Semana Joãozinho Ribeiro 5

PEQUENO DANADO, SIÔ!

POR JOSIAS SOBRINHO*

Já faz um tempão que conheço o João, Batista Ribeiro Filho.

Se bem que, talvez, desde sempre…

…. me alembro bem de um dia na casa de Óder, na companhia luxuosa de Paquinha e sua viola espertíssima, num domingo de feijoada regada a garrafões de sangue de boá, como diz Bertinho, meu querido bróder, quando lhe ouvi versos inquietos querendo galgar o mundo.

E não foi de outra forma.

… ou no Corre Beirada, de tão nobre memória, onde mambembes cruzávamos
a cidade, seja lá como fosse, carregados de arte e com vontades de ver o circo
pegando fogo,

…. e, tínhamos Paulinho bicho do mato, Omar tiro de misericórdia, Zezé rabo
de vaca e tais e tantos,

…. como bendiz Mestre Vieira, que nem é rasta, mas como quem sabe arrasta:
… a pedra rolou…

Rolou pra nós nas trincheiras que ao longo dos dias fomos incrustando em
nossas carnes, cheios de esperança de ter vez e dar voz ao fado, de silenciar o
enfado.

Ora, ora…

Pois sim, pois não! Alguns companheiros de viagem vão pouco a pouco se
tornando permanentes em nossas cruzadas, como Neymar, que nem Pelé ou o
Santo Ofício, ou a Sharon Stone, pela vida se rebobinando vão. Milhões de uns
raimundosgeraldosfranciscas um dia nos chegam iluminando caminhos,
derrubando porteiras; aquém nós, nos vamos segurando, à borda, dando tempo
ao tempo de dar pé, até podermos mergulhar profundamente ao mais longínquo
profundo, por âncoras seguras, seguros de nós.

O João que conheço é um desses cabras danados de grandes, cheios de olhos
perscrutando tudo, que tudo que vêem, que tudo sentem. Que o absoluto
pressentem e apoderados das coisas que acreditam, dão sentido e são
significados por uns milhões de unsoutros. Das amálias aos capirotos.
Amealhando parcerias a torto e a direito, as trilhas dos poetas são cheias de
revolteios e, belas como pindobas aos ventos de maio numas manhãs quaisquer
de uns barros vermelhos de um dia, iluminando tudo em volta como se a
totalidade coubesse no pio de um coroca ou no dorso de uma égua resoluta
pastando na calmaria de um vasto campo à beira do Aquirí.

Cheio de planos, não somente urbanos, acima de tudo humanos, meu querido
little John, as coisas de Deus lhe acompanham.

No espetáculo da vida, tu e tua trupe de bardos e bardas, esse cangaço da
gente a volta da mesa reunido, rapaziando o pão, e o vinho!!! reclama, esse terreiro de ninguém onde seu Ninga vende uma erva na santa esquina da solidão da palavra passamento, enquanto um derradeiro trem matraca matreiro sobre minha cidade, cidadela sitiada, na beira duma praia absurdamente voltada pro mar.

*O compositor Josias Sobrinho participa do show Milhões de uns na noite de hoje (27). Veja abaixo a programação das duas noites de espetáculo, sempre com início às 21h, no Teatro Arthur Azevedo.

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1. Cidade Minha (Joãozinho Ribeiro / Marco Cruz) – Coral São João
2. Coisas que Acredito (Joãozinho Ribeiro) – Joãozinho Ribeiro
3. Estrela (Joãozinho Ribeiro) – Joãozinho Ribeiro
4. Tire as Mãos do Meu Pandeiro (Joãozinho Ribeiro) – Joãozinho Ribeiro
5. Terreiro de Ninguém (Joãozinho Ribeiro) – Josias Sobrinho
6. Pegando Fogo (Joãozinho Ribeiro) – Rosa Reis
7. Amália (Joãozinho Ribeiro) – Joãozinho Ribeiro
8. Te Gruda no Meu Fofão (Joãozinho Ribeiro) – Joãozinho Ribeiro
9. Gaiola (Joãozinho Ribeiro / Escrete) – Lena Machado
10. Planos Urbanos (Joãozinho Ribeiro / Alê Muniz) – Alê Muniz
11. Coisa de Deus (Joãozinho Ribeiro / Beto Pereira) – Milla Camões
12. Passamento (Joãozinho Ribeiro) – Joãozinho Ribeiro
13. Palavra (Joãozinho Ribeiro) – Zeca Baleiro
14. Derradeiro Trem (Joãozinho Ribeiro) – Zeca Baleiro
15. Milhões de Uns (Joãozinho Ribeiro) – Joãozinho Ribeiro e Coral São João
16. Tá Chegando a Hora (Joãozinho Ribeiro / Marco Cruz) – Coral São João + Todos

