O quadrinista Marcello Quintanilha é um especialista em retratar dramas humanos, de gente comum. Poderia ser a vida deste resenhista, ou a do leitor, tão reais são suas personagens.
Ele foi premiado recentemente num dos maiores festivais de quadrinhos do mundo, em Angoulême, na França, por sua trama policial Tungstênio [Veneta, 2014, 184 p.], seu álbum anterior.
Talco de vidro. Capa. Reprodução
Artista completo, Quintanilha assina roteiro e desenhos, tanto naquele quanto no drama psicológico Talco de vidro [Veneta, 2015, 160 p.], em que aborda a inveja e a mesquinhez, sentimentos sórdidos que levam à tragédia.
A HQ conta a história de Rosângela, dentista niteroiense sempre acostumada a ter tudo: seu primeiro consultório montado foi presente do pai e, bem casada, recebeu do marido – com quem tem dois filhos –, de presente (surpresa!), em sua casa de praia, um carro zero quilômetro.
Mas a protagonista de Talco de vidro não está satisfeita e, infeliz, sente inveja do sorriso da prima pobre. Não lhe inveja morar no subúrbio ou ir às festas espremida num Fiat 147 a serviço da família inteira – obviamente maior que a lotação do veículo.
A história mergulha na mente doentia de Rosângela, cuja vida entra em franca decadência, entre o fim do casamento, a vida desregrada que passa a ter, sob olhares moralistas, e a depressão, até o trágico desfecho.
Entre as belas paisagens do Rio de Janeiro, seja de bairros de classe média alta ou da periferia, o fosso que separa as parentes que protagonizam a graphic novel, o que o traço de Quintanilha faz é representar sentimentos bastante comuns, quase sempre escondidos, por vergonha ou por conta das regras do jogo chamado vida. Quem tem dinheiro para comprar tudo tem inveja daquilo que o dinheiro não pode comprar.
Mas engana-se quem fizer julgamentos antecipados atribuindo qualidade apenas ao traço do autor: seus diálogos e narrativa são tão bem construídos que, arrisco dizer, sobreviveriam como obra literária, sem o suporte das imagens. Certamente é justo neste casamento, que se fortalece a cada lançamento de Quintanilha, que reside a força que lhe garantiu sucesso internacional: é dos poucos quadrinistas brasileiros com projeção fora do país desenhando gente comum – mesmo quando “diferenciada”.
Vencedor de um grande prêmio literário, de repente Graciliano se vê entre os dilemas de quem passa a ter todo o tempo do mundo para gastar com apenas uma preocupação: escrever. O problema é uma espécie de bloqueio, criado também, talvez, justamente pelo excesso de tempo livre – e a consequente dificuldade para administrá-lo. A escrita, que deveria garantir a entrega de um próximo livro a um editor em determinado prazo, é dividida entre festas, álcool e sexo, tudo em doses exageradas.
O ano em que vivi de literatura. Capa. Reprodução
Graciliano é o protagonista de O ano em que vivi de literatura [Foz, 2015, 251 p.], de Paulo Scott, criador, como sua criatura, premiado: a Bolsa Petrobrás de Criação Literária garantiu-lhe a escrita de Habitante irreal [Alfaguara, 2011, 264 p.], com que venceu o prêmio Machado de Assis da Fundação Biblioteca Nacional em 2012, e o volume de poemas Mesmo sem dinheiro comprei um esqueite novo [Companhia das Letras, 2014, 80 p.] venceu em 2014 o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA).
O ano em que vivi de literatura poderia ser facilmente etiquetado como “autoficcção” – discussão e rótulo pelos quais Scott não nutre interesse. No volume não é possível distinguir que fatos foram realmente vividos pelo autor dos inventados por ele para sua personagem, que vive em geral rodeado de gente, mas constantemente sente-se solitário.
Parece contraditório, mas o que Graciliano busca é aplacar o vazio dessa solidão através de relacionamentos fugazes – alguns encontros são marcados pelas redes sociais. Os momentos de convívio com os pais não são bons e a aventura dele é também a busca de uma irmã que sumiu no mundo. Em alguma medida, o livro expõe ainda as entranhas do mercado editorial brasileiro.
O título brinca com outra contradição: justo no ano em que vive de literatura, Graciliano perde prazos e gasta o tempo com outras questões e simplesmente não escreve – embora a quem lhe fizesse a infalível pergunta sobre livro novo, sempre tinha uma desculpa, um enredo na ponta da língua, no que diferem criador e criatura.
Paulo Scott conversou com o Homem de vícios antigos. A entrevista foi além de O ano em que vivi de literatura. Ao anunciar, no chat de uma rede social, a intenção de realizá-la, antes de enviar-lhe o bloco de perguntas por e-mail, ele comentou: “o livro ficou pronto em 2014 e revisitá-lo em face de novos questionamentos é instigante”.
“Estou muito envolvido com o Marrom e amarelo, que é sobre racismo no Brasil”, antecipou. Seu próximo livro sai em 2017 pela Alfaguara.
Paulo Scott: “Um escritor precisa teimar, manter-se naquilo que acredita e continuar”. Foto: Foz Editora/ Divulgação
Em uma reportagem para a Revista da Cultura [Eu, eu mesmo e eu também, #100, novembro de 2015], que conta com depoimento seu, o jornalista Ronaldo Bressane aborda a questão da autoficção, no que você declara não acreditar. Talvez o charme seja a dúvida, a não distinção, mas o quanto há de autobiográfico e de invenção em O ano em que vivi de literatura? O que posso dizer a você, meu caro, é que não busquei com esse livro – que para mim é sátira (talvez intrincada demais, admito) – concretizar teoria, leitura acadêmica ou experiência estética sobre a confusão entre vida do autor e possíveis desdobramentos contidos na trama para induzir semelhança (e disso curiosidade) em relação à sua biografia, sua realidade. Suponho que leitores que acompanham minha trajetória – e tenham informação sobre o que significou eu ter colocado a produção literária e a leitura de obras literárias como prioridade durante um pouco mais do que sete anos – possam, em algum momento, antes da leitura do O ano em que vivi de literatura, imaginar (e esperar) a existência de revelação relacionada ao que foram esses dias, esses anos para mim. Contudo, não se trata disso. Não é também minha intenção – sobretudo em um projeto de romance executado em primeira pessoa – glamorizar aposta pessoal (que, no fundo, não passa de aposta pequeno-burguesa, mesmo se tratando, ou especialmente em razão disto, de escritor brasileiro, escrevendo em português em um país como o Brasil, onde as pessoas, no cômputo geral, nem sequer leem os seus escritores contemporâneos) que é escolha só minha e interessa só a mim.
