José Louzeiro (D) acompanha o depoimento de Jorge Duran. Foto: Paula Monte
A certa altura de José Louzeiro – Depois da Luta [documentário, Brasil, 2018, 15 min.], o cineasta Jorge Duran afirma que o escritor, jornalista e roteirista maranhense tem o devido reconhecimento por sua primeira faceta, mas não pela última. Coloca-se/nos a pulga atrás da orelha ao afirmar que mesmo diante de clássicos do cinema, pouca gente lembra o nome do roteirista, de modo geral. Faz sentido.
Causou-me particular indignação a leitura dos obituários do cineasta argentino radicado no Brasil Hector Babenco (1946-2016): ao citarem Carandiru (2003), por exemplo, constava a informação de que o filme era baseado no livro homônimo do médico e escritor Dráuzio Varela; ao citarem Pixote, a lei do mais fraco (1980) ou Lúcio Flávio, o passageiro da agonia (1977), “esqueciam” de dizer que os filmes, além de baseados em livros de Louzeiro, tinham o maranhense no time de roteiristas.
A amiga de infância Marita Freitas é taxativa ao afirmar que até hoje pouca gente sabe que Louzeiro é maranhense. O documentário de Maria Thereza Soares, nesse sentido, busca fazer justiça, longe de pretender esgotar o personagem José Louzeiro, tarefa impossível em um filme de 15 minutos.
Assim, com pesquisa e argumento da jornalista Bruna Castelo Branco – que atualmente dedica seu projeto de pesquisa a José Louzeiro no Mestrado em Cultura e Sociedade na Universidade Federal do Maranhão (UFMA) –, foca na relação de Louzeiro com o cinema, embora não deixe de abordar, ainda que sucintamente, a infância em São Luís (“eu sou de uma rua chamada Camboa do Mato”, diz o protagonista), a mudança ainda adolescente para o Rio de Janeiro, onde foi “aprendiz de repórter de polícia”, o pioneirismo no romance-reportagem, gênero em que estão seus livros mais conhecidos, o diabetes que lhe amputou uma perna, mas não a veia de repórter e a necessidade de escrever – o que seguiu fazendo até falecer, em 29 de dezembro passado, sem ver concluído o filme/homenagem.
O filme está longe de ser triste. “Esse Depois da Luta é engraçado, né? Tinha que ser antes, Antes da Luta”, sorri Louzeiro, que afirma não ter sentido o peso do diabetes. Ele chega a dizer mesmo que venceu a doença.
Além de Louzeiro, o filme é enriquecido por depoimentos do escritor e amigo Benedito Buzar, da amiga de infância Marita Freitas, da amiga, divulgadora e ex-esposa Ednalva Tavares, dos cineastas Jorge Duran (corroteirista, com Louzeiro e Babenco, de Pixote, a lei do mais fraco), José Joffily (diretor de entre outros, Quem matou Pixote?, 1996), Sérgio Rezende (diretor de O homem da capa preta, 1987, do qual Louzeiro integra o time de roteiristas), e o produtor Roberto Mendes, além de enriquecido por imagens de arquivo, com roteiro original, correspondência e fotografias de bastidores de gravações. Neste sentido, José Louzeiro – Depois da Luta vai fundo: há comentários até sobre filmes que não chegaram a ser realizados.
Cineastas sempre filmam mais do que usam. O que os espectadores vemos são só um percentual do captado em suas idas a campo – no caso de Maria Thereza Soares, as filmagens entre o Maranhão e o Rio de Janeiro. Assim, José Louzeiro – Depois da Luta é o tipo de filme que instiga o espectador a ir em busca de seu protagonista, a recuperar o tempo perdido: Louzeiro é maior e mais importante que a atenção em geral dispensada por nosso jornalismo e nossas escolas de comunicação e cinema.
Realizado com recursos do II Edital de Audiovisual do Governo do Estado do Maranhão, José Louzeiro – Depois da Luta foi selecionado para a Mostra Competitiva Guarnicê de Filmes Maranhenses do 41º. Festival Guarnicê de Cinema. O filme será lançado hoje (18), em sessão para convidados, às 19h, no Cine Praia Grande (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande). Amanhã (19), às 18h, no mesmo local, haverá sessão gratuita aberta ao público, seguida de debate com a diretora Maria Thereza Soares e a pesquisadora Bruna Castelo Branco.
A obra de Louzeiro sempre esteve do lado dos fracos e oprimidos. A escolha de 18 de maio para a data de estreia não poderia ter sido mais acertada: hoje, data que marca o Dia Nacional de Combate ao Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, o brutal e covarde assassinato da menina capixaba Aracelli Cabrera Sánchez Crespo completa 45 anos. O caso inspirou Louzeiro a escrever o romance-reportagem Aracelli, meu amor (1976).
Originalmente publicado em 1944, O tesouro de D. José e outros contos só ganhou nova edição já na década de 1980. Agora, por ocasião do centenário do autor (1917-2006) e iniciativa do escritor Wilson Marques, em parceria com a Casa de Cultura Josué Montello, o livro infantojuvenil ganha uma terceira edição pela editora Mercuryo Jovem [2017, 63 p.]. O caprichado volume tem ilustrações de Paola Brunelli.
Sete contos fantásticos apresentam aos leitores outra faceta de Josué Montello, realizados antes de ele se tornar o escritor consagrado como viria a ser reconhecido. Já estão ali marcas da prosa montelliana, a despeito dos verdes anos da juventude, às vezes desculpa para deslizes: prosa límpida e envolvente, sua terra natal como cenário, o cuidadoso tratamento literário dado a temas populares – ou simplesmente aos frutos puros de sua fértil imaginação.
“São pequenas histórias, muito bem escritas, lendas que se referem à terra maranhense, envolvendo homens e bichos. Josué resgatou estes causos, para não deixar que eles fossem tragados pelo esquecimento”, atesta na apresentação do livro o escritor Arnaldo Niskier, membro da Academia Brasileira de Letras, em que ocupa a cadeira 18, cujo patrono é o também maranhense João Francisco Lisboa.
Em O tesouro de D. José e outros contos Josué Montello fantasia a origem do dourado das águas do Rio Itapecuru (o conto-título), conta a história de um macaco que queria ser homem, antecipando a discussão sobre autoaceitação, sobretudo na ditadura da publicidade (A ambição do macaco), discorre sobre a força do amor (A princesa Julieta e A rainha das águas), a origem das flores (A lenda das flores), das saúvas (O bruxo) e das construções subterrâneas das formigas (O palácio da formiga).
Por vezes crianças e jovens terão que recorrer ao dicionário para descobrir o significado de uma ou outra palavra mais rebuscada do vocabulário de Montello. Por vezes adultos também precisarão fazê-lo – talvez mesmo o livro seja para estes, embora mergulhe profundamente no universo da fantasia, em geral vinculada à infância, já que ao tornarmo-nos adultos perdemos a capacidade de nos encantar com princesas, fadas e bichos e plantas que falam.
O autor de Os tambores de São Luís é capaz de nos devolver este encanto – ao menos enquanto dura a leitura de O tesouro de D. José e outros contos.
Ademir Assunção é um caso raro: poeta, jornalista e escritor, é dono de uma obra consistente nas três áreas, tendo vencido o Jabuti de poesia em 2013 com A voz do ventríloquo [Editora Edith, 2012], e é autor do fundamental Faróis no caos [Edições Sesc/SP, 2012]. Digo raro por que nem sempre alguém consegue se embrenhar por tantas veredas e fazê-lo com qualidade em todas, ele que ainda lança discos de poesia e faz shows com sua banda Fracasso da Raça (entre meus nomes de bandas preferidos, ao lado de Isca de Polícia e Fábrica de Animais).
