Um homem plural

Tião Carvalho conversou com exclusividade com o JP Turismo, aproveitando sua passagem por São Luís, onde realizou diversos shows na temporada junina.

TEXTO E RETRATO: ZEMA RIBEIRO

O maranhense Tião Carvalho não cursou faculdade, mas hoje em dia entra em universidades para dar aula. Com quase 40 anos em São Paulo e mais de 30 de Grupo Cupuaçu, o artista nascido em Cururupu José Antonio Pires de Carvalho consolidou-se como um embaixador da cultura maranhense em outros cantos do país e da cultura brasileira em outros cantos do mundo.

Ele ganhou o apelido Tião nas peladas da infância, jogadas na Praça Odorico Mendes, no centro de São Luís, pela semelhança física com um jogador do Atlético Mineiro da década de 1970.

Tião Carvalho esteve em São Luís, onde realizou diversos shows na temporada junina. Aproveitando sua passagem, conversou com exclusividade com o JP Turismo.

JP Turismo – Qual o teu balanço do São João? E qual o sentimento de voltar à terra natal, reencontrar os conterrâneos?
Tião Carvalho – Eu venho, moro em São Paulo, fora do Maranhão, se a gente quiser arredondar, fala em 40 anos. Eu saí daqui no ano de 1979. Eu sou vidrado nisso aqui, eu venho para o Maranhão por vários motivos e esse período eu dou graças a Deus que eu posso vir ao Maranhão, eu vejo outros amigos, a gente fica muito distante. Essa questão joanina tem muito a ver com minha família, eu sou filho de cantador de boi, essa tradição está na pele, no espírito. Eu vindo trabalhar, encontrar pessoas, poder trazer minha mensagem para esse público maranhense é muito legal.

A Renata Amaral, baixista que já tocou com você, acabou de lançar um documentário sobre o mestre Humberto [Guriatã]. Você viu o filme?
Ainda não. Conheço a ideia do projeto, a relação de Renata com Mestre Humberto, como era também com Pai Euclides, foi interessante esse tempo de ela focar nessas duas fontes, dois grandes mestres, grandes sensibilidades dela, isso também faz parte desse intercâmbio. Ela veio para cá várias vezes tocar comigo, a gente ainda toca em São Paulo, hoje menos. Hoje a minha baixista é a Thamires, que está morando em São Paulo. Eu gosto muito dessa energia feminina em minha banda, dessa mistura em minha banda, ter homens, mulheres, negros, brancos, isso é pensado, não é por acaso. Eu gosto disso, dessa miscigenação, essa força.

E o Cupuaçu? Segue firme e forte? Como é conciliar o grupo com tua carreira solo? De algum modo é o grupo que te deu reconhecimento.
Agora ele vai ficando mais tranquilo, o que acontece: nesses 30 anos você vai formando outros mestres, outros cantadores, o Henrique Menezes, que é daqui da família Menezes, da Casa Fanti Ashanti, chegou em São Paulo garoto, colou comigo graças a Deus, hoje em dia assume a brincadeira quando eu estou viajando, a Graça Reis é uma pessoa que a gente divide essa liderança hoje em dia, ela também com essa força da energia feminina que a gente respeita muito, minha irmã Ana Maria Carvalho, cantadeira, cantora de bumba meu boi, compõe, meu filho Yuri já canta, Alfredo Ramos. Tem toda uma turma que foi do Maranhão e se consolida em São Paulo. Claro que enquanto eu tiver vida e saúde eles vão querer minha presença, mas o Cupuaçu é uma escola, hoje em dia eu viajo mais tranquilo, tanto no Brasil, quanto no exterior, sabendo que o grupo vai continuar.

E o festival de que você vai participar em Goiás?
O show no 18º. Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros [de 13 a 28 de julho] é dia 25, uma quarta-feira. Eu vou dar oficina de dança, já estive lá este ano. É um festival de São Jorge, a cidade, é um festival tradicional na Chapada dos Veadeiros. É a segunda vez que estou indo para o festival, eu fui há 10 anos. De lá eu vou para Pirinópolis, depois vou para Goiânia fazer show, depois volto para São Paulo. Segunda-feira agora, dia 16, estou indo fazer um show num congresso de antropologia, convidado por minha comadre, professora, Paola Gebran, pianista e tecladista, que toca comigo na minha banda. Minha vida é isso aí, uma árvore com muitos galhos e que dá frutos diferentes.

Uma árvore sui generis. Quase 40 anos de São Paulo, só voltando aqui a passeio. O que te levou até lá? Quando você foi, você já tinha se descoberto artista ou se descobriu lá?
Já. Lá eu só vi acentuar essa questão. Eu já nasci com essa sina viajeira, quando eu era criança eu já tinha esse espírito. Eu jogando futebol, os técnicos já me davam a braçadeira. Meus mestres de bumba meu boi, tambor de crioula, capoeira, já apostavam em mim como líder desde criança. Isso eu já tinha. Vir aqui não é bem passeio, eu tenho obrigações de vir aqui, religiosas, sociais, culturais, políticas. Eu sinto que preciso vir e o Maranhão também precisa que eu venha.

Isso com certeza! Por falar em questão política, como você observa o cenário brasileiro após a retirada de Dilma do poder e da assunção de Temer?
[Pensativo] Eu vejo que tem algo aí temeroso nesse sentido. Mas o nosso Brasil vem de muito longe, e a gente, cada momento, tem algo que está em evidência. É muito complicado. Ao mesmo tempo a gente tem a memória curta. É complicado de falar, muitas das vezes existem gêneros, classes sociais, povos, raças do Brasil que são mais perseguidas que os outros. Muitas pessoas podem falar o que quiser e elas passam batido. Eu, corre o risco de abrir a boca e passar a ser um dos perseguidos, e aproveitarem a mim para poder amedrontar outros, como no caso de Marielle [Franco, vereadora carioca assassinada há quatro meses].

Você está falando isso particularmente por ser negro?
Claro! Eu sou negro. Se acontecer alguma coisa comigo, em um mês já esqueceram. Quem que fala aqui do Gerô [o artista popular Jeremias Pereira da Silva, assassinado por policiais militares em 2007]? De Mãe Mukumby, minha mãe de santo lá de Londrina, que foi morta no terreiro dela, a facadas. Ninguém fala, sai uma notícia no Brasil e ninguém falou mais, entendeu? Que bom que você está registrando. Eu estou com 63 anos, eu poderia dizer, bem vividos, jogo futebol, jogo capoeira, canto, ando a pé, entro e saio de todos os lugares do Brasil, tanto os mais simples aos mais sofisticados. Eu tenho que ter muito cuidado ao falar. Eu sinto isso. Tem 10 pessoas falando, aí de repente: “escolhe aquele”, pra poder amedrontar os outros.

Você considera que a gente vive uma ditadura, um estado de exceção, hoje, no Brasil? Isso justificaria teu temor em falar.
Eu coloquei para você exemplos. Quando é alguém de família tradicional que fala, ficam com mais medo de mexer. Eu lembro que estava assistindo ao filme Eles não usam black-tie [dirigido por Leon Hirszman, baseado na peça de Gianfrancesco Guarnieri], os caras estão reunidos e o cara fala fazendo aquele movimento: “o negrão, o negrão”, e o cara, “pá!” [imita o som de um tiro, com a mão imitando um revólver], entendeu? É um pouco isso. Quem calça o sapato sabe onde aperta, quem mora em casa sabe onde chove, minha avó já falava isso pra nós.

Como você avalia o governo Flávio Dino?
O que chega para nós lá em São Paulo é que nas pesquisas ele é o governador número um. A gente vem aqui pra ver, eu torço pra que isso cresça. O que ele precisar de minha ajuda, ele terá. A primeira questão é o Maranhão em si, nosso estado, nosso povo. Que Deus abençoe a gestão dele, eu torço para que a gente continue levando o Maranhão em frente.

