LEI SECA

Achei meio (meio?) exagerada a lei 11.705, publicada no Diário Oficial da União do último dia 20 de junho, que dispõe sobre a proibição total da ingestão de bebidas alcoólicas por motoristas (antes de dirigir, diga-se).

Vá lá, conheço bem os malefícios do álcool e se fosse contar histórias, lembraria rapidamente de dúzias delas: acidentes, mortes e o diabo a quatro e a catorze. Mas não creio que duas latas de cerveja façam mal a ninguém. Conheço péssimos motoristas que sequer bebem.

Não, não estou fazendo apologia ao álcool ou a dirigir embriagado.

Gostaria que fosse diferente, mas pensem comigo: isso não gerará uma altíssima carga, uma indústria, digamos, de propina? Sim, sairá bem mais barato molhar a mão de guardas e agentes com, sei lá, cinqüenta reais, que pagar uma multa de mais de 900, além da perda da carteira.

Sobre álcool, acho ridículo, para dizer o mínimo, a proibição da venda de bebidas alcoólicas próximo a estádios de futebol, por exemplo. Parece que dessa já recuaram, não é Susalvino?

Outra ridicularidade anti-alcoólica é a lei seca que impera em dia de eleições. Gosto de votar e dia de eleição para mim é feriado. Vou votar, sempre. E o resto do dia, eu fico fazendo o quê? Manter a lucidez para votar? O que tem de gente que cumpre a lei e vota mal não ‘tá escrito.

Bom, depois dessas, só tomando uma (sem dirigir depois, é claro!). Ou rindo com o sempre ótimo Tulípio. Fiquem com ele!

MOINHO DE ROSAS, PÉTALAS, PÉROLAS, CANÇÕES

Datas redondas, naturalmente, evocam celebrações das mais diversas. 2008 é repleto delas, uma, o centenário de nascimento de Cartola (1908-1980), dos mais geniais compositores brasileiros em todos os tempos.

Tributos ao bamba de Mangueira certamente pipocarão aos montes, ao longo do ano. Corrijo-me: tributos ao bamba mangueirense têm pipocado aos montes. Já ouvi falar de alguns, por vezes meros caça-níqueis.

Por fora da onda, da “moda”, merece especial atenção, pela qualidade no trato das canções de Angenor [Lua Music, 2008] – nome de batismo de Cartola que acabou por batizar o projeto –, de Cida Moreira.


[Capa. Reprodução. Clique sobre para comprar o disco]

O repertório não fugiu dos clássicos – estão lá Alvorada, Cordas de aço, O mundo é um moinho, Sim – mas trouxe canções menos óbvias do repertório do homenageado: A canção que chegou, Evite meu amor e Feriado na roça, entre outras.

A bela voz de Cida Moreira tem o acompanhamento dos violões de Camilo Carrara (cavaquinho em Acontece e Sala de recepção) e Omar Campos (baixo elétrico em Sim, viola caipira em Feriado na roça), da percussão de Adriano Busko e do contrabaixo de Renato Loyola, com participações especiais ali e acolá: Julia Porto (voz em Alvorada), Chiquinho de Almeida (clarinete em A canção que chegou e Acontece), Oswaldinho (acordeon em Feriado na roça), Marcelo Fonseca (voz em O silêncio de um cipestre) e Toninho Carrasqueira (flauta em O inverno do meu tempo), entre outras.

Cantora experiente – seu primeiro disco é de 1981 –, já com outros tributos na bagagem (Brecht em 1988 e Chico Buarque em 1993, além de Na trilha do cinema, de 1997), Cida Moreira está à vontade nas canções de Cartola, que, no caso, não ganham tão somente uma nova gravação, embora a cantora se poupe (e aos ouvintes) de quaisquer exageros.

Simples e eficiente, plástica e musicalmente. Belo, enfim. Singelo como a própria obra de Cartola. Angenor, o disco de Cida Moreira é, sem dúvidas, um tributo à altura da genialidade desse grande mestre de nossa música popular.

CHUTE(S) NO(S) CONSUMIDOR(ES)

Detesto lojas em que vendedores/as brigam entre si. E o comércio ludovicense está empestado delas, a Vidal um exemplo clássico: é quase certo eu ver uma discussão “pública” entre vendedores/as todas as vezes em que vou ali.

