e chorava, e as lágrimas caíam, eu gargalhava, “eu não acredito!”. Eu gargalhava, não tinha ninguém nesse momento lá em casa, precisava falar pra minha filha, mas eu tinha que buscar minha filha, eu disse vou falar pra Tamie, Tamie vai ser a primeira pessoa a saber. Aí eu fui buscá-la na escola, falei pra ela, “filha!”, eu dirigindo, com ela do lado, ria e chorava, gargalhava e chorava. Aí depois isso vai apaziguando, você vai pensando, “pronto, agora o problema está criado” [risos]. Vamos nos concentrar, trabalhar, fazer a pesquisa, intensificar, intensificar o roteiro, o projeto precisava só entregar uma estrutura de roteiro. Aí as coisas foram caminhando, o dinheiro saiu nesse período que eu te contei, a gente começou a pré-produção lá no local, em Dom Pedro, no começo de abril. Aí eu fiz contato com dois historiadores, um é de dom Pedro, o outro eu não tenho certeza por que eu nunca encontrei [pessoalmente]. Mas através de amigos eu cheguei a dois trabalhos, uma monografia de graduação e uma dissertação de mestrado. Da dissertação eu consegui o contato com o autor, o Giniomar [Almeida], ele participa do filme, está nos créditos como historiador. Imediatamente ficou super empolgado, ele também gosta muito dessa história, contribuiu bastante. Lá, durante a filmagem a equipe foi super profissional, Murilo foi super importante, era um dos mais maduros em todos os sentidos, ele tirava nossos medos. Por exemplo, tem uma cena no filme em que a gente vai filmar no Cemitério dos Afuzilados e o cemitério está totalmente alagado, com plantas aquáticas. Eu sou uma pessoa que geralmente não tem medo de muita coisa, não, eu sou muito corajosa, eu tenho medo às vezes de estreia de filme, essas coisas, prova de matemática, mas eu tou livre, já não preciso mais fazer, mas assim, cobra, eu não tenho medo não. Eu teria entrado sem problema, mas minha preocupação era a equipe. Mas como Murilo foi na frente, eu fiquei [pensando], “Manuel Bernardino não envia nenhuma cobra aquática para morder minha equipe”. Aí foi outro, depois outro, eu fui, quando eu vi a equipe inteira estava no meio do cemitério, com água no meio da coxa, todo mundo com a perna na água e misturado com aquelas plantas aquáticas, ninguém se queixando de medo, todo mundo preocupado em captar imagens de seu Cícero, que era quem tava dando depoimento naquele momento. Aí foi dando tudo certo, um dia mais emocionante que o outro. Aí viemos em São Luís, fizemos a parte de São Luís, as entrevistas de São Luís.

Você passou num concurso em São Paulo para o Tribunal de Justiça. Depois abandonou? Como é isso? Você é uma mulher de guinadas, destemida?
Depois que a gente tem filho a gente muda, você sabe disso. Hoje eu não diria. Se bem que de vez em quando eu me pego sendo aquela Rose. Eu acho bem mais divertido, leva três a cinco horas para chegar na cidade [voltando da aldeia], passando por dentro de brejo, mato, mais divertido ir atrás, com os índios, do que ir na boleia com o ar-condicionado. Eu ia em pé no caminhão, eu já era mãe. De vez em quando eu me pego sendo essa Rose destemida, um pouco inconsequente.

Essa guinada do Tribunal de Justiça de São Paulo, você já tinha algo em vista?
Nada em vista. Eu tinha vontade de mudar, só.

Você falou duas vezes, primeiro João Pessoa ficou pequena, depois São Paulo ficou pequena e você foi para Paris. São Luís vai ficar pequena?
Se não fosse a necessidade de trabalhar e ganhar dinheiro, com certeza eu já teria voltado pra França, ou ido pra outros lugares. Além de agora eu ser mãe de dois filhos, minha filha é universitária, faz a [Universidade] Federal do Rio de Janeiro, Unirio, faz Artes Cênicas, tem 17 anos, mora só, sempre foi muito corajosa, muito determinada, e Luc tem 13 anos. São duas pessoas bem diferentes, ele é mais na dele, mais tranquilão. Ele também já disse que não quer ficar em São Luís, quer estudar fora, talvez em São Paulo, talvez no Rio.

O próprio ofício do antropólogo tem muito disso, ou talvez isto seja um mito, não sei, mas muito essa coisa do desbravar, descobrir coisas novas, parece que exige uma vontade constante de mudar de cenário.
Isso é um mito real, repercute de fato, você tem razão. Só que a antropologia nem sempre é pra desbravar, você pode fazer antropologia no espaço urbano. Mas a origem da antropologia, você tem razão, existem várias histórias, várias anedotas a respeito na história da antropologia. Existem também questionamentos sobre o ingresso e o papel do antropólogo, até que ponto nós fomos responsáveis por massacres, descobrir populações que estavam protegidas e com nossa intervenção, com nossa pesquisa, a gente revela essas populações, revela a riqueza em torno das quais, no espaço da população, e essa revelação acabou sendo, para algumas populações, negativa para elas. Tem muito questionamento negativo sobre a origem da antropologia, sobre o papel da antropologia, que não são muito dignificantes.

Fora Manuel Bernardino, aqueles dois com que você participou de edições do Guarnicê, e aqueles 14 institucionais, tem mais filmes no currículo?
Tem. Mas eu na equipe. Não como diretora. Participando como assistência. Aqui no Guarnicê tem o Angústia, de Fred, que nós fizemos.

Vamos falar um pouco de método.
Primeiro eu assisto todas as cenas, tudo o que foi filmado. Eu tenho um conceito, gosto de criar conceitos norteadores.

Para um filme como Manuel Bernardino, que ficou com 52 minutos, você filmou quantas horas?
Nós tínhamos mais de 20 horas. Na verdade até mais. 20 horas feitas por duas câmeras, então o dobro, 40 horas.

O cinema de ficção é diferente do cinema de documentário?
Eu não vejo muita diferença. Eu me incomodo muito com essa separação, ficção/documentário. Todo filme é um filme, é uma produção. Ou é um documentário no sentido de gravar uma realidade, um contexto, registrar um momento, seja ficcional ou as pessoas representando seus próprios papéis. Quem está no documentário sabe que está sendo gravado e quem tá gravando tem também algum conceito norteador e tem virtualidades que ele vai percorrendo. No caso do Manuel eu criei esses conceitos a partir dos fluidos corporais, depois que eu estudei a vida do Manuel Bernardino, eu percebi que a história dele começa com um cara trabalhador, que sai viajando por vários lugares em busca de roça, em busca de cálcio. Depois ele se torna um líder, depois um vegetariano e espírita. Aí eu associei aos fluidos corporais, suor, sangue e lágrimas, que são as três partes do filme.

Você chega a Manuel Bernardino por acaso. E as fontes para você preparar o roteiro, a pesquisa desse filme? Fáceis, difíceis, abundantes, restritas?
Para um filme eu achei relativamente fácil. Eu encontrei fontes documentais.

Tem um recorte que aparece na filmagem, um jornal, um cara folheando na biblioteca.
Eu fui a esse jornal depois das pesquisas, lendo a monografia e a dissertação. Me levaram aquele jornal, mas junto com essas leituras eu li um livro de Maria das Graças [Saraiva Barroso], A passagem da Coluna Prestes pelo Alto Itapecuru, sobre a Coluna Prestes, tem alguns trechos falando sobre Manuel Bernardino, um líder importante, arregimentou mais de 200 homens para a Coluna Prestes, esse contingente foi o maior da história da Coluna Prestes, por isso que eu fui entrevistar Anita Leocádia [Prestes, historiadora, professora aposentada do Departamento de História da UFRJ, filha de Luís Carlos Prestes e Olga Benário Prestes], ela conhecia o Manuel Bernardino, é sobre isso que ela vai falar. Eu li um livro geral sobre Codó, esse livro também fala sobre Manuel Bernardino. Eu não sei se eu reli Lenin ou Leon Tolstói, que casualmente, talvez por uma feliz coincidência, quando eu era adolescente, eu fazia um curso e frequentava uma turma de pensadores marxistas-leninistas com o presidente do PCdoB da Paraíba, que era o Aurélio Aquino, ainda tá vivo, conheceu o Prestes. Uma vez a gente estava na casa dele reunido, falando sobre Lenin, marxismo-leninismo, e era aniversário de Prestes, e ele ligou pra Prestes na frente da gente, enquanto a gente aguardava a hora da reunião, e parabenizou o Prestes. Ou Alan Kardec, a história de Manuel Bernardino cruza com esses autores, do espiritismo e do marxismo-leninismo. Isso tudo foi construindo a trama, os fluidos eu puxei um pouco da minha tese do doutorado em antropologia. Na minha tese eu trabalho com substâncias corporais, eu trabalho com sexualidade, antropologia das emoções, concepção de corpo, li Merleau Ponty, a construção do corpo é cultural, os índios candoshi acreditam que o coração é o centro da inteligência, eles têm toda uma explicação racional a partir da cultura deles, que o coração, e não o cérebro, é o centro de toda inteligência. Os trobriandeses acreditam que o nariz do homem é o responsável pela produção do esperma, coisas que não estão diretamente relacionadas com o que a gente conhece da biologia, do científico, mas que têm todo um significado, todo um sentido. Aí eu estudei muito para minha tese, tem uma população, esqueci o nome, do Amazonas, que as mulheres acreditam que elas engravidam quando elas tomam um susto. Então se alguém fizer [imita alguém dando um susto e alguém se assustando], ela sabe que naquele momento ela acabou de engravidar. Como eu acho que eles transam todo dia, uma hora ela se vê grávida e não vai lembrar do susto, aí vai dizer “ah, já sei, foi aquele dia”. Elas não associam o sexo com a gravidez. Elas acham que é o susto.

Então o pai é quem dá o susto?
Não. Um susto com qualquer coisa. Você tá caminhando, vê uma cobra e se assusta com a cobra, naquele momento você engravidou.

E o pai?
O pai é quem lhe dá prazer. Como elas transam com vários homens, o pai não tem tanta importância, o pai é quem cria. Não existe essa história, “ah, ele é o pai por que tem as informações genéticas”, não existe isso, o pai é quem cuida, o pai é quem cria, elas engravidam com o susto, com qualquer coisa, com a cobra, com a planta. Se tiver essa emoção com o susto, a mulher acabou de engravidar naquele momento, e depois ela se vê grávida e já sabe que foi o susto. A antropologia mostra muito da percepção cultural dos povos, que a gente, a sociedade, as pessoas que não mergulham nas etnografias não conhecem. Eu acredito que esse pulo, essa ponte que eu fiz com os fluidos corporais, com certeza foi da minha tese. Eu trabalhei fluidos corporais, a consubstancialidade, é você compartilhar substâncias. Os Kanela acreditam, por exemplo, que um casal, casado há muitos anos, já um pouco idosos, e que trocaram substâncias a vida inteira, não só sexuais, mas alimentares, por que comem da mesma comida, cozida pelo mesmo fogo, trocam suor, trocam fluidos corporais, tiveram filhos juntos, o filho é uma confluência dessas duas substâncias, masculina e feminina, pra eles, eles acreditam que são um só, já compartilham as substâncias, já existe a consubstancialidade entre eles. Tanto que o que for proibido para o marido fazer, por exemplo, se a mulher tiver grávida e o marido for caçar, e encostar na caça, no animal, depois que o animal morrer, o animal pode penetrar pelo fluido, pelo sangue, no corpo do marido, e contaminar, como eles são um só, contaminar a esposa e consequentemente o filho que tá na barriga. Por conta desse princípio, por conta desse conceito da consubstancialidade. Eu trabalhei as substâncias, estudei a vida de Manuel Bernardino e percebi essas três substâncias muito presentes: suor, quando ele era trabalhador rural, sangue, quando ele foi revolucionário, e as lágrimas, quando ele se torna um pacifista, espírita. Isso foi norteando a fotografia do filme, eu falei pra Murilo, expliquei todo esse conceito, disse que era para seguir, isso foi norteando o desenho de som do filme, ajudou na hora da montagem. Então, sangue, cenas de abatedouro, todos os assuntos relacionados à revolução, a Lenin, trechos do filme tal; lágrimas, todos os assuntos relacionados ao espiritismo, imagens em preto e branco, imagens de nuvens; antes disso, suor, cenas da roça, que a gente produziu, cenas de suor, cenas de chuva, assuntos relacionados à mobilidade, ao trabalho de Manuel Bernardino. Quando eu tive essa consciência desse roteiro ficou super fácil de montar, mostrei o esqueminha pro André Garros [montador], “olha, aqui tu bota essas cenas e essas pessoas”, fiz o esqueminha em colunas, coloquei não só as pessoas que deveriam aparecer naqueles blocos, mas os assuntos tratados, embaixo as cenas daquele bloco, aqui entra a cena do abatedouro, aqui entra a cena da chuva, aqui entra a cena da roça, todas as cenas de mobilidade da equipe, mas essa mobilidade da equipe vai permear um pouco todo o filme. Um pouco aquela história de dizer: “ah, é um filme?, ah, é um documentário”, a equipe saindo da caixinha. Como pode um documentário e a equipe aparecer?

Eu tive uma leitura: é um documentário sobre um personagem histórico, até quero que você comente isso, aí num determinado momento aparecem você, Murilo, etc. filmando, entrando no cemitério, água na canela, cumprindo um papel de making of, mostrando a feitura do filme. Eu não lembro quem disse que um dia o making of ia se tornar mais importante que a própria obra, por conta da exposição de tudo em redes sociais.
A entrada do making of no filme é que eu estava perdendo noites de sono, de preocupação, em fazer um documentário chato. Um documentário com as pessoas falando, Manuel Bernardino, Manuel Bernardino… eu sabia que eu tinha várias cenas de apoio, e essas cenas construídas em função desses fluidos, que poderiam deixar o filme um pouco mais interessante. Cenas de sangue escorrendo no abatedouro… mas eu fui ver as imagens que o Guilherme [Verde, assistente de direção, making of e fotografia adicional] e as imagens que eu tinha feito também com meu celular. Fui ver e gostei muito, a equipe atravessando o filme, como se nós fôssemos a Liga de Defesa de Manuel Bernardino. Inclusive o Ricardo Mansur [desenho de som] nos autointitulou, quando eu contei a história para a equipe, Ricardo Mansur que é do Rio, fez a mixagem, a captação do som direto, ele adorou esse título, era a época da votação do impeachment [de Dilma Rousseff] pela Câmara dos Deputados, era mais ou menos essa época. A gente falava muito de política. Nós todos, com exceção de um, que eu não vou revelar, nós todos achávamos um absurdo. O Mansur nos autointitulou Liga de Defesa contra o golpe, então ficou. Mas bom, infelizmente a gente não venceu, mas a gente atravessou o filme inteiro, e eu acho que era o que Manuel Bernardino queria, a vida dele inteira, era que as pessoas saíssem de suas caixinhas, de suas zoninhas de conforto e fossem lutar e fossem para as ruas e fossem para as manifestações e fossem gritar por justiça, era o que ele fazia com a Liga de Defesa. Aí eu acho que eu compreendi alguma coisa quando eu decidi colocar a equipe, o making of, com a equipe atravessando o filme inteiro, com essa busca desse personagem, essa busca de Manuel Bernardino, além de ter, claro, aquela história de que, claro que a gente está fazendo, claro que a gente está construindo, a gente pode aparecer, a gente faz parte, a gente pode ir para o outro lado da câmera, a gente pode mostrar as falhas, como a cena em que eu estou na manifestação do Rio, quando a gente foi filmar com a Anita Leocádia, a gente chegou no sábado a noite e no dia seguinte a gente marcou o encontro com o Ricardo Mansur em Copacabana, pra manifestação contra o golpe, por que a eleição pela Câmara dos Deputados seria naquele dia a noite, depois a gente foi acompanhar a votação na Lapa. Tem umas imagens que eu fiz com meu celular em que eu boto o dedo, aparece assim uma mancha vermelha, é meu dedo, tem hora que eu tou filmando, me distraio, mas essa imagem entrou e eu gosto muito dessa imagem, coisas assim.

Na tua postura de ser contra o golpe, de ter uma posição ideológica muito explícita, dá para pensar, é uma pergunta meio óbvia, que se Manuel Bernardino estivesse aqui entre a gente, hoje, ele seria contra o golpe?
Sim. Com certeza. Todo o posicionamento dele, as leituras dele, o depoimento dele, narrado pelo Zeca [Baleiro], não todo, o depoimento tem mais de 13 páginas, eu fiz uns recortezinhos de coisas que eu achava importantes, mas por todas essas informações que eu tenho do personagem eu não tenho dúvida, com certeza, ele continuaria sendo um líder contra o golpe. Ele sabia ler, o que na época era raro. Em 1920, quem votava era a população masculina, quem sabia ler, então estrangeiros, mulheres estavam todos por fora, isso representava um pouco mais de 7% das pessoas no Brasil que podiam votar. E Manuel Bernardino, mesmo sendo um lavrador, vindo do Ceará, ele já sabia ler, sabia ler e pensar e interpretar o que lia, aí ele vai sendo orientado pelo [médico] Tarquínio Lopes, por pessoas que ele vai conhecendo, que vão dando livros sobre socialismo, talvez na época, como era a única coisa que ele tinha para ler, por que era o que davam, ele foi se formando. Ele foi se formando e eu acho que essas leituras tinham a ver com o que ele pensava, sobre as injustiças que ele via na época no Maranhão. Era uma cobrança de impostos muito grande, o coronelismo imperando, o povo sofrendo, as injustiças sociais de maneira geral muito fortes, muito presentes na região, ele ficava muito indignado com isso, associado a essas leituras sobre socialismo e sobre espiritismo, que não são conflitantes, elas são totalmente, isso explica, o filme explica isso, elas não são contraditórias.

É um cruzamento que eu não lembro de ter visto em outro personagem. A gente ouve falar em socialismo cristão, que depois por conta de legenda partidária é completamente deturpado, tanto é que a gente tem um Bolsonaro filiado num partido socialista cristão que não tem nada de socialista nem de cristão. Depois da descoberta de Manuel Bernardino, esse nomadismo dele em busca de condições de trabalho, e o teu lugar ficou pequeno, joga tudo pro alto, vou pra outro canto, essa identidade de vocês, você acha que ajudou em teu interesse pelo personagem?
Acho que sim [risos], acho que teve a ver, acho que a gente se encontrou. É tanto que é meio que uma anedota, a primeira versão do filme eu esqueci de botar meu nome. Brincando com Maurício, meu nome estava nos créditos, mas ele achava que eu devia ter colocado, como eu fiz muita coisa no filme, aquele “um filme de”. Mas eu já tinha até pensado um pouco sobre isso, eu disse “não, mas o filme é de todo mundo, eu não concordo muito com isso”. Só que naquela época eu estava fazendo a função só de direção, sabia que tinha pensado o roteiro, escrito o argumento, o projeto, mas todo mundo tava tão empenhado. Foi aí que nasceu, foi um parto longo, de meses, esse ouriço não conseguia sair. Foi aí que eu puxei o filme para mim. Por que a minha equipe fez a parte dela, fizeram muito bem, mas até botar esse menino no mundo, parir esse menino, eu me senti um pouco só. Foi nesse período que eu hesitei entre “ah, será que eu devia ter colocado, será que eu não devia?” Eu não coloquei, foi assim mesmo e não me arrependo. Aí eu comentei com Maurício, “eu não coloquei no começo, só aparece o título do filme, não coloquei nenhum crédito, não coloquei um filme de Rose Panet, é grave?” “Não, teu nome tá nos créditos, é tranquilo”. Eu comentei assim: “sabe por que eu não coloquei? Por que eu acho que na verdade, quem escreveu esse filme, quem fez tudo, foi Manuel Bernardino através de mim”, então meu nome não apareceu.