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1. Cidade Minha (Joãozinho Ribeiro / Marco Cruz) – Coral São João
2. Coisas que Acredito (Joãozinho Ribeiro) – Joãozinho Ribeiro
3. Tire as Mãos do Meu Pandeiro (Joãozinho Ribeiro) – Joãozinho Ribeiro
4. Matraca Matreira (Joãozinho Ribeiro) – Chico Saldanha
5. Pegando Fogo (Joãozinho Ribeiro) – Rosa Reis
6. Amália (Joãozinho Ribeiro) – Joãozinho Ribeiro
7. Te Gruda no Meu Fofão (Joãozinho Ribeiro) – Joãozinho Ribeiro
8. Azulejo (Joãozinho Ribeiro) – Joãozinho Ribeiro
9. Saiba Rapaz (Joãozinho Ribeiro) – Célia Maria
10. Rua Grande (Joãozinho Ribeiro / Zezé Alves) – Lena Machado
11. Samba do Capiroto (Joãozinho Ribeiro / Cesar Teixeira) – Cesar Teixeira e
Joãozinho Ribeiro
12. Esquina da Solidão (Joãozinho Ribeiro) – Cesar Teixeira
13. Erva Santa (Joãozinho Ribeiro) – Chico César
14. Saracuramirá (Joãozinho Ribeiro) – Chico César
15. Passamento (Joãozinho Ribeiro) – Joãozinho Ribeiro
16. Palavra (Joãozinho Ribeiro) – Zeca Baleiro
17. Derradeiro Trem (Joãozinho Ribeiro) – Zeca Baleiro
18. Milhões de Uns (Joãozinho Ribeiro) – Joãozinho Ribeiro e Coral São João
19. Tá Chegando a Hora (Joãozinho Ribeiro / Marco Cruz) – Coral São João +
Todos

Semana Joãozinho Ribeiro 4

Ontem postei aqui um texto de Chico Saldanha em que ele comenta a emoção de participar de Milhões de uns, show que resultará no primeiro disco de Joãozinho Ribeiro. No texto, o autor de Itamirim bem define Zeca Baleiro: “esse maqueano, “chefe de torcida” dos compositores maranhenses”, ele, o filho de seu Tonico e dona Socorro, certamente um dos maiores entusiastas das noites de hoje e amanhã e do que nelas/delas (se) vi(ve)rá.

Abaixo, palavras de Zeca Baleiro sobre Joãozinho Ribeiro e Milhões de uns. Palavra, no singular, a propósito, é uma das peças da lavra do segundo que o primeiro cantará.

JOÃOZINHO RIBEIRO – MILHÕES DE UNS

POR ZECA BALEIRO*

Joãozinho Ribeiro é um poeta e compositor maiúsculo. Mas sempre foi mais que isso. João é uma espécie de “guru da galera”, o cara que aponta caminhos, que lança luz sobre as trevas culturais da cidade de São Luís – incansável, obstinado, convicto.

Mas há uma torcida antiga (e eu estou nela) pra que João deixe de lado um pouco sua porção “agitador cultural” e nos dê de legado seu primeiro e aguardado disco autoral.

Finalmente parece que a torcida começa a dar resultado. João se prepara para, com o suporte de alguns convidados especiais, gravar cd e dvd com a sua (vasta) obra nunca dantes registrada em toda a sua magnitude e esplendor.

Serão 20 canções escolhidas de um balaio fértil de cerca de duas centenas de composições, acumuladas em mais de 30 anos de poesia, boemia e hiperatividade cultural.

Um trabalho que já nascerá clássico, assim como um disco antigo do Paulinho da Viola ou do Chico Buarque. Porque, assim como os artistas acima citados, João tem estatura de gigante, ainda que o Brasil – infelizmente – o desconheça.