Projetos de novos discos?
40 anos de carreira. Muitas vezes a gente faz aniversário na segunda e comemora no sábado, então tem um pouco isso. Os 40 anos de carreira eu já fiz, mas muitas vezes é preciso lidar mais com sentimento que com números. Eu fecho o ciclo de outra forma. Ainda não está definido o repertório, mas já estou trabalhando com alguns parceiros.

E o Cupuaçu?
A gente acabou de recopiar os dois cds [Toadas de bumba meu boi e Todo canto dança], estamos vendendo, e nos preparando, organizando para fazer um outro trabalho. Mas isso não é pra agora.

O Criolina [Alê Muniz e Luciana Simões] usou A mulher mais bonita do mundo [música de Tião Carvalho] como incidental em A menina do salão [faixa de Radiola em transe]. O que você achou?
Muito bom! Adoro eles. Fiz o carnaval com eles, vi começarem, são meus parceiros há muito tempo, tenho o maior carinho e respeito por eles.

[publicada originalmente no JP Turismo, Jornal Pequeno, hoje]

Um terreiro apimentado

Foto: Zema Ribeiro

 

Entre os muitos presentes à Praça Maria Aragão nesta noite de São João – como de resto por outros arraiais por onde a maranhense Alexandra Nícolas passou com seu show Feita na pimenta –, poucos devem ter percebido estar diante de um show nacional, embora a artista tenha recebido o mesmo cachê de um/a artista local.

Longe de pretender aqui determinar uma hierarquia, sobretudo em detrimento do artista local. Digo isto tão somente para apontar que a artista trouxe a São Luís parte do grupo com que gravou seu segundo disco no Rio de Janeiro e frisar o profissionalismo com que encara qualquer compromisso, numa preocupação que inclui repertório, arranjos, figurino e, sobretudo, conquistar a aprovação do público.

O show de hoje começou atrasado, por conta da apresentação de uma dança country que não consta na programação do arraial. Como Alexandra Nícolas tinha outra apresentação agendada também para hoje, no Arraial do Sesc, precisou deixar o palco cantando menos do que o previsto. Mesmo com uma apresentação menor, ao longo dela a cantora conseguiu interagir com o público, botando o povo pra cantar e dançar junto.

“Quem aí troca um chamego por um like? Eu não troco”, perguntou e respondeu antes de mandar Chamego encantado (João Lyra/ Zeh Rocha): “ai, ai, que chamego bom/ ai, ai, que chamego bom/ ai, ai, é um chumbrego só/ tô ficando assanhadinha/ vem dançar, me dá um nó”.

O repertório privilegiou faixas de Feita na pimenta – o locutor ao chamá-la ao palco cravou um “feito na pimenta”, que ela corrigiu com elegância, ao cantar a faixa-título (Marco Duailibe), cujo compositor estava na plateia. Antes, ensinou o refrão: “feita na pimenta/ feita na pimenta/ vê se não me atenta/ que eu sou feita na pimenta”, que o público imediatamente repetiu. Tá pegando fogo e Forrobodó, ambas de Betto Pereira, também não deixaram ninguém parado.

“Vamos conversar mais um pouquinho enquanto eles se resolvem”, ganhou tempo enquanto os técnicos ajustavam o som. “Maestro, me avisa quando for a hora”, pediu a João Lyra. “É hora de olhar pra quem está do seu lado”, provocou, antes de cantar Teu (Zeca Baleiro/ Anastácia). “Essa eu ganhei de Zeca Baleiro e ele cantou comigo no meu disco”, contou, emocionada.

Discípula de Jackson do Pandeiro, ela incluiu em seu roteiro De Teresina a São Luís (João do Vale/ Helena Gonzaga), O canto da ema (João do Vale/ Ayres Viana/ Alventino Cavalcante) e Na base da chinela (Rosil Cavalcanti/ Jackson do Pandeiro), esta com a letra incompleta, mas traduzindo bem o espírito da noite.

“Eu agora vou me despedir de vocês, mas pergunto: alguém aqui, nas próximas eleições, pretende votar em fuleiro?”, perguntou, para um “não” em uníssono. E mandou o Coco fulero (João Lyra/ Zé Rocha), delicioso trava-língua de cunho político, durante o qual apresentou a banda, um luxo só: Bebê Krammer (sanfona), Rui Alvim (saxofone) – impressionante o diálogo entre seus instrumentos –, João Lyra (guitarra, arranjos e direção musical), Arlindo Carvalho (percussão), Fleming Bastos (bateria), Regina Oliveira, Natália Coelho e Suassuna (vocais).

O povo queria mais, não sei se pelo costume do “mais um” ou se pelo show ter sido menor. Mas não há show menor quando se tem Alexandra Nícolas no palco.

O tempo do Tira-Teima

Foto: Zema Ribeiro

 

O Tira-Teima tem um tempo todo particular. Grupamento de choro formado em meados da década de 1970 em São Luís do Maranhão, somente em 2016 gravou o primeiro disco, Gente do Choro, cujo show de lançamento aconteceu somente ontem (19), no Teatro Arthur Azevedo.

O septeto que subiu ao palco ontem já difere do que gravou o disco, numa demonstração inequívoca de que o Tira-Teima é uma verdadeira escola, por onde passam grandes instrumentistas, do qual Paulo Trabulsi (cavaquinho solo), único remanescente da formação original, acabou, por isso, firmando-se como uma espécie de líder natural.

Após um texto lido em off pelo jazzófilo Augusto Pellegrini, a poeta Vanda Cunha recitou uma espécie de currículo artístico do Tira-Teima enumerando qualidades e grandezas e  pedindo à plateia uma salva de palmas para o grupo – a cortina ainda estava fechada e ela atrapalhou-se para encontrar a fresta e tornar aos bastidores.

A noite foi aberta por Gente do Choro (Paulo Trabulsi), choro cantado interpretado por Zé Carlos (pandeiro e voz), cuja letra versa sobre o ofício do chorão, por ruas e bares, entre a música como profissão e diversão.

O Tira-Teima tocou durante cerca de hora e meia, desfilando repertório inteiramente autoral, entre faixas de Gente do Choro e inéditas, algo raro de se ver e ouvir em rodas de choro, em que quase sempre se pescam peças mais populares do vasto repertório chorístico brasileiro. Seguiram-se Companheiro (Francisco Solano e Paulo Trabulsi) e Meiguice (Paulo Trabulsi).

“É uma alegria, uma satisfação muito grande estar aqui, realizando este show de lançamento de nosso cd. A felicidade é maior ainda por sabermos que estamos entre amigos. Todos aqui são amigos e parceiros”, afirmou Paulo Trabulsi, agradecendo a presença de todos, com o público presente ao teatro comprovando o que já é sabido: o choro não é música de multidões, tampouco modismo, com fiéis ouvintes dispostos a boas doses de boa música em qualquer tempo, em qualquer templo – como Luiz Jr. se referiu ao Arthur Azevedo, merecidamente.

Em Imbolada (Serra de Almeida), um casal entrou dançando, a demonstrar que o choro também é música para tanto. Ainda mais quando em diálogo com o maxixe e puxada à embolada nordestina, com destaque para a flauta do autor.

Serra de Almeida puxou do cofo de inéditas Os degraus da matriz, lembrando a escadaria da igreja em que brincou na infância, em sua São Bernardo natal, no interior do Maranhão.

O potiguar Wendell de la Salles, sempre saudado como uma espécie de integrante honorário do Tira-Teima, com seu bandolim, substituiu o cavaquinho de Paulo Trabulsi em Dom Chiquin (Serra de Almeida), formação mantida para Anjo meu (Wendell de la Salles), que ele compôs em homenagem à sua filha, e Aguenta seu Florêncio (Wendell de la Salles), homenagem ao avô, que um dia vacilou com a porta do guarda-roupa aberta e o menino Wendell descobriu um cavaquinho e consequentemente a música. Para sempre!

