três

na verdade, quatro, mas um já foi (re-)publicado por aqui anteriormente: “o barulho da navalha na veia da literatura” saiu, ontem, no diário da manhã.

abaixo, três textos meus, os dois primeiros publicados no número dois do colunão, que chegou ontem às bancas e assinantes (alô!: assine já, ligando para (98) 3235-5530).

o primeiro, uma nota sobre o prêmio visa de música brasileira, publicada (sem assinatura) no senadinho, seção de “idéias & toques sem muita formalidade” do colunão (alô!: mande sua idéia ou toque para wr.walter@uol.com.br e/ou zemaribeiro@gmail.com).

o segundo, “o des-exílio de tom zé”, fiz para a página de cultura, editoria que começa a se desenhar no semanário independente e que, neste segundo número, conta com a presença ilustríssima de joãozinho ribeiro. o trecho em itálico do texto não foi publicado no jornal, por conta de espaço; vai aqui com exclusividade para os leitores do blogue, espécie de bonus track.

o terceiro, um desabafo, um tanto quanto piegas e mal-escrito, motivado pelo assalto que sofri, acompanhado da namorada na quinta-feira última. alô: (alô o quê?) estou sem celular; para me encontrar: e-mail e/ou caixa de comentários deste blogue. estou tentando resolver logo o problema e em breve aviso amigos e inimigos por aqui.

1.
Chamada aos músicos

A nona edição do Prêmio Visa de Música Brasileira está com inscrições abertas. O já tradicional prêmio é fruto de uma parceria entre a administradora de cartões de crédito e a Rádio Eldorado, e hoje é reconhecido como um importante espaço de fomento à criação musical no país. A edição deste ano premiará compositores (a categoria muda a cada ano, podendo premiar também cantores e instrumentistas etc.). Podem se inscrever artistas de todo o país. Os trabalhos devem ser enviados via internet ou correios até o dia 22 de maio e a premiação pode chegar a até R$ 110.000,00 (cento e dez mil reais, valor bruto com imposto de renda a ser deduzido na fonte e CPMF a ser recolhida pelo banco), além do contrato para a realização de um disco pela Gravadora Eldorado. Outras edições do prêmio já contemplaram nomes como Chico Saraiva, Mônica Salmaso, Renato Braz e Yamandu Costa, entre outros. Não há necessidade dos trabalhos serem inéditos. Para ler o regulamento, ficha de inscrição e maiores informações, acesse http://www.premiovisa.com.br

2.
O des-exílio de Tom Zé

“Nave Maria”, único disco de Tom Zé ainda não reeditado em cd chega finalmente ao mercado em formato digital; na série Som Livre Masters, pelas mãos de outro bruxo: Charles Gavin, incansável garimpeiro de sons brasileiros.

É inegável e impagável a contribuição que o titã Charles Gavin tem dado à música popular brasileira nos últimos anos. Iniciado com o relançamento de diversos títulos em cd, os famosos dois em um (dois elepês em um cd), recolocaram nas gôndolas das lojas de discos e de departamentos, nomes como A Cor do Som, Belchior, Guilherme Arantes, Novos Baianos, Secos e Molhados, Tom Zé e Walter Franco, entre outros. Os discos (cd’s) reproduzem as artes dos encartes originais, com a limitação imposta pelo novo formato.

“Fuçando”, literalmente, os arquivos da Som Livre, Gavin acaba de recolocar à disposição do público – em parte saudoso, em parte curioso, noutra parte ávido por bons sons, tão raros hoje em dia – vinte e cinco títulos de diversos artistas brasileiros importantes.

Acaba de me chegar às mãos o único título de Tom Zé lançado na década de oitenta do século passado, “Nave Maria” (1984). Incrível como o “gênio de Irará” – seja isso o que for: clichê, lugar-comum, chavão – possa ter ficado tanto tempo no ostracismo – outro clichê, chavão, lugar-comum, quando se fala dele –, entre o lançamento de “Correio da Estação do Brás” (1978) e o de “Brazil Classics 4 – The Best Of Tom Zé” (1990), após David Byrne tê-lo (re)descoberto para o mundo.

A história: em fins da década de oitenta, David Byrne, em visita ao Brasil, comprou dezenas de discos de música brasileira, levando entre eles o “Estudando o Samba” (1975), de Tom Zé. Ouvindo-o, achou genial, organizou a coletânea citada e, pela Luaka Bop, gravadora do ex-Talking Head, (re)colocou o baiano – que quase desiste da música para ser frentista no posto de gasolina de um sobrinho em sua terra natal – nos estúdios. De lá para cá, Tom Zé é namorado pela imprensa nacional e mundial, celebrado que é, a cada lançamento que faz, pós-carreira americana.

Inacreditável ostracismo – Quem diz não crer/entender n/os motivos que relegaram Tom Zé ao ostracismo, tem boas razões. Senão vejamos este relançamento. A faixa-título, que abre o disco, está na coletânea organizada por David Byrne, celebrada por cabeças pensantes ao redor do mundo e Brasil afora/adentro. E diversas outras faixas já foram regravadas, no todo ou em parte, pelo próprio Tom Zé – plagiocombinador de si mesmo – em discos pós-EUA: “Su Su Menino Mandú” teve trechos melódicos usados em “Defeito 14: Xiquexique”, parceria com letra de José Miguel Wisnick e voz de Arnaldo Antunes em “Com Defeito de Fabricação” (1998); “Identificação” ganhou roupagem voz e violão e teve versão ao vivo incluída em “Imprensa Cantada” (2003); “Conto de Fraldas” foi regravada por Tom Zé em “Jogos de Armar – Faça Você Mesmo” (2001) e no homônimo disco de estréia do Tianastácia (2000), prova de que nem só de skanks e jota-quests vive o pop mineiro contemporâneo.