Aliás, cabe o elogio: baita título! O livro narra o período em que o protagonista pode literalmente viver a partir de um prêmio recebido. Infelizmente, mesmo num universo literário mais profissionalizado, ainda é preciso esperar um prêmio para poder “viver de literatura”, já que a venda de livros ainda não o permite? Antes quero dizer que é uma grande alegria receber esse retorno positivo da sua leitura do livro. Pois é. Não temos um mercado literário forte no Brasil, um mercado que, em decorrência de quantidade expressiva de leitores, sustente um projeto de longo prazo de um escritor bancado exclusivamente pela venda de seus livros. Estou longe de conseguir me sustentar unicamente com os royalties obtidos pelas vendas dos livros que escrevi. Consegui me manter, de maneira simples, comedida mesmo, sem ter de recorrer a atividades fora do meio literário, por quase seis anos – nesses quase oito anos de exílio carioca. Isso aconteceu graças a um contexto (de sorte) de bolsas, prêmio, adiantamentos, de pagamentos advindos da venda dos direitos de adaptação de livros meus para o cinema, de convites para festas, feiras, festivais, viagens, programas literários que remuneram os autores, de convites para oficinas de criação literária, para palestras em universidades – isso tudo em um panorama econômico bastante favorável, ao menos aqui no Brasil. Não é algo com que se possa contar para sempre. Um prêmio literário que pague um valor importante, esteja-se falando ou não de autor profissionalizado, pode garantir alguns meses de vida integralmente voltada à produção literária, talvez um ano e alguns meses, se houver uma boa programação, dificilmente assegurará mais do que isso; e isso, entretanto, é muito melhor do que nada. Gosto de pensar que o livro trata do fim de um ciclo e do início de outro, de uma realidade no relacionamento entre leitores e autores que se transformou radicalmente com o avento da internet e das redes sociais (e, a partir disso, de uma época de decadência, mediata e imediata). Quando o programei e quando o escrevi, para tratar apenas de um dos aspectos possíveis dessa realização, ainda estávamos vivendo a onda de muitos eventos literários, eventos em grande quantidade e podendo bancar boa remuneração aos autores convidados, recebendo-os e paparicando-os, muitas vezes, de maneira como não se vê nos melhores eventos literários da Europa e da América do Norte, que são realidades que conheço um pouco.
É possível dizer que atualmente você vive de literatura? – não necessariamente de apenas escrever, mas de participar de eventos literários, ministrar oficinas, palestras etc. Não tenho mais como bancar esse meu “vivendo na corda bamba do mundo literário” sem comprometer a tranquilidade mínima que preciso para produzir, para ler tudo que preciso ler e para existir (especialmente em um país em crise). Ano passado peguei um trabalho fora do mundo literário para poder equilibrar as contas – penso que não é inoportuno o registro: moro no Rio de Janeiro, uma cidade que está se tornando cara demais e violenta demais. Neste ano que está iniciando, priorizarei uma vida com melhor qualidade, com doses menores de ansiedade no gerenciamento das incertezas financeiras, assumirei compromissos fora do universo literário anunciado na sua pergunta. No fundo, parece, será uma guinada drástica, embora não tão drástica como a cometida em 2008, quando deixei Porto Alegre e me transferi para o Rio de Janeiro. A ver.
Você tem formação em Direito. Atua ou atuou na área? O quanto ter que buscar a sobrevivência noutro campo atrapalha a produção literária e vice-versa? Só quem passou, de fato, pelo planejamento de buscar uma rotina de tempo integral para conseguir ler e escrever poesia e prosa ficcional na hora do dia que lhe parecer mais conveniente sabe o que significa uma ruptura dessa natureza, o que é ter de negociar com todo o tempo livre que você um dia idealizou. Nessa perspectiva, quase tudo que rompe esse estado ideal acaba atrapalhando sim, mas não é o fim do mundo. Ter um emprego paralelo, uma profissão paralela, não é necessariamente ruim – não acredito em regras absolutas, resisto sempre a fórmulas e receitas fechadas –, há muitos autores que para produzir com qualidade precisam ter tranquilidade, estabilidade profissional, mesmo que isso lhes custe uma redução grande do tempo disponível para ler e escrever textos literários. A produção literária poderá ser boa e relevante esteja o autor submetido, ou não, à rotina de um trabalho diverso da literatura. A vida, no grande arco da existência, e esta realidade não pode ser negligenciada, precisa ser viabilizada da maneira mais inteligente possível. Fora do meio literário, respondendo à primeira parte da pergunta, atuei profissionalmente na área do Direito, como advogado, consultor e professor.
O protagonista de O ano em que vivi de literatura chama-se Graciliano, nome de seu autor predileto. Fora o fato de serem gaúchos vivendo no Rio de Janeiro, quanto há de Paulo Scott na personagem Graciliano e o que mais te chama a atenção e/ou você admira e/ou persegue no alagoano Graciliano Ramos? Levei bom tempo para encontrar a personagem Graciliano. Era importante não concebê-lo como um modo de retransmitir (um truque para retransmitir) minha voz, minhas ideias, meu itinerário. Não me vejo nele, não me vejo no olhar de historiador dele, na solidão dele, nos excessos e idealizações dele, na impassibilidade dele quando retorna ao passado, quando refaz (relata) um ano específico da sua vida sem o temor de encarar o que fez de bom e o que fez de ruim (para si e para outros). Não costumo criar altares, tento não me fazer refém das cristalizações, dos espelhos, das certezas; mesmo que inicialmente isto pareça algo descabido, procuro dispensar o mesmo cuidado a texto de um escritor novato e desconhecido que dispenso a texto escrito por um Graciliano Ramos, por um Machado de Assis, por um Érico Veríssimo, por um Guimarães Rosa (que são figuras que admiro demais). Há, porém, nessa lógica de não canonizar, as afeições inexplicáveis, incontornáveis, os diálogos mentais, que desenvolvemos em relação a certas figuras; isso é forte quando penso em Graciliano Ramos – tem aquele modo de escrever e tem aquela impetuosidade complexa. Penso que, na linha da pergunta (possivelmente escapando da pergunta), a grande personagem, o grande centro da narrativa deste romance, seja a área imensa, purgatório da beleza e do caos (parafraseando Fausto Fawcett), chamada Rio de Janeiro conflitando com o rumo, não exatamente localizado, do protagonista, a mosca que caiu na armadilha da planta.
O livro aborda também a questão das redes sociais como palco do escritor, como forma de manter contato mais direto com leitores, editores, parentes e paixões. Como você observa a autopromoção se valendo destes canais? Disse em entrevista que foi publicada em novembro do ano passado em jornal brasileiro que as redes sociais aprisionaram a alma – o lado indômito da alma – dos poetas, porque acabamos, poetas e prosadores, cedendo à lógica da quantidade de likes; as editoras, a mídia e todos acabam cedendo a essa contabilidade. Se temos um estádio Maracanã de likes nas telas dos nossos computadores, nos visores dos nossos celulares, estamos bem, não importa a ousadia, a originalidade, a qualidade do que se produziu. Isso é bem fraco. Não há santos nas redes sociais; se você está nas redes sociais, você está sim se autopromovendo. Se você está nas redes sociais, você tem noção de que as “informações dos fatos” precisam ser aquecidas/reaquecidas a todo o momento para não serem esquecidas, para não perderem o peso, nesta avalanche diária de “informações dos fatos”. Não é de graça que as editoras no mundo todo estão induzindo (para não dizer obrigando) seus autores a terem contas no Twitter, no Facebook, no Tumblr, no sei lá onde, porque sabem que a constância, a presença constante na web, está se tornando a grande exigência para que algo se afirme, não desapareça na grande, e ininterrupta, corrida de cavalos na qual se transformou o contemporâneo. Tive, até agora, um número importante de retornos, por mensagens eletrônicas, destacando o decorrer da narrativa a partir do fenômeno das redes sociais – o editor da caixa de comentário do Facebook se tornou mais importante do que o editor Word –; penso que os leitores entenderam o que não está explicitado no livro (já que é um livro de lacunas). Estamos todos mais caretas e desfocados por conta disso, dos editores de texto das redes sociais serem mais importantes do que os editores de textos tradicionais; é um sonho de liberdade, porque, na realidade, estamos embarcados em um elevador que está nos levando cada vez mais para o fundo de uma prisão. Claro, não há dúvida de que estamos vivendo os primórdios de uma situação que mais para frente, mais para o futuro, deverá ser mais bem vivenciada, deverá ser assumida de forma mais madura.