Foi um filme psicografado.
Exatamente! Quando a gente recebeu a primeira conferência, que a gente teve que fazer correções no filme, foi aí que o ouriço começou a incomodar pra nascer. Foi nesse momento, eu sofri bastante com isso, foi um período bem difícil. A finalização, o André adoeceu, a máquina da Lume quebrou, ele viajou com Fred para apresentar o [filme] Lamparina da Aurora, teve uma série de atrasos e eu super ansiosa para finalizar logo isso, e aí por problemas técnicos a gente não conseguia um certo ajuste, e eu ansiosa, e eu nervosa, e o ouriço querendo nascer e me machucando e eu perdendo noites de sono e chorando, e foi aí que eu pensei, “não, esse filme agora é meu, esse filho é meu”. E coincidentemente o filme ainda estava aqui, e eu tive oportunidade de colocar meu nome. Aí eu disse para André colocar, “depois do título dê um tempo”, fui acompanhar, escolhi a fonte, ficou pequeno, nada muito grande, dessa versão que vai ser a versão que vai ser exibida tem “um filme de Rose Panet”. Aí quando eu comentei com Monica [Melo, advogada e produtora da Lume], “Monica, nem tinha meu nome”, “mas Rose, isso é superimportante”, ela é bem feminista, “por que você é uma mulher, nós temos poucas mulheres diretoras de cinema, isso é muito importante”. Acho que ela tem razão.

Você se considera feminista?
Eu acho que eu sempre fui feminista, mas sem assumir, sem levantar essa bandeira. Eu sempre acho, inclusive, sobre essa questão de gênero, eu acho que não deveria ter nas identidades, nos RGs, feminino e masculino, por que eu sempre fui um pouco masculina. Eu sempre fui aquela menina que brincava de polícia e ladrão, meu pai sempre quis ter um filho homem, mas só teve três meninas, eu acho que nós três éramos um pouco meninos, pra suprir um pouco isso.

Você está em que posição?
Eu sou a do meio. Eu sou a única que ele escolheu o nome, Rose. Tem um nome francês, escolhido por ele. Eu acho que eu sempre me questionei sobre meu gênero. Às vezes eu estava num lugar, que eu via umas mocinhas da minha idade, eu nunca me identifiquei com esse universo, as conversas, de salão de beleza, de roupas, de namoros, não sei, de limpeza, a mulher como sinônimo de higiene total, até por que eu não era, eu me melava de tinta. Eu ia para a oficina de papai, ele era professor universitário, mas ele tinha uma oficina lá atrás [da casa], eu gostava de frequentar a oficina dele. Eu curtia me melar de graxa, se eu me cortasse ficava sangrando, essas coisas que as menininhas da minha época não tinham, por que eram tudo assim, a corzinha rosa, as roupinhas rosinhas, tudo bem limpinhas, as maria-chiquinhazinhas bem bonitinhas, e eu ficava me questionando até sobre minha sexualidade, por que eu não me identificava com essas menininhas, eu olhava as meninas conversando e me sentia diferente. Eu gostava mais de meus colegas homens, era mais divertido o mundo masculino. Hoje eu acho que isso se abriu mais. Hoje a gente vê exemplos de mulheres mais líderes, mulheres que atravessaram, com a antropologia isso vai ficando mais claro, existem algumas populações indígenas em que existem a presença de seis gêneros, não existe o gênero masculino e feminino, mas seis, existe o homem com corpo de homem e comportamento de homem e desejos masculinos, existe o homem com corpo de homem com comportamento feminino mas com desejos por mulher, isso em algumas aldeias indígenas, existe o homem com corpo de homem que tem desejos por homens, isso a gente pode até pensar, mas nessa população que eu tou, do meu orientador de pesquisa, ele identificou esses seis gêneros, mas a gente pode até puxar mais alguns, o homem com trejeitos, mas que tem o desejo por homens, que é meio que o nosso clichê, a gente acha que todo gay tem um jeito, e depois aos poucos, com a antropologia, a gente sabe que qualquer homem pode ser homossexual, pode ter desejo por alguém do mesmo sexo, e ter trejeitos de homem. E aí os mesmos papéis para as mulheres, as mulheres com corpo de mulher, trejeitos femininos, gosto de mulher, atividades mais consideradas femininas, tem o desejo, a atração sexual por homens, ou por outras, eu sempre me atraí por homens, mas eu sempre tive, quando criança, adolescente, não meu trejeito, meu jeito de andar, mas um comportamento mais agressivo.

E o feminismo?
Eu sempre achei que as minhas capacidades eram as mesmas de qualquer menino. Pelo menos durante minha adolescência, durante minha vida adulta, eu nunca senti, de fato, na pele, que houvesse um abismo entre masculino e feminino, entre homens e mulheres. Hoje a gente está numa sociedade em que o movimento se tornou um movimento político, e claro que eu apoio o feminismo, eu apoio, eu sou totalmente a favor, é totalmente natural que mulheres e homens sejam participantes da sociedade de maneira igualitária, e não os homens protagonistas, mas a gente de fato ainda vê muito isso, no cinema, o protagonismo masculino é aberrante, tem muito mais diretor, toda lista técnica sempre tem muito mais homens que mulheres, eu vejo a questão com um outro olhar, de fato.

Teu pai te respeitava e te apoiava nessa postura?
Papai achava tudo natural que a gente fazia. Papai era seminarista, quando eu frequentava essas reuniões marxistas-leninistas e me recusei, acho que eu tinha 15 anos, a ir pra missa, por que lá em casa era obrigatório, eu fui a única das minhas irmãs a me recusar categoricamente a ir à missa, coincidiu com o fato de eu estar frequentando reuniões marxistas-leninistas, eu lembro de um diálogo dele com a minha mãe, eu atrás da porta, e ele dizia bem assim: [imitando o sotaque do pai] “Carminha”, ele falava com bastante sotaque, “eu não sei para onde esta menina está indo, ela não acredita mais nem em Deus nem no diabo, ela não quer mais ir à missa, ela está frequentando essas reuniões”. Mas eu criei, agora lembrei, quando eu era do colégio, adolescente, eu criei uma organização clandestina, a gente pixava os muros da cidade. E pixei, eu mesmo, cada um se encarregava de uma instituição, e eu pixei o muro da minha escola, com 15 anos, eu e meus colegas. Com frases marxistas-leninistas, a escola, o que fosse escola tinha que ser com frases sobre educação.

Você lembra a frase que pixou?
Lembro não. Eu lembro das letras, eu nunca tinha pixado na vida e acabei fazendo letras enormes, no dia seguinte quando eu fui para a escola, fingindo naturalidade, desci do ônibus, atravessava a Praça da Independência, que é em frente ao Colégio Pio X, um Colégio Marista, um muro bem grande, aí eu vi aquela frase enorme, aquelas letras enormes [risos], eu senti uma emoção tão grande, “Meu Deus, eu fiz isso, uau!, estou me sentindo uma revolucionária, uma criminosa, uma anarquista”. Depois de um tempo a escola mandou pintar, mas a emoção foi muito grande.

Uma coisa curiosa em teu filme, é, como tem a relação marxismo-espiritismo, algo até então improvável pra mim, tem o Alan Kardec da doutrina espírita e tem um depoimento do Alan Kardec, professor da UEMA.
Isso, coincidentemente, mais uma coincidência no filme, eu tinha conhecido ele não fazia muito tempo. No dia em que eu o conheci, ele era responsável pela Editora da UEMA, e eu fui saber, por que eu tou com um livro no prelo, que é minha tese de doutorado. Eu fui saber de meu livro e fui saber também, pegar informações sobre revistas acadêmicas, e nesse dia eu perguntei, “Alan, você já ouviu falar do Manuel Bernardino?” E ele começou a falar, os olhos brilharam, aí eu perguntei: “você gostaria de participar de um filme que eu tou fazendo?”, e ele: “com certeza!”. Depois eu entrei em contato, isso não foi de imediato. Eu ainda estava na fase da pesquisa, deu tudo certo.

E tem Flávio Farias, que é a reencarnação de Marx.
Eu cheguei lá, ele estava com uma camisa vermelha. Ele perguntou: “Rose, é muito clichê, eu de vermelho?” [risos].

E Zeca Baleiro, como entra na história?
Na estrutura do roteiro tinha o depoimento, trechos do depoimento de Manuel, que eu tinha pensado em dividir entre várias pessoas, inclusive o nome dessas pessoas que eu vou citar agora foram para a Ancine, para serem julgados. Eram Celso Borges, Nauro Machado, ainda vivo, ele ia fazer as falas de trechos citados por Manuel Bernardino de Lenin, eu tinha falado com um amigo, o Luís Mário. Aí eu falei com as pessoas que eu conheço, que são amigas dele [Zeca Baleiro], falei com Maristela Sena, falei com Celso Borges, falei com Suzy [Fernandes], que é cunhada dele, e todos foram bem receptivos, inclusive estão em meus agradecimentos, por isto, entre outras coisas, eles foram bem receptivos e disseram “vou falar com Zeca”. Entraram em contato, não demorou muito, eu tive resposta: ele disse que tava cheio de coisas nessa época. Eu, “como nessa época?, não tem época, temos tempo”. Aí voltamos a fazer contato, sobre margem, ele respondeu, “ah, então eu posso, bora botar esse Manuel pra falar alto” [risos]. Eu passei pra o produtor a negociação, valor, Maurício Escobar, que conversou com o produtor de Zeca, produtores entre si acertaram valores, acertamos uma data, “pergunta se ele quer que eu vá para são Paulo, se ele vem pra cá, a gente agenda com um estúdio, pra fazer esse trabalho”. Aí ele preferiu fazer no estúdio dele, Sax So Funny, onde foi gravado aquele desenho que foi para o Oscar, O menino e o mundo [animação de Alê Abreu], foi feito lá a mixagem de som, muito bacana, em Higienópolis, em São Paulo. No dia marcado eu fui pra São Paulo, me encontrei com ele lá, já no estúdio, foi muito tranquilo.

Vocês se conheceram nesse processo?
Sim. Ficamos quatro horas no estúdio. Ele gravou de uma vez, comigo dirigindo. Eu chamei a Jô Dantas [jornalista e professora universitária], que mora lá, “Jô vem me acompanhar”. Eu expliquei o contexto pra Zeca, falei sobre o personagem. Foi muito tranquilo trabalhar com ele, ele é bem colaborativo, profissional. Quando a gente acabou o Sérgio Fouad [técnico de som] fez a edição na hora, depois me enviou o bruto, tudo o que tinha sido gravado. No final, momento tiete, aí a gente foi fazer foto, eu pedi para ele autografar o último cd dele para várias pessoas, eu trouxe de presente, beijos e abraços.

Manuel Bernardino sai por várias tevês públicas. Vai queimar uma etapa de festivais, mas você pensa em fazer lançamentos, debates, num circuito mais local?
Eu gostaria muito, mas ainda não sei o que eu posso e o que eu não posso.

E a trilha sonora?
Grande parte da trilha de Manuel Bernardino foi feita por Joaquim Santos [violonista, professor da Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo]. Mas há outros compositores: dois russos, mais uma coincidência. Achei na internet, fiz contato, comprei as licenças das músicas. Dois são russos, dois americanos e um canadense.

E os trechos de filmes que você usa? Você já conhecia ou foi a partir dessa pesquisa?
Eu não conhecia há muito tempo. Foi conversando com o [crítico de cinema] Fernando Oriente. Inicialmente eu estava querendo colocar trechos de O Encouraçado Potemkim [de Serguei Eisenstein]. Aí eu falei com ele e ele escutando, achando legal, “mas por que o Potemkim? Por que você não bota Outubro [de Serguei Eisenstein e Grigori Aleksandrov]? Assiste, você vai gostar muito mais”. Quando eu assisti, realmente tem tudo a ver. A cena das foices, a cena da ponte, que a gente cola com a ponte aqui de São Luís, aí entrou Outubro, Potemkim saiu. Foi bacana a dica, gostei muito.

Joaquim Santos, você já conhecia? Como é que foi o contato?
Conhecia de nome, dos filmes de Fred, Murilo é um de meus primeiros amigos maranhenses, quando eu cheguei aqui, fui pra aldeia, quando eu saí, vim pra cidade, não sei quem me passou o contato de Murilo, mas eu queria editar essas imagens, alguém me passou, eu falei com ele por telefone, ele nunca tinha me visto, aceitou editar, não cobrou nada, o primeiro filme que eu fiz foi editando com Murilo, O mocó de Quelé. A gente se conheceu nesse processo, ele foi superbacana. É alguém pra nunca se largar. Desde sempre Murilo é meu amigo, é alguém realmente do coração.

E projetos futuros?
Eu tou com uma ficção, só falta fazer uma cena, bem simples. Eu acho bem legal, hoje conversei com Di Moretti [roteirista, ministrou oficina no Festival Guarnicê de Cinema, em junho, época em que esta entrevista foi realizada] sobre esse filme, eu gosto muito, tou muito ansiosa pra montar. É uma homenagem a Alexandr Sokurov [cineasta russo]. Eu peguei uma frase de cada um dos filmes dele, primeiro eu pensei no tema, aí assisti vários filmes dele, revi alguns outros, escolhi uma frase impactante, que mexia comigo e tinha a ver com a trama, botei tudo num balaio e misturei com um sonho meu, um sonho que eu tive quando eu tava grávida de Luc. Eu tava com uma caixa de madeira bem fininha e eu balançava essa caixa e eu sabia que dentro da caixa tinha um ovo, quando eu acordei eu entendi que era um medo que eu tinha de perder Luc. Na véspera eu tava sozinha na França com Tamie, grávida, e ela queria que eu carregasse a bolsa dela, a minha bolsa e pegasse ela e botasse no colo. Aí ela se jogou no chão, fez aquela cena toda, eu me resignei, e disse “tá bom, Tamie”, aí peguei a bolsa, peguei Tamie, botei em cima da barriga e fui subir uma ladeira. Aí, peraí, o que eu tou fazendo? Aí eu falei com um tom diferente: “tenha pena da mamãe, compreenda a situação”. Na época a gente só falava em francês, aí ela desceu e aceitou ir caminhando. Nessa noite eu tive esse sonho.

Há 32 anos o sol se levanta para o Teatrodança

No próximo dia 30 (sábado), às 19h, o grupo Teatrodança apresenta três performances no Teatro Alcione Nazaré (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande). A entrada é franca, mas doações são aceitas, conforme avisa o material de divulgação, que promete gengibaça, uma mistura de cachaça com gengibre, ao público presente.

Trata-se da celebração pelos 32 anos do grupo. Não à toa Trinta e dois é o nome de uma das performances, por Alex Costa, Eline Cunha e Thayliana Leite. As outras são Ilhadas, por Júlia Emília, e TRANSgressão, por Victor Vihen. A jornalista Talita Guimarães (editora do blogue Ensaios em foco e idealizadora e coordenadora do projeto Literatura Mútua, de que Júlia Emília já foi convidada) abrirá a noite, com Menestréis, um misto de performance e cerimonial.

As performances são espécies de “resumos” dos espetáculos homônimos. Somadas têm duração média de 45 minutos. Resumindo-as, em possíveis sinopses, temos Ilhadas como um exercício de preservação de memória e a construção de uma crítica que investiga dramaturgias com as matrizes das expressões populares maranhenses, TRANSgressão abordando a violência contra quem não se enquadra nos ditos padrões de gênero (em pleno século XXI) e Trinta e dois é, também segundo o material de divulgação, um “musical performático que remete ao trabalho, arte e vida do grupo Teatrodança”.

Sobre o grupo Teatrodança, sua trajetória e a comemoração de seus 32 anos, Júlia Emília falou com exclusividade a Homem de vícios antigos.

A artista em performance durante lançamento carioca de Vivendo Teatrodança. Ao fundo, o percussionista maranhense radicado no Rio de Janeiro Cacau Amaral. Foto: Julia Araújo/ Faculdade Angel Vianna

Júlia, são 32 anos de grupo Teatrodança. Um aniversário nunca é apenas um aniversário. Qual a sensação de chegar até aqui?
Contentamento pela resistência, mas melancolia pelo destrato em situações que nos tornam ainda mais vulneráveis.

Para festejar vocês apresentarão três esquetes, de espetáculos que marcaram a trajetória do grupo, “enxutos” especialmente para a ocasião. Como se deu essa seleção?
Pelo repertório disponível. Inicialmente pensamos no trabalho novo sobre o permanente extermínio das culturas da compaixão e alteridade. Depois que era melhor fazermos um painel das propostas do Teatrodança. Separamos dois trabalhos performáticos elaborados a partir do que chamamos de “dança-denúncia”. Inicia com Ilhadas, processo sobre a violência contra o feminino, e segue com TRANSgressão, que retrata o preconceito que aniquila, e terminamos com Trinta e dois, apresentando nossa proposta de combinar drama, sonoridade e cena. Aí teremos Eline Cunha em toda sua versatilidade.

Você recentemente realizou lançamentos de Vivendo Teatrodança, livro que aborda a trajetória do grupo, publicado há dois anos, no Rio de Janeiro. Como foram os eventos e a receptividade do público por lá?
Boa parte de minha vida se passou no Rio de Janeiro. A formação, a profissionalização como artista, minha obra prima que é meu filho foi concebida e nasceu lá. Precisava voltar para homenagear seres humanos importantes nos meus esforços e sonhos. Incrível foi vê-los presentes nos lançamentos, poder realizar as intervenções, conversar e abraçar cada uma. Houve momentos inesperados. Fui procurada ano passado pelo biógrafo de Ferreira Gullar na montagem da exposição no Museu de Arte Moderna. Conversa vai e vem me convidou para participar do Terça Converso, no teatro Gláucio Gil. Maravilhoso estar tão perto de poetas e escritores de variadas procedências. E voltar para o local da Mestra Angel Vianna, que abriu espaços para criadores inquietos e insatisfeitos, preocupados em encarnar as realidades e visões oníricas. Rever o mestre Luiz Carlos Vasconcelos, refinado em sua arte dramatúrgica, as organizações e coletivos com quem trabalhei. Trânsito lindo! Encarnação próspera!

O grupo Teatrodança é muito identificado com você: quando falamos em Teatrodança já visualizamos o rosto de Júlia Emília e vice-versa. Como é a organização do grupo e quem o integra atualmente?
Visualize o corpo inteiro. Quem nos abandona é a dança. Eu passo. Ela fica. Nesta vida persisto como virose. Luto pelo que acredito. Forço entendimentos nos quais ninguém está pensando. Por exemplo, quando trabalhei com Julia Varley, outra mestra maior, percebi sua briga pelo lugar do feminino como dramaturga, e comprei a briga. Basta observar na ilha. Outra: faço parcerias com quem aceita. Passe os olhos em nossa trajetória e vai encontrar de tudo. No final dos anos 1990 fechei a Oficina do Corpo e corri mundos. De lá para cá trabalho em periferias. Atualmente a Associação Cultural foi acolhida pelo Centro Ozaka, parceiro saudável e amigo. Mais antigos nos processos temos Eline Cunha, musicista-atriz-dançarina, Thayliana Leite, Alex Costa, capoeiristas, dançarinos, pesquisadores. Recentes temos Angelo Gonzaga e Victor Vihen, tônus ascendentes para o que virá.