Em “Nave Maria” já aparece a idéia dos arrastões: classificações dadas pelo autor de “São São Paulo” baseadas no trabalho anterior de outro(s) compositor(es) (lá ainda não citados). O disco é feito, pois, de bugue-samba, baião-xaxá, baião-barbeiro, sambatutu, baião-través, fanque-enredo e frevo-roque.

A “cozinha” é sempre boa companhia: além do compositor, aparecem como instrumentistas no disco, Reinaldo Barriga (violão), Milton Belmudes (violão, cavaquinho e percussão), Oswaldinho do Acordeão (um dos maiores sanfoneiros do país), Sérgio Sá (de Sá, Rodrix e Guarabira, depois só ele e o último, teclado), Silvia Maria e Eliana Estevão (vocais); por lá também Charles Furlan (baixo, cavaquinho e teclado; com ele Tom Zé gravou “No Jardim da Política” (1998), vozes e violões) e Lauro Lélis (bateria e percussão, ainda hoje na banda do “Tropicalista lenta luta”).

O que o levou ao ostracismo, ninguém sabe. Mas que bom que ele conseguiu sair dessa. Vivo. Ave, Gavin! Nave, Maria! Sem instante, maestro! Viva, Tom Zé!

3.
Eu e minha namorada vestidos de utopia

A reação era praticamente unânime entre amigos e familiares: “mas vocês vacilaram!”, “o trecho ali é perigoso…”, “São Luís tá um perigo…” e por aí vai/ia (vaias para nós, “chapéu de otário é marreta”, hein?). Tudo vai/ia (de novo!) contra a minha opinião, cheia de certeza: a Ilha é uma cidade pacata, como não poderia não ser uma província. E falo isso sem nenhum ranço de ódio ou qualquer outro sentimento negativo em relação à terra natal, ilhéu convicto que sou.

O fato: minha namorada e eu caminhávamos pela Rua Grande – entre a Caixa d’água e o Canto da Fabril, nesse sentido – por volta das 19h do dia 4 de maio, quinta-feira. Eu, atrasado, rumo à aula, na Faculdade São Luís. Ela me acompanhava e de lá iria para casa. Fato absolutamente normal, não? Não fosse a abordagem de um cidadão armado com um revólver que reluzia, apesar da pouca iluminação do local (alô, Cemar!); cidadão esse que era esperado por outro, montado numa bicicleta, do lado oposto da rua. Após “rasparem” minha pochete e a bolsa da namorada, pedaladas tranqüilas os levaram rumo ao Diamante. Na pochete e na bolsa: celulares, dinheiro e documentos.

Minutinho depois, surgem, no sentido Canto da Fabril-Caixa d’água, duas motos do grupo de choque da Polícia Militar: informados por nós sobre as características do homem armado e seu companheiro ciclista, pediram-nos que esperássemos e partiram em busca dos dois, nada encontrando e retornando depois para nos dar esta satisfação e tomar nossos números de telefones, para um eventual contato, já que as buscas continuariam.

Depois de um assalto, é absolutamente normal fazer o relato a conhecidos, parentes etc. e ouvir outros relatos em resposta: “fulano já foi assaltado ali”, “beltrano já foi assaltado assim”, “cicrano, assado”. Todo mundo conhece alguém, ou conhece alguém que conhece alguém que já foi assaltado. Demos sorte, entre aspas, de encontrar as motos com os policiais. Menos sorte tiveram eles – e nós – que não encontraram nossos pertences.

Pelos relatos de parentes, amigos etc., soubemos: todos os dias ocorrem assaltos naquele trecho: além de mal-iluminado, conta com pouco policiamento (alô, polícias civil e militar!, alô, governo do estado!). Algo que deveria ser melhorado, observando-se que aquele pedaço do início do grande shopping aberto ludovicense, é “habitado” por escolas, cursos, faculdade etc. (alô, diretoria e DCE da Faculdade São Luís!, alô, diretores de escolas!, alô, donos de cursos!); os alunos destes, em sua maioria, têm que caminhar rumo ao Canto da Fabril ou à Praça Deodoro em horários inóspitos para tomar ônibus de volta para casa.

Ao registrar queixa para termos em mãos o boletim de ocorrência, a fim de tomar providências necessárias (bloqueio de celulares, segunda via de documentos, constar nas estatísticas etc.), o vazio da delegacia me soava ironicamente engraçado: ninguém na permanência, o telefone começa a tocar; alguém aparece e o atende; nem parecia que estávamos ali; ele pede um instante a quem está do outro lado da linha, vai até a porta, volta. A ligação era para alguém que não se encontrava no estabelecimento no momento, presumi pelo que ouvi pela fala do lado aqui da linha, enquanto espero um segundo aparecer e nos perguntar o que desejávamos… (de novo: alô, polícia civil!, a greve já acabou…)

Este texto é, lógico, motivado pelo que se deu conosco ontem. “Dos males o menor”, prefiro pensar. Bens materiais podem ser recuperados, documentos podem ser re-tirados e, exceto a violência do “berro” apontado em nossa direção e o nervosismo normal do momento, não sofremos (absolutamente) nada.