Seu romance – ou não-romance ou antirromance – Ninguém na Praia Brava [Patuá, 2016] é uma demonstração desse trânsito. O livro mescla ficção e realidade, elementos da cultura de massa e poesia, tudo isso, de algum modo, matéria-prima do jornalismo, de que Ademir Assunção acabou exilado, por não compactuar com a mediocridade das redações.
Com domínio absoluto da linguagem e de todo o arcabouço teórico sobre aquilo que convencionamos chamar romance, o autor mergulha num vasto universo de referências, sem tornar o livro hermético a quem porventura não as conheça. Kurt Vonnegut e Billy Pilgrim, por exemplo, são personagens. Há viagens no tempo e na galáxia – ao planeta de Tralfamador. O livro é explicitamente uma homenagem ao autor de Matadouro 5 [L&PM, 2005].
Se nem na chamada vida real Ademir Assunção, no exercício do jornalismo, hesitou em dar sua contribuição para o fim do mito da imparcialidade jornalística, quanto mais numa ficção: ele deixa claras suas preferências e seus desprezos por nomes do star system. Ao primeiro time comparecem, entre outros, Paulo Leminski, Itamar Assumpção, Noel Rosa, Jards Macalé e Henry Miller; ao segundo, Carlinhos Brown, Marisa Monte e Preta Gil, para citar uns poucos.
Uma provocação desde o título: os que compram livros (apenas) pela capa podem imaginar tratar-se de uma praia deserta. Ledo engano: Ninguém é o nome do protagonista, em um livro em que há personagens como Nada, Nunca e Alguém. Há sexo – intergaláctico, sem trocadilho –, violência – com besouros e gafanhotos morrendo esmagados – e a tiração de onda, com certezas – poesia não dá dinheiro nem rende sete milhões em adaptações ao cinema –, com a indústria do entretenimento – uma obsessão de Ninguém é ver seu romance adaptado em Hollywood, por Sean Penn ou Francis Ford Coppola – e com os próprios leitores e críticos, em recados com endereço certo ao longo da narrativa delirante e por vezes hilariante.
Em Ninguém na Praia Brava Ademir Assunção aprofunda a experiência radical de A máquina peluda [Ateliê Editorial, 1997] e Adorável criatura Frankenstein [Ateliê Editorial, 2003]. O enredo desenrola-se como um diário, que acompanha os dias de “ócio criativo” de um escritor na praia do título, entre caipirinhas, cachorros e tralfamadorianos, em busca de escrever seu novo livro, embora o narrador advirta (e aí já não sabemos se se trata do autor, do protagonista ou de outro personagem) que não é um livro sobre um escritor em crise, mas um livro sobre o tempo. Crise, essa espécie de palavra-chave do Brasil sob a égide do ilegítimo, que, de algum modo explica também a minha demora em ler e escrever sobre este certeiro petardo literário.
O diário de Ninguém acompanha dois meses de escrita deste que também podemos chamar de metarromance, que se equilibra em linha tênue entre a realidade (cada vez mais absurda sobretudo no Brasil) e a (fértil) imaginação do autor, baseada em seu arsenal de referências, explícitas ou atiradas como iscas aos mais atentos ao longo do livro, de resto irrotulável e desaconselhável a carolas e partidários do politicamente correto.
Baseado no livro de Kent Haruf, o homônimo Nossas noites [Our souls at night; Companhia das Letras, 2017], o filme de Ritesh Batra [drama, 2017] leva vantagem: nem o leitor de imaginação mais fértil poderia pensar no casal protagonista sendo materializado por Robert Redford e Jane Fonda.
Esta seria a primeira vantagem do filme sobre o livro, para quem gosta de comparar expressões artísticas distintas – um livro é um livro, um filme é um filme, e mesmo que um seja adaptado do outro, cada qual é uma obra de arte a seu modo. Neste caso, o filme é fiel ao livro, mas nem sempre é ou deve ser assim. Produção da Netflix, a película é dedicada à memória do autor do livro.
Addie (Fonda) e Louis (Redford) são dois viúvos em na pacata Holt, Colorado. Um dia ela resolve ir à casa dele, convidá-lo para dormirem juntos, “ajudar a passar a noite. A noite é a parte mais difícil, não acha?”, ela pergunta ao encabulado vizinho.
Ele aceita a proposta e começa a frequentar a casa da vizinha, à noite, pela porta dos fundos, com medo da fofoca da vizinhança. Ela lhe serve vinho, eles começam a conversar desajeitadamente, buscando saber mais sobre si mesmos – apesar de vizinhos há décadas, pouco se falavam quando os cônjuges eram vivos, embora soubessem muito da vida um do outro.
A história dos dois não demora a ganhar outros contornos, com a visita do neto de Addie, seu filho que não aceita a relação, ao julgar Louis por seu passado. Não demora também para que a preocupação deste se mostre fundada: seu gesto de levantar-se e ir embora quando os colegas de terceira idade tentam começar a brincar com seus encontros noturnos é também uma declaração de amor, ainda que tardio.
Atores experientes, Redford e Fonda dão conta de sobra dos diálogos bem construídos e intensos. Nossas noites é uma bonita história de amor, que mostra que para este não há limites, amarras, proibições – entre as quais a idade ou outras convenções sociais. A uns, o filme poderá parecer lento demais ou mesmo dar a impressão que nada acontece. Como no amor, seu tema principal, o encanto está na sutileza, na delicadeza.
*uso aqui o mesmo título que dei ao texto sobre o livro no qual o filme se baseia.
Máximas, pensamentos e ditos agudos. Capa. Reprodução
Máximas, pensamentos e ditos agudos [Penguin Classics Companhia das Letras, Coleção Grandes Ideias, 2017, 102 p.; R$ 24,90; leia um trecho] “é composto de trechos selecionados da correspondência, das crônicas e dos textos críticos escritos por Machado de Assis durante meio século, de 1858 até as vésperas de sua morte, em 29 de setembro de 1908”, conforme anuncia o texto de apresentação, assinado pelo organizador Hélio Guimarães, respeitado machadófilo, enfatizando que a seleta não inclui a ficção machadiana.
No ano (eleitoral) de 2018, quando se completam 110 anos do falecimento do bruxo do Cosme Velho, o livro, lançado ano passado, soa bastante atual em mais trechos do que gostaríamos. “Muitas das frases são de uma espantosa atualidade, não porque o escritor previsse o futuro, mas porque entre o seu tempo e o nosso muita coisa permaneceu intacta, no Brasil e no mundo”, continua Guimarães, professor da Universidade de São Paulo, editor da Machado de Assis em Linha – Revista Eletrônica de Estudos Machadianos, autor de Machado de Assis, o escritor que nos lê [Unesp, 2017] e Os leitores de Machado de Assis: o romance machadiano e o público de literatura no século XIX [Nankin/Edusp, 2012].
Separado em 12 pequenas seções, o livro perpassa comentários de Machado de Assis sobre si mesmo, o Rio de Janeiro, a política, costumes, livros, o ofício de escrever, vícios e virtudes, a posteridade e a glória, além de revelar admirações do escritor, entre outros temas.
“Em nosso país a vulgaridade é um título, a mediocridade um brasão” [“Comentários da Semana”, Diário do Rio de Janeiro, 1º. de novembro de 1861] não é uma frase que parece talhada hoje, sob o regime golpista de Michel Temer e companhia?
Outros exemplos:
“Todas as crenças se confundem neste fim de século sem elas” [“A Semana”, Gazeta de Notícias, 19 de março de 1893].
“Pode dizer-se que o nosso movimento literário é dos mais insignificantes possíveis. Poucos livros se publicam e ainda menos se leem […] [“Comentários da Semana”, Diário do Rio de Janeiro, 24 de março de 1862].
