vacância ferida

Abrindo uma encomenda que acabara de receber das mãos do carteiro, sentiu uma das lâminas da tesoura cortar-lhe o dedo. O dedo de dar dedo – diria, se ainda fosse criança – da mão esquerda. Só, em casa, não sabia o que fazer. Havia interrompido um trabalho para atender a porta. Ganhava a vida escrevendo. Ficção. Espécie rara hoje em dia, frisava, sempre que possível, em conversas informais pelos botequins, onde era admirado pelos que compunham sua mesa. Tinha prestígio e o dinheiro, se não era muito, dava para o essencial.

No papel ou na tela em branco do computador – já que não via problema nenhum em aderir às novas tecnologias, embora não fosse um entusiasta do corre-corre insano que viu acometer a humanidade nos últimos tempos – gostava dessa coisa de brincar de ser deus, de saber o destino dos personagens e, poder, ao menos sobre eles, sempre interferir.

Alguém havia levantado para abrir a porta, em sua ficção – que seria publicada em alguma revista – quando a campainha soou. Riu da coincidência, levantou-se para abrir, hoje não era dia de a empregada vir arrumar sua modesta residência de homem solteiro, era o carteiro. Um pacote, talvez livros, talvez discos, talvez prazer, talvez trabalho. Assinou o recibo, desejou um bom dia – sincero – ao homem de amarelo, fechou a porta, foi caçar uma tesoura para abrir a encomenda, cheia de fitas adesivas, lacres e selos.

Se de sua cabeça brotavam histórias aguardadas por seus leitores – muitos – com uma ansiedade, angústia talvez ininteligível, ao contrário das histórias que contava, de seu dedo brotou um líquido viscoso, de cor forte, “a própria menstruação”, pensou. Sua primeira reação foi levar o dedo à boca, numa tentativa de estancar o sangramento.

Chupando o dedo feito criança a ponto de dormir, ainda teve a paciência de procurar, entre as várias pilhas de discos que ocupavam parte considerável da casa – assim como livros – um Pablo Milanés: os versos de Yo pisaré las calles nuevamente encheram a sala, enquanto ele arrumava um curativo. Com uma só mão, no entanto, era difícil curar a outra. O telefone começou a tocar, insistentemente. Deixou os vários trins misturarem-se à música na sala vazia, dedo na boca, deitou-se em sua cama, masturbou-se, dormiu e não concluiu o texto.

[acima, meu “quintal poético” na edição de outubro do almanaque jp turismo, já nas bancas]

um baladeiro do asfalto

Quase dez anos após sua estréia em disco, o maranhense Zeca Baleiro lança seu primeiro registro ao vivo: mais que um mero greatest hits, revisão de carreira com pitadas de alheio. Com propriedade.

por Zema Ribeiro*

A crítica torceu o nariz quando Zeca Baleiro deu uma guinada em sua bem sucedida trajetória acústica – com pitadas eletrônicas aqui e ali – e partiu para o disco mais rock’n’roll de sua carreira, o obscurecido pela própria crítica “Baladas do asfalto e outros blues” (2005). Ainda bem que o artista – que sabe ter que ir onde o povo está, como canta outro – nunca precisou da senhora dona crítica para dizer-lhe o que fazer.

Quase dez anos após seu disco de estréia – “Por onde andará Stephen Fry?” (1997) – Zeca, cuja videografia já é vasta, chega ao primeiro disco ao vivo. “Baladas do asfalto e outros blues ao vivo[MZA Music/Universal, 2006, R$ 35,00] não funciona somente como uma “revisão de carreira” ou coisa que o valha. Quase a metade das músicas é do disco do ano passado: “Versos perdidos”, “Meu amor minha flor minha menina”, “Cachorro doido”, “Flores no asfalto”, “Balada do céu negro” e “Alma nova”. De outros discos estão lá “Heavy metal do Senhor” (da estréia), aqui um acelerado country, “Telegrama”, “Fiz esta canção” (de “PetShopMundoCão”, 2002) “Babylon” e “Quase nada” (de “Líricas”, 2000), emendada com “Amor” do grupo Secos & Molhados, clara influência de Zeca, que já os havia homenageado em “Vô Imbolá” (1999), único disco que não trouxe músicas a este “ao vivo”.