O grupo voltou a ter a formação do início do show – na foto, em sentido horário, Zé Carlos (pandeiro e voz), Henrique Brasil (percussão), Sadi Ericeira (cavaquinho centro), Serra de Almeida (flauta), Paulo Trabulsi (cavaquinho solo), Francisco Solano (violão sete cordas) e Luiz Jr. (violão sete cordas) – para executar Choro nobre (Serra de Almeida) e Expressivo (Paulo Trabulsi). Na sequência, músicos e plateia assistiram ao belo duo de sete cordas dialogando em Teimosinho (Luiz Jr.), momento em que o flautista aproveitou para dar uma conferida no whatsapp.

Luiz Jr. anunciou o próximo convidado: “meu professor”, disse, referindo-se ao violonista João Pedro Borges. “Vou aproveitar para fazer logo a propaganda: nós estamos trabalhando no Festival Internacional de Violão, que trará grandes instrumentistas à São Luís e terá direção do grande Turíbio Santos”, anunciou sem dar maiores detalhes.

Na sequência, todos os músicos deixaram o palco, exceto Serra. Flauta e seis cordas dialogaram em Simples como Serra (João Pedro Borges), faixa que fecha Gente do Choro. “É um enorme prazer estar entre amigos, com este grupo que vi nascer. Faço minhas as palavras de Tom Jobim: eu só faço música por encomenda. Mas antes que se pense em algo mercantilista, algumas encomendas vêm do coração e meu coração me encomendou essa homenagem a este grande amigo”, declarou o convidado especial.

Com a volta do grupo ao palco, Carlinhos da Cuíca cantou Pra ser feliz, música que o cearense Léo Capiba (1947-2014), outro ex-integrante do Tira-Teima, compôs em homenagem à sua esposa Sandra, registrada com a voz do autor em Gente do Choro. Depois Zeca do Cavaco emprestou a voz à futebolística Zona do agrião (Léo Capiba) e a Apelo, registrada no disco como de autor desconhecido, mas ontem corretamente creditada a Nhozinho Santos, pianista da Rádio Timbira, homônimo ao industrial que “inventou” o futebol por aqui e acabou dando nome ao estádio municipal.

Ricarte Almeida Santos, “embaixador do Choro no Maranhão”, comenda conferida pelo Instrumental Pixinguinha, leu um texto em que passeou pela trajetória e importância do grupo, destacando os talentos individuais de seus integrantes atuais e destacando nomes de outrora, como Adelino Valente, Antonio Vieira, Arlindo Carvalho, Cesar Teixeira, Chico Saldanha, Fernando Cafeteira, Sérgio Habibe e, entre outros, Ubiratan Sousa, autor do choro que dá nome ao grupo, infelizmente não registrado em Gente do Choro nem lembrada no repertório de ontem.

Por vezes o som tentou atrapalhar, mas a noite seria memorável acontecesse o que acontecesse.

No bis o grupo, com o reforço de Wendell de la Salles, acompanhou em Gente do Choro o coro de vozes de ​Anna Claudia, Augusto Pellegrini, Carlinhos Cuíca, Fátima Passarinho, Gabriela Flor, Quirino, Zeca do Cavaco e até a jornalista Edivânia Kátia (assessora e produtora do grupo e do show de ontem).

Disco lançado, missão cumprida. Votos de vida ainda mais longa ao Tira-Teima, que ontem, mais uma vez, botou essa gente do choro para sorrir de alegria e êxtase.

Um legítimo 12 anos

Foto: Zema Ribeiro

 

A resignação católica nos ensina que para tudo tem seu tempo.

Ontem o cantor Cláudio Lima entrou para a história, poderíamos dizer de forma brincalhona: é provavelmente o primeiro artista a lançar o segundo disco (Cada mesa é um palco) depois de ter lançado o terceiro (Rosa dos ventos). Não como Hermeto Pascoal, que recentemente soltou um disco gravado em 1999. Ou John Coltrane, que recentemente teve descoberto um disco inédito gravado em 1963.

Cada mesa é um palco, disco de voz e piano, que Cláudio Lima dividiu com o pianista baiano radicado nos Estados Unidos Rubens Salles, chegou ao mercado em 2006, mas nunca teve um show de lançamento, por uma soma de circunstâncias. Tudo tem seu tempo, ontem foi o dia – ou melhor, a noite. A eles juntou-se o percussionista paraense radicado no Maranhão Luiz Cláudio.

Falar em show de lançamento daquele disco talvez não dê conta da dimensão da noite, pelo fato de o repertório ter extrapolado o que foi gravado no disco do copo sujo de batom. Se os uísques 12 anos são os melhores, que dizer então de um disco, cujo bolero-título diz: “cada mesa é um palco/ e afogada no álcool/ tu finges me amar”?

O palco não poderia ser outro: o Buriteco Café, na Praia Grande, vem se configurando como uma casa que acredita em propostas artísticas diferenciadas, para além daquilo que se convencionou chamar de música de barzinho.

Há uma comunhão entre artistas e plateia – que compreende estar diante de um espetáculo grandioso, e não (apenas) para comer, beber e conversar.

Cláudio Lima se agiganta ao subir ao palco, parece entrar em transe. Durante o show de ontem, por duas vezes chegou a dispensar o microfone, sua voz entre um cantor de ópera e um vaqueiro aboiando, por exemplo, em Lamento sertanejo (Dominguinhos/ Gilberto Gil).

Na inédita Toc toc (Rubens Salles), “ou Knock knock, em inglês”, brincou o pianista, o espaço para o improviso do trio, entre teclas, tambores e voz. Os três tocam e cantam como quem brinca, status adquirido com muito esforço.

Entre os destaques da noite, as releituras arrebatadoras de Guardanapos de papel (Leo Masliah), de letra longa e delicada, versão pouco conhecida de Milton Nascimento, e Tropicana (Alceu Valença).

Estabelecido nos Estados Unidos, o piano de Rubens Salles está para muito além da bossa nova para gringo ouvir (o que já não seria pouco) e após acompanhar Cláudio Lima em músicas como Garota de Ipanema (Tom Jobim/ Vinicius de Moraes), Lígia (Tom Jobim) e Insensatez (Tom Jobim/ Vinicius de Moraes), não se fez de rogado e acompanhou a pulsação frenética do bumba meu boi de zabumba, na toada Adeus (Mestre Zió), gravada por Luiz Cláudio em um EP indicado ao Grammy, música que encerrou a apresentação de ontem.

Aos gritos de “mais um”, Cláudio Lima retrucou: “eu já estava pensando que vocês não iam pedir”. Cada mesa é um palco estava finalmente lançado, com direito a exemplares do disco à venda: “ainda existe cd, gente!”, o cantor tornou a brincar. No bis, Bis (Cesar Teixeira), que contém o verso-título do disco e show.

Serviço: hoje (10), a partir das 16h, o trio reprisa Cada mesa é um palco no projeto Quintal Cultural, na Casa d’Arte (Rua do Farol do Araçagy, 9, Raposa – em frente à clínica Ruy Palhano), com cachê colaborativo, no velho esquema Silvio Santos (leiam este parêntese lembrando a voz do Lombardi: “deixa o Oficina em paz, Silvio!”): “quanto vale o show?”.

Popular e sofisticadíssimo

Hermeto Pascoal e sua visão original do forró. Capa. Reprodução

 

A música popular brasileira padece de um problema etimológico já há algum tempo. A expressão – e a sigla MPB – foi cunhada na década de 1960, quando nomes como Caetano Veloso, Chico Buarque, Edu Lobo, Gal Costa, Gilberto Gil e Maria Bethânia, entre outros, dominavam os festivais – de música popular – e estes tinham espaço privilegiado na então nascente televisão brasileira.