Não há, de nossa parte, nenhum sentimento de vingança. Não, não ficaríamos felizes se o batalhão pegasse os dois rapazes e os “enchesse de porrada” para recuperar nossos pertences. Mas não deveria ser garantido o direito de ir e vir dos cidadãos, seja lá em que local isso se dê? Idiota, infantil, inocente, utópico, ou o que quer que seja. Nós não desistimos/desistiremos de acreditar – e lutar por – (n)uma sociedade melhor e mais justa. Para todos!

Notas:

1. O título do presente texto, escrito na manhã de 5 de maio de 2006 foi extraído da música “Utopia”, de Chico César, registrada pelo compositor paraibano em seu disco “De Uns Tempos Pra Cá” (Biscoito Fino, 2005).

2. Boca da noite de hoje (vide data que escrevi o texto, nota acima), o ônibus em que minha avó retornava à Rosário, onde mora, foi assaltado: três homens armados levaram pertences dos passageiros. O fato aconteceu por volta das 18h, entre o posto da Polícia Rodoviária Federal (Pedrinhas) e Estiva.

Lena Machado canta no SESC; o Som segue, Mará adentro

Som do Mará

A turma do Som do Mará, leia-se Betto Pereira, Celso Reis, Daffé, Gerude, Josias Sobrinho, Marco Duailibe, Ronald Pinheiro e Tutuca, continua sua turnê pelo interior do estado. Desta vez, chegando às cidades de Santa Inês (hoje, dia 5), Bacabal (sábado, 6) e Pedreiras (domingo, 7). O projeto tem o incentivo do Ministério da Cultura através da Lei Rouanet, com patrocínio da Petrobrás. E mais, vamos avisando por cá.

E quem se apresenta hoje ao meio dia no SESC Deodoro é minha amiga Lena Machado. Para ela, escrevi o release abaixo.

Lena Machado: da missa à mpb

Lena Machado nasceu em Zé Doca, interior do Maranhão, onde começou a cantar; inicialmente, nas missas e celebrações comunitárias; depois, voltada às lutas por um mundo melhor, inseriu-se na caminhada das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). Daí sua relação com a música ter estreitas ligações com movimentos sociais. Talvez por isso, Lena tenha deixado uma carreira mais profissional em segundo plano até hoje, tempo que espera recuperar agora – se é que foi perdido – a partir da insistência de amigos.

Influenciada pelo canto de nordestinos – Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, João do Vale, Cesar Teixeira, Josias Sobrinho – e sambistas – Dona Ivone Lara, Antonio Vieira, Candeia – não pretende, no entanto, rotular-se. “Espero, além de cantar nomes consagrados, ajudar a descobrir novos compositores, que, como eu, ainda não mostraram a cara para a Ilha e para o mundo”, diz.

Lena Machado já participou de eventos e manifestos estaduais e nacionais, mas, em São Luís, onde hoje vive e trabalha na Cáritas Brasileira, suas aparições públicas no cenário musical são restritas. Destaque para o show de comemoração de 26 anos da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos – quando dividiu o palco com os bambas Cesar Teixeira, Joãozinho Ribeiro e Gildomar Marinho – e a abertura do show de Antonio Vieira, na comemoração do Jubileu da Cáritas no Maranhão, ambas no ano passado.

Consciente das dificuldades que músicos enfrentam no Maranhão – e no Brasil como um todo – Lena afirma “acreditar profundamente na capacidade e na criatividade de sua gente”. Sua apresentação no SESC, dia 5 de maio, traduz esse espírito e foi batizado de “Acreditar”. Na ocasião, uma homenagem ao samba, com clássicos maranhenses e brasileiros: Milhões de Uns (Joãozinho Ribeiro), Ray Ban (Cesar Teixeira), Na Linha do Mar (Paulinho da Viola), O Mar Serenou (Candeia), entre outros.

No palco Lena estará acompanhada de um time de primeira linha: Celson Mendes (violão), Júlio Pinheiro (flauta), Arlindo Carvalho e Léo Capiba (percussão).

Serviço

O quê: show “Acreditar”
Quem: Lena Machado (voz), com acompanhamento de Celson Mendes (violão), Júlio Pinheiro (flauta), Arlindo Carvalho e Léo Capiba (percussão).
Quando: 5 de maio, sexta-feira, às 12h
Onde: SESC Deodoro – Área de vivência
Quanto: entrada franca

O que deveria ter sido o Diário Cultural de terça-feira. Ou de hoje.

[O texto abaixo deveria ter sido publicado no Diário da Manhã de terça-feira, 2 de maio. Deveria. O jornal não circulou. Assim, deveria ter sido publicado hoje, que é dia de minha coluna novamente. Deveria.]

O barulho da navalha na veia da literatura

Quase quarenta anos após ser proibida pela censura, “A navalha na carne”, de Plínio Marcos ganha luxuosa reedição graças ao trabalho do Azougue Editorial. A obra, em capa dura e papel Couché Matte reproduzem o mesmo projeto gráfico dos fins dos anos sessenta do século passado. A peça, clássica à época, clássica hoje e sempre.

Quando me chegou às mãos um exemplar de “A navalha na carne” (Azougue Editorial, 2005, preço sob consulta em http://www.azougue.com.br/), do teatrólogo Plínio Marcos, impressionou-me de imediato, a qualidade gráfica do livro: um ensaio fotográfico com a encenação da peça, proibida, em fins da década de sessenta do século passado pela censura vigente à época. O autor, que teria completado setenta anos em 2005, ano de reedição desta obra prima do teatro nacional, subiu em 1999, vítima de diabetes.

