Dos terreiros e arraiais aos salões de reggae

George Gomes apresenta Bumba Roots – Volume 01. Capa. Reprodução

 

Se “reggae e boi têm semelhantes passos”, como nos ensinou o mestre Inaldo Bartolomeu, na toada Luzes e estrelas (1997), do Bumba-meu-boi Mocidade de Rosário, George Gomes aprendeu bem a lição.

Ex-Legenda, banda que era considerada a “radiola viva” do Maranhão, o que estava para além de mero slogan, George Gomes integra um seleto time de músicos com rara desenvoltura: o dos bateristas que cantam, o que lhe faz par de astros como Ringo Starr (Beatles), Phil Collins (Genesis), Serginho Herval (Roupa Nova) e Don Henley (Eagles), para citar uns poucos.

Em George Gomes apresenta Bumba Roots – Volume 01, o artista torna reggae 10 toadas clássicas do período junino no Maranhão. As toadas deixam os terreiros e arraiais para frequentar os salões dos clubes de reggae. O resultado é curioso e agradável.

Boi de lágrimas (Raimundo Makarra), Boi da lua (Cesar Teixeira), Engenho de flores (Josias Sobrinho), Tempo de guarnicê (Gerude, Omar Cutrim e Ronald Pinheiro, no disco creditada apenas ao último), Urro do boi (Coxinho), Estrela do chão (Gerude e João Marcus), Lua cheia (Luís Bulcão e Zé Pereira Godão, no disco creditada apenas ao primeiro), Catirina (Josias Sobrinho), Mimoso (Ronald Pinheiro) e A natureza (Lobato), na ordem em que figuram no disco, pintam de verde, amarelo e vermelho o couro do boi.

George Gomes (produção, bateria, percussão e voz) acerca-se de um time que ele chama de Radiola Viva: Edinho Bastos (guitarra), Jayr Torres (guitarra), Davi Oliveira (contrabaixo), Jesiel Bives (teclados), Gabriel Fernandes (flauta) e Rui Mário (sanfona).

Hoje socialmente aceitos, tanto o bumba-meu-boi quando o reggae foram alvos de preconceitos em seus surgimentos por estas plagas: o primeiro era “coisa de negros”; o segundo também, e mais que isso, produto “importado”, portanto “ilegítimo”. Atualmente, são elementos da identidade do povo do Maranhão, com parcelas da população orgulhando-se de um e de outro.

O que George Gomes faz é fundi-los, talvez assim ampliando os horizontes de quem porventura ainda acredite que é preciso negar um para afirmar o outro. Se o nome disco termina em Volume 01, já há a ansiedade por um segundo volume, num futuro tomara que breve. Torno à lição de Inaldo Bartolomeu, que o artista aprendeu, mesmo sem gravá-lo de saída: “o orvalho da miscigenação/ madrugando costumes e compassos/ mestiçando Jamaica e Maranhão”.

Música sem fronteiras

A música se chama Marabaixo, ritmo típico do Amapá. Mas o grande homenageado é o tambor de crioula do Maranhão. A dupla Prettos, formada pelos cantores e instrumentistas Magnu Sousá e Maurílio de Oliveira, seus autores, gravou o segundo videoclipe do disco Essência da origem (2017) entre os Lençóis Maranhenses e o Centro Histórico da capital maranhense.

Magnu e Maurílio, ex-integrantes do Quinteto em Branco e Preto, grupo com relevantes serviços prestados à música brasileira e à preservação da memória de gigantes do universo do samba como Adoniran Barbosa e Ataulfo Alves, entre outros, fazem uma música sem amarras ou limites, sejam rítmicos ou geográficos.

Conheceram o marabaixo numa visita ao Amapá com a cantora Beth Carvalho, apaixonaram-se pelo tambor de crioula no Maranhão e, além dos dois ritmos das culturas populares locais, a faixa, batizada pelo primeiro, é um samba com pitadas de forró.

Beleza musical, beleza feminina: o clipe é estrelado por Deise D’anne, Miss Maranhão 2016, além das bailarinas Thalyta e Isabela Sousa e das coreiras do Tambor de Crioula da Alemanha – o duo Prettos gravou uma apresentação do grupo no São João maranhense, colocando a parelha em diálogo cênico com o cavaquinho e o pandeiro que emolduram versos como “olha a nega é bonita e faceira/ e tem muita tradição/ marabaixo, tambor de crioula de São Luís do Maranhão/ ela gosta de samba de roda, de dançar forró no Cachuera/ ai, meu Deus! Umbigada com ela é brincadeira”.

Sobram ginga e malemolência em samba bonito de ver e ouvir.

Veja o clipe de Marabaixo:

Dadivosa música

Foto: Zema Ribeiro

 

SÃO PAULO – O Palacete Teresa [Rua Quintino Bocaiúva, 22, Sé, São Paulo/SP] abriga a Casa de Francisca, bar que rapidamente se tornou literalmente um templo da boa música. O respeito pela prática é tanto que o serviço de bar e cozinha é suspenso durante as apresentações musicais.

Resultado: conferi a seco o bom show da cantora e sanfoneira Lívia Mattos, com participação especial de Ceumar, que a casa recebeu no último sábado (24) – também é proibido fotografar e, do mezanino, tive que me tornar um contraventor para garantir a foto que ilustra este post, ossos do ofício.

A artista subiu ao palco em uma roupa que lembra o figurino da capa de Vinha da ida, título de seu primeiro disco solo, lançado no fim do ano passado pelo programa Natura Musical – na capa do disco, a sanfona, seu instrumento, é a extensão do corpo de Lívia Mattos, artista de origem circense, como comenta ao longo da apresentação.

Ela é acompanhada de Maurício Paes (guitarra baiana e violão tenor), Rafael dos Santos (bateria) e Jefferson Babu (tuba), formação inusitada cuja soma de talentos converte o palco em picadeiro, para deleite da plateia.

Logo no começo, após um tema instrumental para aquecer banda e público, bota este para fazer o coro “uh, uh!” do refrão de Vou lá (parceria dela com o acordeonista franco-português Loïc Cordeone). Lívia vem da Bahia, onde bebeu nas fontes do circo, da antropofagia, do Tropicalismo e do universo de Glauber Rocha, como ela mesmo revela.

Melodia-a-dia (Lívia Mattos) ela oferece a “todos os circenses”. A música é um tango (circense, frise-se) que versa sobre os ofícios do circo, com o charme da tuba lembrando bandas em coretos de praças de cidades do interior.

Dessa herança circense é que provavelmente vem a força cênica de Lívia Mattos. Sua música é versátil, no tema e na melodia. “Deixa passar o que tiver de passado/ deixa ficar o que restou de sagrado”, diz a letra do xote Deixa passar (Lívia Mattos). Antes de cantar Sabia pouco do sal, gravada com a participação do pianista pernambucano Zé Manoel, contou a história da composição: “a música é a cara dele, eu acho que eu só fiz o download antes. Eu achava que só tinha feito uma parte da música, mandei para parceria, ele disse que tava pronta. Aí eu o convidei pra gravar comigo”.

Sob o céu, sobre o chão (Lívia Mattos) fecha com incidental de Alguém me avisou (Dona Ivone Lara).

Ao chamar Ceumar ao palco, sua convidada especial da noite, lembrou o show que fizeram juntas em 8 de março, Dia Internacional da Mulher, com repertório inteiramente dedicado a compositoras. Ao violão, Ceumar cantou Avesso (Alice Ruiz/ Ceumar), com Lívia Mattos na sanfona, dividindo os vocais. A banda volta a ser ouvida na segunda parte da música.

A anfitriã revela que o bolero Olhos de Teresa (Lívia Mattos) são uma homenagem à sua vó. “Na identidade o nome dela é Teresinha, mas meu avô a chamava de Teresa”, contou, lembrando algumas histórias de um funcionário do cartório local que “acabou com o mapa astral de muita gente”, para gargalhadas da plateia.

“Minha avó era um ano mais velha que meu avô, então na hora do casamento ele alterou a data de nascimento, por que era feio a mulher ser mais velha do que o homem. Um irmão meu nasceu no mesmo dia de outro, anos depois; ele pensou: aniversário no mesmo dia, vai dar confusão, vamos botar que ele nasceu uns dias depois”, contou, sorrindo e fazendo sorrir.

Xote inédito de Ceumar, composto em Petrolina/PE, Você e eu deu prosseguimento ao show, com ela e Lívia Mattos descendo do palco para cantarem dançando mais próximo ao público, ocasião em que a mineira brincou com a longa cauda do vestido da baiana. O público cantou junto o refrão: “ao som do coco, do reisado e do maracatu, maracatu, maracatu/ eu fui dançando e nessa dança eu só pensava em tu, pensava em tu, pensava em tu”.