Seu livro narra a vida desregrada de um autor com um fabuloso prêmio literário na conta bancária, em uma aventura regada a doses cavalares de sexo, álcool e festas, revelando também as entranhas do círculo literário/editorial brasileiro. Pode ser lido como sua contribuição para desglamorizar a “vida de escritor” como imaginada por leitores “reles mortais”? Penso que o livro narra o cotidiano de quem passa a ter todo o tempo livre para escrever – não é fácil negociar com esse espaço tão amplo. Ele está perdido e leva um tempo para perceber que está perdido, porque tem o deslumbre e tem a incapacidade de lidar com a nova situação, com a escolha, com os olhares e expectativas dos outros. É certo que a personagem Lenara, a jurada do concurso que colocou no bolso de Graciliano os 300 mil reais que mudariam sua vida, é a presença desencadeadora de certos questionamentos cruciais à trama do livro, mas a verdade é que todos os questionamentos, todas as buscas já estavam na cabeça de Graciliano, muito por conta da sua falta de resignação diante da sua rotina de professor de História, do seu relativo sucesso como escritor gaúcho, do seu relacionamento com o pai, com a ausência da irmã mais velha que, atrás de mais liberdade, desapareceu na vida. Escuto muito sobre os excessos do livro. Bem eles estão lá para acentuar algo, estados emocionais, pequenas tragédias – talvez a mais evidente seja a solidão. Não é gratuito isso dele fazer sexo demais, de se entregar a toda possibilidade que as redes sociais entregam de bandeja no seu colo; como já disse, ele está perdido. O próprio fato dele – um homem de 40 anos, portanto no auge da sua virilidade física e no auge da sua agressividade “bestial” adulta – estar sempre “pronto”, sempre tão facilmente excitado, faz parte dessa composição narrativa, dessa ênfase, dessa solução. Ele – homem, branco, hétero, com ótima educação, inteligente e sortudo – está eufórico, permanentemente excitado, isso é evidente, porque, sem desconsiderar o quanto está perdido, tem nas mãos o passe vip e está, por conta disso, solto feito um cachorrinho recém-nascido que ainda não compreendeu que não passa de um cachorrinho, na Disneylândia dos escritores brasileiros. Evidente que por ser tratar de uma sátira, de uma ficção, há ênfases que estão longe de certas realidades, da minha realidade e da realidade de tantos outros escritores e escritoras; prefiro pensar que essa realidade do livro, essa realidade constituída, é um dos seus méritos, haja, ou não, críticas agudas por trás de tudo que se apresentou. Quanto à desglamorização, o que posso dizer é: nunca acreditei nela, nunca me portei como alguém que aposta nela. No entanto, não pretendi (e não pretendo) fazer dessa minha postura uma cruzada – tenho receio enorme dos paladinos. Sei que todo escritor se deixa levar pelo canto da sereia – em altura ou outra, inebria-se com o próprio trabalho, com o próprio sucesso, com o próprio discurso, com a própria ambição –, e sei que depois a tendência é a de que ele consiga se recompor (alguns, raros, não conseguem abandonar a igreja da vaidade, mas eles e os seus egos, por si só, não são importantes). Nesses 15 anos que se passaram desde a publicação do meu primeiro livro, o História curtas para domesticar as paixões dos anjos e atenuar os sofrimentos dos monstros [Sulina, 2001, assinado sob o pseudônimo Elrodris], vi muita gente boa surgir, brilhar e desparecer, gente que desapareceu porque não tinha a determinação necessária. Não quero realizar diagnóstico, juízo, quero, talvez, é “transfigurar” um tantinho para mostrar como, às vezes, tudo que nos cerca é tão patético, e nós somos patéticos também. Para mim, em resumo, é uma questão de teimosia, um escritor precisa teimar, manter-se naquilo que acredita e continuar, tendo que negociar o tempo inteiro com a solidão. Certa vez conversando com jovem jornalista, pessoa tomada pelo deslumbramento de estar em um grande veículo da imprensa brasileira, pelo falso poder que a posição projeta, justo por estar naquele autoencantamento, falei algo como: cuidado que o teu super hype de jornalista especialista em literatura vai passar (a imprensa brasileira sempre demite) e os escritores que não vieram a passeio, independente de aplauso, continuarão carregando suas pedrinhas, continuarão escrevendo seus livrinhos.
Em boa hora ganha reedição o volume de contos Amar é crime [Record, 2015, 160 p.], de Marcelino Freire.
Dono de voz e ritmo particulares, a prosa do pernambucano radicado em São Paulo não poupa os personagens nesta galeria de desgraçados.
As narrativas são brutais, cruas, secas – o conto Ricas secas, por exemplo, é “livremente inspirado” no romance Vidas secas, de Graciliano Ramos, de que se vale de um trecho.
A “nova edição ampliada”, como nos alerta a contracapa, traz novas histórias em relação ao volume publicado em 2011 pela Edith Editorial. Ricas secas, por exemplo, aborda a crise hídrica paulista.
Em Amor e sangue, o prefácio assinado por Ivan Marques, é o próprio Marcelino Freire, de Rasif [Record, 2008], quem serve de epígrafe: “Cristo mesmo quem nos ensinou./ Se não houver sangue, meu filho,/ não é amor”.
“Oralidade: eis a palavra-chave. A literatura de Marcelino Freire é erguida sobre falas, frases roubadas, pedaços vivos do cotidiano e da miséria social brasileira, que ele recolhe com inteligência crítica, a exemplo do que ocorre em autores como João Antonio e Francisco Alvim”, atesta o prefaciador.
“Contos de amor e morte ou pequenos romances”, é o próprio autor quem define, num subtítulo informal, que não comparece à capa nem à ficha catalográfica.
Impossível não ser tocado pela tragédia da protagonista de Vestido longo, conto que abre Amar é crime: uma garota que, abusada sexualmente na infância, torna-se prostituta e sonha com a roupa que intitula a narrativa.
Em meio a essa prosa de agruras, violenta como os cotidianos que relata, há espaço para a poesia. Como no onírico Liquidação, em que dois carroceiros brigam por um sofá velho: de quem é? Quem viu primeiro? “Ele primeiro viu, repetiu. Ajeitou na noite anterior. Descansou o troço ali. Hoje, recolheria. Nem precisaria abrir crediário das Casas Bahia. De que maneira pagaria?”, rima a tragédia.
Em Irmãos e A última sessão, as igrejas evangélicas que tomaram o lugar de cinemas são panos de fundo para a crítica de Marcelino à fé enquanto engodo do povo. Num o protagonista, abandonado pela mulher, é confundido com um pastor; noutro, um velho, sem família, após sair do hospital, consegue achar o caminho até um cinema pornô que costumava frequentar e encontrar consolo em uma travesti. Mas o cinema já não mais existe.
Em União civil a homossexualidade é pautada. O conto é narrado como se o autor estivesse em uma mesa num evento literário ou ministrando uma oficina – universos do autor.