“[…] As instituições existem, mas por e para 30% dos cidadãos. Proponho uma reforma no estilo político. Não se deve dizer: “consultar a nação, representantes da nação, os poderes da nação”; mas – “consultar os 30%, representantes dos 30%, poderes dos 30%”. A opinião pública é uma metáfora sem base; há só a opinião dos 30%. Um deputado que disser na Câmara: “Sr. Presidente, falo deste modo porque os 30% nos ouvem…” dirá uma coisa extremamente sensata. [“História de Quinze Dias”, Ilustração Brasileira, 15 de agosto de 1876].
E uns conselhos (carapuças que caem bem a escritores e jornalistas, mas não só):
“A primeira condição de quem escreve é não aborrecer”. [“Ao Acaso”, Diário do Rio de Janeiro, 10 de março de 1864].
“Se és feliz, escreve; se és infeliz, escreve também”. [“Ao Acaso”, Diário do Rio de Janeiro, 22 de novembro de 1864].
“Estilo, meus senhores, deitem estilo nas descrições e comentários; os jornalistas de 1944 poderão muito bem transcrevê-los, e não é bonito aparecer despenteado aos olhos do futuro” [“A Semana”, Gazeta de Notícias, 13 de janeiro de 1895].
2017 foi um ano de descobertas para Cláudio Lima. Artista sempre apontado como cantor talentoso, revelou-se compositor ao assinar, sozinho ou em parceria, a metade das faixas de Rosa dos ventos, seu terceiro disco. O ano que findou revelou ainda outra faceta de Cláudio Lima: a de escritor, autor do infanto-juvenil Esplêndido: o guará que não conseguia ficar vermelho [Gwará/ Sesc/ Oca/MA, 2017, 48 p.], ilustrado por Rosiane Bastos.
Claudio Lima não coloca no papel algo ouvido da tradição oral, nem reconta uma lenda ou algo que o valha. Ele parte de um argumento original e seu livro debate questões urgentes e fundamentais, todas pautadas em direitos humanos, como a preservação do meio ambiente, sabedoria indígena, solidariedade, bullying, igualdade, amizade, adoção, alimentação adequada etc.
Livro para ser lido por crianças de todas as idades, com o perdão do clichê, Esplêndido conta a história de um guará que é muito mais que um guará que não conseguia ficar vermelho. É a história de um guará que cai do ninho ao nascer, se perde de sua família original, se afeiçoa a um caranguejo chama-maré (base da alimentação da espécie) e é adotado por uma siricora.
Fábula de formação – acompanha os passos do guará do nascimento aos ensinamentos que nos deixa ao longo da leitura –, sua moral vem em forma de poesia, com referências sutis (à cantora Maysa, rainha da fossa, gênero a que Cláudio Lima já dedicou um disco) ou escancaradas (à poeta Cora Coralina, que empresta o nome à Siricora Coralina, mãe adotiva de Esplêndido).
O quanto temos em comum com o protagonista, muitas vezes querendo ser isto ou ter aquilo sem entender o sentido de determinadas buscas?
“Às vezes a gente tenta maquiar os problemas, achando que as aparências são o mais importante. Se tu quer uma transformação, ela tem que vir de dentro”, ensina-lhe/nos Pedro Bó, um macaco amigo. “Tu realmente acreditas que só os pássaros vermelhos são felizes? A felicidade tem tantas cores!”, disseram-lhe/nos árvores e nuvens em uníssono durante um sonho.
Viva a diversidade!, outro tema abordado por Cláudio Lima em seu livro de estreia, recheado de ensinamentos, longe da autoajuda que costumeiramente vira best-seller. Aquela voz (das nuvens e árvores no sonho), volta a se pronunciar: “às vezes o mundo com suas provocações te deixa desamparado e buscas alguma ilusão que te cega e deixas de tirar proveito da tua própria angústia. Vou te dar apenas dois conselhos: 1. Busque o amor dos outros do jeito que eles te sabem amar e retribua; 2. Busque conhecimento em todos os lugares onde tiveres acesso. Assim tuas dúvidas poderão transformar-se em sabedoria”.
Vale usar o próprio título do livro para elogiá-lo?
Belchior – Apenas um rapaz latino-americano. Capa. Reprodução
Lembrado em listas de melhores do ano e de mais vendidos, Belchior – Apenas um rapaz latino-americano [Todavia, 2017, 237 p.; R$ 49,90] foi sucesso absoluto de público e crítica em 2017. Um livro lido e discutido, debatido para o bem e para o mal – não demorou para uma irmã do biografado falar em tirar a obra, pioneira, de circulação.
O autor, Jotabê Medeiros, paraibano formado em Jornalismo na Universidade Estadual de Londrina, no Paraná, e radicado em São Paulo há cerca de 30 anos, sempre lembra, em entrevistas, os tempos de estudante, quando três discos lhe faziam a cabeça: Desire (1976), de Bob Dylan, A peleja do diabo com o dono do céu (1979), de Zé Ramalho, e Alucinação (1976), de Belchior.
Até que um dia, com a ousadia e o faro que lhe tornariam um dos maiores jornalistas culturais do Brasil, escreveu um texto sobre o clássico The wall (1979), do Pink Floyd, e enviou à revista SomTrês, de que Maurício Kubrusly era editor-chefe. Foi contratado e passou a receber uma caixa de discos por mês, para resenhar, sendo pago para isso. Unia o útil ao agradável, a fome à vontade de comer.
Da SomTrês passaria por diversas redações, com destaque para Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, onde passou mais de duas décadas, e CartaCapital, de que é editor de cultura, além do site de jornalismo musical Farofafá, ancorado no da revista fundada por Mino Carta, homem-escola. Já colaborou com revistas como Globo Rural e Helena, publicada pela Biblioteca Pública do Paraná. Antes de chegar às livrarias, Jotabê Medeiros publicou trechos de Belchior na Playboy e Piauí.
Começou a escrever a biografia de Belchior um ano e meio antes do falecimento do compositor cearense, ano passado, aos 70 anos, que pegou o país inteiro de surpresa. Jotabê estava na pista para localizar o artista, desaparecido há anos, mas uma surpresa desagradável, o falecimento de um irmão, adiou seus planos em uma semana e o tirou da jogada para sempre. A Jack, o irmão falecido, é dedicado o livro: “nosso Dean Moriarty, aquele que nunca cedeu à tentação de viver outra vida senão aquela que escolheu para si mesmo”, oferece.
Repórter incansável – por essas e outras é que encontrou Bob Dylan de casaco e gorro no calor de Copacabana, como contou em seu livro anterior [O bisbilhoteiro das galáxias – No lado b da cultura pop, Lazuli, 2013, 215 p.], com foto para comprovar, ao contrário de certo julgamento farsesco na história recente da política brasileira –, Jotabê Medeiros embarcou para a capital Fortaleza e Sobral, cidade natal do bardo, para cobrir o velório para a CartaCapital e colher mais histórias para a biografia, cuja escrita estava quase no ponto final. Com estas andanças, o livro acabou ganhando um novo e surpreendente capítulo final, Inmemorial.
Li Belchior – Apenas um rapaz latino-americano imediatamente quando de seu lançamento, sem saltar mesmo os capítulos que já havia lido publicados previamente na imprensa ou o trecho lido pelo autor quando de sua participação na Feira do Livro de São Luís em 2016, em que comentou a feitura da obra numa mesa que tinha por tema “A desaparição do artista na era da superexposição: como Belchior cantou antes o que viveria depois”, que tive a honra de mediar. Havia acompanhado inclusive a mudança de título: originalmente o livro se chamaria Pequeno perfil de um cidadão comum, aludindo à parceria com Toquinho, de 1979. Fez mais sentido: nem o perfil é pequeno, nem é comum o cidadão.
Uma resenha pura e simples certamente não daria conta de dizer algo novo ou relevante sobre o livro, meses depois: a mim, tudo parecia já ter sido dito. Em uma entrevista que vai além do livro, e não poderia ser diferente, Jotabê Medeiros conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.