Finda a participação de Ceumar, Lívia cantou Amarear (Lívia Mattos), faixa que fecha Vinha na ida, ali gravada com a adesão de Chico César – o paraibano, cuja banda a anfitriã integra, estava na plateia, prestigiando o show.

Não presente ao disco, ela cantou ainda Floricanto, da canadense Lhasa de Sela (1972-2008). Em Mais eu (Lívia Mattos/ Jurandir Santana), um provocante diálogo de sanfona e tuba, antes do retorno de Ceumar ao palco após os tradicionais pedidos de “mais um”. Encerrando o show, cantaram juntas O que eu quero levar (Lívia Mattos/ Loïc Cordeone) – cujos versos “viver é dívida/ promessa é dúvida/ o amor é dádiva” bem servem de sinopse do show e da própria dedicação da artista (bacharel em Ciências Sociais) à música – e Vou lá, com a plateia novamente fazendo coro.

Alegria na contramão

Herih. Capa. Reprodução

 

Há força, frescor e originalidade na música de Heriverto Nunes, que agora assina simplesmente Herih – “estou em busca de mais leveza”, afirmou em entrevista a este resenhista e Gisa Franco, no Balaio Cultural de sábado passado (10), na Rádio Timbira AM (1290KHz), programa que apresentamos semanalmente ao meio dia.

Herih tem os dois pés fincados no terreiro, que remete à sua infância, embora sua obra não se limite ao rico universo da mãe África e das religiões de matriz africana – a Herih, o disco, comparecem, por exemplo, o samba (a autoral Só me lembra você (Samba de esquecer) e Bermuda, parceria com Lauande Aires) e o bolero (Do nada o amor, com Tiago Máci).

Herih, o disco, é uma espécie de antologia, dividia em quatro partes: Unplugged, com 10 faixas em que é acompanhado apenas do violão e guitarra de João Simas (que assina arranjos e produção); Olha Pemba, título de seu EP anterior (cujas cinco faixas aparecem aqui na íntegra), com direção musical e violão de João Eudes; Tambor de Mina, com pontos autorais (Nossa Senhora das Graças, Pedra preta, Arranca toco, Marinheiro e Cabocla braba) e de familiares, creditados como Tio Cristiano (Banzeiro do mar e Vovô Artur), Vovó Alenice (Princesa Maria) e Tia Dalvina (Preto velho do Ariri). Nestas nove faixas (gravadas ao vivo, com som captado por Beto Ehongue), o artista conta com a percussão de Mestre Eliezer e Banda Ajayô, além dos vocais de Camila Boueri, Milla Camões e Tássia Campos (o Trio 1, 2, 3, que dia 23 lança EP nas plataformas digitais), além de Mirna Voz. “Amigo é pra essas coisas. Botei as amigas pra cantar uma macumbinha”, agradeceu faceiro, na mesma entrevista.

Completam o rol de 27 faixas os bônus Pra sereia (Banco de areia) (Herih) e Pomba gira cigana, esta adaptada por Herih, incluindo um remix pelo dj Marcone Cutrim.

Na mesma entrevista, ele lembrou-se de um episódio de preconceito, sofrido ao apresentar uma música, por whatsapp, a um interlocutor não identificado que reagiu com um “Deus me livre”, “cruz credo” ou coisa que o valha. Era Seu tranca rua, música de sua autoria, que abre Herih, o disco que lança em show nesta quinta-feira (15), às 19h, no Buriteco Café (Rua Portugal, Praia Grande), com participações especiais de Milla Camões, Tiago Máci, Alex Ferr e Mestre Eliezer – o couvert artístico custa R$ 15,00.

Em tempos de preconceito, ódio e intolerância, a voz, a ginga e as criações de Herih se insurgem contra este triste estado de coisas. Ele personifica o espírito do brasileiro, que não deixa de fazer festa mesmo quando tudo parece conspirar contra.

*

Veja o clipe de Olha Pemba (adaptação de Herih):

Titane percorre as estradas de Elomar

Titane canta Elomar – Na estrada das areias de ouro. Capa. Reprodução

 

Em show amanhã (10), às 21h, no Grande Teatro do Palácio das Artes, em Belo Horizonte/MG, a cantora Titane lança seu novo disco, inteiramente dedicado ao repertório do baiano Elomar Figueira Mello.

Titane canta Elomar – Na estrada das areias de ouro é o primeiro disco dedicado por uma mulher ao repertório do autor de O violeiro, Chula no terreiro, Cantiga do estradar e Na quadrada das águas perdidas, para citar algumas das 10 que ela gravou. O resultado é sublime.

Antes, em 1986, Xangai dedicou ao cancioneiro elomariano Xangai canta cantigas, incelenças, puluxias e tiranas de Elomar [Kuarup]. Recentemente, em 2015, seu filho João Omar gravou o instrumental Ao sertano – Peças para violão solo de Elomar F. Mello.

Sobre Titane canta Elomar – Na estrada das areias de ouro, conversei com exclusividade com a cantora, para a coluna mensal Emaranhado, que assino no site do Itaú Cultural. O texto fruto da conversa será postado por lá por estes dias (este post será editado com o link tão logo aconteça); antecipo a seguir a íntegra da conversa.

Foto: Luiza Palhares

Em sua carreira é a primeira vez que você dedica um disco ao repertório de um único compositor. A responsabilidade é maior?
Dedicar um disco todo à obra de um único compositor é novidade pra mim. Eu tenho, até aqui, feito discos e shows onde a grande variedade, mais que variedade, onde o contraste entre diferentes compositores é muito importante pra mim. Então, por um lado, nos meus shows, eu tenho, por exemplo, um anônimo de Araçuaí, do Vale do Jequitinhonha, ao lado de um Tom Jobim, ao lado do Edvaldo Santana, que é um compositor do subúrbio paulistano. Eu sempre tive muita necessidade desses contrastes pra dizer ao mundo o que eu penso da vida, que é uma vida cheia de contradições, uma cultura brasileira cheia de muitas culturas, um dia a dia que eu tenho que me faz estar em estradas de terra e em grandes avenidas asfaltadas. Enfim, eu sou aquela intérprete que leva recado de um mundo pro outro. Tem sido assim.

Por que Elomar?
Agora eu quis focar em um único autor e acho que fiz isso por que existe o Elomar. O Elomar me permite um recuo de espírito, lá pro fundo da alma humana, aquela alma que existe em todos os tempos, em todos os lugares, em diferentes culturas, então eu recuei pra esse mundo encantado do Elomar, que pra mim é o mundo da natureza humana no que ela tem de mais profundo. E não só profundo, mas inquieto, dolorido e cheio de beleza. Um mundo da natureza humana onde o homem tá sempre buscando entender o sentido da vida.

Diante de um universo tão vasto como o cancioneiro elomariano, como foi escolher as 10 que estão no disco?
As primeiras canções do Elomar que sempre me chamaram a atenção foram aquelas onde o Nordeste brasileiro está bem evidente. Então a primeira escolha, foi assim, foi com músicas onde o Nordeste se fizesse muito presente, inclusive ritmicamente. Os violeiros, os aboiadores, as mulheres firmes que vivem na seca. Depois, num segundo momento, que é a maneira como eu sinto muito o Elomar nesse instante, são as canções que contam histórias de reis, cavaleiros, aventureiros, que me conectam na nossa herança ibérica. Eu nunca tinha me debruçado sobre ela com tanta vontade. Até então meus discos, meu trabalho investigava muito a minha vida ligada ao mundo afro-brasileiro. E agora com Elomar eu caio de vez na cultura ibérica, assim de cabeça. A segunda temática assim, de canções escolhidas, é desse universo. E em terceiro lugar, logo que conversamos com Elomar sobre a possibilidade de gravar o repertório que a gente já começou a trabalhar, ele nos mandou uma lista de sugestões. Então eu incluí algumas sugestões do Elomar no repertório do disco.

Xangai já disse que o Brasil tem Tom Jobim, Pixinguinha e muitos outros, mas que Elomar é o maior. Você concorda com ele?
Tom Jobim, Pixinguinha e Elomar são genialidades irmãs, todas brasileiras. Cada um projeta um Brasil muito rico e complexo. O que talvez Elomar tenha diferente é que os grandes gênios do sertão, em sua grande maioria, são ainda conhecidos só lá dentro, e pouco apreciados. A gente tem pouca oportunidade de conviver com eles, mas eles são também a nossa alma cantante.

