O Quinteto Violado no palco do Teatro Sesc Napoleão Ewerton, ontem (15) – foto: Zema Ribeiro
Ver o Quinteto Violado ao vivo no palco é confirmar o que atestou Gilberto Gil há mais de 50 anos: eles fazem o free nordestino, abreviando e aludindo ao free jazz, a sonoridade encorpada do grupo com liberdade total para a improvisação e para aglutinar elementos da música popular, da música erudita e de folguedos da região nordestina, celebrada pelos seis músicos no espetáculo “Sertão”, apresentado ontem (15), em São Luís, no Teatro Sesc Napoleão Ewerton.
Não, você não leu errado (como um deles disse, ontem, durante o show: vocês não estão vendo errado): com o reforço do violeiro Waleson Queiros, um “viola heroe”, o Quinteto Violado é, atualmente, um sexteto, o que só reforça o groove de seu free.
Em entrevista exclusiva a este repórter, Marcelo Melo, voz e violão firmes aos 79 anos, ressaltou a disciplina como elemento fundamental para eles terem chegado onde chegaram. O cantor, compositor e violonista é o único remanescente da formação original, com o grupo tendo chegado aos 54 anos de estrada — há 10 não vinham à São Luís.
O grupo se completa com Dudu Alves (voz e teclado), Deri Santana (flauta), Sandro Lins (baixo) e Roberto Medeiros (voz e bateria). Em determinados pontos do espetáculo todos têm a oportunidade de exibir seu virtuosismo aos instrumentos. No bis, quase uma jam session, o improviso uniu temas que foram de “Baião” (Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira) a “O trenzinho do caipira” (Heitor Villa-Lobos, Ferreira Gullar e Edu Lobo).
Elegantemente vestidos em roupas cujos tecidos bordados fazem referência ao gibão de couro tornado famoso por Lampião (1898-1938) e Luiz Gonzaga (1912-1989), os músicos estavam super à vontade no palco, entre o repertório, causos, histórias da trajetória e um depoimento gravado do segundo destacando a importância do Quinteto Violado para a música brasileira (o que também tinha me antecipado Marcelo Melo).
Além de Gonzaga — “Asa branca” (parceria com Humberto Teixeira), “A volta da Asa branca” (parceria com Zé Dantas) e “Acauã” (de Zé Dantas, sozinho) —, o repertório trouxe temas autorais — “Vaquejada” (Toinho Alves, Marcelo Melo e Luciano Pimentel), “Palavra acesa” (José Chagas e Fernando Filizola) —, além de nomes como Gilberto Gil — “Lamento sertanejo” (parceria com Dominguinhos) —, Milton Nascimento — “Notícias do Brasil (Os pássaros trazem”, parceria com Fernando Brant —, Alceu Valença — “Morena tropicana” (parceria com Vicente Barreto) —, e Paulo Diniz — “Pingos de amor” (parceria com Odibar) —, entre outros. A última antes do bis foi “Leão do Norte” (Lenine e Paulo César Pinheiro), uma espécie de síntese da nordestinidade.
Merece destaque também a menção ao paraibano Geraldo Vandré, cuja importância Marcelo Melo destacou, lembrando do encontro com o conterrâneo na França, quando ajudou-o a gravar “Das terras de benvirá” (1973), seu último álbum. “A ditadura militar não gostava de suas músicas e ele, como muitos intelectuais, foi obrigado a se exilar”, lembrou, para ouvir gritos de “sem anistia!” da plateia, e depois cantar “Pra não dizer que não falei as flores (Caminhando)” e “Disparada” (parceria com Théo de Barros).
Um espetáculo impecável que dá conta de reafirmar a importância da região Nordeste para a música e a cultura brasileiras, propósito de “Sertão” (que vai virar o próximo álbum do grupo), além da força do groove do free nordestino do Quinteto Violado. Vida longa!
Chico César se apresentou ontem (2), na Praça das Mercês, no Desterro, no Centro Histórico da capital maranhense, na programação do aniversário de 412 anos de São Luís. Cantou por pouco mais de hora e meia, numa demonstração de sua relação atávica, umbilical e orgânica com a cidade. Muita gente, ainda hoje, acredita que o paraibano é maranhense.
Prestes a completar 30 anos de sua estreia fonográfica, com Aos Vivos (Velas, 1995), ele escolheu “Beradêro”, faixa que abre o citado trabalho, para inaugurar seu show, com a plateia cantando junto desde ali e direito a um “viva Paulo Freire (1921-1997)!” – o educador é citado na letra – respondido a plenos pulmões pelo público presente.