Quando falo em problema etimológico pretendo tão somente dizer que a música popular brasileira há tempos não é popular, no sentido de falar para públicos gigantescos. Nesse sentido, popular seriam o sertanejo universitário, a sofrência e outras categorias de “fuleiragem music”, na expressão cunhada pelo crítico pernambucano José Teles.

Difícil de entender e difícil de explicar, contrariando a sentença do hit do maranhense Mano Borges, que um disco como Hermeto Pascoal e sua visão original do forró muito provavelmente vá passar em brancas nuvens, apesar de sua enorme capacidade de fazer qualquer um/a entender como funciona o esqueleto humano à luz do lampião, no dizer do também maranhense Cesar Teixeira.

O nome de batismo do albino Hermeto é em si quase um trocadilho, sendo ele por vezes injustamente considerado hermético, com seu jazz tupiniquim, na expressão do paraibano Sivuca, não à toa homenageado neste novo disco do quase conterrâneo – ou conterrâneo, se o Brasil for dividido e o Nordeste ficar independente, como bem apregoaram Bráulio Tavares e Ivanildo Vila-Nova –, em Sivucando no frevo.

Popular ou não, a música brasileira sempre foi pródiga em aliar qualidades e particularidades melódicas, harmônicas e líricas que fazem dela uma das mais ricas do planeta, longe de qualquer ufanismo barato, num tempo em que alguns gostariam de ver o “ame-o ou deixe-o” voltar a ser slogan da pátria.

Hermeto Pascoal é patrimônio brasileiro tocando qualquer instrumento – ou não-instrumento, que já o vi tirar som de copo d’água e apito de boneca, entre outros recursos inusitados – e se aventurando em qualquer gênero musical, do choro ao jazz, do frevo ao baião, do clássico ao experimental. Não à toa ele renega rótulos. “Eu sou universal”, diz.

Em Hermeto Pascoal e sua visão original do forró, o gênio alagoano une as pontas de um novelo, equação a que poucos conseguem dizer o valor da incógnita ao final do exercício, no Brasil de hoje em dia: faz uma música riquíssima e consegue botar para dançar quem quer que ouça o disco.

Hermeto Pascoal (direção artística e musical) é acompanhado por Itiberê Zwarg (contrabaixo), Vinícius Dorin (saxofone, in memoriam) e Fábio Pascoal (percussão), filho do bruxo. Hermeto Pascoal e sua visão original do forró conta ainda com as participações especiais de Alceu Valença (voz em Uriama), Heraldo do Monte (guitarra, viola, cavaquinho e voz), João Cláudio (voz e texto em O ovo), Marina Elali (voz em Agora eu quero instrumental), Rogério Meneses e Raimundo Caetano (repentistas) e Rosa Maria (voz e texto em Forró para vovó Rosa Maria). Outro homenageado é o jornalista paranaense Adelzon Alves, em Adelzon Alves no forró.

Em Academia de forró do Frei Raimundo graceja, enquanto assobia e toca sanfona (instrumento que assume em quase todas as faixas do disco): “vocês estão escutando? Isso é o assovio junto com a sanfona. Mas isso aí é pra inspirar vocês, pra assoviar no cangotezinho das meninas, vai dar uma coceirinha da gota serena da peste”. Aos 81 anos o velhinho – mais jovem que muito moço! – esbanja vitalidade e mantém o “acesume”, como dizem(os) cá pelo Nordeste.

Em Pantanal brasileiro afirma, sem se preocupar em soar imodesto: “tô achando que esse é um dos melhores discos de forró que já se fez nesse Nordeste brasileiro, e quando se faz forró no Nordeste se faz forró no Brasil”. Forró na toca é uma deliciosa jam, com mais de sete minutos de duração.

Lançado apenas agora, Hermeto Pascoal e sua visão original do forró foi gravado em 1999. Além de revelar também a faceta letrista do reconhecido multi-instrumentista, autor de três letras, entrega outro talento do músico: a capa do disco é um desenho de 1996, feito pelo próprio Hermeto.

Mesmo dedicando um disco inteiro ao forró, Hermeto rejeita rótulos – exceto o de nordestino – para sua música, que ele segue fazendo, sem se preocupar com popularidade, números ou suporte. Quem tiver ouvidos, ouça!

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Ouça Isto é Brasil, faixa que encerra Hermeto Pascoal e sua visão original do forró:

Lançamento digital antecipa homenagens de Hamilton de Holanda a Jacob do Bandolim no ano de seu centenário

Jacob 10zz. Capa. Reprodução

 

Jacob do Bandolim foi um dos mais controversos nomes da música popular brasileira. Reinventou o instrumento que lhe deu sobrenome artístico, sendo até hoje considerado um de seus maiores nomes. Tinha fama de conservador – musicalmente falando – e, no entanto, foi um dos grandes revolucionários da música instrumental praticada no Brasil. Para comprovar tudo o que afirmo basta ouvirmos sua obra-prima, o disco Vibrações, lançado em 1967, recheado de clássicos do choro, entre composições autorais e de mestres como Pixinguinha e Ernesto Nazareth.

Em 1979, 10 anos após seu falecimento, a Camerata Carioca, do maestro gaúcho Radamés Gnattali – então com o violonista maranhense João Pedro Borges em sua formação –, prestou-lhe  as devidas homenagens em Tributo a Jacob do Bandolim, em que a formação voltava a executar a Suíte Retratos (com seus movimentos, os “retratos”, homenageando Pixinguinha, Ernesto Nazareth, Anacleto de Medeiros e Chiquinha Gonzaga, pilares do choro). Desde então, homenagens a Jacob, sempre merecidas, não pararam de acontecer.

Hamilton de Holanda, herdeiro musical, por vezes apontado como sucessor, talvez o maior revolucionário do instrumento após o mestre, brasiliense inventor do bandolim de 10 cordas, reverencia-o no ousado Jacob 10zz [Deck, 2018, disponível nas plataformas digitais], disco do Hamilton de Holanda Trio – o bandolinista é acompanhado por Guto Wirtti (contrabaixo acústico) e Pretinho da Serrinha (percussão). O grupo venceu o Grammy Latino de melhor disco de música instrumental por Samba de Chico, dedicado ao repertório de outro craque da música brasileira, o “parente” Chico Buarque de Holanda.

Neste novo trabalho a ousadia começa já no título: o 10 poderia referir-se à nota que o disco merece, mas alude ao número de cordas do bandolim de Hamilton, revelando o flerte com o jazz, exalando uma modernidade sem firulas e sem perder a brasilidade.

O álbum – por enquanto disponível apenas em formato digital, ganhará versão em vinil, em breve – foi lançado mês passado, por ocasião das comemorações do Dia Nacional do Choro, 23 de abril, homenagem a Alfredo da Rocha Viana Filho, o Pixinguinha.

Jacob 10zz traz 10 faixas assinadas por Jacob do Bandolim, longe de se limitar ao óbvio ou de se pretender um best of. Para termos ideia, as músicas mais conhecidas do disco são Bole bole e Assanhado. Mas “mais conhecidas” é modo de dizer: Hamilton de Holanda e seus parceiros de empreitada dão uma roupagem completamente nova e inusitada às criações jacobianas que parecemos estar diante de algo completamente novo. E estamos. Entre diversas pérolas, destaque para Forró de gala, peça pouco conhecida.

Além das 10 da lavra do homenageado, comparecem Naquela mesa, composta por seu filho Sérgio Bittencourt quando da morte do pai – e eternizada na gravação de Nelson Gonçalves –, e Serenata Jacarepaguá, do próprio Hamilton de Holanda, alusão ao bairro em que Jacob morou, em cuja casa organizou memoráveis saraus e onde hoje há uma Lona Cultural Municipal com seu nome. Uma curiosidade é que a música foi composta no estúdio, na hora da gravação.