Seu disco é patrocinado com recursos públicos, através de mecanismos de renúncia fiscal [o disco é patrocinado pela Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig), através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura de Minas Gerais]. Como você avalia a necessidade destes mecanismos, sobretudo para artes que correm mais à margem do mercado, e como enxerga o momento de recuo das políticas públicas, não apenas culturais, no difícil momento que o Brasil atravessa?
Todos os lugares do mundo onde a produção artística é exuberante existem ou existiram em algum momento políticas públicas muito determinadas pra fazer a produção artística avançar e cumprir o papel que cabe a ela dentro da sociedade. No Brasil nós temos mecanismos que fazem, que intervêm realmente, na nossa produção cultural. Eu falo principalmente de Minas Gerais, que eu posso falar com mais tranquilidade. A existência dos mecanismos de apoio, de políticas públicas, são fundamentais pra que a nossa produção possa acontecer. Acho que o recurso público deve ser destinado a grandes segmentos da produção cultural que já não estejam excessivamente comercializados. Não faz sentido o dinheiro público ser usado pra grandes produções já comercialmente estabelecidas. Por quê? Por que quando se estabelece comercialmente uma grande faixa de mercado, é por que já há 10, 20 anos, há uma ou duas gerações, existe um grande coletivo de artistas elaborando aquela linguagem. Vamos usar como exemplo um grande ícone da axé music: ele só foi possível existir, de maneira comercial, como produto, por que há uma, duas, três gerações, existe uma grande comunidade, uma grande cultura consolidando aquela linguagem que vai ser a base de projeção comercial desse artista. A política pública tem que atuar no nascedouro, ela tem que atuar nas fontes criativas realmente da cultura e da arte, que são coletivas, que são disseminadas em muitos lugares, em muitos artistas. Sou contra o excesso, talvez até contra mesmo o uso de recursos públicos em grandes eventos comerciais. Esse momento pro país é terrível. A sensação de perda é muito grande, de história girando ao contrário. É nesse contexto que a gente teme pelas políticas públicas. Se nós saímos de um período em que houve um divisor de águas para melhor no governo Lula, por que a gestão do Gilberto Gil, ao lado do Juca Ferreira, foi uma gestão transformadora na ideia de cultura, na ideia institucional de cultura, na ideia das políticas públicas, o que estava por trás da gestão do Juca e do Gilberto Gil, dentro do governo Lula, era a ideia de um grande país com uma grande cultura construída por diferentes culturas étnicas e culturas de diferentes origens sociais, enfim, culturas urbanas, culturas sertanejas, culturas indígenas, de matriz africana, enfim. O grande conceito que se consolidou dentro da política pública no governo Lula foi esse conceito amplo, complexo, rico, que realmente corresponde à cultura brasileira. Nós estamos no momento, agora, onde acontece o contrário. É preciso acabar com a política pública da cultura, pensar que cultura, entre aspas, não existe, e o que deve haver é um monte de cabeças não pensantes, não produtoras de conhecimento, mas cabeças que atendam aos interesses econômicos que regem esse novo modelo político, que é o do governo Temer, que eu acho que são modelos econômicos pensados pra colocar o Brasil numa condição muito ruim internacionalmente mesmo, numa condição de servo das grandes empresas internacionais, pra gente ser apenas servo. Nós paramos de pensar nossa música, não damos palpite nas políticas de mineração, que são irresponsáveis e predadoras, enfim, por aí vai.

Outro guardião da obra de Elomar é o violonista João Omar, filho dele. Você teve algum contato na feitura do disco?
O João Omar é uma grande luz quando se trata da obra do Elomar. É um grande músico e se dedicar também à obra do Elomar é um presente pra nós todos. O disco do João Omar onde ele executa as peças para o violão feitas pelo Elomar é uma pérola, e o diálogo nosso com o João Omar começa nesse momento, ouvindo muito a maneira dele tocar, ouvindo a maneira dele proceder diante da obra do Elomar. Nós temos tido um contato já há algum tempo, o João Omar já nos ouviu tocando, cantando, espero que esse contato nosso se estreite cada vez mais. Eu tive uma oportunidade de cantar com ele, ano passado, num concerto do próprio Elomar. O Elomar convidou vários de nós em Minas pra poder participar da apresentação que ele fez comemorando seus 80 anos em Belo Horizonte. Nessa oportunidade a gente cantou juntos com Elomar, eu cantei e também cantei acompanhada pelo João Omar, e é uma experiência que eu espero que se repita muitas vezes.

Merece destaque o time de músicos arregimentado para esta empreitada. Vamos falar um pouco do convívio durante a realização do álbum?
Músicos todos inspiradores. Eu devo a atitude, a decisão de gravar esse disco a dois músicos: primeiro ao Kristoff Silva, que eu convidei pra produzir o cd junto comigo, que tempos atrás falou pra mim: “Titane, tá na hora de você dedicar um disco a um autor e esse autor deve ser o Elomar”. Então eu fiquei com isso em mente e agora na hora de gravar, convidei o Kristoff para produzir comigo. O segundo ser fantástico [risos] é Hudson Lacerda, que é um artista muito, muito, muito especial, um violonista privilegiado, virtuosístico, com uma formação acadêmica muito rigorosa, muito consistente, mas acima de tudo um grande músico brasileiro, que domina a música brasileira de todos os tempos, toca tudo, canta música da década de 1930, 40, 50, a produção nossa recente e também domina muito a música latino-americana. Então é um violonista que recentemente se dedicou à obra do Elomar tendo todo esse lastro de conhecimento e de prática com a música, como solista, inclusive, com a música brasileira e latino-americana. Junto com o Kristoff Silva, ele foi um dos quatro violonistas que transcreveu para partituras a obra do Elomar. Dos quatro, o Hudson foi o que pegou o violão para conferir as partituras ao lado do Elomar. É um privilégio ouvir Hudson tocando Elomar. Quando eu comecei a cantar com ele eu fiquei muito encantada, muito tomada pela excelência do violão dele, eu decidi fazer o repertório junto com ele, fizemos alguns shows juntos, só nós dois, em salas sem amplificação nenhuma de som, feitas pra música de câmara, e agora ele tá junto comigo no disco. O violão do Hudson no disco e também nos shows é o ponto de partida pra toda a construção dos arranjos e a chegada dos outros instrumentos. Nós, Kristoff e eu, decidimos pela inclusão de um contrabaixo, coisa que a gente tem pouca oportunidade de ver atuando no repertório do Elomar e precisávamos de um baixista atento, disponível e que topasse encontrar a melhor forma de fazer o baixo, de criar, de fazer o contrabaixo, que encontrasse a melhor maneira de fazer com que o contrabaixo cumprisse sua função dentro da música. Então a gente convidou o Aloízio Horta que fez isso com muito esmero. A presença do baixo é fundamental no disco, inclusive serve bastante como contraponto pra minha voz, que tem um colorido muito claro, eu sinto sempre muita falta do contrabaixo, dos tambores, contracenando com a minha voz e o Aloízio veio dar essa grande contribuição. O outro músico é André Siqueira, que é um músico com habilidades muito grandes assim, que toca várias cordas, violões, violas, charangos, cavaquinhos, toca isso tudo com muita versatilidade, com uma capacidade de improvisação muito grande. Ele foi convidado, trouxe vários instrumentos e acabou tocando a viola de 14 e o bouzouki [instrumento de cordas semelhante ao alaúde], que é um instrumento celta que ele trouxe e que se encaixou muito bem no que a gente gostaria de ter. O André Siqueira atualmente é radicado em Londrina e veio gravar conosco. O outro músico convidado, de presença definitiva no disco, e agora também convidado especial do show, é o grande Toninho Ferragutti. O Toninho Ferragutti tem um papel fundamental na construção da história do acordeom dentro da música brasileira. Eu considero o acordeom um dos instrumentos fundantes da nossa música e o Toninho, dentro da história do acordeom, ele é peça chave. É aquele cara que consegue pensar um instrumento e fazer com que ele colabore com todo tipo de linguagem musical, de linhagem musical, ele consegue mostrar o quanto o acordeom é fundamental e pode contribuir pra essa construção da música. Houve um momento em que eu conversando com Elomar, falei: “Elomar, em algumas canções eu queria ter um volume sonoro maior, uma variedade maior de timbre, tou pensando em que instrumento colocar”, e ele falou: “acordeom, acordeom, é claro que é o acordeom”. Foi seguindo o palpite do Elomar que a gente decidiu pelo acordeom e inevitavelmente recaímos sobre o Toninho Ferragutti e eu sou muito agradecida por ele ter topado trabalhar conosco. Não podia faltar o querido grande Pereira da Viola, um dos grandes violeiros da música brasileira, que inova na linguagem da viola e ao mesmo tempo permanece como um legítimo folião de reis, de uma família que faz sua folia de reis até hoje, lá no meio do sertão. Ele é muito querido, tem uma voz que evoca outras vozes, que nos remete a outros tempos. Ele está mais uma vez como meu convidado no meu disco. Eu sou convidada em vários trabalhos dele, ele é meu convidado também em vários dvds, cds, nossa parceria permanece.