Artista experiente e experimentado, com pleno domínio de palco, Chico César soube fazer o público cantar junto, aplaudir, dançar e vibrar, em êxtase coletivo. Marcado para às 21h, o show só foi começar pouco depois de 23h30. O artista desculpou-se, mas disse que o atraso nada tinha a ver com ele e sua equipe, que esperaram pacientemente todas as apresentações que o antecediam. E revelou: “a gente preparou um show de duas horas, mas vai ter que diminuir um pouquinho. Minha equipe precisa estar no aeroporto às duas”. Após ouvir um “ah” de insatisfação do público, respondeu: “amanhã vocês trabalham”. E o público, para rir de si mesmo: “não!”.
Chico César conhece o chão que pisa, sabia que estava na ilha do reggae. Após “Beradêro” mandou “Árvore”, clássico do baiano Edson Gomes (que ele havia cantado em duo com Marcelo Jeneci em Night Club Forró Latino (volume I), álbum mais recente do sanfoneiro), seguida por “Mama África”, “Brilho de Beleza” (Nego Tenga) – trocando o nome de Bob Marley (1945-1981) da letra original pelo de Marielle Franco (1979-2018) – e finalizando o longo medley com “Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores” (Geraldo Vandré), transformando a praça num salão de baile em que os presentes não têm intervalo para interromper a dança.
Dizer que o público foi à loucura pode ser redundante em se tratando deste show, de muitos pontos altos. Chico César cantou “Sereia Linda de Cumã” (Humberto de Maracanã/ Zé Maria), faixa de Aldeia Tupinambá (Ná Music/ Tratore, 2020), de que ele participa (quem esteve no Festival Zabumbada em 2022 não esquece o encontro do paraibano com o batalhão, na mesma Praça das Mercês). A esta seguiram-se “Vestido de Amor” e “À Primeira Vista”, com citação de “Samurai” (Djavan), numa apresentação recheada de intertextos, em que Chico César vai descortinando sua formação e sua relação com o lugar, sem nunca forçar a barra.
No palco ao lado do Monumento da Diáspora Africana, na Praça das Mercês, Chico César exaltou o papel dos negros e das mulheres, por vezes repetindo a frase “lugar de mulher é onde ela quiser” – metade do sexteto que o acompanha – a banda Machifeme, como ele apresentou – é feminino: Síntia Piccin (saxofone e flauta), Richard Fermino (trompete e flauta), Larissa Humaitá (percussão), Gledson Meira (bateria), Helinho Medeiros (teclado e sanfona) e Lana Ferreira (baixo).
“Pensar em Você” trouxe outras citações: “Nossa Canção” (Luiz Ayrão), além de um trechinho de “Dia Branco”, de Renato Rocha e Geraldo Azevedo – com quem Chico divide Violivoz (Ao Vivo) (Chita/ Geração/ LF + C, 2023). Quando cantou “Deus me Proteja” agradeceu a Dominguinhos (1941-2013) e Juliette, por colocarem sua composição no coração dos brasileiros. Presenteou os presentes com uma inédita, “composta ontem” – quando postou-a no instagram: “Namorar no Maranhão”, uma toada que primeiro cantou sozinho ao violão e depois acompanhado da banda. Dedicou-a a “Josias Sobrinho e Chico Saldanha, meus mestres”, que estavam presentes. Outra viria mais à frente, “composta durante a pandemia, mas também parece que foi ontem”, sobre os Lençóis Maranhenses – que ele revelou não conhecer, “ainda”, brincando com o fato de serem “muita areia para seu caminhãozinho”.
“Agalopado” (Alceu Valença), faixa que abre Espelho Cristalino (Som Livre, 1977), inaugurava um bloco de formadores de Chico César, como ele mesmo revelou. Seguiram-se “Sobradinho” (Sá e Guarabyra), cuja regravação pelo paraibano foi abertura de novela da Rede Globo, e “Admirável Gado Novo” (Zé Ramalho). O fio autoral foi retomado com “Palavra Mágica” e “Da Taça”, com incidental de “Lenha”, do parceiro maranhense Zeca Baleiro (com que Chico divide o álbum Ao Arrepio da Lei (Saravá/ Chita, 2024). O medley se completava com “Proibida Pra Mim” (Chorão/ Marcão/ Champignon/ Pelado), sucesso do grupo Charlie Brown Jr., também regravada por Baleiro, “Onde Estará o Meu Amor”, “Diana” (Paul Anka em versão de Fred Jorge [1928-1994]) e “Filme Triste” (John D. Loudermilk [1934-2016] em versão de Romeu Nunes), na porção jovem-guardista do espetáculo.
