Rec-Beat busca alternativas para seguir acontecendo com qualidade – e de graça

Arte: Karina Buhr
Arte: Karina Buhr

 

Entre os próximos dias 6 a 9 de fevereiro, isto é, durante o carnaval, o Cais da Alfândega, no Recife, sedia a 21ª. edição do Rec-Beat, um dos mais longevos festivais de música do Brasil. Antonio “Gutie” Gutierrez sentiu a ameaça de, pela primeira vez em duas décadas, o festival não acontecer, e foi à luta: lançou uma campanha de financiamento coletivo, visando manter o nível das atrações – embora o festival seja um pouco menor em 2016 – e a gratuidade do evento.

“Vamos fazer juntos o festival” é o slogan da campanha, que pretende arrecadar 200 mil reais até o dia do início do Rec-Beat, que ao longo de duas décadas sempre primou por inovação e qualidade em sua programação. As recompensas pelas doações – clique aqui para colaborar –variam de brindes personalizados até ingressos para outros festivais brasileiros, além da coautoria da realização desta edição.

Pernambucana nascida na Bahia e radicada em São Paulo, com alguns Rec-Beat no currículo, entre bandas como Comadre Fulozinha e Eddie, além de em carreira solo, Karina Buhr assina a arte do pôster deste ano.

De acordo com Gutie, a crise financeira em que mergulhou o país gerou cortes de até 50% do patrocínio, de “um valor que já não era tão expressivo”, segundo o produtor. Para termos uma ideia, prefeituras de três municípios maranhenses já anunciaram a não realização de um circuito oficial (leia-se: estatal) do carnaval este ano – Coelho Neto, Pedreiras e Santa Inês –, de acordo com informações do jornal O Imparcial.

Gutie conversou com exclusividade com o Homem de vícios antigos.

"Esse aperto está nos levando a pensar em coisas novas", afirma Gutie. Foto: Diego Nigro/ JC Imagem
“Esse aperto está nos levando a pensar em coisas novas”, afirma Gutie. Foto: Diego Nigro/ JC Imagem

 

O que houve ao longo dos anos com o financiamento do Rec Beat?
No inicio, por três edições, o Rec-Beat foi realizado em Olinda, na área interna de um casarão, o Centro Luiz Freire. Aí havia cobrança de ingressos, um preço simbólico, suficiente para cobrir os custos, que não eram altos porque ainda era o início do projeto e tudo era feito mais como uma diversão, com uma estrutura bem simples. Em 1999 fomos convidados pela Secretaria de Cultura do Recife para levar o Rec-Beat para o Bairro do Recife, sítio histórico da cidade. O objetivo era o festival ser uma âncora para o público jovem de um projeto de fomento do carnaval no bairro, ainda muito incipiente. A partir daí o festival passou a receber patrocínio da Fundação de Cultura Cidade do Recife (FCCR) e também se tornou gratuito, como é até hoje. A gratuidade é um ponto chave do festival e tem o lado bom e o lado ruim. O bom é que dá uma grande liberdade para se fazer uma programação mais ousada, pautada em novidades, em coisas mais experimentais que ainda não estão inseridas no grande mercado, ou seja, não precisamos escalar nomes do mainstream para atrair público pagante, uma vez que a gente não vende ingresso. A gratuidade permite que o público tome contato com bandas desconhecidas, ou pouco conhecidas, que certamente ele não pagaria pra ver se não estivesse ali, na rua, sem custo para ele. O lado ruim é que o festival perde uma fonte de receita, ou seja, o festival não pode contar com recursos de venda de ingressos para cobrir seus custos, e passa a depender, dessa forma, exclusivamente de patrocinadores e apoiadores. O Rec-Beat cresceu muito, ao longo dos anos, mas o patrocínio oficial não acompanhou a evolução dos custos de realização do evento. Além disso, o Rec-Beat sofre uma limitação para captar recursos junto à iniciativa privada, tendo em vista que a Prefeitura já tem acordos com grandes patrocinadores que impedem o festival de captar recursos desses mesmos patrocinadores ou de concorrentes do patrocinador oficial, como cervejarias, por exemplo. Com o agravamento da crise financeira do país este ano e um corte do patrocínio da ordem de 50%, de um valor que já não era tão expressivo, fomos em busca de saídas para manter o festival no nível conquistado, principalmente no que se refere ao conteúdo artístico, conceitual, e a gratuidade. Foi aí que abrimos várias frentes, e uma delas foi a tentativa do financiamento coletivo.

Muitos artistas têm recorrido ao financiamento coletivo para a realização de trabalhos artísticos (filmes, livros, cds, dvds, exposições etc.). O Rec-Beat parece ser pioneiro para a realização de um festival. O crowdfunding é “o” caminho, hoje?
Creio que somos pioneiros nisso, até agora não vi nenhum festival independente recorrer a esse mecanismo para levantar recursos. Pra gente é uma incógnita, não sabemos onde vai dar. A gente vê vários projetos de CDs, livros, filmes alcançando êxito. Mas não temos uma referencia de projeto para festival. Certamente com esta experiência vamos poder aprimorar a estratégia, avaliar os acertos e erros, caso a gente venha a fazer no próximo ano. Nesse momento que estou respondendo a essa sua pergunta o que posso dizer é que o fluxo de adesão à campanha ainda não decolou, mas ainda faltam alguns dias para o encerramento. Mesmo assim eu acho que o crowdfunding pode vir a ser uma boa opção para o financiamento de festivais como o Rec-Beat.

O momento por que passa o já tradicional festival é reflexo da crise que atravessa o país?
Acho que reflete a crise econômica e também a falta de discernimento enfrenta-la. Quando você sofre restrição econômica, você tem que adotar um critério para reduzir seus custos de modo a manter o que é importante e vai te dar retorno e eliminar o que é supérfluo e só vai lhe trazer mais despesas. Eu não tenho dúvida de que o Rec-Beat traz um imenso retorno para o patrocinador, para o público, para a música independente, para a nova música brasileira, para a nova música latino-americana, para a tradição do carnaval pernambucano. O festival traz público. O festival contribui como destino turístico, para o fluxo de renda. Ano passado, e este ano também, o Rec-Beat entrou na agenda de três revistas de bordo de empresas aéreas colocando o evento como destino no carnaval, sem contar o destaque que recebe em vários veículos da imprensa nacional. A mídia espontânea gerada pelo festival, quando valorada, supera em três vezes o custo do festival. Ou seja, como é que você corta severamente o patrocínio destinado a um evento que traz tantos benefícios? Estamos passando por uma forte crise econômica, é fato. Eu já vivi momento pior que isso. O Rec-Beat tem 20 anos. Está sendo um ano difícil, mas por outro lado esse aperto está nos levando a repensar muita coisa, a trabalhar novas parcerias, pensar em coisas novas. Incrível também a solidariedade de muitas bandas e artistas, que estão chegando espontaneamente e oferecendo apoio. Acima de tudo é bom momento pra saber quem está por dentro e quem está por fora.

O ministro Juca Ferreira deu uma entrevista ao jornal online Nexo afirmando que o MinC já vive um momento “pós-crise”. O que você poderia comentar a respeito da fala dele?
Respeito muito Juca Ferreira, um grande gestor, um dos melhores ministros que esse país já teve na área da cultura, e só o fato de Marta Suplicy não gostar dele já mostra que ele é boa gente. Acho que quando Juca diz que já vivemos um momento de “pós-crise” talvez ele queira dizer que estamos conscientes que estamos vivendo uma crise e adotando caminhos para superá-la. Concordo quando ele diz, na entrevista, que a crise é menor do que parece. Antes de tudo vale dizer que a crise é mundial, o mundo vive um momento de retração econômica, que reflete principalmente o esfriamento da economia chinesa. Nossa visão da crise no Brasil é dada pelos grandes meios, o famoso PIG [o partido da imprensa golpista], que aliado a uma oposição medíocre, está impedindo que Dilma governe e que adote medidas para superar as dificuldades. E quando você tem um bombardeio diário na mídia falando de crise, crise, crise… é claro que acaba criando uma expectativa negativa nos agentes econômicos. Só acho que o MinC deveria nesse momento ter mais cautela no lançamento de editais de financiamento de projetos. Existe muita pendência de editais aprovados cujos recursos não são liberados. Isso cria um desgaste muito grande junto aos produtores que são contemplados e que depois recebem a notícia de que o dinheiro não existe.

Que nomes já estão confirmados para a edição 2016 do Rec-Beat? Além do corte no patrocínio, o festival sofrerá alguma espécie de diminuição?
Vamos reduzir uma atração por noite, que na verdade significa voltar ao formato que já fazíamos um ano atrás. Serão cinco bandas e mais um dj por noite fazendo os intervalos entre as bandas. Além disso, devemos ter festas after com djs, em uma casa fechada, no Bairro do Recife. Também mantivemos este ano o “Rec-Beat Apresenta”, que é uma proposta de realizar no período pré-carnaval uma noite com três bandas novas, revelações, nas quais o festival aposta. Este ano, além de fazer no Recife, estamos fazendo o “Rec-Beat Apresenta” também em Joao Pessoa, lá também com três bandas. Nesse momento que respondo a essa pergunta já temos confirmado oficialmente para o Festival Rec-Beat 2016: Maite Hontelé (Colômbia), Moh! Kouyaté (Guiné), Liniker (SP), Francisco-El Hombre (México/Brasil), Luísa e Os Alquimistas (RN), Duda Brack (RS). Até o final da semana teremos tudo definido.

Chorografia do Maranhão: Paulinho Oliveira

[O Imparcial, 29 de março de 2015]

Flautista, professor da EMEM e membro da primeira formação do Instrumental Pixinguinha, o músico é o 50º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVANIO ALMEIDA SANTOS

Seu cartão de visitas é certeiro: “Eu sou filho da Madre Deus, vocês sabem que quem nasce na Madre Deus já é musical. Ouvi muita música, batucada, Fuzileiros [da Fuzarca, bloco carnavalesco sediado no bairro], Turma do Quinto [escola de samba idem], os terreiros, [Casa das] Minas, [Casa de] Nagô”. Ainda no bairro boêmio em que nasceu, Paulo Oliveira dos Santos Filho começou a soprar em flautas feitas por seu pai com taboca de mamoeiro.

Seus pais eram operários da fábrica de Cânhamo, nos arredores, onde hoje estão instalados o Ceprama e o Museu do Tambor de Crioula. Paulinho Oliveira nasceu em 26 de julho de 1965, filho do pernambucano Paulo Oliveira dos Santos e Maria José Ribamar Silva.

Sorridente e descontraído, Paulinho deu seu depoimento à Chorografia do Maranhão, o 50º. da série, na Sala Turíbio Santos, na Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo [EMEM], onde leciona. A entrevista foi ilustrada musicalmente por Corrupião, de Sérgio Habibe [compositor].

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

Em sua infância, você se lembra do movimento do operariado em torno da fábrica Cânhamo? Não tenho muita lembrança, mas vagamente alguma coisa. Eu ia levar marmita, quando criança, junto com minhas irmãs mais velhas, eu sou o caçula de quatro, dois homens e duas mulheres.

Você tem outra profissão, além de músico? Eu trabalho só lecionando. Estudei no Senai [o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial], fiz curso na área técnica, mas não quis exercer a profissão. Na Escola Técnica [hoje Instituto Federal do Maranhão – IFMA] eu estudei na banda, com Maestro Nonato, que foi meu primeiro professor de música, assim em um curso regular, sistemático, né? Eu sou filho da Madre Deus, vocês sabem que quem nasce na Madre Deus já é musical. Eu sou uma pessoa que ouvi muita música, batucada, Fuzileiros, Turma do Quinto, os terreiros, Minas, Nagô.

E na sua casa? Teus pais tocavam algum instrumento? Minha mãe participou de baralho, brincadeiras carnavalescas, populares. Meu pai não teve isso. Papai tinha muitos amigos, gostava de encontrar.

Ele conviveu com os boêmios da Madre Deus, de algum modo? Sim, [os compositores] Cristóvão [Colombo da Silva, popularmente conhecido por Cristóvão Alô Brasil], Sapo [Henrique Martiniano Reis], Tabaco [Hermanegildo Tibúrcio da Silva], Bibi [Silva], Patativa [Maria do Socorro Silva], trabalhou na Cânhamo com ele.

A Madre Deus sempre foi um ambiente propício. Eu sou filho da Madre Deus, aquele ambiente, tambores, tinham alguns comércios próximos de minha casa, músicos amadores iam até ali, meu irmão mais velho era músico amador, violonista, tocou muito em bailes. Uma influência muito grande ali que eu tive foi a de conviver com grandes ritmistas, como Welllington [Reis], Amauri, Prio, finado Tião, Eloy, Biné do Banjo [banjoísta, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 31 de março de 2013], outros que eu esqueci o nome.

Você lembra com que idade começou a tocar? Vem de criança. Eu lembro que na Madre Deus tinha um senhor, ele trabalhava e fazia algumas flautas, pífanos, aquilo foi me levando. Meu pai fabricava instrumentos para mim de cano de mamoeiro, brincadeira de criança. Eu comecei mesmo com flauta doce, houve um tempo aqui em que os jovens tocava muita flauta doce, eu fiz parte de movimento de Igreja, a gente tocava de ouvido, tinha uma musicalidade, eu fui me envolvendo. Na oportunidade em que eu conheci o Gilson [César, ator e mímico], ele me levou para o Laborarte [Laboratório de Expressões Artísticas do Maranhão], eu fiz parte do Departamento de Música do Laborarte, ali pela década de 1980.

Quando você fez parte do Laborarte já tinha passado pela Escola Técnica? Pela Escola! Nessa época eu estava estudando flauta transversa. Nesse período, que eu encontro o Gilson, que me apresenta o Raimundo Luiz [bandolinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 15 de setembro de 2013]. Eles foram a ponte para eu chegar até a Escola [de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo], onde eu cheguei como aluno. Eu já tocava um pouco de flauta doce. Tive aulas com professor Vanilson [Lima], Wolf Clemmens [Hilbert], alemão, foi o cara que trouxe a flauta doce para cá para o Maranhão, para São Luís. Eu tive aulas particulares com ele, ele já não era mais da Escola.

Teus principais mestres seriam estes? Sim, na área de flauta doce. Eu tive aulas com Lisiane [Nina], Zezé Alves [flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 9 de junho de 2013], este é o pai dos flautistas daqui. Comecei a estudar teoria musical, eu já tinha começado na Escola Técnica, mas a Escola de Música é que foi mesmo o grande alicerce.

Quando você escolheu seguir a música, teus pais te apoiaram? Naquele período, aqui no Maranhão, não era uma coisa tão bem vista. Tinha aquela coisa, “você vem de uma família de negros, pobre, mora na periferia, olha teu irmão”. As pessoas queriam que eu exercesse uma profissão que me desse um lucro financeiro.

Que músicos você citaria entre suas principais influências, aqueles que te levaram a ser o músico que és hoje? Lisiane foi uma grande figura, Zezé, Raimundo Luiz, Tomaz [de Aquino Leite], muita gente, muita gente.

Como é que você enveredou pelo choro naquele período? A minha linha musical, eu comecei na Madre Deus, ritmista, percussão, a minha linguagem era dentro disso, o samba. Quando eu entrei na Escola de Música foi que eu fui descobrir a música clássica, erudita, comecei a percorrer esse caminho. Meus estudos de flauta doce eram mais relacionados à música erudita. Nesse período, quando eu entrei na Escola de Música, ela não era direcionada à questão da música popular. Essa minha relação com o choro começou através de Zezé, eu comecei a ter aulas com ele. E no Laborarte, no Departamento de Som, a coisa da cultura popular, mesmo.

Você então vivenciou aquele ambiente laborarteano de pesquisa. Sim, tive contato com tambor de crioula, divino, cacuriá, Mestre Felipe, era um laboratório, a gente fazia um trabalho inovador para a época. Foi um período divino! Se eu pudesse voltar eu voltaria.

Apesar das preocupações iniciais de tua família, hoje é possível viver de música? Sim, dá para viver com dignidade. Há poucos dias eu estava conversando com uma aluna, prestes a fazer vestibular, meio em dúvida, ela querendo saber como estava a situação. Hoje nós temos várias escolas, faculdades, o mercado vai se abrir.

Além do [Instrumental] Pixinguinha, de que grupos musicais você fez parte? Do Laborarte, o Departamento de Som, fizemos vários shows, peças de teatro, Jorge do Rosário era o cabeça, Marco Cruz [compositor], Saci Teleleu [bailarino]. Depois eu comecei a trabalhar com o pessoal do choro, antes disso fiz alguns trabalhos com Rosa [Reis].

E o ambiente daqueles shows [Homenagem a Velha Guarda] do [Instrumental] Pixinguinha no [Teatro] Arthur Azevedo? O Solano [Francisco Solano, violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 26 de maio de 2013], essa história de vir estudar com o Marcelo [Moreira, violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 28 de dezembro de 2014], ali surgiu essa ideia de se fazer um grupo, tanto que o grupo começou com eles e a vontade de fazer a Suíte Retratos [de Radamés Gnattali]. Eles perguntaram se eu não queria fazer parte, alguns números com eles. Foi aí que eu me integrei, fiz parte da primeira formação.

Como era a rotina daquela formação? A gente ensaiava diariamente, à noite. O pessoal trabalhava, Correios, o Jansen [César Jansen, bandolinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 21 de setembro de 2014], Solano tem a empresa dele, o Biné [do Cavaco, Os Irmãos Gomes, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 22 de junho de 2014], aliás, começou conosco o Quirino, Carbrasa [percussionista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 19 de outubro de 2014] e Marcelo. Passamos praticamente um ano ensaiando para esse trabalho, muita partitura. O objetivo maior do grupo era a Suíte Retratos, e foi quando o Biné entrou. O show foi no [Centro de Criatividade] Odylo Costa, filho [no Teatro Alcione Nazaré, então Teatro Praia Grande, que integra o Centro]. Algumas pessoas [em entrevistas à Chorografia do Maranhão] falaram em Arthur Azevedo, mas foi no Odylo. Foi início de 1990.

Depois você saiu do Pixinguinha? Algum motivo em especial? Não, eu continuei tocando. Depois foi que Zezé entrou, eu tive um problema, tive que fazer um tratamento de saúde, me afastei, Zezé foi e assumiu.

Atualmente você integra algum grupo? Não. Atualmente estou só lecionando. Já integrei grupos de câmara aqui na Escola.

Além de instrumentista você desenvolve outras habilidades na música? É compositor? Não. Só instrumentista. Nessa praia eu ainda não enveredei.

Você toca algum outro instrumento? Não. Flauta doce e flauta transversa. Violão eu estou estudando na Licenciatura da UEMA [Universidade Estadual do Maranhão], percussão um pouco, mas meus instrumentos mesmo são a flauta doce e a flauta transversal.

Além de Rosa Reis [cantora], com que outros artistas você já tocou? Toquei com Cesar Teixeira [compositor], Josias [Sobrinho, compositor] e outros.

Você participou do Rabo de Vaca? Não. O Rabo de Vaca era Zezé, Omar [Cutrim, compositor], aquela turma.

E participação em discos? Já fiz. Fiz com Cláudio Pinheiro, não lembro agora o nome do CD, fiz a primeira gravação do Cacuriá de Dona Teté, foi um vinilzão, eu fiz aquela flauta. Eu ia gravar com Rosa, mas teve algum problema lá no estúdio. Fiz com Ubiratan [Sousa, multi-instrumentista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 12 de maio de 2013], aquele disco produzido pelo marido da Zelinda [o falecido folclorista Carlos de Lima], de carnaval das antigas.

Na sua opinião, o que significa o choro? O choro é a grande música brasileira, a música genuinamente brasileira, podemos dizer assim. Uma música já mais elaborada, que vem do século XIX, com Callado [Joaquim Callado, flautista, considerado um dos pais do choro], que foi o cara que formou o primeiro regional de choro, tem uma contribuição imensa.

Entre as linhas você tem uma preferência, erudito ou popular? Ou está tudo misturado? Não, eu não faço distinção. Eu tenho uma formação, o começo, aqui na Escola de Música, foi clássica, tocando música barroca, gosto muito, gosto de fazer, de tocar, [sou] um negro que tem uma veia por essa música, mas não é só esse caminho, eu gosto muito da música popular também.

Você escuta muito choro, hoje? Ouço, ouço bastante.

Você tem acompanhado as mudanças que o choro tem experimentado? Sim. Há poucos dias eu estava ouvindo o Maurício Carrilho [violonista], aquele trabalho que ele fez há uns anos, com choros com compassos alternados, de cinco, de sete, é um trabalho interessante. Eu tenho visto as correntes, vão se modificando, existe uma linha de Brasília, com uns choros mais acelerados, São Paulo, mais cadenciado, Curitiba, Pernambuco, a gente [no Maranhão] já faz um choro mais tradicional.

No disco do [Instrumental] Pixinguinha a gente percebe, por exemplo, entre outras, uma influenciazinha do lelê. É, o nosso choro traz essas informações. O Luiz Jr. [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 4 de agosto de 2013], por exemplo, o violão dele já traz informações jazzísticas.

Quem são os grandes flautistas brasileiros, aqueles que você gosta de ouvir, que te tocam? Eu sou um cara que sou apaixonado pela pessoa do Toninho Carrasqueira, é um guru, um cara de uma simplicidade, um coração, um puta músico.

Em que lugar você coloca o Altamiro CarrilhoO Altamiro Carrilho podemos dizer que é um papa, né?, da flauta. É um papa da flauta! A flauta do século XX. A escola brasileira de flauta é uma escola rica, grandes flautistas. David Ganc, o Antonio Rocha, da Escola Portátil, Dirceu Leite, a Odete [Ernst Dias], a mãe dos flautistas brasileiros.

A forma de consumir música mudou muito de uns tempos para cá. Como é que você consome música, hoje? Compra discos, ouve rádio, baixa, vê no youtube, ou tudo isso? Eu compro, continuo comprando. Tem coisas que, baixar, essa parte tecnológica eu ainda sou meio que um dinossauro [risos], eu ainda não sei muito vasculhar. Sei que tem muitos sites, tem muita coisa, eu gosto de ouvir música erudita, eu compro cds, mando buscar em São Paulo, Rio, a gente vai garimpando.

E aqui no Maranhão, quem são os flautistas que te chamam a atenção? Hoje nós estamos com uma safra de bons flautistas. Mestre Serra [de Almeida, flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 3 de março de 2013] é uma memória, muito bom, fiz um trabalho com ele ano passado, foi um trabalho que nós fizemos os dois grupos, o Pixinguinha e o Tira-Teima [um show na programação da 8ª. Aldeia Sesc Guajajara de Artes, em 2013, promoveu o encontro dos grupos no mesmo palco, na praça Nauro Machado, na Praia Grande], um trabalho bacana, eu nunca tinha tocado com o mestre, eu me senti muito lisonjeado. Ele é um autodidata, toca de memória. Tem o Lee Fan [flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 7 de setembro de 2014], está com um grupo, fazendo um trabalho, teve outros, a Suellen Almeida promete.

O professor fica feliz quando vê essas figuras despontando? Ô! É o que nos alimenta. Tem o Elton, Erivan, Gabriel foi para o Rio, morar com uns parentes. Tem o Neto [João Neto, flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 2 de fevereiro de 2014], Neto agora é quem tá na parada!

Você se considera um chorão? [Pensativo] Eu gosto de choro! Se eu disser pra ti que sou um chorão, um chorão, eu não sei. Eu gosto muito do choro. Taí! Pra ser um chorão, precisaria o quê? Ficou uma pulga [atrás da orelha], o que é ser chorão? [risos]

Hoje nós temos uma escola de música, a escola municipal, que está parada, duas faculdades. Como você vê esse cenário da música, do estudo da música, hoje, no Maranhão? As coisas estão evoluindo, crescendo. Há tempos só tínhamos a Escola de Música, e agora já temos a escola do município, temos a banda do Convento das Mercês, grande formadora de jovens, em sopro, cheguei a fazer parte, dei aula, lá eu tive a oportunidade de deixar um pouco, passar minha semente para algumas pessoas, o Elton é fruto dessa escola, os Carafunim [Hugo e Nelma, primos, trompetista e saxofonista, respectivamente], estes dois cursos que nós temos aí, Pixixita [o músico José Carlos Martins] quando era vivo sonhava com este curso superior, infelizmente não chegou a ver.

Você acha que esse ambiente novo favorece a uma cena melhor, da música instrumental, especialmente do choro, em São Luís? Você gosta do nível do choro praticado em São Luís? A gente trabalha com o que tem, a gente faz o que pode. Eu te digo com certeza: está caminhando. Antigamente não havia escola de choro. O professor Zé Hemetério [multi-instrumentista] foi orientador de muita gente, Elinaldo [Gordo Elinaldo, multi-instrumentista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 27 de outubro de 2013], Ubiratan Sousa. Mas foi com a história do [Instrumental] Pixinguinha que essa história do choro começou a se disseminar. O Pixinguinha foi talvez o primeiro grupo de música popular dentro da Escola.

O choro tem essa capacidade de construir unidade. A Escola tinha um perfil mais erudito, ele acabou agregando grande parte dos alunos nesse movimento do choro. Exatamente! Hoje eu tenho muitos alunos aqui, a Suellen, é apaixonada por choro. Minha classe de flauta, eu trabalho com música erudita. Mas não tem como focar só nessa parte erudita, os alunos querem estudar outra coisa, a linguagem, mudar um pouco. A gente procura ir ajudando-os a ir por estes caminhos. As pessoas gostam muito de música popular, a gente tem que se desdobrar. Não há como desfiliar a flauta do choro.

A herança musical de Alice Passos

Com o Maranhão e a música no DNA, a cantora e flautista Alice Passos é a convidada da última edição do projeto RicoChoro ComVida em 2015. O sarau musical acontece hoje (19), a partir das 18h, no Bar e Restaurante Barulhinho Bom (Rua da Palma, 217, Praia Grande). A noite contará ainda com as apresentações do dj Marcelo Guzmán e do Regional Chorando Callado, que acompanhará a artista carioca.

O grupo se formou por ocasião do projeto Clube do Choro Recebe, produzido por Ricarte Almeida Santos entre 2007 e 2010, no Bar e Restaurante Chico Canhoto. João Eudes (violão sete cordas), João Neto (flauta), Wanderson Silva (percussão) e Wendell Cosme (bandolim e cavaquinho) – a formação para hoje –, à época eram jovens estudantes de música; hoje são dos mais requisitados e frequentes nomes em fichas técnicas de discos e shows de artistas locais e nacionais.

Alice é filha da cavaquinhista maranhense Ignez Perdigão, irmã da cantora e cavaquinhista Mariana Bernardes e afilhada do multi-instrumentista Egberto Gimonti. Apesar da pouca idade – 25 anos recém-completados – já é vasto seu currículo: aos oito anos entrou para os Flautistas da Pro Arte, passando em seguida a se apresentar com a Orquestra de Sopros da Pro Arte. Integrou por quatro anos a Orquestra Corações Futuristas, fundada e regida por Gismonti.

Em 2006 ela participou do disco Mario Lago – O homem do século XX. Atualmente prepara seu disco solo de estreia. A artista conversou com O homem de vícios antigos.

Alice Passos: vasto currículo, apesar da pouca idade. Foto: divulgação
Alice Passos: vasto currículo, apesar da pouca idade. Foto: divulgação

Homem de vícios antigos – Você é filha de maranhense e já se apresentou em São Luís diversas vezes. Qual sua relação com a cidade?
Alice Passos
– São Luís é minha segunda casa. Tenho diversos tios e primos aqui na ilha e desde que vim a primeira vez que venho pelo menos uma vez por ano. Excepcionalmente nos últimos três anos não pude vir, por isso estou muito alegre de estar voltando pra cá, onde me sinto em casa, onde danço o bumba meu boi, o tambor de crioula… Me identifico muito com a música e a culinária da cidade.

Com que sentimento você recebeu o convite para encerrar a temporada de RicoChoro ComVida em 2015?
Fiquei muito contente, pois já não vinha à ilha há três anos e estava morrendo de saudade da família, das praias, do vento, da comida…

Qual a base do repertório de sua apresentação amanhã?
Mesclei músicas que eu imagino que sejam conhecidas do público daqui e que gosto muito com músicas do repertório que venho pesquisando ao longo dos meus 10 anos de atividade como cantora

Você já conhecia os músicos do Chorando Callado? Qual o clima dos ensaios?
Conhecia o João Eudes do violão e o João [Neto] da flauta. É como se tocássemos juntos há 10 anos.