Deparo-me com a peça toda fotografada, dentro do livro, e penso: genial. Faço, de mim para mim, elogios a Sergio Cohn, editor do Azougue Editorial – poeta e editora sobre os quais já falei anteriormente. E descubro – embora isso não lhe(s) tire o mérito – que o que vejo ali no livro, existe desde 1968, quando ele, Cohn, nem era nascido.

A idéia de fotografar a peça e publicá-la em forma de livro foi do jornalista Pedro Bandeira, hoje reconhecido autor de livros infantis. Conforme ele explica em “A navalha na carne: história de uma encenação fotográfica”, depoimento publicado nesta reedição do livro: “(…) na época, a censura era feroz contra os jornais, contra o cinema, e principalmente contra o teatro, mas os livros ficavam mais ou menos de fora da sanha controladora dos novos donos do poder. Então… que tal fotografar a peça inteira, usando as artes gráficas, o tamanho do corpo e a forma dos tipos das letras para dar a ênfase necessária ao embate cruel dos protagonistas, uma prostituta, seu cafetão e um frágil homossexual? (…)”.

Mais à frente, no mesmo texto, Pedro Bandeira observará que a coisa não era tão simples como hoje, onde se obtêm resultados como esse mais facilmente, a partir do advento do computador. Fico ainda mais impressionado com a qualidade do projeto gráfico de “A navalha na carne”.

Enredo

A prostituta Neusa Sueli precisa deitar-se com outros homens para garantir seu sustento e o de Vado, seu cafetão, que precisa do dinheiro dela para divertir-se com outras mulheres; Veludo, o homossexual viciado – também – em maconha, que rouba dinheiro dos dois para garantir as atenções de um rapaz e um cigarro de maconha. Uma rede de dependência entre os personagens, estas figuras marginalizadas que existem aos montes no Brasil – talvez por isso, a peça tenha sido censurada à época. Eis o mote da trama, que pode parecer comum, dadas as figuras que a compõem. Mas não é – ou ao menos deveria ser – essa uma das missões da arte: imitar a vida?

Além da montagem fotográfica e do depoimento inédito de Pedro Bandeira, esta reedição de “A navalha na carne” presenteia os leitores com textos críticos sobre o clássico pliniomarquiano, publicados à época de sua proibição – mesmo exibições privadas não seriam permitidas, absurda e abusivamente, à época –, através das penas de Anatol Rosenfeld, Sábato Magaldi, Yan Michalski, Eneida, João Apolinário e Décio de Almeida Prado.

Há obras que se tornam clássicos instantâneos. Neste rol, podemos incluir “A navalha na carne”. Com a palavra, novamente, Pedro Bandeira: “Que bom que você agora pode ver esta edição histórica!”. E luxuosa, acresço.

Serviço – ficha técnica

Com a censura vigente à época, usou-se o artifício de fotografar a peça “A navalha na carne” e publicá-la em forma de livro. A obra é reeditada agora pela Azougue Editorial (http://www.azougue.com.br/, para maiores informações e pedidos, preço sob consulta no site).

A ficha técnica: Walter Hüne (interpretação e realização gráfica), Yoshida (fotografia e laboratório), Fortuna & Cia.ltda. (tipos), Ruthineia de Morais (como Neusa Sueli), Paulo Villaça (como Vado) e Edgard Gurgel Aranha (como Veludo).

algumas

1. hoje é o dia mundial da liberdade de imprensa. no brasil, e especialmente no maranhão, há pouco para comemorar. por cá, agora, há o colunão, que voltou com força.

2. o segundo número do semanário independente editado por walter rodrigues (link ao lado) circula no próximo dia 7; o primeiro teve (ainda alguns) atropelos e falhas, que a equipe está se empenhando em corrigir. a partir da próxima edição, ele ganha regularidade, sendo publicado semanalmente aos domingos. a quem interessar possa, assinaturas podem ser feitas no (98) 3235 5530 e/ou wr.walter@uol.com.br

3. os discos “cruel” (póstumo) de sérgio sampaio e “ode descontínua e remota para flauta e oboé – de ariana para dionísio” (poemas de hilda hilst musicados por zeca baleiro), lançamentos que inauguram a saravá discos já estão à venda em são luís. na livraria poeme-se (rua joão gualberto, 52, praia grande, (98) 3232 4068). custam r$ 35,00 cada. no site, os mesmos estão sendo vendidos a r$ 30,00 + frete.

Vida, amor e morte. Não necessariamente nessa ordem

Breve etílica memória ressacada do lançamento de “Paisagem Feita de Tempo”. A subida de Guilherme de Brito. “Navegar é preciso!”, aí, no texto.

[sábado fui beber com Joãozinho Ribeiro, que nem estava bebendo. Um grupo de amigos reuniu-se em seu apartamento para celebrar seus cinqüenta e um anos. Ele, o amigo Reinaldo (técnico da Receita Federal) e Cesar Teixeira revezaram-se ao violão, lembrando sambas seus e dos bambas citados no Diário Cultural de domingo, abaixo. Ah!, o livro ficou lindo. Quem quiser comprar pode deixar recado aí na caixa de comentários ou mandar um e-mail. Neste e noutros endereços, completei, dia 28 de abril, dois anos de blogue]

“Já sei a notícia que vens me trazer”. Os versos que abrem “Notícia”, de Nelson Cavaquinho, Norival Bahia e Alcides Caminha – ele, o Zéfiro, dos Catecismos, assunto para outra coluna – parecem anunciar a coluna de hoje: leitores adivinharão que escreverei uma lembrança ressacada do lançamento do livro de Joãozinho Ribeiro, sexta-feira última. “Também”, caros leitores, mas não “somente”.