O disco se completa com releituras: as (cool-)bregas “Retalhos de cetim”, de Benito de Paula, e “Palavras”, de Roberto Carlos e Erasmo também, e a “maldita” setentista composta em homenagem a Raul Seixas, “Não adianta”, do conterrâneo do rei, também já reverenciado por Zeca em outras ocasiões, Sérgio Sampaio, de quem o maranhense produziu o póstumo e belo “Cruel” (2005).

Do pequeno, esquecido e “obscuro” Maranhão para o mundo, Zeca Baleiro, um homem das multidões, um artista pop, sem a diminuição que este rótulo por vezes implica. Na verdade, Baleiro nem cabe em rótulos. E a multidão, no caso, é bem maior que o público presente ao Teatro do SESC Pinheiros (São Paulo), na última noite de São João, data da gravação destas belas baladas e destes outros blues.

* correspondente para o Maranhão do site Overmundo

[o texto acima foi publicado no jp turismo, jornal pequeno, dia 20/10, sexta-feira passada]

mais de 5 no 3º tempo

um debate-papo literário agita hoje o chico discos (fonte do ribeirão). como o espaço do/a sebo/locadora de dvds é pequeno, provavelmente a turma invadirá a fonte para uma conversa sem moderação, como sem moderação deverá ser a quantidade de cerveja ingerida pelos presentes.

apareçam!

diversos autores farão o (re-)lançamento (ao ar, inclusive, literalmente) de suas obras. estão confirmadas as presenças (por enquanto, mas vai pintar mais gente) dos seguintes autores [e obras]:

hamilton faria [haikuazes]
celso borges [música]
joãozinho ribeiro [paisagem feita de tempo]
eduardo júlio [alguma trilha além]
itevaldo jr. [quase retratos]

este blogueiro também pinta por lá, acompanhado de reuben, paulo melo souza, dyl pires, zé maria medeiros, ricarte almeida santos, riba do poeme-se (cujo espaço na rua do sol foi oficialmente inaugurado ontem, com o segundo tempo do lançamento de música) e outros.

haverá exposição de telas de nadilton bezerra e lena santos.

a conversa-lançamento-exposição-farra começa às 17h e termina sabe-se lá que horas.

repito: apareçam!

segunda chamada


[foto: zema ribeiro]

celso borges declamando, ontem. foto mei’ escura, a (quase) inutilidade de minha máquina fotográfica. preciso trocá-la, urgentemente.

pra quem perdeu ou quer ver de novo, segunda chamada.

celso borges autografa música hoje, às 20h, no novo espaço poeme-se (rua do sol, próximo ao sindicato dos bancários). o esquema é quase o mesmo: recital poético informal + pocket show do violonista joão pedro borges.

haverá terceiro tempo: sábado, um bate papo informal com os poetas hamilton faria e joãozinho ribeiro, os três autografando suas obras. no chico discos (fonte do ribeirão). sobre este encontro, voltamos aqui, em breve, com maiores informações. aguardem!

serviço

o quê: inauguração do novo espaço poeme-se + (re-)lançamento de música
quem: celso borges e convidados (em recital) + apresentação do violonista joão pedro borges
quando: hoje, às 20h
onde: novo espaço poeme-se (rua do sol, centro)
quanto: entrada franca. na ocasião, música será vendido e autografado pelo autor

celso borges e a poesia do atrito

Serviço

O quê: lançamento do livro-cd Música, recital informal com poetas e músicos + pocket show da banda T A Calibre 1
Quem: o poeta e jornalista maranhense (radicado em São Paulo) Celso Borges
Quando: hoje, 19/10, quinta-feira, às 19h
Onde: Escola de Música Lilah Lisboa (Rua da Estrela, Praia Grande)
Quanto: grátis. Na ocasião o livro-cd estará sendo vendido e autografado pelo autor.