Sábado, entro no Varejão dos Calçados, apenas acompanhando minha namorada, que iria comprar uma sandália – acabei saindo com um par de tênis e ela com dois pares de calçados, adianto-lhes o fim da história.

Entramos na loja e Fulana (como chamaremos a primeira vendedora que nos abordou) oferece-nos seus préstimos. “O preço que vale é o da placa”, ela diz, avisando-nos que mesmo que o preço na peça fosse maior, valia, óbvio, o menor. Continuamos olhando e minha namorada não se decidia. Quando se decidiu, Beltrana (como chamaremos uma segunda vendedora) foi buscar o que lhe foi solicitado e efetuou-nos a venda. Fulana, sem se conter – e uma discussão envolvendo duas outras Cicranas já tinha rolado – ainda nos abordou: “vocês não me procuraram”. O ó, como dizem. É claro que há lojas – de discos, quando elas existiam, por exemplo – em que prefiro ser atendido por um vendedor específico: ele já sabe meu gosto, já me indica um lançamento etc.; numa loja de sapatos, não é(ra) o caso.

Após um contato entre uma loja e outra, por telefone, ainda armaram uma troca, já que eu havia trazido um tênis que não chegaria a ficar apertado, mas também não é o necessariamente confortável para quem, como eu, costuma caminhar algo em torno de três quilômetros diários (divididos em três fatias). Cheguei na loja B e o prometido tênis não existia. Uma ligação para a loja C e nada de tênis. Voltando à loja A, disse que ia experimentar e, se fosse o caso, iria fazer a troca. “Pode me procurar”, disse Beltrana. Nesse caso, é claro que eu procuraria.

Fiquei com o tênis pelo preço, a promoção valia a pena. Só preços baixos me fazem agüentar baixarias entre vendedores/as.

Ilustra este post, capa do disco de Lô Borges que tem os tênis mais clássicos da música popular brasileira.

CONVERSA PARALELA

Outro grande show a que assisti na temporada junina ludovicense, sem dúvida, foi o da Maria Preá, o bando, a banda, vocês decidem. Fui ao da Nauro Machado, na sexta-feira (27). Um bom público para o horário – eles subiram ao palco algo em torno de 19h15min –, comportado, vibrando com a eletrificação de pontos de tambor de mina e o repertório a base de maranhenses (Cesar Teixeira, Josias Sobrinho, Dibell, João do Vale e outros) mais o Juriti do Liga-Tripa brasiliense e o mineiro Caxangá de Milton, como, de nascença, Laetícia Madsen – “mas podem me chamar de Maria Preá”, ela disse, a certa altura da apresentação –, ela, cidadã do mundo, para citar verso de Josias de música que ela não cantou.

Minha memória fez paralelo com outro show que vi em São Luís, há um bocado de tempo: o Jogos de Armar, de Tom Zé. A semelhança: no do baiano, passei a apresentação inteira conversando com Dona Neusa, sua esposa e memória; no da Maria Preá, conversei quase o tempo inteiro com Márcia Navai, produtora da banda, do bando. Na verdade, já havia trocado alguns e-mails com ela, por força da divulgação do trabalho do grupo: quando escrevi sobre o disco, quando divulguei alguma apresentação e agora estas que fizeram por aqui no período junino. Vi um rapaz com uma pilha de discos na mão. “Quem é Márcia Navai?”, perguntei, e ele me indicou uma moça que fotografava: “É aquela ali de mochila nas costas“. Fui até ela, apresentei-me. Papo vai, papo vem, a mim, pareceu, éramos amigos de infância, atenção dividida entre o show e a boa conversa.

Rios, pontes e overdrives, no bis, porção manguebit da world-girl, encerrou a apresentação da turma e o nosso papo – que certamente continuará noutras ocasiões e canais. Eles iriam ao Armazém, para uma apresentação, mais tarde. Eu, com outra turma, fui à Feira da Praia Grande, recarregar as baterias: a noite é uma criança e muito ainda havia por ver dos festejos juninos maranhenses.

DE ONTEM

O carioca Noel Rosa e o maranhense Cesar Teixeira: acima de tudo, dois dos mais importantes compositores brasileiros em todos os tempos.