“Eu vou cantar uma música que eu lembro que a primeira vez que eu cantei em público foi aqui, num carnaval, em cima de um trio elétrico. Não é fácil a gente lançar uma música assim”, lembrou-se antes de cantar “Pedrada”. Como ontem, este repórter estava lá e lembra do impacto da mensagem, em pleno carnaval de 2019. Pelo meio da música mandou a palavra de ordem: “sem anistia!”.
Em meio a “Estado de Poesia” gritou “viva Celso Borges (1959-2023)!”, lembrando o parceiro que o apresentou a Zeca Baleiro. Quando cantou “Pedra de Responsa” (Chico César/ Zeca Baleiro) voltou a apresentar a banda, referindo-se a cada músico como uma pedra de responsa, a gíria maranhense que designa os reggaes muito bons, os prediletos. Era a noite do povo de axé, e Chico César terminou a apresentação cantando “Mamãe Oxum” à capela. O tema de domínio público, adaptado por Zeca Baleiro, foi cantado em dueto por ambos no álbum de estreia do maranhense, Por Onde Andará Stephen Fry? (MZA Music, 1997).
Chico César saudou São Luís pelos 412 anos que a cidade completará no próximo dia 8 de setembro e disse esperar estar de volta em 12 anos para esta festa. O gracejo de um artista que adora o lugar, por ele é adorado e tem vindo com frequência, para alegria de seu público fiel: de 2019 para cá, só não se apresentou em 2020 e 2021, os anos mais graves da pandemia de covid-19.
Passava um pouco de uma da manhã quando as luzes do palco se apagaram e os resistentes começaram a fazer o caminho de volta para casa, satisfeitos, mas com o gosto de quero mais por contradizer-lhes, certamente em estado de poesia.
Marcos Lussaray e Lourival Tavares em show no Teatro da Cidade (2014). Foto: Zema Ribeiro/ Divulgação
Artista será homenageado pela Festa da Música do Maranhão; no show, Lourival Tavares será acompanhado por Marcos Lussaray (violão e guitarra) e terá as participações especiais de Erasmo Dibell, Gildomar Marinho, Joãozinho Ribeiro, Josias Sobrinho, Sérgio Habibe, Tutuca Viana e Wilson Zara
O cantor e compositor Lourival Tavares, maranhense de Pio XII, hoje radicado em São Paulo, apresenta no próximo dia 18 de novembro (sábado), às 20h, no Bar do Léo, o show “Canto Encanto – A noite dos menestréis”.
Com entrada franca, na apresentação Lourival Tavares estará acompanhado por Marcos Lussaray (violão e guitarra) e contará com as participações especiais de Erasmo Dibell, Gildomar Marinho, Joãozinho Ribeiro, Josias Sobrinho, Sérgio Habibe, Tutuca Viana e Wilson Zara.
Lourival Tavares começou a cantar em programas de calouros no início da década de 1970. Sua música é fruto da influência de ritmos da cultura popular de seu estado natal, das canções que se ouviam no rádio à época – um vasto cardápio que inclui de Luiz Gonzaga a João do Vale, passando por Silvio Caldas, Jackson do Pandeiro, Gilberto Gil, Caetano Veloso e João Bosco, além dos poetas Catulo da Paixão Cearense e Patativa do Assaré.
“Canto Encanto – A noite dos menestréis”, o show, aproveita a passagem de Lourival Tavares pelo Maranhão: no próximo dia 16, antevéspera da apresentação, ele receberá o Prêmio Papete, durante a Festa da Música do Maranhão, que reconhece o talento e a importância de diversas personalidades para a música produzida por maranhenses. O evento chega este ano à sua sexta edição.
Lourival Tavares tem diversos álbuns gravados, entre os quais se destaca “No batuque do coração” (CPC-Umes, 2004), cujo repertório inclui músicas de sua lavra, como “Enluarado”, “Procissão das formigas”, “Solidão das lamparinas” e “Canto razão”, além de “Velha calça de xadrez” (parceria com Josias Sobrinho e Éden Bentes), “Matadouro” (com Celso Borges), e releituras para “Ana e a lua” (Betto Pereira) e “Pequeno concerto que virou canção” (Geraldo Vandré).
O reencontro de Lourival Tavares com seus convidados e com o público ludovicense promete ser uma noite de festa, com um passeio pelas diversas fases e álbuns de sua carreira, bem como pelas trajetórias de Erasmo Dibell, Gildomar Marinho, Joãozinho Ribeiro, Sérgio Habibe, Tutuca Viana e Wilson Zara, participações especiais que abrilhantarão o espetáculo.