Agora enfim vai conhecê-lo por meio do projeto Milhões de Uns, iniciando com a gravação de um cd e um dvd que levam o mesmo título, nos dias 27 e 28 de novembro próximo, no Teatro Arthur Azevedo. Afinal, nunca é tarde para a poesia.

Saravá, João, meu poeta!

*O cantor e compositor Zeca Baleiro participa das duas noites de Milhões de uns, hoje (27) e amanhã (28), às 21h, no Teatro Arthur Azevedo. Os ingressos custam R$ 50,00 e podem ser adquiridos na bilheteria do teatro.

Semana Joãozinho Ribeiro 3

QUE SE ACENDAM OS FOGOS!

POR CHICO SALDANHA*

Lembro-me bem, noite de lua cheia, no Bar Coqueiro, ano de 1990, quando fui surpreendido pela musica de Joãozinho Ribeiro.

Identifiquei-me, de pronto, com a sua musicalidade, seu talento imenso e peculiar, com a sua versatilidade na arte de compor sem se prender a determinado tema ou ritmo.

Já naquela época eu poderia ter antecipado o célebre bordão: “quando é que tu vais gravar vinil?”

De lá prá cá, passaram-se duas décadas e Joãozinho calcou seu nome não só no campo da música e da poesia. Transitou com afincada coerência pela política e administração pública onde se destacou como único secretário de cultura a pensar e discutir os rumos da política cultural do Estado, com seriedade.

Mas, essa variedade e amplitude de seus interesses não me bastavam como admirador do seu trabalho musical. Queria que uma gama maior de pessoas conhecesse também sua obra. Queria ver aquele cofo de canções rodando mundo.

Afinal, a arte, fenômeno individual gerado por cada indivíduo é o mais coletivo dos fenômenos quando atinge toda a humanidade.

Mas, a história é a história e o artista teve que encarar.

Não é que o Capiroto, influenciado por esse maqueano, “chefe de torcida” dos compositores maranhenses, Zeca Baleiro, vai gravar não só CD, mas DVD, tudo em dose única. De quebra ainda me convida para colaborar na Matraca Matreira.

A minha participação no projeto Milhões de uns como artista, ao lado de tão queridos companheiros, me deixa muito feliz e é uma forma de reverenciar e agradecer a um dos maiores nomes da nossa música.

Que se acendam os fogos!

Salve Joãozinho!

*O compositor Chico Saldanha participará do show Milhões de uns, em que Joãozinho Ribeiro grava ao vivo seu disco de estreia. O espetáculo será apresentado em duas noites (27 e 28/11) no Teatro Arthur Azevedo, às 21h. Saldanha participa cantando a citada Matraca Matreira, quarta-feira.

Semana Joãozinho Ribeiro

O poeta e compositor Joãozinho Ribeiro grava ao vivo seu primeiro disco, Milhões de uns, em show homônimo que apresentará nas próximas terça (27) e quarta-feira (28), às 21h, no Teatro Arthur Azevedo.

Nas duas noites, o artista terá como convidados Alê Muniz, Coral São João, Célia Maria, Cesar Teixeira, Chico César, Chico Saldanha, Josias Sobrinho, Lena Machado, Milla Camões, Rosa Reis e Zeca Baleiro.

Até o segundo dia de apresentação do artista e seus amigos de copo, alma, música e vida a Semana Joãozinho Ribeiro trará a este blogue diversas histórias, notícias, textos, imagens etc., deixando a galera por dentro da empreitada. Para inaugurá-la, texto que o último convidado listado escreveu em agosto passado sobre a iniciativa.

JOÃOZINHO RIBEIRO – MILHÕES DE UNS
POR ZECA BALEIRO

Joãozinho Ribeiro é um poeta e compositor maiúsculo. Mas sempre foi mais que isso. João é uma espécie de “guru da galera”, o cara que aponta caminhos, que lança luz sobre as trevas culturais da cidade de São Luís – incansável, obstinado, convicto.

Mas há uma torcida antiga (e eu estou nela) pra que João deixe de lado um pouco sua porção “agitador cultural” e nos dê de legado seu primeiro e aguardado disco autoral.