Jacob Pick Bittencourt, nome de batismo do homenageado, completaria 100 anos no próximo dezembro. Jacob 10zz é o lançamento digital antecipado de um dos discos que comporão um box dedicado ao repertório do carioca, com lançamento previsto para este ano.

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Ouça Jacob 10zz:

Vida (a)ventureira do outro lado do Atlântico

 

Os caminhos de Bárbara Eugenia e Tatá Aeroplano já se cruzavam havia algum tempo. Artistas de trajetórias distintas, ano passado chegou o momento de registrarem esse encontro: gravaram e lançaram juntos o álbum Vida ventureira [2017], coleção de delicadezas que agrega elementos de rock rural, folk, psicodelia e punk, com a sonoridade ora remetendo a Zé Rodrix, ora a Kraftwerk, em 12 faixas cerzidas por bucolismo.

Tatá Aeroplano já comparou o (seu) ofício de fazer discos à produção orgânica de vegetais: em pequena escala, sem preocupação com a grandeza dos números, mas com a qualidade e alimentando uma fatia importante da população. Múltiplo, já esteve à frente das bandas Cérebro Eletrônico e Jumbo Elektro, e se divide entre ele mesmo e o personagem Frito Sampler, que já assina dois álbuns de sua vasta discografia.

Após sua estreia em 2010, com Journal de Bad, Vida ventureira é o segundo, digamos, casamento musical de Bárbara Eugenia. O primeiro foi o álbum Aurora [2014], dividido com Chankas, guitarrista da banda Hurtmold. Sua Coração, faixa que abre É o que temos [2013], integrou a trilha sonora da novela global Velho Chico. Foi em seu segundo disco, aliás, que a parceria com Tatá Aeroplano começou: deles, ela gravou Eu não tenho medo da chuva e não fico só.

Produzido por eles com Dustan Gallas, Junior Boca e Bruno Buarque (os cinco assinam os arranjos coletivos), Vida ventureira é um disco que simula um road movie, sobre um casal que cai na estrada. “A vida ventureira é a vida ao Deus dará/ é vida pé na estrada/ mania de jogar/ as coisas lá pro alto e se mandar”, avisa a letra da faixa-título. “Jogados nesta saga/ viemos descobrir/ novos horizontes/ pra se sorrir”, continua.

Os versos iniciais de As asas são escadas pra voar – “se eu te contar o que eu sinto/ você vai me dizer que também já sentiu desse jeito” – dialogam diretamente com os de Petróleo do futuro – “Ah, se eu soubesse lhe dizer/ o que eu sonhei ontem à noite, você ia querer/ me dizer tudo sobre o seu sonho também” –, do primeiro disco da Legião Urbana [1985].

Em Pro mundo virar shopping uma crítica feroz, mas bem humorada, à sociedade de consumo, máquina azeitada por preconceitos, antenada com o noticiário, citando o Nobel de Literatura Hermann Hesse e o lendário Flávio Basso, por sua alcunha mais conhecida, Júpiter Maçã.

Tatá e Bárbara vivem em São Paulo. Vida ventureira é uma espécie de escape: um disco que exala tranquilidade e doçura em contraponto à violência e ao corre-corre da metrópole. “O verde das matas nos dá/ calma, coragem, sentido pra continuar”, entrega O verde das matas.

Tanto ele quanto ela se preparam para lançar discos novos este ano. Enquanto isso, estão na Europa, onde iniciaram ontem (22), a Portugal e Galícia Tour, com shows em cidades como Coimbra e Lisboa, entre outras, serviço completo no e-flyer abaixo. Avisem os amigos d’além mar!

Arte: Julia Valiengo. Divulgação

Nove perguntas para Juliano Gauche

Afastamento. Capa. Reprodução

 

Escrevi sobre Afastamento, terceiro disco solo de Juliano Gauche, para o site do Itaú Cultural. Para tanto, conversei com o artista capixaba radicado em São Paulo. A quem interessar possa, eis o papo:

Juliano Gauche em foto de Haroldo Saboia

Afastamento começa com Silmar Saraiva, homenagem a uma figura de tua terra natal. No release do disco, Jotabê Medeiros comparou a faixa a um épico dylanesco. Gostaria que falasse um pouco mais sobre o personagem e a comparação.
O Saraiva era de uma turma um pouco mais velha que a minha. Ele, Seliomar Lobão, Adalberto Albino, Kim Kaveira… foram esses caras que fizeram minha cabeça, em Ecoporanga. Eles são meus ídolos, meus santos. E a música fala disso: de indivíduos que se machucam atrás de experiências transformadoras, das respostas difíceis, da verdade, da liberdade, e de um povo mecanizado, repetitivo, frio, guiado por sistemas de falsas seguranças.  Acho que o que o Jotabê quis colocar é que Silmar Saraiva se encaixa nos moldes das canções longas do Dylan que também citam personagens em seus títulos.

Pra festejar em silêncio é uma declaração de amor a Sil Ramalhete, sua esposa e produtora? Que papel tem ela no som que você vem fazendo desde o disco solo de estreia? Pergunto pela declaração que ela postou por estes dias em uma rede social, ela comenta algo sobre interferir em teu som.
Pra festejar em silêncio é sobre o amor em tempos de guerra. Foi inspirada pelo Grande Sertão: Veredas. Nela, eu projeto minha vida com a Sil, nossa travessia entre o mesmo sistema que vou frisar aqui o tempo todo, nossa militância aberta contra esse sistema, nossa vontade de fugir dessas armadilhas… Temos um mundo próprio, ultrarromântico, onde construímos tudo juntos. Tudo que eu faço é cantar esse mundo que a gente vive nele.

Pelas temáticas, Longe, enfim e Dos dois, são as músicas que mais diretamente dialogam com o título do disco, Afastamento. Do que você buscou se afastar nesse disco?
O afastamento está em todas as músicas do disco. Principalmente o afastamento do indivíduo do seu meio. Como também o afastamento do indivíduo de si mesmo. Na Dos dois há o tradicional afastamento entre parceiros. E na Longe, enfim o afastamento é a fuga da realidade através da energia sexual. Não teve uma busca por afastamentos necessariamente. Só me dei conta de que esse movimento é muito comum ao meu redor. E tem um efeito estranho. Meio duplo. Afastamentos trazem frieza, vazios; mas também alívios, ar, outras forças. Foi isso que mapeou o disco.

Em se tratando de um deslocamento, sempre que nos afastamos de algo nos aproximamos de outro algo. Assim, do que você se aproximou neste terceiro disco?
Acho que me aproximei mais de mim mesmo. Comecei este trabalho muito subdividido. Era membro de uma banda. Era intérprete das coisas do [Sérgio] Sampaio. Trabalhos com personalidades diferentes. E em nenhum deles eu me expressava plenamente. E é isso que eu estou buscando desde o primeiro disco. Talvez por isso tanto deslocamento. Pra me achar. E acho que estou conseguindo. Como diz o refrão: com uma pequena ajuda dos meus amigos.

Tua voz de autor é única. Mas já é meio que uma tradição a cada disco você trazer uma música de um parceiro, neste disco Tem dia que é demais, parceria com Gustavo Macacko. Fale um pouco de parceiro e parceria.
O Macacko é um dos meus parceiros mais antigos. Ele foi um dos que me receberam em Vitória quando fui morar lá. Fizemos muita coisa juntos. Muitos shows. Uma banda que só tocava Raul [Seixas]. Produzi o primeiro disco solo dele. E numa de suas passagens por aqui, fizemos a Tem dia que é demais.