Um não deve nada ao outro, nem em termos de qualidade nem de quantidade, e neste duelo misturado com dueto com que nos brindará Zeca do Cavaco, um dos grandes intérpretes da música brasileira, vocês perceberão que, nesse jogo que terminará empatado, os vencedores são vocês, que nos honram com suas presenças, abrilhantando o Projeto Clube do Choro Recebe.

Noel Rosa de Vila Isabel, Cesar Teixeira do Beco das Minas: dois compositores do mundo.

Se um tem Feitiço da Vila, outro tem Flanelinha de avião; se o primeiro tem Feitio de oração, o segundo tem Oração latina; se, de Noel, Zeca canta Pela décima vez, Das cinzas à paixão, de Cesar, não faltará ao repertório.

A todos que vestem a camisa do projeto, aos patrocinadores e a vocês, presentes, nosso muito obrigado!

Neste jogo só tem gol de placa! Noel tabela com Cesar, e Zeca do Cavaco marca! Impedimento? Vocês tiram a teima!

[Ontem, o Regional Tira-Teima já se apresentava quando cometi o texto acima, às pressas, a pedido de Ricarte, que apresentou o convidado Zeca do Cavaco lendo-o. Cesar Teixeira marcou presença.]

*

Ontem foi aniversário de Reuben, e aqui a gente dá os parabéns atrasados. Sucesso, mano! Um grande abraço!

LOGO MAIS

O aspecto gráfico certamente não é o meu forte. Primeiro, por me preocupar mais com o texto, embora a forma também possa ser texto, não é?; segundo, por não dominar as ferramentas. Sei: é quase inadmissível e vou resolver isso em breve. Enquanto isso, me viro com o power-point para fazer coisas como o “cartaz” que colo abaixo.

Mais aqui. Apareçam!

SEIS CHANCES

3

Os ingressos para o show da Maria Preá no Armazém, anunciado posts abaixo, custam apenas R$ 5,00, o que é uma boa notícia, ingressos tão baratos para um show certamente tão bom (a julgar pelo disco, já que ainda não vi a turma ao vivo).

Ótimas notícias são as duas apresentações que o bando de Maria Preá, a banda, no caso, fará, às 19h: hoje, na Praça Nauro Machado; amanhã, na Praça Maria Aragão. Grátis.

São três chances que você (e eu) não pode(mos) perder.

+ 3

Personagem já lendária da paisagem sentimental (leia-se etílica) de estudantes da Faculdade São Luís e do Cegel, Tia Áurea, como é conhecida a proprietária da Bat Caverna, fica no ponto atual (ao lado da faculdade, em frente ao colégio) somente até este fim de semana. Irá para um ponto próprio (não quis, ontem, quando nos encontramos, me dizer, já, onde é), após passar quinze dias de “férias” em casa.

Batmans e batgirls ficam, ao menos temporariamente, órfãos: Áurea garantiu que o novo ponto é por ali mesmo, por perto.

São três chances de tomar a última cerveja no futuro mais novo, pasmem!, estacionamento de São Luís: hoje, amanhã e domingo (sim, em domingo de concurso público a Bat Caverna abre).

UMA NOITE E OUTRA

Há uma diferença abissal entre o Criolina e o Bumbauê. Isso pode soar o óbvio ululante aos leitores – poucos mas fiéis – habituais deste blogue. Mas pode soar esquisito a quem porventura tenha caído aqui via google, digitando o nome da segunda banda, por exemplo.

Já assisti aos dois shows nesta temporada junina em São Luís. Ambos eletrificam a música popular maranhense, “modernizando”-a. E as semelhanças param por aí.

Alê Muniz e Luciana Simões usam as referências da cultura popular do Maranhão para construir sua obra, conceito já traduzido em seu disco Criolina, sobre o qual já escrevi cá no blogue. Pepê Jr., o homem à frente do Bumbauê, não passa de maria-vai-com-as-outras, adaptando-se aos períodos: se é carnaval canta marchinha carnavalesca, se é São João, vai de toada, se é fora de época, vai de micareta.

É interessante, para dizer o mínimo, numa apresentação do projeto Criolina, ouvir a introdução do reggae Is this love? (Bob Marley) e depois, com o acompanhamento instrumental do ritmo jamaicano, um autêntico João do Vale (salvo melhor juízo, era Na asa do vento).