No Brasil vivemos tempos sombrios, e as adversidades atingem direta, frontal e fortemente o campo das artes, seja com a diminuição de recursos, o descaso com as políticas públicas de cultura e, mais recentemente, as trevas, com o cancelamento de exposição por atentado à moral e aos bons costumes. Como você avalia este contexto?
Quando a Oficina foi fechada coreografamos Maiakovsky: “necessariamente todo dia o sol se levanta”. E com Gregório de Matos decidi, quando montei Espirais, em 2004, que trabalharíamos corpo como imperativo de autenticidade e cena para discussão dos problemas coletivos. Entristeço muito em ver as atitudes de fuga, de apatia, de desmonte. Sem forças contra o poder do capital, que nos tornou um país dependente, leiloado, destruído e espoliado. O sabor amargo do conservadorismo pós-modernista infecta as veias latino-americanas, Galeano que o diga. São martirizadas as culturas que resistem em salvar, amar, preservar. Elas veem o futuro. Temos de fortificar a imaginação em busca do poder, sem lamentações. Embargam hoje, amanhã se expõe, se dança nu e põe tarja, coreografa de novo. A cena para além da representação. Minha compaixão irada vai para quem produz mediocridades. Mulher bárbara é o nosso tempo que sobre nós se abate. E eu sou uma. Porque virão outros depois de nós…

E como você imagina a existência e atuação do grupo Teatrodança pelos próximos 32 anos?
Se ele conseguir sobreviver ao próximo ano elevo gratidão aos Protetores!

Rita Benneditto: uma artista em constante reinvenção

Foto: Márcio Vasconcelos

 

O público maranhense tem reencontro marcado com Rita Benneditto na próxima sexta-feira (8), aniversário de São Luís, ocasião em que a artista fará um show dentro da programação do Governo do Maranhão pelos 405 anos da capital. Ela sobe ao palco do Espigão Costeiro da Ponta d’Areia às 21h.

Como seu conterrâneo Zeca Baleiro, Rita também está completando 20 anos de carreira fonográfica em 2017: seu primeiro disco foi lançado em 1997, com produção dele e Mário Manga (ex-Premeditando o Breque), e repertório que incluía Antonio Vieira, Carlos Careqa, Márcio Greyck e Vital Farias, entre outros.

Em entrevista exclusiva a Homem de vícios antigos, por telefone, ela comentou o repertório do show, o início da carreira, influências, a importância do Maranhão em seu fazer artístico, as parcerias com Jussara Silveira e Teresa Cristina, novos projetos, a mudança de nome artístico e, assunto inevitável nestes tristes tempos, política.

Foto: Marcos Morteira

Você é uma das artistas maranhenses mais bem sucedidas nacionalmente, ao lado de Alcione e Zeca Baleiro, mas por outro lado faz poucos shows por aqui. A que você acha que se deve essa ausência e qual a sensação de reencontrar o público maranhense numa ocasião como o aniversário da capital do estado?
Eu lamento muito que eu vá muito pouco a São Luís, que é a minha terra. Eu acabo tendo que concordar quando muita gente diz que santo de casa não faz milagre [risos]. Eu gostaria de ir sempre, uma ou duas vezes por ano, no calendário de festas de São Luís. É meu porto seguro, é o lugar onde eu comecei, são minhas referências, onde eu formatei toda minha história. Eu tenho um trabalho de pesquisa muito grande com a cultura popular brasileira, e especialmente a cultura do Maranhão. Eu sempre digo em qualquer lugar onde eu vou, que o Maranhão, junto com Pernambuco e Bahia, é a tríade máxima do Nordeste e da cultura. É o alicerce, por que as tribos africanas, o povo africano, o povo que se deslocou para essas regiões, o povo negro e ameríndio, tem um poder muito grande, concentrou um poder muito grande e estabeleceu uma cultura muito forte. Mas geograficamente o Maranhão se prejudica um pouco, por que não está muito próximo desses eixos aqui onde as coisas normalmente funcionam mais. Eu lamento muito que eu não consiga. Quando eu vou eu tento fazer um show no teatro, as pessoas acabam nem indo, meu ingresso custa 80, 60 reais, elas querem pagar 400 reais num desses caras aí. O Nordeste tem uma cultura popularesca muito grande, um consumo de sofrência e popozão [risos], eu não tenho como questionar, eu tenho um trabalho específico. Eu lamento que eu vá muito pouco a São Luís, eu me ressinto disso, mas tá tudo bem, a gente quando vai, vai feliz. Minha expectativa, sempre que eu vou, é maravilhosa, por que eu vou encontrar o público maranhense, eu vou fazer o melhor de mim cantando coisas minhas, coisas da minha terra, ainda mais quando é uma festa tão especial como o aniversário da cidade, por que concentra um número maior de pessoas, é público, é de graça, de graça entre aspas, por que nós pagamos impostos [risos].

Falando nisso, o que o público pode esperar em termos de repertório? Que banda te acompanha? Fale um pouco do show.
Na verdade eu tou com uma banda agora um pouco reduzida, um trio, power trio mesmo, bateria, baixo e guitarra. É o Ronaldo Silva, que é filho do Robertinho Silva, que é um grande músico, percussionista, baterista, o Pedro Dantas, que é meio maranhense, carioca, foi criado aí no Maranhão, é baixista, toca hoje com a Lucy Alves, com a Vanessa da Mata, garoto novo e muito bom, e o Fred Ferreira, que é guitarrista aqui do Rio de Janeiro, está comigo já há um tempão, faz a direção. Eu reuni na verdade músicas de vários de meus trabalhos, não dá para fazer tudo, é apenas um show, tem outras atrações, o espaço dos shows serão divididos entre as pessoas que vão se apresentar [além dela sobem ao palco Carlos Gomes, Cláudio Fontana, Criolina e Tom Cléber]. Eu reuni canções de meus discos anteriores, Filhos da precisão, de Erasmo Dibell, Divino, que é meu com Zeca Baleiro, tem De mina, de Josias Sobrinho. Eu quero cantar Ilha bela, tem um tempão que eu tenho vontade de cantar, que é do Carlinhos Veloz e ele faz uma homenagem linda a São Luís do Maranhão, Tambor de crioula, de Oberdan e Cleto Jr., as coisas do Tecnomacumba, que todo mundo curte e gosta, Cavaleiro de aruanda, Moça bonita, Deusa dos orixás, estou pensando em fazer um reggae mais clássico, o Police and thieves, que foi um dos primeiros reggaes que eu ouvi, do Junior Murvin, quando eu morava na Cohab. Eu reuni várias coisas, quero fazer um show dançante, a gente vai estar na rua, na beira da praia, quero fazer uma festa bem legal. Vai ter reggae, vai ter macumba [risos], vai ter balada. Eu espero agradar meu público maranhense, eu não tenho o que dizer, nem reclamar, eu me sinto muito bem recebida pelo público do Maranhão. Mesmo indo pouco aí eu sei que as pessoas gostam de meu trabalho e a gente tem que ir na luta, fazendo, trabalhando, sempre com amor e alegria.

Tua carreira começa colada com Zeca Baleiro, vocês lançam os discos de estreia juntos, o teu primeiro produzido por ele com o Mário Manga, mas passado algum tempo vocês se descolam. Foi um processo natural esse afastamento? Ou é um afastamento só ilusório, vocês não se afastaram? Como é essa relação, hoje?
A gente ficou muitos anos muito juntos, unha e carne. Eu sempre digo que eu sou a voz das canções de Zeca Baleiro [risos], e que ele é meu compositor, por que a gente tem realmente uma afinidade musical muito grande e também afetiva, nós somos do mesmo estado, a gente cresceu em São Luís. Eu acabei indo pra São Paulo, depois acabei convencendo-o a ir a São Paulo para morar, ele foi quem dirigiu meu primeiro show no Maranhão, o Cunhã, depois quando ele foi pra São Paulo ele acabou participando junto com Mário Manga da direção do meu primeiro disco. É uma pessoa extremamente presente no meu trabalho e eu tenho muito orgulho disso. Mas o tempo e o fato de ele ter ficado em São Paulo e eu ter vindo morar no Rio, isso naturalmente afastou a gente, afastou bastante. A gente tem pouco contato, porém, sempre que a gente tem contato é sempre amoroso, é sempre com afeto e boa memória das coisas. Agora mesmo ele me convidou para participar aqui de uma noite de forró que teve na Fundição Progresso. Foi ótimo nosso reencontro, a gente cantou várias músicas juntos. Sempre que a gente pode estar junto, a gente está, mas não mais como era antigamente, aquela coisa bastante presente e constante como era no período em que a gente se conheceu e no período em que eu morei em São Paulo. Acho que é natural, ninguém se perdeu, mas ninguém está mais tão próximo, a vida vai seguindo, a gente com ela, e as coisas vão mudando naturalmente. Mas eu tenho muito amor e muito respeito a Zeca, ao trabalho dele e tudo o que a gente viveu junto.

Ele acabou de lançar um álbum digital de duetos iniciando as comemorações de 20 anos de carreira, que é uma marca que você também atinge agora em 2017, do ponto de vista fonográfico. Vocês já tinham carreiras antes, mas o marco que se considera para efeito de comemoração, como ele me disse em uma entrevista, é o lançamento do primeiro disco. Você está preparando algum trabalho específico para celebrar este marco?

Encanto. Capa. Reprodução

Pra te falar a verdade eu nunca fiquei muito ligada nessa coisa de tempo. Tempo no sentido “ah, 25 disso, 30 daquilo”, acho que o tempo é muito relativo em relação a isso. Eu não gosto de demarcar esse tipo de tempo pro meu trabalho, tudo é tão cíclico, tão permanente e impermanente, que eu prefiro ir fazendo as coisas. Como hoje as mídias mudaram muito, os discos físicos quase não vendem, a gente está tendo que se desdobrar em formas de lançamento. Eu sempre tive como ponto forte de meus trabalhos os meus shows, os meus projetos. Por exemplo o projeto Tecnomacumba começou sem disco nenhum, só depois de três anos lançado que eu fui gravar o primeiro registro dele em estúdio. Ele durou 12 anos em cartaz, muito em consequência dos shows que eu fiz. Eu estou muito mais envolvida com os shows, os projetos de shows, do que necessariamente os registros disso, o disco. A produção é muito alta e acaba não tendo retorno do investimento. Mas a gente tem que estar lançando, sempre. Eu estou optando por lançamentos pequenos, de EPs ou single, não necessariamente um disco de 14 músicas. Estou com dois projetos agora em cartaz, o Zabumba Beat, que eu estreei aqui em São Paulo em agosto, que é uma reverência aos tambores do Brasil, de norte a sul, especialmente a zabumba, que é um instrumento africano que está presente em vários ritmos brasileiros, especialmente os ritmos do xote, forró, que junto com a sanfona e o triângulo formam a trindade máxima das festas juninas do brasil. Zaumba Beat por que de novo eu estou explorando os timbres eletrônicos, as possibilidades todas que a tecnologia pode nos dar, ressaltar o som original dos tambores, os couros verdadeiros, grandes, ancestrais. É um show que deu megacerto, além do Ronaldinho Silva eu chamei o Donatinho, que é o filho do João Donato para fazer toda a parte eletrônica, dos sintetizadores. E paralelo a isso eu também estou com um projeto chamado Suburbano Coração, que é totalmente diferente, sou eu e o maestro Jaime Alem, que foi maestro de Maria Bethânia durante muitos anos. A gente sempre quis estar junto, sempre quis fazer um trabalho nosso, e a gente se juntou em voz e violão, viola, são instrumentos de cordas. A gente estreou no circuito Sesi, agora está indo pra São Paulo, está começando a rodar. São dois projetos que eu estou bastante envolvida no momento. Paralelo a isso eu continuo fazendo o que eu hoje chamo de Tecnomacumba Encantada, por que eu juntei o Tecnomacumba com o Encanto, estou fazendo este show com os dois discos de carreira misturados.

Adorei os nomes dos projetos, Suburbano Coração e principalmente Zabumba Beat.
Eu abro o projeto com Urrou, de Coxinho, uma vinheta, depois engato ele no Mimoso, de Ronald Pinheiro. Eu vou costurando, minha ideia é ressaltar os ritmos. Mesmo que eu escolha músicas tradicionais, como músicas de Luiz Gonzaga, ou João do Vale, Coroné Antonio Bento, a ideia é ressaltar os ritmos brasileiros onde a zabumba é muito presente. Estou tentando com isso destacar mais a ritmia do Maranhão. As pessoas conhecem pouco a ritmia do Maranhão, por que o compasso do Maranhão é diferenciado do resto do país. Enquanto todo mundo trabalha em quatro por quatro, no Maranhão a gente trabalha em três [risos]. Todos os ritmos são ímpares, o tambor de mina, o divino, as pessoas talvez tenham dificuldade em assimilar um pouco isso. Parece besteira mas não é. Tem De mina, que é uma música que eu gravei no Encanto, de Josias Sobrinho, eu quis destacar justamente o ritmo do tambor de mina, mas eu gravei num gênero que é extremamente atemporal, que é o rock. Por que tudo é rock! Destacar isso de uma maneira sem perder o valor do ritmo, sem perder a força da mina, por que é tão rica a nossa ritmia do Maranhão, que eu não sei nem te dizer quanto. Então eu quero nesse Zabumba Beat destacar mais ainda o tambor de crioula, o boi de zabumba, aquele ritmo alucinante do sotaque de zabumba, de Pindaré, de uma maneira que possa chegar a todos os lugares do mundo. Não tou preocupada em ser purista, nem quero destruir o que é original, e o que é a célula mãe. Eu quero apenas destacar a ritmia do nosso estado que é fantástica.

O nome inevitavelmente me lembrou o Bumba Beat de Otávio Rodrigues, eu não sei se você lembra do programa de rádio.
Sim, eu me lembro. Me lembro muito disso, do Doctor Reggae e o Bumba Beat dele. Eu não podia botar Bumba Beat por que já tinha marca registrada.

Falar em marca registrada, você mudou o nome, há cinco anos, de Rita Ribeiro para Rita Benneditto, com dois n e dois t. Como é que você avalia essa mudança hoje, passados estes anos. Mudou algo na própria Rita ou foi só o nome artístico mesmo?
Menino, eu já assimilei, graças a Deus, muito rápido.

O público também, não?
Muita gente do Brasil, de vários lugares, ainda me conhece por Rita Ribeiro. Eu não entrei em nenhuma paranoia por isso. Eu não fiquei neurótica, nem reclamando. Me chamam de Rita Ribeiro, eu digo “olha, agora mudou”, na boa. Acho que tem tempo para ser assimilado. Acho que o que me deu muita força, me respaldou muito na mudança de nome foi descobrir que eu não tinha um público qualquer, eu tenho um público extremamente fiel a meu trabalho. Não é mais nem fã, é fiel mesmo. As pessoas estavam mais interessadas na minha música, na minha voz, do que necessariamente no fato de eu ter trocado o nome. Tem gente que “ah, eu preferia Ribeiro”, “ah, mas Benneditto tá lindo”. Eu acho maravilhoso, quisera eu há muitos anos já ter pensado nisso, por que é o nome que está dentro da minha história toda, meu pai se chamava Fausto Benedito Ribeiro, eu nasci na cidade de São Benedito do Rio Preto, aí perto dos Lençóis, eu sou devota de São Benedito, o preto velho das almas de angola, que eu reverencio na umbanda brasileira, e Benedito quer dizer abençoado. É um processo realmente lento, eu preciso cada vez mais ir enfatizando, mas já está tão assimilado, muita gente já me chama de Rita Benneditto, muita gente já se identifica, tanto é que meu próximo trabalho, quando eu resolver fazer um disco novo, eu não sei quando, vai ser Benedito seja, o nome.

Você tá ótima de títulos, hein?
[Risos] Ai, que bom! Rita Benneditto, Benedito seja, tem até música. Eu fiz uma brincadeira com um repentezinho com meu nome. Eu sei que é um processo, não foi fácil, construir uma carreira de 20 anos, com Rita Ribeiro e ter que mudar, você tem que ter muita coragem, muita segurança no que faz, e paciência para fazer essa transição. Graças a Deus eu tive tudo isso e depois de cinco anos eu posso dizer que estou cada vez mais Benedito seja.

A gente falou já um pouco de Zeca Baleiro, você citou no repertório que está preparando para o show nomes como Carlinhos Veloz e Erasmo Dibell, e agora nestes novos projetos o Ronald Pinheiro, o Coxinho. Antes de vocês saírem para São Paulo e você migrar para o Rio, aqui você trabalhou com gente como Cesar Teixeira, Chico Maranhão e Josias Sobrinho. Eu queria que você comentasse um pouco a relação com estes mestres e apontasse outros nomes da música do Maranhão que você admira, respeita, reverencia, enfim, que são importantes para tua formação.
Olha, você já falou tudo. Na verdade esses caras são a minha escola, mesmo. Chico Maranhão, Sérgio Habibe, Josias Sobrinho, Cesar Teixeira. É uma galera que eu tenho um grande respeito, são grandes mestres mesmo. Sem falar nos outros mestres, que são anteriores a eles, que são Mestre Felipe, Leonardo, Pai Euclides, e tantos outros mestres onde eu bebi na fonte. Eu tenho uma bagagem muito grande de coisas muito boas e ricas do Maranhão. Eu tive que sair da minha terra, infelizmente num período em que a gente não tinha muita opção de viabilização do trabalho local, por que, como eu te falei, geograficamente fica um pouco deslocado e a gente precisa circular. Mesmo o Rio de Janeiro sendo o caos que é, e é realmente um caos, as pessoas têm uma ilusão às vezes que o Rio de Janeiro, por exemplo, é uma cidade onde tudo acontece, mas não é tanto assim. O caos impera aqui, é muita gente batalhando por seus espaços, mas é necessário, por que tá tudo muito próximo de tudo. Se você precisa de um contato, de viabilização de alguma coisa, as coisas acontecem, eu não sei te explicar. É uma dinâmica outra, natural, é uma cidade cosmopolita, é uma cidade com uma projeção mundial. Eu trago mesmo comigo, “trago no bolso um colar e uma bola de meia” [cantarola De Cajari pra capital, de Josias Sobrinho], eu trago essa referência muito grande, fica muito claro para o povo daqui o quanto eu sou reverente a estrutura musical da minha terra. A maneira que eu canto, meu canto é muito influenciado por esse compasso que eu te falei. Eu, por exemplo, gravando Encanto, eu gravei Santa Clara clareou, de Jorge Benjor, ela é uma música feita em compasso quatro por quatro, “Santa Clara clareooou” [cantarola], eu transferi pro ritmo da mina, o Benjor pirou, ficou enlouquecido com o arranjo, eu mudei o compasso dela, eu desestruturei para torná-la uma oração dentro do tambor de mina. A mesma coisa eu fiz com Água do Djavan, “água pra encher” [cantarola], que eu trouxe para o universo do divino espírito santo, eu tenho naturalmente uma forma de cantar diferenciada sob influência da ritmia do Maranhão. Por tudo que eu vivi, absorvi, por ter nascido aí, por ter esse negro dentro de mim, o negro maranhense, do Daomé, do Guajajara, por ter essa influência do nosso povo muito naturalmente na minha história. Como disse Itamar Assumpção, que fez uma música pra mim, tá na cara que tá no sangue. Então, esses caras me influenciaram muito, são mestres comprometidos com a palavra, com a poesia, são mestres que têm um compromisso com a história, sem falar nos poetas todos, maranhenses, que são fantásticos. Nossa terra é muito rica. Eu lamento ainda que não tenha havido uma projeção a nível nacional do poder cultural do Maranhão, de uma forma comercial, mercadológica, do nível de Pernambuco e Bahia, só pra dar um exemplo. O Maranhão tem um potencial absurdo, era para ter um calendário de atividades culturais durante o ano, era para ter um carnaval multicultural, um São João multicultural, era para ter um intercâmbio. Isso é só o que eu acho, eu não tenho fórmula para nada. Mas eu acho que a gente já deveria estar num nível, não só eu, Alcione e Zeca Baleiro, mas tantos outros com potencial tão grande quanto o nosso, ou até maior, que possa projetar mais ainda a nossa cultura, tornar o Maranhão mesmo um estado… o norte está se projetando absurdamente, com a referência muito do bumba meu boi do Maranhão, e a guitarrada, o tecnobrega, o norte está bombando no sul do Brasil, não é só o açaí não [risos]. E a gente precisa entender, precisa se unir mais, por que a Bahia funciona? Por que os baianos se juntam para projetar essa história toda pra fora.