Seu disco solo de estreia, prometido para ano que vem, terá, entre compositores e participações especiais, nomes como Guinga, Paulo César Pinheiro, Francis Hime, Maurício Carrilho, Egberto Gismonti e Yamandu Costa. O que significa para você o endosso de tantos nomes tão importantes para a música brasileira?
Conheço o Egberto desde criança. É meu padrinho. Engraçado que a nossa relação é muito mais pessoal do que musical, apesar d’eu ter participado da Orquestra Corações Futuristas, regida por ele, durante quatro anos. Fora o Francis, com quem encontrei poucas vezes, tenho uma forte relação de amizade e afeto com todos os outros compositores e músicos citados. Seja encontrando para tomar um chope, seja ensaiando juntos, gravando… Engraçado que, por ter uma amizade com eles há tanto tempo, acho que não tenho muita dimensão do que significa o nome deles no meu projeto. Claro que tenho consciência da importância deles pra a música brasileira, mas pra mim é muito natural tê-los no meu primeiro disco. No caso, acaba que o Yamandu e o Egberto infelizmente não puderam participar. Mas estão no disco Dori Caymmi, Guinga, Sérgio Santos e Théo de Barros. Me sinto muito honrada e agradecida pela generosidade de todos que participaram do meu disco.

Você chegou a tentar outra profissão fora da música?
Nunca! Canto desde os nove anos, tanto em show quanto em gravação.

O fato de ter nascido numa família de músicos ajudou ou atrapalhou em sua decisão de seguir a carreira musical?
Os dois. Atrapalhou no sentido que eu, por rebeldia adolescente, tentei querer outra coisa, só pra ser do contra. Mas não foi pra frente. Ajudou em todos os outros sentidos. Tive muita ajuda.

Você é cantora e flautista. O público de São Luís também terá a oportunidade de ouvir você tocando flauta?
Desta vez não. Toquei flauta praticamente só em orquestras. Faz dois anos que não trabalho mais como flautista, só dou aulas.

Você é reconhecida como um dos nomes que colaborou para a revitalização e o reconhecimento da Lapa enquanto centro sambista do Rio de Janeiro. Você conhece ou acompanha o cenário do samba ou da música popular de modo geral no Maranhão? Se sim, que nomes destacaria?
Muito menos do que eu gostaria. Conheço o grupo Espinha de Bacalhau, Feijoada Completa, torço desde sempre pelo Roberto Chinês que é um baita instrumentista… Sempre que venho tenho pouco tempo pra fazer essa garimpada da música que não conheço. Acabo vendo os mesmo amigos, fico muito tempo com a família. Mas espero voltar a vir anualmente e me inteirar do que tá rolando.

Chorografia do Maranhão: Wendell de la Salles

Abre parêntese: ao tempo em que reproduzo cá no blogue a 49ª (de 52) entrevistas da série Chorografia do Maranhão, tenho a imensa alegria de compartilhar com os poucos mas fiéis leitores deste Homem de vícios antigos: o edital de apoio à publicação de livros 21/2015 da Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (Fapema) aprovou o projeto Chorografia do Maranhão (clique aqui para baixar o resultado). Muito em breve, caros e caras, as entrevistas realizadas por este que vos perturba, Ricarte Almeida Santos e Rivanio Almeida Santos (fotografias), publicadas entre março de 2013 e maio de 2015 no jornal O Imparcial, reunidas em livro, aguardem! Fecha parêntese.

Bandolinista potiguar radicado há cerca de 10 anos em São Luís, membro honorário do Regional Tira-Teima é o 49º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVANIO ALMEIDA SANTOS

Doutor em engenharia química e bandolinista, o potiguar Wendell Ferreira de la Salles ganhou este sobrenome de uma promessa da avó: com complicações na gravidez, ela batizaria o filho com o nome do santo do dia. Seu pai, o funcionário público João Batista de la Salles, iniciava ali um outro ramo onomástico na árvore genealógica da família.

Grande comprador de discos – “ele comprava mais do que ouvia” – foi seu pai uma das primeiras influências musicais do menino Wendell. Em meio a tão vasto acervo, logo os discos de choro chamaram-lhe a atenção.

Wendell nasceu em 22 de agosto de 1974, filho da professora do ensino fundamental Telúsia Ferreira de la Salles. É casado com Kátia Simone, também engenheira química natalense, com quem tem uma filha de oito anos – que lhe inspirou a música Anjo meu, gravada no disco de estreia do Regional Tira-Teima, que deve ser lançado em breve.

O 49º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão conversou com os chororrepórteres no novo Barulhinho Bom (Praia Grande) e contou, entre outras histórias, como começou a tocar ainda criança, a ida para o doutorado na França, o retorno ao Brasil – hoje é professor da Universidade Federal do Maranhão – e a acolhida entre os bambas do Tira-Teima.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

De onde vem teu sobrenome? É uma situação estranha. A família de meu pai efetivamente é Melo, exceto meu pai que tem esse sobrenome, de la Salles. Ele nasceu no dia de um santo, São João Batista de la Salles, e minha vó, que parece que teve problemas na gravidez, fez uma promessa, só que na hora do registro ela não botou João Batista de la Salles de Melo, ficou João Batista de la Salles. Aí vem dele.

Seus pais tinham algum envolvimento com música? Não. Meu pai sempre gostou de ouvir música, era um grande comprador de discos, mais comprava do que ouvia. A gente sempre teve uma variedade muito grande, eu sempre ouvi muita música por que meu pai comprava muitos discos, eu ouvia até mais que ele, ele comprava e eu ouvia. Até hoje continua mais ou menos assim. Ele tinha uma tendência a querer agradar os convidados. Se ele tinha amigos que gostavam de rock, ele ia e comprava rock, gostava de samba ele comprava discos de samba, de choro, discos de choro.

Mas sempre com um padrão de qualidade. É, sempre com um padrão de qualidade, sempre com bom gosto, em geral. O rock para ele era aquele rock tradicional, de Beatles, Rolling Stones, Elvis Presley. Mas isso foi mais na infância mesmo, depois ele deu uma parada, hoje é que está voltando [a comprar discos].

Ele tocava alguma coisa? Não. Na família, quem tocava era meu avô, pai da minha mãe. Ele nasceu no interior do Rio Grande do Norte, tocava cavaquinho, mas tocava forró.

E a música nordestina, tinha espaço na tua casa? Tinha. Sempre teve. Forró, eu gosto bastante, daquele tradicional, meus pais também.

No meio de toda essa coleção de discos de teu pai, você lembra o que chamou a atenção? Algo que você queria ouvir sempre, que repetia muito. Aquele disco que você ouviu até furar. É engraçado, realmente a variedade era grande, mas quando eu paro para pensar no que eu queria ouvir, ainda criança, eram discos de choro mesmo. Eu não lembro de botar outras coisas. Lembro das capas dos discos de Jacob [do Bandolim] que ele tinha, o disco de Assanhado, Vibrações, são as que mais vêm à cabeça ainda na época do vinil. Eu não tinha muito tempo para escolher, papai não dava tempo para escolhermos, ele estava o tempo todo botando algum disco, e a gente no clima, ali, sempre tinha festa lá em casa.

Além de músico, você tem outra profissão? Atualmente sou professor da UFMA, formado em engenharia química. Minha profissão efetiva, mesmo, deixou de ser a música há bastante tempo.

Houve algum momento de tua vida em que você atuou como músico profissional? A música permitiu até que eu concluísse uma graduação, que eu fizesse um mestrado em Natal, a situação financeira de meus pais não era muito fácil. Eu nunca tive problemas para fazer o que eu queria devido à música. Comecei a tocar muito cedo, meus pais não tinham muitas despesas comigo. A música serviu como profissão um bocado de tempo na minha vida, tocava na noite, sexta, sábado, domingo, desde oito, nove anos de idade. O primeiro regional que eu toquei foi um que meu pai criou. Ele se empolgou tanto quando me viu brincando com o cavaquinho que era de meu avô, que criou um grupo para eu tocar. Ele pagava os músicos para tocar comigo. Eu não tocava nada, sabia duas ou três músicas, ele pagava os músicos, tinha um cantor, eu entrava, toca minhas duas ou três músicas e eles continuavam, a noite toda.

Então o teu instrumento de origem é o cavaco? É o cavaquinho. Um cavaquinho que tinha na casa de meu avô, que eu achei velho, dentro de um armário, a primeira vez que eu peguei ele se assustou, já veio para tomar da minha mão. Ele já faleceu, uma das filhas guarda até hoje. Era um tonante, preto, nem sei se existe essa marca atualmente. Foi meu primeiro instrumento. Eu comecei a pegar, mesmo forçando a barra, ele não gostava que ninguém pegasse, eu pegava só para fazer barulho. Um dia ele pegou para me ensinar uma música, “quer aprender uma música?”, eu “quero”. Ele tocava poucas músicas, uma das que ele tocava, que ele solava no cavaquinho, era Naquela mesa [de Sérgio Bittencourt, feita em homenagem a seu pai, Jacob do Bandolim], foi a primeira música que ele me passou. Quando eu cheguei em casa mostrando pra meu pai, meu pai já se empolgou, aí pronto.

Você considera seu avô seu primeiro professor? Eu acho que sim. Foi ele quem primeiro me passou alguma coisa.

Como é que foi esse processo de transição do cavaquinho para o bandolim? Eu comecei exatamente nesse grupo que meu pai montou, a ir para o Clube do Choro em Natal. Eu comecei mais ou menos com oito anos. É sempre difícil eu saber a data que eu comecei por que meu pai tem uma tendência a diminuir. Se vocês forem falar com meu pai é capaz de ele dizer que eu comecei com quatro [risos dos chororrepórteres]. Então de tanto eu ouvir meu pai reduzindo, a idade com que eu comecei, eu fico em dúvida. Mas eu acho que eu tinha uns 10 anos mais ou menos, quando ele decidiu me levar para o Clube do Choro. Eles se reuniam acho que quarta-feira à noite. Quando cheguei lá foi um choque de realidade. Eu até ali não estava preocupado com o que eu fazia. Esse grupo que meu pai montou, a gente fazia qualquer coisa e eu estava agradando pela idade. Quando eu cheguei no Clube do Choro, não, o pessoal já comigo completamente diferente, eu comecei a revisar, a estudar, a escutar, montar repertório. Começa a tocar, as pessoas começam a falar, “instrumento para solista não é cavaquinho, é bandolim, tem muito mais possibilidades, uma maior escala, se você começar a tocar bandolim você vai largar o cavaquinho no outro dia”. No Clube do Choro não tinha solista de cavaquinho, mas tinha um solista de bandolim. Na época foi uma de minhas primeiras referências: João Juvanklin. Toca até hoje, tem vários cds lançados lá em Natal, eu toco várias músicas dele, é um excelente compositor. Para mim foi uma inspiração para eu migrar para o bandolim. Não lembro exatamente quando, me deram um bandolim de presente lá no Clube do Choro. E realmente, quando eu comecei a tocar bandolim eu deixei o cavaquinho de lado.

Você desperta para o choro em meados da década de 1980, quando o rock brasileiro estava no auge. Eu nunca fui muito de rock, essa geração do rock brasileiro, a minha esposa, por exemplo, conhece muita coisa dessa época, Capital Inicial, Engenheiros do Hawaii, Legião Urbana, mas essa geração passou meio de lado para mim. Eu acho que eu já estava muito focado nisso aí [no choro], realmente foi muito intenso, eu acho que eu toquei tanto nesse período aí, dos 12 aos 20 anos, que quando eu tive uma situação que me permitiu largar o bandolim eu não senti saudade.

No bandolim você se considera meio autodidata? De início, sim. Mas as coisas foram acontecendo muito rápido. No momento em que eu estive no Clube do Choro eu comecei a aparecer mais e tinha um instituto de Música lá em Natal, o Instituto Valdemar de Almeida, e tinha vários cursos de música, curso de teoria, bandolim, cavaquinho, violão, e na época, o diretor do instituto fez uma apresentação no Clube do Choro e me ofereceu bolsas para eu estudar gratuitamente no instituto. Aí eu perguntei: “bolsa de quê?”, e ele “do que você quiser”. Aí eu disse que ia fazer cavaquinho, bandolim, teoria musical, vou fazer tudo. Ainda nessa época eu estudei cavaquinho, bandolim, com o professor Alexandre Moreira, que é sobrinho do João Juvanklin, que também é bandolinista, é uma família com vários bandolinistas, a esposa do Alexandre também é bandolinista, uma bandolinista canhota, muito boa, eu comecei a estudar no Instituto, bandolim, cavaquinho e teoria musical. Até então, aí, era basicamente de ouvido. Na época, mesmo você estudando, a gente não tinha facilidade de encontrar material como se tem hoje em dia. “Ah, gostei dessa música”, se você for esperar a partitura para aprender aquela música você não aprende. Não ia achar, não tinha internet para procurar, então eu acabei desenvolvendo uma capacidade muito grande de aprender música de ouvido. E eu não precisava estar com o instrumento para aprender, bastava ouvir. Isso acontece até hoje. Eu não perdi o bandolim, deixei de tocar, fiquei praticamente 10 anos sem tocar, mas eu não deixei de ouvir.

Quando você foi para a França você largou o bandolim? Não, na França, até 2004, eu fiquei lá de 2000 até 2004, lá eu cheguei até a fazer algumas gravações, não de choro. Eu participei de um projeto com um cantor que queria gravar a música de Jorge Brassan, era uma música em ritmo de bossa nova, ele queria dar uma mudada. Eu cheguei em Toulouse, eles estavam inaugurando uma linha de metrô e queriam criar uma música para tocar no lançamento desse metrô, e quando eu estava lá eu conheci um grupo chamado Le Famouse T, me disseram que tinha uma brasileira, eu fui me informar quem era, era a irmã do Armandinho Macedo [bandolinista] que fazia parte desse grupo. Ela tinha a intenção de fazer uma música voltada para o frevo, para tocar no lançamento desse metrô. O Armandinho de vez em quando aparecia na França. Ela soube que eu tocava bandolim e acabou me convidando para participar desse cd, que eles lançaram com o patrocínio da empresa de transportes. A gente gravou uma música, eu fui na França o ano passado, estava tocando essa música lá, era uma composição deles e eu gravei uma participação. Eu toquei, mas sempre tinha uma brincadeira lá e eu não abandonei o bandolim, a gente está fora, sente mais saudade da terra, era uma forma de eu me ligar ao Brasil. Mas quando eu voltei ao Brasil, praticamente fiquei sem pegar no bandolim, de 2004 até o ano passado. Pegava em casa, ocasionalmente. Foi um período conturbado, eu era de Natal, fui para a França, voltei para Maceió, fiquei dois anos em Maceió, depois vim para cá, quando eu estava em Maceió minha esposa engravidou, eu vim para cá com uma criança de 20 dias, entrei na UFMA, comecei a focar naquilo ali e a música foi ficando de lado, ficando de lado…

Além de teu avô quem você considera seus principais mestres? Meu avô foi importante no início. Eu diria o João Juvanklin, lá de Natal, nunca foi meu professor de bandolim, mas o fato de eu estar tocando frequentemente ali com ele, no Clube do Choro, aprendi bastante coisa com ele. O João Juvanklin tinha uma coisa que eu admirava bastante nele, era o som que ele tirava do bandolim. A gente encontra muitos bandolinistas bons, mas são poucos os que conseguem tirar do bandolim o som que o bandolim é capaz de fornecer.

Isso tem a ver com técnica? Ou com a qualidade do instrumento? Isso tem a ver com técnica, principalmente. Mas também com a qualidade do instrumento, se você pegar um instrumento ruim é difícil, mas um cara que tem o domínio da técnica consegue até tirar um som bonito num instrumento ruim. Agora tem muita gente com bons instrumentos que não consegue tirar esse tipo de som. E ele tirava. Um dos elogios que me fizeram a vida toda é exatamente em cima disso aí, que eu consigo tirar um som bonito do bandolim, provavelmente inspirado no que eu ouvia dele para produzir esse tipo de som.

Além de técnica e da qualidade do instrumento, onde você localiza o sentimento? O sentimento é importante. Quando a gente fala em técnica a gente só pensa em agilidade. Quando eu falo em técnica eu incorporo a questão do sentimento aí também. Você pega uma música como Vibrações, se você não colocar sentimento ali ela não rende, não flui, é uma música qualquer. Quando você escuta a gravação de Jacob do Bandolim [autor da música] você sente alguma coisa diferente, você sente as emoções que ele estava tentando imprimir quando estava tocando aquela música. Isso é outra coisa difícil também, você sentir que o cara que tá tocando aquela música está sentindo alguma coisa e não tocando mecanicamente. Se for mecanicamente a música não sai com qualidade.

Além de cavaquinho e bandolim você toca algum outro instrumento? Eu toco um pouco de violão sete cordas, um pouco de violão seis cordas, eu nunca tive um violão em casa. Quem toca em grupo de choro sempre vê os outros tocando e acaba aprendendo um pouquinho. Eu gosto de brincar um pouco com o violão, de sete, de seis, cavaquinho. Já toquei um pouco de violino, é a mesma afinação de bandolim, tive um pouco de dificuldade com o arco, mas se adapta, se eu quisesse insistir eu me adaptaria, a escala é a mesma coisa. Basicamente isso aí.

Já que você também toca cavaquinho, que lugar tem Waldir Azevedo em teu repertório? Hoje praticamente eu não toco Waldir Azevedo devido a eu ter focado muito no bandolim. Mas eu tenho um repertório muito grande de Waldir Azevedo, na época que eu tocava cavaquinho era essencialmente Waldir Azevedo. Meu pai tinha a coleção dele praticamente completa em vinil, eu gosto bastante.

E Jacob? Jacob tem um lugar bem especial. Eu tenho um repertório muito bom de Jacob do Bandolim. Na época em que eu comecei a tocar não era fácil encontrar. Eu aprendi muita coisa de Jacob pelo João Juvanklin, não pelos discos, eu olhava-o tocando. Da minha geração é uma das principais referências.

Além de instrumentista você desenvolve alguma outra habilidade na música? Compõe, arranja? Eu nunca fui muito de compor, acho que não tinha nem tempo para parar para compor, sempre fazia várias coisas paralelamente, além da música, várias outras atividades. Mas cheguei a fazer algumas composições, lá atrás. Quando eu cheguei à São Luís, depois que eu conheci o Regional Tira-Teima eles me falaram que estavam fazendo um disco de composições originais e perguntaram se eu não tinha alguma composição. Eu gravei duas no cd deles, minhas, uma que eu tinha feito lá atrás, e uma que eu compus especialmente para estar neste cd. Uma é Aguenta seu Florêncio, que eu fiz em homenagem a meu avô, seu João Florêncio [Ferreira]. Meu avô era daqueles que gostava de música a 150 quilômetros por hora, coisa que exigisse técnica. Eu fiz uma música para ele, faleceu há cerca de três anos. A outra é uma música que eu fiz para minha filha, recentemente, intitulada Anjo meu. Infelizmente não deu tempo de participar mais, o disco já estava praticamente pronto. Eles tinham intenção que eu incluísse o bandolim em outras músicas, mas isso ia terminar atrasando o lançamento do cd.

Você gosta de tocar com o Tira-Teima? Gosto! Foi engraçado, eu tava há quase 10 anos sem tocar, conheci-os meio por acaso, estava na casa de um professor da UFMA, toca piano, Adelino Valente [pianista e bandolinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 20 de julho de 2014]. Desde que eu cheguei na UFMA a gente se encontrava pelos corredores e o pessoal dizia para ele: “ah, ele toca bandolim”, e me dizia: “ah, ele toca piano”, e ninguém botava muita fé: um professor de matemática que dizem que é muito bom e toca piano e um professor de engenharia química que toca bandolim [risos]. Foi passando um ano, dois, três anos, um dia ele me chamou para ir à casa dele, fomos tocar um pouquinho. Quando eu comecei a tocar ele começou a ligar. Ligou pra Solano [Francisco Solano, violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 26 de maio de 2013], pra Paulo [Trabulsi, cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 22 de dezembro de 2013], o pessoal do Tira-Teima: “venha cá, venha cá”. Eles estavam na época do Tira-Teima Convida [temporada de apresentações em que o Regional recebia convidados, no Terraço do Hotel Brisamar] e eu participei com eles uma sexta-feira. Me convidaram para tocar, mas eu estou tocando sem compromisso. O fato de eles tocarem em uma data fixa, na sexta-feira, pra mim é um pouco complicado. Pode acontecer de um semestre eu ter aulas na sexta-feira à noite, os horários variam. Às vezes eu saio muito tarde. Se eu assumisse o compromisso eu teria que ir, então eu preferi ficar um pouco mais livre.

O que trouxe você à São Luís foi a UFMA? Foi a UFMA. Inclusive foi meio inusitado. Eu não queria vir para os lados de cá. Eu sou de Natal e tinha a intenção de ficar ali perto. Só que quando eu voltei do doutorado eu estava atrás de edital para professor, e dos editais que lançaram na época, normalmente esses editais exigem que você revalide o diploma. Todos os editais exigiam o diploma revalidado, menos o da UFMA. A UFMA não exigia a revalidação para a inscrição, só para a posse. Aí eu vim fazer, vim parar aqui.

Você, como engenheiro químico, com doutorado na área, consegue fazer alguma relação, se é que é possível, entre a música e a engenharia química e em que sentido uma coisa e outra se atrapalham e se ajudam? Eu acho que não atrapalha, mas também não ajuda. Quem trabalha na área da engenharia, se pudesse ter um lazer como a música, seria fantástico. É uma profissão estressante, um pouco pesada, principalmente em nível universitário, pega turmas enormes, conteúdo que envolve muito cálculo. Então você ter a opção de quando estiver estressado pegar um instrumento e dar uma relaxada, é fantástico. Eu me distraio facilmente com outras atividades, não só com música, mas com leitura, com tevê. Agora, relação direta, existem teses que falam da relação da matemática com a música; da engenharia, especificamente, eu não conseguiria fazer.

E os grupos de que você fez parte lá em Natal? Eu fiz parte desse que meu pai criou, eram Os Originais do Choro, deve ter durado uns três anos, aí eu fiz parte do Clube do Choro, enquanto ele existiu, devo ter ficado uns seis, sete anos. É aquele negócio, o pessoal se reunia para tocar, muita gente que tocava no Clube do Choro era músico profissional, depois começou a querer se expandir. Enquanto tocávamos às quartas-feiras, tudo bem, depois começaram a querer fazer sexta e sábado, aí começa a tirar opção de quem vive de música, então o Clube do Choro acabou, se dividiu em dois grupos, eu fiquei tocando em um e o outro foi para outro lado. Quando eu entrei na faculdade eu larguei tudo, sabia que era um curso pesado. Mas a música ainda estava muito perto e o pessoal, “não, vamos montar um grupo”, aí montamos um grupo de samba, Os Engenheiros do Samba. Eu tocava cavaquinho, era uma brincadeira de estudantes. No meio desse curso as bandas de samba sérias de Natal começaram a me ver tocando e eu comecei a receber convites, do Divina Chama, Verdadeira Chama, era outro nível, um negócio maior, multidões, palco grande, algo que eu nunca tinha tido com o choro. Começou a me dar uma renda e não exigia muito de mim.

E discos? Você chegou a gravar? Na época em que eu saí foi que o pessoal começou a gravar. O João Juvanklin gravou um disco patrocinado pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, hoje ele tem uns seis ou sete, mas tudo gravado depois que eu saí de lá. Inclusive ele fala, sempre que a gente se encontra, que ele ainda queria que eu participasse de um cd dele. Eu esqueci de falar de um grupo: quando eu estava no Mestrado eu participei de um grupo de choro chamado Choro & Companhia. Foi o último grupo em que eu toquei, até ir embora para a França, de 1998 a 2000, estávamos com um projeto de gravar um cd na época. Não tinha mais nenhum grupo de choro e a gente de algum modo fez ressurgir. Foi interessante por que a gente foi chamado até para participar de festivais internacionais. Antes de eu ir estudar na França eu fui lá com esse grupo tocar, num Festival de Verão. Quando a gente voltou, o flautista desse grupo, é bem conhecido, o Carlos Heinze, estava gravando o cd dele e eu participei de duas músicas, correndo, antes de viajar, uma gravação feita às pressas.

Pra você, o que é o choro? Qual a importância dessa música? O choro foi que me fez praticamente gostar de música. O choro, por incrível que pareça, é uma música interessante para você começar a caminhar pela música brasileira. O choro é meio resultado de vários gêneros que acabaram culminando nesse estilo. Quem pensa em começar a tocar, um bom ponto de partida é o choro. Ele tende a ser um cara bem eclético, tende a ter uma preparação que permita ele transitar entre várias áreas da música brasileira. O músico de choro tem facilidade de se integrar com vários estilos musicais.

Você concorda que quem toca choro toca qualquer coisa? Qualquer coisa eu não diria, mas toca muita coisa. Tem alguns estilos musicais que são diferentes. Um solista de choro tem dificuldades de improvisar no rock, é uma linguagem totalmente diferente. Nessas músicas mais brasileiras ele tem mais facilidade de transitar entre elas.

Você se considera um chorão? Sim. É o gênero em que eu me sinto à vontade. A linguagem é muito comum quando a gente está há muito tempo naquele meio. Você ouve, já começa a improvisar, conhece aquela linguagem. Me considero um chorão, embora goste muito de samba também, devido a essa experiência que eu tive na graduação quando toquei em grupos de samba.

Quem você considera o maior nome do bandolim do Brasil? Em todos os tempos? Jacob!

Por que? Pelas composições dele. ele deu uma cara ao bandolim, se pedir para alguém citar, “diga 10 composições que você gosta ao bandolim”, nove vão ser de Jacob, se não forem as 10.

[O Imparcial, 15 de março de 2015]

A vasta bagagem de Curumin

 

Com três discos na bagagem, o cantor, compositor e multi-instrumentista Curumin é um dos mais interessantes artistas da música brasileira surgidos nos anos zero zero. Além dos discos solo – Achados e perdidos (2003), JapanPopShow (2008) e Arrocha (2012) – é nome fácil em fichas técnicas de discos de artistas diversos.

Arrocha. Capa. Reprodução
Arrocha. Capa. Reprodução

Pilotando bateria, percussão, guitarra e/ou contrabaixo, para citar apenas a cozinha básica – a lista de instrumentos que toca é enorme – lá está Curumin, titular dos times de, entre outros, Arnaldo Antunes (Disco, Ao vivo lá em casa, Iê iê iê), Marcelo Jeneci (seu companheiro na banda do ex-Titãs, Feito pra acabar), Céu (Vagarosa), Itamar Assumpção (o póstumo Maldito vírgula), Lucas Santtana (Sem nostalgia), Rodrigo Campos (São Mateus não é um lugar assim tão longe), Rômulo Fróes (Cão, No chão sem o chão), Russo Passapusso (Paraíso da miragem), Walter Franco (Tutano), Zélia Duncan (Pelo sabor do gesto) e Anelis Assumpção (Anelis Assumpção e os Amigos Imaginários), com quem é casado.

Esse trânsito intenso torna impossível rotular a música deste descendente de espanhóis e japoneses com nome artístico indígena. Sua obra agrega elementos de samba, funk, forró, hip hop, afoxé, reggae, eletrônica e mais um rosário de referências. Seus discos são, ao mesmo tempo, dançantes e inteligentes, com letras por vezes fazendo denúncia social – Caixa preta aborda as relações entre mídia e os outros poderes e Mal estar card trocadilha a exclusão social, para ficarmos apenas nestes exemplos.

Curumin se apresenta pela primeira vez em São Luís amanhã (11), de graça, na Praça Nauro Machado (Praia Grande), na programação do Festival BR135, que acontece de hoje (10) a sábado (12). Arnaldo Antunes (que se apresenta hoje na noite de abertura), Siba (na de encerramento) e Orquestra Brasileira de Música Jamaicana são alguns dos outros nomes da grade – veja programação completa no site.

Às vésperas de baixar na Ilha, Curumin conversou com o Homem de vícios antigos.