Dos cachorros sisudos, faixa que encerra o disco, é a mais diretamente relacionada à violência dos dias em que vivemos, sob a égide de um golpe e a iminência do retorno à ditadura. A seu ver, é impossível para o artista, hoje, se alienar?
Só se for um artista conservador de boas com o sistema. Maconheiros como eu, que não gostam de igreja, nem de televisão, e principalmente de ordens militares, vão ter um pouquinho de problema pra ficar quietinho alienado.

A meu ver, Afastamento é um título natural para um disco teu, cuja vida, de algum modo, é feita de afastamentos: primeiro de sua terra natal, ao se aventurar por São Paulo, depois de Sérgio Sampaio, ídolo a quem chegou a dedicar um disco inteiro de covers. Esse seria apenas um comentário, não necessariamente uma pergunta, aí eu aproveito para emendar: qual a tua relação com Roberto Carlos e Rubem Braga, para citar outros capixabas famosos, adorados e motivos de orgulho para os conterrâneos?
Do Roberto eu gosto do projeto como um todo, aquelas gravações, aqueles arranjos, a ousadia dos primeiros discos, o Erasmo, o perfeccionismo, a grandeza. O Rubem tem aquela violência bonita, aquele jeito de sofisticar com palavras simples. Tentei absorver o melhor que pude dos dois também.

A exemplo de seus discos anteriores, Afastamento também foi disponibilizado para audição e download gratuito. O que te motiva a distribuir tua obra gratuitamente? Alguma convicção, sinal dos tempos ou a impossibilidade de lutar contra isso?
É aquela coisa. Quando é de graça o produto é o consumidor. Ou algo assim. Mas quando a pessoa se conecta à minha música, ela agrega valor ao meu trabalho com um todo. Continua tudo refém dos números. As moedas é que são outras.

Além da banda que tradicionalmente te acompanha, afastamento conta com a participação especial dos guitarristas cearenses Edson Van Gogh [de Jonnata Doll e Os Garotos Solventes] e Fernando Catatau [do Cidadão Instigado], quase onipresente em se tratando da música pop contemporânea que vale a pena. Como se deram essas amizades e presenças no disco e como foi trabalhar com eles?
Conheci o Catatau desde que a Sil começou a trabalhar na produção do Cidadão Instigado. Vi o disco Fortaleza nascendo. A primeira vez que ouvi foi com ele cantando o disco em cima das bases gravadas, tipo karaokê. Muito emocionante. E desde o início ele foi me apresentando coisas e mais coisas. Mostrando referências de toda espécie. Durante o processo de gravação do [Nas estâncias de] Dzyan, eu já consultava muito ele. Trazer ele pro disco foi muito natural. E o Vang Gogh eu conheci na casa do Catatau também. Começamos a conversar lá e não paramos até hoje. A gente interrompe e quando se encontra, volta do mesmo lugar. Há anos.

*

Ouça Afastamento:

Todo mundo vai pedir bis

[baita honra e responsabilidade escrever este release a pedido de Cláudio Lima]

Cada mesa é um palco é um verso de Bis, bolero de Cesar Teixeira, que dá título ao segundo disco do cantor Cláudio Lima, lançado em 2006, dividido com o pianista baiano radicado nos Estados Unidos Rubens Salles.

A música conta a história de um artista entre o ofício e o amor e o verso evoca diversas leituras. Cada mesa é um palco foi o título escolhido para o show que Cláudio Lima (voz), Rubens Salles (piano) e Luiz Cláudio (percussão) apresentam no próximo dia 9 de junho (sábado), às 20h, no Buriteco Café (Rua Portugal, Praia Grande). Os ingressos – à venda no local – custam R$ 20,00.

A curiosidade é que o disco nunca teve show de lançamento. “Posso dizer que vou finalmente lançar meu segundo disco, depois de ter lançado o terceiro”, diverte-se Cláudio Lima, que além de Cada mesa é um palco, lançou também Cláudio Lima (2001) e Rosa dos ventos (2017).

Os discos de Cláudio Lima são profundamente marcados pelo flerte com a música eletrônica e com uma criteriosa seleção de repertório. Ao disco – e ao show – Cada mesa é um palco comparecem nomes como o citado Cesar Teixeira, além de Bruno Batista, Tom Zé, Luiz Gonzaga, Herivelto Martins e Tom Jobim, entre outros.

O show reunirá no palco três virtuoses: Cláudio Lima é hoje reconhecidamente um dos maiores intérpretes da música popular produzida no Maranhão, tendo-se aventurado com desenvoltura como compositor em seu disco mais recente; Rubens Salles é pianista aclamado internacionalmente, com sua mistura de jazz, world music e a ginga brasileira, com os discos Munderno e Liquid Gravity Plus na bagagem; e o paraense radicado no Maranhão Luiz Cláudio é um de nossos mais requisitados percussionistas, atualmente desenvolvendo um trabalho solo, já tendo emprestado seu talento ao trabalho de nomes como Cesar Teixeira (Shopping Brazil), Ceumar (Dindinha), Lena Machado (Samba de Minha Aldeia) e Zeca Baleiro (Vô Imbolá), entre muitos outros.

O espetáculo terá apresentação única, aproveitando a passagem de Rubens Salles por São Luís. O set list será focado em Cada mesa é um palco, mas Cláudio Lima passeará pelo repertório de seus outros discos, lembrando músicas como Black is the color of my true love’s hair (tradicional canção folk, gravada por Nina Simone), do primeiro, além de umas poucas que não figuram em seus discos, caso de My valentine (Paul McCartney). Ao longo da apresentação haverá espaço também para Rubens e Luiz Cláudio exibirem seu virtuosismo, num diálogo-duelo entre piano e percussão.

Sobre o encontro do trio no palco, Cláudio Lima relembra: “foi Luiz Cláudio quem me apresentou a Rubens Salles, em 2003, em São Paulo. A gente tentou montar uma banda, foi o começo de tudo. A banda acabou não dando certo e pouco tempo depois veio o Cada mesa é um palco”. É a primeira vez que os três artistas se apresentam juntos.

Alterando o verso final da música que dá título ao segundo disco de Cláudio Lima, podemos antecipar do show Cada mesa é um palco: quando a noite terminar e a cortina fechar, todo mundo vai pedir bis.

Serviço

O quê: show Cada mesa é um palco
Quem: Cláudio Lima (voz), Rubens Salles (piano) e Luiz Cláudio (percussão)
Quando: dia 9 de junho (sábado), às 20h
Onde: Buriteco Café (Rua Portugal, Praia Grande)
Quanto: R$ 20,00 (ingresso individual)

Uma de cinco

O cantor e compositor Bruno Batista disponibilizou hoje o primeiro webclipe de uma série de cinco canções que em alguns meses irão compor um EP do artista. Para um amor em Paris, de sua autoria, é a única regravação da série – a música foi lançada originalmente em Eu não sei sofrer em inglês (2011).

Para a regravação, Bruno Batista contou com a participação especial de Rita Benneditto (voz). Acústico e em clima intimista, o dueto foi acompanhado por Guilherme Kastrup (percussão) e Mário Manga (violoncelo, violão e produção musical), marcando também um reencontro: em 1997, ao lado dela e Zeca Baleiro, o ex-Premeditando o Breque foi um dos produtores do disco de estreia da maranhense, quando ela ainda assinava Rita Ribeiro.

A música é recheada de referências: o título evoca o Paulinho da Viola de Para um amor no Recife, remete, pelo uso bem colocado de expressões estrangeiras, a músicas como Samba do approach e Babylon, ambas de Zeca Baleiro, Tem francesa no morro (Assis Valente) e Cabrochinha (Paulo César Pinheiro e Maurício Carrilho), além de citar textualmente o Alceu Valença de La belle de jour (que por sua vez citava o Luis Buñuel de A bela da tarde, no título da película em português). Entre as citações, comparecem ainda o Bernardo Bertolucci de O último tango em Paris e o Jacques Brel de Ne me quitte pas. A direção do webclipe é de Alessandra Fratus.