*

Não tenho estatísticas, mas creio que “Música” já seja a obra mais falada neste blogue. Não à toa, e não mera influência de minha amizade com Celso Borges. O livro-disco (e o poeta) merece(m): obra-prima, como também já disse por aqui, e qualquer coisa mais que eu disser, será mera repetição.

O jornalismo (mais particularmente o cultural) praticado no Maranhão é, como sabemos, de uma pobreza franciscana. E não vai aqui nenhum trocadilho pela localização geográfica do jornal do outro lado da ponte que, a despeito de sua posição “ideológica”, é o que tem mais “cara de jornal”.

Aí aparece gente boa escrevendo de graça, e os jornais tem a manha de relaxar um bom (pra não dizer ótimo) texto. Para publicar textos “menos bons” (pra não dizer outra coisa).

Flávio Reis, Cientista Político, Professor do Departamento de Sociologia e Antropologia da Universidade Federal do Maranhão, autor de “Cenas marginais: fragmentos de Glauber, Sganzerla e Bressane” (2005) e Reuben (que dispensa apresentações para os leitores deste blogue) escreveram um texto sobre a obra mais que citada. Tentamos, os dois e este blogueiro, publicá-la, hoje, nalgum jornal. Entre recusas e e-mails que não chegam, o texto não saiu. O Imparcial e O Estado do Maranhão publicaram textos informativos sobre o lançamento. Este blogue publica o texto “recusado”, abaixo. Apareçam!

*

Celso Borges e a poesia do atrito

por Flávio Reis e Reuben da Cunha

A agulha não risca mais o disco, a página não prende mais a palavra. O poeta Celso Borges escreveu Música. Babel de linguagens: há muito mais em Música do que música. Também não é apenas um livro, é um livro-limite, uma obra de risco. Poesia é risco. Seria fácil se fosse um livro com um disco encartado. Não é fácil.

Música é uma fina malha de linguagens, um intrincado jogo intersemiótico cuja via fundamental de construção é o som. Ouvinte compulsivo, Celso Borges coloca o headphone para revolver o texto. A poesia (certa poesia) desde o século XIX percorre um perigoso caminho até a implosão. Até o silêncio. Aqui é outra coisa, o avesso do silêncio, a perseguição de uma linha de atrito entre canto e fala. Como anuncia o poeta: dar uma estrutura sonora ao poema, além de sua sonoridade natural.

No lugar do silêncio, então, atrito. Através das apropriações de clichês da poesia, da música e do cinema, sentidos são reinventados, pulsam nos momentos de encontro entre palavra, som e projeto gráfico. Drummond, João Cabral, Oswald, Vinícius, Bressane, Bob Dylan, Nauro Machado, Euclides da Cunha, Dona Teté e Verlaine, Augusto de Campos e o boizinho de Dona Camélia. Tudo misturado, muitas vezes triturado e cuspido, satirizado.

As letras se misturam, as palavras se interpenetram, os ditos se confundem. Um tom de colagem atravessa Música, não apenas nos detalhes da programação visual ou nas superposições de sons, aparece principalmente como texto. Americana: bela balada costurada com versos de Celso e traduções de Bob Dylan. O silêncio dos poetas: poema escrito para acabar nas palavras de Alberto Pimenta. Mural: texto-montagem composto a partir de matérias de jornal, versos de Celso e de outros poetas.

A profusão de referências, que ao longo das últimas décadas tem se refletido no acúmulo crescente de autômatos desatentos na fileira dos humanos, aparece na poesia de Celso com alto grau de concentração, expondo impasses da cultura contemporânea, dando porrada na palavra anódina da “prosa com prazo de vencimento” e dos “verbos de plástico” de rimas gastas e radicalismos de proveta. A palavra banal e fragmentada que se tornou nossa regra de comunicação vira galáxia de significados na poesia de Celso Borges. Do caos de citações Celso fabrica sentido. Volta à lição de velhos iconoclastas da cultura: contra a especialização dos fazeres e a mumificação das formas, o antídoto da experimentação.