É chatíssimo, para dizer o mínimo, ouvir um pot-pourri de toadas clássicas do bumba-meu-boi do Maranhão: Boi de lágrimas (Makarra), Boi da lua (Cesar Teixeira), algo do Barrica, um “ponto” de tambor-de-crioula, até iniciar-se o chamamento para uma quadrilha ao som do Frevo mulher (Zé Ramalho).

Lembrei-me de certo “toque” do José Teles (já republicado por aqui; Toques é o nome de sua coluna no JC), que estranhava o fato de jovens não dançarem ao som da saudosa Marinês, um dia, num festival de forró (ou algo que o valha), mas dançarem noutro ao som de algum não-sei-o-que-que-tem-lá do forró: a cantora da “sua gente” não ficava, de cima do palco, comandando o rebanho: bunda pra lá, bunda pra cá, tira o pé do chão!

Certo, a quadrilha do Bumbauê “arrebanhou” uma porção de gente; no show do Criolina, era um casal aqui, outro acolá, e um doidinho dançando solto no meio da praça. São João é alegria? É. E eu não posso ser/estar/ficar alegre parado? Ou dançar só se tiver vontade e não por alguém estar ao microfone fazendo gracinha (sem graça nenhuma)?

Enquanto o Criolina tem um trabalho autoral, liquidificando as influências recebidas – dos cantadores de tambor de crioula de nossa terra ao Led Zeppelin, entre outras –, o Bumbauê (que pode mudar de nome de acordo com a festa: sambauê, bundauê ou outro auê qualquer) limita-se a fazer cópia barata do axé baiano no que ele tem de pior, cadê o grito da galera?

No final das contas, nem dá para comparar. Enquanto um é remédio de bicheira (seus ouvidos, livre-os de larvas), outro tem compromisso apenas com encher a própria burra.

TRABALHADORES RURAIS SOFREM AMEAÇA DE MORTE EM MAGALHÃES DE ALMEIDA

Conflito entre posseiros e suposto herdeiro/proprietário tem se acirrado. Casa de trabalhador rural foi incendiada.

A Cáritas Brasileira Regional Maranhão e a Rede de Intervenção em Políticas Públicas (RIPP) encaminharam correspondência ao Superintendente Regional do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária no Maranhão (INCRA-MA), Sr. Benedito Pires Terceiro, solicitando que o órgão proceda a vistoria – já marcada e desmarcada por duas vezes, a última, dia 24 do corrente, data da correspondência – na Fazenda Bebedouro de São Pedro, em Magalhães de Almeida/MA, distante aproximadamente 400km da capital.

Há um quadro grave de conflito agrário instalado na localidade: cerca de cem famílias de trabalhadores rurais que vivem, produzem e tiram seu sustento há pelo menos 40 anos daquela área estão na iminência de serem expulsos dela por um suposto herdeiro/proprietário, que atende pela alcunha de Neutinho. O clima tem se agravado, chegando a ameaças de morte – denunciada à Cáritas pelo trabalhador Lourival Brandão – e o recente incêndio da residência do trabalhador Zevandro, presidente da Associação de Moradores daquela área.

“O INCRA desmarcou a vistoria alegando que a terra não possui os limites mínimos para a desapropriação, o que só pode ser aferido por uma visita in loco de uma equipe técnica. Saber se a área realmente tem só os 960ha apresentados em escritura pelo suposto proprietário e, a partir daí, constatar os elementos necessários para uma possível desapropriação: tamanho da área, produtividade, função social, entre outros, evitando assim o agravamento do quadro e uma iminente tragédia com derramamento de sangue daqueles trabalhadores rurais”, afirmou Ricarte Almeida Santos, Assessor de Políticas Públicas da Cáritas Brasileira Regional Maranhão e Coordenador Executivo da RIPP.

As organizações que assinam a carta encaminharão cópia da mesma às Secretarias de Estado de Segurança Cidadã e de Direitos Humanos e à Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República.

[release encaminhado há pouco aos meios de comunicação maranhenses]

A SÉTIMA DOSE

Tenho o maior prazer de colaborar com as edições virtuais do Tulípio. Boa nova: o número 7, impresso, já está nos botecos. De Sampa, Rio e Belém. Aí eu me pergunto: quando é que alguém trará Tulípio para ser distribuído em São Luís?