Retrato: Renato Parada
Homem de vícios antigos – Jotabê, a ideia inicial de Belchior – Apenas um rapaz latino-americano era uma oficina, em que os inscritos escreveriam uma biografia coletiva, a partir de um curso ministrado por você. Em que momento e por que você decidiu seguir sozinho? Jotabê Medeiros – De fato, a oficina que propus visava a uma pesquisa coletiva, uma ideia colaborativa que tinha a intenção de questionar o personalismo da figura do biógrafo. Mas foi um fiasco: não teve inscrições suficientes e fui obrigado a postergar. Àquela altura, minha pesquisa já tinha começado e eu estava disposto a escrever o livro de qualquer modo. Não tinha editora ainda, mas fui em frente. É do meu temperamento não recuar ante a primeira dificuldade.
A escrita da biografia começou com esta primeira dificuldade e terminou com outra: o falecimento de Belchior, que levou a mudanças no livro, que já estava praticamente pronto, quando você estava por encontrá-lo. Em que medida o livro seria outro, caso você tivesse conseguido entrevistar Belchior? Eu imagino que Belchior mantivesse sua disposição de não falar sobre seus planos e sua análise da vida contemporânea. Ainda assim, eu gostaria de ter podido provocá-lo. Sempre quis fazer um texto que, mantendo a equidistância necessária, contivesse o frescor de um avistamento, uma fagulha de proximidade.
Sua biografia é magra, vai ao cerne da questão, sem se prender a firulas ou apelar para fofocas da vida privada. Você já demonstrou incômodo com biografias que ganham volume com elementos que nada acrescentam à compreensão da vida e obra de determinados biografados. Você tinha essa consciência ao escrever? Sim, tive essa preocupação. Só incorporei à narrativa elementos que têm conexão com a construção de uma personalidade e de uma obra. Claro que é preciso atenção. Há escaninhos da vida pessoal da gente que parecem irrelevantes, mas na verdade não são. Revelam coisas, obsessões, contradições expurgadas. Mas examinei tudo com os olhos da descoberta, tanto a obra quanto o homem. Por isso não invoco a condição de expert, de especialista em Belchior. Eu segui suas pegadas, apenas isso. Por sinal, continuo seguindo.
Recentemente, após a publicação do livro, uma irmã falou em tirá-lo de circulação. A outros, que desconhecem a origem de teu interesse pelo artista e da pesquisa que resultou no livro, este pode parecer oportunista, o que sabemos que não é, já que lançado poucos meses após o falecimento do cearense. Afinal de contas: por que Belchior? Meu livro teve início um ano e meio antes da morte do artista. Eu me dei conta de que ele era um dos raros outsiders da música brasileira. Tinha conseguido escapar de todos os consensos e panelinhas. Era íntegro e ousado, politizado e independente, solitário e cheio de amigos. Seu rompimento e consequente autoexílio reafirmaram sua singularidade. Creio que ele é único no mundo inteiro.
Você já era reconhecido como um dos mais importantes jornalistas culturais em atividade no Brasil. O sucesso do livro catapultou você a estrela de feiras e eventos literários em geral. Em que medida o jornalista ajuda e atrapalha o escritor e vice versa? Acredito que o desafio é o jornalista aprender a se relacionar, como o escritor, com o seu leitor. Durante 30 anos, em redações, eu nunca soube quem era o meu leitor. Havia às vezes uma enxurrada de e-mails de leitores contrariados com uma crítica, uma reportagem, mas eles (os leitores) e eu nunca fomos apresentados. O livro aproxima, abre debate, derruba muros e fronteiras. Você é inquirido e pode se explicar. Eu não acredito no sucesso, acredito na consistência, na tarefa. Uma vez, finalista de um prêmio de jornalista, me perguntaram o que achava daquilo e eu respondi: “Jornalismo não é corrida de cavalos”. Ninguém ganha por chegar uma cabeça à frente. É preciso persistência, silêncio, concentração e fazer tudo de novo todo dia.
Outra característica que merece ser destacada em teu livro é o distanciamento da hagiografia. Como admirador confesso da obra de Belchior, foi difícil? Creio que biografias laudatórias e chapas-brancas são um desrespeito para com o biografado. Se esse biografado é o Belchior, então é ainda mais desrespeito. Quando ele andou caminho errado, ele o fez pela simples alegria de ser [citando trecho da letra de Coração selvagem, de 1977]. Era um filósofo, um homem em questionamento contínuo de sua condição. Assim, nivelar sua existência por um padrão de homem médio, domesticado, inócuo, isso sim seria um desrespeito. A viúva de Belchior, Edna, deu um único depoimento após a morte do cantor em um teatro no Ceará. “Ele não era uma celebridade, era um artista renascentista”. Concordo com ela. O biógrafo seria um traidor se resumisse a sua vida a um corolário de fofocas – o contrário também seria uma traição, fazer dele um homem da família, um totem particular.
Fora Belchior, houve alguém que você gostaria de ter entrevistado para o livro e não conseguiu? Acho que uma narrativa inclui os percalços e as negativas. Fagner não quis falar. Edna, a viúva, também não quis falar. Seus personagens, entretanto, estão colados à história quer eles queiram quer não. É como diz o maestro Ennio Morricone: os silêncios são parte integrante da música, não há música sem eles.
Também me chamou a atenção em teu livro a mistura de biografia com crítica musical, noutra demonstração do convívio harmônico do jornalista com o escritor em você. Além de contar sua versão da vida de Belchior, você analisa seus discos, sua obra. Foi algo consciente? Pensei em criar uma biografia um pouco menos factual, com mais envolvimento, até alguma paixão. Sei que é perfeitamente possível fazer uma biografia empilhando fatos, não deixando nenhum de fora, mas creio que isso não me atrai. Não analiso todos os discos, ficaria chato e extensíssimo. Analiso os fundamentais, com alguma dose de informação nova sobre eles.
Após o ponto final, várias histórias já surgiram, como você compartilhou com os leitores em um texto para a revista Piauí. Você está colecionando estes causos? Pensa em fazer algo com eles, uma segunda edição ampliada? Sim, estou colecionando esses causos. Já alimentei a fantasia de publicar um outro livro, A vida após a biografia, reunindo todas essas histórias. Mas ficaria feliz se pudesse, agora na segunda edição [prevista para março], acrescentar dois capítulos. Um deles seria somente para abrigar uma análise e a história de Baihuno [1993], o último álbum de inéditas de Belchior, cuja última canção se chama Até mais ver e é uma despedida (“Qualquer distância entre nós tornada em nada”). Além, é claro, de corrigir algumas coisas e acrescentar detalhes.
Sua vasta experiência no campo do jornalismo cultural me faz pensar em vários livros que você tem prontos na gaveta: uma coletânea de entrevistas, outra de reportagens, pelo menos, além da ficção A morte engarrafada, de que já publicou alguns capítulos em seu blogue, e deste A vida após a biografia. Noutras circunstâncias, Paulo César de Araújo fazendo escola [risos]. Seu livro de estreia conta causos a partir de fotografias de grandes nomes do pop em atitudes prosaicas. Você pretende publicar outros títulos? Sim, é verdade. Os projetos às vezes são inevitáveis, noutras vezes completam um ciclo. O livro de reportagens seria uma espécie de balanço da carreira. Outro dia mesmo encontrei uma entrevista que fiz com Pierre Henry, compositor francês que morreu no ano passado. Creio que muitas delas têm alguma dose de atemporalidade, então daí a ideia. Mas é muito provável que, antes desses livros, eu publique uma obra para crianças. Tenho uma proposta e vou estudá-la.