Foto: Mauro Frasson/ Agência Fiep
Foto: Mauro Frasson/ Agência Fiep

 

Quais as expectativas para esta sua primeira apresentação em São Luís?
As minhas expectativas são as melhores. Eu conheço São Luís, eu sei que é um lugar único no Brasil, com uma mistura, uma cultura ímpar que só tem aí, e também a gente vai chegar aí com um show muito trabalhado, na ponta dos cascos, que a gente já tocou bastante, já rodou o Brasil todo, pelo mundo, é uma banda que tá há muito tempo tocando junta, então tá soando bem natural, bem tranquilo.

O que você conhece da música popular produzida no Maranhão? Destacaria algum nome?
Sinceramente não lembrava de nenhum nome e vim pesquisar com a certeza que conhecia algo daí, mas não sabia que era daí, como por exemplo, João do Vale, Nonato e Seu Conjunto, que são duas referências antigas e de sons únicos. João do Vale tem um disco maravilhoso, O poeta do povo, enfim, um som muito importante para a música popular brasileira. E além disso também os sons novos, da Rita Ribeiro [hoje Benneditto], Zeca Baleiro, Tânia Maria, não tão nova, Tião Carvalho, e toda tradição de reggae que tem aí. Então, eu sei que é um lugar muito prolífico, que respira uma cultura, como eu já disse, única. Eu tenho certeza que tem muita música aí, o tambor de crioula e todas as manifestações, a [Casa] Fanti-Ashanti também, enfim.

Em Arrocha, seu mais recente disco, você regravou Vestido de prata, de Paulinho Boca de Cantor. Em algum sentido, uma espécie de liquidificador fundindo sonoridades aproxima você da trupe, como se seu som fosse uma atualização, possivelmente o que eles estariam fazendo hoje, caso estivessem na ativa enquanto grupo. Em que medida os Novos Baianos são uma referência?
Os Novos Baianos são uma referência, sem dúvida. Eu acho que eles tinham uma coisa, uma proposta mesmo ousada para a época, à frente, tentando ver lá pra frente, tentando chutar regras antigas, tentando inovar, procurando coisas novas, misturas, que falassem a respeito da vida deles. Com certeza eu acho que os Novos Baianos são uma referência, eu escutei muito e tive aquilo muito como influência pra mim.

Você é casado com Anelis Assumpção, filha de Itamar Assumpção e sua herdeira musical. Você já o admirava? Qual a importância e o lugar em que você o coloca? É também uma referência importante?
Com certeza eu já admirava o Itamar, mas estando aqui com a Anelis eu pude admirar cada vez mais, todas as histórias que eu fui ouvindo, e todo o amor que existia em torno dele, e que ele criou na vida dele, e também a história maravilhosa, [corrige-se] quer dizer, maravilhosa, uma história difícil, mas por isso mesmo, talvez, gloriosa, de ter nadado contra o sistema, contra a maré pra conseguir seguir o caminho que ele acreditava e todos os percalços que ele encontrou na frente, mas também toda dignidade que ele teve pra botar isso em frente e fazer música no Brasil.

Você tem uma carreira solo consolidada, mas também é músico de diversos artistas importantes. É difícil conciliar as agendas? O quanto uma coisa atrapalha a outra?
Eu não sinto que atrapalha, muito pelo contrário, eu sinto que me ajuda, por que dá uma desbaratinada, você começa a fazer um trabalho, vai pra outro, isso ajuda também a tirar um pouco uma coisa só da cabeça, a pensar outras coisas, pensar outras formas, e também cada artista que você acompanha você tem uma visão diferente da música. Isso é bom, amplia o repertório, amplia as formas que eu posso me relacionar com ela.

Curumim, com m, é como se chamam as crianças indígenas. Curumin, com n, é seu nome artístico. De onde surge essa assinatura, já que você descende de japoneses e espanhóis?
Curumin foi um apelido de escola, de criança, desde pequeno eu tenho. É um apelido que foi grudando em mim de jeito que meu filho, hoje, se eu falar que meu nome é Luciano [Nakata Albuquerque] ele acha estranho [risos]. Aqui em casa todo mundo me chama de Curumin. Essa coisa do n no final, eu não sei direito em que momento eu resolvi colocar, acho que era também um jeito de diferenciar do curumim indígena, acho que é isso.

Você toca diversos instrumentos e a produção de seus álbuns é, em parte, caseira. A tecnologia favorece os experimentos, colagens. Você mexe muito numa música, seja compondo ou gravando, até decidir que ela está pronta para entrar num disco?
Cara, depende. Cada música tem meio um percurso. Compacto, por exemplo, é uma coisa que saiu assim, surgiu. Até o JapanPopShow eu fazia muito música assim, ah, pintou uma ideia, pluf, eu colocava e pronto, deixava aquela ideia bruta ali. No Arrocha já foi um processo diferente, eu pensava mais, eu fazia o groove, depois ia lapidando, lapidando. E gravando eu mexo, normal, assim, eu tenho uma coisa de ter um cuidado, às vezes eu fico meio cuidando até demais, mas eu sei também de um limite, não é uma coisa exagerada. É até um ponto que eu aguento, que não me enche o saco [risos].

O que você está preparando para o sucessor de Arrocha?
[Pensativo] Olha, o que eu tenho [interrompe-se]. Isso já veio com o Arrocha já um pouco, as experiências de tocar ao vivo com a banda que a gente tem, foi me levando a um conceito da nossa banda, do nosso elo, de como a gente soa, que tipo de música soa bem com a banda que eu tenho agora, que eu já tenho já faz tempo. Mas isso é sempre uma busca, acho que esse disco vai ter essa busca um pouquinho também. Minha banda sou eu e mais dois baixistas, só que um dos baixistas toca guitarra, eu tenho fundado muito esse disco na coisa da linha de baixo, na bateria e baixo. Eu tenho pensado todas as músicas a partir daí. Uma primeira ideia de melodia simples que vem na minha cabeça eu transformo em linha de baixo pra depois criar o resto em cima. É quase como se fosse assim a estrutura da casa, primeiro eu penso na estrutura bem firme, nas vigas, aí depois eu vou construindo o resto.

Músicas como Caixa preta e Mal estar card, de JapanPopShow, traduzem as tenebrosas transações do cenário político brasileiro e são músicas mais atuais do que nunca. Como você avalia o atual momento por que passa o país?
É claro que é um horror, né? Mas tem um lado bom, eu não sei se posso dizer que é bom, mas tem um lado que até então, até esse momento de crise que a gente vive hoje, a gente sempre soube que as coisas horríveis do país existiam. Mas agora todas as máscaras tão caindo e acho que isso, apesar do sentimento horrível que a gente tem, a desesperança, a frustração que a gente tem mesmo em relação a nosso plano de país, eu acho que tem um lado bom, que é – eu ainda tou custando a falar que é um lado bom, mas assim –, tem esse lado de caírem todas as máscaras. Tudo o que é errado está aparecendo, tá vindo à tona. Isso tem sido importante, vai ser um processo que a gente vai ter que passar, dolorido mesmo, e espero que [as coisas mudem] para melhor.

Um relato humano sobre uma tragédia nacional

Nana Queiroz não temeu envolver-se com personagens. O resultado é uma narrativa leve contando as histórias de um sistema brutal – e covarde

Presos que menstruam. Capa. Reprodução
Presos que menstruam. Capa. Reprodução

A tragédia e os dramas particulares e coletivos vividos no sistema penitenciário brasileiro são, em alguma medida, bastante conhecidos. Sobretudo em tempos de rebeliões e mortes em massa, quando o tema, vez por outra, pauta o noticiário nacional.

A jornalista e ativista feminista Nana Queiroz mergulhou na realidade de diversas prisões do Brasil, abordando-as com um recorte inusitado: a vida de mulheres – inclusive gestantes e parturientes – tratadas como homens em prisões. O resultado é o comovente Presos que menstruam [Record, 2015, 292 p.], em que a própria autora torna-se personagem: chegou a ser presa por algumas horas diante da intransigência das autoridades penitenciárias.

Nana enfiou literalmente o pé na lama, envolveu-se, meteu a mão no bolso, emocionou-se. E conta diversas histórias a um só tempo brutais e emocionantes. Não é à toa o subtítulo “A brutal vida das mulheres – tratadas como homens – nas prisões brasileiras”.

A autora não torna nenhuma personagem santa, tampouco faz julgamentos – papel da Justiça, não de jornalistas, é sempre bom lembrar. Mergulha nas histórias, contando-as da melhor forma possível, utilizando-se de memória privilegiada (quase sempre era proibida de entrar com gravadores nas prisões) e texto leve (apesar da dureza e crueza do assunto abordado).

Mas engana-se quem pensa que a história acaba aí: Presos que menstruam deve virar filme ou minissérie em breve e tem levado Nana Queiroz a diversos debates país afora: quem sabe não seja o início de um novo momento da discussão sobre a realidade carcerária no Brasil? Leitura fundamental para gestores e operadores do sistema e aos que teimam em propagar a velha e surrada cantilena do “bandido bom é bandido morto”.

Nana Queiroz conversou com exclusividade com o Homem de vícios antigos sobre o livro, jornalismo independente, ativismo e a citada cantilena, reflexo do “ódio social”.

Nana Queiroz em foto de João Fellet
A jornalista e ativista feminista Nana Queiroz em foto de João Fellet

 

Presos que menstruam é um livro que garante dimensão humana a mulheres encarceradas, algo que falta na prática cotidiana do jornalismo que cobre esta pauta. A seu ver, onde reside o problema?
Eu acho que isso não é um problema do jornalismo, é um problema cultural brasileiro. Eu até entrevistei a responsável pelo sistema penitenciário do Brasil, do Ministério da Justiça, há uns tempos, pr’uma reportagem para a revista Superinteressante sobre bebês encarcerados, e ela falou: “olha, você me desculpa, mas eu nem posso investir muito nesse setor, para melhorar a vida dessas crianças, por que o brasileiro tem tanto ódio no coração, que eles vão pegar pesado em cima do poder público se investir no sistema carcerário”. Por que existe um ódio social mesmo, a velha ideia do “bandido bom é bandido morto”. Essa, pra mim, é a raiz de todos os problemas, que se refletem, claro, na realidade das prisões, se reflete na mídia, se reflete na literatura. Não é à toa que só em 2015 a gente viu o primeiro livro com uma grande reportagem sobre o sistema carcerário brasileiro feminino. É uma questão a ser pensada, é uma questão de ódio mesmo, social.

Um dos grandes trunfos do livro é seu envolvimento com as personagens. De certo modo, você acaba tornando-se uma, por exemplo, no episódio em que ficou retida por algumas horas em uma penitenciária que visitava. O jornalismo precisa enfiar mais o pé na lama, sobretudo ao abordar temas tão difíceis?
Olha, os jornalistas sempre enfiaram o pé na lama, nisso eu não tenho nenhum mérito a mais do que as outras pessoas que fizeram grandes reportagens por aí. O que eu acho que faço de diferente, e não sou precursora – Eliane Brum já vem fazendo isso há anos, por exemplo –, é a conclusão de que sentimento faz parte da realidade. Antes o jornalista tentava transmitir uma realidade fria, em que ele era ausente. Eu entendo, como entende, imagino, a Eliane Brum, que é minha grande ídola [risos], que jornalismo tem fatos, opiniões e sentimentos e cheiros e tatos e paladares e tudo isso. Então, isso foi o que eu tentei transmitir com a minha presença no livro, eu tou presente só pra falar de sentimentos, é só pra eu me botar no lugar do leitor que vai estar lendo. Eu também nunca cometi um crime, e estou me relacionando com mulheres que cometeram, eu tentei pensar como as pessoas poderiam se sentir como eu estava me sentindo. Isso faz parte dessa realidade, isso tem que ser discutido, principalmente quando você tá falando, tratando de uma questão que é praticamente invisível por conta do ódio social. A minha capacidade de chegar lá, ter empatia e amar essas mulheres é importante para que o leitor perceba que se ele estivesse lá, talvez ele também as amasse. E talvez valha a pena recuperar em vez de se vingar. Mesmo do ponto de vista puramente egoísta é mais inteligente para a sociedade. Uma mulher presa custa de 2 a 5 mil reais por mês, dependendo do estado. Uma mulher empoderada, capacitada, custa, sei lá, um curso no Senai [Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial] de mil reais por mês, durante um ano, e depois não custa nada. Sabe? É uma questão do tipo: será que a gente não quer recuperar e prevenir o crime em vez de punir, castigar e só se sustentar enquanto sociedade na base do olho por olho e dente por dente?

Como você custeou as despesas para realizar o livro e qual a maior dificuldade em escrever a obra?
Como eu custeei as despesas? Com meu dinheiro, trabalhando [risos]. Ninguém me deu dinheiro nenhum. Eu fui fazendo essa pesquisa nas minhas folgas, férias, finais de semana, com meu próprio dinheiro. Quando a editora entrou eles me deram um pequeno adiantamento, mas a maior parte do livro já tava escrita, a apuração já tava feita. Claro que o adiantamento da editora superajudou, a editora é ótima, tem profissionais ótimos, a Record, mas grande parte foi tirada do meu bolso, como um ato de fé no projeto.

Seu livro deve virar filme ou série de televisão. Como estão as negociações?
Sim. A gente viu já um edital em Brasília, de 100 mil, para fazer o piloto, agora a gente tá negociando para possíveis patrocinadores. A ideia é produzir o piloto primeiro, com toda liberdade criativa, de ideal e ética que a gente quiser ter, e depois ver que canais topam comprar o projeto do jeito que ele é. Esse ano a gente está investindo muito dinheiro pra que ele cresça, fazendo várias negociações com vários canais, e a ideia é começar a gravação lá pro fim do ano que vem, mesmo.

Seu relato humanizado é escoltado por pesquisas acadêmicas e obras em geral sobre a questão carcerária, embora ainda insuficientes. Em que medida você acredita que seu livro preenche uma lacuna importante sobre o assunto?
Poxa, cara, relato humanizado. Eu sempre acredito que antes de ser jornalista eu sou ser humano e eu não acredito naquele mito de que eu tenho que tirar minha roupa de ser humano pra ser jornalista, sabe? Eu acho que, como aquele jornalista que eu conheci a história dele na época da faculdade, me marcou muito e eu decidi que nunca ia deixar de ser humana antes de ser jornalista. É um fotógrafo famoso [o sul-africano Kevin Carter, vencedor do Pulitzer em 1994], tava cobrindo a fome na África e fotografou uma criança no momento em que ela morria e um urubu descia sobre ela pra comê-la, e ele depois se suicidou de culpa por não ter ajudado aquela criança. Eu decidi que eu sempre ia ser o tipo da jornalista que põe a mão na lama, ajuda a criança e perde a foto, e depois, se der tempo, eu conto a história. Eu acho que seria uma história muito mais incrível, de como esse cara salvou essa criança, do que a fotografia da morte e da força da morte. Eu acho que é isso, esse é o relato que eu tento fazer, o relato do ser humano que acontece de ser jornalista e não do jornalista que eventualmente é ser humano.

Em torno de seu livro, campanhas têm sido deflagradas em diversos estados do Brasil em favor de mulheres apenadas. Em São Luís, o Coletivo Fridas realizou a campanha Ciranda de Afetos, em que arrecadou doações, sobretudo de kits de higiene e absorventes, e doaram a detentas, além de lhes proporcionarem momentos lúdicos. Ao escrever o livro você vislumbrava este engajamento? O que acha deste tipo de iniciativa?
Nunca, jamais, nenhuma atitude que eu tive como jornalista ou como ativista eu pensei que as pessoas fossem se engajar o tanto que elas se engajaram. O Eu não mereço ser estuprada [campanha contra a culpabilização das vítimas de estupro] foi uma puta surpresa pra mim, o Presos que menstruam, por toda essa mobilização ao redor do mundo foi uma surpresa igual. Eu nunca imaginei, mas foi um acalento tão gostoso. Produzir esse livro me deixou derrotada, desesperançada. Ver que o mundo se preocupa, ver agora as pessoas se preocupando com as crianças presas, é para mim um acalento sem igual.

Você é editora da revista Az Mina, de temática feminista. A revista online também amarga suas dores e delícias. A importância da iniciativa compensa as dificuldades?
Engraçado cê perguntar isso: hoje eu acabei de fazer um post, eu nunca trabalhei tanto, fui tão mal paga e fui tão feliz [gargalhada]: ô, se compensa! E compensa por que a gente tem um grupo de leitores crítico que não deixa a gente em paz. Eu adoro isso, sabe? Eu adoro esse clima de, tipo, “eu tou em cima, vocês não vão fazer merda!”. Isso é que devia ser o jornalismo em todo lugar, entendeu? Isso devia ser o jornalismo na grande mídia, isso é jornalismo! É tipo você fiscalizar o poder público, mas você ter o povo fiscalizando você, entendeu?. A gente não é o quarto poder pra ser o quarto poder, que é onipotente. A gente é o quarto poder fiscalizado pelo quinto, que é o povo. Eu acho incrível! A nossa redação é uma redação amorosa, em que o conceito de sororidade, que é esse conceito da irmandade entre as mulheres, chega a seus limites. A gente está sempre aberto a críticas, a gente fala umas com as outras, às vezes até para apontar defeitos, mas de maneira muito amorosa, então a gente tá construindo uma coisa especial, acima da média.

Seu depoimento à campanha #primeiroassedio, do coletivo feminista Think Olga, relatou um abuso sofrido aos cinco anos de idade, de um colega de infância praticamente da mesma faixa etária. Em que medida o sofrimento com a situação levou você ao ativismo em defesa dos direitos das mulheres?
Eu nunca tinha tido coragem de falar desse sofrimento antes, em nenhuma outra entrevista, mesmo durante o Eu não mereço ser estuprada, e é duro pra mim. Eu acho que em muitos momentos eu não quis falar por que eu não queria que a minha história pessoal tivesse mais destaque do que a causa em si. E eu continuo não querendo. Mas eu partilhei o meu relato no Primeiro assédio, por que eu achei que o Primeiro assédio merecia engajamento, merecia que as pessoas contassem histórias que iam muito além do assédio para chegar ao estupro e ao abuso sexual severo, como foi meu caso, que me marcou a vida inteira e foi misturado com um quê de culpa cristã mal administrada e um pouco de fanatismo religioso, foi bem grave. Por que eu conto isso? Por que muita gente não sabe que se você for abusada por uma criança não significa que você não foi abusada. Você foi, as características de estupro estão todas lá. É como se você for assassinado por uma criança de sete anos não significa que você não morreu. Então, o estupro por uma criança de sete anos não significa que você não foi estuprada, é o meu caso. Eu, hoje, avalio que a culpa não foi dessa criança, mas dos adultos que estavam ao redor e educaram essa criança pro abuso, por conta de uma cultura extremamente machista, de uma casa que era muito machista, a dele, eu conheço a família dele. Eu [pausa] não sei, eu sei que essa pessoa se tornou um homem difícil de lidar, mas eu tento encontrar [algo] dentro do meu coração para transformar essa dor em construtividade, assim, na vontade de querer que isso não aconteça com outras pessoas, e isso me consola, sabia? Isso me consola.

Chorografia do Maranhão: Celson Mendes

[O Imparcial, 22 de fevereiro de 2015]

Aviador e violonista, Celson Mendes é o 48º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVANIO ALMEIDA SANTOS

Celson Afonso de Oliveira Mendes Filho nasceu em Barreirinhas/MA em 25 de janeiro de 1952, pelas mãos de freiras da paróquia local. É o mais velho de oito irmãos. Com menos de dois anos foi levado pelo pai para o Rio de Janeiro, morando depois no Recife e em diversas outras cidades brasileiras – incluindo Cururupu/MA, onde chegou a administrar uma destilaria de álcool.

A vida do violonista é feita de aventuras e acasos. Aviador, ele se tornou músico profissional por acidente – não aéreo; é que mesmo tendo descoberto o talento desde muito cedo, ele não tinha essa pretensão, até participar por acaso de um show de Joãozinho Ribeiro [compositor].

Filho de Celson Afonso de Oliveira Mendes, economista e estatístico, e de Maria Leônia Dias Mendes, Celson Mendes concedeu seu depoimento à Chorografia do Maranhão na nova praça de alimentação do São Luís Shopping, onde se apresentaria àquele sábado no projeto Arte Musical do Maranhão, que teve quatro noites dedicadas a ritmos, instrumentistas, vozes e compositores maranhenses, valorizando e apresentando a diversidade da produção musical do estado.

Ao longo da bem humorada entrevista, ele lembra a participação em grupos como o Bom Tom e o Regional Caixa de Música – quando venceu o Prêmio Universidade FM de melhor músico violonista –, as aventuras da vida de aviador, como guardou uma carteira de cigarros de Baden Powell como souvenir e sua relação com João Donato e Antonio Vieira.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Como era o universo musical na tua casa? Onde você identifica as primeiras influências? Foi meu pai. A gente morava no Filipinho, e ele era o camarada que agregava. Sempre gostou muito de cultura, artes, esportes. Era estatístico, depois se formou em Economia. Logo depois da Estatística ele resolveu fazer Odontologia. No último ano, os estudantes, formandos, iam para um hospital e operavam pessoas carentes gratuitamente. Uma das pessoas que ele estava tratando, ele arrancou um dente, a pessoa teve uma hemorragia, quase morre. Ele gastou uma grana preta para tratar da pessoa e resolveu que nunca mais [risos]. Quando ele foi para o Rio, tinha uns tios, ele se hospedava no apartamento desses tios, e eles tinham acabado de perder um filho. Aí se apaixonaram por mim, pediram para me criar. Ele falou com minha mãe, “pode ser muito bom para ele”, eu me mudei para Copacabana aos um ano e oito meses de vida, isso em 1953, final de 53. Peguei aquela época boa do Rio de Janeiro, em termos, quando dei por mim, lá por 61, 62, com 10 anos de idade, lembro de muita coisa de quando eu tinha cinco, seis anos. Lembro do célebre assassinato da Aída Cury [atentado violento ao pudor, tentativa de estupro e homicídio, o crime aconteceu na noite de 14 de julho de 1958, em Copacabana], lembro da repercussão sobre o atentado da [rua] Tonelero, de Carlos Lacerda [uma tentativa de homicídio contra o jornalista e político ocorrida na madrugada de 5 de agosto de 1954], era pertinho de onde eu morava. Eu morava a um quarteirão de um prédio onde moravam quatro vascaínos [jogadores do Vasco]. Eram eles: Barbosa [Moacir Barbosa, goleiro da seleção brasileira quando da derrota para o Uruguai, na final da Copa do Mundo de 1950, no Maracanã], o goleiro, Bellini [Hilderaldo Luís Bellini, zagueiro, capitão da seleção brasileira campeã mundial em 1958, na Suécia], parecia um artista de cinema, Sabará [Onofre Anacleto de Souza, atuou 12 anos – a maior parte de sua vida profissional – no clube carioca que lhe deu o apelido], eles moravam no mesmo prédio, na esquina de Nossa Senhora de Copacabana com Barão de Ipanema [não chega a dizer o nome do quarto jogador]. Eu vinha passar férias aqui. Meu pai centralizava. Todo domingo de manhã, ele acordava, tinha uma vitrola enorme, até hoje eu tenho discos dele, e ele colocava discos de música erudita durante uma hora, uma hora e meia, tomava café, depois disso começava a tocar Românticos de Cuba, e lá pelas 10, 11 horas, os amigos começavam a chegar com sacolinhas de cerveja, ficavam ouvindo aquele som e isso ficava até umas duas horas da tarde, sentados numa varandinha. Tio Maniquito tocava bem violão, minha vó dizia que o pai dela também tocava. Isso [as reuniões musicais do pai com amigos] desenvolveu, eu tinha duas irmãs de criação que adoravam música. Quando eu fui para Recife, meu sonho era ser aviador. Eu passei para o Colégio Militar do Rio de Janeiro e não me deixaram entrar, por que eu não era filho de militar. Fui pra Recife, passei de novo, nessa época meu pai era superintendente adjunto da Sudene, trabalhava com Celso Furtado [economista paraibano, autor de Formação Econômica do Brasil]. Ele disse: “venha pra cá e faça o exame de novo”. Passei e Celso Furtado foi lá e disse “agora ele entra”. Ao entrar no Colégio Militar, conheci um rapaz, loirinho, tivemos afinidade, ele gostava de basquete, eu também, de música ninguém sabia nada, ele gostava de tocar bateria, e ele disse “eu tenho um tio que é músico, muito famoso”. Eu não sabia de quem se tratava, ele dizia o nome, eu não sabia quem era. Até que um fim de semana ele me convidou para passar na casa dele. O pai dele era médico, coronel da aeronáutica, fui passar o final de semana na frente da praia de Piedade, onde tinha uma vila militar. Quando chega o irmão da mãe dele. Sabe quem era o cara? João Donato [pianista, um dos mentores da bossa nova]! Um dia eu estou passando por uma rua no Centro de Recife e ouço um som de violão que eu nunca tinha escutado. Uma tia compra o disco [Sambas e marchas da nova geração, de 1967] pra mim, Paulinho Nogueira, tocando Roda [faixa de abertura do disco], de Gilberto Gil. Foi meu primeiro elepê. Peguei esse disco, quase furo de tanto ouvir. Uma tia minha, que cantava muito bem, resolve aprender a tocar violão. Eu assistia as aulas, quando acabava, eu pegava o violão, ia lá para o quarto, e comecei a aprender violão assim. Um belo dia fui procurar um professor, ele me botou para tocar, “você leva jeito para a coisa, eu vou te dar umas aulas. Depois conforme seja, a gente vê o valor”. Eu era doido para aprender música, adorava aquele negócio de alguém botar as bolinhas [as partituras] na frente e sair tocando. Eu disse “eu quero aprender isso”. E ele: “primeiro vamos ver se realmente você tem queda”. E um belo dia eu roubei uma partitura dele. Uma semana depois eu voltei tocando aquele negócio. “Quem foi que te ensinou isso?” “Eu aprendi lendo”. Ele nunca me cobrou. Aí veio a perseguição política, meu pai teve que ir embora pro Chile, por conta da ligação dele com Celso Furtado, ele era padrinho de um irmão meu, inclusive. Meu pai foi embora, minha mãe foi para o Rio de Janeiro, com todo mundo, menos eu, por conta do Colégio Militar. Aí fui adotado pela irmã do João Donato, por isso eu a chamo Tia Eneida. Seguimos juntos, passamos para a Escola de Aeronáutica, eu e o Amim [sobrinho de João Donato], passamos para a preparatória, para a academia, depois me botaram para fora. Incompatibilidade de gênios.

O que foi, especificamente? A tia Eneida resolveu, em comum acordo, ela e o coronel Amim, resolveram se separar. Nessa época era a ditadura pesada, 1970. Nós éramos obrigados a nos recolher às 10h da noite, depois disso não podíamos sair, a não ser em toque de emergência. Eu era de uma turma, A, Amim era da turma H, tinha que atravessar, ele foi lá, chorando, e me disse: “nossos pais se separaram”. Botamos uma roupa, pegamos a carteira de cigarros, fomos para o pátio fumar e conversar. Nessa hora me chega um capitão, a gente vivia pendurado, aprontava muito. Eu era atleta, jogava basquete, jogava vôlei e isso me aliviava. Ele não, o negócio era ser músico, vivia tocando a bateria dele. O capitão disse: “cadeia pra vocês!”. Eu chamei o capitão e disse: “vamos fazer um acordo”. Com o número de dias que ele ia dar para nós, ele estava fora. Eu disse: “me dê os 10 dias de cadeia”, eu não sairia ainda, eu tinha uma reserva [risos], mas não faça isso com ele. Ele disse: “vou dobrar a dele e manter teus 10 dias”. Ele tinha uma .45 bem aqui [aponta para a cintura]. O que eu fiz? Dei um murro no nariz dele. No dia seguinte o brigadeiro comandante chamou: “vou fazer um acordo contigo. Fica aí até o fim do ano, pede teu desligamento”, faltavam dois ou três meses, “se não isso vai prejudicar sua vida toda, vai dar expulsão, e vou segurar o Amim, que é filho do brigadeiro e quem deu o murro mesmo foi você”. Numa boa, eu já estava de saco cheio mesmo. Saí da vida militar, seis meses depois o Amim pediu o desligamento dele também, foi chamado para a Transbrasil. Eu já fiz meu curso para aviação civil, era piloto da Votec [companhia aérea brasileira adquirida pela TAM em 1986], voava para a Petrobras, plataforma. Uns seis meses depois dessa história, mais ou menos isso, ele teve um acidente [chora, sem conseguir completar a informação de que o amigo faleceu].