Há vinte anos – em 1986 – o Brasil perdia Nelson Cavaquinho, autor de clássicos como “A flor e o espinho”, “Quando eu me chamar saudade”, “Folhas secas”, “Mulher sem alma”, e “Pranto de poeta” – esta última gravada por Cartola –, entre outras. Um importante compositor (de samba) popular.

Em 2006, quarta-feira passada – uma espécie de quarta-feira de cinzas fora de época –, o Brasil perdia Guilherme de Brito, parceiro mais constante de Nelson Cavaquinho. Parceiro dele em todas as músicas citadas acima. Não li nada no noticiário. Confesso que às vezes até fujo de ler jornais. O motivo? Também é assunto pra outra coluna.

Análise acertada fez Pedro Alexandre Sanches, em seu blogue: o jornalismo cultural é fácil na morte. “Poeta bom, meu bem, poeta morto”, diria Zeca Baleiro.

Com a palavra os parceiros, eles, finados Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito, mais vivos que nunca, na letra de “Quando eu me chamar saudade”: “Sei que amanhã quando eu morrer / os meus amigos vão dizer / que eu tinha bom coração / alguns até hão de chorar / e querer me homenagear / fazendo de ouro, um violão / mas depois que o tempo passar / sei que ninguém vai se lembrar / que eu fui embora / por isso é que eu penso assim / se alguém quiser fazer por mim / que faça agora”.

A morte, tema recorrente em suas parcerias. Ainda que (talvez) Nelson fosse mais dolorido. A filosofia – “barata”, podem dizer uns; “de botequim”, outros –, certeira.

Nelson Cavaquinho é um dos compositores prediletos do também compositor Joãozinho Ribeiro – eu disse que iria abordar o assunto. Joãozinho que tem um pé no samba, outro no choro. Joãozinho que lançou anteontem o livro “Paisagem feita de tempo”. Livro que fala (muito) na morte. Mas que celebra (muito) a vida. Joãozinho que já andou perto dela – da morte –, mas que resiste. A mais recente: na semana anterior ao lançamento, o poeta submeteu-se a um cateterismo. Ainda não foi dessa vez. Ele a quem os médicos deram sobrevida de cinco anos quando, aos cinco anos, descobriram-lhe um câncer, completou 51, ontem. ‘Güenta, João! Parabéns!

A Casa do Maranhão estava cheia na sexta-feira. Enorme sensação de prazer tomou conta de mim na ocasião: além de ver parido um filho que ajudei a fazer – o livro, que se não ajudei a escrever, pronto desde 1985, com uma mexida aqui outra ali dum nunca satisfeito Joãozinho, tem por lá minha modestíssima parcela de culpa –, foi bom – é bom – reunir parte (pequena) da família, reencontrar amigos que há muito não via e/ou outros que vejo (quase) diariamente. Uma pena a namorada ter viajado a trabalho.

A cabeça dói enquanto escrevo. Dois comprimidos analgésicos não resolveram – ainda – o problema. Enquanto escrevo ouço – alto – discos de Nelson Cavaquinho, os “Quatro Grandes do Samba” – eles, Nelson e Guilherme, mais Elton Medeiros e Candeia –, Jair do Cavaquinho e Argemiro Patrocínio, também já falecidos; também assuntos para outra(s) coluna(s).

Deu n’O Imparcial

Eduardo Júlio escreveu o texto abaixo, sobre o lançamento de Paisagem Feita de Tempo, n’O Imparcial de hoje.

O primogênito de Joãozinho Ribeiro

Poeta e compositor lança “Paisagem Feita de Tempo”, seu primeiro livro, composto de um poema distribuído por 100 páginas em que discorre sobre a cidade e suas pessoas

por Eduardo Júlio
da equipe de O Imparcial

Um dos mais importantes criadores e ativistas culturais de São Luís, o poeta e compositor Joãozinho Ribeiro, 51, lança o seu primeiro livro hoje, às 20h, na Casa do Maranhão (Praia Grande).

A obra é composta de um único poema, no qual o autor discorre sobre a sua experiência com as pessoas e a cidade. “É sobre a São Luís que passou por dentro de mim e a que permanece”, explica.

Ele acrescenta que a maior parte do texto foi concluída nos anos 80. “Eu nunca estava satisfeito. Tinha muita relutância em exteriorizá-lo, mas fui convencido por alguns amigos a mudar de idéia. Neste intervalo, aproveitei para acrescentar novos trechos e arrematá-lo”, diz, justificando o longo tempo de gestação do poema.

Joãozinho Ribeiro cita uma frase do poeta alemão Goethe, que trata do início e do fim da atividade literária, para sintetizar e definir o teor da obra: “É a reprodução do mundo que me cerca, por meio do mundo que está em mim”.

Com 100 páginas, Paisagem Feita de Tempo tem apresentação do também poeta e compositor Cesar Teixeira e foi prefaciado pelo renomado poeta curitibano, radicado em São Paulo, Hamilton Faria, que recentemente recebeu um prêmio literário na França.