Seu companheiro de projetos, Jorge Ialanji Filholini – ambos estiveram na Feira do Livro de São Luís em 2014, ocasião em que ministraram oficinas pelo Quebras, patrocinado pelo Itaú Cultural –, assina as orelhas e atesta: foi aquele conto uma espécie de laboratório, “inspirador para o que viria: a “prosa-longa” do solitário e solidário primeiro romance, Nossos ossos [Record, 2013]”.
Amar é crime e a única pena possível para os que se apaixonarem pela prosa de Marcelino Freire é sair imediatamente à procura de outros livros do autor, “fundamental para a nossa literatura contemporânea”, como afirma Filholini na orelha.
Coordenado pela artista Júlia Emília, o grupo Teatrodança foi fundado em 1985, embora os trabalhos de investigação da proposta diferenciada em dança, unindo corpo, cena, literatura e música, tenham começado antes. “O trabalho com os dançarinos-atores-criadores se caracteriza pela experiência continuada e progressiva que passa pelas memórias, consciências, trânsitos e experimentações em determinados momentos das vidas de cada um ou do coletivo artístico do qual somos parte. Praticamos e estudamos em trabalho exigente porque nos colocamos à disposição da criação”, explica.
Ao longo de 2015 foram diversas as apresentações do grupo, dialogando com noites de autógrafos do livro Vivendo Teatrodança, que reúne os estudos e experimentações que resultaram nos espetáculos Bicho Solto Buriti Bravo, O Baile das Lavandeiras e Meninos em Terras Impuras.
“A sabedoria decorre da experiência. Não há nada proibido, nãohá punições, há apenas um momento e a vontade de saboreá-lo para responder ao chamado do que se passa em nossas almas. Somos abençoados porque estamos cansados de sentir a ignorância e o sofrimento se alastrando nas vidas. Digamos chega! Sejamos livres para retomar o caminho do espírito!”, diz trecho do texto sobre o espetáculo distribuído à imprensa.
Nana Queiroz não temeu envolver-se com personagens. O resultado é uma narrativa leve contando as histórias de um sistema brutal – e covarde
Presos que menstruam. Capa. Reprodução
A tragédia e os dramas particulares e coletivos vividos no sistema penitenciário brasileiro são, em alguma medida, bastante conhecidos. Sobretudo em tempos de rebeliões e mortes em massa, quando o tema, vez por outra, pauta o noticiário nacional.
A jornalista e ativista feminista Nana Queiroz mergulhou na realidade de diversas prisões do Brasil, abordando-as com um recorte inusitado: a vida de mulheres – inclusive gestantes e parturientes – tratadas como homens em prisões. O resultado é o comovente Presos que menstruam [Record, 2015, 292 p.], em que a própria autora torna-se personagem: chegou a ser presa por algumas horas diante da intransigência das autoridades penitenciárias.
Nana enfiou literalmente o pé na lama, envolveu-se, meteu a mão no bolso, emocionou-se. E conta diversas histórias a um só tempo brutais e emocionantes. Não é à toa o subtítulo “A brutal vida das mulheres – tratadas como homens – nas prisões brasileiras”.
A autora não torna nenhuma personagem santa, tampouco faz julgamentos – papel da Justiça, não de jornalistas, é sempre bom lembrar. Mergulha nas histórias, contando-as da melhor forma possível, utilizando-se de memória privilegiada (quase sempre era proibida de entrar com gravadores nas prisões) e texto leve (apesar da dureza e crueza do assunto abordado).
Mas engana-se quem pensa que a história acaba aí: Presos que menstruam deve virar filme ou minissérie em breve e tem levado Nana Queiroz a diversos debates país afora: quem sabe não seja o início de um novo momento da discussão sobre a realidade carcerária no Brasil? Leitura fundamental para gestores e operadores do sistema e aos que teimam em propagar a velha e surrada cantilena do “bandido bom é bandido morto”.
Nana Queiroz conversou com exclusividade com o Homem de vícios antigos sobre o livro, jornalismo independente, ativismo e a citada cantilena, reflexo do “ódio social”.
A jornalista e ativista feminista Nana Queiroz em foto de João Fellet
Presos que menstruam é um livro que garante dimensão humana a mulheres encarceradas, algo que falta na prática cotidiana do jornalismo que cobre esta pauta. A seu ver, onde reside o problema? Eu acho que isso não é um problema do jornalismo, é um problema cultural brasileiro. Eu até entrevistei a responsável pelo sistema penitenciário do Brasil, do Ministério da Justiça, há uns tempos, pr’uma reportagem para a revista Superinteressante sobre bebês encarcerados, e ela falou: “olha, você me desculpa, mas eu nem posso investir muito nesse setor, para melhorar a vida dessas crianças, por que o brasileiro tem tanto ódio no coração, que eles vão pegar pesado em cima do poder público se investir no sistema carcerário”. Por que existe um ódio social mesmo, a velha ideia do “bandido bom é bandido morto”. Essa, pra mim, é a raiz de todos os problemas, que se refletem, claro, na realidade das prisões, se reflete na mídia, se reflete na literatura. Não é à toa que só em 2015 a gente viu o primeiro livro com uma grande reportagem sobre o sistema carcerário brasileiro feminino. É uma questão a ser pensada, é uma questão de ódio mesmo, social.
Um dos grandes trunfos do livro é seu envolvimento com as personagens. De certo modo, você acaba tornando-se uma, por exemplo, no episódio em que ficou retida por algumas horas em uma penitenciária que visitava. O jornalismo precisa enfiar mais o pé na lama, sobretudo ao abordar temas tão difíceis? Olha, os jornalistas sempre enfiaram o pé na lama, nisso eu não tenho nenhum mérito a mais do que as outras pessoas que fizeram grandes reportagens por aí. O que eu acho que faço de diferente, e não sou precursora – Eliane Brum já vem fazendo isso há anos, por exemplo –, é a conclusão de que sentimento faz parte da realidade. Antes o jornalista tentava transmitir uma realidade fria, em que ele era ausente. Eu entendo, como entende, imagino, a Eliane Brum, que é minha grande ídola [risos], que jornalismo tem fatos, opiniões e sentimentos e cheiros e tatos e paladares e tudo isso. Então, isso foi o que eu tentei transmitir com a minha presença no livro, eu tou presente só pra falar de sentimentos, é só pra eu me botar no lugar do leitor que vai estar lendo. Eu também nunca cometi um crime, e estou me relacionando com mulheres que cometeram, eu tentei pensar como as pessoas poderiam se sentir como eu estava me sentindo. Isso faz parte dessa realidade, isso tem que ser discutido, principalmente quando você tá falando, tratando de uma questão que é praticamente invisível por conta do ódio social. A minha capacidade de chegar lá, ter empatia e amar essas mulheres é importante para que o leitor perceba que se ele estivesse lá, talvez ele também as amasse. E talvez valha a pena recuperar em vez de se vingar. Mesmo do ponto de vista puramente egoísta é mais inteligente para a sociedade. Uma mulher presa custa de 2 a 5 mil reais por mês, dependendo do estado. Uma mulher empoderada, capacitada, custa, sei lá, um curso no Senai [Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial] de mil reais por mês, durante um ano, e depois não custa nada. Sabe? É uma questão do tipo: será que a gente não quer recuperar e prevenir o crime em vez de punir, castigar e só se sustentar enquanto sociedade na base do olho por olho e dente por dente?