Serviço
O quê: show “Canto Encanto – A noite dos menestréis” Quem: o cantor e compositor Lourival Tavares, acompanhado por Marcos Lussaray (violão e guitarra) e as participações especiais de Erasmo Dibell, Gildomar Marinho, Joãozinho Ribeiro, Sérgio Habibe, Tutuca Viana e Wilson Zara. Quando: dia 18 de novembro (sábado), às 20h Onde: Bar do Léo (Hortomercado do Vinhais) Quanto: grátis
Marconi Rezende e convidados realizam show em prol da democracia
“Pra não dizer que não falei das flores”, de Geraldo Vandré, se tornou um hino contra a ditadura militar brasileira inaugurada pelo golpe de 1964. O clássico é lembrado até hoje em momentos de enfrentamento, por exemplo, greves de trabalhadores reivindicando direitos.
A canção dá título ao show que Marconi Rezende e convidados apresentam – “em prol da democracia”, frisa o artista anfitrião –, na próxima sexta-feira (30 de setembro), às 21h, no Soul Lounge (Av. Litorânea).
O show terá repertório autoral e clássicos da música popular brasileira, com especial atenção às chamadas canções de protesto, numa tomada de posição coletiva, pública e, sobretudo, musical.
Além de Marconi Rezende, sobem ao palco Emanuelle Paz, Joãozinho Ribeiro, Josias Sobrinho, Luciana Pinheiro, Milla Camões, Tássia Campos e Tutuca.
O cenário de autoritarismo e violência no Brasil de 2022 é bastante parecido com o da ditadura. E é contra essa barbárie que estes artistas irão cantar.
O couvert artístico custa apenas 20 reais e pode ser pago antecipadamente pelo pix (98) 99111-9493.
O sublime encontro de Chico César com o Bumba meu boi do Maracanã. Fotos: Laila Razzo. Festival Zabumbada/ Divulgação
A entrada triunfal de Chico César no palco do Festival Zabumbada, encerrando a primeira noite do evento, foi uma espécie de síntese da emoção. Ao término da apresentação do Bumba meu boi de Maracanã, ele adentrou ao palco entoando “Sereia linda de Cumã”, composição do saudoso mestre Humberto, que o batalhão registrou com a participação do paraibano em “Aldeia Tupinambá” (Zabumba Records, 2020), consistente tributo ao pai de Ribinha, cujo legado está sendo preservado e levado adiante com louvor pelo herdeiro.
A Praça das Mercês exalava afeto. “A vida é a arte do encontro”, como nos ensinou o poeta, mas a pandemia de covid-19 fez ter mais sentido do que nunca o “embora haja tanto desencontro nessa vida”.
Se o encontro do paraibano com o bumba meu boi do Maranhão não era inédito, seja pela citada participação em disco, seja por sua própria trajetória, como fez questão de demonstrar ao cantar “Folia de príncipe”, vê-lo no palco é uma experiência única, o que faz valer o dito “fez valer o ingresso”, mesmo em se tratando de evento gratuito, realizado com patrocínio do Instituto Cultural Vale, através da Lei Federal de Incentivo à Cultura.
Chico César fez um show vibrante, passeando por diversas fases de seus quase 30 anos de carreira, isto se contados a partir da estreia fonográfica com “Aos vivos” (Velas, 1995), de cujo repertório pinçou “Beradéro”, com que abriu o espetáculo acompanhado por sua banda. Foi aplaudido em peso quando cantou o verso “e a cigana analfabeta lendo a mão de Paulo Freire”, que cita o pedagogo inimigo número um do regime bolsonarista.
À sua “Mama África” emendou “Brilho de beleza” (Nego Tenga) e “Pra não dizer que não falei das flores” (Geraldo Vandré), não o único medley da noite. Assisti ao show inteiro (e de resto à toda a primeira noite de festival) ao lado do compositor Chico Saldanha, amigo e parceiro que conheceu e conviveu com Chico César quando ele e Zeca Baleiro iniciavam o desbravar das veredas do sucesso na pauliceia desvairada. Saldanha chegou a gravar vocais na primeira versão de “Mama África”, que permaneceu inédita. “Mas era impossível não perceber que aquilo faria tamanho sucesso”, confidenciou-me.
Em “À primeira vista” trocou intencionalmente os nomes de Prince e Salif Keïta da letra original pelos de Zeca Baleiro e Rita Benneditto, numa reverência a seus pares maranhenses de geração. Outro medley de destaque foi “Da taça” com “Onde estará o meu amor” e “Diana”, versão de Fred Jorge para a música de Paul Anka, sucesso de Carlos Gonzaga. Chico César é, também, um liquidificador de referências.