Por falar em crianças, Belchior – Apenas um rapaz latino-americano foi escrito com você se equilibrando entre a paternidade de dois filhos pequenos, a editoria de cultura da revista CartaCapital e frilas outros. O quanto essa dose de intranquilidade inspira e bloqueia, ajuda e atrapalha? Bom, comecei exatamente quando nasceu Tito, meu filho menor, agora com dois anos. Ele não tem culpa da escolha do pai: eu vinha de um longo período de imprensa diária e queria abraçar um projeto que fosse o contrário da rotina, uma reportagem sem deadline e sem títulos e fechamento padronizado. Confesso que muitas vezes escrevi em situação insalubre, com fraldas a trocar, almoço a fazer, faxina atrasada, louça empilhada. Agora, tudo parece que foi pacífico e tranquilo.
Entre os projetos para o futuro, alguma outra biografia? Tive a intenção de escrever a biografia não autorizada de um outro grande outsider, Luiz Melodia. Mas, até agora, as tratativas para ter acesso a acervo e a parentes não evoluiu muito, e acho mesmo que não vão evoluir. Uma pena, porque Melodia já está merecendo um exame que o traga para o centro do debate público, como artista e testemunha de seu tempo.
Você, a propósito, escreveu talvez o melhor obituário de Melodia e obituários não deixam de ser pequenas biografias. Vivemos tempos de grandes perdas ou é o fluxo natural das coisas e sempre foi assim? Sou um otimista crônico. Experimento as perdas e choro as perdas, mas prefiro pensar que os ganhos estão em curso e vão trazer grandes contribuições ao futuro. As coisas que permanecem são as coisas vividas com intensidade, ousadia, eletricidade. Os reacionários não deixam legados.
Isso vale, por exemplo, para episódios como o julgamento de Lula e seu entorno, como o ódio cotidiano praticado nas redes sociais, mas não só? Acho que se estende à política, ao comportamento, a tudo. O julgamento de Lula foi uma vergonha não só para nosso tempo, para o Brasil, mas para a História da humanidade. Como não há exemplos precedentes de recuo do autoritarismo, creio que vai piorar. Mas vejo o esforço de civilidade dos intelectuais, dos artistas, dos homens de ação, e sei que é algo que não vai triunfar.
Voltando a Belchior, esses retrocessos todos que estamos vendo e vivendo, ele, “cantador das coisas do porão” [verso de Conheço meu lugar, de 1979], que dizia “nunca fazer nada que o mestre mandar/ sempre desobedecer, nunca reverenciar” [de Como o diabo gosta, de 1976], entre tantos outros versos, tem sua obra atualizada pelo triste contexto, não? Na verdade, acho mesmo que ele anteviu todos os contextos, como convém a um grande visionário. Em Baihuno, seu derradeiro disco, ele canta sobre todos esses dilemas nacionais: “Trogloditas, traficantes, neonazistas, farsantes: barbárie, devastação/ O rinoceronte é mais decente do que essa gente demente do Ocidente tão cristão” [versos da faixa-título]. Ou então: “Diz, América que és nossa/ Só porque hoje assim se crê/ Há motivos para festa?” [de Quinhentos anos de quê?]. O disco termina com uma versão de um poema de Iessiênin, o poeta russo suicida que escreveu: “Sim, está decidido: agora não há mais volta”. Ele transformou o poema em Até mais ver, que é sua despedida de um mundo irremediavelmente corrompido. Era uma decisão extrema, especialmente para um humanista e otimista como Belchior.
Saiu hoje (17) a sempre aguardada lista de melhores do ano do Scream&Yell, um dos mais respeitados e longevos sites de cultura pop do Brasil, capitaneado pelo queridamigo Marcelo Costa. Pelo segundo ano consecutivo tive a honra de participar (a eleição do S&Y já conta 15 anos).
Contribuo em algumas categorias com meus votos sempre capengas. O resultado da votação final, com um time recorde de 126 votantes, quase nunca bate com meus pitacos, que de um modo ou de outro buscam levar em conta a questão regional, além de assumirem minhas falhas enquanto jornalista que cobre cultura (em São Luís) e, de algum modo, o fato de a ilha ser ainda distante (em relação, por exemplo, a cidades que recebem shows internacionais com maior frequência, entre outros aspectos), apesar da diluição dos conceitos de centro e periferia promovidos sobretudo pela internet – não à toa a votação é promovida por um site.
A seguir a lista com os votos nas categorias nas quais me atrevi a opinar. A quem quiser conferir os resultados de todas as categorias, lista de votantes etc., basta ir ao Scream&Yell. Para quem quiser lembrar minha lista com os melhores de 2016, aqui. Em tempo e modéstia à parte: sou o único jornalista maranhense a participar da votação.
1. Adeus (Mestre Zió), Luiz Claudio ft Zeca Baleiro
2. Paçoca (Andreia Dias/ Anelis Assumpção/ Iara Renno/ Luciano Nakata Albuquerque/ Max B.O.), Curumin ft Andrea Dias, Anelis Assumpção, Edy Trombone, Iara Rennó e Max B.O.
3. As chuteiras do Itamar (Paulo Lepetit/ Vange Milliet/ Ortinho), Isca de Polícia
4. Choro de memórias (Chico Saldanha), Chico Saldanha
5. São Luís: variações líricas a partir de uma abertura de programa de reggae (Celso Borges/ Michael Riley), Claudio Lima
“O forte de Stanislaw Ponte Preta era justamente extrair humorismo dos fatos, das notícias da imprensa. Leitores enviavam-lhe recortes de jornais, colaborando mais ou menos com a metade das histórias contadas no Festival de besteiras que assola o país. Pouco antes de morrer ele lançava um jornalzinho humorístico, chamado A Carapuça: era ele mais uma vez à procura de piadas concretas” (Paulo Mendes Campos).
Domingo passado, almoçando em casa de amigos, lembrei-me de quando aos 11 ou 12 anos de idade, num livro de gramática, li uma crônica em que Stanislaw Ponte Preta – ou Sérgio Porto: “O nome todo era Sérgio Marcos Rangel Porto” (Paulo Mendes Campos) – contava a história de um cidadão que, aficionado por livros, batizava todos os filhos com nomes relativos à sua mania, sendo pai de Prefácio, Tomo, Capítulo e assim sucessivamente, até que a esposa faz uma promessa: se viesse uma menina, batizaria de Maria. A menina vem e só ao ir registrá-la o pai descobre a promessa: para não contrariar a mulher nem a Nossa Senhora, batiza-lhe Errata Maria. Isto resumidamente, que lendo o próprio Stanislaw tem muito mais graça.
O fato é que passei anos até me reencontrar com este texto, em O homem ao lado (graças a Deus, as obras de Stanislaw e Paulo Mendes Campos, dois de meus favoritos, têm sido reeditadas sucessivamente – até por que o Febeapá continua atual, municiado cotidianamente por nossa imprensa e classe política).
Eu ainda nem conhecia a expressão comovido como o diabo, que já nem sei se dele ou de Paulo Mendes Campos, mas apaixonei-me imediatamente por Stanislaw Ponte Preta. Aos 11 ou 12 anos. Não sabia se achava mais engraçada a história do homem que batizava os filhos com nomes relacionados a livros ou o próprio nome do autor. Em minha cabeça de criança pairava a curiosidade: por que alguém escolhe um nome artístico mais complicado que o de batismo? Até hoje as prosas de Stanislaw Ponte Preta e Paulo Mendes Campos me deixam comovido como o diabo.
“Uma vez Vinicius de Moraes chegou depois de longa temporada diplomática nos Estados Unidos. Havia batido um longo papo com Louis Armstrong. No bar Michel, nas primeiras horas da noite, ainda portanto com pouco combustível na cuca, a ilustre orquestra não demorou a formar-se. Instrumentos invisíveis foram sendo distribuídos entre Sérgio, Vinicius, Fernando Sabino, José Sanz, Lúcio Rangel, Sílvio Túlio Cardoso. Eram o saxofone, o piano, o contrabaixo, o trompete, o trombone, a bateria.