Como você custeou as despesas para realizar o livro e qual a maior dificuldade em escrever a obra? Como eu custeei as despesas? Com meu dinheiro, trabalhando [risos]. Ninguém me deu dinheiro nenhum. Eu fui fazendo essa pesquisa nas minhas folgas, férias, finais de semana, com meu próprio dinheiro. Quando a editora entrou eles me deram um pequeno adiantamento, mas a maior parte do livro já tava escrita, a apuração já tava feita. Claro que o adiantamento da editora superajudou, a editora é ótima, tem profissionais ótimos, a Record, mas grande parte foi tirada do meu bolso, como um ato de fé no projeto.
Seu livro deve virar filme ou série de televisão. Como estão as negociações? Sim. A gente viu já um edital em Brasília, de 100 mil, para fazer o piloto, agora a gente tá negociando para possíveis patrocinadores. A ideia é produzir o piloto primeiro, com toda liberdade criativa, de ideal e ética que a gente quiser ter, e depois ver que canais topam comprar o projeto do jeito que ele é. Esse ano a gente está investindo muito dinheiro pra que ele cresça, fazendo várias negociações com vários canais, e a ideia é começar a gravação lá pro fim do ano que vem, mesmo.
Seu relato humanizado é escoltado por pesquisas acadêmicas e obras em geral sobre a questão carcerária, embora ainda insuficientes. Em que medida você acredita que seu livro preenche uma lacuna importante sobre o assunto? Poxa, cara, relato humanizado. Eu sempre acredito que antes de ser jornalista eu sou ser humano e eu não acredito naquele mito de que eu tenho que tirar minha roupa de ser humano pra ser jornalista, sabe? Eu acho que, como aquele jornalista que eu conheci a história dele na época da faculdade, me marcou muito e eu decidi que nunca ia deixar de ser humana antes de ser jornalista. É um fotógrafo famoso [o sul-africano Kevin Carter, vencedor do Pulitzer em 1994], tava cobrindo a fome na África e fotografou uma criança no momento em que ela morria e um urubu descia sobre ela pra comê-la, e ele depois se suicidou de culpa por não ter ajudado aquela criança. Eu decidi que eu sempre ia ser o tipo da jornalista que põe a mão na lama, ajuda a criança e perde a foto, e depois, se der tempo, eu conto a história. Eu acho que seria uma história muito mais incrível, de como esse cara salvou essa criança, do que a fotografia da morte e da força da morte. Eu acho que é isso, esse é o relato que eu tento fazer, o relato do ser humano que acontece de ser jornalista e não do jornalista que eventualmente é ser humano.
Em torno de seu livro, campanhas têm sido deflagradas em diversos estados do Brasil em favor de mulheres apenadas. Em São Luís, o Coletivo Fridas realizou a campanha Ciranda de Afetos, em que arrecadou doações, sobretudo de kits de higiene e absorventes, e doaram a detentas, além de lhes proporcionarem momentos lúdicos. Ao escrever o livro você vislumbrava este engajamento? O que acha deste tipo de iniciativa? Nunca, jamais, nenhuma atitude que eu tive como jornalista ou como ativista eu pensei que as pessoas fossem se engajar o tanto que elas se engajaram. O Eu não mereço ser estuprada [campanha contra a culpabilização das vítimas de estupro] foi uma puta surpresa pra mim, o Presos que menstruam, por toda essa mobilização ao redor do mundo foi uma surpresa igual. Eu nunca imaginei, mas foi um acalento tão gostoso. Produzir esse livro me deixou derrotada, desesperançada. Ver que o mundo se preocupa, ver agora as pessoas se preocupando com as crianças presas, é para mim um acalento sem igual.
Você é editora da revista Az Mina, de temática feminista. A revista online também amarga suas dores e delícias. A importância da iniciativa compensa as dificuldades? Engraçado cê perguntar isso: hoje eu acabei de fazer um post, eu nunca trabalhei tanto, fui tão mal paga e fui tão feliz [gargalhada]: ô, se compensa! E compensa por que a gente tem um grupo de leitores crítico que não deixa a gente em paz. Eu adoro isso, sabe? Eu adoro esse clima de, tipo, “eu tou em cima, vocês não vão fazer merda!”. Isso é que devia ser o jornalismo em todo lugar, entendeu? Isso devia ser o jornalismo na grande mídia, isso é jornalismo! É tipo você fiscalizar o poder público, mas você ter o povo fiscalizando você, entendeu?. A gente não é o quarto poder pra ser o quarto poder, que é onipotente. A gente é o quarto poder fiscalizado pelo quinto, que é o povo. Eu acho incrível! A nossa redação é uma redação amorosa, em que o conceito de sororidade, que é esse conceito da irmandade entre as mulheres, chega a seus limites. A gente está sempre aberto a críticas, a gente fala umas com as outras, às vezes até para apontar defeitos, mas de maneira muito amorosa, então a gente tá construindo uma coisa especial, acima da média.
Seu depoimento à campanha #primeiroassedio, do coletivo feminista Think Olga, relatou um abuso sofrido aos cinco anos de idade, de um colega de infância praticamente da mesma faixa etária. Em que medida o sofrimento com a situação levou você ao ativismo em defesa dos direitos das mulheres? Eu nunca tinha tido coragem de falar desse sofrimento antes, em nenhuma outra entrevista, mesmo durante o Eu não mereço ser estuprada, e é duro pra mim. Eu acho que em muitos momentos eu não quis falar por que eu não queria que a minha história pessoal tivesse mais destaque do que a causa em si. E eu continuo não querendo. Mas eu partilhei o meu relato no Primeiro assédio, por que eu achei que o Primeiro assédio merecia engajamento, merecia que as pessoas contassem histórias que iam muito além do assédio para chegar ao estupro e ao abuso sexual severo, como foi meu caso, que me marcou a vida inteira e foi misturado com um quê de culpa cristã mal administrada e um pouco de fanatismo religioso, foi bem grave. Por que eu conto isso? Por que muita gente não sabe que se você for abusada por uma criança não significa que você não foi abusada. Você foi, as características de estupro estão todas lá. É como se você for assassinado por uma criança de sete anos não significa que você não morreu. Então, o estupro por uma criança de sete anos não significa que você não foi estuprada, é o meu caso. Eu, hoje, avalio que a culpa não foi dessa criança, mas dos adultos que estavam ao redor e educaram essa criança pro abuso, por conta de uma cultura extremamente machista, de uma casa que era muito machista, a dele, eu conheço a família dele. Eu [pausa] não sei, eu sei que essa pessoa se tornou um homem difícil de lidar, mas eu tento encontrar [algo] dentro do meu coração para transformar essa dor em construtividade, assim, na vontade de querer que isso não aconteça com outras pessoas, e isso me consola, sabia? Isso me consola.
Todos os sábados o poeta visitava seus pais. Morador do Centro em alguns intervalos da vida, eu mesmo encontrei-o várias vezes no percurso. Às vezes, apenas cumprimentávamo-nos e ele seguia seu caminho; às vezes atrasava-se para o compromisso semanal, quando esticávamos a conversa, sobre temas os mais diversos. O curioso é que a morada de seus pais é o Cemitério do Gavião, no bairro da Madre Deus.