Momentos de euforia da plateia também se deram quando ele cantou “Pedrada” (do refrão “fogo nos fascistas, fogo Jah!”), lembrando tê-la cantado pela primeira vez em público em cima de um trio elétrico no circuito carnavalesco da avenida Beira-Mar, no Centro de São Luís, em 2019, antes de lançar o disco “O amor é um ato revolucionário” naquele mesmo ano. E quando cantou “Bolsominions são demônios”, inédita que vem fazendo a cabeça de muita gente e causando polêmica, fez o público de ontem gritar “fora Bolsonaro!” e cantar “olê, olé, olé, olá, Lula, Lula!”.
Várias vezes Chico César (voz, guitarras e violões) reafirmou “lugar de mulher é onde ela quiser”, uma delas ao apresentar a baixista Lana Ferreira. Para viver em “Estado de poesia”, sua banda se completava com Helinho Medeiros (teclados), Gledson Madeira (bateria), Sintia Piccin (sopros) e Richard Fermino (sopros).
Como maranhense honorário, o paraibano de Catolé do Rocha Chico César sentia-se em casa e parecia não querer sair do palco. Sorte a nossa! Entre “Mand’ela” e “Pedra de responsa”, parcerias com Zeca Baleiro, entre muitas outras jóias de seu repertório, a exemplo de “Deus me proteja” (2008), gravada com a adesão de Dominguinhos, por ele lembrado ontem, e “Dúvida cruel”, parceria com Itamar Assumpção, nem precisou o público pedir bis para o show ter chegado bem perto de duas horas de duração (“Violivoz”, com Geraldo Azevedo, a que assisti em abril passado, durou 2h15).
Não vi inteira a primeira noite do festival – e ainda estou aqui escrevendo enquanto as atrações da segunda já começaram a se apresentar. Hoje encerra com Dona Onete e amanhã com Mariana Aydar, veja a programação completa no instagram @festivalzabumbada.
Mas outros pontos da noite de ontem merecem destaque.
A exuberância do Bumba meu boi da Floresta de Mestre Apolônio e as toadas de protesto do Bumba meu boi da Fé em Deus, traduzindo no ritmo das zabumbas que emprestam o nome ao festival a trágica realidade brasileira. Tudo isso (e mais um pouco) entremeado pela discotecagem sempre atenta e antenada da dj Vanessa Serra.
A participação especial de César Nascimento no show do Criolina, marcando o encontro, no palco, dos autores de “Maguinha do Sá Viana”, de César e Alê Muniz, reggae que se tornou um clássico da música popular brasileira produzida no Maranhão. O Criolina, Luciana Simões (voz), Alê Muniz (voz e guitarra), era acompanhado por Erivaldo Gomes (percussão), Sarah Byancchi (saxofones), João Simas (guitarra), Davi Oliveira (baixo), Sandoval Filho (teclado e programação) e Thierry Castelo (bateria), além da performance da atriz Áurea Maranhão.
O Criolina fez um show diverso, aliando covers e repertório autoral, com destaque para “A menina do salão” e “O santo”, juntando xote e reggae, a demonstrar a proximidade entre as células rítmicas dos dois gêneros, transformando João do Vale em regueiro e Bob Marley em uma espécie de Luiz Gonzaga, evoé, Gilberto Gil! Certas coisas só entende quem presencia. Novamente vamos passear na praça, evoé, Luiz Melodia!
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Perdeu ou quer ouvir de novo? O Balaio Cultural de hoje (9), na Rádio Timbira AM, dedicou a maior parte de sua programação musical às atrações do Festival Zabumbada:
O cearense Lucas Ló, radicado há cinco anos em São Luís, desfiou um repertório inteiramente nordestino, com especial destaque para o ídolo conterrâneo Belchior, com bastante personalidade.
Acompanhado por Jessé Fonseca, num teclado cheio de balanço e personalidade, passeou ainda por nomes como Fagner, Djavan, Carlinhos Veloz, César Nascimento, Sérgio Habibe e Josias Sobrinho.
Aos pedidos insistentes de “Barco de papel”, joia de sua autoria, respondeu com um educado “já rolou”; o pedido partia dos que adentraram a sala atrasados. Um dos nomes mais sofisticados da noite ludovicense, Ló se apresentou por cerca de hora e meia preparando o terreno para a noite inesquecível que viria, ao mesmo tempo sendo parte dela.
Não faltaram clássicos como “Apenas um rapaz latino-americano”, “Pequeno mapa do tempo”, “Alucinação”, “Fotografia 3×4”, “A palo seco” e “Mucuripe”, da lavra de Belchior, esta última em parceria com Fagner, “Noturno” (Graco/ Caio Silvio), “Serrado” (Djavan), “Ilha bela” (Carlinhos Veloz), “Ilha magnética” (César Nascimento), “Eulália” (Sérgio Habibe) e “Engenho de flores” (Josias Sobrinho).