Uma por mês, Bruno Batista disponibilizará ainda Quedê, com participação especial de Lívia Mattos, Fire Babylon (parceria dele com Alê Muniz e Luciana Simões), com o duo Criolina, Duvido (parceria com Celso Viáfora), com Celso Viáfora e Fabiana Cozza. A quinta música, também inédita, está ainda por definir, segundo o artista.

Previsto para setembro, o EP será lançado apenas em formato digital. A série de webclipes tem patrocínio de TVN, através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão.

Solidão e ironia

Todos nós. Capa. Reprodução

 

Carlos Careqa é um dos artistas mais incompreendidos, e consequentemente injustiçados, do Brasil. Problema do Brasil.

“Feito às próprias custas. Este disco não recebeu nenhum incentivo fiscal”. O recado no encarte atesta a necessidade de fazer música, fina ironia e um eco de Itamar Assumpção, a quem Careqa dedica Morrer ainda vai ser um bom negócio, faixa que, citando verso do próprio Itamar, encerra Todos nós [Barbearia Espiritual Discos, 2018], seu novo álbum.

“Mas a canção me fez refém por uma vida inteira. Me casei com a música. A musa de todas as horas. Difícil analisar o próprio trabalho assim de chofre, mas quero deixar rastros pelo caminho percorrido. Alguém vai escutar”, anota em texto no encarte. Azar o dos que não o fizerem.

Marcio Nigro (violões, teclados, contrabaixo) é citado nominalmente por Careqa neste mesmo texto, como aquele “que entende um pouco minhas propostas e transforma tudo em algo mais mastigável”. O núcleo central do disco se completa com Thiago Big Rabello (bateria) e Luiz Guello (percussão).

Fernanda Takai canta com Careqa na divertida Karma Wall, com metade da letra em inglês, sobre um carnaval no Japão. Em Canção de autoajuda (parceria com Delia Fisher), destila ironia sobre o que comumente é considerado sucesso. “Eu vou fazer uma canção de autoajuda/ uma canção que seja fofa/ uma canção que seja muda”, provoca a letra.

A faixa-título ganha os reforços de Luiz Amato (violino) e Fabio Tagliaferri (viola) ao versar sobre uma contradição característica de nossa época: a solidão em tempos de hiperconectividade. A bela letra de Mãe não é tudo (parceria com Chico César) louva a dedicação das mulheres a seus filhos em qualquer tempo e circunstância.

“Enquanto você faz mil acordes/ para explicar sua canção/ a minha única intenção/ é repousar meu coração”, Careqa puxa o cartão de visitas em Da bolacha ao farelo, faixa que abre Todos nós. Quem o acha complicado certamente o faz sem tê-lo ouvido. “Alguém vai escutar”. Hora apropriada para ser esse alguém.

Joia de estreia

Diamantes na pista. Capa. Reprodução

 

A cantora paulista Malu Maria disponibiliza hoje (3), via Tratore, nas principais plataformas digitais de música, o disco Diamantes na pista, com nove faixas, todas de sua autoria, produzido por ela e Tatá Aeroplano (que participa de algumas faixas, entre vocais, violão e teclados).

Malu Maria, que além de compor e cantar, toca flauta e percussão no disco, é acompanhada da banda Diamantes: Carlos Gadelha (guitarra), Eristhal (contrabaixo), Gustavo Souza (bateria) e Otávio de Carvalho (sintetizadores). Diamantes na pista tem ainda participações especiais das cantoras Laya Lopes, Kika e Laura Wrona.

Escrevi cantora aí em cima, mas ela não é apenas cantora, multiplicidade que se reflete nas composições. Formada em Comunicação e Artes do Corpo pela PUC, Malu Maria é fundadora do Teatro de Bolso do IV Mundo e apresentadora do programa Tranbordando o Copo (no youtube). Ela assina a arte e a capa de Diamantes na pista.

Homem de vícios antigos ouviu em primeira mão e fez um faixa-a-faixa simultâneo à audição, grande desafio, enorme responsabilidade.

Música de pista, mas orgânica. Um convite à dança e ao sonho. Se essa rua fosse minha, “esparramando diamantes na pista”, verso de Diamantes na pista, faixa que abre e dá nome ao disco de estreia da cantora Malu Maria.

Doctor Strangelove tem uma pegada psicodélica, retrô/futurista, homenagem ao filme de Stanley Kubrick lançado em 1964, ano em que por aqui começava aquela outra ditadura.

A percussão e o baixo que abrem Estrada remetem a Ando meio desligado, dOs Mutantes, cuja sonoridade, de resto, permeia o clima do disco, mais para saudável influência que para imitação.

Calcado na eletrônica, Devires é um quase-frevo, “meu sapato é o chão/ meu chapéu é o céu/ meus braços são pra voar”, instiga a letra, um convite ao sacolejo, jogue-se!

Amores ao mar é pura entrega. Voz e violão dialogam a sós na abertura da faixa, do verso “alimentar o gozo sem dissimular”. Malu Maria é autêntica num tempo em que originalidade é artigo vendido em série, em geral gato por lebre.

“Sem você eu fico triste/ mesmo com tudo azul/ o corpo, o copo, o coração/ sugar blue”, começa Circo para todos, bateria evocando o tarol de bandinha de coreto de cidade do interior, como a anunciar a chegada da trupe. A faixa homenageia ainda o Cine Jóia, outrora cinema, palco de shows musicais na capital paulista.

Na também dançante Jardim do Éden Malu Maria junta samba, maracatu e guitarrada. “Quero nada além/ do que essa nossa paz/ dançar com você/ nesse Éden e nada mais”, derrama-se, romântica.

Amando do espaço recomenda amar em qualquer lugar, qualquer caminho. Um sábio conselho nestes tristes tempos. “Salvem os amores delirantes”, diz a letra, quase a redundar – não deve demorar muito a serem considerados delírios o amor, a emoção, o encanto.

A delicadeza de Nosso eclipse fecha o disco, como se fechasse um ciclo. Tudo faz ainda mais sentido (embora nem precisasse, diante de tanta beleza), “pro mundo girar”, como um disco a girar, um mundo particular, um belo disco de estreia.

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Ouça Diamantes na pista:

Liberdade e esperança pavimentam retorno do Cordel do Fogo Encantado

Foto: Tiago Calazans

 

Um dos mais interessantes grupos surgidos após o boom do movimento MangueBit, o Cordel do Fogo Encantado lançou três discos fundamentais – o homônimo Cordel do Fogo Encantado (2001), O Palhaço do Circo sem Futuro (2002) e Transfiguração (2006, produzido por Carlos Eduardo Miranda e Gustavo Lenza) – e retirou-se de cena.

Com referências teatrais – o nome da banda é herdado de um espetáculo de sucesso de uma companhia cujos membros do Cordel do Fogo Encantado integraram – e da literatura de cordel – escancarada também no nome do grupo, a trupe unia vigor musical e cênico, nos registros em disco e nas apresentações ao vivo.

Viagem ao Coração do Sol. Capa. Reprodução

Num tempo em que a derrocada da indústria fonográfica é cada vez mais apregoada – apesar das controvérsias – e o consumo de faixas soltas em serviços de streaming é a onda do momento, é tamanha a ousadia de um disco como Viagem ao Coração do Sol (2018), quarto título da discografia do Cordel do Fogo Encantado, por sua unidade poética e sonora (longe da monotonia), algo que por si só já mereceria loas.