“Não há poesia experimental sem vida experimental”, ensinou-nos Roberto Piva, outro grande. E eu via naquele gesto do poeta, pura poesia. Cumprimentava-me, como de resto a quase todo mundo, “meu poeta!”. A expressão “meu poeta, meu cabo de guerra!”, cunhada por ele, é, até hoje, usada por este obituarista e alguns conhecidos, como saudação.
Nascido em São Luís do Maranhão em 2 de agosto de 1935, Nauro Diniz Machado faleceu na madrugada de hoje (28), aos 80 anos. Tinha hérnia no intestino e há poucos anos lutou contra um câncer no esôfago, período lembrado em Esôfago terminal, seu penúltimo livro, lançado em 2014 – o último, O baldio som de Deus, foi publicado em setembro passado.
Nauro era casado com a também poeta Arlete Nogueira da Cruz, com quem teve um filho, o cineasta Frederico Machado, cujo Infernos, que abre este post, é um retrato cinematográfico do pai, abordando sua dedicação à poesia, a boemia, o alcoolismo e sua relação com a cidade natal. Narrado pelo próprio poeta, o enredo do filme é construído sobre alguns de seus poemas.
No primeiro poema, O parto, de seu primeiro livro, Campo sem base [1958], Nauro Machado já prenunciava suas quase seis décadas restantes: “Meu corpo está completo, o homem – não o poeta./ Mas eu quero e é necessário/ que me sofra e me solidifique em poeta,/ que destrua desde já o supérfluo e o ilusório/ e me alucine na essência de mim e das coisas,/ para depois, feliz e sofrido, mas verdadeiro,/ trazer-me à tona do poema/ com um grito de alarma e de alarde:/ ser poeta é duro e dura/ e consome toda/ uma existência”.
O velório de Nauro Machado está acontecendo na Casa de Antonio Lobo (Rua da Paz, 84, Centro), sede da Academia Maranhense de Letras (AML), da qual não era membro por opção. O sepultamento acontece amanhã (29), às 10h, no Cemitério do Gavião.
Quadrinista tornado escritor, Lourenço Mutarelli entrou para a história: foi o primeiro escritor brasileiro a protagonizar a adaptação de um livro seu para o cinema, O natimorto [DBA, 2004; Companhia das Letras, 2009], após uma ponta em O cheiro do ralo, também adaptação de um sucesso literário seu.
O Grifo de Abdera. Capa. Reprodução
Em O Grifo de Abdera [Companhia das Letras, 2015, 264 p.; leia um trecho], Mutarelli realiza um interessante exercício literário ao brincar com várias faces de si mesmo. É um jogo de trocadilhos, desde a composição dos nomes dos personagens, anagramas que ganham vidas e histórias, de dar à vida aspectos de ficção, e de revelar segredos por trás dos bastidores do ofício de escritor – ou do quadrinista, muito mais trabalhoso e menos reconhecido, embora ambos, de algum modo, glamurizados.
Mutarelli tira onda até mesmo com sua fórmula de escrever romances: os protagonistas são sempre homens mais ou menos em sua faixa etária, levando vidas mais ou menos comuns, até um acontecimento surpreendente e uma guinada, confessa.
Suas obras, entre as realmente lançadas e fictícias, estão lá citadas. Amigos escritores, de verdade e inventados, tornam-se personagens: Paulo Lins, Marcelino Freire, Marçal Aquino, Ferréz, além de Raimundo Maria Silva, Oliver Mulato e Mauro Tule Cornelli, que “assinam” O Grifo de Abdera com Mutarelli, este último seu anagrama. Um deles é quem figura nas fotos de orelha e viagens do autor a eventos literários, dentro e fora do Brasil.
O livro é a história de um duplo, fabricado a partir da chegada, às mãos de um dos protagonistas, da moeda que dá título à obra. As obsessões continuam perseguindo o autor, entre citações – entre outros, William S. Burroughs e Kurt Vonnegut, que já tiveram os nomes inscritos noutras obras de Mutarelli –, diálogos ligeiros e certeiros, exigindo e prendendo a atenção do leitor, a vasta pesquisa – um personagem acometido de síndrome de Tourette repete frases grosseiras e, portanto, inoportunas em espanhol digitadas pelo duplo no tradutor do Google – e o entrecruzar de diversos enredos paralelos, a vidinha nada besta de professores, escritores e biscateiros.
É recorrente também a ideia de Mutarelli, personagem, retomar os quadrinhos. Dividido em três partes – O livro do fantasma, O livro do duplo e O livro do livro – O Grifo de Abdera é um presente aos fãs que o acompanham desde Transubstanciação [1991] e/ou aos recém-chegados. Após cinco anos do último romance – Nada me faltará [2010] – quatro do último álbum – Quando meu pai se encontrou com o ET fazia um dia quente [2011] – e três do volume único que reuniu a trilogia do detetive Diomedes [2012], o múltiplo Mutarelli mescla romance e quadrinhos (as 80 páginas centrais do livro) em uma obra que, além de agradar a leitores antigos e mais novos, certamente aumentará seu fã-clube. A pergunta, talvez óbvia, que não lhes calará é: quando O Grifo de Abdera será adaptado ao cinema?
Laura D. Macoriello é assessora de imprensa da Edições Ideal, por onde publicou os três volumes de Rock para pequenos – Um livro ilustrado para futuros roqueiros, além de Cinema para pequenos – Um livro ilustrado para futuros cinéfilos [Edições Ideal, 2013, 52 p.]. Os dois primeiros volumes de Rock para pequenos, dedicados aos gringos, microperfilou Angus Young, B-52, Beatles, Chuck Berry, David Bowie, Elvis Presley, Janis Joplin, Jimi Hendrix, Kiss, Ozzy Osbourne, Ramones, Rolling Stones e Steve Harris (no primeiro volume) e Axl Rose, Bjork, Bono Vox, Bruce Dickinson, Chrissie Hynde, Dave Grohl, Dick Dale, Freddie Mercury, Green Day, Jeff Hanneman, Jerry Lee Lewis, Jim Morrison, John Lennon, Lemmy Kilmister, Metallica, Morrissey, Nina Hagen, Robert Smith, Sex Pistols e Van Halen (no segundo).
O recém-lançado terceiro volume [Edições Ideal, 2015, 44 p.; leia um trecho] é dedicado a nomes do rock nacional: Capital Inicial, Cazuza, Erasmo Carlos, Inocentes, Ira!, Kid Vinil, Legião Urbana, Mamonas Assassinas, Os Paralamas do Sucesso, Pitty, Raul Seixas, Rita Lee, Ronnie Von, Secos & Molhados, Supla, Titãs e Ultraje a Rigor.
Os livros são ilustrados por Lucas Dutra e trazem microperfis dos artistas e, espécie de narrativa fabular, algo como uma moral da história, linkando as vidas e obras a valores cotidianos que devem ser ensinados aos “futuros roqueiros”, como indica o subtítulo da trilogia – até aqui; indagada sobre um possível quarto volume, a autora disse não saber responder ainda.
A assessora/escritora conta que “a ideia surgiu do meu cotidiano com minha filha Olívia, 5, que na época do primeiro livro estava com três anos. Peguei situações que eu vivia com ela para dar as “lições” e achei legal dar uma breve explicação sobre os astros”.