“O livro é um poema-vida feito fundamentalmente de teor humano. A vida, em suas múltiplas dimensões: a tragédia e o desencanto. No entanto, é preciso esclarecer que é uma obra sobre o reencantamento. Fala muito da morte, mas no fundo, celebra a vida”. Sobre o reencantamento, ele reflete: “É dever de todo poeta, de todo artista, reencantar o mundo. Salvar o sonho”.

Trecho do Poema

Cidade és minha paisagem
Feita de tempo e de mim
Feita de tudo que somos
E do que seremos, enfim

O que já não me cabe
Está de fora
Assim como um pedaço repartido
Do coração que trago dividido
Que embora tu não saibas
Está contigo

O que já não me cabe
Está nas ruas,
Assim como a paisagem que me habita
Feito a vontade infinita
Do teu sorriso
Em minhas mãos aflitas

O que já não me cabe
Está exposto,
Assim como uma culpa, um estandarte,
Que faz da minha vida a minha arte,
E da tua vida
A minha outra parte

O autor

Advogado e professor universitário, Joãozinho Ribeiro tem uma longa trajetória na cena cultural de São Luís. Tem músicas gravadas por dezenas de intérpretes maranhenses e idealizou, recentemente, os projetos Samba da Minha Terra e Serenata dos Amores. No próximo mês, ele coordenará o curso de pós-graduação em Gestão Cultural, pela Faculdade São Luís, na qual leciona. Paisagem Feita de Tempo é o primeiro livro do autor.

Finalmente!

Vencidas todas as tentativas de boicote, sabotagem ou coisa parecida, o Colunão está nas bancas. Nesta primeira edição, uma modesta colaboração deste blogueiro, na seção intitulada Senadinho; conforme a definição do jornal, “idéias & toques sem muita formalidade”. Na primeira edição do semanário em vôo solo, aparecem por lá nomes como Rogério Tomaz Jr., Celso Borges, Ed Wilson Araújo e Guilherme Zagallo, entre outros, além, é claro, do editor Walter Rodrigues (link ao lado).

Vida de azougue

por Zema Ribeiro*

Se ser poeta no Brasil é difícil, ser editor de poesia é tanto quanto ou ainda mais. Utopia? Sonho? Sabe-se lá. O paulista Sergio Cohn – que vive no Rio desde 2000 – conhece os dois lados da moeda – ou do balcão?: editou, entre 1994 e 2004, a revista Azougue, e em 2001, fundou a Azougue Editorial, responsável por publicar escritores como o poeta português Herberto Helder (Os Passos em Volta) e o jornalista/contista/poeta brasileiro Ronaldo Bressane (Céu de Lúcifer). Sergio Cohn escreveu Lábio dos Afogados (Nankin, 1999) e Horizonte de Eventos (Azougue, 2002), e acaba de publicar O Sonhador Insone (Azougue, 2006), título que talvez traduza seu ofício: um poeta tem que sonhar acordado já que “o dever de todo artista é salvar o sonho”, como bem disse Joãozinho Ribeiro, que, por aqui lança sua Paisagem Feita de Tempo sexta-feira que vem [hoje, no caso]. Para comprar livros da Azougue: http://www.azougue.com.br

Convite em forma de breve memória

[Diário Cultural de hoje; a diagramação do Diário da Manhã acabou incluindo trechos de minha coluna anterior, entre o fim do texto e o “Serviço”. Aqui vai, reproduzido como deveria ter sido publicado]

Paisagem feita de tempo. Capa. Reprodução

Ao completar 51 anos de idade, Joãozinho Ribeiro bota no mundo um filho já maior: nesta sexta-feira autografa Paisagem Feita de Tempo, longo poema-lembrança dos logradouros ludovicenses de sua infância/adolescência. Como já dito anteriormente pelo colunista: “Escrito em 1985, ‘Paisagem Feita de Tempo’ insere-se, de já, no panteão sagrado da poesia capaz de fotografar locais de um modo peculiar. Nada deve a um ‘Poema Sujo’ de Gullar, a‘O Cão Sem Plumas’ de João Cabral, ou ao Nauro do ‘Pão Maligno Com Miolo de Rosas’. É, por isso, desde sempre, um poema universal”.

Posso lembrar o dia em que conheci Joãozinho Ribeiro pessoalmente. Foi em março ou abril de 2003, no auditório do Sindicato dos Bancários. Ele, capitaneando um grupo para reivindicar algo pela cultura do Maranhão. Coisa que faz até hoje, incansável. Lembro também da ligação que fiz para Chico Saldanha, dias antes, que me deu o telefone de Joãozinho. Eu precisava de alguma informação para o jornalismo informal que eu cometia à época – nesse aspecto, pouca coisa mudou.

À época, Joãozinho estava envolvido com o projeto Samba da Minha Terra, que tentava democratizar o acesso à boa música comunidades ludovicenses afora. Dezoito locais foram contemplados com o melhor show daquele ano. Ao menos foi o que atestou a Rádio Universidade FM, no maior prêmio da música do Maranhão. O quixotesco projeto levou ainda os prêmios de melhor músico violonista (Celson Mendes, diretor musical do espetáculo, e Francisco Solano) e melhor produção (Vanessa Serra). O escriba aqui, dada a empatia imediata – pelo sobrenome há quem pense que somos parentes biológicos; mais que isso, somos parceiros de copo e alma, um brinde, João! –, assumiu o posto de Assessor de Imprensa do projeto e deu suas modestas contribuições para estampar o “Samba” nas páginas dos cadernos culturais dos jornais de São Luís.