Quem foram teus outros mestres no violão? Um cego em campos, foi professor também de uma cantora muito bonita, a Marina De La Riva. Os De La Riva eram usineiros, amigos de meu pai, meu pai eventualmente trabalhava para eles. Foi o maior tempo de aula com um professor particular. Depois eu estudei também na Escola Villa-Lobos. Estudei um pouco com João Pedro Borges [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 14 de abril de 2013], tive aqui o Pixixita [o músico José Carlos Martins, professor da Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo] como professor de harmonia. Minha vida de aviador não me permitia ter cursos regulares. Eu andava com o violão no avião. Depois proibiram. Eu cheguei a ter nove violões em lugares diferentes, ficavam no hotel. Eu ficava danado da vida quando me mandavam para um lugar onde eu não tinha um [risos].

Quanto tempo você passou nessa vida de aviador? De 1973 a 1980.

E depois? Em 1980 meu pai me fez uma proposta indecente. Eu estava indo pros Estados Unidos com a noiva, ele me apresentou um amigo, que estava precisando de alguém de confiança para recuperar um avião dele. Era urgente. Ele cobria a passagem, hospedagem no melhor hotel de Salvador e mais uma grana que cobria qualquer coisa. Acabei não indo, terminei o noivado. Eu tinha recebido proposta da Vasp na época, estava esperando terminar um curso, se não eu ia primeiro para a Táxi Aéreo Marília, que hoje é a TAM. O cara disse que ia pagar todos os meus cursos, era presidente do Santa Cruz [Futebol Clube], o maior advogado e maior fazendeiro de Pernambuco, usineiro em Alagoas, e tinha um projeto enorme no interior da Bahia. Tinha duas filhas, não tinha filhos. Ele me pagava um salário de piloto de Boeing, eu ficava voando, todo final de semana. O escritório era uma coisa familiar, de noite uísque rolava. Ele ia comprar uns tratores, acabou me contratando também para cuidar da parte técnica, foi esperto, pagava um para fazer o serviço de dois [risos], mas foi bom para mim também, continuei voando. Eu resolvia toda a questão técnica, ganhei um bocado de dinheiro, não tinha onde gastar, não tinha tempo. Depois meu pai resolveu montar uma destilaria de álcool em Cururupu, onde ele tinha, tem, um terreno. Vim pra cá, cheguei aqui 10 de outubro de 1980. Por que eu lembro? Primeira notícia que eu tive aqui foi que tinha afundado um barco chamado Lima Cardoso, com metade do povo de Cururupu, inclusive parentes e amigos meus. Isso fez meu retorno ao Maranhão, lembro bem desse sentimento, tinha passado minha vida toda fora, Minas [Gerais], São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Rio Grande do Norte e Pernambuco.

Nessa época você morava em Cururupu? Sim, eu morava na fazenda, a 10 quilômetros da [sede da] cidade.

Voltando um pouco, você viveu no Rio numa época de bastante efervescência, sobretudo na cena musical. Como isso reverberou em você? Quando eu me entendi por músico meus colegas de turma tinham banda. A música que eles tocavam eram Beatles. Eu achava bonito, interessante, a banda. Mas a música que me tocava era escutar Tom Jobim, Chico Buarque, João Donato, que eu passei a ter acesso aos discos. Eu ia para a casa da tia Eneida, ela tocava muito bem acordeom, cansei de vê-la, João Donato no piano, ela no acordeom, depois eles revezavam. O Amim ficava numa bateria atrapalhando todo mundo [risos]. Eu escutava aqueles temas, ficava encantado. Muitas músicas até se perderam, bolavam na hora, aquelas pegadas jazzísticas. A primeira vez que eu ouvi Samba da bênção [de Vinicius de Moraes e Baden Powell], eu fiquei alucinado. Depois eu me apaixonei por música francesa, era a época de Pierre Barouh [ator, compositor e cantor francês], que também tinha uma ligação com a bossa nova, cinema francês. Nós tivemos recentemente falecido, já com quase 90 anos, foi até um dos percussores da bossa nova, grande compositor, gravou com Rosa Passos [cantora], inclusive: Henri Salvador [cantor, compositor e guitarrista francês]. Ele gravou um disco com uma moça, não lembro se sueca ou norueguesa, chamada Lisa Ekdahl [cantora sueca]. É lindo, lindo, lindo [repete, enfático]! A bossa nova e o jazz, através da influência desse primeiro professor de violão. Minha ligação não era com o jazz, com exceção de Glenn Miller, que eu pai botava e eu ouvia. Meu pai comprou uma usina em Campos, e tinha uma roda de choro. Eu fui lá, eles em volta de uma mesa tocando. Eu me aproximei e fiquei observando. Uma hora eles pararam, conversaram, eu continuei parado. Uma hora sem me dar nem boa tarde. Aí entra no recinto, um galpão, Ivon Curi [cantor, compositor e ator]. Ele chega por trás de mim, botou a mão e disse: “esse camarada aqui toca violão também”. Ele, muito gente boa, simples, dava o show dele, depois sentava do teu lado. Aí os caras me olharam, “é mesmo?”, eu achei de uma indelicadeza, eu era um jovem, eles, todos senhores, eu achei de uma arrogância tão grande, saí e fui jogar sinuca. Mas aquilo me marcou. Foi o contrário do que aconteceu com Paulo [Trabulsi, cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 22 de dezembro de 2013]. Paulo quando foi sacaneado por Zé Hemetério [multi-instrumentista e compositor], botou na cabeça e disse “eu vou mostrar que eu posso”. Eu fiz exatamente o contrário, me desinteressei, me afastei. Eu comecei a observar que havia dois comportamentos distintos: o pessoal mais ligado ao jazz, à bossa, gostava de agregar, o pessoal do choro era “se sabe, sabe, se não sabe, cai fora e nem faz barulho”.

E como se deu a escolha pelo violão? Foi por causa desse disco [Sambas e marchas da nova geração, de Paulinho Nogueira]. Eu completei 15 anos, meu pai tinha um relógio Mido de ouro, eu botava os olhos, achava lindo, todo mundo elogiava aquele relógio. Quando eu fiz 15 anos, eu acordo, ele começou: “vou lhe dar um presente” [imita o pai, sacudindo o relógio]. Aí ele disse: “se eu fosse lhe dar um presente, do que você gostaria?”. Eu respondi: “um violão”. Ele murchou [risos]. Ele parou e pensou: “é um idiota. Em vez de ganhar um relógio, que vale não sei quanto, quer um violão”. Fomos a A Guitarra de Prata [loja de instrumentos musicais na Rua da Carioca, Centro do Rio de Janeiro]. E ele: “traga o melhor violão que você tiver”. Na cabeça dele, um violão não podia custar o preço de um relógio. Aí veio uma caixa, com o violão, eu olhei o violão, aquela boca de madrepérola, tinha um senhor no balcão, afinou o violão, começou a tocar, parecia uma escola de samba, meu pai ficou olhando: “O senhor é um artista!”. Era o Codó [violonista, cantor e compositor baiano]. Tocou uma música chamada Boladinho [de Codó], me deu um disco, eu tenho até hoje. Quando papai perguntou quanto era o violão, levou um susto: “é só um, eu não vou montar uma orquestra” [risos]. Mas fez o cheque, levou, foi meu primeiro violão. E ainda comprou um baita dum estojo, muito caro também. “Não adianta ter um violão desses e ficar jogado” e já queria me matricular no outro dia, aí eu falei: “calma!”. Eu não queria entrar em escola, queria voltar para meu professor no Recife, eu não queria ser músico profissional, nunca tive essa ideia.

Por que você não queria ser músico profissional? Nunca tive essa pretensão. Eu vim para cá, eu tocava com Anna Cláudia [cantora], com Léo [Capiba, cantor e percussionista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 4 de maio de 2014], e Anna Cláudia precisou fazer um disco, pediu para que eu fizesse um projeto. Eu comecei a ser profissional numa circunstância interessante: num show de Joãozinho [Ribeiro], comemorativo de 40 anos dele. O diretor musical dele tinha ido embora e Arlindo Carvalho [percussionista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 18 de agosto de 2013] tinha me visto tocar em algum lugar e disse a ele que eu quebrava o galho dele. Eu passei 48 horas acordado para fazer três dias de show no Teatro Alcione Nazaré. Outro dia eu postei uma foto, estávamos eu, Zé Américo [maestro, arranjador, multi-instrumentista], Rui Mário [sanfoneiro, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 7 de julho de 2013] começando, um dos primeiros shows dele. Eu nunca tinha aceitado cachê na minha vida, mas dessa vez a grana era tão boa, e você se diverte. Hoje eu vivo em torno da música, eu não vivo só de tocar: trabalho com projeto, um estúdio de gravação.

Teu pai nunca ofereceu resistência a você seguir a carreira de músico? Não. Ele era muito do “não quero saber o que você vai fazer. Agora, faça bem”. Eu fui campeão brasileiro de pouso de precisão. Ele tinha uma certa restrição com a coisa da aviação. Ele achava que eu era muito afoito. Quando eu estava na força aérea, sempre tinha uma turma que ia para a esquadrilha da fumaça. Ele tinha pavor de que isso pudesse acontecer, ele sabia que se eu fosse eu ia morrer. Nas décadas de 1950 e 60 morreu muita gente da esquadrilha, hoje bem menos, a técnica é outra, os equipamentos são mais modernos. Mas eu gostava mesmo é de loucura, passar embaixo de ponte, quinze minutos invertido, o motor falha, você voltava, essa era a farra.

O músico que mais te influencia do ponto de vista do estilo é Paulinho Nogueira? Não, eu tenho uma admiração pela limpeza do violão do Paulinho Nogueira. Lógico que ele também tem uma técnica, é uma pessoa que nunca entrou numa escola, aprendeu com um irmão, quem escrevia suas partituras era um rapaz aqui do Ceará, o André Jereissati [violonista]. O que mais me influencia é Baden Powell. Eu cheguei a assistir o mesmo show de Baden Powell 11 vezes. Ainda roubei a carteira de cigarros dele [risos], levei para Cururupu, minha mulher jogou fora – depois de quase 20 anos –, foi uma confusão danada. Eu era apaixonado. Baden fazia de tudo, tem uma coisa que me lembra muito o Yamandu [Costa, violonista sete cordas gaúcho]: ele saía desse plano, saía de órbita quando tocava. Ele tinha a habilidade de violonista, a sensibilidade de compositor, normalmente o grande músico não é um bom compositor. Ele conseguiu fazer coisas simples e belíssimas. Baden tinha um ritmo, era um sujeito miudinho, franzino, fumava desbragadamente, no palco, fumava e bebia. Eram sempre dois bancos, num ficavam a carteira de cigarros e o copo de uísque.

Que grupos musicais você já integrou? Nós tivemos tribos. Por incrível que pareça, minha primeira tribo era exatamente a do choro. Era Paulo Trabulsi, era Solano [Francisco Solano, violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 26 de maio de 2013], Zeca [do Cavaco, cantor e cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 21 de julho de 2013], Serrinha [Serra de Almeida, flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 3 de março de 2013], era o [Regional] Tira-Teima, basicamente. Na época tinha o Teles, já falecido, tocávamos no fundo do quintal da casa de Paulo. Foi onde eu conheci Carlinhos Veloz [cantor e compositor], Léo Capiba também fazia parte, Anna Cláudia, que na época era casada com Paulo. Como grupo de formação profissional, o primeiro grupo foi o Ensaio Três. Foi uma história muito engraçada: trabalhávamos eu, Léo e o Mariano Aguado, que era assessor chefe da presidência do Instituto de Planejamento. Nós éramos muito ligados, Mariano gostava de tocar timba, Léo de tocar pandeiro e cantar, e eu, violão. Uma sexta-feira, deu duas da tarde, o presidente nos dispensou, era véspera de um feriado, alguma coisa. A gente acostumado a trabalhar até seis, passei em casa, peguei o violão, passamos na casa de Léo, pegou o pandeiro, compramos uma timba para Mariano, no caminho, ainda não tinha essa estrutura da [avenida] Litorânea hoje, compramos uma garrafa de uísque, gelo, isopor. Chegamos lá, Léo começou a desfiar o repertório dele. Lá pela trigésima música, eu pensei: “já dá um show”. E disse: “se tu aguentar, a gente podia fazer uma história”. E ele disse: “eu tenho música é pra fazer 10 shows”. Resultado: saímos da praia quase 11 da noite, já com quase 100 músicas tonalizadas. Voltamos sábado de manhã, outro litro de uísque. No outro sábado, de novo. Foram três ensaios. Depois do terceiro já arrumamos um contrato, fomos tocar no Pelicano, já tínhamos umas 300 músicas. Durou um tempo, depois do Ensaio Três, agregamos Paulo Lima, grande baixista, violonista, grande músico, depois o filho dele, Athos, guitarrista, grande músico também. Durante um bom tempo o Pelicano era o ponto de encontro, todo mundo que vinha de fazer show, o ponto de encontro era lá. Já montei muitos quartetos, quintetos, veio o Bom Tom. O Bom Tom é o seguinte: nós montamos o Estúdio Bom Tom, e um dia o Marcelo Bianchini, eu nem sabia que ele cantava, ele deu uma canja no Dom Calamar, eu fiquei encantado com a voz dele, e disse que ia montar um grupo só para acompanhá-lo, acabamos montando o Bom Tom, era um quarteto, depois virou quinteto, já chegou até a hepteto. A ideia era um grupo para acompanhar intérpretes, eventualmente tocamos música instrumental, não somos solistas natos.

E tua participação no Regional Caixa de Música [grupo que acompanhou Joãozinho Ribeiro no Circuito Samba da Minha Terra, entre 2002 e 2003], quando você ganhou o prêmio Universidade FM de melhor violonista? Eu reconheço que aquele prêmio foi mais pelo conjunto da obra, o grande mérito é de Joãozinho Ribeiro, um projeto complicado, de meio de rua, feito com sacrifício, mas aquilo foi fantástico. Para mim, pessoalmente, me deu conhecimento de pessoas da cidade, mais uma vez comprovei que qualquer lugar que você chegue com boa música, do Olho d’Água ao Anjo da Guarda, a boa música será apreciada. Uma história que eu sempre me emociono quando lembro: eu estava tocando num lugar, chegou um senhor, pediu uma garrafa de vinho. Sentou na nossa frente, ele estava pra baixo, arriado. A gente tocando, eu bem de frente pra ele. Eu comecei a prestar atenção que a cada música que a gente tocava ele levantava um pouquinho. Secou a primeira garrafa de vinho, pediu outra, não tomava depressa. Perto de a gente acabar, ele não bebia mais, a feição era outra. Acabamos de tocar, comecei a arrumar meu violão, ele: “posso falar com o senhor? Me acompanha numa taça de vinho?”, chamou o garçom, pediu um prato de frios e outra taça. Ele passou uns 30 segundos olhando para minha cara, o garçom veio, me serviu, e ele disse: “em primeiro lugar eu quero agradecer. Não só o senhor, todo o grupo, mas eu estava prestando muita atenção no senhor. Eu cheguei aqui com um firme propósito, era minha última garrafa de vinho”. Eu disse: “que bom, parar de beber”. Ele frisou: “não, minha última garrafa de vinho. Mas não será mais minha última garrafa de vinho, tanto que eu já pedi outra”. Ele sério, eu gelei: tinha ido ali beber, sair dali e jogar o carro contra um poste, me disse que tinha tido uma decepção muito grande, não entrou em detalhes. Depois ele me disse: “olha, se existe alguma coisa nobre, é o que vocês fazem. Foi Deus que me trouxe aqui. Se eu tivesse ido pra outro lugar… mas vocês tocaram meu coração”.

E discos gravados, participação em discos? Não tenho muitos, não sou um músico de estúdio. Gosto mais de palco. A última agora foi com Vieira [O Natal Azul de Antonio Vieira, com vários intérpretes, lançado em dezembro de 2014], o Memória [Música do Maranhão, de 1997] eu pensei, coordenei o projeto, mas não toquei. Registramos vários compositores da velha guarda. Há ali uns registros muito interessantes. O Canta Cidade, um dia Dr. Jackson [Lago, ex-prefeito de São Luís, ex-governador do Maranhão] chegou muito irritado na Prefeitura, ele tinha ido a um evento, pediu para tocar o Hino da Cidade [Louvação a São Luís, de Bandeira Tribuzzi] e ninguém sabia, aí ele mandou fazer um disco.

Você também teve um papel importante na realização do Festival Internacional de Música de São Luís, infelizmente até aqui, de única edição. Para mim foi a coisa mais importante, musicalmente, que eu já fiz na vida.

Para você, o que é o choro e qual a importância dessa música para a música brasileira? Não concordo que seja a única música brasileira, mas a importância é inegável. Se você olhar hoje, no Brasil, os melhores músicos que nós temos passam pelo choro. Ou pelo menos pelo erudito. E mesmo no erudito, não tem jeito, passa ao menos por Ernesto Nazareth [pianista e compositor]. O choro tem um pé no erudito, um pé no popular, e hoje, com essa turma nova, já pisa em outros terrenos.

Você se considera um chorão? Não, eu não tenho essa pretensão. Se eu dissesse que sim seria muito pretensioso. Não posso de jeito nenhum dizer que sou um chorão. Na realidade, não posso dizer que eu sou um chorão, que eu sou um jazzista. Na verdade, se prestar bastante atenção no que eu faço, talvez seja possível dizer que eu sou um sambista. É, a coisa que eu mais gosto de tocar é samba. Na verdade, como dizia Maestro Nonato: “esse pessoal fica pedindo pra tocar choro. É samba!” [risos].

Para finalizar, gostaria que você falasse um pouco de sua relação com seu Antonio Vieira. Por duas vezes eu fiz essa observação: Vieira foi meu segundo pai. Ele foi um cara que me mostrou muita coisa do mundo. Era um sujeito aparentemente simples, mas era de uma sapiência. Nós viajamos muito, convivemos muito, 24 horas, ficávamos no mesmo apartamento, andávamos, ensaiávamos, tocávamos, três, quatro dias, eu não me cansava nunca dele [emocionado]. Fizemos muitos shows juntos, viajamos o Brasil inteiro. Hoje eu conheço muita gente fora por causa de Vieira, por ter ido acompanhando, ele me deu essa visibilidade, me botou em outro patamar. Eu tenho aproximadamente 50 MDs [minidiscs] de Vieira, isso vai dar mais de 80 horas de Vieira cantando, falando, conversando. Às vezes a gente sentava, ele falava: “tu já vai ligar tua besteira?”. Era uma figura!

Bem-vind@s ao século XXY!

Começa hoje no Cine Praia Grande a II Mostra de Cinema Trans; veja programação completa e leia entrevista exclusiva com a ativista transfeminista Hailey Kaas

XXY. Capa. Reprodução

 

A literatura e o cinema argentinos não poupam suas personagens. Tudo é cru, quase cruel – mas antes de tudo, verdadeiro. Em XXY [2007, Argentina/França/Espanha, drama, 90 min., direção: Lucia Puenzo], Alex enfrenta o drama de ter nascido com características de ambos os sexos e a consequente – pois naturalizada, infelizmente – vontade de parte da sociedade e de sua própria família mudá-la/o – e grafo ambos os gêneros para falar da escolha que ela/e (não necessariamente) terá que fazer, sem querer soar spoiler.

O cinema argentino não poupa sequer a própria Argentina: os pais de Alex (Inês Efron), de 15 anos, mudam-se para o Uruguai tentando fugir da arrogância de gente que acha que sabe de tudo – como dizem as personagens –, para os quais a/o menina/o seria uma aberração que deve ser corrigida a qualquer custo. Caso do cirurgião Ramiro (Germán Palacios), durante cuja visita à família se desenrola este comovente drama.

Durante a visita, Alex e Alvaro (Martín Piroyansky), 16, este, filho do cirurgião, sentem-se ambiguamente atraídos. São momentos de descobertas e revelações cruas e, talvez por isso mesmo, poéticas. O pai de Alex, o biólogo Kraken, interpretado por Ricardo Darin, merecidamente um dos melhores e mais conhecidos atores argentinos em todos os tempos, até então desconhecia as reais intenções de seus visitantes, chegados a convite de sua esposa (Suli, interpretada por Valeria Bertuccelli), o que tornará mais forte a ligação entre pai e filha/o, na altura em que a vida lhes dá novas lentes para enxergar o que é “normal”.

O filme é baseado em um conto de Sergio Bizzio, que assina o roteiro com a diretora, filha de Luis Puenzo, cujo A história oficial, de 1985, foi o primeiro filme latino-americano a ganhar o Oscar de melhor filme estrangeiro – curiosamente, o segundo (e são os únicos até aqui) seria o também argentino O segredo de seus olhos (2010), de Juan José Campanella.

XXY integra a programação da II Mostra de Cinema Trans, organizada pelo Fórum de Mulheres Maranhenses, que será aberta hoje (22), às 19h, no Cine Praia Grande (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande). Os ingressos, a preços promocionais, custam R$ 5,00, à venda no local, e a atividade integra o mês da Campanha Internacional pela Despatologização das Pessoas Trans. A programação acontece até sábado (24, veja completa ao final do post).

O blogue conversou com exclusividade com a ativista transfeminista Hailey Kaas. Após a sessão inaugural da mostra, ela participa de debate com a ativista trans Andressa Sheron. Além da exibição do filme Teste da vida real, a noite contará ainda com performance de Andrezza Maranhão.

Hailey Kaas, que também é tradutora, está em São Luís desde a tarde de ontem (22), quando participou de reunião do Fórum Maranhense de Mulheres. Indaguei-lhe o porquê de ela sempre grafar um asterisco após usar a palavra trans e tive este link recomendado. Leia a conversa.

A ativista trans Hailey Kaas, em foto de seu perfil no facebook
A ativista trans Hailey Kaas, em foto de seu perfil no facebook

 

ENTREVISTA: HAYLEY KAAS

O que é transfeminismo?
Resumidamente, transfeminismo é uma corrente feminista orientada para as questões das pessoas trans*. Ele nasce da necessidade das pessoas trans* para se organizar em torno de pautas feministas, assim como para demandar inclusão e participação e no feminismo mainstream que historicamente só representou e representa um único tipo de mulher considerado universal, a mulher branca, heterossexual, magro, de classe média, cisgênera. Percebemos que havia necessidade de nos organizarmos em uma corrente separada que desse conta de discutir nossas questões específicas ao mesmo tempo que seríamos aliadas das pautas hegemônicas do feminismo, que, inclusive, ressoam muito com as nossas próprias, como direito ao próprio corpo, igualdade de gênero, combate ao machismo e ao binarismo de gênero etc.

O conceito é recente e você uma das primeiras teóricas do assunto. Isso torna tudo mais difícil?
É difícil na medida em que você se vê sozinha lutando contra uma grande resistência dentro e fora da academia e dos espaços militantes que acreditam que o transfeminismo é desnecessário ou separatista. Além disso, é sempre mais difícil falar de algo que ninguém nunca ouviu falar e que consequentemente não consegue perceber ou entender como necessário.

O que é mais difícil: lutar contra o machismo generalizado ou contra a transfobia partindo de feministas?
Eu poderia dizer que é igualmente difícil lutar contra o machismo dentro da esquerda, por exemplo. Temos uma tendência a pensar os movimentos sociais e a esquerda como isentas de homofobia, bifobia, lesbofobia, transfobia, machismo, racismo etc., quando na realidade, como parte da sociedade, também somos influenciados ideologicamente para todos esses comportamentos e pensamentos preconceituosos. Parte da esquerda se acha eticamente infalível e impassível de reproduzir preconceitos. O mesmo vale para certos setores do feminismo que são não somente transfóbicos, mas também racistas, homofóbicos, bifóbicos, lesbofóbicos etc. O problema está em não discutirmos isso achando que o “inimigo” está só “lá fora”, na bancada evangélica, por exemplo. Na realidade, quando discutimos e problematizamos esse tipo de coisa na esquerda só temos a ganhar e a aperfeiçoar a forma como militamos e como compreendemos os outros. Por outro lado, estar em espaços teoricamente seguros e da militância onde eu sei que serei hostilizada simplesmente por ser trans* por algumas feministas é de fato bastante desempoderador.

Em que medida o “cross-dressing” da cartunista Laerte contribui com a luta trans no Brasil? O que você acha da postura dela?
Acho que Laerte não pode ser regra e nem exemplo, afinal ela parte de uma posição que de longe não é o padrão da população trans*: branca e classe média. Por outro lado, sempre ganhamos quando temos representações de pessoas trans* que são mais críticas em relação às questões de gênero na mídia. Laerte tem mais bagagem feminista e de gênero porque também tem fortalecimento e estrutura econômica para tal. Isso não é errado ou uma crítica, apenas uma constatação de que a situação corrente das pessoas trans* é bem diferente da de Laerte.

O escritor João Paulo Cuenca em artigo na Folha de S. Paulo defende o “outing” de usuários de drogas e compara: “Ativistas costumam justificar a evasão da privacidade alheia por combater a hipocrisia num mundo onde gays são alvo de preconceito e violência”. Na sua opinião, pessoas famosas, sobretudo artistas e políticos, declarando publicamente sua orientação sexual ajudaria a combater o preconceito? Você concorda com o escritor neste aspecto?
Acho representatividade importante. Para as minorias marginalizadas é muito fortalecedor ver que existem pessoas como você lá fora, ganhando a vida sem estar nos empregos precarizados que a sociedade nos reserva. Por outro lado, representatividade não deve e nem pode ser o objetivo da militância, afinal temos uma presidenta e pouco se avançou nas questões feministas nesses últimos anos; ao contrário, há enormes retrocessos com a anuência do governo, inclusive.

A Lei Maria da Penha é um avanço na proteção à mulher, mas muitas vezes, mulheres sequer conseguem registrar queixas em delegacias, por conta do péssimo atendimento e da revitimização – em casos de estupro, por exemplo, é comum, infelizmente, a culpabilização da vítima. Em que medida essa legislação específica é importante no combate à transfobia e ao feminicídio?
As legislações são importantes, a meu ver, mais ou menos como a questão da representatividade: são importantes como marcos, como elemento de fortalecimento, de reconhecimento, mas são inócuas sem uma estrutura por trás e sem trabalho de base nas escolas e nos espaços de formação dos sujeitos. O machismo não é uma doença que acomete o sujeito, mas sim um projeto social ensinado às pessoas em todos os espaços de convivência e de formação.

Qual a sua opinião sobre a recente fusão dos ministérios de Direitos Humanos, Igualdade Racial e Mulheres em uma única pasta no âmbito do governo federal?
Sem dúvida alguma um retrocesso, fruto de um governo traidor de classe que governa com o capital. Os bancos continuam lucrando com recordes trimestrais e, no entanto, as medidas que atacam os trabalhadores e a austeridade vieram com força no primeiro ano do governo que havia prometido exatamente o contrário. Acredito que isso só vem provar que, de fato, não se pode ter um governo conciliador de classes porque no fim somente a classe dominante rica é privilegiada. Sou socialista e bastante crítica ao atual governo Dilma e aos movimentos que a defendem. Não podemos continuar a defender uma militância LGBT, feminista, antirracista ou o que quer que seja, senão por uma perspectiva socialista, uma vez que, dentro do capitalismo, estaramos sempre sujeitos a sermos “rifados” em prol do “bem maior”: o capital e seus mantenedores.

Outubro é o mês da Campanha Internacional pela Despatologização das Pessoas Trans. Em que consiste a campanha? Poderia falar um pouco sobre ela?
A campanha existe faz alguns anos e veio para divulgar o assunto e combater a patologização das identidades trans* materializada principalmente pela revisão do DSM que estava prevista para 2012. O DSM é um documento da Associação de Psiquiatria Americana (APA), que classifica e patologiza os comportamentos, incluindo a transexualidade. Esse documento tem uma força regulatória quase sempre soberana sobre as políticas de atendimento à saúde de pessoas trans*.

Você participa da Mostra de Cinema Trans em São Luís. Após a sessão de abertura, com a exibição de Teste da Vida Real, você debate o filme. Poderia falar um pouco sobre ele?
O filme é muito importante para ilustrar o impacto da patologização sobre nossas vidas. Ele traz uma abordagem bastante empírica de como os estereótipos trans* e o estigma que recaem sobre nós atrapalham nossas vidas, nos desumanizam e previnem nosso acesso aos espaços e principalmente ao sistema de saúde. Também mostra como os profissionais psi desconhecem completamente a questão da transexualidade e se guiam por estereótipos pré-estabelecidos sobre o que é ser homem ou mulher socialmente.