A “lição de moral” do microperfil que abre o terceiro volume, dedicado a Cazuza, é “ser filho único é muito legal, podemos escolher nossos irmãos-amigos”. Encaro o livro como uma boa porta de entrada para as crianças ao universo do rock, especificamente o brasileiro, no caso deste terceiro volume. Pergunto-lhe se este papel deveria, em alguma medida, ser também das rádios e tevês. “Talvez. Acho que de alguma forma os próprios pais que gostam do estilo podem tentar introduzir isso desde cedo nos pequenos”, aponta. “Acho que a opção deve ser dada. Não teremos controle sobre eles [os filhos] para sempre, caso eles gostem de outra coisa mesmo conhecendo o rock, acho que o certo é respeitar”, continua.
Laura D. Macoriello se define como alguém que “gosta mais de Smiths do que de lasanha”. Indagada sobre a maior loucura que já cometeu por um ídolo, responde sorrindo: “Nossa! Nenhuma! Até porque acho que em se tratando de um ídolo, nada é considerado loucura, concorda? [risos]”.
Ao fim do volume, uma discografia básica aponta os principais discos dos artistas, para pais e filhos ouvirem juntos. A autora poupa a petizada de eventuais detalhes trágicos da vida e carreira dos microbiografados. É um livro sobre rock, mas sem sexo, drogas e mortes trágicas.
Em 1995 Malcolm McLaren (1946-2010) visitou os estúdios da MTV Brasil. Pego de surpresa, o escalado para entrevistá-lo foi Fábio Massari, o Reverendo, profundo conhecedor de cultura pop. Apenas cerca de 15 minutos da entrevista de quase uma hora foi ao ar e o material bruto (em VHS) continuava apenas no acervo pessoal do radialista – e no da emissora, ele descobriria depois, contrariando a expectativa de destruição na qual ele próprio acreditava.
Mesmo no susto, Massari cumpriu bem seu papel e certamente seria um dos poucos brasileiros a fazê-lo, como atesta André Barcinski no posfácio. Por anos, guardou também uma cópia da transcrição da conversa, recheada, e não poderia ser diferente, de citações – sobretudo de música, moda e política – do universo ao redor dos Sex Pistols, a maior invenção do entrevistado.
Quase duas décadas depois, após um desejo acalentado por anos, Massari e o quadrinista Luciano Thomé, cujo traço encarna a alma punk do protagonista, transpõem a entrevista televisiva – na íntegra – à HQ Malcolm [Edições Ideal, Coleção Mondo Massari, 2014, 64 p.; leia um trecho]. O resultado é tão bom que parece que a conversa foi originalmente pensada para o formato.
O papo orbita em grande parte em torno do grupo de John Lydon e companhia, mas é um passeio pela indústria cultural, em companhia de quem sempre tirou um sarro por dentro. McLaren afirma, por exemplo, que os Sex Pistols nasceram como manequins: mais importava vestirem o que era conveniente ao empresário que que soubessem tocar (bem) algum instrumento. “Em 1977 criamos um movimento em que tudo era possível e não era necessário saber tocar guitarra”, diz. Quer atitude mais punk que isso?
A intimidade de Massari com o universo também aponta para as influências de MC5, Iggy & The Stooges e New York Dolls, e o legado deixado pelo grupo, que influenciou grupos como The Damned, Buzzcocks “e muitas outras bandas”. Sobram críticas à cultura americana – minimizada a “rock’n’roll, Levi’s, Coca-Cola e Marylin Monroe” –, à própria MTV – “se você ouve música, você é menos controlado por ela. Se você assiste na TV, você está mais propenso a ser controlado por ela e ela se torna uma… uma droga que o transforma num zumbi” – e a artistas que McLaren não aprecia – “o importante é ter algo a dizer em vez de botar todo mundo para dormir com música insossa, do tipo Mariah Carey”.
Para o inglês Malcolm McLaren não havia lugar para gênios nos Estados Unidos: “os gênios transformam a vida e os EUA não querem mudanças. Vivem um momento conservador”.
Malcolm, a HQ, é um belo tributo ao legado de seu protagonista, em geral amado e odiado ao mesmo tempo e na mesma intensidade, um dos personagens mais interessantes e controversos da música em todos os tempos.
Desde Caim o planeta azul sempre foi povoado por variada gama de mentes doentias e criminosas. Quando a máscara cai – A verdadeira história do homem que fingiu ser um Rockefeller [Companhia das Letras, 2015, 247 p., tradução de Sérgio Tellaroli; leia um trecho], de Walter Kirn, é a biografia de uma dessas mentes, um assassino que se passou por integrante de uma das mais famosas e ricas famílias americanas. Um mergulho atormentado/r na mente de um manipulador profissional e a tentativa de autoconhecimento, o porquê de se deixar enredar na teia farsesca.
Um ser humano fascinante, é como o autor o classifica, a maldita mania de quem, jornalista e/ou escritor por paixão e/ou vício, acredita que tudo e todos podem render grande reportagem e/ou romance. É aí que começa a via crucis de Kirn, que atravessa boa parte dos Estados Unidos dirigindo uma caminhonete – e depois pegando um avião – para entregar ao suposto Rockefeller uma cadela presa a uma cadeira de rodas.
O episódio é relatado minuciosamente: fazer um favor de tal monta a um Rockefeller, era mais que estar próximo de um, e o autor de Amor sem escalas embarcou literalmente na aventura a fim de ter um personagem para um próximo romance. O desembarque e seu encontro com aquela personalidade desencadeia uma série de mentiras: da coleção de obras de arte falsificadas a empresas, bancos, propriedades, veículos e vizinhos famosos (Tony Bennett e J. D. Salinger, por exemplo), tudo é teatro nas mãos – e imaginação – hábeis do manipulador, que chegou a usar nove nomes falsos – ou além: a encarnar nove personalidades diferentes – ao longo de sua jornada criminosa.
O que ninguém sabia – e o autor sequer imaginava quando começou a pensar em tomá-lo como personagem – é que o falso Rockefeller era um assassino frio, que armazenou pedaços do corpo esquartejado de sua vítima em sacolas de livraria. Ao longo dos capítulos dedicados a seu julgamento e condenação – e após, quando o personagem insiste em seu teatro doentio – há diversas citações (Jornada nas estrelas, Alfred Hitchcock e Patricia Highsmith incluídos) de filmes, livros e séries de tevê, usadas para compreender o impostor, suas motivações e até mesmo o comportamento do júri durante o julgamento. Era de onde ele retirava ideias, citações e trejeitos: era um mero plagiador, sem ideias próprias, inclusive para seus livros e roteiros para cinema – outras frustrações em seu currículo.
Quando a máscara cai é ainda uma espécie de assunção pública de fraqueza e vergonha de alguém que caiu feito um pato no enredo de mentiras de um terceiro – e ali se manteve durante 15 anos de “amizade”. O autor lança-se ao personagem pensando no romance e consegue um livro interessante e bem escrito, de alguma forma comparado, guardadas as devidas proporções, a A sangue frio, de Truman Capote, e O talentoso Ripley, de Patricia Highsmith, de onde vem uma das epígrafes do livro. No fim das contas, do começo da amizade com o protagonista à sua condenação por sequestro e assassinato, a aventura de Walter Kirn é sobre a escrita do livro em si, não ficção em que sobressai o talento jornalístico do romancista.
Graduado em Física pela Universidade de São Paulo (USP), Bernardo Kucisnki é cientista político e jornalista, e neste último campo, autor de ao menos uma obra fundamental: Jornalistas e revolucionários: nos tempos da imprensa alternativa [Página Aberta, 1991].