*

Veja a participação de Titane e Hudson Lacerca no Sr. Brasil, apresentado por Rolando Boldrin na TV Cultura. A dupla interpreta Cavaleiro do São Joaquim (Elomar):

Receitas para a liberdade

Taurina. Capa. Reprodução

 

Anelis Assumpção não é uma vaca sagrada da MPB. Tampouco descende de uma – Itamar Assumpção – ou é casada com outra – Curumin. Operária e artesã, Taurina [Scubidu/ Natura Musical, 2017], seu terceiro disco solo, demonstra a consolidação de uma carreira pautada pela coerência.

Pintada por Camile Sproesser, Anelis Assumpção figura na capa com os seios à mostra, misto de mulher e vaca, animal de muitos significados, segurando os ingredientes com que preparará e servirá o banquete, coisa fina.

A cantora posa para a pintura da capa do disco. Foto: Caroline Bittencourt

Sozinha ou em parceria, Anelis Assumpção é autora das 13 das 14 faixas – a única exceção é Receita rápida, parceria de seu pai com Vera Motta –, ambientadas entre a cozinha e a feira, com seu Pastel de vento (título de uma das faixas), seus Caroços (I e II, sambas em parceria com Russo Passapusso), sua Água (parceria com Rodrigo Campos) e sua Moela.

Segunda a sexta, primeiro single lançado (ainda em janeiro), fala de um amor proibido, de forma bastante sutil, pontuado pelo trocadilho entre o dia da semana e o utensílio em que se carregam frutas e verduras: “Eu fui na feira pra te ver/ você ñ foi na feira ñ/ é de segunda a sexta/ é de segunda a sexta/ de segunda a sexta/ eu fui sozinha pra te ver/ alguém pegou na tua mão/ meu coração na cesta/ meu coração na cesta/ coração na cesta/ minha fruteira está vazia/ burocracia mandou avisar/ tão insalubre que essa vida/ anda/ com dia e hora para te encontrar”, diz a letra.

Em Chá de jasmim, parceria com a irmã Serena Assumpção (falecida em março de 2016), a quem ela dedica Taurina, canta: “joguei água na chaleira/ deitei a flor do jasmim/ naquele dia/ eu te dava na cozinha/ cê gozava e eu fingia/ que tinha amor ali”.

Anelis Assumpção subverte. A feira e a cozinha, às quais as mulheres sempre estiveram confinadas, torna-se o lugar em que elas estão por opção, fazendo o que bem entendem. Pastel de vento, por exemplo, brinca com a típica iguaria para falar de amor e prazer: “Pastel de vento/ silêncio no meio/ receio meu coração dentro/ nada de recheio no recreio/ coração ao meio/ é lento e ligeiro/ meio tensão/ meio tesão”, canta.

Sobre a liberdade de estar onde quiser e fazer o que quiser, Anelis Assumpção também canta em Amor de vidro (parceria com Russo Passapusso e Saulo Duarte): “Nosso amor é feito de vidro/ ½ dúzia de cervejas que tomamos/ num boteco ali na esquina/ frágil e delicado nosso amor pode quebrar/ uma ampola e dois cigarros/ e me entrego sem pestanejar”.

Ex-integrante do cult DonaZica (que também tinha Andréia Dias e Iara Rennó, para citarmos apenas as cantoras), é difícil falar em disco solo de Anelis Assumpção, ela que está sempre bem acompanhada. Em Taurina destacam-se as guitarras de Lelena Anhaia e Cris Scabello, mellotron, wurlitzer, violão e piano de Beto Villares (produtor do disco), os contrabaixos de Zé Nigro (coprodutor) e MAU, a bateria de Bruno Buarque, além da participação especial do Negresko Sis (Anelis, Céu e Thalma de Freitas) em Receita rápida.

Por falar em receita, nas de Anelis Assumpção todo ingrediente vira música: neste disco, áudios de whatsapp de amigos (Tulipa Ruiz, Céu, Karina Buhr, Ava Rocha e Laís Sampaio em Chá de jasmim) dialogam com tudo o que está posto à mesa.

Merecem destaque ainda o reggae Paint my dreams e Escalafobética (parceria com João Donato), em que inventa palavras, num texto que evoca Graciliano Ramos para novamente falar da mulher – afinal de contas, pauta principal desta obra de arte.

O disco, aliás, abre com um convite: “senta aqui comigo nessa/ pedra/ descobre teu drama/ meu sangue/ rio escorre/ vamos dar um mergulho interior”, chama em Mergulho interior. Quem tiver apetite, curiosidade e sensibilidade não recusará.

*

Veja o lyric video de Segunda a sexta (Anelis Assumpção):

Noite de prazer

Foto: Fernanda Torres

 

Tutuca Viana referiu-se acertadamente ao Teatro Arthur Azevedo como palco sagrado. Festejou seu reencontro com a casa enquanto cantor e compositor, ele que, costumeiramente, nos últimos anos, tem estado mais entre a plateia e os bastidores, assistindo ou produzindo shows.

O artista estava em casa, entre amigos. A começar pela banda: Marcelo Carvalho (teclado), Nema Antunes (contrabaixo), George Gomes (bateria), Darklilson (percussão) e Israel Dantas (violão, guitarra, arranjos e direção musical).

Fez um show divertido, tão à vontade se sentiu. Abriu com Broto (João Marques). Lembrou-se de seus tempos de esquina de Alecrim com Sete de Setembro, no Centro da cidade, quando começou a compor. Confessou influências e partilhou histórias com a plateia. Contou com a participação especial de Rui Mário (sanfona) em dois números.

Não se envergonhou ao admitir ter esquecido a letra de Tão dia, parceria com o piauiense Cruz Neto. O público aplaudiu mesmo o erro e ele começou novamente, sentado, ao violão, acompanhado apenas por Israel Dantas.

Ao longo do show, passeou por todo o repertório de Avessa manhã e, ainda sentado, ao violão, acompanhado pelo irmão Marcelo Carvalho, lembrou sucessos antigos: Beijo de luz (Tutuca Viana, Reinaldo Barros e César Nascimento), Canoa quebrada (Tutuca Viana e Gigi Castro) e Morada de trem (Tutuca Viana e Reinaldo Barros). A plateia fez coro.

Chamou a primeira convidada da noite. Acompanhada por Tutuca ao violão, e Darklilson ao tamborim, Tássia Campos cantou Nada como o tempo (Tutuca Viana e Veiga Neto), bonito samba inédito. Em seguida, ela ficou só no palco, gracejou com a solidão e a escuridão, desculpou-se por não ser uma exímia violonista, e lembrou-se de um prêmio recebido na Rádio Universidade FM por sua gravação de Logradouro (Kléber Albuquerque), que cantou.

Tutuca botou o público para estalar os dedos no jazz Meu grande amor (Tutuca Viana) e em seguida chamou Zé Renato ao palco, com quem dividiu os vocais em Que prazer (Tutuca Viana), faixa que abre Avessa manhã, que está tocando bem nas rádios locais. Ambos trocaram gentilezas e fizeram trocadilhos com o título da música e o prazer mútuo de estarem ali. O anfitrião revelou ter mostrado a música a Jards Macalé e este ter dito que “é a cara do Zé Renato”, imitando a voz do autor de Vapor barato. “Que bom que você gostou e topou participar”, tornou a agradecer.

Capixaba adotado pelo Rio de Janeiro, Zé Renato ficou sozinho ao palco e lembrou três sucessos, sentado, ao violão: Anima (Zé Renato e Milton Nascimento), Papo de passarim (Zé Renato e Xico Chaves), que intitulou o disco que dividiu com Renato Braz em 2011, e Toada (Na direção do dia) (Zé Renato, Cláudio Nucci e Juca Filho), talvez o maior sucesso do Boca Livre – certamente um aperitivo do show que ele não anunciou ontem, mas fará amanhã (3), às 20h, no Clube do Chico (Rua Uirapuru, 17, Calhau – entrada do Grand Park, pela Av. dos Holandeses, primeira à esquerda; ingressos: R$ 45,00; reservas limitadas pelo telefone (98) 99988-9186).

Tutuca lembrou-se ainda de “um cara que eu sempre admirei e acabei me tornando amigo, que infelizmente nos deixou”, antes de tocar “uma que não estava no script”, Na hora do almoço (Belchior). Com a banda de volta ao palco, teceu elogios a Zezé Alves, autor de Índio guri (parceria com Ricardo Valente), que defendeu “em um festival no [ginásio] Costa Rodrigues. Foi acompanhado por um coro de cinco crianças.

Encerrou o show com a pegada rock de O caos de cada dia (Tutuca Viana) e Segredo (Tutuca Viana e Sérgio Habibe). Com o público aplaudindo de pé, perguntou: “vocês querem que a gente saia, dê um tempinho e volte para o bis, ou a gente faz logo?”. Fizeram logo: Zé Renato voltou ao palco e novamente cantaram juntos Que prazer.