Finalmente parece que a torcida começa a dar resultado. João se prepara para, com o suporte de alguns convidados especiais, gravar cd e dvd com a sua (vasta) obra nunca dantes registrada em toda a sua magnitude e esplendor.

Serão 20 canções escolhidas de um balaio fértil de cerca de duas centenas de composições, acumuladas em mais de 30 anos de poesia, boemia e hiperatividade cultural.

Um trabalho que já nascerá clássico, assim como um disco antigo do Paulinho da Viola ou do Chico Buarque. Porque, assim como os artistas acima citados, João tem estatura de gigante, ainda que o Brasil – infelizmente – o desconheça.

Agora enfim vai conhecê-lo por meio do projeto Milhões de Uns, iniciando com a gravação de um cd e um dvd que levam o mesmo título, nos dias 27 e 28 de novembro próximo, no Teatro Arthur Azevedo. Afinal, nunca é tarde para a poesia.

Saravá, João, meu poeta!

Onde o reggae é a lei

Conheci São Luís e o Maranhão por causa do reggae, em 1988. Era uma reportagem pra revista Trip, mas acabei participando de um seminário sobre o tema e vivendo situações que bem dariam um filme. Eu era fã há algum tempo, visitara a Jamaica, escrevia sempre a respeito, mantinha uma coluna com novidades da música negra nas páginas da Somtrês. Acho que, assim como a maioria dos poucos que cultuavam o gênero no Brasil, eu sabia direitinho quem era Gregory Isaacs, I Jah Man, John Holt e Augustus Pablo, mas nunca tinha ouvido falar de Clancy Eccles, Jackie Brown, Keith Poppin e Jimmy London. E eram artistas excelentes, música de primeiríssima qualidade!

Durante alguns dias, zanzei nas festas das grandes radiolas e também nas das mais toscas. Estive com radialistas e djs, dançarinos e colecionadores, entre outros personagens de um fenômeno cultural tão rico e inverossímil quanto o original. Lembrava o esquema jamaicano do meio dos 1970, mas com um toque brasileiro, nordestino e nortista, caboclo. Não era uma cópia. Nos táxis, nas ruas, no som das lojas de eletrodomésticos, no rádio da cozinheira e até no vento, vindo de um não sei onde e ecoando apenas os supergraves, tudo era reggae. Os ônibus tinham rádio e os motoristas subiam o volume quando os programas começavam. Nos salões havia casais naquela estica – os homens de calça social, sapato e camisa de manga comprida, as mulheres de vestido no joelho.

Até então, eu não sabia que São Luís também era uma ilha – apenas uma de várias coincidências com sua prima caribenha. Como não observar, por exemplo, a cumplicidade rítmica do tambor de crioula com o nyahbinghi, batuque dos rastas? Ou que a Casa Fanti-Ashanti, terreiro histórico e influente, trazia essa peculiar referência à nação Ashanti, uma das principais provedoras da alma caribenha? Enfim, na minha cabeça as esculturas do Palácio dos Leões deslizavam sobre as cores do Sampaio Correia, compondo um diorama da bandeira da Etiópia.

Carles Solís fotografou o casal dançando agarradinho da capa

Trecho de Onde o reggae era a lei, prefácio que Otávio Rodrigues, não por acaso apelidado Doctor Reggae, escreveu para Onde o reggae é a lei (cuja capa acima este blogue dá em primeiríssima mão), livro que a Karla Freire lança ainda este ano pela Edufma, com produção editorial da Pitomba! Livros e Discos, do marido Bruno Azevêdo, que ano que vem lança Em ritmo de seresta: narrativas e espaços sociais da música brega e choperias em São Luís do Maranhão (este o título acadêmico, que deve mudar, para efeitos editoriais). Ambos os livros são frutos de suas dissertações de mestrado em Ciências Sociais (UFMA).

Não tenho culpa se deixo aqui os poucos mas fieis leitores deste blogue com água na boca (o livro tá mais perto do que longe, eu esperei mais, com ansiedade e aflição maiores, podem acreditar!).