“Não me deram nada e tive que ficar de espectador. Mas valeu a pena. A orquestra tocou por mais de duas horas, alheada das mulheres bonitas que entravam e até esquecida de renovar os copos. A certa altura Sérgio pediu a Vinicius que trocassem de instrumentos, ele queria o piano, ficasse o poeta com o saxofone. Feito. Só que os dois, compenetrados e desligados, trocaram de lugar efetivamente, como se diante da cadeira de Vinicius estivessem de fato as teclas de um piano. Foi a jam session mais surrealista da história do jazz.
“O humorista começou a surgir no Comício, um semanário boêmio e descontraído, onde também apareceram as primeiras crônicas de Antônio Maria. Mas foi no Diário Carioca, também boêmio e impagável, que nasceu Stanislaw Ponte Preta, que tem raízes no Serafim Ponte Grande, de Oswald de Andrade, e em sugestões de Lúcio Rangel e do pintor Santa Rosa. Convidado por Haroldo Barbosa, precisando melhorar o orçamento, Sérgio foi fazer graça no rádio, depois de passar um mês a aprender na cozinha dos programas humorísticos da rádio Mayrink Veiga” (Paulo Mendes Campos).
Não há outro adjetivo possível para Stanislaw Ponte Preta: gênio. Você mesmo já deve ter usado a expressão mais perdido que cego em tiroteio achando tratar-se de um dito popular: é invenção dele, que “fez rádio, cinema, televisão, teatro, show de boate” (Sérgio Augusto) e era “uma usina de expressões, gírias, neologismos, ditados e definições impagáveis – cocoroca, teatro rebolado etc. – que muitas vezes pareciam saídas da boca de um malandro” (Sérgio Augusto).
Por falar em invenção: “Fernando Pessoa inventou três heterônimos, Millôr escondeu-se atrás de quatro ou cinco pseudônimos, Sérgio contentou-se com um alter ego apenas, o suficiente para torná-lo o mais lido e citado gozador da imprensa brasileira nos anos 1950 e 1960 do século passado” (Sérgio Augusto). Além de ser nome fundamental para afirmarmos, ainda hoje, que o Brasil é o país da crônica.
Não bastasse tudo isso, foi Sérgio Porto quem – funcionário do Banco do Brasil por 22 anos, até decidir trocar o emprego dos sonhos definitivamente pelo jornalismo, que já praticava paralelamente ao ofício de bancário – descobriu Cartola lavando carros em um estacionamento. Levou o sambista ao produtor Pelão e este lançou, pela Discos Marcus Pereira, o elepê de estreia do autor de As rosas não falam. O resto é história.
“De que morreu Sérgio Porto? Todos os seus amigos dizem a mesma coisa: do coração e do trabalho” (Paulo Mendes Campos). Falecido em 1968, aos 45 do primeiro tempo, ele completaria hoje (11) 94 anos.
Poucas estreias literárias foram tão surpreendentes quanto a de B. Kucinski, apenas aos 74 anos e com uma respeitável carreira como jornalista e professor universitário – sim, é o mesmo Bernardo Kucinski a que estávamos acostumados a ler sobre economia e política. A novela K: relato de uma busca [Expressão Popular, 2011; Cosac Naify, 2014; Companhia das Letras, 2016, 176 p.; leia um trecho] contava, com ares de ficção, a cruel realidade do desaparecimento de sua irmã, também professora da USP, mais um entre muitos episódios até hoje nunca esclarecidos da ditadura militar brasileira.
A K seguiram-se Você vai voltar pra mim [Cosac Naify, 2014, 188 p.], cujos contos passam-se também durante a ditadura militar, e Alice: não mais que de repente [Rocco, 2014, 191 p.], romance policial que trata das investigações do assassinato de uma professora da USP, e a novela Os visitantes [Companhia das Letras, 2016, 85 p.; leia um trecho], espécie de errata, em que um escritor recebe várias visitas em seu apartamento questionando este ou aquele aspecto de seu livro anterior [K], discordando de datas, episódios e imprecisões outras sobre acontecimentos do regime, em geral envolvendo parentes dos reclamantes.
Se em grande parte de suas obras anteriores o inferno é a ditadura militar, agora Kucinski aborda a conturbada relação entre um pai e um filho adotivo sobrevivendo noutro inferno: a dependência química. Com pleno domínio da linguagem, em prosa límpida e cerzida por referências nunca exageradas ou ocas, aborda outras literaturas de ficção produzidas a partir da busca por paraísos artificiais – expressão de Baudelaire –, além de pedagogia e psicanálise.
Pretérito imperfeito [Companhia das Letras, 2017, 151 p.; R$ 39,90, em média; leia um trecho] parte de uma carta escrita pelo pai (mas não revelada aos leitores), desresponsabilizando-se do filho problemático (no fundo, nunca se desliga por completo), a busca frenética deste pelos prazeres proporcionados por estados alterados de consciência (seja lá a substância que se use para obtê-los – ou, antes, com o que quer que se pague para obter estas substâncias), a cruzada em busca de regeneração, recaídas, passagens por presídios e centros de reabilitação.
Em sua ficção, Kucinski questiona a responsabilidade de casais em processos do que chama particularmente de adoção à brasileira, geralmente realizada para suprir alguma carência do casal – e não da criança.
O consumo de drogas é tema desde sempre por demais abordado em quaisquer campos da arte, não só no Brasil. Kucinski equilibra a elegância na escrita com o domínio do assunto, nunca prolixo, controlando qualquer tendência ao enciclopedismo barato, num exercício que o aproxima de mestres como Rubem Fonseca e Sérgio Sant’Anna. Em suma: mesmo tendo estreado tardiamente – mais correto talvez seria dizer que estreou na hora certa – Kucinski o fez já como gente grande.
[breve comentário nO Imparcial de hoje, com os destaques na Cultura do Maranhão em 2017, a pedido da queridamiga Patrícia Cunha; minha lista de melhores do ano ainda vem, a pedido de Marcelo Costa, para o listão do Scream&Yell, baita honra]
Manuel Bernardino: o Lenin da Matta. Frame. Reprodução
Prefiro apontar apenas destaques, por que a cultura por si só já é tão golpeada, que nas atuais circunstâncias merece ser valorizada toda iniciativa neste campo, com ou sem patrocínio, com leis de incentivo ou às próprias custas s/a, desde que nutrida de verdade e amor. Os destaques do ano são as produções gratuitas que ocuparam logradouros públicos, como o Festival BR 135, que, na contramão da crise nacional, dobrou sua duração, o RicoChoro ComVida na Praça, o Bloco do Baleiro no carnaval, o Festival Elas, o Lençóis Jazz e Blues Festival, entre outros, realizados com recursos garantidos através das Leis de Incentivo, além da Aldeia Sesc Guajajara de Artes e a Quinta do Reggae, na Praia Grande. Entre os lançamentos musicais, os discos de Chico Saldanha (Plano B), Claudio Lima (Rosa dos Ventos) e Pão Geral – Tributo a Tribuzi, reunindo vários artistas sob produção do incansável Celso Borges, que ainda presenteou a cidade com o livro São Luís em palavras, também reunindo vários nomes. Outro livro que merece celebração é O risco do berro: Torquato neto Morte e loucura, de Isis Rost. No cinema eu não poderia deixar de destacar Manuel Bernardino: o Lenin da Matta, da cineasta Rose Panet, que traz à luz um personagem pouco conhecido e bastante atual e, sob a égide do golpe, ainda conseguiu ser exibido em algumas tevês públicas e festivais, recebendo menção honrosa em Mumbai, na Índia. No teatro, o musical João do Vale – O gênio improvável foi um fecho com chave de ouro.
Em suas 11 edições, já participei da Feira do Livro de São Luís (FeliS) em várias condições: comprador compulsivo de livros, repórter, compondo mesas de debates, ou como integrante de sua equipe de curadoria.