Alexandra Nicolas lança Coco Fulero, primeiro single de seu novo disco, Feita na Pimenta

[release]

Foto: Veruska Oliveira

Em seu disco de estreia, Festejos [Acari Records, 2013], completamente dedicado ao samba e ao elogio do universo feminino, a cantora maranhense Alexandra Nicolas já fazia esvoaçar a saia rodada, deixando à mostra a ponta dos pés e um desses pés já se voltava ao Nordeste.

Em Feita na Pimenta [2018], ela entra com os dois no terreiro, em cofo em que cabe de tudo o que se abriga sob o que costumeiramente chamamos forró – xote, baião etc. –, além de tambor de crioula e coco.

O disco equilibra-se entre temas caros ao forrobodó: amor e chamego, jocosidade e duplo sentido, com muita malícia e bom humor.

O primeiro single é Coco Fulero (João Lyra e Zeh Rocha), que não foge aos acalorados debates do momento: em ano eleitoral, Alexandra Nicolas dialoga com o noticiário político, em faixa recheada de referências atuais. “É uma música bem humorada, longe de pregar a alienação ou o voto nulo. Há um componente político forte, sem destoar de todo o conjunto do disco, que tem a festa como tema central, mesmo quando fala de amor – porque o amor é festa”, resume Alexandra.

“O título do disco brinca com a pluralidade feminina. É a mulher moleca, que arde em brasa na festa e no amor, no ‘chamego bom’, de que fala uma das letras, a mulher que é pura doçura, mas também a mulher que quando se zanga, sai de perto [risos]. E o Coco Fulero tem essa carga de revolta contra essa sacanagem, esse absurdo por que passa o Brasil”, continua.

Coco Fulero, que fecha o disco Feita na Pimenta, ganhou lyric vídeo, com produção e animação de Cristiano Pepi e direção de Cristiano Pepi e Alexandra Nicolas. A cantora é acompanhada por João Lyra (arranjos, violão e guitarra), Adelson Viana (sanfona), Durval Pereira (zabumba e pandeiros), Zé Leal (pandeiro e triângulo) e Ana Zinger, Jamil Filho, Marcio Lott e Viviane Godoy (coro). A música está disponível no iTunes, Apple Music, Deezer, Spotify, Google Play, Amazon MP3, Napster, Rádio Uol, YouTube, Vevo, Soundcloud e em outras mais de 100 plataformas digitais.

Brincar com as palavras e dizer as coisas de modo inteligente para fugir aos censores de outrora também sempre foi algo que o forró – e grande parte da dita música popular brasileira – soube fazer com maestria. Nos tristes tempos que o Brasil atravessa, parece mesmo que só o humor salva, e nisto também Alexandra Nicolas não é de meias palavras.

*

Veja o lyric video de Coco fulero (João Lyra e Zeh Rocha):

Revirando o passado do avesso

Avessa manhã. Capa. Reprodução

 

Avessa manhã [2017], o novo disco de Tutuca Viana, é uma espécie de bootleg. A maior parte do conjunto de nove canções remonta aos anos 1980 e foi encontrada em uma velha fita k7. O cantor e compositor acercou-se de talentosos instrumentistas para trabalhar.

Comparecem Israel Dantas (violões, guitarras, direção musical e arranjos), Marcelo Carvalho (piano), Ricardo Cordeiro (contrabaixo) e Wallace Cardozo (bateria), além das participações especiais de Zé Renato (voz em Que prazer), Nicolas Krassik (violino em Meu grande amor e Índio guri), Zé Américo (acordeom na faixa-título) e Gabriel Grossi (gaita em Que prazer).

Atualmente mais conhecido como o bem sucedido produtor dos festivais de jazz e blues dos Lençóis e de São José de Ribamar, Avessa manhã marca também o reencontro de Tutuca Viana com estúdios e palcos.

O disco tem ecos do Clube da Esquina e da música popular que se produzia no Maranhão entre as décadas de 1980 e 90, no rastro do sucesso do LP Bandeira de Aço, lançado por Papete em 1978. Para termos ideia do peso do passado, é um disco “com gosto de guaraná e bolo”, para citarmos um verso de Broto (João Marques), gíria em desuso, que há décadas designava mulheres jovens e bonitas.

“Eu mostrei a música para [o compositor Jards] Macalé e ele me disse que era a cara do Zé Renato. Mostrei para Zé Renato, ele adorou, e topou participar”, revela Tutuca, sobre a participação de um dos convidados especiais do disco – que estará no palco no show de lançamento, amanhã (1º/3), às 21h, no Teatro Arthur Azevedo (Rua do Sol, Centro). Os ingressos, à venda na bilheteria do Teatro, custam R$ 30,00 (com direito ao cd). A outra convidada do artista para o show é a cantora Tássia Campos.

Sozinho ou em parceria, Tutuca assina sete das nove faixas do disco. A faixa-título é uma parceria sua com Reinaldo Barros (in memorian), a quem Avessa manhã é dedicado. Reflexo de sua atuação como produtor – certamente Tutuca Viana será descoberto como cantor e compositor agora para a geração mais nova –, o disco traz elementos de rock, jazz, blues e balada.

Merecem destaque ainda Segredo, parceria com Sérgio Habibe, artista de uma geração anterior à de Tutuca Viana, e Índio guri (Zezé Alves e Ricardo Valente), que fecha o disco.

*

Veja o clipe de Que prazer (Tutuca Viana), com participações especiais de Zé Renato e Gabriel Grossi:

O cabaré musical de uma estrela

Cabaré Star. Capa. Reprodução

 

Edy Star demorou 43 anos entre seu solo de estreia, Sweety Edy [Som Livre, 1974] e Cabaré Star [Saravá Discos, 2017], segundo disco de sua carreira. Aos 80 anos recém-completados, é o único remanescente do antológico pastiche Sociedade da Grã-Ordem Kavernista apresenta Sessão das 10, clássico maluco que dividiu com Miriam Batucada, Raul Seixas (autor do bolero-título, cantado por Edy) e Sérgio Sampaio em 1971.

“Há muito tempo/ eu vivo dividido entre Caetano e Raul”, cita os conterrâneos em Rock’n’roll é fodaço (Edy Star), que brinca com A bossa nova é foda, do primeiro.

Baiano de Juazeiro, Edy Star é uma espécie de fênix da música popular brasileira. Com Ney Matogrosso, então de cara pintada e à frente do Secos & Molhados, cultivou a androginia, num período de maior conservadorismo (será?), abrindo veredas para todos/as os/as que viriam depois, com ou sem polêmicas (vazias).

Ney, Caetano e Raul – um trecho de entrevista abre O crivo (Waldir Serrão e Mauricio Almeida), que fecha o disco –, além de Angela Maria, Emílio Santiago, Felipe Catto e Zeca Baleiro (que divide a produção com Sérgio Fouad) estão no disco, como a recuperar o tempo perdido.

“É o maior barato […], é incrível”, elogia-o Raul. Caetano Veloso canta em Se o cantor calar (Zé Rodrix e Maria Lúcia Viana) e Merda, dele. Ney Matogrosso se/nos diverte em Peba na pimenta (João do Vale, José Batista e Adelino Rivera). Emílio Santiago deixou sua participação gravada antes de falecer em Ave Maria no morro (Herivelto Martins). Em Perdi o medo (Odair José), Edy Star recebe a visita de Felipe Catto. Já Zeca Baleiro participa de Dezessete vezes, de sua autoria, aberta por citação de Tango pra Tereza (Evaldo Gouveia e Jair Amorim), interpretada à capela por Angela Maria.

Há uma diversidade de temas, gêneros e gerações em Cabaré Star – marca de Edy desde a estreia. Os outros parceiros de Sociedade da Grã-Ordem Kavernista também comparecem: Sérgio Sampaio é o autor de O que será de nós e Miriam Batucada de Você é seu melhor amigo. Eu fiz pior, de Lula Côrtes, abre o disco, com estrofes bem humoradas sobre os bastidores do show business: “Meus parceiros, entre aspas/ meus cúmplices de nada/ cem críticos de arte que nem tinham emprego/ chegavam nos jornais/ com papo de manchete/ achando que uma enquete me faria medo”, canta Edy.

“A vida é um cabaré/ foi assim que eu aprendi/ sonho, emoção e prazer/ você escolhe o que quer/ se vai sorrir ou sofrer/ seja lá homem, mulher/ só interessa o viver/ na noite de cabaré”, canta em A vida é um cabaré (versão de Edy Star e Zeca Baleiro para Y’a la rumba dans l’air, de Alain Souchon), devolvendo elegância ao ambiente, também espaço de fruição artística, em oposição à visão pejorativa, porém rentável, de letras típicas do breganejo e da sofrência – “há muito tempo/ não ouvia tanta shit na MPB”, voltamos à letra de Rock’n’roll é fodaço.