O livro de Karla Freire venceu há algum tempo alguma categoria do Concurso Artístico e Literário Cidade de São Luís, promovido anualmente pela Fundação Municipal de Cultura (Func). Demorou a sair por que seu editor (e marido) não queria engessar os livros como em geral acontece em edições “oficiais”. A espera valeu a pena: fora o texto da autora, há um tratamento caprichadíssimo para quase 70 páginas de fotos, muitas delas de antigos reggaes de São Luís, fruto de uma pesquisa posterior à defesa do trabalho em banca acadêmica.

Em breve este blogue avisa do reggae de lançamento, pra gente curtir umas pedras e as letras da mãe da Isabel.

Duas coisas

Ontem bebi no Retão. Sim, reabriu. Funcionará, agora, apenas de quinta a sábado, sempre à noite. O garçom me disse que vão meio que ver no que dá, terminar 2012, avaliar se vale a pena e, se for o caso, alugar o ponto ano que vem. Torço pra que continue, vida longa ao Retão!

Tratei equivocadamente, por puro esquecimento mesmo, o disco A obra para violão de Paulinho da Viola como um disco dele. Não é. É um dos volumes de Brasil Instrumental, disco-brinde duplo distribuído por uma empresa mineira de mineração a clientes, amigos, parceiros, fornecedores e que tais em fins de 1985. No primeiro volume, o violonista maranhense João Pedro Borges executa 10 peças instrumentais de autoria de Paulinho da Viola, acompanhado por este ao cavaquinho e César Faria, pai do compositor, ao violão. No volume 2, Brasil, sax, violão, cello e trombone, um encontro sui generis, um quarteto, no mínimo inusitado, tanto quanto talentoso: Paulo Moura (sax, clarinete), Raphael Rabello (violão sete cordas), Jacques Morelembaum (violoncelo) e Zé da Velha (trombone). Brasil Instrumental nunca chegou ao formato digital, ao menos não oficialmente. Mas seus dois volumes podem ser abracadabaixados.

Viva Paulinho da Viola!

Paulinho da Viola completou 70 anos ontem. Não houve estardalhaço como para outros setentões de 2012 (ou como imagino que haverá, não imerecidamente, para Chico Buarque daqui a dois anos). Não é de hoje a diminuição quase sempre imposta a este grandessíssimo artista, em geral tido apenas como sambista (como se isso fosse coisa menor) e não como um artista da MPB (o que é MPB? Samba não é música?, não é popular?, não é brasileiríssimo?).

Paulinho da Viola é fundamental! Artista de nobre linhagem e rara elegância, merece figurar em qualquer panteão da música brasileira. Se a mídia não deu a devida atenção, mesmo que apenas por ocasião da efeméride, o artista anuncia shows (no Rio, de graça, na Madureira berço de sua Portela do coração, e no Carnegie Hall) e caixa com discos, informações que li na Folha de domingo, onde soube também que a Portela irá homenageá-lo na avenida em 2013.

O maranhense João Pedro Borges, que tocou em A obra para violão de Paulinho da Viola, dividindo o disco com o artista e o pai dele, César Faria (violonista do conjunto Época de Ouro que acompanhou Jacob do Bandolim), já afirmou que é bastante valiosa a contribuição do músico para a escola brasileira do instrumento. Esta sua faceta, de compositor de choros sofisticados, é bem menos conhecida que a de sambista, porém não menos importante. O disco citado é hoje tão desconhecido quanto raro: foi distribuído como brinde de fim de ano aos clientes de uma empresa em meados da década de 1980, nunca tendo chegado ao formato digital.

Um dos momentos de maior emoção na vida do músico aconteceu quando sua Foi um rio que passou em minha vida foi cantada no aquecimento, o “esquenta”, o samba que anima os membros da escola antes de a mesma entrar na avenida. Isso foi em 1971, o disco lançado no ano anterior, espécie de resposta que Paulinho dava a si mesmo, depois de ter escrito Sei lá, Mangueira (parceria com Hermínio Bello de Carvalho), enaltecendo a rival.

Até hoje há quem acredite que sua Sinal Fechado, regravada por, entre outros, Fagner e Chico Buarque, seja de autoria do último.

Para um amor no Recife já teve regravações de Marina Lima e Zé Ramalho, alguém aí ainda desconfia que Paulinho é só do samba (o que não seria pouco)?

Paulinho é também presença constante nos discos de Marisa Monte, seja emprestando obras primas do quilate de Para ver as meninas e Dança da solidão, seja tocando um violão aqui, um cavaquinho acolá.