Hoje, pela primeira vez, participo como autor: integro o time de 33 vozes de São Luís em palavras [Aquarela Brasileira, 2017, 195 p.], organizado por Celso Borges e Wagner Merije, que será lançado hoje (17), às 19h, no Cine Praia Grande (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande).
Baita honra dividir o volume com, entre outros/as, Andréa Oliveira, Bruna Castelo Branco, Celso Borges, Eduardo Júlio, Ed Wilson Araújo, Félix Alberto Lima, Fernando Abreu, José Reinaldo Martins, Lissandra Leite, Marilda Mascarenhas, Otávio Rodrigues, Talita Guimarães e Wilson Marques, para citar apenas os/as colegas de profissão.
Ricardo Piglia quando recebeu o Prêmio Internacional de Novela “Rómulo Gallegos” 2011, em Caracas. Foto: Leo Ramirez/ Agência France-Press. Getty Images
Em 28 de janeiro de 1969, Rodolfo Walsh escreveu em seu diário: “Fantasio que a novela é o último avatar de minha personalidade burguesa, ao mesmo tempo que o próprio gênero é a última forma de relato burguês, em transição para outra etapa em que o documental recupera sua primazia. Mas nem estou seguro disso, que pode ser uma desculpa para meu momentâneo fracasso”.
O autor de Operação massacre – que pode ser considerada a primeira grande novela de não-ficção do século XX – não era capaz de assumir que a novela podia prescindir de ficção. Um dos grandes cronistas do século XX identificava a grande literatura com a ficção e não com a crônica, quer dizer, com aquilo que desejava escrever e não com aquilo que realmente escrevia. Sabemos por seu diário, outra forma supostamente menor de literatura. Outra forma também de não-ficção.
Quando Ricardo Piglia publica Uma proposta para o próximo milênio em 2011, um texto que depois reescreverá e que, por sua importância, integrará sua Antologia pessoal (2014), decide partir de Walsh e suas convicções documentais, para responder à pergunta: “como narrar o horror?”.
Detecta no prólogo à terceira edição de Operação massacre um movimento crucial. Walsh representa a si mesmo num bar de La Plata, “em que sempre vai falar de literatura e jogar xadrez e numa noite de 1956 se ouve um tiroteio”. Walsh sai e se refugia em casa mas escreve: “mas nem esqueço que, cego para os cegos, ouvi morrer um conscrito na rua e esse homem não disse “viva a pátria!” mas disse: não me deixem só, filhos da puta”.
Quer dizer, muda o foco da câmera, cede à palavra. Poe o outro no lugar de enunciação que um havia tido um momento antes. Então Piglia diz algo memorável: “a verdade tem a estrutura de uma ficção onde outro fala. É preciso fazer na linguagem um lugar para que o outro possa falar”.
A chave da ficção futura, portanto, se encontra numa novela de ficção. É estranho, porque Piglia não escrevia literatura documental. Não escrevia livros de história, embora fosse um potencial historiador. Não escrevia crônica. Ou escrevia?
Recordemos como começa sua primeira obra maior, Respiração artificial. O narrador, Emilio Renzi, havia publicado sua obra-prima, uma novela intitulada precisamente A prolixidade do real, construída a partir de várias versões de histórias familiares (uma novela que afortunadamente nunca leremos: parece que seu estilo lembra a Faulkner traduzido por Borges, “a uma versão mais ou menos paródica de Onetti”; imediatamente esgotada nas livrarias de Corrientes) e, de repente, recebe uma carta de um de seus protagonistas, seu tio Marcelo Maggi.
Escrevem-se. Vive separado, num povoado distante. “Ensino história argentina no Colégio Nacional e à noite vou jogar xadrez no Clube Social. Há um polaco que é um ás; costumava jogar com o príncipe Alekhine e com James Joyce em Zurique”, essa versão livre de Gombrowicz, chamado Tardewski, tem um sonho benjaminiano (“escrever um livro inteiramente feito de citações”), escreve artigos sobre xadrez num diário local e escreve um “caderno onde registra suas ideias”. Tudo isso se conta na carta inicial. A forma inicial. A resposta. Começa a novela.
A novela começa, portanto, com um deslocamento de gênero. Da ficção familiar à literatura epistolar. Mas, imediatamente, diz Renzi: “não tem sentido que reproduza todas essas cartas”. Há, portanto, um processo de edição. A novela é uma arquitetura de vozes deslocadas (Maggi, Tardewski, Enrique Ossorio, Hitler, Kafka, Arocena), a partir de um deslocamento inicial e prévio: de Ricardo Piglia a Emilio Renzi (já presente em seu primeiro livro de contos, A invasão).
Até 2015, consciente de que dois de seus grandes mestres são Godard e Duchamp, artistas do desvio, teríamos dito, no entanto, que o grande deslocamento pigliano se dá entre dois outros gêneros: a novela e o ensaio. A novela é, em seu caso, sem dúvida e começando por Respiração artificial, uma grande máquina de ensaiar. É a operação que faz Duchamp com a arte contemporânea: torna-se autoconsciente, crítica de arte, teoria artística; ou Godard com o cinema, primeiro [filmes] narrativos, cada vez mais ensaios filmados.
Mas nos anos 1950, 60 e 70, a novela – se me permitem a tola generalização –, condicionada pela política, havia dirigido o uso do ensaio para a defesa de uma tese. Quando se publica Respiração artificial em 1980, em plena ditadura argentina, se podia ler na contracapa: “tempos sombrios em que os homens parecem necessitar um ar artificial para poder sobreviver”. A alusão era clara mas indireta. A novela poderia ser lida em chave política. Mas também em chave estritamente literária.
Com esse desvio ou giro, com esse deslocamento, da novela familiar (burguesa) inexistente ou a novela política (da geração anterior) a uma novela que primeiro se detém especialmente na epistolaridade e depois na conversação poderia se dizer que Piglia prefigura (pré-formata) uma estratégia que será muito comum na literatura da virada do século XX para o XXI.
Com efeito, em Os emigrados (1992), de W. G. Sebald, em Os detetives selvagens (1998), de Roberto Bolaño, em A novela luminosa (2005), de Mario Levrero, em A morte me dá (2007), de Cristina Rivera Garza, ou em Verão (2009), de J. M. Coetzee, os autores recorrem à manipulação de materiais de extração não-literária, muitas vezes privada, como o diário ou a carta, quando não de natureza acadêmica (a tese) ou jornalística (a entrevista), para articular e dar forma às partes mais decisivas das estruturas de seus textos.
Se trata de materiais “ignóbeis” que dificilmente encontraríamos nos autores da geração anterior ou, ao menos em suas novelas canônicas (à exceção, talvez, de O jogo da amarelinha).
Até 2015, repito, acreditávamos que os grandes deslocamentos piglianos eram o seminal (de Ricardo Piglia a Emilio Renzi) e o de gênero (da novela ao ensaio, crítica e ficção); mesmo que soubéssemos que existiam os diários e inclusive que os tivéssemos lido (como em Formas breves) algum fragmento deles. Mas então foi publicado o primeiro volume de Os diários de Emilio Renzi: “Anos de formação” [será publicado agora no Brasil pela editora Todavia, conforme informou em sua conta no twitter o escritor e tradutor Joca Reiners Terron]; e em 2016 o segundo tomo, “Os anos felizes”; e agora “Um dia na vida”; e graças a essa obra-prima em três partes entendemos que abaixo de todas as suas novelas e todos os seus ensaios estava, decisiva, uma grande forma, um grande gênero, de não-ficção cotidiana.
Capa da edição em espanhol do terceiro volume dos diários de Emilio Renzi. Reprodução
Que Os diários de Emilio Renzi podem ser lidos como uma grande novela, como um grande ensaio e como um extraordinário diário nos permitiria afirmar que Piglia realiza neste grande livro uma autêntica triangulação literária. Mas dos 327 cadernos de Piglia só lemos uma parte.