O novo disco, cujo título evoca 20 Palavras ao redor do Sol (1979), estreia da paraibana Cátia de França, transforma a banda em, além de interessante, necessária, ao cantar a liberdade e a esperança, artigos raros hoje em dia. Lirinha (voz), Clayton Barros (violões e voz), Nego Henrique (percussões e voz), Emerson Calado (percussões e voz) e Rafael Almeida (percussões e voz) mantêm a força que caracterizou a sonoridade e a po/ética do grupo, com Viagem ao Coração do Sol soando como o que de fato é: um disco antenado com o atual momento do Brasil e do mundo reais e da Interlândia ficcional, terra metafórica cantada na geografia particularíssima do disco.

O cearense Fernando Catatau (guitarra tenor, samples, teclados, coral e violão de aço), da instigante Cidadão Instigado, acaba por tornar-se membro honorário do Cordel do Fogo Encantado: o músico participa de quase todas as faixas.

O disco abre com O sonho acabou (Lirinha), poema nem de longe pessimista: “O sonho acabou. E só assim saímos de dentro da Terra em direção ao Sol. O mundo agora é esse: precisamos falar com a filha do vento, a que chamam liberdade”, diz, anunciando o roteiro de Viagem ao Coração do Sol.

“Liberdade/ (Mas quem te ensinou o caminho dos poetas?)/ Liberdade amor/ (O teu nome é pouco)/ Liberdade/ (Passarinho louco)/ Aquele rio é vermelho…”, Liberdade, a Filha do Vento (Lirinha) provoca os doentes de ódio, os que espumam ao ouvir palavras como a que dá título à música e/ou vermelho.

Pra cima deles passarinho ou Semente brilhante (Lirinha/ Clayton Barros/ Emerson Calado/ Nego Henrique/ Rafael Almeida) dialoga diretamente com o Mário Quintana do célebre “eles passarão/ eu passarinho”. Tem uma carga simbólica fortíssima que nos leva a pensar “nas flores vencendo o canhão”, embora outros, ao contrário do Cordel do Fogo Encantado, não tenham conseguido manter a coerência. “Vai, vai, vai/ Mais forte vai, vai/ No seu caminho/ Pra cima deles passarinho”, atiça a letra.

Conceição ou Do tambor que se chama Esperança (Lirinha/ Clayton Barros/ Emerson Calado/ Nego Henrique/ Rafael Almeida) enaltece a força de negros, mulheres, moradores das periferias brasileiras. Impossível não pensar em Conceição Evaristo e Marielle Franco. “Ninguém apaga a tua história/ Escrita por tuas guerreiras/ Na tinta negra da memória”, proclama.

Poema declamado com trilha, Eternal Viagem (Lirinha/ Clayton Barros/ Emerson Calado/ Nego Henrique/ Rafael Almeida) é um diálogo entre homem (Lirinha) e mulher (Nataly Rocha, em participação especial), cuja letra incorpora versos de Manoel Filó, de imagem poética fortíssima – “Todo dia o sol mata a madrugada/ toda tarde vai preso novamente” – a um verso que parece servir de síntese ao momento de trevas por que passa o Brasil: “a nossa sorte é ter coragem”.

A instrumental Cavaleiro das Estradas do Sol (Clayton Barros) conta com as participações especiais de Catatau e Manassés, num diálogo intergeracional de cearenses de raro talento e habilidade nas cordas, em homenagem ao percussionista Naná Vasconcelos, produtor do disco de estreia do grupo, numa espécie de volta às origens ou fechamento de ciclo. Não esquecer o passado é chave para a construção de um futuro melhor. O Cordel do Fogo Encantado fez o seu dever de casa.

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Veja o clipe de Liberdade, a Filha do Vento (Lirinha):

Um duplo (re)play feminino

Homem de vícios antigos, este blogue, completa hoje (28) 14 ininterruptos anos no ar.

Em clima de retrospectiva, ligeira e possível, mas anunciando novidades, torno a duas mulheres sobre cujas obras já escrevi por aqui.

Titane canta Elomar – Na estrada das areias de ouro. Capa. Reprodução

A primeira, a cantora mineira Titane e seu disco mais novo, Titane canta Elomar – Na estrada das areias de ouro, sobre o qual escrevi para a coluna Emaranhado, no site do Itaú Cultural, e cuja entrevista publiquei cá no blogue. A novidade é que desde ontem o disco está disponível nas plataformas de streaming, vale ouvir.

A segunda, Monique Moraes, diretora e roteirista de Mulheres que transformam a ilha, em cuja sessão de estreia tive a satisfação de estar presente. A novidade é que o documentário está disponível no youtube para quem quiser ver/rever:

Confluência de talentos celebra a atualidade do universo de Aracy de Almeida

Aracy de Almeida – A Rainha dos Parangolés. Capa. Reprodução

 

Cronista de primeira linha e um dos artífices do samba, Noel Rosa (1910-1937) deixou vasta obra a despeito de ter morrido de tuberculose aos 26 anos.

Aracy de Almeida (1914-1988), sua maior intérprete, companheira de boemia, foi a responsável pela preservação da memória do Poeta da Vila nas décadas seguintes a seu falecimento.

Hermínio Bello de Carvalho, testemunha ocular de acontecimentos importantes do samba e da música popular brasileira, enciclopédia e lenda viva, produtor de rara sensibilidade – não à toa foi o descobridor de Clementina de Jesus, para ficarmos num único exemplo –, segue na ativa.

Foi ele o inventor do encontro de Marcos Sacramento (voz) e Luiz Flavio Alcofra (violão e arranjos) no espetáculo Aracy de Almeida – A Rainha dos Parangolés, que finalmente ganha o merecido registro em disco [Acari Records, 2018], ambos, a propósito, batizados por uma das alcunhas dadas à homenageada pelo próprio Hermínio.

O repertório não é dedicado exclusivamente à obra de Noel Rosa, embora ele seja o autor de nove das 17 músicas, registradas pela dupla (com a cuíca de Daniel Boechat em Triste cuíca [1935], de Noel Rosa e Hervé Cordovil, que abre o disco) em deliciosos medleys – somente Não sou manivela (Ary Barroso, 1953) e São coisas nossas (Noel Rosa, 1932) ganharam registro em faixas exclusivas.

Os arranjos caprichados de Alcofra e a interpretação vigorosa de Sacramento em um universo ao qual já está habituado – já havia gravado a faixa de abertura, por exemplo, no antológico Memorável samba [Biscoito Fino, 2003] – dão ideia da importância de Aracy de Almeida e seu legado para o samba e a música popular brasileira, embora costumeiramente ela seja lembrada simplesmente como uma jurada ranzinza de programas televisivos de calouros.

Aracy de Almeida – A Rainha dos Parangolés é um disco que faz justiça à sua memória e demonstra também a atualidade de inspirados cronistas, que versam sobre questões que ainda persistem no Brasil, que não consegue superar golpes e mazelas outras. Casos do Noel Rosa de Onde está a honestidade? [1933], sobre patrimônios sem origem em trabalho ou herança, e Século do progresso [1937], sobre o convívio brasileiríssimo de diversão e violência.

A alegria (apesar da miséria) do subúrbio é tema de Ganha-se pouco mas é divertido (Wilson Baptista e Ciro de Souza, 1941). Tenha pena de mim (Babahú e Ciro de Souza, 1937) torna ao tema da honestidade, essa espécie de atestado de otário em terra em que o crime compensa: “todos vivem muito bem/ só eu que vivo assim/ trabalho, não tenho nada/ não saio do miserê!”, lamenta a letra, arrematada pela perseverança (outra característica tão brasileira) do personagem em seguir no caminho certo: “eu vivo tão tristonho,/ fingindo-me contente/ tenho feito força/ pra viver honestamente”, finaliza.

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Confira interpretação ao vivo para um dos medleys do disco: Engomadinho (Pedro Caetano e Claudionor Cruz, 1942)/ Ganha-se pouco mas é divertido (Wilson Batista e Ciro de Souza, 1941):