Programação

Hoje (22)
19h: Exibição do documentário Teste da vida real, de Florencia P. Marano | Performance de Andrezza Maranhão | Debate com Hailey Kaas (ativista e teórica transfeminista) e Andressa Sheron (ativista trans)

Sexta (23)

9h: Minha vida em cor de rosa (exibição para alunos de escolas públicas), de Alain Berliner
14h: Minha vida em cor de rosa

18h30: XXY, de Lucia Puenzo

20h: Hedwig – rock, amor e traição, de John Cameron Mitchell

Sábado (24)

18h30: Meninos não choram, de Kimberly Peirce

20h: Para Wong Foo, obrigada por tudo! Julie Newmar, de Beeban Kidron

Chorografia do Maranhão: José Luís Santos

[O Imparcial, 8 de fevereiro de 2015]

Clarinetista, saxofonista, professor de música e língua portuguesa e escritor, José Luís Santos é o 47º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVANIO ALMEIDA SANTOS

José Luís Carvalho dos Santos nasceu em Teresina, capital do vizinho Piauí, em 16 de abril de 1948. É saxofonista, clarinetista, professor de música e de língua portuguesa e escritor, autor de, entre outros, Cotidiano II [vencedor do Prêmio Literário Gonçalves Dias, da Secretaria de Estado da Cultura do Maranhão, em 2008], volume de contos e crônicas, e do romance Oceano. Está prestes a lançar Português: tirando dúvidas de quem tem, espécie de gramática prática.

Zé Luís é filho de Luís José dos Santos, “regente da banda de música da Polícia Militar do Piauí e professor de língua portuguesa da rede estadual”, que “chegou a ser diretor de uns dois ou três colégios por lá, é nome de rua, nome de praça”, e Adélia Carvalho Santos, que “cuidava dos afazeres domésticos, papai não admitia que mulher dele trabalhasse para ninguém, aquela mentalidade da época”.

Lembrando seu pai, falecido em 2010, aos 85 anos, ele comenta: “quando ele se reformou da Polícia Militar foi direto para a Escola Técnica fazer uma banda de música que até hoje existe por lá, ficou lá como regente, professor de língua portuguesa”.

O 47º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão é o mais velho de 13 irmãos, numa família em que todos desenvolveram aptidões musicais. Sua irmã, Beth Moreno, é considerada “a Marrom do Piauí”, em alusão à cantora maranhense Alcione, a “Marrom”. O mesmo gosto foi herdado pelos seis filhos de Zé Luís, entre os quais a cantora Virna Lisi, o pianista Carlinhos Carvalho e o violonista Luiz Jr. [Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 4 de agosto de 2013].

José Luís venceu os seguintes festivais: Festival de Música Popular do Estado do Piauí, promovido pela TV Clube, em 1975, com a música Reconstrução; V Encontro Nacional do Compositor de Samba, Riotur, 1975, com Melhor pra quem sorrir no final; Festival do Sesi/MA, 2011, com Samba e chorinho na Madre Deus; Festival de Música dos Correios, 2011, obtendo o primeiro lugar nas eliminatórias de São Luís, Belém e Belo Horizonte com a música No peito e na raça.

Durante a entrevista, realizada no Bar do Léo em uma tarde de sábado, Zé Luís estava acompanhado de Maria das Dores Lima de Sousa, mais conhecida como Dora, funcionária dos Correios, com quem vive há 15 anos. O técnico agrícola, professor e médico Jonas Eloy da Luz, organizador de festas de forró pé de serra, acompanhou parte da entrevista, marcada por encontros: também apareceu por lá o mergulhador Daniel, neto do lendário Bigode, saudoso proprietário do bar a que emprestou o apelido, que ainda resiste, sob administração de João José, na Praça das Flores, no Renascença.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Quando você veio para o Maranhão? Cheguei aqui em 17 de dezembro de 1981, definitivamente para morar.

Você já tinha vindo antes? Tinha parentes? O que o trouxe em definitivo? Já, passava três, quatro, cinco dias de férias na minha juventude, mas estava bem afastado. Tinha alguns parentes. Eu era professor da então Escola Técnica Federal do Piauí e me transferiram para cá. Em uma viagem que eu fiz, um final de semana, gostei muito da cidade, “acho que venho morar aqui”, conversei com o diretor da Escola, passei um dia a mais, um dia útil, e ele disse: “se você quiser vir, já pode se considerar transferido”. E eu vim no intuito de ficar por uns três anos e estou até hoje [risos].

Na Escola você era professor de música? Não. Na Escola eu era professor de língua portuguesa. A música eu sempre pratiquei fora da Escola Técnica Federal. Lá em Teresina eu dava aula tanto na Escola Técnica Federal quanto nos colégios do Estado, mas sempre como professor de língua portuguesa.

Como era o ambiente musical de sua infância, em sua casa? Foi um ambiente muito musical. Meu pai além de tudo ainda tinha uma escola particular, ele mantinha em casa. Muitas pessoas estudavam lá, tanto música, quanto preparatório para exames de admissão, ele tinha uma escola registrada na Secretaria de Educação, a Escola Dom Pedro I, inclusive foi lá que eu dei minhas primeiras aulas.

Na Escola Técnica Federal do Maranhão você chegou a se aposentar como professor? Não, na Escola Técnica Federal, não. Ela mudou de nome, como todas, virou Cefet, Centro Federal de Educação Tecnológica, e depois Ifma, Instituto Federal de Educação Tecnológica. Eu me aposentei no último ano de Cefet, praticamente, em julho de 1998.

Em algum momento de sua vida você chegou a viver de música? Ou a música sempre foi um hobby, uma coisa paralela à questão da língua portuguesa? Sempre foi um hobby. Nunca vivi de música, assim, tocando na noite. Toquei na noite, criei um conjuntozinho com meus filhos, mas nós não vivemos daquilo, eu tinha meu salário, tanto federal como estadual, e depois quando eu vim para cá, São Luís me adotou, e eu era professor de quase todos os grandes cursinhos daqui, por exemplo o José Maria do Amaral, Meng, Anglo, colégios particulares como o Dom Bosco, uns se acabaram, o Dom Bosco ainda está aí. Eu era professor, ainda sou da rede estadual, através de concurso público. Não deu para viver de música, mas com minha escola eu devo reconhecer que ganhei um dinheirinho até bom, como professor de música da minha escola particular.

Você continua na ativa como professor de língua portuguesa? Sou professor de língua portuguesa da rede pública estadual. Ensino no bairro do Anjo da Guarda, no Vicente Maia.

Quem foram teus principais mestres? Quem te influenciou a ir para a música? De tanto passar, vendo meu pai dando aula de música, eu fui aprendendo naturalmente a ler, escrever e tal. Comecei a tocar clarinete bem cedo, e depois meu pai me tirou o clarinete, que não era mais para eu tocar, pois eu não estava indo bem no colégio.

Era o instrumento dele? Ele tocava que instrumento? Não. Ele era trompetista. Tocava trombone também muito bem, bombardino, mas o forte dele era o trompete.

Você aprendeu o clarinete autodidaticamente? Autodidaticamente, mas sempre acompanhado de uma partitura. eu aprendi a ler antes da prática do instrumento.

Pelo que você conta, seu pai tinha resistência em você seguir a carreira musical, mesmo ele sendo músico? Tinha uma certa resistência. Tanto que eu fui da Polícia Militar do Piauí, mas eu entrei lá através da Escola de Oficiais. Passei três anos e desisti, pois vi que não era minha vocação. Aí fui para o magistério.

Nessa tua passagem pela polícia, tinha alguma questão com música? Não, nenhuma questão. Era Academia Militar do Ceará. Eu era do Piauí, mas era custeado para estudar na Academia do Ceará, eu sairia de lá aspirante, mas nem cheguei a terminar o curso, desisti.

Você aprendeu clarinete autodidaticamente, seu grande mestre, ainda que involuntariamente foi seu pai. Quem era tua referência no clarinete? A figura que você via e achava que era uma influência positiva para você? Eu comecei cedo, mas meu pai me interrompeu os passos. Eu tinha uma admiração por um clarinetista chamado Abel Ferreira. Foi a pessoa que me fez voltar ao clarinete. No dia da morte dele, eu estava ouvindo rádio quando se deu a notícia de que ele havia falecido, o grande músico, compositor e maestro Abel Ferreira. A partir daquele momento eu disse para mim mesmo: vou me tornar um clarinetista. Ele foi minha referência. Eu fiquei tão comovido que prometi a mim mesmo me tornar um clarinetista. Peguei um clarinete da Escola Técnica Federal do Piauí e fui treinar diariamente. Terminava o expediente e eu ia treinar.

Que outros nomes foram referência para você? Para todos os clarinetistas: Paulo Moura e Severino Araújo.

Se ouviam muitos discos em sua casa? Papai era um romântico, ouvia muitos discos, não faltavam Waldick Soriano, as grandes orquestras, Ângela Maria fez parte de nosso acervo, Nubia Lafayette, Maysa, Dolores Duran, Cauby Peixoto, esse era o pessoal que circulava lá por casa, através de seus discos, suas gravações, suas músicas.

E rádio? Também se ouvia muito? Muito rádio! Aliás, na nossa rua a primeira casa a ter uma radiola [risos] foi a nossa, aquela do bracinho, com aquela agulha, a gente substituía quando gastava, foi a primeira casa a ter, antes da geladeira, por sinal [risos].

Quer dizer, a música era mais importante. Pois é. Meu pai como regente, ele acabou criando muitas bandas de colégios da rede pública estadual. Era um professor de música, muita gente que passou por ele e agradece isso, gente das forças armadas, aeronáutica, polícia, gente daqui mesmo, uma turma do Piauí que veio para cá. O pessoal de lá do Piauí costuma dividir a música em antes e depois de Luís Santos.

Ele é um personagem importante na história da música piauiense. Sim, na história da música piauiense. É nome de rua, nome de praça. Ainda está recebendo várias homenagens por lá. Faleceu em 2010, aos 85 anos. Compositor, muitas músicas gravadas.

Então você não teve escolha: herdou geneticamente tanto a coisa da música como da língua portuguesa. É. Foi uma condenação [risos]. Eu nasci condenado a ser músico. Pena que eu não consegui ser um músico formado. Já tentei três vezes. Sou da primeira turma de música da Universidade Federal do Piauí, da primeira turma da Universidade Federal do Maranhão, nunca terminei o curso, estou lá, passei naquele vestibular, embora sendo formado, fiz vestibular. Nem tranquei. Por que em seguida veio minha nomeação como professor do Estado, e chocavam os horários.

Você gosta de dar aulas? É o que eu fiz a vida inteira, vou fazer a vida inteira, sinto falta quando paro. Eu costumo dizer para meus alunos que meu maior prazer não era morrer em casa ou no hospital, mas dentro da sala de aula [risos]. Se um infarto me pegasse, que me pegasse dentro da sala de aula.

Além de músico e professor, você também é escritor. Sim. Eu sempre gostei de literatura. Quem colocou os primeiros livros, que posso chamar de literários nas minhas mãos, foi minha mãe, que era uma boa leitora. Ela colocou revistas, livros e tudo, aqueles personagens, As viagens de Gulliver [do escritor irlandês Johathan Swift], A volta ao mundo em 80 dias [do escritor francês Julio Verne], aquilo ficou, “um dia eu vou escrever um livro, um dia eu vou escrever um livro”. Hoje eu tenho vários livros publicados e tem um no prelo, para sair nos próximos dias.

Quantos livros? Uns seis ou sete. Esse agora é na área didática. Eu tanto faço na área didática, quanto na área artístico-literária. O título é Português: tirando dúvidas de quem tem. São mais de 300 dúvidas e, questões aleatórias, os colaboradores do livro são as pessoas que conversam comigo nas mesas de bar, ou elas acertam uma linguagem difícil, que pouca gente acerta, ou erram a linguagem que não deveriam errar. Tudo isso está no livro, claro que sem citar o nome de personagem nenhum.

Recentemente você ganhou um concurso literário. Sim, com Cotidiano II. Eu ganhei aqui e no Piauí, primeiro lá, depois aqui. É um volume de crônicas e contos. Tenho um romance publicado, Oceano, ambientando no Piauí. Tenho um inédito ambientado aqui, ainda não está terminado, chamado A hora fatal.

Se você fosse escolher um dos ofícios para dizer que se realiza mais em um ou outro, é possível escolher um? Dar aulas, a música ou a literatura? É meio difícil. O que está em terceiro plano mesmo é o ofício de escritor, requer uma dedicação maior, exclusiva, e eu ainda não posso me aposentar por que não preciso mais de dividendos, não: eu trabalho por que eu preciso trabalhar. Eu faço por prazer, mas também por obrigação.

Você acha que estes ofícios, em alguma medida, se ajudam, se atrapalham ou não têm nenhuma relação? Eles sempre se ajudam. Por que escrever não é uma coisa muito fácil, a pessoa tem que acreditar no que está escrevendo, até ter um estilo, um estilo próprio.

Em alguma medida você consegue separar o Zé Luís escritor, do Zé Luís professor do Zé Luís músico? Ou eles estão sempre misturados? Eu sou muito acusado de autobiográfico, de me meter nas obras que eu faço. Muita gente vê, por exemplo, o Marcos Alencar [personagem de Oceano], as pessoas veem o Zé Luís por trás dessa história. Eu procurei fugir de mim mesmo, são realmente figuras literárias de ficção, mas muita gente acha que eu me meto em minhas músicas e em minha literatura. Eu já paguei caro, já fui acusado de certas coisas que nem fiz, mas como eu escrevi, o pessoal “não, isso aí é ele mesmo” [risos].

Na sua escola de música seu filho Luiz Jr. acabou aprendendo como você aprendeu: de tanto ver e ouvir o pai ensinando. Que outros nomes de destaque passaram pelas suas mãos? Eu comecei a ensinar música aqui, foi onde eu comecei a levar a música a sério. Eu tocava violão, era um seresteiro, boêmio. Eu cheguei a ter alunos como Roberto Ricci [violonista], uma figura conhecidíssima aqui, o Marquinho Duailibe [cantor]. Muita gente passou pela Escola de Música Vinicius de Moraes, era em frente à Lusitana [supermercado] da [rua das] Cajazeiras, onde hoje é a Ponto Branco [loja de roupas]. Aquela casa parece que nasceu com uma vocação musical, hoje é da Selma Delago [cantora, compositora e empresária, proprietária da Ponto Branco].

Você falou em clarinete, violão e sabemos que você toca também saxofone. Você toca os quatro naipes de saxofone? E que outros instrumentos você toca? Eu toco sax alto, eu toco os outros, mas não vivo tocando, o tenor, tenor eu nem tenho em casa, tenho o soprano, gravei algumas músicas com o sax soprano.

Falando em gravar, em que discos podemos ler teu nome na ficha técnica? Tem um disco chamado Talentos da Educação, gravado em Fortaleza, eu estou lá. Tem também o V Encontro Nacional do Compositor de Samba, fui um dos vencedores. Inclusive ele tem aqui [informa que o Bar do Léo, onde acontece a entrevista, tem o disco em seu vasto acervo]. E vários outros discos.

E composições, você tem quantas? Mais de 200 músicas.

Quando você faz, faz letra e música? Por que imagino que, como entende de música, toca, é professor, e ao mesmo tempo é professor, dá aula de português, isso ajuda? Você faz letra e música? Tenho poucas parcerias, o resto tudo eu fiz letra e música. Meu percentual de música sem letra é muito pouco. A maioria tem letra. Tenho uma música conhecida no Nordeste inteiro, chamada Grito do professor, onde homenageio a classe e ela é o hino do Sindicato dos Professores do Ceará. Ela roda todo sábado em Fortaleza, num programa dos professores. No Piauí também. Não sei por que não roda aqui.

Além de instrumentista e compositor, você desenvolve outras habilidades na música? Os arranjos das músicas que eu faço são também meus. A não ser quando alguém quiser gravar, pode cuidar disso. Eu faço arranjo, fiz um curso básico de piano, dá para extrair partituras para outros instrumentos.

Você se considera mais saxofonista ou clarinetista? Eu sou mais clarinetista. Durante muito tempo o saxofone foi visto como consequência do clarinete. O pai do sax é o clarinete. Na Europa, um grande músico cujo nome não lembro agora, recomendou que quem quisesse aprender saxofone que começasse pelo clarinete. Coisa que já dizíamos aqui há tempos. Quem toca clarinete, quando pega o sax, é questão de semana para aprender a tocar. O clarinete é um instrumento dificílimo.

Qual a sua percepção sobre Luiz Jr., seu filho, um virtuose do violão, uma figura reconhecida? Como você percebe o papel dele na cena chorística, musical do estado? Quando Júnior tinha mais ou menos 11 para 12 anos de idade ele, na verdade, era um cantor mirim. Aquela música do Jessé [o cantor José Florentino dos Santos], [cantarola trecho de Solidão de amigos, de Eunice Barbosa e Mário Maranhão] “Lenha na fogueira”, ele disse que ia cantar na escola. “Eu queria que o senhor fosse me acompanhar”. Eu tinha três provas para corrigir, eu disse assim: “eu vou pegar o violão, vou te ensinar uns acordes e você mesmo se acompanha”. Ensinei três acordes, fui dar aula, quando eu voltei, ele estava realmente se acompanhando, eu acrescentei mais um acorde, pronto, foi a única aula que eu dei para ele. Ali eu percebi a aptidão dele para o violão, percebi que ele seria um grande violonista. Eu disse para ele que ele não podia deixar a escola, fiz como meu pai fez. Se ele não demonstrasse desenvolvimento dos dois lados eu teria que tomar o violão dele. Só que ele só queria saber de música, deu um trabalhão na escola, nunca terminava o ensino médio, professor já olhava com vontade de reprovar, ele tinha preguiça de fazer os trabalhos, mas o violão crescendo. Um dia eu cheguei para ele e perguntei: “mas o que é mesmo que você quer ser?”. E ele: “papai, eu só quero ser músico”. E eu disse: “olha, uma coisa é você ser músico, outra coisa é você viver de música. Antes você tem que pelo menos terminar esse ensino médio”. Mas foi o que me disse que queria mesmo ser músico, assumiu isso e eu disse para ele todas as dificuldades. Júnior é o meu orgulho! Eu me sinto satisfeito em ele representar tão bem o Maranhão onde ele vai. Por acaso eu ainda estava no Piauí quando ele nasceu, ele nasceu lá mas é maranhense. Você é sua cultura: Júnior é maranhense.

Você se considera um chorão? Sim. Aliás, eu sou chorão inclusive literalmente [risos]. Pra eu chorar é daqui pra li. Eu sou meio bruto também, hoje não, mas eu tenho o coração muito mole, qualquer coisa, acabou.

Chorografia do Maranhão: Márcio Guimarães

[O Imparcial, 25 de janeiro de 2015]

Cavaquinista do Cantinho do Choro e um dos articuladores da cena choro em São Luís, o herdeiro musical de Six é o 46º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVANIO ALMEIDA SANTOS

Márcio Henrique Guterres Guimarães é um dos novos militantes da cena choro em São Luís do Maranhão, cidade em que nasceu em 12 de novembro de 1981. Há cerca de dois anos “sentou praça” na praça Gonçalves Dias, cartão postal também chamado de Largo dos Amores, no Centro da capital maranhense.

Com recursos do próprio bolso e a ajuda de amigos fundou o movimento Cantinho do Choro, que realizou no logradouro apresentações gratuitas aos sábados, aproveitando a beleza da vista do por do sol no lugar. Sem patrocínio e estrutura, o projeto foi forçado a acabar. Mas guerrilheiros fiéis do gênero seguiram o comandante e fundaram o grupo Cantinho do Choro, que se apresenta semanalmente às quartas-feiras no Salomé Bar, novo point da Lagoa.

Márcio Guimarães é filho de José Henrique da Silva Guimarães, engenheiro, e Maria Raimunda Guterres Guimarães, funcionária pública. É sobrinho-neto de Francisco de Assis Carvalho da Silva, o Six, advogado e cavaquinista falecido, a seu tempo, um dos agitadores do gênero no país – entre outros feitos, fundou o Clube do Choro de Brasília.

Casado com Thaís Monteiro Frias Guimarães, a musicista e produtora cultural Tathy Estrela, que acompanhou a entrevista, e pai da pequena Luna, Márcio foi o primeiro aluno formado em cavaquinho na Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo [EMEM].

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Quais as tuas primeiras lembranças de música na infância? Eu fui me envolver mesmo com música aos 15 anos, quando eu saí em bloco tradicional. Fui começar a tocar cavaquinho aos 19. Sempre envolvido com música. Eu tinha um tio, que eu me lembro vagamente, não tive oportunidade de tocar com ele, que é o Six, um dos fundadores do Clube do Choro de Brasília. Era meu tio. Cheguei a presenciar algumas rodas de choro dele aqui em São Luís, na casa de meus parentes.

Teus pais gostam de música? Meu pai é boêmio, sempre gostou de música. Minha mãe é mais parada, na dela, mas sempre gostou de ouvir aquele estilo de música, Roberto Carlos, mais MPB.

E se ouvia muita música em tua casa? Teus pais compravam muitos discos? Muita música. Houve uma época, há uns 15 anos eu era dj, e ficava pesquisando estilos de música da época e o que havia de novo. Depois que eu comecei a namorar com Thaís, já estamos há 10 anos juntos, eu passei a consumir mais MPB, por que Thaís tem um acervo muito grande de MPB, e tocar com ela. Começamos um projeto que era mesclar violão e cavaquinho, era algo que não tinha aqui, ela tocava violão e cantava e eu improvisava, a partir de umas aulas que eu tive na Escola de Música com o professor Juca [do Cavaco, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 13 de abril de 2014]. Mas quem me ensinou isso aí foi João Soeiro [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 30 de março de 2014]. Foi meu primeiro professor na Escola.

Você atribui a Six a sua maior influência em sua escolha pelo choro? Ah, sim. A veia musical familiar eu atribuo a ele. É primo legítimo da minha vó, foi criado lá em casa. Tem um tio meu que era muito boêmio, vivia lá em casa, infelizmente faleceu ano passado, era pandeirista, ele sempre falava para mim: “meu filho, não dá pra você ser boêmio, por que tu não quer virar a noite, nem quer beber” [risos]. Eu não bebo. Mas ele sempre gostou de música, música instrumental. Era aficionado.

Você falou que veio tocar cavaquinho aos 19 anos. Antes, você passou por outro instrumento? Eu comecei a me envolver com violão aos 17, 18 anos, comecei a fazer aula, fiz três meses, só que o cara enrolava, eu comecei a ser autodidata. Comecei a ver uns amigos meus tocando cavaquinho, aquele som, me encantei, foi paixão à primeira vista. Eu comprei meu primeiro cavaquinho dum amigo meu, chamado Gustavo Smith, passei dois anos pesquisando, autodidata, fiz prova para a Escola e passei, de primeira, graças a Deus. Daí continuei, ainda peguei dois anos de aula quando era ali na Beira-Mar. Quem fez a prova comigo foi o professor Charles, na época. Foi uma oportunidade muito boa, por que quando a gente vai estudar música a gente vê que não sabe de nada, e até hoje, eu te digo: eu ainda estou aprendendo. Cada profissional que chega, como a gente já teve vários cursos de choro, eu até acho bom vir mais cursos de choro para São Luís. Teve um que a Petrobras trouxe, e a Vale, foi o primeiro [curso] de choro que teve aqui, que veio a [cavaquinista] Luciana Rabello. Tu é louco! Uma didática de palheta, que eu fiquei: “cara, eu não sei nada”. Depois fiz o segundo, e nunca parei de estudar. Comecei em bloco tradicional, e tal, quando entrei na Escola vi que não sabia nada, e comecei a estudar choro.

Você concluiu o curso de cavaquinho na Escola? Concluí o curso em 2007 e ao concluir o curso eu fui saber por meu professor, o Juca, que eu era o primeiro aluno a formar na história da Escola de Música, eu não sabia. “Olha, eu tenho uma surpresa pra ti: você é o primeiro aluno a se formar [em cavaquinho] na Escola”. E eu, “pô, professor, bacana”. É uma pessoa por quem tenho muita afeição e até hoje é meu mestre. Eu sou fã dele, uma pessoa humilde, simples. E ele morava lá perto da casa da minha vó. Eu morava na Praça da Alegria e Juca morava na Rua do Norte, amigo do pessoal lá, amigo do pessoal da família de Thaís também. Eles se reuniam, faziam roda de choro lá na praça.

Além de músico, você tem outra profissão? Eu sou formado em Sistemas de Informação, bacharel em Informática. Mas hoje eu larguei a informática, só vivo de música, só vivo para a música. Sou músico profissional.

Dá para viver de música? É difícil demais. Mas com projetos, dando aulas, eu dou aulas, sou professor de música, tem o chorinho, tenho minha banda, em paralelo, a gente toca em casamentos etc. A gente toca tudo da atualidade, dos anos 1960 à atualidade. Mas eu amo chorinho, chorinho para mim… eu ouço todo domingo o Chorinhos e Chorões [programa dominical apresentado por Ricarte Almeida Santos às 9h na Rádio Universidade FM (106,9MHz)], alivia, relaxa. Meu maior sonho é trazer um conservatório de música para São Luís. Eu soube de um para Imperatriz, aprovado na Lei de Incentivo [a Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão].

Você passou pelo violão. O que te fez escolher o cavaco? O violão eu toquei nível básico. O cavaco foi paixão à primeira vista, olhando as pessoas solando, me encantou. As pessoas pensam que o cavaquinho, por ter só quatro cordas, é um instrumento limitado. Engano. Quem estuda realmente, cada instrumento é um mundo diferente. O cavaquinho pra mim não é limitado, dá para fazer muita coisa. Se se estudar tem muita coisa de campo harmônico para fazer.

Quem você considera seus principais mestres? Em São Luís Juca é meu mestre. Fora a Luciana Rabello, tive oportunidade de pegar aula com ela, excelente aula, meu sonho pra mim é o [cavaquinista] Henrique Cazes. Na Escola de Música a gente estudou pelo método dele e ele outro método que ele está lançando.

Teus pais sempre apoiaram tuas escolhas? Apoiaram pouco no começo. Sempre falavam “vai estudar, música não dá futuro” e tal. Quando eles olharam que eu me interessei, me dedicava àquilo, começaram a apoiar. Depois de um ano, o presente de natal que meu pai me deu foi um cavaquinho, um Paulistinha da Rossini, nunca esqueço, ainda tenho esse cavaquinho. Meu primeiro cavaquinho foi um tonante Trovador, que eu comprei desse Gustavo. Quem também me deu uma força foi Michael, um amigo meu, me incentivou, eu tirava umas dúvidas com eles.

Qual o bloco tradicional em que você tocava? Cavaquinho eu toquei n’Os Vingadores, percussão em 1995, eu tive a oportunidade de tocar percussão n’Os Versáteis, fui tricampeão pel’Os Versáteis, fui levado por meu primo, Henrique Machado, que hoje mora em Brasília. Em 1999 eu toquei pel’Os Vingadores, 1999, 2000, em 2001 eu fui para Os Feras. Toquei n’Os Feras de 2001 até 2004, 2005. Depois eu saí de bloco tradicional. É um ritmo sensacional! Adoro o ritmo de bloco tradicional. Tem um cd carnavalesco meu, um projeto paralelo nosso, o Mixiricu, que no meio de músicas eu botei o bloco tradicional, o tambor de crioula, que pra mim é um dos ritmos mais lindos do Maranhão. Tive oportunidade de fazer aula percussiva com Lazico [o percussionista Lázaro Pereira], a gente fez um curso só de ritmos maranhenses, para se aprofundar mais, é uma oportunidade de valorizar mais a música do Maranhão. Aqui no projeto a gente toca não só choros conhecidos, mas também músicas de compositores maranhenses, como Zezé [Alves, flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 9 de junho de 2013], Domingos [Santos, violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 16 de março de 2014], Osmar do Trombone [Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 23 de junho de 2013], dia 28 [de janeiro] ele vai estar aqui, com Osmarzinho [Osmar Jr., filho de Osmar do Trombone, saxofonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 5 de janeiro de 2014], que se formou agora em BH, gente fina, caras que tocam muito e são humildes. Gosto disso neles, somam e a gente vai aprendendo. Em termos de dar aulas, para mim foi muito bom. É um incentivo não só para estudar, mas para ver outras vertentes. Tem aluno que tu tá ensinando uma coisa para ele e ele te mostra outro caminho.