Acompanhada do grupo Semente, Teresa Cristina estreou em disco há 10 anos, com um trabalho inteiramente dedicado à obra do mestre: o duplo A música de Paulinho da Viola.

Ainda há muito por dizer e muito mais com o que ilustrar este post. Paulinho da Viola tem obra vasta e bem mais merecem as celebrações e homenagens por seus 70 anos. Uma frustração? Nunca ter sido gravado por Aracy de Almeida, “uma das maiores cantoras de samba” que o Brasil já (ou)viu. Uma historinha? Já cansada de ser sempre cobrada para cantar o repertório de Noel Rosa, sua maior intérprete um dia confessou estar cansada de “carregar o peso desse morto nas costas”, disse, referindo-se, “sei lá, não sei”, ao samba de Noel ou ao próprio compositor. Caetano Veloso compôs um samba novo, A voz do morto, em que homenageia Paulinho da Viola, “viva Paulinho da Viola”, vivíssimo, atuante e elegante aos 70.

“Prefiro continuar a ser um produtor de cultura que me tornar um gestor”

Baleiro em pose de “alto lá!”

Indagado pelo blogue sobre a campanha “Eu quero Zeca Baleiro Secretário de Cultura de São Luís”, que ganhou alguma repercussão no Facebook, assim manifestou-se o cantor e compositor maranhense, através de sua assessoria. Sábio Zeca!

Ao lado de diversos outros nomes, Baleiro participa nos próximos dias 27 e 28 de novembro, no Teatro Arthur Azevedo, do show Milhões de uns, de Joãozinho Ribeiro, quando este grava ao vivo o primeiro disco de sua carreira.

Uma passadinha rápida pra lembrar

Hoje tem Celso Borges no Sarau Cerol:

E avisar que ele estará acompanhado, além de Beto Ehongue, por Alê Muniz e Luiz Cláudio, repetindo assim a formação do espetáculo de abril passado, maiores informações sobre aquele e o de hoje nos links do post anterior.

Sarau Cerol no Odeon: poemúsica com Celso Borges e Beto Ehongue

Amanhã (30), 22h, de graça, no Odeon. Aqui o que disse do Sarau Cerol que ou/vi em abril passado no Odylo, ocasião em que Andréa Oliveira, esposa do poeta, fez o clique acima.

Livro com inéditos de Itamar Assumpção será lançado em SP

Uma coletânea de textos, letras de música e poemas inéditos de Itamar Assumpção será lançada quinta-feira (1º./11) em São Paulo. Fruto de parceria do Instituto Itaú Cultural e Editora Terceiro Nome, Itamar Assumpção – Cadernos Inéditos reúne, em 240 páginas, extratos de 60 cadernos de anotações, de entre 1986 a 2003 (ano de seu falecimento), deixados pelo compositor.

A organização ficou a cargo das filhas Anelis e Serena Assumpção, da viúva Elizena Assumpção e de Marcelo del Rio, um vizinho que acompanhou os últimos anos do autor de PretoBrás. (Com informações do Itaú Cultural)

Tássia Campos: da periferia ao universo

Sobre Trilha sonora do universo, show de Tássia Campos, ontem (27), no Cine Roxy, na programação da 7ª. Mostra SESC Guajajara de Artes

Numa época em que só se ouve falar em política, Tássia Campos aponta a poesia na nossa cara

Tássia Campos sobe ao palco acompanhada apenas do DJ Franklin e sob uma base posta por ele manda ver num reggae em inglês. O músico – sim, em seu caso DJ é músico! – havia tocado antes de Trilha sonora do universo, o show da cantora na 7ª. Mostra SESC Guajajara de Artes, em cartaz pela cidade até o próximo 1º. de novembro.

O espetáculo aconteceu ontem, no Cine Roxy. Antes de entrar, comentávamos, minha esposa, eu e o amigo Celso Serrão – que há tempos não via – que este era um daqueles espaços cujo novo nome – Teatro da Cidade de São Luís – não vai pegar. A cidade está cheia de exemplos: a Escola Técnica (hoje IFMA, depois de ser CEFET), a RFFSA (Plantão Central da Beira Mar), o Circo da Cidade (Circo Cultural Nelson Brito) – esse não pega mais nem o velho nem o novo.