As manifestações da memória afetiva que liga o poeta a São Luís, cidade amada e odiada com esquizofrênica intensidade, também são peça fundamental neste trabalho. Pedaços da cidade espalham-se pelos textos e sons. São paisagens, melodias, endereços que se friccionam violentamente com os signos da experiência paulistana do autor, seu presente ausente. Quanto mais pensa ainda ser um retirante com o eterno sentimento da volta, mais Celso se vê “emaranhado em Sampa”. Uma poesia dependente deste afeto e desta dor por uma cidade perdida no passado e ao mesmo tempo uma poesia de procedimentos absolutamente contemporâneos. A rua da infância e o futuro. Olhos sem idade, despidos de saudosismo. S.Luís: segundo movimento: a “ilha cercada de inveja por todos os lados” ridicularizada em seu altivo provincianismo, metralhada pela ira dos versos colados aos de Nauro Machado e pela pancada crua da banda T.A Calibre 1. Compondo o quadro, closes terríveis das carrancas da fonte do Ribeirão.

O projeto conta com a participação de alguns nomes conhecidos da música popular, como Chico César, Zeca Baleiro e Cordel do Fogo Encantado. Outros, como o do ótimo Otávio Rodrigues, DJ e compositor, e Vitor Ramil, compositor precioso que quase apenas o sul do país conhece. Sem falar na pequena multidão que participa do livro/disco em diferentes dosagens, uma rede de poetas, músicos, sonhadores e doidos de vários matizes belamente apresentada na faixa Celebração. Os encontros produzem resultados variados, da palavra cantada à palavra sonorizada. Samplers, fragmentos chapados de significado, ritmos, melodias, cantos e falas. Trabalho de muitas mãos. Verso de muitas vozes.

outro amanhã

o dia se renova todo dia
eu envelheço cada dia e cada mês
o mundo passa por mim todos os dias
enquanto eu passo pelo mundo uma vez

a natureza é perfeita
não há quem possa duvidar
a noite é o dia que dorme
o dia é a noite ao despertar

aí, a belíssima “o mundo é assim”, de alvaiade, da velha guarda da portela, registrada pela produção de marisa monte em “tudo azul” para a phonomotor (selo dela) em 2000. o samba data de 1968.

então, tá: quando amanhece, o amanhã vira hoje. óbvio, não? pois é. óbvio e lindo. o post de ontem, já é hoje. e o de hoje, convida para o amanhã, abaixo. [para ler o convite maior, clique nele]

amanhã

o convite (para lê-lo maior, clique em cima) não avisa, e só o debate já vale a pena, mas a programação cultural da 6ª semana do meio-ambiente inclui show de cesar teixeira e convidados. participe. multiplicando esta informação (não só a do show, é claro) e indo ao debate. [o serviço tá no convite].

promoção

[e pra mocinha. só pra não perder a oportunidade de ficar calado e não fazer uma graça sem graça]

antes da “promo”: hoje é dia do(s) professor(es). um abraço especial em mamãe e em meus sogros, aqui representando toda a classe. parabéns!

*

Aroma

Quando ela
sai do banho

meu sangue
cheira a sabonete

*

Rota

Serei o guia
ou serei o cego;

A qual dessas crenças
eu me apego?

*

Acima, dois poemas de Zeca Tocantins, do livro “Colhedor de Manhãs[AIL, 2003]. Abaixo, pequeno texto deste blogueiro, na quarta capa da obra (citando outras de Zeca: “Caminhos de Nós” e “Banzeiros”):

Ser poeta é duro ofício, quase um vício, e ele ainda teima, numa eterna e doce briga consigo mesmo. Quem já desatou (e ainda desata) os nós de um caminho que ninguém sabe onde vai dar, já atravessou (e atravessa ainda) banzeiros, agora é “colhedor de manhãs”. Cabe citar aqui, Gildomar Marinho, outro poeta “moldado” às margens do Rio Tocantins, em canção sua que o homenageia: “Toca assim como quem toca a arte de viver”.

*

A promoção: o primeiro que comentar aí, leva, grátis, um exemplar de “Colhedor de Manhãs“.