No segundo tomo, por exemplo, faltam as viagens a Cuba e a China; e no terceiro são eliminadas, entre tantas viagens, as que fez a Venezuela (por ocasião, por exemplo, do prêmio Rómulo Gallegos) ou a Barcelona (surpreendentemente não se mencionam nem a Jorge Herralde nem a editora Anagrama).
Como as cartas de Respiração artificial, os diários estão editados. Com que critério? Com o de centrar-se naqueles espaços e tempos que já conhecíamos através da ficção. La Plata, Buenos Aires, os cenários e as histórias dos “contos morais” ou de Respiração artificial, A cidade ausente ou Dinheiro queimado. A publicação dos diários intervém nessa série de textos: gera um grande sentido a 50 anos de obra publicada. Um sentido que se pode estabelecer a partir da famosa teoria de Tese sobre o conto: com efeito, toda a obra de Piglia contava, simultaneamente, duas histórias. Na superfície, a novela e o ensaio desenvolviam um discurso sobre os modos de ler e escrever literatura; no subsolo, o diário consignava os modos de ler e escrever a vida.
Piglia disse em sua mais famosa forma breve que sempre há um momento de interseção ou de cruzamento entre a história 1 e a história 2. São os livros e os autores que aparecem tanto na superfície como no subsolo. E que todo conto conduz a alguma forma de epifania, de “iluminação profana”. Eu senti isso no momento em que entendi, depois de ler seus diários, que tudo aquilo que durante 50 anos nos havia parecido material lido, metaliteratura e metaficção havia sido, na realidade, sofrido, palpado, vivido.
Os diários desenham, de fato, a um sujeito que sofre a depressão e a tentação do suicídio, que abusa das drogas e pratica a poligamia, que odeia a figura do intelectual, esse traje ou essa máscara que não obstante é impossível não lhe por: finalmente, o diário, em que pese sua fidelidade aos fatos, é uma construção hipersubjetiva, bastante ficcional.
O que me admira – e ao mesmo tempo me assusta – é que é muito provável que tudo isto que digo já foi pensado (e mais: planejado) por Piglia. Ele era consciente do efeito que provocaria a edição de seus diários. Ele preparou todo este grande momento. Em muitos de seus textos poderia encontrar evidências de que minha leitura é, sobretudo, sua. Por exemplo, em O escritor como leitor fala dos diários de Gombrowicz e os define como seu “grande laboratório”: “o diário é isso, uma sorte de experimentação contínua com a experiência, com a forma, com a escrita”. Piglia vai mais longe e diz que talvez seja “sua obra maior”.
De algum modo, ler e interpretar Piglia – como ler Borges – é plagiar Piglia como leitor. Desde que li, assombrado, Formas breves e Respiração artificial há exatamente 15 anos, são inúmeras as vezes em que citei-o consciente e inconscientemente, revelando a fonte e roubando suas ideias e assumindo-as como minhas.
Por sorte, isto também ele pensou e formulou: “na literatura os roubos são como as lembranças”, escreveu em A ex-tradição: “nunca inteiramente deliberados, nunca demasiado inocentes. As relações de propriedade estão excluídas da linguagem: poder usar todas as palavras como se fossem nossas”.
A sessão de Antologia pessoal em que se encontram Uma proposta para o próximo milênio, O escritor como leitor e A ex-tradição se intitula, não podia ser diferente, O laboratório do escritor.
O conto fracassado, que encerra Anjo noturno: narrativas [Companhia das Letras, 2017, 176 p.; R$ 39,90; leia um trecho], novo livro de Sérgio Sant’Anna, é um exercício de três m: metalinguagem, maestria e modéstia. O carioca, um dos três maiores contistas brasileiros em atividade, perpassa elementos presentes em sua obra para escrever um conto acerca da dificuldade – ou mesmo incapacidade – em escrever um conto (daí o título da narrativa), cujo resultado é uma história justamente sobre isso, mas caminhando pela calçada oposta à da falta de assunto, tema de tantas crônicas neste país de cronistas.
Sérgio Sant’Anna é um autor que já fez o que quis ao longo da carreira, iniciada em 1969 com O sobrevivente. E, diante do reconhecimento, pode, não de agora, continuar fazendo o que quiser. Seus leitores agradecem, tanto entre os que o acompanham desde sempre quanto entre os que conquista a cada novo livro – e ao contrário de artistas de outras áreas, o escritor tem publicado com regularidade, vide os ótimos O homem-mulher (2014) e O conto zero e outras histórias (2016).
Se na história final Sant’Anna se vale de um mergulho em sua própria obra, ao longo das narrativas de Anjo noturno ele mergulha também em sua própria biografia, mesclando elementos reais à ficção em que, não à toa, é tido, merecidamente, como um grande mestre. Caso das magistrais Talk show, em que relata de modo irônico e hilariante, entre diante das câmeras e nos bastidores, a participação de um escritor em um programa televisivo de entrevistas, e A mãe, cujo protagonista costura memórias da infância ao lembrar-se da morte da genitora e de um passado que ela sempre quis esconder.
A rua e a casa é outra narrativa em que são evocadas as memórias da infância, inclusive o período em que o autor morou com a família em Londres. Nela e em Amigos afloram citações literárias, sem pedantismo ou erudição forçada. Outra obsessão de Sant’Anna são as artes plásticas, e o casal protagonista de Augusta, que abre o livro, é tragédia bem-humorada e erótica envolvendo um pintor.
Eis o último parágrafo do livro, sem o risco de spoiler: “O conto fracassado era a escrita do declínio de um autor em crise, equilibrando-se num fio estendido sobre a vala comum, mas às vezes ele se surpreendendo a admitir, numa espécie de exaltação: apego-me a este fracasso e nele me reconheço”.
Os leitores hão de convir: estendido sobre a vala comum o autor passeia e a corda certamente nem é tão bamba assim. Poucos são os autores que conseguem esta autoridade, esta superioridade, por que não dizer? Sant’Anna mergulha na própria obra, mas em vez de se repetir, oferece aos leitores algo completamente novo. Estes certamente desejarão ao autor: continue fracassando assim.
Último romance publicado pelo americano Kent Haruf (1943-2014), Nossas noites [Our souls at night, tradução de Sonia Moreira; Companhia das Letras, 2017, 159 p.; R$ 39,90; leia um trecho] é um pequeno manifesto em favor da liberdade e do amor, abordando temas como a solidão e a velhice com delicadeza e elegância.
Conta a saga de Addie Moore e Louis Waters, viúvos setentões que resolvem passar as noites juntos, conversando no escuro, como forma de vencer a solidão decorrente dos falecimentos de seus cônjuges e das mudanças dos filhos para longe do condado de Holt, a pacata e provinciana cidade em que vivem no Colorado.
Vivendo há décadas na mesma rua, o par de protagonistas não era exatamente o que se pode chamar de amigos, embora soubessem um bocado da vida um do outro. Não tardam boatos maldosos sobre seus encontros noturnos – apesar disso, seguem adiante com seu intento.
Esta é uma grande lição do ótimo livro de Kent Haruf: em efeito dominó, idade e experiência trazem maturidade, que traz coragem e o necessário pouco ou nada ligar para a opinião alheia quando se trata da própria felicidade. O que nada tem a ver com egoísmo.
Recheado de diálogos bem construídos, Nossas noites passa por conflitos familiares, memórias e momentos tristes e felizes, brigas e pequenos prazeres simples, como a própria vida. Em meio a tudo isso, visitas dos filhos do “casal”, o neto de Addie, camundongos e uma cadela.
As outras grandes lições são: nunca é tarde e tudo vale a pena. Refiro-me à própria vida, mas metaforicamente também a acompanhar o cotidiano dessas noites (e dias) plenos de beleza e poesia – o poeta que Louis quis ser na juventude traz referências à obra, sem arrogância ou exagero.