O disco traz ainda Procissão, talvez a faixa mais conhecida do disco: é o clássico lançado por Gilberto Gil em 1967, cuja parceria só foi reconhecida em 2008 – de lá para cá, todos os discos lançados com a música trazem-na com os devidos créditos também a Edy Star.

Ele é acompanhado por Adriano Magoo (piano, teclados e acordeom), Tuco Marcondes (guitarra), Fernando Nunes (contrabaixo) e Kuki Stolarski (bateria e efeitos), além das participações especiais de Emílio Martins (percussão), Hugo Hori (saxes), Tiquinho (trombone e tuba de Bauru), Jorge Ceruto (trompete e voz de cafetão cubano em A vida é um cabaré), Zeca Baleiro (violão “peba” em Peba na pimenta), Swami Jr. (violão sete cordas e arranjo em Ave Maria no morro) e Webster Santos (violão, violão sete cordas, cavaquinho e bandolim em Procissão e Merda).

“Se no nosso país houvesse respeito ao talento e à dignidade de nossos artistas, o nosso Edy seria visto como um artista superior. Seria não, ele é!”, atesta o folclorista e produtor musical Roberto Sant’Ana (pai do músico Lucas Santtana), em texto no encarte de Cabaré Star.

“Edy é uma antologia que anda, sabe tudo de música brasileira e outras bossas o rapaz, um pé no rock e na transgressão, outro no cabaré e na reverência à tradição. […] Tudo com alma teatral, farsesca ou, como ele gosta de dizer, cabareteira”, arremata Zeca Baleiro, produtor e parceiro.

*

Veja o lyric video de Rock’n’roll é fodaço (Edy Star):

Terra musical de todo mundo: um papo com Vitor Ramil

Campos neutrais. Capa. Reprodução

 

Este mês, na Emaranhado, coluna que assino mensalmente no site do Itaú Cultural, escrevi sobre o ótimo Campos neutrais [Satolep, 2017], disco novo de Vitor Ramil, com quem conversei sobre.

A seguir, a íntegra da entrevista.

Retrato: Marcelo Soares. Divulgação

Homem de vícios antigosCampos neutrais dialoga com outras fases de tua carreira, mas não soa saudosista, embora revisite ídolos confessos como os Beatles e Bob Dylan, entre outros. É um disco aberto, embora a milonga ainda seja o eixo central. Você concorda? Como o definiria?
Vitor Ramil
– À parte a citação explícita a Strawberry Fields Forever, Beatles sempre aparecerá subliminarmente na minha música, bem como na música de todo mundo, porque eles foram fundamentais, estruturantes. Dylan é um compositor que às vezes eu gosto de versionar. É um desafio prazeroso para mim, que gosto de lapidar e me excito com o aspecto lúdico desse tipo de trabalho. A milonga está menos presente como gênero que como atmosfera e conceito em Campos Neutrais. Tens razão, o disco remete a algumas experiências dos meus discos anterior, mas o vejo fundamentalmente como um ponto a que cheguei depois de muita reflexão e muita prática. Considero o mais bem produzido, tocado, cantado, gravado etc. Fui muito criterioso, inclusive ao me sentir o mais livre e espontâneo possível durante as gravações. Trabalhei com figuras muito afinadas com a minha linguagem. A unidade é marcante no resultado. Tudo soa muito coeso, os arranjos, as performances.

É também o disco em que você mais se abre a parceiros. Como é colecioná-los e trabalhar com cada um/a deles/as? Da conterrânea Angélica Freitas, passando pelos nordestinos Chico César e Zeca Baleiro, até o paraense Joãozinho Gomes e o português António Botto, entre outros: a diversidade percebida no repertório de Campos neutrais se deve também a este leque de parceiros, não?
Sim, certamente. Essas parcerias foram acontecendo naturalmente ao longo do tempo. Com o Zeca já compus uma três musicas, com o Chico umas cinco. Mas são as primeiras colaborações nossas gravadas. Gosto muito do que conseguimos fazer juntos. Com a Angélica é um pouco diferente. Venho musicando a obra dela com o objetivo de gravar um disco dedicado à poesia dela, que é sensacional. O poema do Joãozinho musiquei depois de estar com ele em Macapá, e a canção nasceu pedindo tambores, aqueles tambores melancólicos do marabaixo. António Botto, quem diria, me fez compor um samba de corte clássico. É o inesperado das colaborações. Todas essas enriqueceram muito o disco e, de certa forma, justificaram a ideia dos campos neutrais como conceito do trabalho.

Em texto distribuído à imprensa você fala do projeto de gravar um disco inteiramente dedicado à poesia de Angélica Freitas, uma das poetas contemporâneas mais originais do Brasil. Sei que é cedo para falar em novo disco, Campos neutrais ainda tem uma estrada a percorrer e torço por que o show passe pelas terras de todos os parceiros, mas há previsão para a realização deste trabalho em parceria com ela?
Só não gravei ainda o álbum com a Angélica porque, depois de délibáb, dedicado às poesias de Jorge Luis Borges e João da Cunha Vargas, e de Foi no mês que vem, em que regravei 32 canções por ocasião do lançamento de um songbook, achei que precisava retomar minha trajetória autoral. Agora acho que o disco com poemas da Angélica pode ser a melhor escolha para um próximo trabalho, até porque o público já teve uma prova dessa colaboração com a música Stradivarius que está em Campos Neutrais, ou seja, nossos mundos já estão conectados.

Outro diálogo perceptível em Campos neutrais é o travado entre a estética do frio e certo calor nordestino, nortista, sobretudo a partir das parcerias com Chico César, Joãozinho Gomes e Zeca Baleiro. Você acredita que isto ajuda a te libertar de rótulos como os de “artista do frio” ou “dos pampas”, apesar de você ter inventado Satolep e viver nela?
Para quem olha superficialmente, talvez sim. O fato é que para mim não há essa oposição frio-calor. A estética do frio, em última instância, trata-se não de tentar estabelecer um conflito, mas de afirmar o sul-brasileiro através da imagem do frio, do frio tratado como símbolo de um lugar, do nosso clima de estações bem definidas (afinal de contas o Brasil, que se vê como “tropical”, nos associa ao frio) e como elemento de aproximação do sul do Brasil com Uruguai e Argentina. Quando falo em frio não estou defendendo uma racionalidade ou ausência de emoção. Longe disso. Falar em rigor, por exemplo, não é falar em rigidez. Há rigor em João Gilberto, há rigor em Elomar ou em João Cabral.

Você volta ao Dylan de Desire, vertendo Sara em Ana, como fez com Joey (Joquim), em Tango [1987]. O Dylan de 1976 é o seu preferido entre sua vasta discografia?
Sim, Desire é meu disco favorito do Dylan. Gosto também de Slow train coming, da fase religiosa, de onde versionei Um dia você vai servir a alguém (Gotta serve somebody). Costumamos escutar Dylan nas viagens de carro. Dylan, Miles [Davis], Alberta Hunter, Radiohead, Chet Baker ou Glenn Gould estão sempre conosco na estrada.

Palavra desordem é sobre os dias atuais, embora o verso “façam a revolução” evoque o oitentista RPM. É uma citação proposital? Você comprova a possibilidade de cantar sobre política sem soar panfletário. É um caminho urgente, possível e necessário no atual momento por que passa o Brasil?
Eu não me lembrava do “façam a revolução” do RPM. Se lembrasse, talvez não tivesse usado na música. Um sobrinho me chamou a atenção para isso e rimos muito. De fato, a retórica dessa música é revolucionária e ela pode ser interpretada desse modo, mas como um chamado à revolta profunda, não apenas política, feito às novas gerações. No entanto, o significado íntimo dela para mim é o de um chamado ao desassossego que fiz para mim mesmo. Eu tinha escrito uma letra que me pareceu muito obscura para um tema tão pungente e já um tanto complexo musicalmente. Achei a letra um pouco acomodada diante do desafio que a música exigia de mim. Então me indignei e cantei pra mim mesmo: “queimem os navios”…

Você canta em três línguas em Campos neutrais, o que tem a ver com a própria característica fronteiriça do Rio Grande do Sul evocada no título do álbum. O Brasil, vizinho de países de língua espanhola, em geral prefere cantar no inglês de terras distantes. Como você avalia esse distanciamento cultural do Brasil e seus pares do Mercosul, no sentido de que bandas argentinas, uruguaias etc., serem bem menos conhecidas por aqui que astros ingleses e americanos etc.?
O português e o espanhol respondem por essa fronteira do extremo sul. O inglês aparece como nas canções de toda parte. Os Beatles e a presença de sempre da cultura norte-americana e inglesa entre nós nos fazem volta e meia cantarolar em inglês. No caso do rock gaúcho, realmente o inglês é muito presente, ou foi. Algumas bandas ou artistas quando cantam português o fazem como se fossem estrangeiros cantando, com um certo sotaque. Acho engraçado. É que a influência do rock inglês dos anos 60 é imensa por aqui. Por que? Não sei. Talvez por ser uma região mais conservadora, onde o rock desde sempre aparece como afirmação e contraposição das novas gerações. Quando ao distanciamento do Brasil em relação aos países de língua hispânica, é mesmo muito grande. Lembro de quando vivíamos no Rio, nos anos 80. As pessoas lá achavam engraçado ouvir rock em castelhano, Charly Garcia, Fito Paez e poucos outros que chegavam. Riam. Enquanto isso, no Rio Grande do Sul, os mesmos artistas eram ídolos. A língua e a cultura nos afastam mutuamente. E também o preconceito, o aculturamento, esse eterno bater cabeça para o que vem dos países de prestígio. Na Argentina não é muito diferente. Lá um artista norte-americano obscuro e fraco tem muito mais chance de despertar interesse da mídia que um artista brasileiro obscuro e genial. Igualzinho ao Brasil.