Você hoje tanto faz [cavaquinho] centro como solo? Sim, tanto centro como solo. Na Escola eu fazia mais centro, hoje estou estudando os dois.

Você considera o Juca teu grande mestre. Ele toca muito no estilo Waldir Azevedo. Você também segue esse estilo? Não. Hoje estou tentando me adequar por causa do grupo. O Juca ele domina tanto o centro quanto o solo, eu era mais centro. Hoje faço os dois. É mais um motivo pra gente estudar cada vez mais.

A Luciana Rabello também tem um estilo próprio, não é? Sim. Eu gostei muito, no estilo dela, da divisão de palheta, que ela faz no cavaquinho, que ela puxa as duas de cima, as duas de baixo [demonstra, no cavaquinho]. Ela divide o som, dá outro som. A gente explora, no grupo, música nordestina, muito Josias Sobrinho [compositor]. A gente está valorizando os compositores da terra. Aqui tem vários compositores excelentes. O Maranhão não perde para outros estados, e sim soma. O pessoal tem é que acabar com a cultura, uma cultura musical que eu não gosto, o pessoal quer ganhar como profissional, mas não age como profissional. Em termos de horário, por exemplo: o ensaio é tal hora e as pessoas não chegam; não são todos, é claro. Outra coisa: lá fora, todo mundo é unido. Se briga como qualquer um, mas defendem uma bandeira, não te queimam. Aqui em São Luís é cada um querendo puxar o tapete do outro, isso tem que acabar. Minha maior briga cultural mesmo é esse negócio: ser profissional. Às vezes a pessoa não é profissional aqui, tem que pensar que é tua empresa. Em tua empresa você chega bem arrumado. A Tathy Estrela, nossa produtora, padronizou a vestimenta da gente [aponta o bordado Cantinho do Choro no peito direito da camisa], já estamos pensando em outras roupas para outros horários. Isso dá estrutura para o trabalho da gente, a gente sempre estudando, faz com que sejamos valorizados.

Aqui há um grupo que passou a ter uma postura mais organizada, profissional e passou a influenciar outros grupos: o grupo Argumento. É outra postura em relação a contratos, já influenciou o pessoal do Bossa Nossa, vários grupos estão se estruturando. Outra influência para nós é o Calhau Jazz, do meu amigo Arlindo Pipiu [multi-instrumentista], que dá muita força pra gente, é uma pessoa que, desde o começo apoiou o trabalho da gente, além da Tathy e do Monteiro Jr. [cardiologista e violonista]. Ele está ali, paralelamente com a gente, sempre dando ideia, desde o começo, quando o projeto era na praça, sempre somando. São pessoas que chegam para ajudar a gente.

Qual a formação do Cantinho do Choro, hoje? Eu no cavaco, no bandolim o Raul, se formou agora, no violão seis cordas, o Carlos Reis, na percussão Nonatinho [Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 6 de julho de 2014], na flauta transversa João Neto [Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 2 de fevereiro de 2014], e no sax o Ricardo.

O Raul começou em um projeto do Sesc. Está tocando muito. Humilde, estudioso, dedicado. Tem tudo para crescer, muito futuro. É um talento que vem aí para abraçar o choro também.

O grupo nasce com aquele projeto da praça [Gonçalves Dias]? Conta pra gente a origem do Cantinho do Choro. O Cantinho do Choro foi um projeto que a gente colocou na praça, eu e Tathy Estrela. A gente chegou para agregar, chamando amigos, alunos da Escola, professores. Até o diretor da Escola foi um que abraçou, o Raimundo Luiz [bandolinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 15 de setembro de 2013], “pô, Márcio, eu vou lá pra te dar uma força”, meu amigão. Estávamos fazendo do bolso, tirando, o pessoal indo pelo choro. Por que paramos? Não tem estrutura, o local estava sendo depredado, todo pichado, uma bagunça, estava tendo assalto. Houve um assalto com homicídio, não no choro, mas a gente parou justamente com medo. Ali estava tão bom o local, a gente pega o por do sol, a praça é belíssima. O pessoal do centro turístico já estava começando a parar, enchendo de turistas, e a gente sem estrutura. Aqui em São Luís, como em todo lugar, o Estado devia garantir banheiros químicos, às vezes senhoras de idade não tinham onde sentar. O choro em São Luís não é consumido só por pessoas de idade, crianças que gostavam iam, ficavam dançando no meio da roda, muito massa! Contagia todas as pessoas o chorinho. Pra gente continuar com esse projeto na praça, teria que ter essa estrutura, justamente pra gente dar um conforto às pessoas, não só ao grupo. A gente fez um projeto, esse projeto a gente levou para a Secretaria de Cultura, passamos na Lei de Incentivo e infelizmente não conseguimos patrocínio, de jeito nenhum. Até agora, tudo o que a gente conseguiu foi do bolso. Monteiro Jr. colaborou, Selma Delago [cantora e empresária], da Ponto Branco, até hoje, essa camisa que eu tou, essa branca aqui [aponta para o bordado], bordado dela, a Ponto Branco é patrocinadora forte da gente hoje em dia, são pessoas que agregam por que gostam do projeto. Infelizmente não há empresários grandes que chegam para investir. Outras pessoas a quem a gente deve muitos são vocês, o Ricarte divulgando nossa agenda no Chorinhos e Chorões, desde o começo observando como está o projeto. A gente começou esse projeto por que aqui em São Luís acabou o Clube do Choro. Acabou, parou. E a gente sentiu necessidade de estudar o choro, saindo daquele âmbito de Escola de Música. Uma época a gente foi para a Bahia. Na Bahia todo dia tem recital de música. Na Escola de Música eles só vão fazer recital no final do semestre. Eu voltei com um projeto lá, não é meu esse projeto, o Sexta Musical. Quando eu saí, graças a Deus que Jair [Torres, guitarrista] continuou. Era um projeto em que todos os alunos tocavam. A gente desenvolveu esse projeto para agregar essas pessoas, alunos e professores terem a oportunidade de chegar junto e estudar.

Fora o Salomé Bar, vocês têm outra agenda atualmente? Não. O Salomé Bar é um parceiro. O Cantinho do Choro já tem dois anos, a gente estava correndo atrás de casa [para tocar]. A gente está fechado com o Salomé. Foi a primeira casa que abriu para a gente fazer um projeto de choro, viu o projeto, abraçou, e está sendo um sucesso, cada vez mais cheio. Todas as quartas, a partir das 20h. Era das 20h às 22h, às vezes tem que reservar mesa. Nós já estamos fazendo das 20h às 23h, três horas de choro aqui. É como o Clube do Choro, faz duas horas de chorinho e um convidado. A gente está chamando os mais conhecidos do choro, mas também pessoas novas. Nessa quarta agora vai ter o Monteiro Jr., tive a oportunidade de trabalhar com ele, fazer centro para ele. Até hoje a gente se reúne e toca. É bom ter essas pessoas que gostam do choro aqui em São Luís.

Você é cavaquinista e falou em composições. Além destas, há outras habilidades que você desenvolve na música? Eu trabalho mais arranjos no trabalho de Tathy Estrela, ela fazendo violão e eu improvisando. No cd de carnaval eu faço meus arranjos dando a ideia e transfiro para o metal [o naipe de metais]. Noutros trabalhos também. Como compositor fui um dos classificados para a Exposamba, entre 800 concorrentes, eu já estava entre os 160, já estava na terceira etapa, e parou. Eu e Selma Delago, grande compositora, está vindo com um cd de samba excelente, compõe maravilhosamente bem. Ela é tia de Tathy Estrela, a família é musical, isso já te estimula a tocar.

Além de blocos tradicionais e do Cantinho do Choro, você já integrou outros grupos? Eu já toquei em grupos de samba. O primeiro foi na Liberdade, chamado Supersamba, toquei num do Centro que era Samba Ponto Com. O último em que toquei foi o Pra Ficar, com o Dinho, que canta no Argumento. A gente passou um tempo, o Junior [Henrique Cardoso, violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 10 de agosto de 2014], que está no Bossa Nossa, fazia o violão.

E de choro? Choro eu toquei nesse de Monteiro, Tocando com o Coração, toquei em recitais da Escola de Música, e agora no Cantinho do Choro.

Já tem quanto tempo o Cantinho do Choro? O projeto tem uns dois anos. Agora esse grupo que a gente está tem uns seis meses. São pessoas que frequentavam lá, não deixaram o projeto na mão e ficaram com a gente.

Como tem sido a dinâmica do Cantinho do Choro? Vocês se reúnem durante a semana, definem repertório? O repertório de uma semana não é igual ao de outra? Toda terça-feira estamos nos reunindo. Não, a gente sempre acrescenta cinco músicas novas e estuda as da pessoa que vai participar. Por exemplo, Osmar com o Cinco gerações, nós vamos tocar com ele o cd Cinco gerações.

Você tem participação em discos? De chorinho no disco de Monteiro Jr. De samba, Selma Delago, gravei agora um cd com composições próprias para carnaval, tem dois, um é o Mixiricu, com músicas para carnaval e São João. Passei com um baião no Sesc [a mostra de música Onde canta o sabiá?], ficou entre as 12, está indo para um disco agora, o nome da música é Na pisada do baião, foi selecionada, defendi-a agora. Não foi concurso, foi seleção. Ano passado a gente ficou em segundo lugar no concurso de marchinhas carnavalescas [do Sesc/MA], e eu harmonizei a de Selma Delago que foi a campeã. E eu e Tathy ganhamos como melhores intérpretes. A gente vai começar a gravar um disco de choro e quem vai produzir é Arlindo Pipiu, um disco de choro do Cantinho do Choro.

Para você o que é o choro e qual a importância dessa música? O choro não é só estudo, mas também é um modo de eu ganhar mais agilidade, mais técnica. É uma biblioteca musical. Eu acho que todo músico devia estudar choro, aquilo te dá um leque de possibilidades para trabalhar a música. E é uma música de qualidade. O choro é uma escola complexa de música, por que o choro abrange todos os estilos.

Uma pergunta que pode soar óbvia, mas que é de praxe fazermos: você se considera chorão? Eu sou um mero estudante [risos]. Mas eu me considero chorão por que eu amo o choro. Eu amo o choro, toco choro até em casa. Outro dia mesmo eu peguei o cavaquinho, estava tocando pra minha filhinha de quatro meses, e ela olhava para o dedilhado e eu “ah, essa vai ser musicista”, ela não piscava [risos].

Flaira Ferro muito além do frevo

A atriz, cantora e dançarina no show de lançamento de Cordões Umbilicais, Teatro de Santa Isabel, Recife. Foto: divulgação
A atriz, cantora e dançarina no show de lançamento de Cordões Umbilicais, Teatro de Santa Isabel, Recife. Foto: divulgação

 

Com os dois pés fincados nos terreiros da dança e do teatro, Flaira Ferro resolveu mostrar também sua faceta de cantora e compositora. Cordões umbilicais, seu disco de estreia, é um álbum autoral e autobiográfico, em que a artista dá roupagem pop a diversos elementos de sua formação cultural: frevo, cavalo marinho, caboclinho e maracatu, pernambucanidades temperadas com pitadas de erudito.

Flaira veio ao mundo no meio do carnaval do Recife, tendo se iniciado na dança ainda criança, aos seis anos de idade. Filha de pais foliões, foi aluna do lendário Nascimento do Passo, formou-se em Comunicação Social pela Unicap (Recife) e hoje é professora, pesquisadora, dançarina, atriz e cantora, ufa!, do Instituto Brincante, de Antonio Nóbrega, sediado em São Paulo, onde está radicada desde 2012.

No refrão de Atriz, cantora ou dançarina? (letra e música dela), a pergunta que muitos lhe fazem e farão, este repórter inclusive: “ô menina/ o que é que você vai ser?/ atriz, cantora ou dançarina?”. “Mundo, continente, país, estado,/ cidade, bairro, casa, eu./ Somos tantos mundos/ dentro de outros mundos mais/ e estamos ligados por/ cordões umbilicais”, comunga a letra da faixa-título, parceria de Flaira e Igor Bruno.

Ela assina letra ou música em 10 das 11 faixas, incluindo Contra-regra (pré-novo acordo ortográfico), calcada em versículos bíblicos. A única música que não assina é (mais ou menos) sobre ela. Na verdade é sobre Filhos – o título – em geral. A letra é do ex-deputado federal Fernando Ferro, seu pai: “Filhos são frutos,/ filhos são parte do nosso caminho,/ filhos são flores e são espinho,/ filhos são nós, e nós que atam e desatam./ Filhos são nossa parte, fazendo arte,/ filhos são doces pimentas do ser,/ filhos são nosso prêmio e pranto,/ filhos são surpresas,/ em cada canto./ Filhos não pedem pra nascer…”, reza a letra.

Em Me curar de mim (letra e música dela), literalmente desnuda-se: “E dói, dói, dói me expor assim/ dói, dói, dói, despir-se assim/ Mas se eu não tiver coragem/ pra enfrentar os meus defeitos/ de que forma, de que jeito/ eu vou me curar de mim?”, indaga-se/nos.

Cordões umbilicais. Capa. Reprodução
Cordões umbilicais. Capa. Reprodução

Disponível para download gratuito no site da artista, Cordões umbilicais foi gravado entre agosto de 2013 e abril de 2014 e lançado no Recife em janeiro passado, dentro da programação do Festival Janeiro de Grandes Espetáculos, em cuja 17ª. edição Flaira já havia sido premiada como melhor bailarina, por O frevo é teu?, seu primeiro espetáculo solo, dirigido por Bella Maia.

O disco tem produção musical e arranjos de Leonardo Gorosito e Alencar Martins (seu parceiro em Lafalafa e Contra-regra) e participações especiais do maestro Spok (saxofone) e Léo Rodrigues (percussão). Por e-mail ela conversou com o blogue sobre o álbum, seu trânsito livre entre a música, o teatro e a dança, a porção autobiográfica de sua obra e projetos futuros.

A artista no clique de Patrícia Black
A artista no clique de Patrícia Black

 

Zema Ribeiro – O que melhor define você: atriz, cantora ou bailarina?
Flaira Ferro – Essa resposta está na letra da música que te inspirou a pergunta. Meu caminho é o da busca. Nela procuro os lugares onde moram meus desafios. Quem se dispõe a olhar para dentro de si, na tentativa de entender seu papel no mundo, há de se deparar com muitas questões da existência. A dança está na minha vida há mais tempo, mas ela foi um pontapé inevitável para o teatro e para o canto. O que me interessa mesmo é a ponte que existe entre as três linguagens. Todas elas têm o corpo como instrumento e o movimento como impulso para ações e intenções. A possibilidade de me expressar misturando tudo isso é o que me define hoje.

Com uma consolidada carreira como bailarina e atriz foi preciso cortar algum cordão umbilical com aquelas artes para dedicar-se à música enquanto cantora? Ou tudo se soma e uma expressão ajuda a outra?
Elas são complementares e sem dúvida uma ajuda a outra, principalmente na compreensão de execução. Pra cantar é preciso respirar corretamente, coisa que a dança trabalha bastante. Pra interpretar uma dança ou música a atuação é um recurso importante na escolha das intenções, enfim.

Cordões umbilicais traduz uma reelaboração pop de ritmos tipicamente pernambucanos, como frevo, cavalo marinho, caboclinho e maracatu, e traz além de pitadas eletrônicas, referências eruditas. Como foi o processo de composição e gravação do álbum?
Tudo começou no final de 2012. Em um processo lento e atento às minhas verdades, juntei todas as composições que eu tinha feito ao longo da minha vida e convidei, por afinidade e entrosamento, os músicos Alencar Martins e Leonardo Gorosito para pensarmos na elaboração das músicas. Durante um ano nos encontramos semanalmente na casa de Alencar. Eu mostrava as letras e melodias e os dois criavam os arranjos. Dessa brincadeira saíram duas parcerias, Lafalafa e Contra-regra, com letras de minha autoria e música de Alencar. Depois de tudo arranjado, eles escolheram a dedo os músicos que formariam a banda para gravar no estúdio e foi quando conheci Jota Jota de Oliveira (baixo), Gabriel Zit (bateria) e Ciro de Oliveira (teclado). Fizemos alguns ensaios e gravamos o disco em dois estúdios: Cia do Gato e Ilha da Lua, ambos em São Paulo. Gustavo do Vale foi o técnico responsável pela gravação, mixagem e masterização. Além da banda, o disco contou com a participação especial dos músicos maestro Spok, Léo Rodrigues, Taís Cavalvanti, Danilo Nascimento, Sandra Oakh, Ramiro Marques e meus pais. Também tive parceiros fundamentais na autoria de algumas letras, são eles: Camila Moraes, Igor Bruno, Ulisses Moraes e minha irmã Flávia Ferro. Apesar de eu ter idealizado o projeto, Cordões Umbilicais foi feito por muitas mãos e jamais teria a cara que tem se não fossem todas as pessoas que mencionei acima. Tive a sorte de contar com músicos, familiares e profissionais que foram verdadeiros portais para esse sonho ser compartilhado.

Em Templo do tempo se indaga: “será que saberei um dia/ o que vou ser quando crescer?”. Nenhum risco de Cordões umbilicais ser teu único disco, não é? Ainda é cedo, mas já se pegou pensando no sucessor da estreia?
Sem dúvida. A composição é um exercício e uma necessidade constante. Tem muita música nascendo e em algum momento irei desaguá-las em um novo disco. Mas ainda vai levar tempo. Quero curtir esse primeiro filho com calma, rodar com shows, digerir e processar essa descoberta com carinho.

A letra de Contra-regra tem versículos bíblicos, sem nem de longe pagar de gospel. Você é religiosa? É católica? Que papel tem a Igreja em sua vida?
Até o mais ateu dos ateus não nega: deus é um tema irresistível. Não sou católica, muito menos religiosa. Levo uma vida sem misticismos ou superstições. A meu ver, dignidade vem com trabalho, bom humor e uma boa dose de teimosia. Acredito na espiritualidade como um tipo de inteligência que qualquer um pode ou não desenvolver e, para mim, a conexão com o divino é um estado de discernimento e expansão de consciência sobre o todo. Nasci num país onde os preceitos da cultura judaico-cristã predominam e de alguma forma me sinto influenciada por isso. Sou fascinada pela mensagem intrigante de amor incondicional pregada por Jesus Cristo. Quem consegue amar ao próximo como a si mesmo? Quem é capaz de dar a outra face se alguém o bater? Eu não consigo. A meu ver, o verdadeiro artista é um devoto às questões da alma. Neste sentido Jesus é pra mim um artista revolucionário e transgressor da maior ordem e, por isso mesmo, acredito que sua mensagem está longe de ser compreendida pela ganância e hipocrisia que regem o sistema político e cultural do Ocidente. Fico imaginando o que Jesus faria se presenciasse as atrocidades irreparáveis que os homens fazem em seu nome. É tanta intolerância, homofobia, racismo e violência dentro das igrejas que tenho dificuldade de me sentir representada plenamente por alguma instituição. Mas acho importante compartilhar experiências coletivas de fé para fortalecer a crença individual, seja ela qual for. Procuro me cercar de pessoas generosas que estejam dispostas a olhar a vida sem dogmas e moralismos e são nestas relações que minha igreja reside em essência. Identifico-me profundamente com a lógica de agradecimento presente nas manifestações populares como o Cavalo-marinho e o Reisado [maiúsculas dela]. Fui batizada em igreja batista, sempre que dá frequento a IBAB, o templo budista da Monja Coen e as sambadas do Instituto Brincante.

Diversas faixas têm um quê autobiográfico. O quanto dói se expor assim, como você afirma em Me curar de mim?
Não sei se existe uma dimensão para medir nossas dores. Acredito que todo processo de transformação demanda algum tipo de sofrimento, o que é saudável e natural. No meu caso, a exposição de minhas fraquezas dói o necessário para me fazer perceber o que preciso trabalhar.

Por falar em exposição, sua participação no projeto Apartamento 302, do fotógrafo Jorge Bispo, ganhou repercussão na seara política, ao que parece com veículos de comunicação querendo atingir seu pai. O que achou de participar do projeto e qual a sua opinião sobre essa repercussão enviesada?
Participar do projeto foi uma experiência interessante para lidar com a auto-imagem, o lugar do feminino e o julgamento externo. Sinto que a repercussão distorcida e maldosa só fortaleceu a importância de agir a partir da fidelidade às minhas próprias questões. O artista nem sempre vai ser compreendido, então, avante. Quando a gente se entrega de coração a alguma coisa, a paz que vem da escolha feita com verdade é absurda. O autoconhecimento é um tema que me seduz muito, desde pequena. Procuro viver atenta às minhas necessidades e todos os dias me faço a pergunta: estou investindo meu tempo tentando ser o melhor de mim mesma? A partir dela vou encontrando respostas para tomar decisões que independem do que os outros vão dizer ou achar.

Em Atriz, cantora ou dançarina você afirma: “Por ora agora gosto de cantar/ mas se amanhã isso bastar/ serei fiel ao que me der vontade”. O que Flaira ainda não fez e tem vontade? Muita coisa, né? Mas das que estão no topo da lista, tenho muita vontade de organizar uma viagem intensa pelo Brasil para fazer uma pesquisa de campo sobre os ritmos e as danças populares de cada região do país.

Assista o clipe de Lafalafa:

Chorografia do Maranhão: Marcelo Moreira

[O Imparcial, 28 de dezembro de 2014]

Fundador do Instrumental Pixinguinha e ex-diretor da EMEM, violonista é o 45º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVANIO ALMEIDA SANTOS

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

“Já tá valendo tudo?”, indagou Marcelo Moreira ao perceber o gravador ligado sobre a mesa. Radicado no Maranhão desde 1981, o violonista carioca, ex-diretor da Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo [EMEM] conversou com a Chorografia do Maranhão no Cafofo da Tia Dica, charmoso restaurante por detrás da Livraria Poeme-se (Praia Grande).

Modesto, adverte os chororrepórteres: “minha participação nessa história é pequena”, diz, sobre sua relação com o choro. Marcelo Moreira de Oliveira chegou à terra do bumba meu boi pelas mãos da cantora Olga Mohana, ex-diretora da EMEM. “Ela estava iniciando um projeto importante, inédito no Maranhão, em relação à educação musical”, conta o capricorniano nascido em 8 de janeiro de 1961.

Marcelo estudou violão clássico na Proarte, à época um curso livre. Filho de Benvenuto Batista de Oliveira e de Judite Moreira de Oliveira, ele se lembra da oposição dos pais entre si em relação à sua opção pela música. O pai não se opôs, chegando a conseguir-lhe uma bolsa na instituição. “Era um curso livre, Seminário de Música Proarte, ficou em questionamento no MEC, se iam reconhecer. Era uma escola que na época tinha grandes músicos, Nicolas de Souza Barros [violonista], Marcelo Caiate [violonista], minha primeira apresentação foi com ele, ganhou praticamente todos os prêmios internacionais”, lembra. “Papai era apaixonado por música, quando estava em casa estava ouvindo ópera, baiano, cozinheiro, maître, mão fantástica, cozinhava maravilhosamente bem, cozinhava para um magnata, o dono do Oton, uma cadeia de hotéis, a gente ouvia violão, Rádio MEC”, continua. Da mãe lembra-se da “voz bonita, cantava muito em casa, não gostava muito da ideia de eu fazer música”. O irmão Leonardo também era bastante musical, “tocava flauta e percussão, mas foi ser engenheiro”.

Casado com Cristine e pai do pequeno João Marcelo, Marcelo Moreira riu bastante ao longo da entrevista, despertando também os risos dos chororrepórteres. Depois ainda mandou um e-mail complementando informações: passou o ano de 1992, quando da realização da Eco 92, de licença no Rio de Janeiro, ocasião em que realizou um curso de arranjo com o lendário Ian Guest. Informou ainda que acompanha, ao violão, a esposa, que canta na missa aos domingos, além de dar aula de violão popular a crianças da comunidade católica a que pertence.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Como se deu sua vinda para São Luís? Eu estudava na Proarte, fui aluno de de Léo Soares, violonista, já tinha uma carreira internacional, foi professor de Bertoldo Vaz [do Água de Moringa], de Nicolas de Sousa Barros, foi professor de muita gente importante. Eu tinha 20 anos, tinha começado meu curso de História e um belo dia o Léo me chamou e disse: “olha, tem uma pessoa lá no Maranhão que está fundando uma escola e eu quero saber se você quer ir dar aula lá”. Eu com 20 anos, doido para sair de casa, ter minha independência, com música, não pestanejei, o salário era bom, eram mil dólares na época, o dólar lá em cima, isso em 1980, meu pai não tinha nem condição de dizer nada, eu ia ganhar mais do que ele. Ele achava que eu tinha que concluir a faculdade para ir trabalhar, ele não queria que eu interrompesse.

Você chegou a concluir algum curso fora da música? Rapaz, não. Eu entrei no curso de História, quando eu vim eu trouxe o curso de História mas não terminei. Eu estudei na UFMA.

Essa formação, digamos, mais acadêmica, da Proarte, foi tua formação ou você chegou a continuar isso? Eu me considero um músico clássico, erudito. Minha formação é basicamente isso. Fora um professor que tocava rock e um amigo meu, que a gente improvisava, a minha formação basicamente foi essa, de partitura, com repertório erudito.

Mas a pergunta é: depois da Proarte você não teve um estudo formal de música? Não! Depois eu fui fazer isso agora, já depois de muitos anos, concluí a licenciatura. Em 2000 eu fui para Fortaleza, passei uns anos lá e finalmente fiz minha graduação. Isso, poxa, 20 anos depois de trabalhar, graças a uma política, um interesse da instituição de qualificar, existia um problema muito sério com o corpo de professores da Escola de Música por que ninguém tinha formação acadêmica, todo mundo era curso livre, autodidatas e tal, todo mundo era assim. então tinha essa necessidade. O primeiro cara que saiu da Escola para fazer assim foi o Ciro de Castro, foi para a Espanha, fez o curso de canto dele, depois foi Ana Neuza, foi para o Rio, fez a graduação dela em piano. Eu fui o terceiro. Depois de mim houve uma porção. De uns anos para cá, finalmente com a inauguração da graduação aqui, na UEMA, aí os professores aderiram, poucos professores não têm ainda a graduação.

Você veio para cá em 1981. Você continuou indo frequentemente para o Rio? Como é tua relação? Todo ano eu vou, até hoje. Há dois anos houve uma interrupção, meu filho nasceu, muito pequenininho, eu não queria viajar com ele.

Primeiro filho? É. Fui ter o primeiro filho [gargalha, interrompendo-se].

Você veio para o Maranhão trazido por Olga Mohana. Quem foi o primeiro amigo que você fez aqui? Pixixita [José Carlos Martins, professor da EMEM, falecido], claro! [gargalhadas]. Na Escola de Música os violonistas que eu encontrei eram muito poucos. O professor anterior, não lembro, quem conhece é Joaquim Santos [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 8 de dezembro de 2013], é luthier, violonista, mora numa cidade em Minas, era o professor que eu substituí. Ele ficou pouco tempo e o trabalho dele foi pequeno, tinha um menino que eu tava outro dia lembrando, não mora mais em São Luís. Dessa geração, os alunos que eu herdei dele, nenhum continuou músico. Os primeiros alunos formados na Escola de Música por mim, violonistas, são Domingos Santos [violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 16 de março de 2014] e o Raimundo Nonato Privado [violonista], que são professores da Escola. Numa segunda leva, são guitarristas hoje, Norlan [Lima], Diógenes Torres. A Escola de Música tinha um problema muito sério naqueles primeiros anos, com o programa, a concepção do curso, eu queria falar uma coisa a esse respeito. Olga Mohana tinha um projeto acabado de educação musical, tinha uma proposta concreta para por em prática. Ela queria resgatar aquela memória que havia sido esquecida, da tradição erudita maranhense, a obra do João Mohana, aquelas missas de Antonio Rayol, ela queria que aquilo fosse executado, que houvesse músicos capazes de tocar aquele repertório. Ela queria montar uma orquestra sinfônica, então a ideia da Escola era essa, trabalhar a música erudita. Ela tinha uma ideia de que a música popular, nessa época existia um conflito de concepções pedagógicas no Brasil todo, dos conservatórios, da música europeia, daquele sistema positivista de ensino, aquela coisa evolucionista, eurocêntrica, e tinha uma concepção mais nova se delineando, uma coisa que hoje se chama de abordagem sociocultural da pedagogia musical, era um conceito que estava se formando. Aqui o choque foi esse, eu não tinha uma formação assim muito grande, do ponto de vista didático, eu ensinava como eu tinha aprendido, eu não tinha passado pelo banco da universidade, com disciplinas específicas sobre didática, sobre essa discussão toda, que na época ainda era pequena, mesmo nas universidades ainda era uma coisa confusa, isso começo dos anos 1980. O que acontecia: eu, ao mesmo tempo em que não tinha uma concepção acabada sobre isso, tinha uma coisa que me incomodava no meu trabalho com os alunos, eles não ouviam música erudita, não tinham a mínima ideia de como diferenciar, tocar Bach e aquilo não parecer um samba, como tocar um compositor clássico e não transformar numa coisa esquisita, meio caricatural, por que não tinham referências estilísticas, estéticas. O Maranhão carecia demais disso. Na época ninguém ouvia música erudita.