“Se alguém me dissesse, há cinco anos, quando saí do meu Ceará, que hoje eu estaria aqui, abrindo o show dessas duas figuras centrais na minha formação, nesse teatro lotado, eu não acreditaria. É um momento muito importante para mim”, revelou Ló, agradecendo a presença do público, em cujo repertório se destaca ainda a também autoral “Ode a São Luís”, inédita, em que ele, de certo modo canta sua rota e a receptividade com que foi acolhido na ilha do amor. Uma avant-première aos atentos que chegaram cedo.
Quando Chico César e Geraldo Azevedo subiram ao palco, a cama estava pronta.
“Violivoz” é um show vigoroso e sincero. Sobem ao palco sem firulas, dizendo logo a que vieram: atacam a introdução de “Táxi lunar” (Alceu Valença/ Geraldo Azevedo/ Zé Ramalho), mas antes de cantarem, emendam a “Cantiga (Caicó)”, das Bachianas Brasileiras, de Heitor Villa-Lobos, sucesso de Teca Calazans, com alterações na letra, a homenagear suas terras natais e reafirmar a admiração mútua: “oh, mana, deixa eu ir/ oh, mana, eu vou a pé/ oh, mana, deixa eu ir/ para o sertão de Catolé”, começa Chico, referindo-se a Catolé do Rocha, na Paraíba, seguido por Geraldo: “oh, mana, deixa eu ir/ andar é minha sina/ oh, mana, deixa eu ir/ para o sertão de Petrolina”, e depois: “oh, mana, deixa eu ir/ oh, mana, eu vou cedo/ oh, mana, deixa eu/ cantar com Geraldo Azevedo” e “oh, mana, deixa eu ir/ andar com quem me preza/ oh, mana, deixa eu/ cantar com Chico César”. A determinada altura de “Táxi lunar”, Geraldo Azevedo solta um “vai, Zé!” e Chico César imita a voz de Zé Ramalho. E era apenas o primeiro número.
O vigor a que me referi diz respeito ao fato de a dupla cantar e tocar – e por vezes dançar – por duas horas e 15 minutos de espetáculo, de pé. A sinceridade é percebida na admiração mútua várias vezes declarada. Um é fã do outro, os dois se tornaram amigos e parceiros. Geraldo Azevedo, ao lembrar de como se conheceram, convidado a gravar uma música de Chico César em um disco produzido por Totonho, que homenageava as vítimas da chacina da Candelária, no Rio de Janeiro, nunca lançado, já percebeu ali suas qualidades. Depois, quando Chico lançou “Aos vivos” (1995), seu disco de estreia, revelou ter comprado 50 exemplares e distribuído a amigos, produtores, em suas turnês pelo Brasil e Europa. “O Belchior, que é da minha geração, dizia que “nossos ídolos ainda são os mesmos” e Chico César era um ídolo novo e eu queria apresentá-lo pra todo mundo”, disse Geraldo. Chico completou: “Belchior também dizia que “o novo sempre vem”” e revelou a influência exercida sobre o então adolescente pelo disco “Cantoria 1” (1984), que registrou o encontro de Geraldo com Elomar, Vital Farias e Xangai.
“Para mim é uma alegria muito grande dividir o palco com Geraldo Azevedo, é uma baita honra vê-lo cantando uma música minha”, declarou Chico, depois de cantarem juntos “Estado de poesia” (Chico César).
É um show de entrega. Não há momentos solo de um e outro artista. Eles cantam juntos o tempo inteiro o repertório um do outro e de artistas admirados, casos de Geraldo Vandré (“Pra não dizer que não falei das flores (Caminhando)” é emendada a “Mama África”, de Chico), Milton Nascimento e Caetano Veloso (“Paula e Bebeto”, gravada por Geraldo em 1979) e Paul Anka (a versão de Fred Jorge para “Diana”). Ninguém se cansa: nem os artistas no palco, nem a plateia. Todo mundo em comunhão. Ou quase.
Quando Chico César anunciou que cantaria “outra canção de amor, de nosso amor pela Terra, pelos pequenos agricultores, uma parceria minha com Carlos Rennó”, e atacou de “Reis do agronegócio”, um coro de “Fora Bolsonaro!” se ouviu no Centro de Convenções. Uma tentativa de vaia, raquítica, foi encoberta, e prevaleceu a vontade da maioria. Outros gritos de “Fora Bolsonaro!” vieram e Chico César, numa sequência demolidora, mandou, sempre acompanhado por Geraldo Azevedo, “Pedrada” (Chico César), cujo refrão diz: “fogo nos fascistas, fogo Jah!”. “Essa música, a primeira vez que eu cantei, foi em cima dum trio elétrico, num carnaval, aqui em São Luís, para 100 mil pessoas, e eu fiquei muito contente com a receptividade”, lembrou.