A exemplo de Foi no mês que vem, seu disco anterior, Campos neutrais também tem um respectivo songbook e foi financiado a partir de crowdfunding, o financiamento coletivo pela internet. A seu ver, o songbook facilita a apreensão de seu repertório por músicos que se interessem por tocá-lo? E o financiamento coletivo é uma saída nestes tempos sombrios que o Brasil atravessa, não apenas no campo cultural?
No meu caso, o songbook se mostrou de extrema importância, porque poucos conseguiam tocar as minhas músicas. Meus acordes em geral não são convencionais e ainda uso afinações preparadas. Muitas vezes, tocar uma música minha com os acordes simplificados fere a essência da composição de um modo que não parece ser a mesma música. Depois dos songbooks tenho ouvido muita gente tocar super bem as minhas canções, mesmo que essas versões incorporem novidades. Quanto ao financiamento coletivo é uma grande alternativa de produção. É bom para o público e para o artista. Uma espécie de resistência. Nesses tempos em que o disco já não vende e que montar um grande espetáculo é coisa apenas para artistas muito populares que arrastam multidões, o financiamento coletivo ajuda a viabilizar trabalhos de qualidade. E como observaste, essa forma de resistência não se limita à cultura. Se espraia pela sociedade de muitas maneiras, atendendo a inúmeras demandas.

Você é de uma família de músicos, irmão de Kleiton e Kledir, pai de Ian Ramil. Este disco tem a participação de sua sobrinha Gutcha, cantando um samba – e aqui voltaríamos ao tema da diversidade, já abordado. Qual a sensação de ser um elo desta genealogia musical?
É uma sensação muito boa, de toda a vida. Não sei como seria viver numa casa sem “muita” música. Estamos montando agora um show em família, homenagem à minha mãe, Dalva, de 92 anos. Vão estar todos os que citaste acima, mais o Thiago Ramil, irmão da Gutcha e o João Ramil, filho do Kledir. Fui muito influenciado pelos meus irmãos e adoro o que estão fazendo Ian, Gutcha, Thiago e João. Quero envelhecer vendo a gurizada tocando na minha volta.

Suave, excitante, empoderada e livre

Treta. Capa. Reprodução

 

Estas quatro palavras figuram nos agradecimentos que a baiana Marcia Castro faz no encarte de Treta [Joia Moderna, 2017], quarto álbum de sua carreira, o mais diferente entre todos.

A baiana é uma das vozes mais interessantes surgidas na música popular brasileira deste início de século – estreou em disco em 2007, com Pecadinho –, e quando falo em “voz” não me refiro exclusivamente a timbre, mas à persona artística como um todo, ao conjunto da obra.

Dizer, portanto, que Treta é o mais diferente entre seus álbuns, é dizer antes de tudo que Marcia Castro nunca fez um disco igual ao outro, mas, além disso, é dizer que é e se percebe artista – e mulher – livre para fazer o que quiser, como a protagonista de Ela é pan (Marcia Castro/ Marcos Vaz/ Rafa Dias/ Oz/ Chibatinha/ Raoni): “vou dar a letra/ a mina que chegou na parada/ não sabe se quer homem ou gata/ só quer ser o que é”, apresenta.

Livre para fazer um disco mais autoral – sozinha ou em parceria, assina seis das 10 faixas – e posar (para o fotógrafo Gui Paganini, sob direção do ítalo-brasileiro Giovanni Bianco) em ensaio sensual em preto e branco no encarte, sem tirar o foco da música. Alicerçado nas bases eletrônicas (beats, synths e arranjos) de Marcos Vaz, é um disco que certamente incomodará puristas de plantão.

É o disco mais feminista de Marcia Castro, com o repertório inteiramente voltado às liberdades da mulher, sem soar panfletário.

Marcia Castro não é de meias palavras, metáforas ou eufemismos. Os recados são claros, as mensagens explícitas. Em Noites anormais (Rafa Dias), que abre o disco: “esse seu balanço é de matar, maluca/ vem cá, não me faz pirar/ eu já tô na tua/ basta tu se entregar”. Na seguinte, Vulgar (Marcia Castro), que tem trecho da letra em inglês (e versão remix fechando o disco): “quero sua pele/ em minha pele/ quero sua boca/ tão vulgar/ vai ser assim/ que seja/ não tem ninguém/ tem pra ninguém/ só tu e eu aqui sentadas/ nesse mesmo sofá”.

Desce bum (Rafa Dias/ Oz/ Chibatinha/ Raoni), com percussão de Gustavo Di Dalva, flerta desbragadamente com a axé music: “ó menina linda/ favor não se esqueça/ pega na cintura/ pega na cabeça/ (…)/ desce assim sem vergonha/ desce bumbum”. Em Boneca (Marcia Castro/ Luciano Salvador Bahia) e Tensão (Marcia Castro/ Rafa Dias/ Oz/ Chibatinha/ Raoni), histórias de amores (marginais?), ambas emolduradas pela guitarra de Juninho Costa e percussão de Gustavo Di Dalva. “Na sua dança febril/ ela me impõe um compasso/ o que eu faço e não faço?/ não sei o que quer de mim/ mas sou do tipo que quer/ o que pro mundo é bagaço”, começa a letra da primeira; e “o meu cabelo duro/ desejo me domina/ senti um batimento forte/ me jogou pra cima”, a da segunda.

“Cada disco brota de um jeito. Esse surgiu da vida. Da minha vida”, entrega Marcia Castro também nos agradecimentos. E continua: “De histórias pessoais. De encontros, almas, acertos, desacertos. De tudo que nos torna demasiadamente humanos”.

Treta virou sinônimo de discussão, em geral infrutífera, sobretudo nas redes sociais. Intitulando este disco, ganha outro significado, com temas importantes trazidos à tona, embalados em uma guinada musical ousada de Marcia Castro. Quem não arrisca, não petisca, diz o dito popular.

*

Veja o clipe de Baba no quiabo (Ava Rocha/ Gui Calzavara/ Mariana de Moraes/ Luciano Salvador Bahia/ Marcia Castro), performado por Aretha Sadick e dirigido pelo DJ Zé Pedro:

Melhores de 2017

Saiu hoje (17) a sempre aguardada lista de melhores do ano do Scream&Yell, um dos mais respeitados e longevos sites de cultura pop do Brasil, capitaneado pelo queridamigo Marcelo Costa. Pelo segundo ano consecutivo tive a honra de participar (a eleição do S&Y já conta 15 anos).

Contribuo em algumas categorias com meus votos sempre capengas. O resultado da votação final, com um time recorde de 126 votantes, quase nunca bate com meus pitacos, que de um modo ou de outro buscam levar em conta a questão regional, além de assumirem minhas falhas enquanto jornalista que cobre cultura (em São Luís) e, de algum modo, o fato de a ilha ser ainda distante (em relação, por exemplo, a cidades que recebem shows internacionais com maior frequência, entre outros aspectos), apesar da diluição dos conceitos de centro e periferia promovidos sobretudo pela internet – não à toa a votação é promovida por um site.

A seguir a lista com os votos nas categorias nas quais me atrevi a opinar. A quem quiser conferir os resultados de todas as categorias, lista de votantes etc., basta ir ao Scream&Yell. Para quem quiser lembrar minha lista com os melhores de 2016, aqui. Em tempo e modéstia à parte: sou o único jornalista maranhense a participar da votação.