Você lembra o que tentou fazer na época para superar esse dilema? Isso daí foram anos. Eu, na verdade, nunca consegui uma solução. Quando eu vejo meus colegas hoje se deparando com os mesmos problemas, que eu vou tentar dizer “vai por aí”, e as pessoas não ouvem, inclusive eu não dou aula mais de violão na Escola de Música, muito em função dessa dificuldade de compreensão dessa diferença, da necessidade de você ter um método que seja realmente sintético, que considere essa coisa viva. Você vai fazer um cara tocar música erudita, tocar Bach, estudar, tocar, é difícil, só fica bonita se for perfeito, tem um conceito, uma norma, o cara passa anos… você pega um garoto sem referência, não acontece. O que aconteceu foi que eu não tinha a teoria, mas eu tinha Koellreutter, da necessidade do novo, você ter honestidade para abarcar o problema, não fantasiar, ser sincero.

Durante muito tempo se ouviu uma crítica muito forte à Escola de Música por conta dessa erudição. Parece que de uns anos para cá, ela deu uma popularizada, necessária, eu diria, embora ela tenha sido pensada inicialmente para dar vazão a essa coisa do popular no Maranhão. Pois é, eu acho que a importância do grupo Pixinguinha [o Instrumental Pixinguinha] é essa: vamos trabalhar técnica, trabalhar música brasileira, popular. Foi a primeira vez que um grupo quebrou a coisa do clássico lá dentro da Escola. Mas ainda existia muito preconceito, e não era só eu, tinha outros professores, com outras cabeças. O fato é que na década de 80 estavam acontecendo umas coisas, globalização pesando, aqui em São Luís surgiram os primeiros estúdios de gravação. Quer dizer, existia Nonato. Depois surgiu Pitomba e papocou pela cidade toda, Edinho [Bastos, guitarrista] da guitarra veio, montou o estúdio dele, Duailibe [Henrique Duailibe, pianista], Marcelo Carvalho [tecladista]. Aí começou a acontecer outra coisa diferente daquilo que eu encontrei, que era Josias [Sobrinho, compositor] com o Rabo de Vaca, Cesar Teixeira tocando violão. Foi nessa época. Essas pessoas que estavam vindo, tinham um conceito do que era música popular e tinham certa força dentro da cidade. Eu lembro que Laura Amélia [Damous] era secretária de cultura e nomeou Marcelo Carvalho diretor da Escola de Música e ele tinha essa ideia de que era importante que a música popular fosse ensinada, que a Escola fosse um veículo para isso, mas ele não tinha uma coisa de didática, política de ensino, essa coisa mais técnica. Acabou não dando certo. Dessa época surgiu o Instrumental Pixinguinha e surgiu também a Big Band, que foi também uma guinada nessa ideia. Como Olga saiu, depois de uma transição, chegou à direção da Escola de Música o Padilha [Antonio Francisco de Sales Padilha, trompetista, ex-secretário de Estado da Cultura], ele é um músico de sopro, e pensou “não, orquestra de cordas, não, vamos formar banda, orquestra de sopro”, e começou a investir nisso, a orquestra de sopros precisava de uma cozinha, aí se abriu curso de bateria, aí começou a refrescar um pouco a coisa, mas a resposta para a cidade era pequena ainda.

Se você tivesse que indicar teus mestres, quem são essas figuras? Primeiro de tudo eu tenho um amigo chamado Fernando Garcia, músico, no Rio, compositor, violonista fantástico, um artista incrível, foi um alento antes de eu entrar na Escola. Depois eu tive o Léo Soares, foi meu mestre, me ensinou a ler partitura, me ensinou repertório erudito, me ensinou estética. Ele me dizia: “eu não sou professor de violão, eu sou professor de música”, era esse o bordão do Léo Soares. Ele me deu aquele livro, História Social da Arte e Literatura [Arnold Hauser], eu tinha de 15 para 16 anos. Depois do Léo Soares foi a época que eu vim para São Luís. O grande músico que eu encontrei aqui, Mércia Pinto, grande concertista, a importância da disciplina, a música é um sacerdócio, o cara que é músico, ela tinha uma concepção que diferia muito da música como, do músico boêmio, para ela o músico era um operário, trabalhador, alguém que ralava, foi uma pessoa importante. Em Fortaleza, em 2000, quando fui morar lá, conheci o Heriberto Porto, flautista, líder do Syntagma e do Marimbanda, que trabalha jazz e música brasileira. Eu viajava muito, conheci esses violonistas todos. Marco Pereira, quando eu conheci, era um professor da Universidade de Brasília, muito metódico, compositor muito sério, foi maravilhosa a minha convivência. Conheci o Turíbio Santos [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 29 de setembro de 2013]. Outro professor que foi importante para mim foi o João Pedro Borges [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 14 de abril de 2013]. Ele quando veio para São Luís, eu achei muito legal, eu estava aqui sem pai e sem mãe, eu não tinha concluído meus estudos de violão clássico. As peças que eu toquei, eu fiquei num nível intermediário, não tocava as coisas mais cabeludas de violão. A ideia era ficar aqui dois anos, três anos. São Luís, eu não sei, tem uma coisa. A primeira vez que eu vi bumba boi, Pixixita me levou para a Vila Palmeira, eu fui lá, quando eu vi aquilo, eu não conseguia sair de dentro daquilo, eu fiquei completamente tomado.

Então você se considera um erudito mas tem uma paixão pela cultura popular. É. Eu não consigo ser insensível. Quando eu vi boi de orquestra, quando eu vi Leonardo, aí eu fiquei pirado, a polifonia, a ritmia daquilo, é incessante, é intenso, cada um fazendo uma célula. Tem um negócio que eu nunca entendi, tem uma hora que dá um barato. Aquelas partes individuais, quando eles estão tomados por aquela atmosfera, aquele transe, que aquelas dezenas de percussionistas entram em sintonia, um faz uma coisa, o outro completa o outro, o outro completa o outro, cara!, produz um efeito, meu Deus!

Antes de vir para o Maranhão você era frequentador de rodas de choro? Como era tua relação com essa música? Não. Eu vi choro, meu professor tocando choro, achei uma coisa ridícula, ele era um músico fantástico, mas não é músico de choro, pegou a partitura e tocou.

Mas você achou ridículo choro em si ou a execução dele? Eu não soube identificar, mas foi uma coisa que… eu vi ele tocando música espanhola, a música popular deles lá, aquela coisa, vi ele tocando Bach, depois vi tocando choro, não achei nada. Solano [Francisco Solano, violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 26 de maio de 2013] foi o cara que me apresentou realmente o choro. Solano e Jansen [César Jansen, bandolinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 21 de setembro de 2014].

E quando você ouviu com eles? Tua percepção mudou? Com certeza! Eram músicos autênticos, que tocavam choro com a alma, com propriedade, tocavam choro, aquilo era espontâneo. É diferente, passa, você tem um conteúdo. Por que música não é nota, não é instrumento, música é outra coisa, imaterial, impalpável. Você consegue exprimir ou não. Eu lembro, Vibrações [Jacob do Bandolim], eu ouvi com Solano e Jansen solando isso. Aí Solano: “tu gostou? Ouve isso aqui!”, aí me passou o disco Vibrações. Eu conhecia Pixinguinha, Carinhoso, essas coisas. Em música popular o que me chamava a atenção, que eu gostava, era Milton Nascimento, naquela época eu já ouvia Egberto Gismonti, já ouvia Hermeto [Pascoal].

Em todas essas referências há certa sofisticação, certa erudição. Sim, exato. Aquela música descompromissada.

Descompromissada com o mercado. Sim. E de fazer perfeito e tal, aquela alegria, aquela atmosfera, tipo “eu não estou aqui para sentar num palco e tocar com os melhores, ser comparado”.

Você sempre viveu de música? Graças a Deus! A minha primeira profissão foi como músico, me conservo até hoje. Eu tive uma sorte que muitos colegas talvez não tiveram, de ter um emprego, assim, com salário, professor de música. Isso me deu uma tranquilidade na minha vida pessoal.

Você chegou a tocar na noite? Aqui ou no Rio? Sim. Aqui! Eu vim do Rio muito novo.

Qual a tua relação afetiva com essa terra? Eu me considero maranhense. Eu não sei o que é isso. Eu adoro, gosto demais. Foi uma coisa que me tocou muito, a diferença das pessoas, aqui e lá, o jeito de ser. Aqui parecia que as pessoas eram mais humanas, ouviam mais. Lá parece que é cada um na sua e você é um inimigo em potencial, todo mundo desconfiado de todo mundo. Eu tive uma adolescência problemática no sentido da sociabilidade, muito introspectivo, muito tímido. Quando eu cheguei aqui eu desabrochei como pessoa, primeiro o pessoal da Universidade. Na UFMA conheci o pessoal do movimento estudantil, depois o pessoal do PT [Partido dos Trabalhadores], eu fui da primeira direção da CUT [Central Única dos Trabalhadores].

Conte um pouco de sua participação no Instrumental Pixinguinha. A gente tinha o seguinte objetivo: tocar Radamés [Gnattali, compositor, pianista, maestro e arranjador gaúcho]. Biné do Cavaco [Os Irmãos Gomes, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 22 de junho de 2014] tinha um amigo em Recife, Marcos César [bandolinista], conseguiu as partituras; Solano conseguiu várias partituras de outros arranjos de Radamés, arranjos de Wagner Tiso, aquele repertório da Camerata [Carioca, grupo liderado por Radamés Gnattali] a gente conseguiu. Durante um ano, mais ou menos, a gente ensaiou sistematicamente. O nome do grupo não é à toa: tinha a ideia de que o grupo era de choro mas não era um regional, a gente queria fazer música brasileira camerística, queria dar um salto, tinha Radamés como referência, Suíte Retratos [de Radamés Gnattali, em quatro movimentos – os retratos –, homenageia Pixinguinha, Ernesto Nazareth, Anacleto de Medeiros e Chiquinha Gonzaga], Choro de mãe [de Wagner Tiso], a gente tocava aquilo, aquilo é lindo demais! É uma obra-prima do choro. Solano, eu, a gente tinha essa coisa, quando falou Instrumental, vamos trabalhar música instrumental brasileira, era essa a ideia. Quando a gente fez o show, Homenagem à velha guarda, tocamos finalmente depois de um ano, notamos que criou uma ressaca violenta depois. Para continuar com aquela ideia era muito difícil para muito dos colegas manter um trabalho daqueles, muito ensaio, foram criadas algumas dificuldades. O grupo foi gravar seu primeiro disco muito tempo depois de eu ter saído, inclusive era ideia minha essa coisa do repertório maranhense, à época eu consegui música com Biné do Banjo [Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 31 de março de 2013], tinha umas coisas que eu fazia lá, Zezé Alves [flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 9 de junho de 2013] sabe. Depois que eu saí do Pixinguinha eu tive a felicidade de ao ir para Fortaleza, conhecer, lá na UECE [Universidade Estadual do Ceará] o Heriberto Porto, que era o líder do grupo Syntagma. Era um grupo que trabalhava o elo entre a música nordestina, dos cantadores, repentistas, aquela coisa modal, e a música europeia da idade média, dos menestréis, dos cantadores, das rabecas, dos alaúdes. Eles tocam música nordestina com viola da gamba, cravo, tem arranjo, por exemplo, de Asa Branca [Luiz Gonzaga/ Humberto Teixeira], pô! Conheci lá um grande músico, não pessoalmente, o trabalho, os arranjos, Liduíno Pitombeira. Ele é um gênio! Mas não tem uma produção que o promova, não é conhecido. Ele ganhou o prêmio da sinfonia do descobrimento do Brasil, o MEC fez um concurso quando o Brasil fez 500 anos, ele foi o ganhador.

E fora o Pixinguinha, você integrou algum grupo aqui? Eu acompanhei Rosa Reis [cantora], vez em quando as pessoas chamavam, acompanhei Anna Cláudia [cantora], fiz noite, participei de alguns festivais.

Você vem de uma formação mais erudita, de violão clássico, mas na sua opinião, o que significa o choro para a música brasileira? A gente está vivendo uma época de muitas tendências na música brasileira. Graças a Deus o choro ganhou uma força enorme dos anos 1980 para cá, com novos compositores, compondo coisas absolutamente inéditas, não é a coisa de pegar o modelo e fazer, mas linguagem nova, propor novas concepções para o choro, instrumentistas virtuoses incríveis. A música instrumental brasileira cresceu também com influências do jazz, do fusion com música modal, eletrônica. Eu andei ouvindo umas coisas de choro com guitarra, bateria, teclado. É música brasileira, tudo bem, mas choro é regional, cara!

Então você é tradicional? [Risos] Não, eu sou camerístico, eu adoro música eletrônica. Agora quando eu fico vendo bateria, guitarra, eu acho massa, mas é outra coisa. Tem muita coisa acontecendo. Eu acho que a renovação da linguagem no choro não tem a ver necessariamente com o abandono das formas tradicionais, e estou falando especificamente do instrumental, do tipo de instrumentos que produz, daquela sonoridade.

Além de O chá [registrada em Choros Maranhenses – Caderno de Partiruras, organizado por Zezé Alves], você tem outras composições? É, tenho umazinhas, até tenho um projeto com Zezé Alves, ele começou a editar [as partiruras], tem choros que eu compus na época, com o Pixinguinha, quero ver com ele se eu consigo editar, tirar do manuscrito.

Você foi diretor da Escola de Música. Como você avalia a experiência? Rapaz, eu saí de lá com depressão [gargalhadas]. Você tem uma instituição que você não tem recursos para botar a coisa pra frente, projeto, é uma dor de cabeça. Na época em que eu estive lá eu consegui colocar a nível interno uma discussão que talvez para a sociedade não importe muito, mas vai importar ainda, que foi a necessidade da modernização, de descartar aquele velho programa e ter um programa atualizado do curso de música. Eu não consegui fazer, mas consegui botar a semente naquelas cabeças, e fluiu depois. Falta ser aprovado. Eu sou feliz por isso, iniciei uma discussão que deu frutos. A questão política é muito frustrante.

Você acha que a Escola de Música deve estar, como está, vinculada à secretaria de Cultura ou deveria estar vinculada à secretaria de Educação? Do ponto de vista da gestão, da autonomia financeira, administrativa, eu acho que a Escola de Música deveria ser criado era uma fundação, uma coisa específica. Essa coisa de verbas é o problema central, problemas de contratação. Você abre um concurso para alunos novos, se inscrevem três mil jovens, cinco mil jovens. Quantas vagas? 200 vagas, 150 vagas. Isso não pode, é um desrespeito total. Uma instituição que tem essa demanda não pode ser tratada assim. Se não houver concurso para a Escola e dotação, esteja onde estiver vai ter problemas.

Você se considera um chorão? Considero. Me considero um chorão no seguinte sentido: amo música instrumental, amo música brasileira [enfático], gosto de ver performance. Quando eu vejo um instrumentista tocando bem música brasileira eu acho muito legal. Nesse sentido eu sou. Se eu tiver que fazer música eu quero fazer choro.

Os vários planos de Tatá Aeroplano

Cantor e compositor conversou com o blogue sobre seu novo disco, Aladins Bakunins, protagonizado por seu personagem Frito Sampler

Aladins Bakunins. Capa. Reprodução
Aladins Bakunins. Capa. Reprodução

 

Tatá Aeroplano é um inquieto. Seu ritmo de produção, difícil de medir; rotulá-lo, simplesmente impossível. Ele inventou e integra/ou bandas como Cérebro Eletrônico e Jumbo Elektro, e agora ataca de Frito Sampler. Além disso, é dj e produtor (vide o ótimo homônimo de estreia do capixaba Juliano Gauche) e, entre outros, participou de Vira lata na via láctea, mais recente disco de Tom Zé.

Frito Sampler, alter ego de Tatá Aeroplano, era o vocalista da Jumbo Elektro, e acaba de lançar Aladins Bakunins, seu disco de “estreia”, já à venda em seu site, onde também pode ser baixado de forma gratuita. O show de lançamento do álbum está marcado para 26 de agosto, no Sesc Pinheiros/SP. O disco tem produção de Tatá Aeroplano, Otávio Carvalho e coprodução de Júnior Boca (parceiro de Tatá na produção do citado Juliano Gauche) em algumas faixas.

Em Aladins Bakunins Frito Sampler dá vazão à experiência iniciada pelo artista na saudosa Jumbo Elektro: canta numa língua inexistente baseada no anglo-saxão. Assim, é possível ler coisas como Cats and gatz ou Ladies, soldies and fantasys, além de Love, melodies and more nothing, entre outras, entre os títulos das 10 faixas do álbum.

Frito Sampler surgiu em um sonho. Aladins Bakunins, o título do álbum, em uma pesquisa na internet: buscando outra coisa, as palavras apareceram juntas e ele não teve dúvidas em usá-las para batizar o novo trabalho.

Nele estão traços característicos da obra de Tatá Aeroplano, com altas doses de psicodelia evocadas desde a capa, num disco de conteúdo freak, às vezes folk, alucinante, mais alegre aqui, ou melancólico acolá, como se pudéssemos prever o que, de repente, a formação original dos Mutantes estaria fazendo em pleno século XXI.

Tatá Aeroplano – ou Frito Sampler – conversou com o blogue. Esbanjando simpatia, ao fim do e-mail em que respondeu a entrevista, mandou um “viva a música e obrigado pelas perguntas”. Aos produtores da Ilha, um toque: é grande sua vontade de tocar aqui.

O plural Tatá Aeroplano: cantor, compositor, instrumentista, DJ, produtor... Foto: Divulgação
O plural Tatá Aeroplano: cantor, compositor, instrumentista, DJ, produtor… Foto: Divulgação

 

ENTREVISTA: TATÁ AEROPLANO

Já foi dito que a música é a única linguagem universal. O que o levou a cantar numa língua inexistente?
Quando aprendi tocar violão na adolescência, a segunda canção que compus junto com o violão foi uma que não tinha uma letra em português, e sim umas palavras “desconexadas”, puxadas pro anglo-saxão… Foi um lance natural, que sempre teve momentos na minha onda criando. O que aconteceu com o Frito foi isso. Tive um surto cantando essa linguagem louca em 2013 [durante a gravação da trilha sonora do longa-metragem De menor, de Caru Alves de Souza]… Fiz um monte de músicas assim e me deixei levar por isso, como tinha feito com o Jumbo Elektro, minha banda de 10 anos atrás.

Homem à frente de Cérebro Eletrônico e Jumbo Elektro, carreira solo de Tatá Aeroplano, e agora Frito Sampler. Qual a sensação de ser vários?
Depois que eu vi o filme Holy Motors do Leo Caraix, entendi que sempre fui vários… Dei corda pra isso… Adoro me jogar na noite… Adoro acordar cedo… Gosto de correr… De andar pela city… De tomar umas… De tomar várias… As composições sempre vieram de todos os lados e influenciadas por tudo o que eu vivo… Entendi que sempre fui vários… Tem o que acorda cedo.. O que não dorme… O que toma litros de café… O que bebe todas… Eu convivo com todos eles… E se dou mais corda pra um… O outro reclama… Minha cabeça é uma loucura das boas.

 

Frito Sampler é mais que a reunião de sobras que não couberam em discos de tuas bandas ou tua carreira solo. É possível explicá-lo?
São as músicas que baixaram sem muita explicação lógica, como as cantadas em português, que também chegam do nada, a maioria é assim… O lance de sobras, são aquelas bandas que fazem 50 músicas pra tirar 10 pro disco… O meu problema, na real, é que componho centenas de coisas a cada ano… Daria pra fazer uns discos bem loucos… Então tô vendo até que ponto posso dar asa às loucuras… Porque pretendo no futuro… Fazer um disco de inéditas a cada seis meses… Falando em baixar… Tenho uma banda com o Paulo Beto… Chamada Zeroum, lá eu sempre cantei nesse idioma também… [o artista enviou os links com os vídeos usados nesta entrevista]

 

Aladins Bakunins é divertido e tem a marca de Tatá Aeroplano. Fora a língua inventada, o que difere basicamente Frito Sampler de Tatá Aeroplano?
O Frito é esse cara que aparece no clipe Frank Black Meeting Calling Days [faixa que abre Aladins Bakunins]: ele tem uma namorada andrógina de peruca rosa também e tem amigos como o pássaro psicodélico da floresta… A Ohana… A Sofi Anaho… Ele frequenta a noite e se joga geral… Esse é o Frito, canta numa língua que não existe… É o cara que veio do campo pra cidade. Já meu trabalho de compositor traz as canções em português, tem a psicodelia e a ironia que carrego comigo e em tudo que eu faço coloco um pouco dessas referências todas.

Com tantas identidades é difícil conciliar tantas agendas? Tem ainda a de produtor, dj…
O mais difícil mesmo é conciliar todos esses personagens malucos aqui dentro da cachola… Quanto a agenda… A prioridade total pro trabalho autoral, os álbuns do Tatá [Tatá Aeroplano, de 2012, e Na loucura e na lucidez, de 2014]… E nos respiros… Pirações… Como eu disse… Minha meta é um disco a casa seis meses.

Conheces São Luís? Gostaria de tocar aqui? O que falta?
Nossa, tenho muita vontade de ir pra São Luís. Eu preciso saber quem pode me ajudar a ir praí fazer shows! Quero muito ir!

Chorografia do Maranhão: Hermelino Souza

[O Imparcial, 30 de novembro de 2014]

Técnico em contabilidade de profissão, o violonista Hermelino Souza é o 44º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVÂNIO ALMEIDA SANTOS

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

Técnico em contabilidade de formação, Hermelino de Jesus Souza nasceu em São Luís, dia 19 de abril de 1938, filho do comerciante Julio Souza, e Domingas dos Santos Costa, doméstica. Seu pai faleceu quando ele tinha apenas 16 anos, mas foi um dos responsáveis pelo gosto que tomou pelo violão.

Aos 76 anos, Hermelino revelou à Chorografia do Maranhão estar diminuindo o ritmo de trabalho na contabilidade – atende em um escritório no Edifício Catu, no Centro da capital maranhense e é conselheiro do Conselho Federal de Contabilidade – para dedicar-se mais à música.

Presenteou a chororreportagem com o cd O violão através dos tempos, fruto do resgate de fitas k7 em que toca repertório clássico e uns poucos choros. A entrevista aconteceu no Bar do Léo, que tocou repetidamente Ninguém é melhor do que eu, disco de estreia da compositora Patativa, que havia sido recém-integrado a seu acervo.

Os chororrepórteres com Léo, Hermelino e sua esposa. Foto: Rivanio Almeida Santos
Os chororrepórteres com Léo, Hermelino e sua esposa Maria Iracema. Foto: Rivanio Almeida Santos

O proprietário do bar posou para uma foto, junto ao entrevistado e aos chororrepórteres, usada para divulgação da série nas redes sociais, e recebeu um elogio do violonista: “esse é o homem da cultura musical”.

Hermelino estava acompanhado de Maria Iracema Aquino, sua esposa, que revelou já o ter visto tocando Sons de carrilhões [João Pernambuco] dormindo. Ela contou também que a reação do marido, um dia, ao chegar e ver a casa arrombada, foi botar as mãos na cabeça e exclamar: “meu violão!”. O instrumento estava intacto.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

Além de músico, o senhor hoje tem alguma outra profissão? Várias. Além de músico, eu posso contar umas histórias? A história disso é a seguinte: desde a mais tenra juventude, como se diz, todo mundo tem uma noção de instrumento, a coisa com a família, papai cantava alguma coisa, aquela influência toda, me levou a admirar o violão. Mais tarde, meu pai morreu, eu fiquei pequeno. Eu fui desenvolvendo o violão, tocando, aprendendo com um, com outro, por ali. Eu tinha um irmão, Odimar, tocava cavaquinho muito bem. Por influência dele, fizemos um regional, eu já devia ter uns 18 anos, Regional Caçula, acompanhava programa de calouros. Era eu, meu irmão e mais três outros irmãos.

Quanto tempo durou o Caçula? Uns três anos. Depois eu comecei a trabalhar, lá por 1963, num escritório, eu era auxiliar. Tirei o curso técnico de contabilidade, foi meu primeiro emprego.

Depois de contabilidade o senhor estudou outra coisa? Nada.

E hoje? Está aposentado? Não. Trabalhando normal. Estou reduzindo um pouco.

O ambiente em sua casa era muito musical? Era. Nunca me disseram se fazia bem ou mal, mas me acompanhavam. Eu fazia o que eu queria, tinha livre arbítrio.

Seu pai gostava de música? Tocava? Tocava violão.

Comprava discos? Ouvia muito rádio? Não. Nunca vi discos por lá. Nem rádio, naquela época. Nem ele tocando, ele cantava com a turma dele na rua e nem isso eu via.

O senhor lembra com que idade começou a pegar em instrumento? Eu devia ter uns 16 anos, talvez um pouco menos. Era nessa faixa.

A sua principal influência para escolher o violão foi teu pai? Foi.

O que o senhor ouvia em termos de violonistas brasileiros? Quem mais te chamava a atenção? Naquela época eu não sabia, não conhecia ninguém. Na época desse regional, era zero à esquerda. Só tocava.

Vocês tocavam choro e samba? E acompanhávamos. Choro e samba solados por cavaquinho. E acompanhávamos os programas de calouros, em rádios. Naquela época tinha comédias, pastores, uma coisa tradicional, pastor ainda tem até hoje. No desenrolar desse tempo, papai morreu, mamãe morreu, eu fui criado por uma mãe de criação. Ela me orientou de uma forma, mas eu tive que fazer as coisas de acordo com meu pensamento, ela não se metia. Em termos de trabalhar, profissão, aprender alguma coisa, nada. Me botaram para estudar num colégio público, tirei o primário, depois o ginásio, depois fui para a antiga Escola Técnica [hoje Ifma], cursos profissionalizantes na época. Cheguei num ponto tal: “rapaz, o que eu vou fazer na vida?” [risos]. Eu mesmo. Fui fazer um curso médio. Antes disso aconteceu outra coisa interessante. Eu tinha aprendido um bocado de coisa interessante no violão, e andei ensinando um pouco, precariamente. Fui estudando e entrei para um colégio, chamado Academia de Comércio [na Rua Afonso Pena, Centro]. Eu nem sabia o que era contabilidade, mas só tinha vaga lá. Eu ensinava, com o dinheiro do violão pagava o curso. Na escola consegui uma bolsa, pagava uma parte. Consegui tirar o diploma. Concomitantemente, nessa época, eu já estava tocando na rádio Ribamar. Conheci uma pessoa muito importante, um barbeiro, ele queria ser chamado de cabelereiro [risos], seu Wilson, famosão aqui.

Eu queria que o senhor falasse do papel que algumas barbearias cumpriram para a prática do choro e do violão. Fundamental! Eu vivi uma vida com ele lá. Naquela época, toda barbearia, violão tava lá. Wilson era um barbeiro, sabia tocar um pouco, gostava demais de violão. Tinha um professor conhecidíssimo na época, Luiz Almeida. Ele ensinava Wilson. Eu havia estudado música com o maestro Godofredo Rosa, na Vila Bessa, teoria, divisão, aquela coisa toda. Estudei um pouco de flauta com ele, depois clarinete. Aquilo me deu uma base de música. Quando eu cheguei na casa de Wilson, ele me apresentou um método da escola de Tárrega [Francisco Tárrega, compositor, pianista e violonista espanhol]. Ele ia para a barbearia, sentava na cadeira com o violão, isso durou anos e anos. Luiz Almeida eu conheci na barbearia. Eu não podia pagar professor de violão, mas ele me deu umas dicas, eu fiquei amigo dele, comecei a pedir partituras, eu já tinha uma base. Luiz me dava, eu tinha que copiar tudinho. Depois disso foi que veio o programa de rádio. Eu tive que aprender rápido, fui fazer um programa próprio. Nesse programa, Acordes de um violão, naquela época não se desenvolvia muito choro aqui; se desenvolvia música clássica, violão erudito, em termos populares se tocavam algumas marchas e valsas, o repertório de Canhoto, Américo Jacomino. Wilson se transformou, para mim, não vou dizer pai, por que a diferença de idade não era tão grande, mas era como um irmão mais velho. Eu já era da família, não saía de lá.