‘cês já leram falar disso aqui, né? "tomem" mais "música"…

[no primeira classe de ontem, jp turismo, jornal pequeno. a ilustração do texto, já publicada neste blogue anteriormente, tá aqui]


Música para os olhos, poesia para os ouvidos (e vice-versa)

Unindo poesia e música, em “Música”, seu novo livro-disco, Celso Borges amplia as possibilidades iniciadas há seis anos com “XXI”.

por Zema Ribeiro*

Em 2000, o poeta e jornalista maranhense (radicado em São Paulo) Celso Borges celebrou o casamento de poesia e música em “XXI – poemas de Celso Borges”, onde poetas maranhenses e músicos davam uma roupagem além-papel à sua obra, relendo parte do que ele havia publicado até ali, em livros hoje raros, desde a década de oitenta, século vinte.

Seis anos depois, é hora de Celso Borges lançar o livro-disco “Música[Editora Medusa, 2006, R$ 30,00], numa proposta ainda mais universal: mais de cinqüenta artistas – entre poetas e músicos – participam do disco. Estão lá Ademir Assunção, Ceumar, Chico César, Eduardo Júlio, Fernando Abreu, Josias Sobrinho, Kléber Albuquerque, Vitor Ramil e Zeca Baleiro, entre outros. Um furo no meio lembra, no livro, um compact disc (de vinil), garantindo um visual saudosista à bela e atualíssima obra do maranhense.

“Música: atrito entre canto e fala. Cantar o poema. Ler a melodia na página do livro. Ouvir o poema sem a página do livro. Música: outra melodia outra poesia. O cantor poeta. O poeta cantor. Música: cd pra ser lido livro pra ser ouvido livre lábaro que ostento estrelado”, explica Celso em “Música – um quase prefácio”, embora sua obra não seja o vazio de bienais que carecem de explicação.

O recado é certeiro: “Ora, direi: chega de Bilacs em pleno século XXI. Chega de vírgulas ridículas, de “aspas com caspas”. De prosa com prazo de vencimento”, escreve/ultima, feroz em “Manifesto 2”, para a voz do poeta Ricardo Corona. Há espaços para a paixão, a ironia, críticas à Ilha que tanto ama e da qual sente saudades, casos de “São Luís segundo movimento” e “Devoluto”, este, um fado de Sérgio Natureza e Kléber Albuquerque em homenagem ao autor de “Música 290”, poema cuja trilha do dj (também maranhense) Otávio Rodrigues enumera mais de duzentas e cinqüenta citações que remetem à palavra-título do livro-disco.

“Tua beleza derrama pelo ladrão”, declama/canta Celso Borges em “Maria”. Assim é o disco-livro, no todo, poema, música, poemúsica, projeto gráfico de Cláudio Lima, também maranhense, também músico. Obra-prima, este “Música”, a obra, objeto de desejo por sua beleza, não será confinada às estantes/prateleiras. Impossível passar insensível por este novo, dissonante e afinado grito de Celso Borges.

SERVIÇO, EM TEMPO – Dia 19/10 (quinta-feira), às 19h, na Escola de Música Lilah Lisboa, Celso Borges lança “Música” em São Luís. Num grande recital informal, uma reunião de amigos, com a participação de vários poetas e músicos. O acontecimento terá entrada franca, e na ocasião o livro estará sendo vendido e autografado pelo autor.

* correspondente para o Maranhão do site Overmundo

‘cês já leram falar disso aqui, né? “tomem” mais “música”…

[no primeira classe de ontem, jp turismo, jornal pequeno. a ilustração do texto, já publicada neste blogue anteriormente, tá aqui]


Música para os olhos, poesia para os ouvidos (e vice-versa)

Unindo poesia e música, em “Música”, seu novo livro-disco, Celso Borges amplia as possibilidades iniciadas há seis anos com “XXI”.

por Zema Ribeiro*

Em 2000, o poeta e jornalista maranhense (radicado em São Paulo) Celso Borges celebrou o casamento de poesia e música em “XXI – poemas de Celso Borges”, onde poetas maranhenses e músicos davam uma roupagem além-papel à sua obra, relendo parte do que ele havia publicado até ali, em livros hoje raros, desde a década de oitenta, século vinte.