O circuito musical alternativo, que teve o patrocínio da Caixa Econômica Federal, foi um dos raros momentos em que Joãozinho Ribeiro mostrava-se artista para a Ilha pela qual, de certa forma, deixou a carreira artística em segundo plano. Por uma boa causa, é claro: a militância cultural. Militância esta que permitiu que João visse artistas repartindo o pão e a poesia, seja enquanto presidente da Fundação Municipal de Cultura, seja enquanto cidadão comum, “rapaz latino-americano sem dinheiro no banco”, como diria outro compositor.

Para termos uma idéia da importância de discussões sobre cultura e política cultural na vida do poeta Joãozinho – o mesmo moleque do Desterro, técnico da Receita Federal e Professor Universitário: ele agora está à frente da Coordenação de uma pós-graduação em Gestão Cultural, na Faculdade São Luís, onde dá aulas no curso de Direito. Por essas e outras, seu livro Paisagem Feita de Tempo, escrito em 1985 e, portanto, já maior de idade, somente será lançado agora.

Um longo poema, bonito, sincero, relato da infância e adolescência do poeta por logradouros – outrora mais inocentes – da Ilha de São Luís, capital do Maranhão, cidade que pariu o poeta pro mundo, que Joãozinho é isso tudo, sem restrições geográficas.

Nesta sexta-feira, 28 de abril, às vésperas de completar 51 anos – idade emblemática para amantes da boemia – Joãozinho Ribeiro autografa sua Paisagem Feita de Tempo. A festa tem início às 20h, na Casa do Maranhão (Praia Grande) e espera ter o caro leitor como personagem nesta vasta e bonita paisagem.

Com a palavra, o próprio João, em versos do livro: “O que já não me cabe / Está exposto, / Assim como uma culpa, um estandarte, / Que faz da minha vida a minha arte, / E da tua vida / A minha outra parte”.

Serviço

O quê: Noite de autógrafos do livro Paisagem Feita de Tempo
Quem: Joãozinho Ribeiro
Onde: Casa do Maranhão (Praia Grande)
Quando: sexta-feira, 28 de abril, às 20h

Boletim Famaliá

Marcelo Manzatti edita o boletim Famaliá, distribuido via e-mail; para solicitar cutuque em cima do nome do moço. Na edição 30, recebida hoje por este blogueiro, a nota abaixo.

4 – Bumba Boi de Guimarães, sotaque de zabumba, originário do Quilombo de Damásio (MA) no Copa da cultura.

A brincadeira, selecionada para fazer parte das apresentações brasileiras na Alemanha, irá representar a presença negro africana tão marcante no nosso Nordeste…

Estaremos em Munique entre os dias 24 e 29 de maio, com apresentações do Bumba Boi e Tambor de Crioula do Quilombo de Damásio. Serão oferecidas oficinas de música e mesas redondas sobre literatura oral e etnomusicologia, com mediação da profª. Dra. Ana Stela Cunha, lingüista, africanista, atualmente pesquisadora e professora visitante da Universidade de Havana (Cuba) e Centro Cubano de Antropologia.
Muito obrigada!!!
Ana Stela

três, rapidim

1. talvez eu já esteja até ficando enjoado de tanto encher o saco de vocês com isso. mas não é culpa minha, nem do incansável walter rodrigues (link ao lado). o colunão finalmente, depois de tantos atropelos, sai hoje. detalhes (sobre os atropelos), conto pra vocês em breve. assine! saiba como no blogue de wr.

2. sexta-feira, 28, é o lançamento de paisagem feita de tempo, livro-poema belo de joãozinho ribeiro. o convite, aí abaixo. apareçam!

3. meu espaço no uol encheu. ou eu teria que assinar ou apagar posts. como não queria nem uma coisa, nem outra, tou aqui. ainda tive que apagar duas mensagens, reproduzidas aqui, mas enfim…

Diário Cultural de ontem

Entre feriados

Quatro tópicos ligeiros para a terça que inicia a semana do colunista no Diário, após o feriado de sexta e já esperando o feriado da próxima segunda. O colunista tem aproveitado bem – “ótimo!”, ele diz – seus feriados.

Labô no Rio

A turma do Laborarte vai pro Rio. De 27 a 30 de abril, o Tambor de Crioula do Laborarte e o Cacuriá de Dona Teté se apresentam e ministram oficinas no Teatro Cacilda Becker. Os ingressos para as apresentações – 27, 28 e 29, às 20h30min e 30 às 19h – custam R$ 15,00; as oficinas – 28 e 29; Tambor de Crioula às 14h e Cacuriá às 15h30min – custam R$ 30,00. Maiores informações: (21) 2265-9933.

Carioca

Já pode ser comprado no site da gravadora Biscoito Fino, o disco “Carioca”, de Chico Buarque. “Carioca” era o apelido de Chico nos tempos da Faculdade de Arquitetura em São Paulo, onde foi contemporâneo de nosso Chico Maranhão. Trata-se, na verdade, da pré-venda do disco (com entregas a partir do dia 4 de maio), primeiro de inéditas do compositor desde “As Cidades” (1998). No site há a informação de que em breve será vendido um kit, com cd e dvd, sobre o processo de composição de carioca. O preço – do cd simples – faz jus ao nome da gravadora: biscoito fino não é para qualquer um. R$ 36,90. O site da gravadora: http://www.biscoitofino.com.br

Prêmio ABA

A Associação Brasileira de Antropologia (ABA) recebe até 1º de maio inscrições de trabalhos monográficos para o seu 4º prêmio. O tema é “Antropologia e Direitos Humanos: direitos culturais, desigualdades e discriminações”. Os trabalhos devem ter no máximo cinqüenta páginas de texto corrido em fonte times new roman, com espaçamento 1,5. O resultado será divulgado em 14 de junho, e o prêmio pode chegar a até cinco mil reais. Os trabalhos podem ser enviados por e-mail (abaford@ims.uerj.br) ou para Presidência do Prêmio ABA, aos cuidados da professora Maria Luiza Heilborn, Concurso ABA/Ford, Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rua São Francisco Xavier, 524, 6º andar, Bloco E, CEP 20.550-013, Rio de Janeiro/RJ. Editais e maiores informações em http://www.antropologias.com.br

Navegar é preciso!