Em “Bicho de sete cabeças” (Geraldo Azevedo/ Renato Rocha/ Zé Ramalho), passaram perto de 10 minutos solando seus violões, até cada um cantar uma parte da letra, sem as sobreposições que a tornaram um clássico. Comentaram a pandemia, o isolamento social, a gênese do show, após Chico ter assistido a um show de Geraldo em São Paulo e terem ido para a casa do primeiro, depois do espetáculo, tocar violão na cozinha. Tocaram duas parcerias, uma inédita e o single “Nem na rodoviária”, já disponível nas plataformas de streaming.
São duas gerações de artistas, convivendo harmoniosa e respeitosamente, Geraldo aos 77 anos, Chico aos 58. Têm a mesma grandeza e importância. Nenhum se sobressai ao outro e o equilíbrio é também uma característica de destaque do show. São dois artistas que, cada um a seu tempo, souberam cativar o público de São Luís – suas apresentações por aqui são sempre marcadas por casas cheias e intensa interação das plateias. Ontem não foi diferente.
Perto do fim do show, Geraldo apenas ameaçou cantar “Terra à vista” (Carlos Fernando). Puxou o “San, san, san, São Luís do Mará” do refrão, que a plateia imediatamente repetiu em coro, mas deixou apenas a vontade no público. Alguém na plateia, insistentemente pedia “Pétala”, não o sucesso de Djavan, mas abreviando o título de “Pétala por pétala” (Chico César/ Vanessa Bumagny). “A gente vê muito homem ansioso, mulher é menos. A mulher goza melhor por que ela goza depois, goza mais e melhor; o homem é sempre aquela pressa, de querer gozar logo”, contou para gargalhadas da plateia e o não-atendimento ao pedido renitente.
Chico César citou vários amigos, maranhense ilustres, afirmando ser uma honra estar mais uma vez em sua terra: Papete, Rita Benneditto, Josias Sobrinho, Chico Saldanha, Flávia Bittencourt, Alcione. E Celso Borges, a quem fez especial deferência: “foi quem me apresentou a Zeca Baleiro. A gente já morava em São Paulo e ele um dia me disse: olha, tem um amigo meu, do Maranhão, vindo morar aqui, é meio doidinho assim que nem tu, não é bem compreendido em nossa terra; isso naquela época, e eu entendi de cara o que ele queria dizer”, contou, para risadas da plateia. Em seguida ofereceu-lhe “Você se lembra” (Geraldo Azevedo/ Pippo Spera/ Fausto Nilo).
Também cantaram juntos “Pedra de responsa” (Chico César/ Zeca Baleiro) e na sequência Geraldo puxou, a capella, o refrão de “Cadê meu carnaval” (Geraldo Azevedo), que ele cantou, modificando a letra: “Olê lê lê/ cadê meu carnaval?/ olê lê lê/ cadê meu carnaval?/ carnaval está chegando/ cadê meu carnaval?” – a letra original diz “carnaval está morrendo”. O público ficou cantando enquanto eles se retiraram do palco.
Aos gritos de mais um, retornaram, para delírio dos presentes, mandando o clássico “Dona da minha cabeça” (Geraldo Azevedo/Fausto Nilo), em arranjo de reggae. Já não havia mais ninguém sentado, praticamente todo mundo cantava junto e alguns casais arriscavam uns passos.
Um final apoteótico de um show antológico, de uma turnê adiada e interrompida pela pandemia de covid-19, indefinidamente prorrogada pela irresponsabilidade de uns poucos que insistem em querer um Brasil feio e triste, justamente o contrário do colorido das roupas dos artistas e da diversidade que sua música representa, afinal de contas o Brasil alegre e festeiro, que haverá de prevalecer. Espero que este dueto, esta cantoria, este grande encontro, vire disco. Oxalá!
“Incluindo Pra não dizer que não falei das flores (Caminhando) proibida desde 1968”, anuncia uma faixa no canto superior esquerdo da capa do LP homônimo de Geraldo Vandré lançado em 1979, ano da controversa lei da anistia.
Geraldo Vandré, o disco, recentemente relançado em cd, abre e fecha com versões ao vivo e em estúdio da música que acabou símbolo da resistência à ditadura militar, defendida pelo artista no 3º. Festival Internacional da Canção, em 1968, no Maracanãzinho, ocasião em que foi feita a foto da capa.