Seis anos depois, é hora de Celso Borges lançar o livro-disco “Música[Editora Medusa, 2006, R$ 30,00], numa proposta ainda mais universal: mais de cinqüenta artistas – entre poetas e músicos – participam do disco. Estão lá Ademir Assunção, Ceumar, Chico César, Eduardo Júlio, Fernando Abreu, Josias Sobrinho, Kléber Albuquerque, Vitor Ramil e Zeca Baleiro, entre outros. Um furo no meio lembra, no livro, um compact disc (de vinil), garantindo um visual saudosista à bela e atualíssima obra do maranhense.

“Música: atrito entre canto e fala. Cantar o poema. Ler a melodia na página do livro. Ouvir o poema sem a página do livro. Música: outra melodia outra poesia. O cantor poeta. O poeta cantor. Música: cd pra ser lido livro pra ser ouvido livre lábaro que ostento estrelado”, explica Celso em “Música – um quase prefácio”, embora sua obra não seja o vazio de bienais que carecem de explicação.

O recado é certeiro: “Ora, direi: chega de Bilacs em pleno século XXI. Chega de vírgulas ridículas, de “aspas com caspas”. De prosa com prazo de vencimento”, escreve/ultima, feroz em “Manifesto 2”, para a voz do poeta Ricardo Corona. Há espaços para a paixão, a ironia, críticas à Ilha que tanto ama e da qual sente saudades, casos de “São Luís segundo movimento” e “Devoluto”, este, um fado de Sérgio Natureza e Kléber Albuquerque em homenagem ao autor de “Música 290”, poema cuja trilha do dj (também maranhense) Otávio Rodrigues enumera mais de duzentas e cinqüenta citações que remetem à palavra-título do livro-disco.

“Tua beleza derrama pelo ladrão”, declama/canta Celso Borges em “Maria”. Assim é o disco-livro, no todo, poema, música, poemúsica, projeto gráfico de Cláudio Lima, também maranhense, também músico. Obra-prima, este “Música”, a obra, objeto de desejo por sua beleza, não será confinada às estantes/prateleiras. Impossível passar insensível por este novo, dissonante e afinado grito de Celso Borges.

SERVIÇO, EM TEMPO – Dia 19/10 (quinta-feira), às 19h, na Escola de Música Lilah Lisboa, Celso Borges lança “Música” em São Luís. Num grande recital informal, uma reunião de amigos, com a participação de vários poetas e músicos. O acontecimento terá entrada franca, e na ocasião o livro estará sendo vendido e autografado pelo autor.

* correspondente para o Maranhão do site Overmundo

o novo do joca

entre as vozes mais interessantes que tenho lido sempre, está a de joca reiners terron (link ao lado). semana que vem, mais precisamente dia 19, ele (começa a) lança(r) seu novo livro. obra esta que entra, de já, apesar de eu não ter lido (ainda; a encomenda já está feita), para duas antologias pessoais deste blogueiro que vos perturba: as de “os mais bonitos títulos” e “as mais belas capas” de livros. detalhes sobre o lançamento no blogue do moço. ó a capa de sonho interrompido por guilhotina:

12 de outubro

dia de nossa senhora, dia das crianças, dia de cristóvão… alô brasil! alô, maranhão! alô, são luís! alô, mundo!

foi no dia 12 de outubro de 22
que nasceu na madre deus
mais um sambista
o resto eu conto depois

ele nasceu
com o samba na memória
já cantou em muita parte
e tem nome na história

onde ele cantou
todo mundo aplaudiu
fez o povo ser feliz
só não sambou quem não viu

onde ele cantou
todo mundo aplaudiu
o nome dele é cristóvão
sobrenome alô brasil

12 de outubro, samba (auto-)homenagem, de cristóvão alô brasil, uma das muitas provas de sua genialidade, algumas das quais serão mostradas hoje, em show divulgado no post abaixo.

hoje e amanhã…

hoje, véspera do feriado:

a banda negoka’apor lança seu primeiro disco, homônimo. no bar do porto, às 22h. ingressos: r$ 5,00.