Você falou em multiculturalidade e intercâmbio. Em sua carreira você já dividiu discos com Teresa Cristina e Jussara Silveira. Eu queria que você comentasse um pouco as dores e as delícias desses processos.
[risos] Quando a gente começa um projeto a gente tem sempre as expectativas de que ele seja o melhor possível, a gente quer, a gente acredita. As meninas são extremamente talentosas, cada um tem sua carreira. A ideia do projeto é minha, inclusive o nome, Três meninas do Brasil, meu pai tocava muito essa música pra mim, Meninas do Brasil, de Moraes Moreira [e Fausto Nilo], era eu e Teresa, a princípio, a gente acabou chamando a Jussara. Foi feito pela Manaxica Produções, que é meu selo fonográfico, produtora. A gente estava assim, aquela coisa, estávamos a fim de fazer. Ah, vamos fazer um disco de samba? Não, vamos fazer um disco que passe pela história do Brasil, contando coisas, referências minhas, de Jussara e de Teresa. Aí eu chamei o maestro Jaime Alem, foi meu primeiro contato com ele, nessa época ele estava envolvido demais com Maria Bethania, aí eu acabei envolvendo Maria Bethania na história, perguntei se ela não queria lançar o disco pelo selo dela, ela tem um selo chamado Quitanda na Biscoito Fino, o maestro fez a ponte, ela adorou o projeto, acabou que a gente gravou pelo selo dela. Foi um encontro feliz. A gente ficou dois anos só fazendo este projeto, a gente lançou o disco, fez shows, tinha sempre aquela dificuldade de conciliação de agendas, de cada uma ter seus projetos, sua carreira, acabava ficando conflitante, não casavam as datas, aí a gente resolveu encerrar. A gente já fez o disco, fez os shows, não conseguimos percorrer o Brasil todo, temos um disco aí lançado para a eternidade e um encontro nosso também marcado por um tempo. Foi muito bom. Depois eu gravei um outro disco com Jussara, lançado em 2014, chama Som e fúria, nós fomos para a Chapada Diamantina, é um disco surreal, sem comprometimento comercial nenhum, a gente queria fazer uma viagem pelos cantos matriciais brasileiros, onde a voz é o fio condutor, e a gente se meteu num sítio no Capão, na Chapada Diamantina durante 25 dias, produzidas por José Miguel Wisnik e Alê Siqueira, e saiu um disco assim que mais parece uma trilha sonora de um balé, de um filme. Eu particularmente gosto muito, uma viagem bem rica. Foi um desdobramento de meu encontro com Jussara, depois de Três meninas. Com Teresa a gente não realizou mais nada, com Jussara ainda deu esse fruto que é Som e fúria, a gente vai fazer show em novembro em São Paulo.

Além desse show no aniversário de São Luís, tua vinda te permite, dessa vez ou normalmente, passear, fazer coisas que você gosta no Maranhão? Em tua memória, o que você recomenda a turistas e nativos? O que não se pode perder em estando no Maranhão?
Eu sempre dou um jeito de ir e tentar ficar um tempo. Eu vou ficar uma semana, estou louca para ir aos Lençóis, ficar pelo menos dois dias, tomar um axé daquela terra, daquele vento, daquela coisa toda, daquele portal. Pra mim os Lençóis são um portal, é uma riqueza, uma maravilha do mundo. Aquilo é um portal mágico, transcendente, você vai ali você se revê em todos os aspectos, como ser humano, você se redimensiona em todos os aspectos. Isso é uma coisa que eu pretendo fazer, pretendo também matar minha saudade da minha juçara, do meu banho de mar marrom, encontrar meus amigos, eu tenho observado que São Luís está com um movimento cultural bastante intenso, o Samba da Fonte, o reggae lá na Praia Grande, as coisas estão se movimentando, as pessoas estão se mexendo. A gente nunca foi de esperar por governo nenhum, sem desmerecer governo de ninguém, a cultura maranhense sempre foi independente nesse sentido, as pessoas sempre se reinventaram, as festas sempre aconteceram nas suas fontes. Se eu puder ir à Casa Fanti Ashanti eu vou, quero ver minhas amigas que eu amo. Quero ver se eu encontro Joãozinho [Ribeiro], Cesar Teixeira, meus queridos que eu gosto muito de estar junto. Tanta coisa que eu gostaria de fazer, ficar com a família, a família é enorme, sempre tem um evento, sempre a gente quer estar junto. É pouco tempo para fazer tudo que eu quero, mas eu quero usufruir o máximo que eu puder da minha terra e recomendo a quem vá a São Luís conhecer a cidade, a cidade é linda, o Centro Histórico eu não sei como está agora, a última vez que eu vi fiquei muito triste, estava muito detonado, isso me angustiou, mas a cidade continua com sua magia. Todas as pessoas que vão ao Maranhão, a São Luís, que voltam e me falam, ficam extremamente encantadas com o lugar, com a energia do lugar. E olha que a gente sabe dos problemas todos que nossa terra tem, as dificuldades todas. Eu não entendo por que reelegeram esse prefeito, um homem que não tem compromisso nenhum com a cultura, que não se identifica, não estimula, nem tem cuidado com a cidade. São coisas que eu não tenho resposta, só tenho a lamentar quando vou e vejo que a cidade fisicamente está abandonada, um patrimônio histórico desses jogado, sem nenhum cuidado. Também sei que tem muitas coisas boas acontecendo e eu quero só pensar nas coisas boas e nas mudanças. Acho ótimo que a gente esteja com outra administração no governo, por que isso nos tira um pouco daquela aura de poder oligárquico, que a gente vinha há 40 anos, acho que a mudança de poder é importantíssimo, para que a gente possa ter a capacidade de escolha, de avaliação. Então, eu acredito muito na minha terra, no potencial de minha terra e quero poder, na medida do possível, com meu trabalho, com minha voz, levar o Maranhão, para onde eu for.

Ainda falando um pouco das paisagens, dos pontos turísticos. Não sei se vai dar tempo ou se você vai passar por lá, faltou um que você cantou, com Edvaldo Santana, em seu último disco, você fez uma participação especial, em Ando livre.
Ah, no [Bar do] Léo! Ah, eu quero ir. Você viu que música linda que ele fez? Linda aquela música, boleraço, maravilhoso. Eu falei: “cara, você fez essa música para eu cantar”. E ele disse: “foi”. E me botou pra cantar num tom altíssimo. Mas eu adorei, falei: “oh, que maravilha”. Mas eu vou lá sim, quero ir lá, inclusive para ouvir essa música com ele. Olha aí que lugar, que maravilha que São Luís tem, um lugar como esse. Aquele menino do Centro, também, como é?

O Chico Discos?
Chico Discos também, que figura! Como é que essa figura construiu esse espacinho tão especial? Por isso que eu digo que o maranhense se reinventa. As coisas não param, as pessoas estão em movimento, precisam estar em movimento para que as coisas aconteçam. Aí é que o governo, as pessoas percebem que o movimento aconteceu. Mas eu acho o seguinte: mesmo vendo a dificuldade que todos os grupos culturais estão tendo no Maranhão, eu vi isso num São João em que eu fui, acho que ano passado, eu ainda vejo que os mestres estão ali na luta, na guerra, na batalha, para manter suas tradições vivas, por que não pode morrer, não tem como morrer. A gente tem que manter isso vivo na memória e no corpo dos jovens de hoje, para fazer a coisa continuar. É um trabalho bonito, e ficar pra história. “Maranhão, meu tesouro, meu torrão” [lembra o título da toada de Humberto de Maracanã].

Uma pergunta inevitável nestes tempos: você mora no Rio de Janeiro, onde a gente tem percebido de modo mais acentuado essa crise política e econômica, professores com salários atrasados, universidades correndo o risco de fechamento. Com que sensação você tem acompanhado ao longo do último ano e meio o noticiário político brasileiro?
Cara, eu acho que nós estamos vivendo uma era do cão. Caótica e, sei lá, extremamente negativa e trevosa. Eu não sei por que tanto retrocesso, eu não sei como é que a gente pode avançar e a gente avançou, e depois retrocedeu de uma forma tão bruta. Ficou tão evidente que nós fizemos realmente uma situação ainda de escravidão, de subserviência, de ditadura, e na verdade estava assim um pouco camuflado por alguma teia que a gente não conseguia ver, mas que na verdade está enraizada demais na estrutura política e social brasileira. Realmente o pequeno grupo de empresários, gente que domina, a corte, pode-se dizer assim, ela não quer abrir mão de nada pelo povo, ninguém está interessado no povo, ninguém está interessado na melhora do país. Você vê, um cara desses ainda estar no poder, diante de tantas acusações, diante de tantas evidências, é por que ele não está sozinho, ele está com uma corja de abutres do mesmo nível dele, sustentando o processo que está lá. O Rio de Janeiro foi o estopim da história, a cidade está caótica, a violência voltou como uma onda imensa, assustadora, um tsunami, a gente dorme com rojões, tiros, parece assim que a gente está num desses países tipo Iraque, ou coisa parecida. A gente não sabe o que está acontecendo. Eu, graças a Deus, nunca sofri, nenhum tipo de violência, eu vivo realmente, posso dizer, até um mundo à parte dentro do universo carioca, mas eu vejo como é que a cidade está depredada, no sentido da insegurança das pessoas, do medo, do desespero, da revolta, da impaciência, da intolerância. Ninguém tem tolerância com nada, as pessoas estão se agredindo no meio da rua umas às outras. Isso está acontecendo num nível nacional e universal, mundial. Nós estamos vivendo momentos de grandes tensões mundiais, o planeta está realmente num processo de transmutação, é doloroso. A gente é uma transição, estamos passando por este processo de mudança, que a gente não sabe onde vai dar. Eu, como sou uma figura muito espiritualizada, eu sempre penso no melhor, eu sempre penso que todo caos gera mudança e é uma mudança sempre positiva, mas o processo está sendo muito doloroso, pra nós artistas, então, a gente tem sofrido baque assim brutal, sabe? De viabilização dos projetos, verbas despencando, até o sistema Sesc, que é um dos maiores sistemas culturais do Brasil, despencou nos orçamentos, os empresários locais não têm mais estrutura para levar os shows, os cachês caíram horrores, o Ministério da Cultura é uma coisa que a gente não sabe pra que serve nem o que é. Sucatearam a cultura brasileira. Em nível de criatividade, nós também estamos um pouco perdidos, o que está predominando hoje no Brasil, eu não estou aqui condenando nada, mas é o funk, o sertanejo e o brega, é só isso que a gente vê. Isso está sufocando a outra parte criativa da música, especificamente da música, tem muita gente fazendo coisa legal, mas tem oportunidade nenhuma, condição nenhuma de levar adiante, sem estrutura. Realmente é um momento extremamente delicado, não sei o que vai dar, não sei como é que a gente não consegue tirar esse cara, eu não vejo solução de ocupação. Ocupação pra mim é entrar naquele congresso e tocar uma bomba.

Concordo.
É preciso inverter aqueles polos daquelas duas bacias, nada se justifica mais, a gente está se repetindo nas redes sociais, todo mundo “fora, Temer!, fora, Temer!, Temer, fora!”, e nada acontece, eles estão cagando e andando pra gente: “fodam-se vocês, nós vamos fazer o que a gente quiser, nós vamos aprovar leis que a gente quiser, nós vamos fazer e acontecer aqui e vocês não vão dizer nada”, e a gente não está dizendo nada, a passividade do povo brasileiro está num nível que a gente diz assim: “vamos pra onde, gente?” Eu não sei o que fazer, sinceramente eu não sei o que fazer. Tem horas que eu me sinto tão impotente. A minha maneira de protestar é através da minha arte, é através do meu canto, chamando a atenção das pessoas para o que a gente pode fazer juntos, o que a gente pode mudar, o que a gente não pode desistir, mas é pouco, é muito pouco diante da situação que a gente está vivendo, é nada. Eu sempre digo assim: “o palco é um palanque, o artista, um militante”. A gente tem que continuar resistindo, mas tá danado, tá puxado, tá difícil. E essa mudança estrutural da política, uma democracia em que você é obrigado a votar, eu não entendo isso, nunca entendi por que você é obrigado a votar em uma democracia, que gera esse bando de candidatos que na verdade são um bando de gente que vem pendurada em outros, só pra ocupar espaço, esses salários exorbitantes desses caras. Nem partidos de esquerda, que a gente já nem tem mais, se dignam a diminuir esse valor desses salários. Isso aí é um gasto absurdo para o povo brasileiro manter esses caras lá, no nível que eles vivem e usufruem. Cara, tudo errado! Universidades sucateadas, saúde sucateada, a dignidade do povo sucateada. Olha, eu realmente não estou com palavras muito boas para te dizer em relação a isso.

*

Veja Rita Benneditto em De mina (Josias Sobrinho):

Lula cá

Foto: Zema Ribeiro

 

Quando Luis Jorge Gonçalves dos Santos, 62 anos, responde minhas perguntas, nem vejo sua boca se mexer, oculta por uma enorme barba grisalha. É dessa semelhança física com o Lula roots candidato à presidência pela primeira vez em 1989, que ele ganhou o apelido que batiza a Barraca do Lula, há oito anos na Praça Deodoro – logradouro em que o maior líder político da América latina fez comício naquela campanha, com direito a show da banda punk Amnésia, que tinha Marcos Magah no vocal, mas isto é outra história.

Lula foi garçom, maitre de restaurante, camelô e feirante, “sempre na dificuldade”, qual o xará e sósia famoso. Quando pergunto se ele topa me dar uma entrevista rápida ele aperta minha mão e diz para deixar para uma próxima oportunidade. Espero-o atender uma moça de vestido azul que pede uma água de coco e insisto, tendo por mote a visita do presidente metalúrgico à Ilha amanhã. Ele topa e ligo o gravador por menos de 10 minutos.

“Meu pai morreu eu tinha nove anos de idade, fui criado por padrasto e caí na vida, estou aqui até hoje, graças a Deus. Minha vida é essa. Lula e Lula mesmo. Sempre votei nele e vou votar para sempre. Com muita emoção”, revela o evangélico hoje afastado da igreja, fanático pelo líder petista.

Lula é casado, tem cinco filhos, quatro netos e retira o sustento da barraca, ornamentada por frases como “se a sua estrela não brilha, não tente apagar a minha”. Ele não tem cadastro em nenhum programa social.

Por que Lula? “Pela capacidade, trabalho, honestidade, é um homem direito, trabalhou para o pobre. Não existe outro presidente sem ser ele. Em primeiro lugar, Deus, depois ele. Lula é Lula. É indo e voltando Lula. Pode viver 10 anos, 20 anos, ele pode estar preso eu voto nele”.

Pergunto se ele participará do ato amanhã (5), às 17h, na Praça Pedro II, Centro. “Estou com uma esperança louca de ir lá. Vou falar com meu filho para ficar aqui amanhã. Nem que eu feche eu vou lá amanhã”.

Sobre o governo da sucessora, comenta: “A Dilma foi uma ótima mulher, o negócio é que se entregou pro Temer. A confiança foi tão grande nele que ele traiu ela, uma mulher guerreira”. Um homem aparece pedindo para trocar 50 reais. “Não tenho”, avia Lula, que já havia tido dificuldade para tirar o coco de 20 reais. “A esperança é essa, é que Lula volte e ela volte também”, continua. “Eu espero que Lula volte, em nome de Jesus. Ninguém vai tirar ele, não tem aquele tal de Moro. Por que ele não prende Temer, que é o chefe da quadrilha? Foi tudo descoberto, mas ninguém tem coragem de prender. O que Lula fez? Dar trabalho pra pobre, colocar negro na universidade, ter casa, ter seu carro, ter sua moto, tudo. Deficiente empregado, com seus direitos”, enumera.

E como Lula avalia o governo do ilegítimo? “Péssimo, daí pra pior. Não tem pra onde correr. Um homem desses já era para estar preso. Aqui no Brasil não tem lei. Por que Lula está hoje sofrendo? Por que é guerreiro, não se entrega, e não se entrega por que não deve. Isso é um meio de tirar o homem do poder”.

Golpe após golpe, desde o que apeou Dilma Rousseff do poder, comento a possibilidade de não haver eleições em 2018. O Lula da Deodoro vaticina: “Não tem pra onde correr. Tem eleição direta, já. E o homem é Lula. Não tem ninguém para botar frente a Lula”.

Pergunto se ele já foi filiado ao Partido dos Trabalhadores e Lula revela uma árvore genealógica petista: “Meu tio era do PT, foi vereador, mas já faleceu. Era um camelô, Pilão”. No entanto não sabe precisar quando foi sua legislatura. “Faz mais de 20 anos, já”, arrisca.

“Outro que é guerreiro também, o [hoje no PcdoB e prefeito de Paço do Lumiar Domingos] Dutra. Lutou, foi perseguido por que trabalha certo. Quando se trabalha certo os maiores perseguem para tomar o poder, para fazer merda, avacalhar. Mas Deus não vai deixar”, lista colocando Dutra ao lado de Lula.

Sobre perseguidos e perseguidores, indago-lhe sobre a aliança de Lula com Sarney. “Sinceramente o Lula fez uma grande besteira ao se unir com Sarney. Podia ter sido melhor ainda, sem Sarney. Todo político é obra de Sarney”. Espanto-me: todo? “É, a maioria é, o único que não é, é Lula. O único que não foi obra de Sarney, mataram, que foi o doutor Jackson Lago”.

E o governador Flávio Dino? “Ele tá trabalhando, com toda dificuldade, sem dinheiro, está trabalhando. Para trabalhar aqui no Maranhão tem que ter dinheiro, ele está sem dinheiro, mas está trabalhando”.

Observo o entorno, a Praça Deodoro tomada por barracas. Lembro de episódios envolvendo a Blitz Urbana, derrubando até mesmo construções de alvenaria em alguns pontos da cidade. Indago-lhe se não teme o futuro. Ele afirma, convicto, logo voltando à pauta de nossa conversa: “Camelô não é invasor. Tem sindicato, associação. Se Lula ganhar, melhor ainda. Com o apoio de Lula, o apoio de Flávio Dino, nós vamos ficar para sempre aqui. Até Deus mandar ele [Lula] embora. A perseguição a Lula foi grande, ainda é, matou a Marisa, mas Deus é maior”.

Agradeço a gentileza do papo e peço uma água. Ao sacar a grana para pagar ele abre um sorriso e manda: “cortesia do Lula!”.

“Há uma regressão generalizada no campo dos direitos humanos”

A avaliação, sobre o Brasil de hoje, é de Paulo Vannuchi, ex-ministro dos Direitos Humanos do governo Lula (entre 2005 e 2010), e membro da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (eleito em 2013, tomou posse no ano seguinte). Ele está em São Luís para proferir a palestra Sistema de Direitos Humanos: instrumentos e estratégias para efetivação de direitos.