Geraldo Vandré, o artista, é uma das mais radicais e controversas figuras da música popular brasileira a qualquer tempo. Seu completo sumiço, ainda na década de 1970, contribuiu para a proliferação de uma mitologia particular ao redor de sua figura.
Com toda a discografia fora de catálogo este álbum certamente contribuirá para a redescoberta (de parte) da obra do artista, por vezes injustamente tratado como um one hit wonder, além dessa mitologia de almanaque ao redor do personagem.
O repertório demonstra a versatilidade de Vandré para além do estigma de cantor de protesto. Ardoroso defensor da cultura nacional, estão ali, com o acompanhamento do Trio Novo (Airto Moreira, Heraldo do Monte e Théo de Barros, que se tornariam Quarteto Novo após o ingresso de Hermeto Pascoal), a apropriação de temas nordestinos (Canção nordestina e Fica mal com Deus), a evolução da bossa nova, superando estereótipos de sua origem, como os diminutivos e a paisagem carioca (Quem quiser encontrar o amor, parceria com Carlos Lyra, com o violão de Baden Powell), o carnaval (a belíssima marcha rancho Porta estandarte, parceria com Fernando Lona) e o diálogo com Guimarães Rosa (Réquiem para Matraga, da trilha sonora de A hora e a vez de Augusto Matraga [1966], filme de Roberto Santos baseado em conto do mineiro).
Réquiem para Matraga, aliás, está na trilha sonora da novela global Velho Chico: é tema do personagem Santo dos Anjos (Domingos Montagner). Originalmente lançado pelo selo Som Maior, da RGE, o disco é relançado pela Som Livre, braço fonográfico das organizações Globo, que apoiou o golpe militar de 1964 – que obrigaria artistas como Vandré e outros ao exílio.
“As músicas deste álbum tornaram mais leve a vida do brasileiro e mais encorajada a vontade de liberdade daqueles que viveram em um dos períodos mais obscuros da nossa história”, diz, no entanto, um trecho de um cínico texto na parte interna da embalagem.
Apesar de tudo, o relançamento e a transposição de sua trilha são mais uma possibilidade de mais gente conhecer a obra de Vandré, que segue recluso, fazendo raríssimas aparições públicas. Bem poderia esta reedição ser o início da de toda sua breve discografia.
Oitavo disco da carreira do maranhense radicado em São Paulo será lançado em show intimista. Além de repertório autoral, espetáculo trará obra de grandes nomes da música brasileira
Com 29 anos da gravação de seu primeiro disco, o cantor e compositor Lourival Tavares volta a se apresentar em São Luís. O show será sexta-feira (11), às 20h, no Teatro da Cidade de São Luís (antigo Cine Roxy). Na ocasião o músico lançará seu oitavo disco, Enluarado, mesmo título do espetáculo.
O repertório de Enluarado terá a íntegra do disco, que inclui, entre outras, Muito romântico, de Caetano Veloso (gravada por Roberto Carlos), e Pequeno concerto que virou canção, de Geraldo Vandré. No show, Lourival Tavares passeará também por músicas de outros discos seus, casos de Matadouro, parceria com o poeta Celso Borges, Velha calça de xadrez, parceria com Josias Sobrinho e Éden Bentes, além da obra de artistas que admira, como João do Vale, Luiz Gonzaga e Betto Pereira, de quem gravou Ana e a lua.
Enluarado é uma espécie de apanhado de sua trajetória. O disco, junto com o dvd O laço do olhar, aponta os destaques de sua produção e nomes que foram importantes para a sua formação musical. O dvd conta com a participação especial de Jarbas Mariz, músico da banda de Tom Zé, que já havia gravado com Lourival Tavares em seu disco ao vivo Na colheita dos versos. No palco ele será acompanhado por Marcos Lussaray (violão e guitarra).
“O roteiro do show é baseado no repertório do disco Enluarado, acrescido de músicas que gosto de cantar. Mas é claro que seu formato enxuto, somos eu e mais um músico no palco, permite certa flexibilidade. O público pode aguardar algumas surpresas”, avisa Lourival Tavares, natural de Santa Inês/MA, hoje radicado em São Paulo.
O músico voltou à São Luís para participar da temporada junina. “Fiz algumas apresentações, recarrego as baterias, as energias para viver em São Paulo e criar. Resolvi aproveitar o prolongar da passagem para lançar o disco novo em minha terra natal”, revela.
Serviço
O quê: show Enluarado Quem: Lourival Tavares Quando: 11 de julho (sexta-feira), às 20h Onde: Teatro da Cidade de São Luís (antigo Cine Roxy) Quanto: R$ 20,00 (R$ 10,00 para estudantes e demais casos previstos em lei) Maiores informações: (98) 8122 0009