MELHOR DISCO NACIONAL

Isca. Vol. 1. Capa. Reprodução

1. Isca – Vol. 1, Isca de polícia


2. Campos neutrais, Vitor Ramil

Tranqueiras líricas. Capa. Reprodução

3. Tranqueiras líricas, Marcelo Montenegro

Plano B. Capa. Reprodução

4. Plano B, Chico Saldanha

Rosa dos ventos. Capa. Reprodução

5. Rosa dos ventos, Claudio Lima

MELHOR SHOW NACIONAL

Foto: Zema Ribeiro

1. Baiana System, Festival BR 135, São Luís/MA

Foto: Laila Razzo

2. Quartabê, Festival BR 135, São Luís/MA

Foto: Zema Ribeiro

3. Eddie, Festival BR 135, São Luís/MA

Foto: Laila Razzo

4. Karina Buhr, Festival Elas, São Luís/MA

5. Carlos Pial, Lençóis Jazz e Blues Festival – Circuito São Luís, São Luís/MA

MELHOR FILME INTERNACIONAL

1. Star Wars: os últimos Jedi, de Rian Johnson

2. Neve negra, de Martin Hodara

3. Bye bye Alemanha, de Sam Garbarski

MELHOR FILME NACIONAL

Manuel Bernardino: o Lenin da Matta. Cartaz. Reprodução

1. Manuel Bernardino: o Lenin da Matta, de Rose Panet

2. Laerte-se, de Eliane Brum e Lygia Barbosa da Silva

Martírio. Cartaz. Reprodução

3. Martírio, de Vincent Carelli, Ernesto de Carvalho e Tita

MELHOR LIVRO

Belchior: apenas um rapaz latino-americano. Capa. Reprodução

1. Belchior – Apenas um rapaz latino-americano (Todavia), de Jotabê Medeiros

O risco do berro. Torquato, neto Morte e loucura. Capa. Reprodução

2. O risco do berro – Torquato neto Morte e loucura (ed. da autora), de Isis Rost

Anjo noturno. Capa. Reprodução

3. Anjo noturno (Companhia das Letras), de Sérgio Sant’Anna

Quelé, a voz da cor: biografia de Clementina de Jesus. Capa. Reprodução

4. Quelé, a voz da cor: biografia de Clementina de Jesus (Civilização Brasileira), de Felipe Castro, Janaína Marquesini, Luana Costa e Raquel Munhoz

Começa a envelhecer a mulher mais bela do mundo. Capa. Reprodução

5. Começa a envelhecer a mulher mais bela do mundo (Dubolsinho), de Sebastião Nunes

MELHOR MÚSICA NACIONAL

1. Adeus (Mestre Zió), Luiz Claudio ft Zeca Baleiro

2. Paçoca (Andreia Dias/ Anelis Assumpção/ Iara Renno/ Luciano Nakata Albuquerque/ Max B.O.), Curumin ft Andrea Dias, Anelis Assumpção, Edy Trombone, Iara Rennó e Max B.O.

3. As chuteiras do Itamar (Paulo Lepetit/ Vange Milliet/ Ortinho), Isca de Polícia

4. Choro de memórias (Chico Saldanha), Chico Saldanha

5. São Luís: variações líricas a partir de uma abertura de programa de reggae (Celso Borges/ Michael Riley), Claudio Lima

Covers de responsa

Foto: Dovilé Babraviciuté

 

“A Nação acende Radiola de clássicos”, anuncia a Nação Zumbi já na capa de seu álbum de covers, Radiola NZ Volume 1 – o que já deixa o fã clube em polvorosa: certamente vem um volume 2 aí, mas quando?

Radiola NZ. Capa. Reprodução

É disco curto – nove faixas – mas coeso: a banda não desmonta as faixas que relê, mas tem a pegada mangue, o peso da Nação.

Gilberto Gil, que gravou com a Nação Zumbi ainda nos tempos de Chico Science, em Afrociberdelia (1996), comparece ao repertório: é dele Refazenda, faixa que abre o disco unindo os tambores dos pernambucanos aos metais dos baianos da Orquestra Rumpilezz, liderada pelo maestro Letieres Leite. É como se a banda devolvesse uma gentileza, mais de 20 anos depois.

Causou frisson o anúncio, ano passado, do encontro, no Rock’n Rio, da Nação Zumbi com Ney Matogrosso, para um show baseado no repertório do Secos & Molhados. Uns gostaram, outros não, especulou-se sobre um disco do cantor com o grupo (como aconteceu em Vagabundo, que Ney assina com Pedro Luís e A Parede). Em Radiola NZ o encontro entre Ney e a Nação é eternizado em Amor (João Ricardo/ João Apolinário), que contrasta a leveza da letra (“leve, como leve pluma, muito leve, leve pousa”) e do canto de Ney com o peso da Nação, uma de suas marcas.

O disco reverencia ainda o ídolo soul Tim Maia (Balanço) – que já comparecia ao repertório do Almaz, projeto paralelo de Seu Jorge com o guitarrista Lúcio Maia e o baterista Pupillo –, Roberto Carlos (Não há dinheiro que pague, de Renato Barros, autor de muitos hits da Jovem Guarda), The Specials (Do nothing, de Lynval Golding), o muito censurado Taiguara (Dois animais na selva suja da rua), Beatles (Tomorrow never knows, de Lennon/McCartney), Marvin Gaye (Sexual healing, de Gaye com David Ritz e Odell Brown) e David Bowie (Ashes to ashes).

O repertório é quase inteiro de clássicos, músicas muito conhecidas e por vezes muito regravadas. Não deve ter sido fácil, mas a Nação Zumbi cumpriu com coerência o desafio a que se propôs, atraindo novos públicos para a própria banda e para os autores que releem.

Talvez a camisa 10, digo, a faixa 10 pudesse trazer um Jorge Benjor, outro ídolo confesso da rapaziada. Mas para isso Jorge dü Peixe e companhia têm outro projeto paralelo, o Los Sebozos Postizos, em que integrantes da Nação Zumbi dedicam-se a reler a obra do carioca.

Instantes eternizados

Tranqueiras líricas. Capa. Reprodução

 

De Marcelo Montenegro, Chacal já disse: é o Manoel de Barros urbano. Chacal (que ele lê em Desabutino, único poema não assinado por Montenegro em Tranqueiras líricas) sabe das coisas:  a analogia tem fundamento. Ambos os poetas têm a capacidade de eternizar a banalidade da vida, aqueles acontecimentos que, de tanto se repetirem, já ninguém se ocupa.

Como por exemplo, “agora mesmo alguém deve estar limpando/ cuidadosamente o cd com a camisa,/ pulando a ponta do pão Pullman,/ sentindo o baque da privada gelada”, em Velhas variações sobre a produção contemporânea, poema que abre Tranqueiras líricas, disco que Marcelo Montenegro lançou no apagar das luzes de 2017.

O autor lançará mês que vem, pela Companhia das Letras, Forte apache, que reúne, além do livro-título, os livros Orfanato portátil e Garagem lírica. É poeta bom de ler e ouvir, dono de uma das obras mais originais da poesia brasileira contemporânea.

Tranqueiras líricas, espetáculo que já apresenta há mais de uma década, é recheado de referências, mas não hermético, tem um pé no rock, outro no blues, a voz de Marcelo Montenegro, talhada “equilibrando/ a lata e o cigarro” (ainda do poema de abertura), acompanhada por guitarras, violões e arranjos de Fábio Brum, seu parceiro de palco e empreitada também de longa data – em 2013 o poeta apresentou o espetáculo durante a Feira do Livro de São Luís, na companhia do guitarrista Marcelo Watanabe.

O título é verso de Buquê de presságios: “Tranqueiras líricas/ na velha caixa de sapato./ De tudo, talvez, restem/ bêbadas anotações/ no guardanapo./ E aquela música linda/ que nunca toca no rádio”.

Tranqueiras líricas é daqueles discos cujo anúncio deixa ansiosos os que acompanham mais de perto o trabalho de Marcelo Montenegro – leva anos entre a ideia e a concretização do objeto disco, às próprias custas s/a. Uma vez lançado, resenhistas correm sério risco ao citar este ou aquele trecho, e não outros, numa bolacha em que tudo é sublime, mesmo o supostamente mórbido: “PENSO em alguém que, na manhã/ do dia de sua morte, desiste/ de usar a camisa que mais gosta,/ preferindo guardá-la para uma festa/ que terá na noite seguinte” (de Três pensatos).

“Tudo o que é bom para o lixo é bom para a poesia”, já disse Manoel de Barros. Como o poeta rural, a poesia do poeta urbano se ocupa destas insignificâncias, tornadas grandes ao serem eternizadas pelo olhar atento e sensível de Marcelo Montenegro. Como, por exemplo, no poema Filme: “Você pede para eu apertar o pause/ e vai ao banheiro/ deixando ao meu lado/ seu cheiro quente/ no travesseiro amassado”, começa. Há outros momentos grandiosos, mas: corta! E termina: “Você volta ao quarto dizendo/ – Está me dando uma fome!/ enquanto rimos da pose engraçada/ que o ator parou./ Antes de apertar o play/ chego a esboçar que algumas pessoas/ são incapazes/ de tirar a poesia do sério”, o que não é o caso de Marcelo Montenegro e eis uma possível síntese para Tranqueiras líricas (e, de resto, toda a sua obra).

*

Ouça Velhas variações sobre a produção contemporânea (Marcelo Montenegro):