Vannuchi volta à Ilha a convite da Secretaria de Estado dos Direitos Humanos e Participação Popular (Sedihpop). Aberta ao público, a palestra acontecerá hoje (16), no auditório da Secretaria de Estado da Fazenda (Sefaz, Av. Carlos Cunha, s/nº, Calhau), a partir das 15h.

Graduado em Jornalismo e mestre em Ciência Política, Vannuchi participou da militância política nas comunidades de base da Igreja Católica, em defesa de opositores ao regime militar perseguidos pela ditadura. Trabalhou na elaboração do livro Brasil nunca mais, dossiê coordenado por Dom Paulo Evaristo Arns, que listou nomes de torturadores e métodos utilizados nos porões da repressão. Sempre foi um crítico de que a Lei da Anistia, de 1979, beneficiasse também agentes do regime, assunto que ele aborda nesta entrevista exclusiva a Homem de vícios antigos.

Por telefone, a caminho de um ato em São Bernardo do Campo/SP, ele explicou o que são sistemas de direitos humanos, comentou retrocessos vividos em diversos temas após o golpe que destituiu Dilma Rousseff da presidência da república, e ainda o papel dos meios de comunicação em sua consolidação, no discurso de ódio que já extrapola o ambiente das redes sociais e na visão conservadora que a sociedade em geral tem dos direitos humanos. Leia a entrevista.

Foto: Marcello Casal Jr./ Agência Brasil

O senhor vem à São Luís falar de Sistema de Direitos Humanos. Quando falamos em sistema, pensamos imediatamente nos de Saúde e Assistência Social, por exemplo. O que vem a ser um Sistema de Direitos Humanos e qual o exemplo possível de um estruturado e em funcionamento?
O sistema de direitos humanos é uma existência concreta no âmbito internacional. Nós temos dois: o sistema ONU, das Nações Unidas, com sede em Genebra, no Conselho de Direitos Humanos, permanente, com representação de dezenas de países e todo um processo de acompanhamento dos vários temas de direitos humanos. E temos o sistema interamericano, que tem uma sede da comissão em Washington e uma corte na Costa Rica. Desses dois sistemas deriva a proposta de cada país construir também o seu sistema, como você disse, à imagem e semelhança de um sistema único de saúde, que articula os entes federados: União, estados e municípios. A minha ida à São Luís é a convite da Secretaria de Direitos Humanos do Governo do Estado. O governador Flávio Dino é uma pessoa com quem eu já tive parcerias aí, como na homenagem ao maranhense Ruy Frazão, que hoje tem lá uma homenagem a ele na escola, no Liceu do Maranhão, que ele foi estudante. Acompanho a trajetória do governador, me senti muito honrado com o convite. Eu iria para conversar, sobretudo com prefeitos, houve uma coincidência de uma importante reunião da confederação de prefeitos [a Federação dos Municípios do Estado do Maranhão (Famem)] e nós vamos fazer uma discussão geral. Então eu quero levar informações sobre o sistema Nações Unidas, sobre o sistema interamericano, onde eu sou membro da comissão para um mandato de quatro anos, e trabalhar, aprender mais sobre o Maranhão, conhecer as experiências, sobretudo na questão criança e adolescente, na questão de combate ao racismo, pessoas com deficiência, do direito LGBTI [lésbicas, gays, bissexuais, transexuais e intersexuais], do direito à diversidade sexual, e também os chamados direitos econômicos, sociais, culturais, isto é, direitos humanos não é um tema só sobre presídios, sobre a questão das pessoas em conflito com a lei. Direitos humanos é também educação, saúde, direito ao trabalho, direito à comida, sobretudo. A viagem tem um caráter de um diálogo em que eu levo informações sobre a minha experiência como membro da comissão interamericana, como ministro dos direitos humanos do presidente Lula por cinco anos, e também aprendo sobre o Maranhão e quem sabe discutimos possíveis integrações do Maranhão com o sistema interamericano de direitos humanos da OEA.

Como o senhor, que foi ministro de direitos humanos no governo Lula, avalia a trajetória desta política no Brasil ao longo dos últimos 15 anos?
Eu diria um pouco mais. Embora do ponto de vista partidário eu seja uma pessoa muito vinculada ao presidente Lula, ao PT, eu sou assessor do presidente Lula há mais ou menos 37 anos, é muito tempo. Quando ministro dos direitos humanos eu disse várias vezes em eventos oficiais, e também escrevi várias vezes, que havia uma trajetória histórica de consolidação dos direitos humanos que não era como uma política de governos, e sim uma política de Estado, e que mesmo no período Fernando Henrique Cardoso, que é o adversário central, o antípoda do Lula no cenário partidário brasileiro, também no período do Fernando Henrique houve avanços em direitos humanos. Isso foi uma insistência, e deve ser uma insistência, também dos órgãos estaduais. Claro que o governo nasce de eleições populares com um programa que tem que ser seguido por que a maioria do eleitorado aprovou. Agora, políticas de Estado são aquelas que você cria e que mudanças de governo não podem anular. Por exemplo, o Brasil hoje tem no plano federal uma política oficial de desmontar as políticas sociais do período Lula e isso é muito errado. Em direitos humanos, no meu período de cinco anos, nós não fizemos isso de uma maneira mesquinha, estreita, com relação ao legado do período Fernando Henrique. O Fernando Henrique foi responsável pelos dois primeiros programas nacionais de direitos humanos, um de 1996 o outro de 2002. O Brasil foi então um dos primeiros países a criar este seu plano nacional e eu fui ministro quando uma conferência nacional com participação de 14 mil pessoas, duas mil presentes em Brasília, essa conferência aprovou o esqueleto do PNDH 3. Nesse sentido o que é preciso dizer é que a afirmação histórica dos direitos humanos enfrenta de um ano pra cá, de dois anos pra cá, todo esse período, de ódio, de intolerância, uma regressão brutal. Há órgãos de imprensa inclusive fazendo campanhas de intolerância, de ódio, que podem levar a este episódio de fim de semana nos Estados Unidos, Charlottesville, a retomada do racismo, do ódio, supremacia branca, até propaganda nazista. Então o discurso dos direitos humanos tem que procurar sempre ser um discurso amplo, um discurso que chame partidos que estão se opondo na arena política eleitoral imediata, a mostrar que determinados princípios têm que ser comuns a todos: a não violência, a tolerância, o respeito à diversidade, ao diálogo, e isso inclusive quando chega num tema muito espinhoso, como é o tema do sistema prisional, por que uma parte da sociedade entende que, “bom, são criminosos, têm que ser exterminados, olho por olho, dente por dente”, e o pensamento dos direitos humanos é diferente, o pensamento está muito centrado nas ideias que estão até no evangelho de você ser capaz de perdoar, de ser tolerante, e de reincorporar, reeducar e ressocializar. No caso do Maranhão, recentemente episódios graves como Pedrinhas, e cada estado brasileiro terá seu exemplar desse tipo, e mais do que isso, cada um dos 35 países que compõem a OEA. Agora, é preciso divulgar na sociedade que, primeiro, um criminoso tem direito de cumprir a pena, tem direito de eventualmente provar a inocência, já houve muitos casos de pessoas condenadas que mais tarde descobriu-se que o assassino não era aquela pessoa, no caso da pena de morte a pessoa já foi executada quando aparece a prova de que a pessoa era inocente. A gente sabe que ao fazer esse discurso vai na contramão do pensamento comum, que acha que não, que “uma vez que é um criminoso tem que ser exterminado”. As pessoas se esquecem que muitas vezes até um filho daquela família pode ser levado numa prisão e muitas vezes colocado nessa vala comum, são todos bandidos, têm que ser exterminados.

Durante sua gestão como ministro dos direitos humanos o senhor defendeu a revisão da Lei da Anistia, uma lei que acabou por contribuir para a impunidade de agentes da ditadura militar brasileira. O Brasil é o único país da América Latina em que houve uma ditadura que não puniu torturadores. Sua indignação com a Lei da Anistia continua válida? Este debate precisa ser retomado?
Eu nunca defendi a ideia da revisão, a palavra revisão. O que eu defendi é que o Supremo Tribunal Federal, decidindo sobre uma ação da OAB [Ordem dos Advogados do Brasil], uma ADPF, arguição de descumprimento de preceito fundamental, que foi apresentada pela OAB na gestão de César Brito, com patrocínio do advogado, que é um ícone dos direitos humanos, Fábio Comparato, consultava o Supremo se a lei de anistia de 1979, tendo sido feita ainda no período ditatorial, se ela podia ou não proteger os torturadores, uma vez que a tortura é considerada no direito internacional dos direitos humanos como um crime imprescritível, ou seja, não passa tempo e não é passível de anistia ou de graça. O Supremo Tribunal Federal, na minha opinião, decidiu, por maioria, num caminho errado, considerando que sim, a lei de anistia de 1979 protege os torturadores. Agora, essa decisão, ela se choca de frente com os organismos da ONU e da OEA, que também, por opção voluntária do Brasil, precisam ser considerados parte do direito no Brasil. Esse impasse está mantido. O que eu consegui fazer na nossa gestão foi desbloquear o tema, com o presidente Lula enviando em 2010 ao legislativo um projeto de lei para criar a Comissão Nacional da Verdade. Agora, um ano depois o Brasil não tinha uma comissão da verdade, tinha cem. A Comissão Nacional da Verdade foi instalada pela presidenta Dilma, trabalhou durante dois anos e meio, e a sociedade civil proliferou comissões da verdade no âmbito do movimento sindical, das universidades, várias comissões oficiais, eu não sei agora de cabeça se o Maranhão teve ou não, Flávio Dino não era ainda governador.

Teve uma instalada na Assembleia Legislativa.
Então, a Assembleia Legislativa do Maranhão fez, a de São Paulo fez, o município de São Paulo fez, com Fernando Haddad, o governo estadual do Rio de Janeiro fez, com Sérgio Cabral, então o Brasil debateu como nunca o resgate das violações massivas de direitos humanos, e nós temos hoje um conhecimento muito superior do problema. Permanece a sua pergunta, que é a punição ou não. E a punição é necessária, não apenas por ser uma exigência do sistema interamericano, do sistema ONU, que exigem, na chamada justiça de transição, quatro pilares indispensáveis: o primeiro é o Estado nacional, o Estado brasileiro, no caso, reconhecer a sua responsabilidade pelas violações. Isso já foi feito, leis do tempo de Fernando Henrique, a lei sobre mortos e desaparecidos políticos, a lei que criou a comissão de anistia, ações do governo Lula, ações do governo Dilma, e até algumas poucas sentenças judiciais reconhecem essa responsabilidade do Estado. O segundo pilar é a necessidade de reparação. A reparação é indenizatória e isso também começou já no governo Fernando Henrique, mas ela é simbólica, que foi esse evento de São Luís do Maranhão, de oito anos atrás, que eu fiz ao lado de Flávio Dino, para homenagear uma pessoa que morreu na tortura, lutando pela democracia e pela liberdade, Ruy Frazão. O terceiro pilar indispensável é aquele que obriga o Estado a fazer a apuração rigorosa, a responsabilização individual: quem foram os responsáveis por aquele assassinato, por aquele desaparecimento. E por último, muito importante: políticas de não repetição. Mudar o ensino militar, levar as próprias academias militares das três armas a discutir direitos humanos, a superar crenças de doutrina de segurança nacional, combate ao inimigo interno, combate ao comunismo, etc. e tal. Você vê que Flávio Dino é um governador hoje do Partido Comunista [do Brasil, o PCdoB] e ele sempre insiste que o comunismo, pra ele, tem muito a ver com comunhão, a sua origem católica, estudou em Colégio Marista, a ideia da partilha, da comunidade, e não no sentido da Guerra Fria, que já acabou e muitas mentalidades mantém o mundo dividido em União Soviética e ocidente. Nesse sentido, o que falta no Brasil, sobretudo, são esses dois pilares dos quatro. O pilar da investigação apontando, “olha os assassinos de Vladimir Herzog foram fulano, fulano e fulano, seus comandantes”. Não quer dizer necessariamente que essas pessoas tenham que ser mandadas pra cadeia, muitas já morreram, outras estão com 80 anos. O que precisa é haver a condenação para que o Estado não deixe de ter claro que aquilo é condenável. Para que o torturador de hoje, ao torturar, saiba que daqui a 20 anos ele poderá ser punido. E as políticas de não repetição. A reparação simbólica envolve coisas que avançaram, eu falei da homenagem ao Ruy Frazão no Liceu do Maranhão, eu falei da troca do nome, aqui em São Paulo, do Minhocão, que se chamava elevado Arthur da Costa e Silva e agora se chama João Goulart. A gente gostaria de levar esse debate ao Maranhão no sentido de ver também várias outras passagens históricas das violações de direitos humanos ou da violação histórica no Maranhão, para que nos uníssemos nesses avanços, vermos o que falta fazer. O Maranhão tem figuras legendárias como Maria Aragão, Manoel da Conceição, líder camponês que num choque pela terra foi ferido a bala, perdeu uma perna, foi um dos fundadores do PT. A viagem é recoberta destes múltiplos significados.

Além das diversas comissões da verdade espalhadas pelo país, parece que a maior contribuição ao debate sobre a ditadura militar e consequentemente a tortura vem das artes, já que estes temas sempre renderam bons filmes, livros e peças de teatro, entre outros. Neste campo, o que o senhor recomenda?
A pergunta é muito oportuna por que envolve a percepção de que as nossas transformações de mentalidade passam vitalmente pela cultura. A ideia dos livros, das pesquisas, são centenas de teses de mestrado, de doutorado, que foram desenvolvidas no Brasil sobre esse tema, e estão sendo ainda. São vários filmes, são várias produções teatrais, algumas circulam pelo país, tem inauguração de monumentos, tem sítios da memória. E você tem toda razão, por que o que importa mesmo é levar isso agora adiante, inclusive a batalha das comunicações. Não pode, num estado como o Maranhão, a gente ficar limitado por cadeias, monopólios de comunicação que não informam sobre as coisas boas que um determinado partido político faz, um determinado governador faz, só informa sobre as coisas ruins. E nesse sentido o resgate da memória da democracia tem uma conexão com a batalha de hoje, por que no Brasil de hoje nós não estamos numa ditadura, mas no Brasil de hoje o estado democrático de direito sofre agressões. Existem figuras como Bolsonaro fazendo a propaganda fascista, nazista abertamente, e de fato também, qualquer debate sobre direitos humanos hoje tem que colocar em primeiríssimo plano chamar as pessoas de todos os partidos que vão disputar e se confrontar na eleição do ano que vem a ter um acordo nas ideias civilizatórias. Respeito ao ser humano, respeito aos mais pobres, políticas de geração de emprego, valorização dos salários, a ideia de que nós temos que conviver na democracia com opiniões políticas diferentes, e até opostas, mas resolvendo sempre com o compromisso de ninguém eliminar a vida de ninguém, ninguém desqualificar ninguém, matar as pessoas moralmente, como hoje se pratica no Brasil abundantemente, às vezes insuflados por cadeias poderosas de televisão. Isso é um erro absurdo, que terá preço a ser pago por todos os atores, inclusive por esses segmentos conservadores, que no seu ódio não entendem o quanto essa política raivosa também traz danos a seus próprios interesses de elite, dos setores empresariais. Em direitos humanos um princípio angular é o princípio da não regressão, não voltar atrás. O Brasil hoje, infelizmente, está numa etapa em que há uma regressão generalizada no campo dos direitos humanos. Todo debate tem que priorizar o bloqueio, a paralisação dessa regressão e a retomada de um caminho de avanço gradual. A cada ano o país ter um patamar um pouco melhor na questão da pobreza, da saúde, da educação, das condições do sistema prisional, do atendimento socioeducativo.

“Estamos indo ao encontro de alguma convulsão social”

Em São Luís para participar do 3º. Interconselhos – Encontro de Conselhos do Estado do Maranhão, Leonardo Boff concedeu entrevista exclusiva a Homem de vícios antigos

Quando Leonardo Boff (1938) devolveu o e-mail com as respostas à entrevista, assinou, ao final: “teólogo, filósofo, articulista semanal do Jornal do Brasil online e escritor”. Deixou de fora outros predicados, num gesto de desapego coerente com suas escolhas religiosas e políticas.

Trata-se de uma das maiores autoridades cristãs brasileiras, ainda que um processo movido pelo então cardeal Joseph Ratzinger, que viria a ser o Papa emérito Bento XVI, tenha tirado alguns poderes do catarinense de Concórdia junto à Igreja Católica, o que o levaria a desligar-se do sacerdócio em definitivo. Um dos expoentes da Teologia da Libertação, ele resume: “eu mudei de trincheira para continuar no mesmo campo de batalha”.

Leonardo Boff está em São Luís e participa hoje (1º.), às 14h, no Auditório Fernando Falcão, da Assembleia Legislativa, do 3º. Interconselhos – Encontro de Conselhos do Estado do Maranhão, audiência realizada pelo Governo do Estado do Maranhão, através da Secretaria de Estado dos Direitos Humanos e Participação Popular (Sedihpop), em parceria com o Fórum Estadual Interconselhos. Ele ministra a palestra “A participação popular frente à conjuntura nacional e regional: desafios e perspectivas”.

Em entrevista exclusiva a Homem de vícios antigos, Leonardo Boff comenta, entre outros assuntos, o tema de sua palestra, o processo junto à Congregação para a Doutrina da Fé, a cassação de Dilma Rousseff e o (des)governo de Michel Temer, sem nunca perder a esperança.

Foto: Agência Brasil

O Brasil vive uma crise de representatividade, em muito agravada com o golpe que destituiu a presidenta Dilma Rousseff do poder. Como o senhor avalia este cenário?
A deposição de Dilma foi um golpe de classe parlamentar, jurídico e mediático. O objetivo principal era acabar com os avanços sociais que metiam medo nos descendentes da Casa Grande. Eles não defendem direitos, mas os seus privilégios e se encostam no Estado para fazer seus negócios, com juros subsidiados e reserva de mercado. O outro motivo é alinhar o Brasil à política do império norte-americano para acabar com a linha de soberania e autonomia realizada por Lula e Dilma. Por isso houve presença norte-americana no golpe parlamentar, como o mostrou nosso maior analista Moniz Bandeira, entre outros.

Você visita São Luís para participar do 3º. Interconselhos, o Encontro de Conselhos do Estado do Maranhão, reunindo diversas instâncias de participação popular. Conselhos de Direitos são uma importante conquista na democracia no que se refere à participação popular. Qual a importância destes espaços na atual conjuntura?
Não podemos esperar nada de cima, do Parlamento e dos que controlam as finanças e manipulam o mercado. Estes não estão interessados num projeto de nação, mas de garantir a natureza de sua acumulação, que é uma das maiores do mundo. Apenas 77.400 biliardários controlam grande parte de nossas finanças (0,05% da população). As mudanças vêm daqueles que precisam delas, que são as classes oprimidas, subalternalizadas no campo e na cidade, com os aliados que não sendo da mesma classe, assumem sua causa. Eu espero que esses movimentos se articulem, ganhem as ruas e praças, pressionem os poderes centrais de Brasília e consigam uma reforma política com outro tipo de democracia participativa, onde eles, os movimentos, ajudem a formular os investimentos, a realizá-los e a controlá-los. Aí sim, teríamos um outro Brasil, o Brasil das maiorias. Os neoliberais brasileiros querem um Brasil menor, para uns oitenta milhões apenas. Os outros, os 125 milhões que se lasquem.