O público era bom, embora o Roxy não estivesse completamente lotado, mesmo com toda a programação da mostra sendo gratuita. Após o duo com o DJ, a banda atacou. E que banda!: Edinho Bastos (guitarra), Jesiel Bives (teclado), João Paulo (contrabaixo) e Moisés Mota (bateria).

Aos incautos, Trilha sonora do universo, o título do show, pode soar pretensioso. Não é: tem a medida exata de quem conhece o talento que tem sem soar arrogante, sua trilha sonora e seu universo particulares.

O repertório vai de Novos Baianos (A menina dança), Bob Marley (Is this Love?) e Sérgio Sampaio (Que loucura! e Cada lugar na sua coisa), artistas que ela homenageou este ano com tributos, em shows diferentes, a André Lucap (Intervalo), Celso Borges (Persona non grata, poema dele musicado por ela, que o apresentou acompanhada de Edinho Bastos ao teclado), Kléber Albuquerque (Logradouro, primeira gravação dela que tocou no rádio e lhe valeu o troféu de artista revelação no Prêmio Universidade FM ano passado), João Donato (A rã) e George Gershwin (Summertime, no bis), entre outros.

Nada óbvio, portanto. Nem na escolha, nem nos arranjos, que Tássia e banda se preocupam em mostrar cada música, mais ou menos conhecida, com uma nova cara, um novo som, um novo coração. Como disse quando, ao avistar um de seus compositores na plateia, ao cantar sua música: “Desculpa, Lucap, mas essa música é minha!”. É isso: Tássia é uma recompositora.

Nela, tudo é sinceridade. Ela que faz poucos shows por preferir se manter afastada do esquema “pires na mão” praticado por nossos órgãos de cultura, agradeceu ao SESC a oportunidade de estar ali e elogiou o alto nível de profissionalismo de toda a equipe envolvida para que a Mostra aconteça – apesar de este blogue ter ficado sabendo do show pelo Facebook da própria cantora, a assessoria de comunicação (do SESC? Da Mostra?) ou não está funcionando ou nos ignora.

“Eu tenho até camarim. Eu perguntei a um dos músicos: “será que isso tudo é pra mim mesmo?”. Um camarim com flores, frutas… a gente é tão acostumado a ser maltratado, que até estranha, se espanta quando é bem tratado”, revelou, entre a sinceridade e a ironia, sempre apertando o dedo em nossas feridas. “E eu ainda tou recebendo pra fazer isso aqui; geralmente eu pago [para fazer shows]”, riu.

Emocionada chegou a chorar ao lembrar o saudoso mestre Leonardo, uma das maiores personalidades do bumba meu boi do Maranhão, oriundo da Liberdade natal da cantora, bairro sempre mais lembrado pelo estigma e pelas estatísticas da violência que por sua riqueza cultural. “É um bairro pobre, mas é tão rico. Só na rua em que nasci, tem um boi, um cacuriá, um tambor de crioula, uma quadrilha”, enumerou. “Leonardo para mim era [como] meu avô. Eu era uma das poucas pessoas de que ele lembrava, já acometido pelo Alzheimer [lágrimas interrompem a fala]. Depois de 26 anos eu deixei a Liberdade, mas por causa dele [Leonardo] é que eu vou ser sempre periferia!”, anunciou antes de mandar os “ó aqui pra vocês!” no Punk da periferia de Gilberto Gil.

Sobrou até para a tal da lei seca: “Eles fazem merda e roubam quatro anos e nós é quem temos que ficar sem beber?”, perguntou, anunciando que iria, dali, caçar canto para infringi-la. Se os que já saíram de lá embriagados de tanto talento, beleza e poesia mereciam, imagina ela, que nos proporcionou aquela hora e pouco de muita magia.

p.s.: obrigado, Celijon, pela info do batera. Hora dessas quito minha ausência com a Satchmo.

p.s.2.: obrigado, Fafá, pela foto do Gleydson Nepomuceno que ilustra o post, roubada de teu facebook. 

p.s.3.: CB, depois que o Souza inchou no bucho não rolou estica, foi mal aê! Terça ‘tou no Odeon pra te ver/ouvir, o que ainda direi por aqui.