Recado dado, longa vida ao Tulípio! Um brinde! Maiores informações aí do lado, nos blogues do Tulípio e de um de seus autores, o amigo-gênio Paulo Stocker (ele desenha e Eduardo Rodrigues faz o texto). Agora é com vocês!

PROMOÇÃO E PARABÉNS

É no mínimo um cacófato o título desta promoção da Rádio Mirante FM, com que me deparei em página inteira ao ler hoje O Estado do Maranhão de ontem. Não me perguntem: eu não sei pronunciar isso.

*

Nossos parabéns ao genial João Pedro Borges, que completa hoje 37 anos. De carreira. A brincadeirinha foi feita por ele e Ricarte Almeida Santos, no Chorinhos e Chorões de ontem, que prestou antecipada homenagem ao primeiro. Se você perdeu, um resuminho: o violonista maranhense apresentou trechos de concertos realizados na França e no Teatro Arthur Azevedo (com participação especialíssima da cantora Célia Maria). Depois, o Regional Tira-Teima, ao vivo, com Zeca do Cavaco, apresentou choros instrumentais e composições de Noel Rosa e Cesar Teixeira em uma amostra do que será o projeto Clube do Choro Recebe de sábado que vem. Não perca!

LAPTOPS MARAVILHA

Quando eu passo pela rua/ tem sempre um homem que diz/ olha meu bem, estou na sua/ você é a mulher que eu sempre quis/ vejo você no meu futuro/ contigo quero me casar/ amor eu juro, juro, juro/ resolva logo me aceitar// Se ele pudesse me ver nua/ e notar toda a diferença/ ao perceber minha natura/ talvez chutasse o que ele pensa// Me daria um castelo/ pra comigo ficar/ deixaria sua mulher/ e partir comigo já// Não me chame de madame/ sem saber o que diz/ eu não sou uma dama/ eu sou travesti// A mentira no meu corpo/ que você levar pra cama/ a verdade em minha alma/ se transforma no meu drama/ sou assim de dia/ sou assim de noite/ travesti do teu amor/ travesti do teu açoite// Eu sou o que você quiser/ estou pro que der e vier/ sou o que você bem pensar/ eu fui feito para amar/ sei guardar o teu segredo/ pode confiar sem medo/ no altar da heresia/ eu sou a tal da filantropia/ travesti, travesti, travesti

Acima, transcrição (de ouvido) de Travesti (Claudia Wonder e Laura Finocchiaro), uma das letras engraçadinhas e pouco preocupadas com o politicamente correto do disco de estréia de Claudia Wonder & The Laptop Boys, o FunkyDiscoFashion (Lua Music, 2007).


[Capa. Reprodução]

Vá lá, funk não é algo que me agrade tanto (na verdade, em geral, desagrada bastante, salvo honrosas exceções, quiçá nem consideradas “funk” por quem ouve “créus” e vê “mulheres melancias”), disco idem (detesto boates) e o mundo fashion é geralmente nojento. Mas Claudia Wonder reúne estes elementos no triplo título e no conteúdo de seu disco e faz algo no mínimo engraçado.

Há momentos em que, encoberta pela sonoridade eletrônica (Godoy Jr.: laptop, emulador e produção musical; Panais Bouki: laptop, projeções e produção visual; Paula Preta e Adriana Pires [do Fulerô o Esquema]: backing vocals), não consigo ouvir direito a voz de Claudia Wonder (ela compõe quase 100% do disco), algum erro na transcrição da letra que abre o post é possível.

Os títulos das faixas, por si só, já são engraçados: Atendimento (onde ela canta: “não, isso eu não faço!”), Mulher do balcão (“olha a mulher do balcão/ que toma champanhe/ e bebe pinga com limão”), Ursinho misterioso e Funk da frígida, entre outras, além de uma releitura eletrônica de Besame mucho (Consuelo Velasquez), um dos grandes momentos do disco.

Não dá pra levar a sério, e nem sei se é essa a intenção do mito da cena underground paulista desde a década de 70, que liderou banda (com o nome sugestivo de Jardim das Delícias) nos 80, morou na Europa nos 90, e nos diverte agora, quase finzinho dos 00.