95% dos brasileiros avaliam mal o governo de Michel Temer, mas esta insatisfação generalizada não consegue extrapolar as redes sociais. Na atual conjuntura, qual o papel dos movimentos sociais, de defensores de direitos humanos, enfim, da militância, de modo geral?
Talvez uma frase do maior pensador cristão e africano, Santo Agostinho, do século V, nos dê a resposta: alimentar esperança, mas atender às suas duas belas irmãs: a indignação e a coragem. A indignação para rejeitar as coisas ruins. A coragem para mudá-las. Hoje os movimentos devem se indignar e mostrar isso nas manifestações, nas praças, nas redes sociais, nas rádios comunitárias e jornais dos movimentos e principalmente ter coragem para as mudanças que devem ser feitas na estrutura social. Esta é uma das mais injustas do mundo. Isso se faz pela política, participando, elegendo representantes confiáveis e querendo ter lugar nas decisões de governo, pois, a democracia implica participação. Sem isso ela é sua própria negação, senão uma farsa. Desenvolvi estas ideias no livro Virtudes para um outro mundo possível [Editora Vozes, 2005], em três pequenos volumes.

O Maranhão viveu durante décadas sob domínio oligárquico, só ocupando espaços na mídia nacional com tragédias e vergonhas. Para citar apenas dois exemplos, rebeliões em presídios e escolas funcionando em ambientes insalubres, para dizer o mínimo. O senhor tem acompanhado notícias daqui? É possível fazer uma avaliação do governo Flávio Dino?
Estive pouco no Maranhão em relação com outros estados. Estive muitas vezes quando em Bacabal era bispo Dom Pascásio Rettler [1968-89], que defendia os posseiros e era muito ameaçado de morte. Estive em Balsas para apoiar o bispo local que estava do lado da luta, os agricultores contra o avanço da soja transgênica. Outras vezes para participar de encontros das comunidades eclesiais de base, que segundo meu irmão teólogo Frei Clodovis [Boff], são das melhores do Brasil, porque agem com certa autonomia sem menosprezar o apoio dos bispos. Há uns três anos fui a um encontro para professores e professoras, em sua maioria, numa cidade histórica perto de São Luís. Fiquei estarrecido com o que as professoras e professores contavam, seus baixíssimos salários e o abandono das escolas. Tudo isso ainda sob o governo dos Sarney. De Dino ouvimos os melhores elogios, seja por suas intervenções no caso do impeachment, seja como está resgatando socialmente o Estado. É uma liderança em quem confiamos e oxalá tenha ressonância nacional e não apenas regional para o país sair da crise com lideranças novas, como a dele, com ética e novos projetos sociais. Em meu livro Do iceberg à Arca de Noé [Editora Mar de Ideias, 2002] desenvolvi tais perspectivas atinentes à realidade brasileira.

Como professor universitário, como o senhor tem recebido os golpes sucessivamente perpetrados pelo governo ilegítimo contra o ensino médio e instituições de ensino superior?
O que o atual governo está fazendo com a educação e suas instituições é um crime contra o país e o futuro de nosso povo. O propósito é criar apenas gente que aprende para fazer funcionar o sistema injusto e excludente que está aí, sem pensamento crítico, sem inovação. Um país só cresce e progride quando há uma educação séria e qualificada. Podem destruir quantas vezes quiserem a Alemanha, como fizeram por duas vezes, mas porque possui uma das melhores educações do mundo (eu tive o privilégio de fazer a universidade lá), sempre se levantará, como se levantou. Hoje é um dos países social e tecnologicamente mais avançados do mundo. Aqui a baixa qualidade da educação é mantida por razões políticas, para manter o povo submisso e eles com os seus privilégios assegurados. Um pobre a quem se negam as razões de sua pobreza, nunca irá se indignar e buscar transformações. Mais ainda: um povo mantido na ignorância, em qualquer nível, nunca dará um salto de qualidade em direção do desenvolvimento humano e justo. Eu venho da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), uma das melhores do Brasil. Está sendo literalmente desmontada, talvez, como se suspeita, para privatizá-la, talvez por ela ter um cunho claramente social. Todos, professores e terceirizados, não estamos recebendo seus salários inteiros desde janeiro. O décimo terceiro nem foi pago. E ouvimos que houve até suicídio de gente que se desesperou com as dívidas por não ter recebido o devido salário.

Ao longo dos últimos anos temos percebido o crescimento da bancada evangélica, com pautas nem sempre alinhadas a princípios verdadeiramente cristãos. Como teólogo, como o senhor enxerga essa junção de religião, poder, conservadorismo e obscurantismo?
O que a bancada evangélica faz é contra a constituição do Brasil. Na constituição ficou claro que o país é laico, quer dizer, não se orienta por nenhuma religião, e respeita a todas, desde que se enquadrem dentro da legislação que é para todos. Os evangélicos querem ter o privilégio de impor sua agenda, especialmente a ética, com referencia à família, à orientação sexual, ao respeito aos LGBTs e outras. Eles podem ter as opções deles, dentro do espaço de suas igrejas, mas é anticonstitucional e desrespeitoso para outros que pensam diferente, quando querem fazer o particular deles, o universal para toda a população. A eles dever-se-ia corajosamente aplicar a constituição com as proibições que ela aponta.

Percebemos diversos avanços da Igreja Católica sob o papado de Francisco. Dois pontos, no entanto, seguem inalteráveis: o matrimônio de sacerdotes e o sacerdócio de mulheres. Na sua opinião, isto ainda demorará a se tornar realidade?
Face aos grandes problemas da humanidade, com a pobreza da maioria, com eventuais guerras que podem dizimar a espécie humana, o agravamento do aquecimento global que pode por em risco o sistema-vida e o sistema-terra, esses problemas do celibato e do sacerdócio das mulheres têm sua importância, mas são de relevância menor. Eles interessam apenas aos católicos. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), quanto saiba, fez uma petição ao Papa Francisco para que os padres que casaram pudessem voltar com suas famílias e assumir responsabilidades pastorais. Outros avançam a proposta, simpática ao Papa, de ordenar leigos, especialmente aposentados, com boa integração familiar, para que pudessem atender espiritualmente, por exemplo, todo um conjunto de prédios. A meu ver, a tendência da Igreja Católica é seguir o que todas as igrejas já fizeram: tornar o celibato optativo. Quem quiser, fica celibatário e se deixa ordenar. Outros se casam e se tornam padres como os outros. Sou da opinião de que a Igreja deveria abrir também a possibilidade de as mulheres poderem receber o sacramento da Ordem e serem sacerdotes no estilo das mulheres, que é diferente daquele dos homens. Creio que, na medida em que o patriarcalismo, forte na Igreja oficial, diminuir, será mais fácil e normal tomar estas decisões. Ainda mais que a Igreja está dentro da globalização, pois em muitas culturas, especialmente na África, não se pode imaginar alguém ficar celibatário. O sentido tribal e comunitário torna o matrimônio dos padres uma exigência até agora não atendida por causa da dominação da cultura branca, ocidental e romana.

Por conta de um processo movido por Joseph Ratzinger junto à Congregação para a Doutrina da Fé o senhor perdeu alguns poderes dentro da Igreja Católica, desligando-se depois do sacerdócio. No entanto, graças a sua atuação junto a Teologia da Libertação, continua sendo um dos principais expoentes religiosos do Brasil. Há alguma disposição por parte do Papa Francisco no sentido de rever este processo?
Eu mudei de trincheira para continuar no mesmo campo de batalha. Deixei, sob fortes pressões, o sacerdócio, mas continuei fazendo teologia e tomando a sério a opção pelos pobres contra a pobreza, porque isto é o eixo estruturador da teologia da libertação. O atual Papa vem do caldo cultural e eclesial da teologia da libertação, de versão argentina, que é a teologia do povo oprimido e da cultura silenciada. Ele está levando as intuições desta teologia nossa para o centro da Igreja. Por isso está se encontrando com teólogos da libertação como com [os sacerdotes] Gustavo Gutiérrez, Jon Sobrino, Pepe Castillo, Arturo Paoli e outros. Quis conversar comigo, mas por razões de última hora, uma rebelião de 13 cardeais na véspera do Sínodo sobre a família, que ele devia acalmar, não pode me receber. Mas seguramente iremos nos encontrar em alguma viagem que fizer à Europa.

O Brasil vive uma situação surreal, com condenação de inocentes sem provas e liberação de culpados com toneladas de cocaína em helicópteros. O senhor é um homem de fé: é necessário ter esperança no Brasil, apesar de nossa classe política?
Quem perde a esperança está a um passo do suicídio, da morte voluntária. É o que não podemos e queremos. O povo brasileiro cultivou sempre em sua história a esperança, pois aguentou séculos de colonização espoliadora de nossas riquezas, três séculos de vergonhosa escravidão e duas ditaduras, a de Vargas e a de 1964. O momento atual é de participação e de ação, sempre com esperança. Entretanto, temo que estamos indo ao encontro de alguma convulsão social porque a desfaçatez e a sem-vergonhice do atual governo de tentar desmontar todos os benefícios que os dois governos do PT realizaram para milhões de cidadãos, não poderá perdurar. Haverá um momento de dizer: “Agora basta. Que se vayan todos”, como disse o povo argentino e pôs a correr um governo corrupto. O Brasil cresceu aos nossos próprios olhos, enchendo-nos de orgulho e também aos olhos do mundo de tal forma que ganhou o respeito e a admiração. Não vamos tolerar que isso se desfaça por aqueles que Darcy Ribeiro dizia: “temos as oligarquias mais reacionárias e com falta de solidariedade do mundo inteiro”. O insuspeito ex-presidente Fernando Henrique Cardoso em seus Diários da Presidência (1999-2000) [vol. 3, Companhia das Letras, 2017] chegou a confessar: “temos uma sociedade colonial, subdesenvolvida, arrivista, com muita mobilidade e, ao mesmo tempo, muita ganância”. São os atuais senhores da nova Casa Grande que querem que a maioria do povo volte à senzala. Isso não vamos permitir. Lutaremos com dignidade e valor.

[originalmente publicada na edição de hoje (1º.) do jornal O Imparcial]

A maturidade de Luana Carvalho

Sul. Capa. Reprodução

 

Sul e Branco são o par de discos recém-lançados por Luana Carvalho, que surgem juntos, em formato de cd duplo, mas funcionariam bem se lançados independentes entre si. Aliás, o conjunto ultrapassa os limites do formato álbum, em que se convencionou embalar um punhado de canções.

Branco. Capa. Reprodução

Sul e Branco são verdadeiros tratados artísticos, extrapolando o universo musical. Por seus encartes – com projetos gráficos e ilustrações de Diego Limberti – comparecem textos da própria Luana Carvalho, Gonçalo M. Tavares e Lenine, desenho de André Dahmer, artes plásticas de Tomás Cunha Ferreira, Kammal João, e poemas de Alice Sant’Anna, Eucanaã Ferraz, Sophia de Mello Breyner Andresen e António de Souza.

A cantora e compositora é filha de Beth Carvalho, mas a não ser pelo sobrenome que carrega, poderia prescindir do cartão de visitas. Isto é: não deveria ser necessário dizer de quem é filha para que se preste atenção ao talento. Não que seja crime ou pecado filha de peixe, peixinho ser: Luana Carvalho desponta madura. Entre outros filhos ilustres que comparecem aos discos estão João Cavalcanti (filho de Lenine), Davi Moraes (filho de Moraes Moreira) e Moreno Veloso (filho de Caetano), herdeiros cujos talentos também vão além do DNA.

“Tudo é samba” e seus trabalhos têm os dois pés no gênero, que moderniza sem desconfigurar. Luana canta e toca violão, escoltada pela banda base formada por Pedro Sá (guitarra, contrabaixo), Domenico Lancellotti (bateria, percussão, teclado e mpc) e Moreno Veloso (percussão, violoncelo), que com ela assina a produção fonográfica de Sul – e sozinho de Branco, disco em que a eles se somam Alberto Continentino (contrabaixo), Alexandre Caldi (flauta), Altair Martins (trompete), Bebê Kramer (sanfona), Bruno di Lullo (contrabaixo, teclado), Davi Moraes (guitarra), Lucas Vasconcellos (guitarra, contrabaixo), Marcelo Caldi (sanfona), Marlon Sette (trombone), Pedro Luís (violão e percussão), Rafael Rocha (bateria e mpc) e Ricardo Dias Gomes (contrabaixo e wurlitzer).

Sul é completamente autoral – ela assina sozinha suas sete faixas. Em Branco, à sua lavra juntam-se Lucas Castello Branco (Garupa, parceria com Luana Carvalho), Pedro Luís (Luz do âmbar e Indivídua, parceria com João Cavalcanti), José Chagas (Palavra acesa, poema musicado por Fernando Filizolla), Domenico Lancellotti (Ar para jantar, parceria com André Dahmer), Caetano Veloso (Força da imaginação, parceria com D. Ivone Lara, que participa da faixa cantando e abençoando). Gravados em Nova York, ainda há espaço para a brasileiríssima Luana Carvalho esbanjar latinidade na regravação de Paloma negra (Janney Marin/ Joaquin Aguirre/ Tomas Mendez/ Julio Reyes).

Por e-mail, Luana Carvalho conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos. Atenção, produtores!: ela começa a conversa revelando sua vontade de voltar ao Maranhão, que muito visitou acompanhando sua mãe em turnês na infância. Suas respostas só reafirmam o que atestam seus discos: é artista que já nasceu pronta. Mesmo quando aparentemente se esquiva, não desconversa: ela desconcerta.

Foto: Tati Domais

Sul e Branco são dois discos independentes e diferentes entre si, que funcionariam se lançados separadamente. Por que a decisão de lançá-los como um álbum duplo?
Primeiro quero dizer que estou bastante feliz com esta entrevista. O Maranhão é um dos estados que mais gostava de ir quando acompanhava minha mãe em turnês na infância. Quero muito voltar aí. À pergunta: porque são dois organismos diferentes com o mesmo sangue. O Sul não existiria sem o Branco. Não no sentido cronológico natural de um trajeto, mas porque foi feito em estado de espera: enquanto o Branco corria pelas burocracias. Foi ouvir o Branco que me levou aos vazios onde construí o universo de composições do Sul. E por ser mais íntimo e o mais próximo de mim agora, era justo que chegasse primeiro. O Sul é o convite. O Branco é o endereço do baile.

Teus discos, aliás, ultrapassam o conceito de álbum, ao propor um diálogo entre diversas formas de expressão. Além da música estão lá a poesia, a prosa, as artes plásticas. Num tempo em que fala-se tanto na derrocada da indústria fonográfica e na morte do disco físico, é ousado valorizar tanto este suporte?
Não ouso ousar. Porque não acredito em rupturas. Acho que tudo é fluxo e contínuo e já foi visto em algum lugar. É cíclico: o preto e branco levam ao excesso de cores e brilho que levam ao preto e ao branco, o objeto leva à nuvem que leva ao objeto. Hoje prefiro o preto e o branco, amanhã não sei. Quanto ao disco físico, preciso do equilíbrio dos sentidos; ouvir o disco, tocar no disco, o cheiro do disco, o manuseio das páginas de um encarte. Também adoro poder dar dois ou três cliques e ouvir um álbum inteiro ou fragmentado, não deixa de ter tato e há um desafio interessante aí. Tanto pro artista quanto pro ouvinte. Portanto não se trata de saudosismo. Mas o objeto ainda me toca, me dá a sensação de todo da obra, de estar mais próxima do que realmente queria o artista com aquele trabalho incluindo o peso, a textura. As coisas têm vontade. Gosto de me debruçar sobre as coisas, reverenciá-las. Toda vez que me refiro ao meu disco acabo dizendo livro. Talvez pelo desejo de um dia escrever um. Acho que a necessidade de aferir à coisa algum valor equivalente pode ser a causa deste ato falho. O disco Livro [1997] do Caetano tem um dos melhores títulos que já conheci, pena que não pensei nisso antes [risos].

Qual o peso e a responsabilidade de ser filha de Beth Carvalho?
Tem cinco minutos ou a vida inteira?

E de ter a bênção de Dona Ivone Lara?
Isso é o tipo do acontecimento que faz diferença todos os dias naquele instantinho em que abrimos os olhos e revemos a vida inteira. É uma honra que carrego no dorso aonde quer que eu vá.

Em algumas músicas você evoca a Mangueira, escola de sua mãe, mas o álbum é tingido do azul e branco da rival Portela. De que torcida você faz parte?
Torço pelo carnaval.

Sua mãe é uma das maiores cantoras do Brasil em todos os tempos, mas quase nunca entra em qualquer lista do tipo, por ser rotulada de sambista. A seu ver, apesar dos avanços e da aceitação social que o gênero passou a ter ao longo dos anos, ainda há muito preconceito?
Como diriam o João Gilberto e o Pedro Sá: tudo é samba. Mas infelizmente nem todo mundo tem a sensibilidade musical de um João Gilberto ou de um Pedro Sá. A subestimação do samba é uma implicação sociopolítica. Muito mais complexa do que sou capaz de analisar. O João costumava dizer que minha mãe é a maior cantora do Brasil. Era o que ele dizia. E como também disse Augusto de Campos: João é João, nenhuma perda. Por acaso hoje, quando escrevo, é aniversário dele [10 de junho]. Viva o samba! Viva João!

“Se minha mãe mandar eu obedeço”, você canta em Oxum, minha mãe. Era inevitável ser artista? Gostaria que você comentasse um pouco o ambiente familiar e esta escolha.
Não era inevitável pelo ambiente familiar, podia ter desviado. É inevitável porque é o que mais gosto de fazer dos meus dias: música de toda poesia que percebo no mundo.

O que sua mãe achou dos discos?
Acho que ela gostou muito dos discos. Sinto o respeito de uma veterana pelo meu trabalho, mais do que uma reação amorosa de mãe. Isso me dá muita alegria. Mas aí só você perguntando a ela.

Em Sul e Branco você se cerca de uma geração relativamente nova, talentosíssima e onipresente: os caras tocam com todo mundo. Como se deu essa escolha e como foi gravar com eles estes dois discos?
Foi fácil e assustador. Porque os caras realmente entenderam tudo e isso facilita muito. E os caras realmente entenderam tudo e isso assusta mesmo. Muito por causa do Moreno, que soube me ouvir e conduzir tudo com profunda sensibilidade poética. Ele me emprestou a turma e eu nunca mais saí do pátio. Mas o caminho é mais complexo do que parece. Embora sejam realidades aparentemente próximas à minha, eu vim de longe para encontrá-los. E ainda bem que o fiz.

Suas releituras têm bastante personalidade, você imprime algo de autoral nas regravações que faz. É o caso, por exemplo, de Palavra acesa, do paraibano José Chagas, que acabou se tornando maranhense, já que foi aqui que viveu a maior parte de sua vida. Por que a escolha? Você conhece a obra de Chagas além desta música?
Obrigada! Conheço e amo a obra de Chagas, sim. “Violeiro sem viola”. Homem da palavra de repente. Compartilhamos a paixão por telhados e ripas: o interesse no que acontece sob eles. Palavra acesa é um poema lindíssimo! Na versão musicada seus autores parecem ter sentido o poema – como dizia Chagas sobre as pessoas diante do mundo – antes de compreendê-lo. Por isso a beleza da canção. Sinto muito os movimentos das horas antes de compreender. E a música que faço é só por causa da poesia, no sentido amplo do poético; aquele avião que passa e meu dia nunca mais será o mesmo, o cheiro impregnante da tangerina e do café, a plataforma que se ergue no mar sem que eu tenha me dado conta, os instantinhos. Este grande versificador paraíba-maranhense foi fundo na humanidade, sabia a poesia do mundo apesar do poema, a poesia que está além do poema, e chegou a dizer que haverá um dia em que não haverá mais o poema, porque só a música é verdadeiramente necessária. Não sei se há razão nisso, mas certamente há poesia. E onde houver poesia, minha música será possível.