[negoka’apor. foto: divulgação]


amanhã, feriado:

o sambista madredivino cristóvão colombo da silva, vulgo cristóvão alô brasil, completaria 84 anos, se vivo fosse. recebe justa e merecida homenagem de amigos no show “nas páginas da história – madre deus canta cristóvão alô brasil“. o show será uma grande roda de samba. já estão confirmadas as participações do regional 310, wellington reis, fátima passarinho, zé pivó, patativa, cláudio pinheiro, j. bosco, boscotô, gabriel melônio, joãozinho ribeiro e cesar teixeira.


[alô brasil em traço de érico junqueira]

o espetáculo acontece no teatro alcione nazaré (centro de criatividade odylo costa, filho, praia grande), às 20h30min, e os ingressos custam r$ 5,00 ou dois quilos de alimento não-perecível.

eu voto 12 + 1: lula presidente; jackson, governador

por Joãozinho Ribeiro*

[nem preciso dizer que este blogue concorda com as sábias palavras de joãozinho, preciso?]

Em tempo: do poeta cubano Pablo Milanez, fruto da abençoada parceria com o compositor Chico Buarque, tomo emprestado os atualíssimos versos:

“A história é um carro alegre
cheio de um povo contente
que atropela indiferente
todo aquele que a negue”.

Talvez a lição das urnas, versada na vontade popular, precise mais do que nunca ser traduzida para os políticos que permanecem alheios ao idioma falado em todo o Brasil, pelas bocas, pelos becos, pelos bares … pelos campos e cidades, por milhões de homens e mulheres, mergulhados em seus difusos trabalhos e nos seus ofícios de viver.

VOTO 13 E VOTO 12: LULA, PRESIDENTE; JACKSON, GOVERNADOR.

Esta é a coligação que o povo maranhense consagrou nas urnas, no 1º turno das eleições de 2006, e que não vai acabar no dia 29 de outubro próximo; este é o recado que o povo maranhense está dando aos candidatos. Quem tiver ouvidos para ouvir, que ouça; quem tiver bom senso para obedecer, que o faça. E vote!

JACKSON, GOVERNADOR; LULA, PRESIDENTE.

É esta a mensagem extraída das urnas, manifestada pela línguagem sábia e silenciosa do povo. Mensagem de esperança que palpita em milhares de corações maranhenses, que permitiu a consagradora votação do candidato Lula em nosso Estado, e impôs uma vergonhosa derrota à candidata da oligarquia no 1º turno, desmoralizando os institutos de pesquisa contratados pelo Sistema Mirante com o objetivo imoral de substituir a vontade popular.

A esta vontade popular é que se coliga a minha responsabilidade de artista e de cidadão, que ainda sonha com o reencantamento do mundo e com a libertação do seu Estado. Esta legítima coligação, que não brota de conchavos políticos, nem de conveniências partidárias, é que me impede de jogar a minha história e a de milhares de companheiros e companheiras na lata do lixo da política.

Não podemos perder o rumo, nem a rima, assim como não os perdemos quando assinamos a ficha de fundação do Partido dos Trabalhadores; quando integramos o Comitê Brasileiro pela Anistia aos Presos e Exilados Políticos; quando reconstruímos a gloriosa União Nacional dos Estudantes; quando dirigimos o maior movimento popular desta Ilha dos últimos tempos, que foi a Greve da Meia-Passagem; quando desfraldamos a bandeira das Diretas Já, ocupando as ruas e as praças deste imenso País, conduzindo o bonde da História para a estação da democracia; quando contribuímos com a fundação da Central Única dos Trabalhadores, da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos, do Comitê de Defesa da Ilha, do Fórum Municipal de Cultura; quando, junto com muitos camaradas da vida e da arte, enfrentamos o latifúndio e a ira dos coronéis fazendeiros, empunhando a bandeira da Reforma Agrária e fazendo cultura nos assentamentos do MST.

LULA, PRESIDENTE, JACKSON, GOVERNADOR!

No 1º turno, já foi a minha escolha e o meu voto. Infelizmente, face às amarras da legislação eleitoral e a alguns resquícios de disciplina partidária, fui discreto na votação, impedido de declarar publicamente a minha vontade eleitoral.