Volto hoje à série “Navegar é Preciso!”, capítulo perdi as contas. Isso, antes d’eu inventar aqui, e iniciar, a série “Resenha fora de hora”, onde escreverei sobre obras que não acabaram de ser lançadas/publicadas. Hoje recomendo o blogue do Ronaldo Robson, o Naldo. Poesia, opinião, crítica. Eu comentando com um amigo, ao lê-lo: “o legal de blogues é que a gente já não precisa tanto da ‘mídia convencional’”. Ao lerem As Vírgulas de Lilipute (http://asvirgulasdelilipute.zip.net) vocês vão entender o que estou falando.

Diário Cultural de domingo

Elegia Cesariana: o parto poético do músico

O arriscado e destemido mergulho do paraibano Chico César na praia profunda da poesia de fôlego. Em “Cantáteis – Cantos Elegíacos de Amozade”, a declaração de amor por uma amiga, a declaração de amizade pela mulher amada, a declaração de amor e amizade por São Paulo, cidade que adotou o “paraíba” que ganhou o mundo.

Um “paraíba” perante a imponência da arquitetura dos prédios e sentimentos de São Paulo. Sem estranhamento. Admiração mútua, talvez não num primeiro instante. Um sentimento de amor, em vez de platônico, correspondido, enquanto amozade (soma de amor e amizade). Que a amizade não exclui o amor e vice-versa, versa o verso, declaração de amor para uma mulher. E a cidade. A cidade mulher. A mulher que representa a cidade.

1.551 versos, divididos em 141 estrofes compõem “Cantáteis – Cantos Elegíacos de Amozade” (Editora Garamond, 2005, preço sob consulta em http://www.garamond.com.br), poema que Chico César dedica à amiga e parceira Tata Fernandes, ela a representação da mulher paulista/paulistana, o tipo. A mulher que freqüenta o círculo intelectual boêmio da cidade grande, que tem bom gosto literário, musical e – por que não? – etílico.

“Escrevi “Cantáteis” como um canto de amor e amizade a uma mulher, uma musa paulistana. Escrevi movido por esse sentimento híbrido (amozade) e que muitas vezes julgamos formados por partes que se negam: o amor e a amizade.”, conta Chico César, numa espécie de posfácio, no livro. “Escrevi (…) estimulado pela existência e consistência de poemas longos como “Os Cantos” de Erza Pound, “Morte e Vida Severina” de João Cabral de Melo Neto, “Altazor” de Vicente Huidobro. Ou ainda “O Guesa”, de Souzândrade e “A Divina Comédia”, de Dante Alighieri. Sei que o fato desses poemas existirem e pesarem decididamente na balança da literatura universal deveria me silenciar em definitivo. Mas deu-se o contrário. E cometi “Cantáteis”. Atribuo hoje à falta de juízo que acomete os apaixonados. Era como eu me encontrava. E me encontro”, completa.

Escrito em 1993, “Não num só fôlego, como seria mais heróico” – como diz o próprio Chico –, “Cantáteis” foi publicado ano passado, o mesmo 2005 em que o paraibano de Catolé do Rocha pôs na rua o disco mais lírico de sua carreira – “De Uns Tempos Pra Cá”, (Biscoito Fino, 2005, produzido por ele e Lenine) –, iniciada em 1994 com o ao vivo “Aos Vivos”.

Que Chico César é dos mais talentosos e competentes compositores que despontaram no cenário musical nacional – e internacional – nos fins do século passado, é notório e sabido por todos: dos que escarafuncham novidades em busca de coisas boas aos que o conheceram em trilha sonora de novela. Agora, (com)prova “Cantáteis”, que o jornalista de formação – o autor de “À Primeira Vista” e “Mama África” é graduado pela Universidade Federal da Paraíba – é também um erudito poeta popular, dada a facilidade com que parece brincar de pular corda com a tênue linha que separa estas “duas culturas”. Ainda bem que o músico não matou ou silenciou o poeta.

“Cantáteis” é o mergulho visceral e destemido de se cantar o amor por uma amiga, ou a amizade pela mulher amada. É um Chico César que não vai tocar no rádio nem na novela, e talvez por isso não vá fazer sucesso. Mas deveria, alinhado que está, de já, com os poemas citados pelo autor em sua opção por não silenciar.

Serviço

O quê: “Cantáteis – Cantos Elegíacos de Amozade”
Quem: Chico César
Onde: Editora Garamond
Quanto: preço sob consulta no site http://www.garamond.com.br

Sacramento

Marcos Sacramento é um dos mais interessantes intérpretes de samba contemporâneo. Contemporâneo o intérprete, não o samba. Este, atemporal. Vide o repertório de seu Memorável Samba: a música mais “nova” é “Notícia”, de 1955.