Talvez seja cedo para falar em próximo disco, mas quando formos falar dele devemos nos referir ao segundo ou terceiro disco de Luana Carvalho?
Como vocês preferirem!

*

Ouça Indivídua (Pedro Luís/ João Cavalcanti):

O canto de Juraildes

Juraildes da Cruz começou a despontar em festivais de música em 1976, mesmo ano em que Xangai lançava seu primeiro disco. Sua estreia fonográfica só aconteceria em 1990, com O cheiro da terra.

O baiano é um dos maiores intérpretes do tocantinense, responsável pela popularização de seu talvez maior hit, Nóis é jeca mais é joia – título de um disco que dividiram, lançado pela Kuarup em 2005 –, uma crítica a nosso complexo de vira-latas, com seu refrão direto: “se farinha fosse americana, mandioca importada/ banquete de bacana era farinhada”. A música venceu o Prêmio Sharp (hoje Prêmio da Música Brasileira) em 1998, na categoria melhor música regional.

Outras composições de destaque de Juraildes da Cruz são Dodói (gravada por Titane em Sá Rainha, de 2000), Quem ama perdoa (lançada por Genésio Tocantins e regravada por Xangai em seu disco mais recente), e Meninos (gravada por Dércio e Doroty Marques no antológico Monjolear, disco infantil de 1996), que parece traduzir sua sina: “quero acordar com os passarinhos/ cantar uma canção com o sabiá”, diz um trecho da letra.

Versátil, sua música pode tanto trazer crítica social quanto cantar o cotidiano de camponeses ou o amor, o mais universal dos temas. Tudo isto certamente comparecerá ao repertório de sua apresentação no próximo domingo (7), às 16h, no Sarau Sereno Cultura e Arte (Rua das Perçoeiras, 100, Quintas do São João), em São José de Ribamar, com ingressos popularíssimos a apenas R$ 10,00. A primeira visita do artista ao Maranhão aconteceu há mais de 10 anos. Ele conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.

Juraildes da Cruz se apresenta neste domingo em São José de Ribamar. Foto: divulgação
Juraildes da Cruz se apresenta neste domingo em São José de Ribamar. Foto: divulgação

É a primeira vez que você vem ao Maranhão?
Não, a primeira vez foi em 2005, pela Funarte [a Fundação Nacional de Artes, órgão vinculado ao Ministério da Cultura].

Naquela ocasião você chegou a passear, conhecer algo?
Dessa vez que eu estive aí pela Funarte não tive a oportunidade de passear, conhecer o Maranhão, por que foi bem rápido.

Nessa vinda agora, com mais tempo, pretende conhecer? E da música do Maranhão, você já foi apresentado a algum nome? Há alguém de quem se lembre?
Não sei se dará tempo, mas será uma boa oportunidade. Conheço Zeca Tocantins, Carlinhos Veloz, Zeca Baleiro…

Você começou a carreira na mesma época em que Xangai, no entanto tem uma discografia menor. A que você credita isso?
Eu não comecei a carreira na mesma época; eu comecei muitos anos atrás, em 1976, 78, em festivais, participei do festival da Tupi, onde participaram vários ícones da música popular brasileira, na época começando, Oswaldo Montenegro, Elba Ramalho, Zé Ramalho, até o Caetano Veloso participou desse festival, Jackson do Pandeiro estava lá. Nós tivemos a oportunidade de participar desse festival, então aí que a gente começou. Eu comecei mesmo a partir de meu primeiro disco, que foi em 1990. O primeiro disco do Xangai foi em 1976 e o meu primeiro foi em 1990, então há uma caminhada já bem longa do Xangai, bem anterior à minha.

Suas músicas mais conhecidas foram gravadas por Xangai, Genésio Tocantins e Titane. O que estes parceiros e intérpretes significam para você?
O Genésio Tocantins foi meu primeiro parceiro, a gente trabalhou juntos, passamos por vários festivais. Xangai foi meu maior incentivador, admira meu trabalho, grava músicas minhas até hoje, e a Titane também gravou uma música, Dodói, são pessoas assim, que ajudaram a semear a semente de Juraildes da Cruz.

Qual a base do repertório desta sua apresentação em São José de Ribamar?
A base do repertório são algumas músicas mais conhecidas. Como é um público mais específico, tem músicas novas, músicas de reflexão, músicas com uma leitura de nosso tempo, nossa sociedade, e também ligadas ao lado espiritual.

Sua Nóis é jeca mais é jóia venceu o Prêmio Sharp, atual Prêmio da Música Brasileira. Passado algum tempo e após o sucesso da música, o brasileiro parece ainda não ter se livrado de seu complexo de vira-latas. Por que você acha que o brasileiro aprecia tanto e tenta imitar o que vem dali, às vezes pouco se importando com artistas e obras mais interessantes?
Na verdade, os maiores meios de comunicação do Brasil são, nada mais, nada menos, do que uma central dos Estados Unidos em nosso país. Como já dizia Elomar, a maior ogiva nuclear que os Estados Unidos lançou no mundo não foi a bomba atômica, e sim o cinema, onde eles colocam, através do cinema, sua cultura, seu jeito de ser, a sua aparentemente melhor maneira, a melhor moda, entende? Então o Brasil não é diferente de outros países que são minados em sua cultura, em seus costumes, pela força da mídia internacional. O que parece que vem de fora sempre será mais bonito para quem não tem uma informação, quem ainda é provinciano, no sentido de valorizar sua cultura. Então, vamos sempre ter essa, melhor não dizer sempre, um dia poderemos ser mais originais e valorizar mais o nosso quintal, o que é nosso, o que é Brasil.

Você falou sobre a interferência americana na soberania nacional. Como avalia o atual momento político vivido pelo Brasil?
O momento mostra um Brasil exposto, com todas as fraturas possíveis expostas, uma casa totalmente arrombada, sem dono e por isso mesmo sucateada de todos os lados. Realmente é o fundo do poço, só há uma alternativa: emergir, renascer. Acho complicado, pois não temos peças de reposição confiáveis. O ideal seria que novos no poder representassem mudanças, transformação pra melhor e que não fosse apenas um novo jeito de continuar sangrando o país.

Lembrando que este governo é machista, ano passado você venceu um concurso de músicas sobre a lei Maria da Penha. É uma preocupação tua, em teu trabalho, trazer sempre uma mensagem importante, de cunho social?
Meu pensamento tem uma função crítica também, é com se [eu] fosse um sentinela, observador dos acontecimentos. O compositor tem essa oportunidade de retratar a sociedade e tornar acessível, trazer de forma mais clara o que está oculto aos olhos da multidão.

*

Ouça Nóis é jeca mais é jóia (Juraildes da Cruz), com o autor:

Single dá pistas do novo disco de Marcos Magah

Cantor lança duas faixas em show nesta sexta-feira (21) no Odeon; disco novo sai em agosto

O cantor e compositor Marcos Magah lança nesta sexta-feira (21), às 21h, em show no Odeon Sabor e Arte (Praia Grande), o single Devolva meus discos do Odair José/ Tito (O que morreu esmagado por uma geladeira). Os ingressos, à venda no local, custam R$ 20,00.

As faixas não estarão no repertório de O homem que virou circo, terceiro disco de Magah, que será lançado em agosto. “Estas duas músicas indicam um caminho do que vai ser esse álbum. Eu não gosto de me repetir. Eu lanço uma coisa, eu não revisito. Esse single indica por que caminho nós vamos mais ou menos andar”, adianta.

Magah classifica Tito, parceria com o poeta Celso Borges, que participa da faixa, como “um xaxado psicodélico”. A música conta a história real de um homem que, como entrega o subtítulo, morreu esmagado por uma geladeira. Já Devolva meus discos do Odair José marca a estreia de Magah como intérprete – a música é uma parceria de Inácio Araújo e Leide Ana Caldas, de Os Carabinas, banda que abre a noite – que terá ainda discotecagem de Hugo Bodansky.

Para Magah, trata-se de “um típico clichê brega clássico”, dando mais pistas do que vem por aí. Ele conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.

"Tá cheio de artista chilique por aí, eu não sou desse tipo". Foto: Marco Aurélio
“Tá cheio de artista chilique por aí, eu não sou desse tipo”. Foto: Marco Aurélio

Você vai lançar um single, com duas músicas, revivendo a tradição de antigamente, dos compactos, neste caso antecedendo um disco cheio. Como você avalia esta, digamos, volta às origens da indústria fonográfica?
Eu acho que o vinil é uma espécie de “a volta dos que não foram”. O vinil nunca foi totalmente abandonado. Eu, particularmente, sou colecionador de vinil. Agora, falando concretamente sobre essa coisa de ele estar vindo e as pessoas se interessando, comprando, a indústria lançando, eu acho que a indústria está tentando no meio dessa confusão toda em que se transformaram as gravadoras e o mercado de música, tentando se reinventar, tentando encontrar um jeito de que isso possa continuar sendo consumido. Eu, quando vi aquele negócio de cd, nunca comprei essa ideia, tudo muito pequenininho, a parte gráfica perde muito. Eu sabia que o vinil, como um grande guerreiro, ia continuar vivendo. Eu acho maravilhosa essa volta do vinil, acho fantástico.

Tito é um personagem verídico e sua morte, esmagado por uma geladeira, de fato ocorreu. Gostaria que você comentasse um pouco este personagem, a ideia da homenagem e a parceria e participação especial do poeta Celso Borges.
Eu só falo o que eu vi. Tito, de fato, morreu esmagado por uma geladeira, por mais absurdo que isso possa parecer. Era um cara que trabalhava lá em Bacabal, em caminhão de mudanças. É uma cena meio maluca, surreal. As pessoas acham que uma pessoa não pode ser esmagada por uma geladeira. Claro que pode. Uma geladeira velha, sem gás, ela pesa. A geladeira da minha vó, pelo amor de Deus, eram uns quatro homens para carregar. Brinca também com esse universo, das coisas antigas que eu via na casa da minha vó. É uma homenagem minha ao Tito, um cara por quem eu tinha muito carinho, e ele por mim. A geladeira também pode ser vista como a realidade, essa realidade dura que a gente vive, que te esmaga. Todo dia a gente morre esmagado pela geladeira da realidade, uma realidade cada vez mais monstruosa, onde a vida se mostra cada vez mais dura, as pessoas mais duras, tudo está mais duro. A sensação dessa coisa do politicamente correto parece querer botar uma fleuma, uma pluma por cima disso, mas a realidade é muito complicada. A realidade é a geladeira, caindo por cima da gente todo dia. Eu comecei a pensar nessa música em São Paulo, quando eu estava com Celso. Celso Borges tem se mostrado um parceiro, é o parceiro mais ativo que eu tenho hoje, é a pessoa com quem mais eu faço música, com quem mais eu bato papo, peço ajuda, encho o saco dele. A gente começou a pensar em São Paulo. Chegando aqui, perto de gravar, a gente finalizou. Hoje a gente se chama de Tito um quando olha o outro [risos], “e aí, Tito? E aí, Tito?”. Celso é um parceiro, um amigo querido que eu fiz. Eu era um fã, que virou amigo, que virou parceiro. Já dá pra bater a biela com um pouquinho de orgulho [risos].

Devolva meus discos do Odair José também é, então, autobiográfica? Há algo de inspiração buarqueana aí, com o cantor sendo o teu Neruda?
Na verdade Devolva os meus discos do Odair José é a primeira vez que eu gravo uma canção que não é minha, de todo, de eu pegar e fazer tudo. O Inácio e a Leide certo dia me mostraram essa música no apartamento deles. Eu produzo muito, pra gravar música dos outros é complicado. Mas quando eu ouvi, eu falei: “ei, eu vou gravar essa música”, e eles não acreditaram. Eu peguei e gravei. É uma composição da Leide e do Inácio. É uma brincadeira com o Chico Buarque, “devolva o Neruda que você me tomou e nunca leu” [de Trocando em miúdos, parceria com Francis Hime]. É uma brincadeira que na verdade é uma sacanagem com o Chico Buarque, uma provocação.

Você se encontrou com Odair José recentemente, quando ele passou por São Luís para um show. Ele aprovou a homenagem e gravou imagens para um clipe teu. Conte um pouco mais desse encontro.
A gente se encontrou aqui em São Luís, ficamos de papo, foi uma experiência maravilhosa. Odair é um ser humano que vive em outro nível. Tu aprende tanto convivendo com um cara com uma alma como aquela ali. Odair é um ídolo, eu fiquei impressionado com o ser humano, com a figura dele. Parecia que eu tinha encontrado uma entidade. Nossa conversa foi muito sincera e muito aberta, por que nenhum dos dois está disposto a pagar de artista chilique [risos]. Tá cheio de artista chilique por aí, eu não sou desse tipo, quem me conhece sabe disso, e Odair com toda sua grandeza não tem isso. Foi ótimo! O que mais me impressionou, além da figura dele, foi o fato de ele dizer pra mim que já conhecia meu trabalho, que gostava, e que adorou a música do Odair José, ele disse que morria de rir da parte do Neruda. Como ele já conhecia meu trabalho, a conversa andou por outro nível. Ele falou que ia no youtube escutar, eu fiquei lisonjeado. Eu lembrei de mim aquele molequezinho que amava Odair José, e de repente eu estava do lado do cara. Ele ficou feliz com a homenagem. Em relação ao clipe nós estamos vendo isso. Isso e outras novidades que talvez venham por aí. Eu acredito que o Odair vá participar, sim. A gente vai fazer um clipe lindo em homenagem a esse gigante da música brasileira. Foi um encontro espiritual [risos], digamos assim.

É a primeira vez que Wellyson [Melo, produtor de Z de vingança] toca contigo em palco, não é?
É a primeira vez. Os meninos ficaram maravilhados com a técnica dele. Os meninos da banda estão tipo assim: “pô, esse cara é desse planeta?”. Ele está tocando teclados e efeitos. Ele toca todos os instrumentos, pra tu ter uma ideia. É a primeira vez que a gente toca junto, assim. Ele vai estar também no show do dia 6 [de maio], do Marcelo Nova [Magah abrirá o show do roqueiro baiano no Fanzine Rock Bar]. Ele veio para o Maranhão e está louco para se incorporar ao negócio da banda. “Magah, eu não quero só gravar, eu quero tocar contigo!”. É um gigante, é como se ele passasse um verniz naquela loucura toda. É um arranjador, de fato, um cara com uma formação. Não sei o que esse cara viu no meu som, até hoje eu sou encabulado com isso.

Cláudio Lima lança em maio disco novo, Rosa dos ventos, com duas músicas tuas. É um dos grandes cantores brasileiros em atividade. O que significa para você tê-lo como intérprete?
Claudio Lima é um dos grandes cantores brasileiros. Está lançando um álbum fantástico, eu tenho escutado direto. Pra mim é uma honra. Quando eu escuto ele cantando minhas músicas eu fico feliz pra caramba. É um grande amigo. É um cantor fantástico, eu tenho a maior admiração, como intérprete, como pessoa. Quero que ele cante mais músicas minhas. E vem aí um discaço. Claudio está com um trabalho fora de série na mão. Vamos aguardar!

Odair José foi censurado pela ditadura militar brasileira. Recentemente a banda Alafia, ao se apresentar no Cultura Livre, na TV Cultura, sem o consentimento da idealizadora, curadora e apresentadora do programa, Roberta Martinelli, teve trecho de uma música em que criticam Doria e Alckmin, censurado. Como você avalia o atual momento político e cultural brasileiro?
Eu vejo o passado, com o seu lado mais nefasto, visitando o presente. A gente está vivendo uma época, coisas que talvez há quatro, cinco anos, nós não imaginássemos que fossem voltar. A História é assim, não é retilínea, é uma cobra que se esgueira e às vezes morde o próprio rabo. A gente está vivendo esse mar revolto, essa confusão toda dentro da política, às vezes vendo artista sendo censurado, em pleno 2017. Eu sempre fui muito [interrompe-se], quando eu escutava “nós temos uma democracia constituída, e tal, tal, tal, sedimentada, com bases sólidas”, eu nunca acreditei muito nesse discurso. Você não pega 30 anos de ditadura, que acabou engessando essas instituições políticas de maneira geral e vê amadurecerem assim. Esses 30 anos de ditadura ainda não foram vencidos. Então a gente fica vendo essas voltas, uns Bolsonaros, uns oportunistas, esses momentos de crise, a História tem provado isso pra nós, de discursos mais conservadores, acabam voltando e dando um viés para a História inimaginável. Essa da censura é terrível. Existe um lado que eu vejo como importante e salutar da questão: a polarização do discurso. Eu acho que dessa confusão toda vão sair coisas melhores, vamos amadurecer essa polarização. Eu acredito no atrito, tem que ter o atrito para que as coisas avancem, se não fica todo mundo escovando o dente de todo mundo. Eu acredito que desse atrito a gente pode colher frutos e avançar como sociedade, e aí sim, de fato, sedimentar valores humanitários, tentar levar a humanidade pra frente. A polarização do discurso às vezes é necessária. A gente fica preocupado, como artista, como cidadão, a gente está de olho e não pode esquecer que somos partes ativas da História, precisamos estar ligados. Mar revolto, mar revolto total. Vamos torcer para que daí consigamos avançar de fato. Em todas as áreas, não só na artística. A gente vê um judiciário completamente maluco e capenga, confusão política dos infernos, é um momento realmente complicado. Mas eu acho que o caos é o prenúncio de um novo tempo.

Bloco do Baleiro: “o ritmo, a dança, a alegria”

Foto: Rama de Oliveira
Foto: Rama de Oliveira

 

Teve ótima receptividade mês passado o anúncio, pelas redes sociais, do Bloco do Baleiro, em que o anfitrião maranhense terá como convidados o paraibano Chico César e a paraense Fafá de Belém, além dos DJs Ademar Danilo e Jorge Choairy.

Os poucos que contrariaram o coro questionavam o pagamento dos cachês dos artistas, inventando uma falsa oposição entre a presença de três artistas renomados nacionalmente e a manutenção de manifestações da cultura popular, como escolas de samba e blocos tradicionais, entre outros.

Procurada pelo blogue, assim manifestou-se a Secretaria de Estado da Cultura e Turismo do Maranhão (Sectur), em nota: “o evento é realizado pelo Governo do Maranhão e pela Prefeitura de São Luís com o patrocínio da Skol, através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão. Pela parceria, o Governo do Maranhão ficou responsável pelos cachês dos artistas, a Prefeitura de São Luís pelo trabalho de bloqueio de vias e ordenação do trânsito, e a Skol pela produção do bloco”. A questão parece encerrada.

Nome fundamental no cenário da música popular brasileira ao menos nos últimos 20 anos – quando lançou Por onde andará Stephen Fry? [MZA, 1997], seu disco de estreia –, Zeca Baleiro é maranhense para além da geografia: ao longo de duas décadas de carreira tem sido um verdadeiro embaixador da arte e cultura maranhenses, produzindo discos, fornecendo composições e/ou participando de trabalhos de artistas locais, nomes entre os quais podemos citar – com o risco de esquecer muitos outros –, Antonio Vieira, Bruno Batista, Celso Borges, Chico Saldanha, Criolina, Flávia Bittencourt, Joãozinho Ribeiro, Josias Sobrinho, Lena Machado, Lopes Bogéa, Patativa, Rita Bennedito (antes Ribeiro) e Rosa Reis.

A realização do Bloco do Baleiro será certamente mais uma importante contribuição de Zeca à cultura do Maranhão. Ele conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.