Agora, não posso, não devo, não quero e nem serei indiferente; muito menos me deixarei atropelar pelo bonde da História. Pelo contrário, quero ser um carro alegre e fazer, como na canção, parte da imensa carreata, cheia de um povo contente, que derrotará a candidata da oligarquia – Roseana Sarney Murad – no próximo dia 29 de outubro. A esta coligação me coloco inteiramente à disposição, nem tentem, nem intentem para outra me convidar. Quem quiser coligar com judas e caifazes que o façam. A minha intenção e gesto apontam somente para este rumo da vida e da história. Às favas, todas as disposições em contrário.

Para finalizar, ficamos com os desafiantes versos do nosso poeta e compositor Josias Sobrinho, interpretados pela rebelada voz do parceiro Zeca Baleiro:

“É hora espichar a bandeira
pendão florido de toda cor …
se é fogo de palha, arreda!“.

* poeta, compositor e professor universitário, é autor de “Paisagem Feita de Tempo” (ed. do autor, 2006)

duas no jp de ontem

1.

no check in, do diário de bordo de vanessa serra, em itálico, abaixo:

Tião Carvalho veio a São Luís para lançar “Tião Canta João” (Por do Som, Atração, 2006, R$ 20,00). Zema Ribeiro aproveitou a ocasião e o entrevistou, registrando para o Overmundo. Leia entrevista clicando no link: http://www.overmundo.com.br/overblog/tiao-na-praia-de-joao.

2.

texto nosso [finalmente ilustrado], na primeira classe, jp turismo. sobre o novo disco da “melhor cantora do mundo em todos os tempos”, coisa que eu não digo lá:

Um grande achado da música brasileira

“Quem estiver atrás de um grande amor, achou!”, afirma corretamente, a faixa-título do novo disco de Ceumar e Dante Ozzetti. “Quem estiver atrás de um grande disco de música popular brasileira, achou!”, afirma/avisa o colunista.

por Zema Ribeiro*

A mineira Ceumar chegou à São Paulo em 1995. Lá, encontrou o maranhense Zeca Baleiro, que quatro anos depois viria a produzir seu disco de estréia, “Dindinha” (nome da música do compositor-produtor-padrinho que abria o disco). Talentosa e sensível, ali estava uma real novidade no cenário feminino da música popular brasileira, acercou-se de gente boa – o próprio Zeca, Chico César e Itamar Assumpção, entre outros, além da banda que a acompanha – e ganhou o país.

Com poucas aparições televisivas e reduzido fã-clube – não que não tenha qualidade para isso, muito ao contrário – Ceumar era tida como a melhor intérprete do último festival de música popular produzido pela TV Cultura; ficou em segundo lugar, o que revoltou os poucos, mas fiéis, fãs. Dante Ozzetti, o compositor da música – em parceria com Luiz Tatit – acompanhava a mineira ao violão. “Achou!” – a canção – batizou o terceiro disco da musa de Itanhandu, todo composto por Dante e parceiros: dele e Tatit são sete, e há ainda as letras de Zeca Baleiro, Zélia Duncan, Chico César, Alzira Espíndola e Kléber Albuquerque.

Com exceção da faixa-título, todas as músicas de “Achou!” [MCD, 2006, R$ 20,00] foram compostas por Dante Ozzetti entre janeiro e fevereiro de 2006, especialmente para o disco, o que lhe garante unidade, mas nunca mesmice ou chatice. As características acústicas de discos anteriores dos dois – antes deste “casamento” musical – permanecem vivíssimas aqui, linda e ludicamente ilustradas por Jaime Prades.

Pela capa colorida, não se engane: não se trata de um disco para crianças, como os tons podem/parecem sugerir. Mas é muito provável que você vire criança, deslumbrada com um brinquedo novo, ao ouvir este novo disco de Ceumar e Dante Ozzetti. É pra acionar o repeat do cd-player, sem preocupações: ao contrário dos brinquedos infantis, este prazer aqui não envelhece. Nem enfeia.

*correspondente para o Maranhão do site Overmundo