O programa de rádio era em que ano? 1963, por aí. Na rádio Ribamar, no Apicum.

Como o senhor começava o programa? Esse programa teve vários apresentadores. Um deles foi Jairo Rodrigues, outro, eu gostava muito, era um poeta de mão cheia, Marcos Vinicius, um cara de alta cultura literária, ele ficava tão empolgado.

Quem o senhor elegeria como seus mestres? Indiretamente seu Wilson, Luiz Almeida.

Indiretamente. Então o senhor se considera um autodidata? É, um autodidata com uma porcentagem de 80 a 90%.

Essas duas situações, primeiro o regional, depois o músico de rádio: foram suas primeiras experiências profissionais com música? Não. Não, por que eu nunca me tornei profissional. Foram oportunidades que eu tive.

Isso é modéstia. Não, eu nunca fui mesmo.

Mas na rádio tinha um cachê. Por esse lado era profissional, não? Tinha, mas era tão pequeno. Mas eu estava lá e fiz. Digamos que, de certa forma, seja profissional. Mas eu não considero.

O que te despertou para a música clássica? Wilson. Papai tocava violão, mas eu não via. Eu tocava violão. O que me despertou de música, eu ouvi um rádio de uma vizinha, essa música me marcou até hoje, passei muito tempo para arranjar essa partitura, arranjei, e ainda não criei coragem para estudar. Um dia hei de tocar: Os patinadores [ele solfeja a valsa do compositor francês Émile Waldteufel], todo dia de manhã tocava numa rádio.

O senhor foi acompanhante, depois desperta para o violão erudito, mas depois passa a compreender o choro, as grandes referências do violão popular brasileiro. Quem são essas referências? O choro é uma música de alta elaboração, de alto nível. Eu, naquela época, de música brasileira, tocava algumas valsas e algumas marchas. Eu tocava a Marcha dos marinheiros, de Américo Jacomino. O choro veio mais tarde. Eu aprendi um ou outro, toquei também a Marcha triunfal, de Canhoto. Depois apareceu Dilermando. O choro, pra mim, começou com Dilermando Reis [violonista], mas eu fiquei com os dois lados, nunca consegui me separar, eu continuava com o erudito. Depois eu cheguei a uma conclusão: a música é uma só, muda o ritmo e a preferência de cada localidade, cada pessoa. A música clássica é uma música essencial, ali está toda técnica de ensino, exercícios, dentro da própria música tem. Um dos grandes problemas do choro, que ainda se enfrenta até hoje, são pessoas que devido à época, não tiveram a oportunidade de estudar música, tocam de ouvido, a maioria. Hoje é diferente. O próprio Waldir Azevedo [cavaquinista], o próprio Jacob [do Bandolim]; Jacob veio se esmerar em música depois que conheceu Radamés [Gnattali, pianista, compositor e arranjador], que deu para ele a Suíte retratos [que em quatro movimentos homenageia Anacleto de Medeiros, Pixinguinha, Chiquinha Gonzaga e Ernesto Nazareth].

O senhor já viveu de música? Não. Só na época da rádio Ribamar, eu ganhei alguns trocados. Só isso.

Além do Caçula o senhor participou de algum outro grupo musical? Eu não lembro.

O senhor já integrou algum grupo acompanhando artistas? Não. Sempre era violão solo. Acompanhando assim, às vezes em duo, eu e Biné [do Cavaco, Os Irmãos Gomes, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 22 de junho de 2014], eu e Fernando Cafeteira [violonista, falecido, integrou a primeira formação do Regional Tira-Teima]. Eu gravei um disco [Hermelino presenteia os chororrepórteres com exemplares de O violão através dos tempos]. Esse disco tem uma história, foi feito com o irmão de Biné, Denizal, o mais velho. Ele foi outro irmão meu, tocava bem violão. Nesse cd eu botei umas músicas que eu gravei com Denizal. Eu tinha em fita k7, descobri isso, ouvi, tava bom. Falei com Gordo [Elinaldo, multi-instrumentista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 27 de outubro de 2013] e ele passou isso aqui pra cd.

Como foi a gravação dessas músicas? Quando foi? Eu tinha umas fitas que eu guardei. Eu estava em Belém e gravei, nós gravamos em casa, no hotel.

E por que o senhor não gravou de novo? Eu não estava mais tocando essas músicas. E queria ter a memória. Isso aqui foi uma transição. Eu estou largando o serviço [de contabilidade], diminuindo. Eu pego o violão todo dia em casa.

Como eram as reuniões nas barbearias? Quem frequentava? Como se dava a dinâmica da música? Tem umas histórias de violão e barbearia. Wilson tinha outro cliente, seu Morais. Eu comecei a tocar músicas de Dilermando Reis, Xodó da baiana, Sons de carrilhões [de João Pernambuco], Interrogando. Seu Morais era doido por isso. Ele ouvia clássico, ouvia por que é bonito mesmo, mas a paixão dele era o popular, Dilermando Reis. Um dia ele me chamou para tocar com eles, a gente ficou tocando, tomando um vinho, na casa do poeta Carlos Cunha, lá no Monte Castelo. As barbearias eram uma salinha pequena, o violão ficava lá, alguém pegava. Quando chegava cliente, tinha uns que gostavam, quando não estavam cortando cabelo, estavam tocando. Depois de muito tempo, chegaram João Pedro Borges [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 14 de abril de 2013], Ubiratan [Sousa, multi-instrumentista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 12 de maio de 2013], Wilson primava pela coisa, só iam os bons. Ele era muito rigoroso.

Alguma outra barbearia nas lembranças? Quando eu estive em Belém conheci outras duas. Eu conheci um camarada lá que era barbeiro, era louco por violão. Eu fui pra barbearia dele, ele tocava pra clientela, o pessoal gostava muito, era muito bom [posando para fotos, Hermelino toca um trecho da Marcha dos marinheiros, de Canhoto].

Além de instrumentista o senhor tem outras habilidades na música? A minha maior vontade é escrever, fazer arranjos para violão. Eu comecei a fazer [mostra uma partitura para os chororrepórteres]. Zezé Alves [flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 9 de junho de 2013] fez um álbum [Choros maranhenses – caderno de partituras] só com choros maranhenses. Tem um choro de seu Nuna [Gomes], pai de Biné [do Cavaco], Um sorriso. Eu tinha vontade de tocar esse choro, mas não conseguia pegar de ouvido. Aí eu fiz [o arranjo], mandei para Zezé criticar. Eu fiz primeiro de um jeito, depois mudei um pouquinho, para facilitar mais [executa Um sorriso].

O que é o choro para o senhor? O choro é uma das músicas mais importantes do nosso país. É a única música, ou uma das únicas, verdadeiramente brasileiras, nasceu no Brasil, no Rio de Janeiro. É o som que nós queremos ter e viver.

Na sua opinião, quem é o grande violonista brasileiro em todos os tempos? Nós temos muitos. Para escolher um é difícil. Um camarada que eu admiro muito é Henrique Annes [violonista]. Outro violonista erudito, também aqui do Maranhão, é João Pedro Borges. Turíbio Santos [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 29 de setembro de 2013]. Tinha Raphael Rabello [violonista], que faleceu.

E no Maranhão? O senhor tem acompanhado a cena choro? Aqui tem um cara que eu admiro, acompanho a obra dele, que eu considero de vanguarda, chama-se Luiz Jr. [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 4 de agosto de 2013]. Nesse meu disco eu quero chamar Luiz Jr. e Domingos Santos [violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 16 de março de 2014]. De Luiz Jr. eu tenho uma música linda, chamada Choro pro Guinga.

O senhor se considera um chorão? Também. No Brasil quem não é chorão? Ainda mais quem lida com o instrumental, violão, bandolim, cavaquinho, flauta, é um chorão, queira ou não queira.

Chorografia do Maranhão: Giovani Cavalcanti

Membro de diversos conjuntos no auge da era dos bailes, o violonista é o 43º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVANIO ALMEIDA SANTOS

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

Giovani Alves de Cavalcanti chegou antes da hora marcada para prestar seu depoimento à Chorografia do Maranhão, o 43º. da série. Ele foi entrevistado por Ricarte Almeida Santos e Zema Ribeiro e fotografado por Rivanio Almeida Santos na quitanda de Seu João, na esquina das ruas da Viração e do Machado, próximo à avenida Beira-Mar, no Centro de São Luís.

Filho do psiquiatra Odilon Rezende Cavalcanti e de Eli de Assis Cavalcanti, doméstica com dotes artísticos, o violonista nasceu na rua São José, no bairro do João Paulo, em 4 de setembro de 1950. “Minha mãe esculpia, fazia pintura, chegou a escrever para jornal, alguns artigos, crítica contra a administração pública, tipo Caema, Cemar. O título era Canivetadas e ela assinava lá embaixo O Canivete. Fazia artigos em linguagem sertaneja e em rimas com o mesmo objetivo, sempre de malhar o sistema, as deficiências administrativas do Estado. E também compôs algumas músicas”, conta.

Ele estudou na escola técnica desde o ginásio industrial e cursou Química. Aposentou-se como técnico sênior em eletrônica na Telecomunicações do Maranhão S.A (Telma). Suas primeiras memórias musicais remontam a discos de gêneros os mais diversos, ouvidos pela mãe, e a um cavaquinho de plástico onde começou a dar as primeiras dedilhadas.

Na conversa com a chororreportagem Giovani lembra o convívio com figuras fundamentais para o choro no Maranhão, como Zé Hemetério e Nuna Gomes, além de várias histórias do auge das bandas de baile, ele que integrou algumas, além de grupos de samba.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

Além de músico qual a sua outra profissão? Eu fui um técnico em telecomunicações. Entrei na Telma no setor administrativo em 1975, trabalhei cinco anos lá, depois descobriram que eu tinha aptidões técnicas. Passei num concurso para a Embratel e a empresa para não me perder para a Embratel decidiu me reaproveitar no setor técnico. Mas eu tinha que cumprir algumas exigências da empresa, fazer cursos de eletricidade, eletrônica, embora eu já soubesse, mas eu tinha que me sujeitar às condições da empresa. Passei para auxilitar técnico e terminei minha carreira, já com a privatização da empresa, como técnico sênior em eletrônica, que é nível superior.

Hoje você está aposentado? Aposentado.

Observa-se uma paixão muito grande em tua vida que é o radioamador. Fale um pouco dessa paixão. O radioamador é interessante. Eu não sabia nada sobre radioamadorismo. Ainda trabalhando no setor administrativo, fiz amizade com o gerente da área técnica, o Pontes. Um dia peguei uma carona com ele e ele tinha um radiozinho lá, um aparato de comunicação. E no teto uma antenazinha, aquela coisa toda. A gente chegou perto da cabeceira da ponte do São Francisco e ele perguntou: “tu tá ouvindo esse cara aqui? Esse cara tá falando de Copacabana”. Aí ele começou a se comunicar com esse cara em Copacabana. Eu fiquei impressionado, como é que um rádio, um pouco maior que uma carteira de cigarros, conseguia se comunicar diretamente com a pessoa lá no Rio. E ele disse que não era só o Rio, mas qualquer cidade distante de São Luís aproximadamente 2.000 quilômetros. Foi aí que eu passei a me interessar, comprei equipamento, tirei minha licença na Anatel e entrei na chamada Faixa do Cidadão. Anos depois, já agora na era 2000, foi que eu realmente ingressei na Labre, a Liga Brasileira de Rádio emissão, e aí tive que me submeter a prova, inclusive de telegrafia. A telegrafia é mais ou menos igual a música, eu estudei sozinho. A música, como a telegrafia, antigamente era uma caixa preta, quem sabia não ensinava. Mas eu já falei com diversos países do mundo todo, muitas cidades do Brasil. O que está acima de 2.000 quilômetros.

Você também gosta muito de rádio AM. Eu gosto, eu sou coruja. Eu tenho vários rádios de ondas curtas. Foi um vício que eu adquiri de infância. Na minha casa tinha aqueles rádios a válvula da Philips, de noite eu não tinha para onde sair, a criação era bem diferente de hoje, você custava a sair, acima de 15, 18 anos é que você ia para festas. Hoje não, moleque de 12 anos já está por aí. Eu tinha que ficar em casa, inclusive aquelas expedições lunares, aquela corrida espacial dos Estados Unidos, tudo aquilo a gente ouvia pelo rádio. Então eu adquiri essa mania.

Como era o universo familiar, musical? O que te influenciou? Tua mãe tinha dotes artísticos. É o seguinte: minha mãe, o primeiro brinquedo que ela comprou, ela sempre gostava de comprar brinquedos musicais, flautinha doce, uma gaita. Teve uma época que ela comprou um cavaquinho da Troll, o slogan da Troll era “brinquedos de verdade”, e esse cavaquinho, mesmo sendo de brinquedo, de plástico, ele afinava. Você não afinava na altura, não tinha diapasão. Ela sabia afinar o cavaquinho e começou a me dar umas noções. Minha influência musical mesmo é que naquela época era muito eclética. Ela botava um disco de Luiz Gonzaga agora, daqui a pouco tirava e botava um Lenny Everson, Valdir Calmon, pra mim foi um dos maiores arranjadores de música popular no Brasil. Até hoje eu tenho na cabeça aqueles arranjos de Valdir Calmon, onde ele mistura samba e choro, fazendo aqueles pot-pourris, modulando, mudando de uma música para outra, muito bom o cara. A minha formação mais ou menos é essa, meu gosto.

Teus pais, então, eram colecionadores de discos, compradores de discos, ouviam muita música em casa. É, minha mãe ouvia muita música. Mamãe tinha Luiz Gonzaga e, por exemplo, disco da Banda Real Inglesa, Banda da Marinha dos Estados Unidos. Na época da semana da pátria só se ouviam hinos, aqueles dobrados militares. Música de natal, toda época ela tinha música. Mas mamãe gostava de música sertaneja, música clássica, Marinês e sua gente, Luiz Gonzaga, esse pessoal.

Quando ela presenteava vocês com esses brinquedos musicais, ela tinha pretensão de que vocês seguissem a carreira artística? Não, não. Era uma coisa informal, sem pretensão.

Mas ela te estimulou a participar de programas de calouros. Ah, sim. Nem todo mundo sabe, mas antigamente todas as rádios de São Luís tinham auditórios. Era obrigatório. E essas rádios tinham programas de auditório, ao vivo, pessoas na época muito faladas, tipo Lima Jr., da Rádio Difusora, que inventou O domingo é nosso. Todas as rádios, Ribamar, Timbira, Difusora, todas tinham auditórios. Nesses auditórios se apresentavam também os cantores que vinham de fora, Nelson Gonçalves, Orlando Silva, e também os cantores da terra, tipo Orlandira Matos, Alcione, Escurinho do Samba. E até eu. [risos] por que não eu? Me inscreveram na Rádio Timbira, num programa mirim, só a garotada, era à tarde. Me botaram em cima de uma cadeira pra eu poder alcançar o microfone. A música que foi escolhida para mim foi O jarro de barro [O jarro da saudade, de Daniel Barbosa, Geraldo Blota e Mirabeau]: começa [cantarola] “Iaiá, cadê o jarro?/ o jarro que eu plantei…” Então, eu cresci, o nosso lazer antigamente em São Luís era cinema, dia de semana à noite, a tarde, os vesperais, e praia. Até praia era difícil. Pra ir pra Ponta d’Areia tinha que ir de canoa, Olho d’Água não tinha nem asfalto.

Como você entrou profissionalmente na música? Nós, todos os músicos da minha época, éramos amadores. Não tínhamos as oportunidades que a galera de hoje tem, como várias escolas de música, internet. Nós éramos músicos práticos, só tínhamos dom, talento. Eu comecei assim: depois que minha mãe me deu a noção de como obter determinadas notas na escala do cavaco, se mudou lá para a minha rua uma família de Rosário: seu Nuna Gomes [multi-instrumentista]. Um cidadão que sabia tudo de instrumento de cordas, também prático, um cara lá do campo, do interior. Ele era barbeiro. Geralmente todo barbeiro antigo tinha alguma coisa, ou para música ou para dama. A casa dele era daquelas casas que a janela fica na parede da rua, eu sempre via aquelas reuniões de músicos, sempre pintava lá Sinhozinho [João Pedro Borges, o Sinhô, violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 14 de abril de 2013], Ubiratan [Sousa, multi-instrumentista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 12 de maio de 2013], se juntavam lá com os filhos dele, Denizal, que faleceu há pouco tempo, era um exímio violonista, se diferenciava, como Sinhô, que também estudou música. Eu ficava invocado, como era que o cara corria o dedo naquela escala, sabia onde parar. Um dia, seu Nuna, ele chamava todo mundo de capitão, podia ser uma criança de 10 anos. Ele me perguntou: “capitão, o senhor não gostaria de aprender a tocar violão?”. “Eu quero”. “Então o senhor vem pra cá, tem um método aí”. Eu estudava de manhã, de tarde eu ia pra lá.

Você tinha quantos anos? 15 anos, 14 e uns quebrados. Era a época da Jovem Guarda, aqueles conjuntos, Golden Boys, Os Vips. A gente reunia uma turma na escola, um ensinava uma nota pro outro, a gente pegava a mesma música e começava. Era assim, ninguém tinha escolaridade. Depois que eu peguei todas essas tonalidades de uma forma bem simplificada nesse método, que era um tal de Bandeirantes, o nome do método, eu passei a me arriscar a tentar ouvir uma música e tirar o acompanhamento. Eram coisas de Roberto Carlos. Um dia eu peguei uma revista e tinha uma nota que eu nunca tinha visto. Era um D com um ozinho pequenininho lá no expoente. Eu sabia que era um ré. Mas quando eu botava o ré não dava com a melodia ali naquele trecho. Eu comecei a levar para os colegas e era estranho para todo mundo. Alguém me disse, acho que até o Bastico [Gomes]: “só tem um cara que pode tirar essa tua dúvida: é Zé Hemetério [multi-instrumentista]”. Eu conhecia Zé Hemetério de passagem, passava sempre com o violino dele na mão, pendurado, para tocar nos bares, na noite. Eu fui lá, bati, nunca tinha tocado uma palavra com ele, a sede de aprender. Mostrei para ele, tem essa música de Roberto Carlos, é aquela música Esqueça [Forget him, de Mark Anthony, versão de Roberto Corte Real, cantarola:] “esqueça se ele não te ama”. Ele disse: “isso é ré com sétima diminuta”. E eu: “o que é isso?”. Ele foi lá dentro e voltou com um método dessa grossura [indica o tamanho com os dedos da mão], parecia uma bíblia. Era um Bandeirantes. Foi um método que foi elaborado por alguns músicos profissionais do Rio de Janeiro, que veio a facilitar o estudo da harmonia através da cifra. Era um método para piano, acordeom e violão no mesmo fascículo. Eu perguntei: “como é que eu consigo isso?”. E ele: “rapaz, isso não tem em São Luís, eu mandei buscar no Rio de Janeiro”. Passaram-se alguns meses, Bastico foi convidado para tocar no AC7 [conjunto musical], de Ataíde. Bastico foi tocar contrabaixo, como estava faltando guitarrista, Bastico me convidou. Eu nunca tinha pegado uma guitarra, só meu violãozinho ali de bossa nova. Mas eu fui, comecei a ensaiar com essa banda e comecei a tocar profissionalmente, de 1969.

Foi teu primeiro grupo? Meu primeiro grupo.

Se a gente fosse definir teus principais mestres, seriam Nuna e Zé Hemetério? O Zé Hemetério foi o cara que me deu essa dica, eu não sabia que existia acorde dissonante. Me despertou. O Nuna foi a pessoa que, depois, mais na frente, depois que eu toquei no AC7, depois a gente desfez o grupo, mudou pra Som Livre, eu fui tocar nOs Fantoches, como guitarrista, junto com Agnaldo [Sete Cordas, violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 17 de março de 2013]. Nós formamos um grupo justamente com os filhos de seu Nuna, são todos meus amigos, considero irmãos, Bastico, Biné e Zequinha [violonista, cavaquinista e saxofonista, Os Irmãos Gomes, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 22 de junho de 2014], mais alguns colegas de fora, Almir que era o cantor, Joaquim na bateria e por último entrou Pinheirinho, o Chico Pinheiro, arranjador, maestro. Eu não saía de lá da casa, os ensaios eram na casa de seu Nuna. Lá, enquanto a gente não estava ensaiando, ele pegava o bandolim dele, e começou a ensaiar comigo os choros dele, valsas, às vezes Bastico pegava o outro violão. Ele me ensinou a criar amizade, intimidade com o choro dele. Eu não tocava choros de outros compositores até então. Eu conhecia Waldir Azevedo, Jacob do Bandolim, mas não tocava. Eu me lembro que quando esse grupo ia tocar em Rosário, a gente se hospedava na casa deles em Rosário, ele costumava me acordar de manhã cedinho e dizia: “Capitão, vamos treinar o negócio do choro”. Nessa época, por incentivo de outro colega, Zé Nilson, foi professor de matemática, hoje é engenheiro, nós fizemos um grupo de choro. Chamava 20 Cordas no Choro, eu não sei de onde saiu essa história de 20 cordas, por que somando não dava. Era um grupo pra gente brincar, aí a gente começou, nesse grupo eu tocava cavaquinho, Biné era bandolinista e Bastico fazia o violão. E Marciano era o pandeirista e Celso, já falecido, fazia marcação. Chegamos a nos apresentar algumas vezes no programa de Moreira Serra na Rádio Ribamar, fizemos algumas brincadeiras em casas de pessoas, Zé Maria do Amaral, que tinha um cursinho, às vezes aniversários, coisas de família. Meses depois eu saí da banda, do Curtisom, o nome da banda lá da família era Curtisom. Saí e voltei para tocar com Ataíde já no Som Livre.

A gente pode dizer que sua paixão pelo choro começa com essa amizade com seu Nuna? É. Ele e a família dele. Depois, na Cohab, no bar do Eustáquio, era uma verdadeira tribuna artística, eu conheci uma figura extraordinária, músico de muito talento chamado Careca. Tocava bandolim muito bem. Nos encontrávamos quase que todos os finais de semana nesse bar, e sempre estávamos juntos com Agnaldo. Eu no seis cordas, Agnaldo no sete e Careca na bandola [bandolim]. O Six [Francisco de Assis Carvalho da Silva, advogado e cavaquinista], quando chegava aqui, mandava logo buscar o Careca. Então como o seu Nuna, o Careca me exercitou muito no choro. Isso tudo em meados dos anos 1970 até meados dos anos 80. Foi a época que mais toquei chorinhos com essa galera.

Tua família sempre te estimulou? Ou quando você decidiu seguir pela música houve uma resistência? Não. Minha mãe não me proibiu, a gente sempre soube que o ambiente musical profissional sempre rolou álcool e às vezes outras coisas, mas minha mãe sempre confiou em mim. O único entorpecente que eu já digeri foi álcool.

Você vive ou já viveu de música algum tempo? Pra viver nunca deu. Sempre foi um paralelo. Eu nunca comprei nada com dinheiro de música, de valor relevante. Eu tinha meu emprego, paralelo a isso, na noite, uns cachezinhos, pra comprar uma bobagem ali, um negócio. Às vezes você levava um mês para fazer uma festa. O conjunto de ponta que eu toquei aqui foi o Som Livre, depois o Curtisom, tinham agendas mais cheias. Interessante que nessa minha caminhada de músico profissional de banda, eu tive a satisfação de ser obrigado, contratualmente falando, a acompanhar grandes figuras da música popular brasileira.

Quem, por exemplo? Waldick Soriano, no Cine Monte Castelo, ainda na época do AC7, isso tudo sem ensaio, era aquela coisa “empurra o cara, se ele morrer afogado é problema dele” [risos], Luiz Gonzaga, o Gonzagão, fiz um show com ele aqui no Hotel São Francisco, Elizeth Cardoso no Casino Maranhense. E outros cantores, tipo Emílio Santiago, Alcione, recentemente eu fiz vários shows com Marquinhos Satã, Mário Sérgio, ali no Porto da Gabi, com Bola Sete, do Rio de Janeiro.

De que outros grupos você já participou? Aí é dividido em duas partes. Tem as bandas, começou com o AC7, depois Curtisom, Os Fantoches e Som Livre. Depois que eu saí do Som Livre vem a parte do samba. Meu violão, eu passei praticamente uns 12 anos sem nem pegar. Um dia minha cunhada foi morar comigo, olhou o violão dentro do guarda roupa, abandonado, e pediu para eu ensiná-la a tocar. Isso foi em 1992, 12 anos que eu nem pegava no violão, nem para tirar poeira. Como músico de banda nunca ganhei dinheiro, às vezes levava um mês para fazer uma festa, às vezes toda semana.

E os grupos de samba? Eu fiquei esse tempo todo sem tocar, nem dentro de casa. Depois eu fui fazer um curso, tinha um violão no clube, eu entrei lá, tinha uma turma tocando, comecei a tocar umas coisas de música aqui do Maranhão. Depois eu passei umas lições para minha cunhada, aí criou bolhas nos dedos e ela largou. Final de semana eu me sentava numa cadeira e começava a recordar aqueles antigos sucessos, Os Pholhas, um sambinha e tudo. Um dia Valter Nunes passou lá, eu tava tocando uma bossa nova, e “cara, tu não quer tocar domingo com a gente ali?”. Isso era uma terça-feira, eu estava por fora de samba, eu não conhecia um samba de Zeca Pagodinho, nada. Eu arranjei um captador, botei no violão. Tinha lá vários pagodeiros. E eu passeando, escorregando na manteiga o tempo todo, eu não conhecia as músicas, um esforço mental doido para não fazer feio. Quando terminou alguém disse que eu nunca mais podia sair do conjunto [risos]. A primeira coisa que eu acabei foi com esse negócio de tocar sentado, tem que tocar em pé, jogar o corpo, animar quem está lá. Aí nós começamos a dominar a praça com o Sambando na Praia. Depois eu fui para o Sem Dimensão. Quando eu estava no Sambando na Praia, o Vinicius foi embora. Foi uma dificuldade, ele cantava e tocava. Aqui era difícil gente cantar e tocar, a gente começou a andar atrás de músicos que fizessem as duas coisas, aí a gente contratou Ivan para cantar e Neto Peperi para fazer o cavaco. Tínhamos contrato fixo com o bar O Luar, ali na [avenida] Litorânea, o cachê lá era muito bom.

Você integra algum grupo atualmente? O Sob Medida, nós estamos ensaiando. Fizemos um pré-lançamento no programa do Ricardo Baty.

Na sua opinião o que significa o choro? Qual a importância dessa música? O choro, para mim, é uma música que não foi feita para qualquer um. O choro, o músico tem que ter muito conhecimento, nem eu tenho. Já vi muito músico tocar só com o talento, mas o choro exige do músico muito preparo técnico, conhecimento teórico e prático da coisa, do instrumento, da música. É uma música realmente emocionante. Eu me arrepio, me emociono escutando choro. Já tive oportunidade de tocar, de brincar, com pessoas de muito conhecimento, tipo Marco César [bandolinista], lá de Recife, com Jorge Cardoso [bandolinista], ainda em início de carreira.

Você se considera um chorão? Eu me considero um chorão mais como ouvinte, admirador. Se bem que no violão eu toco uns chorinhos. Muita coisa eu já esqueci, até de autores famosos, justamente por causa do samba. É aquela coisa, por que o chorinho, você pega um choro, você tem que estar tocando ele. Com o tempo você vai saindo. É como se fosse um satélite, manda um sinal para corrigir a órbita. Se você aprende uma música hoje, daqui a um ano você está tocando diferente. Agora, se não tocar, você esquece. Aquilo você cria uma espécie de memória mecânica, a posição, a sequência, como vai levando os dedos, a mão.