Foto: Rama de Oliveira
Foto: Rama de Oliveira

Como surgiu a ideia e como foram as negociações para a realização do Bloco do Baleiro neste carnaval em São Luís?
Esse é um projeto antigo que eu e Samme Sraya, prima querida e produtora atuante no front cultural de São Luís, planejamos fazer há tempos. Mas só agora estamos tendo a chance de concretizá-lo. A ideia é fazer um grande baile num caminhão, uma “jardineira”, como os que deram origem aos trios elétricos, num circuito entre as praças da Casa do Maranhão e Maria Aragão. Um baile onde cantaremos de tudo, não só músicas “de carnaval”, mas música dançante em geral, de Tim Maia a Reginaldo Rossi. Será uma experiência, algo inédito, uma tentativa de aproximar o nosso show/bloco da tradição do carnaval de rua maranhense, ao invés de copiar modelos de carnavais de outros estados. Uma festa popular e gratuita. O único critério para entrar no cordão será estar fantasiado.

A principal força do carnaval da capital maranhense é a tradição do carnaval de rua, com suas diversas manifestações. Você passou a infância e a adolescência em São Luís. Quais as suas principais lembranças do período momesco na ilha?
Gostava muito de ver os blocos, os fofões, mascarados de rua… Nunca fui um grande folião, mas gostava de ver a festa. Tive um vizinho querido, o poeta e jornalista Paulo Nascimento Moraes, que saía todo domingo de carnaval fantasiado de fofão pelas ruas do Monte Castelo, uma figuraça. É uma lembrança muito lúdica e bonita que eu tenho da festa. E lembro também de alguns sambas-enredos antológicos, que quero homenagear no Bloco, como Haja Deus, da Flor do Samba, de Chico da Ladeira e Augusto Tampinha, e Bodas de ouro, de Zé Pivó, da Turma de Mangueira.

O Bloco do Baleiro terá como convidados Chico César e Fafá de Belém. Como será a participação deles e o que você diria a quem, por preconceito, torcer o nariz, dizendo tratar-se de artistas não identificados diretamente com o carnaval?
A quem torcer o nariz, sugiro que fique em casa, vendo o carnaval do Rio pela Globo. Mas para quem quiser se juntar a nós e celebrar com alegria, irreverência e música o carnaval, digo que venha. Eu, Chico e Fafá somos artistas identificados com o ritmo, a dança, a alegria. Isso deveria bastar. Mas, como diria Dias Gomes, quem abre caminho enfrenta as cobras.

São Luís parece despertar finalmente para experiências bem sucedidas como o carnaval do Recife, isto é, abrindo o leque, ampliando as possibilidades e realizando um carnaval verdadeiramente multicultural?
O carnaval de Recife é um grande exemplo de como a festa do carnaval pode servir de palco pra todo tipo de música ou manifestação cultural. Já toquei lá em mais de 10 edições, e sempre tem música pra todo gosto. Na mesma noite você pode ter shows de Ira!, Nação Zumbi, Zélia Duncan, Spok Frevo Orquestra, Elza Soares, Alceu Valença, rap, samba, frevo, rock, blues, tudo junto. E isso é lindo como proposta cultural.

Sua presença na programação do carnaval de São Luís tem um quê de afetividade, tendo em vista você ter nascido aqui, a evocação das memórias de que você já tratou. O que você e seus convidados estão preparando para o Bloco do Baleiro?
Sim, tem um quê de afetividade, de culto da memória também. Ainda vamos ensaiar, mas a ideia é dar um giro pela música dançante brasileira, do carimbó ao funk, do brega ao reggae. Estou preparando versões divertidas de clássicos da música pop também. O importante é louvar a alegria de viver num tempo tão obscuro como este em que vivemos.

Assista O abadá, versão bem humorada de Zeca Baleiro para Ob-la-di, ob-la-da (Lennon/McCartney), dos Beatles:

Um artista em constante metamorfose

Foto: José de Holanda
Foto: José de Holanda

 

O pernambucano Siba é um artista em constante processo de reinvenção. Entre meados dos anos 1990 e 2000 liderou o Mestre Ambrósio, banda que ajudou a consolidar o movimento manguebit. Com o fim do grupo, formou, com músicos da zona da mata pernambucana a Fuloresta do Samba. Só depois estreou em carreira solo, com Avante [2012], um bem-humorado disco de tons autobiográficos.

Em 2015 lançou De baile solto (seus discos solo e com a Fuloresta estão disponíveis para download no site do artista), com letras em geral com conteúdo político de grande força. Em Marcha macia, que abre o disco, por exemplo, criticava a tentativa de ingerência do poder público de mexer nas tradições dos maracatus em Pernambuco, com que trocadilha o título do álbum.

De baile solto foi o disco com cujo show Siba baixou na ilha no final de 2015, no Festival BR 135. Ele volta à cidade amanhã (10): se apresenta às 22h no Fanzine Rock Bar (av. Beira Mar, Praça Manoel Beckman, próximo à Delegacia da Mulher, Centro). Os ingressos custam R$ 40,00 (20,00 para estudantes com carteira e demais casos previstos em lei).

A produção local do show é novamente do BR 135, que pretende, ao longo do ano, realizar algumas apresentações, como a preparar o clima para o grande festival no Centro histórico – a edição de ano passado teve, entre as atrações, os também pernambucanos da Nação Zumbi.

Na apresentação de amanhã Siba (guitarra e voz) será acompanhado por Atife (guitarra), Thomas Harres (bateria) e Mestre Nico (percussão e voz). O artista conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.

Foto: José de Holanda
Foto: José de Holanda

Qual a base do repertório do show desta sexta em São Luís?
Esse show tem uma formação reduzida, é um quarteto que vai aí pra São Luís. São duas guitarras, bateria, percussão e vozes, e eu tenho usado este formato pra experimentar com repertório de vários momentos, desde a Fuloresta, do Avante, e também bastante coisa do De baile solto. Mas é uma formação que tá em metamorfose, sempre experimentando novas possibilidades, já tentando talvez apontar aí a direção para um novo projeto, esse ano ainda ou no ano que vem.

Em De baile solto você volta pela primeira vez em disco ao repertório do Mestre Ambrósio, com a regravação de Gavião. Qual a sensação da revisita?
A música Gavião foi regravada no De baile solto por que ela tinha uma relação muito profunda com o repertório, primeiramente musical. O De baile solto é um disco muito marcado pela retomada da rítmica que eu sempre tive como principal no meu trabalho, que é a da música de rua de Pernambuco, e Gavião era uma das músicas mais importantes, pra mim, no Mestre Ambrósio. Sendo que depois a letra dela tomou uma dimensão muito particular. Em contraponto com as letras mais diretamente políticas do disco, Gavião acaba se ressignificando, ao lado das outras músicas, eu acho.

Você se consagrou como rabequeiro, no Mestre Ambrósio e na Fuloresta, mas na carreira solo se acompanha com guitarra. Há uma razão para a mudança? E qual a chance de a rabeca reaparecer?
Com relação à rabeca eu considero o instrumento como uma ferramenta, somente. O instrumento não tem um valor em si, embora que o meio de onde ele vem ou a linguagem que ele representa pode sim agregar valor ou subtrair. No caso da guitarra, foi meu primeiro instrumento e eu precisei retomá-lo no momento onde eu carecia de mais recurso musical, que a rabeca é um instrumento, embora muito expressivo, também bastante limitado. Foi mais este motivo mesmo de retomar a guitarra, nenhum outro não, e até então tem sido meu instrumento principal.

Tua formação musical se dá entre ambientes urbanos e rurais e isto fica claro em tua música, sempre dançante. Há uma preferência? Há um lado com o qual você se identifique mais ou tudo se equilibra e se completa?
Esse contraste de urbano e rural ele é um pouco falso, eu acho, hoje no Brasil. Especialmente na música que eu faço, que eu pratico, não dá mais nem pra falar em mundo rural na Zona da Mata norte, que é o berço desses estilos que são a base do meu trabalho. De um modo geral são estilos que já são urbanos há décadas. A grande diferença está no fato de eles serem classificados como cultura popular e daí são formas de expressão que costumam sofrer bastante preconceito e ocupar sempre um lugar inferior na qualificação, no nosso panorama cultural de modo geral. Mas o rural em si, ele já é coisa do passado.

Outra característica muito marcante de tua obra é o conteúdo fortemente político, notadamente este disco mais recente. Como você tem acompanhado o noticiário acerca do conturbado momento político que atravessa o Brasil?
Eu acompanho o momento político do Brasil com muita preocupação, eu acho que é um momento muito pernóstico. As grandes forças mais reacionárias, o acúmulo de dinheiro e poder está se multiplicando e se reforçando de um modo assim assustador. Ao ver a versão da grande imprensa prevalecendo a gente fica com um sentimento de que a gente quase que perdia a oportunidade de ter construído um país melhor nos últimos anos aí. Continuo acreditando na possibilidade de o povo brasileiro de encontrar saídas, mas este realmente é um momento bem preocupante, que acho que vai reverberar negativamente por muito tempo ainda. A gente segue resistindo por que é a única maneira e cada um tem que encontrar o seu modo de escape, de saída, e tentativa de construir pelo menos pequenos modos de afirmação positiva dentro disso tudo.

Veja o clipe de O inimigo dorme:

“A minha maior musa é a experiência”: o “punk junk” de Jonnata Doll e Os Garotos Solventes

Jonnata Doll em foto de Nino Andrés
Jonnata Doll em foto de Nino Andrés

 

Jonnata Doll não tem papas na língua. Seu “rock Fortaleza”, como classifica o som de seu grupo, Jonnata Doll e Os Garotos Solventes, não se limita ao rótulo. Ele não teme expor, em seu trabalho autoral ou em entrevista, sua relação com o universo das drogas, por exemplo.

Crocodilo. Capa. Reprodução
Crocodilo. Capa. Reprodução

Os Garotos Solventes são Leo Breedlove (guitarra), Edson Van Gogh (guitarra), Saulo Raphael (contrabaixo) e Marcelo Denidead (bateria). Em Crocodilo [2016], segundo disco de estúdio da banda, Jonnata Doll (voz, guitarra e violão) contou ainda com as participações especiais do conterrâneo Fernando Catatau (Cidadão Instigado, guitarra em Cigano solvente) e Dado Villa-Lobos (ex-Legião Urbana, guitarra em Swing de fogo e guitarra e violão em Quem é que precisa?).

Com o último e Marcelo Bonfá, participa da turnê que comemora os 30 anos de Legião Urbana [1985], primeiro disco da banda liderada por Renato Russo (1960-1996), de Será, Geração Coca-cola e outros clássicos do brock – Doll canta duas músicas no show e esteve em São Luís, quando a turnê passou por aqui, em junho passado.

Crocodilo é um álbum punk introspectivo, autobiográfico, com direito a um “glossário de gírias” locais, caso por exemplo de Gary, título de uma faixa: “arroz de festa, segura vela, o apaixonado que vira amigo da gata e não consegue ficar com ela”, aponta o encarte. A questão social também é abordada por Doll e Os Solventes: o turismo sexual é tema de Táxi. Engana-se quem pensa num álbum hermético ou “regional”.

Entre a correria das festas de fim de ano e a participação na turnê com os remanescentes da Legião Urbana, Jonnata Doll conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.

Foto: Nino Andrés
Foto: Nino Andrés

De onde vem o Doll de teu nome artístico?
Vem de um dia, há muito tempo atrás quando experimentei o medicamento haloperidol, é segura doido, fiquei travado, músculos retesados e escutando na cabeça dol, dol, dol, dol. Na época tava tentando achar um nome de guerra, aí coloquei mais um L para fazer referência a essa palavra que aparece muito dentro do punk, seja em nome de bandas ou músicas, mas também há motivos secretos…

A gente percebe muito fortemente o tema das drogas em tuas músicas, desde o nome da banda até mesmo ao título do disco, entre outras. Como você lida com a temática?
Eu vim de uma família evangélica pentecostal, aonde era 8 ou 80. Ou tu tava na igreja ou tava “desviado” afundado nas drogas e na cachaça. O resultado é que no início fazia questão de ouvir rock e não usar drogas. Uma vez a polícia me parou quando eu estava com minha primeira gang, os “jack legais”, e começaram a procurar drogas, bater, pressão psicológica, “tu é roqueiro e não usa droga, porra?”, me orgulhava de não usar. Até que minha amiga Érika, judia roqueira funkeira jornalista speedfreak, me convenceu a cheirar cola. Daí eu deslumbrei uma outra faceta da realidade, a noção de tempo se expandiu e daquele dia em diante percebi que só ouvir Pink Floyd e fechar os olhos não me levaria de volta àquele lugar. Virei um psiconauta autodidata, experimentei tudo que podia em diferentes contextos, sempre para ver como seria criar e apreciar arte sob efeito de algum alcaloide, até que encontrei a morfina e aí essa relação de experiência deu lugar a anos de vício, chegando até o fundo do poço, até conseguir sair, quando comecei a compor o Crocodilo isolado em um sítio e apaixonado por uma mulher estrangeira. Mas é isso, o homem tem que passar por experiências nessa vida que te tirem do lugar.

Como você classifica o som de Jonnata Doll e os Garotos Solventes?
Rock Fortaleza

A pegada punk se sobressai em Crocodilo, que conta com participações especiais de Dado Villa-Lobos e Fernando Catatau, músicos que têm uma história com este universo, além da produção de Kassin. De que modo eles influenciaram na sonoridade do disco?
Na verdade, tem a produção do [Yuri] Kalil também, que é nosso parceiro e já tinha produzido o primeiro disco. Táxi foi a única música que construímos em estúdio a partir de sugestões da dupla de produtores. No geral, a ideia era tentar chegar numa coisa mais crua, com sinths sujos e pedais fuzz, a ideia deles era trazer o espírito do show. Só que eu tava vindo do interior, de um sítio que pertence à minha família, aonde passei parte da infância e lá passei meses só com um violão e apaixonado, tentando entender a psicomagia, superar a relação de dependência com a morfina e eu cheguei com algumas propostas acústicas e letras mais voltadas para o interior. Daí o Crocodilo ter esse lado mais introspectivo, que não tem muito a ver com a ideia original dos produtores – pelo Kassin acho que seria mais esporrento. Mas eles curtiram esse punk de Cheira cola urbano ao lado da balada acústica Quem é que precisa?. Na época também trouxe elementos de música árabe, pois fazia dança do ventre com a esposa do Kalil, a incrível bailarina Lenna Beauty, que participa no disco [backing vocal na faixa-título] e eu tava apaixonado por uma espanhola, minha namorada que dançava flamenco. O Kalil foi importante para me ajudar a mergulhar nisso, pois ele tem um projeto musical com a Lenna, chamado Cearábia, do qual fui convidado, que é influenciado por músicas ibéricas e ciganas. Então é isso: Crocodilo é um disco de um punk junk mergulhando no amor por uma espanhola de sangue cigano andaluz

Crocodilo foi gravado em Fortaleza e seu encarte traz um dicionário de gírias usadas no Ceará. No entanto não se pode rotulá-los de som regional ou coisa que o valha. Como vocês lidam com as barreiras, sejam elas geográficas, culturais ou de qualquer ordem?
É um regional pós-moderno. A Fortaleza que eu vivi era uma cidade moderna, mas ao mesmo tempo provinciana, em que o senso comum era o forró eletrônico dominando tudo, ser cool era saber dançar forró e pegar meninas com uma dança de acasalamento. Mas para mim, que cresci lendo gibis, dançando Michael Jackson e ouvindo Elvis com minha tia doidona – aquela que aparece no clipe de Esqueleto e Rua de trás [ambas do álbum de estreia, de 2014]: Tia Zú –, juventude era outra coisa, tinha a ver com se rebelar e não aceitar aquele som medíocre e machista, que exultava o modo de vida consumista. Então o forró me influenciou na medida que eu o negava e me tornava mais rocker, mais maldito. Era um dos poucos caras que ouvia rock na escola e essa minoria, quase não havia garotas, se unia e o laço de amizade era muito forte, pois só a gente se entendia. Mais na frente eu percebi que radicalismos são por natureza burros, eles servem a revolução e a luta armada, por que naquele momento você tem que acreditar que preto é preto e branco é branco, mas isso não é a realidade, o mundo não é binário, é um fluxo e não importa aonde vamos chegar e sim seguir em frente.

Por falar em Ceará, no mesmo ano em que vocês lançam Crocodilo, Alucinação, de Belchior, considerado por muitos o melhor disco já lançado por um artista cearense, completa 40 anos. Que lugar ocupam nomes como Belchior, Fagner e Ednardo para vocês, seja na memória afetiva, seja enquanto influência ou referência?
Belchior… tenho mergulhado no trabalho dele desde que me mudei para São Paulo e até cantei ao vivo algumas músicas dele. Nos momentos de solidão e perrengue, ele é o cara que ensina, pois ele estava lá no Sudeste, sem dinheiro, na rua, nos anos 60. Belchior é um herói, a trajetória dele não se contradiz e acho o máximo ele ter ido embora. Escuto ele como escuto um irmão mais velho. Ele e o Catatau, este sim mais próximo, meu irmão de arte. A música deles me ensinou também a fugir do previsível, o que não é fácil com a pouca habilidade musical que eu tenho. O Ednardo tenho ouvido ultimamente e percebi que dos três ele é o mais enigmático e melancólico, embora a melancolia seja uma marca do cearense, nosso maracatu é lento e fúnebre. Eu e o Edson Van Gogh – moramos juntos em São Paulo – chegamos ao arranjo final de uma música nova ao ouvir o álbum O romance do Pavão Mysteriozo [1974]. Traduzir-se [1981], do Fagner, é o disco que tenho ouvido dele, que mistura as influências espanholas e ciganas, tem participação do Paco de Lucia e Camaron de la Isla, exatamente o som que eu ouvia na época em que compus o Crocodilo.

Você soa bastante autobiográfico em músicas como Ruth: “estou livre, mas realmente… eu não tou feliz!/ quebrei tudo na tua casa só pra não ter que quebrar minha cara no chão/ você me deu amor de verdade e eu retribuí com traição”. Em tempos de superexposição em redes sociais, o artista precisa, cada vez mais, ser sincero?
Eu faço assim por que os artistas que me tocam são assim. Talvez minha maior referência sejam os escritores beats William Burroughs e Jack Kerouac, assim como o carioca João do Rio. A minha maior musa é a experiência! O que seria de Lou Reed, Belchior se não fosse a experiência que te faz gozar e queimar? Agora tem vezes que dou lugar ao que observo na vida, as histórias urbanas, os lugares. O terceiro disco da gente vai ser sobre a nossa relação com São Paulo, os lugares… O Vale do Anhangabaú e as pessoas que moram embaixo do Viaduto do Chá que eu conheço quando vou comprar “chá” com eles, por exemplo.

Falando em sinceridade e exposição, como você lida com o universo das redes sociais e com a internet como um todo?
Eu uso para divulgar o trabalho dOs Solventes e cada vez menos por motivos pessoais. Também curto a pornografia caseira. Mas no geral tenho uma atitude conservadora com essa parada de selfies e coisas do tipo.

2016 foi um ano conturbado, do ponto de vista político. A palavra da vez foi crise. Qual o seu balanço pessoal do ano e quais as perspectivas para 2017?
Esse ano foi o ano que os conservadores levantaram a voz, por que até então, eles não precisavam, eles já estavam no poder. Agora que eles o tomaram outra vez, que o velho liberalismo econômico é apontado como solução, como se ele não estivesse sempre aí, tudo que é considerado descartável – arte e cultura – vai deixar de ter apoio da sociedade estabelecida. Meu plano em 2017 é tocar nas periferias, na rua, continuar realizando festivais independentes, como o festival Volume Morto, em São Paulo, e Fortaleza Cidade Marginal, em Fortaleza, para formar público, pois o artista só precisa de seu público e queremos agitar as cidades, divulgar o Crocodilo, viajar e brilhar na noite da América do Sul!