Assinando simplesmente B. Kucinski, bastou um livro para que ele passasse a ser também reconhecido como “escritor” ou “autor de ficção” – o que no fundo deve servir apenas a quem organiza as obras nas estantes, em livrarias, bibliotecas ou coleções particulares.
K. – Relato de uma busca [Expressão Popular, 2011; Cosac Naify, 2014, 190 p.], primeiro romance do autor, foi finalista dos prêmios Portugal Telecom e São Paulo de Literatura em 2012.
Você vai voltar pra mim. Capa. Reprodução
O tema era urgente, embora o autor o tenha maturado por quase 40 anos: K. é o relato autobiográfico, embora o livro seja classificado como ficção, sobre o desaparecimento, em 1974, 10 anos após o início da ditadura militar brasileira, da irmã e do cunhado de Kucinski – Ana Rosa Kucinski e Wilson Silva –, ela química, professora da USP; ele físico, funcionário de uma empresa.
Como o assunto exigia mais, o autor não se contentou e, na sequência, lançou o volume de contos Você vai voltar pra mim [Cosac Naify, 2014, 188 p.] e o romance policial Alice: não mais que de repente [Rocco, 2014, 191 p.], o único que não se passa durante a ditadura, totalmente ficcional, sobre o assassinato de uma professora da USP.
Alice. Capa. Reprodução
Kucinski revela que os 28 contos de Você vai voltar pra mim foram selecionados de um universo de 150 – os que tinham a ditadura militar como tema/ambiente –, escritos entre 2010 e 2013. “Embora o autor não nos explique nada a respeito da veracidade, ou não, dos episódios, alguns deles são muito conhecidos das vítimas e dos estudiosos do período. Minha memória sugere que todos eles sejam, como se afirma nas legendas finais de alguns filmes, inspirados em fatos reais”, a psicanalista Maria Rita Kehl nos coloca a boa e quase óbvia pulga atrás da orelha no prefácio. O conto-título, aliás, é frase dita por um torturador a uma vítima.
Os muitos anos de jornalismo e magistério certamente ajudaram Kucinski com a forma: narrativas bem estruturadas, doses de ironia, a cumplicidade do leitor com a urgência dos personagens – o que lhes/nos espera nas linhas seguintes? – e a dúvida não incômoda: autobiografia? Invenção? Ou um mix? O conteúdo, mesmo que com pitadas de ficção, é, por vezes, fruto de seu próprio sofrimento, transformado em literatura da melhor qualidade. De um modo ou outro, ele dá uma bela contribuição à discussão sobre o direito à memória e à verdade no Brasil, um debate infelizmente tardio e por vezes enviesado e sem a profundidade necessária.
A Vila Socorro, a 15 km da sede do município de Governador Eugênio Barros/MA, será palco de um raro encontro: neste sábado (10), às 20h, o cantor Wilson Zara e o poeta Salgado Maranhão apresentam-se em uma Noite Cultural, que será realizada na Praça Raimundo Rocha, a praça principal do lugar, em apresentações gratuitas.
A iniciativa é organizada por um grupo de professores. Para um deles, Evando Barros, que ensina alunos do fundamental em Parnarama, o principal objetivo da atividade é “promover o envolvimento cultural, abrir a mente das pessoas”, declarou.
“A cultura musical está muito banalizada, basta ligar o rádio e perceber. De poesia, então, nem se fala. Escolhemos o Zara para mostrar que a música de qualidade ainda persiste, tem espaço. A presença de Salgado Maranhão, poeta nascido na região, também é uma grande honra para nós”, continou Evando.
O poeta Salgado Maranhão em foto de seu fb
Salgado Maranhão dialogará com os presentes sobre “a poética do retorno” e lerá poemas de sua lavra, com destaque para textos de seu título mais recente, Ópera de nãos [7Letras, 2015]. Wilson Zara mostrará um repertório que vai além de rótulos como “cantor de barzinho” ou “cover de Raul Seixas”. Seu amplo cardápio musical vai de Arrigo Barnabé a Zé Ramalho, passando por Beatles, Belchior, Bob Dylan, Cesar Teixeira, Fagner, Geraldo Azevedo, Milton Nascimento e Zeca Baleiro, entre outros, além de composições autorais.
O cantor Wilson Zara em foto de seu fb
Zara (voz e violão) estará acompanhado de sua banda, formada por Mauro Izzy (contrabaixo), Moisés Profeta (guitarra e efeitos) e Marjone (bateria).
Biografias – Salgado Maranhão (José Salgado Santos) nasceu em Caxias/MA, em 1953. Só aprendeu a ler aos 15 anos. Formado em Comunicação pela PUC/SP, tem vários livros publicados e parcerias gravadas por diversos nomes da MPB. Vive no Rio de Janeiro desde 1973. Lá, em 1978, publicou seu primeiro livro, Ebulição da escrivatura: treze poetas impossíveis. Até hoje publicou outros 11, tendo vencido o Jabuti em 1999 com Mural de ventos. Ano passado foi um dos homenageados da Feira do Livro de São Luís.
Natural de Barra do Corda/MA, Wilson Zara (Wilson Oliveira da Silva) abandonou o curso de Letras e o ofício de bancário para dedicar-se integralmente à música. Apresenta-se regularmente na noite ludovicense, onde vive desde o início dos anos 1990. Anualmente apresenta o espetáculo Tributo a Raul Seixas, em homenagem ao roqueiro baiano. Atualmente percorre o Maranhão com o músico Nosly, nas oficinas de teoria musical aplicada à música popular Trilhas e Tons II.
A professora Maria de Lourdes Lauande Lacroix é a patrona e grande homenageada do ano na Feira do Livro de São Luís. Geralmente o lugar tem sido ocupado por nomes conhecidos da literatura e, por este lado, não deixa de ser surpreendente a escolha. Mas, por outro, trata-se de uma historiadora cujos trabalhos possuem forte identificação com a cidade, sua história e seus costumes.
Graduada em Direito e História, Lourdinha aliou durante mais de 20 anos as atividades de funcionária da Previdência Social e professora da UFMA em regime parcial, onde se destacou principalmente no ensino de História Contemporânea, com grande ênfase na revolução industrial e na revolução francesa, durante muito tempo seu maior interesse de estudo. No início da década passada, já aposentada, integrou o quadro de docentes da UEMA, encarando um concurso para as áreas de História Antiga e Medieval, num momento em que o curso de história ainda lutava com grandes dificuldades para se fixar. Lá ficou quase por dez anos, só saindo na compulsória.
A sala de aula foi seu espaço preferido, compromisso preparado com zelosa antecedência, onde consolidou o perfil de uma professora exigente, dinâmica e alegre, às vezes mesmo empolgante, sem nunca ter sido considerada propriamente intelectual brilhante. Com uma personalidade forte e muito prática, a consciência disto não lhe causou nenhum problema e ainda lhe seria de grande valia, quando resolveu escrever sem muitas preocupações acadêmicas.
A fundação francesa de São Luís e seus mitos. Capa. Reprodução
Apesar da publicação da dissertação de mestrado no início dos anos 1980, um estudo sobre a educação na baixada maranhense no período imperial, seu trabalho significativo de escrita é recente, com cinco livros publicados nos últimos 15 anos, um deles com três edições bem diferentes, que funcionou na verdade como detonador dessas possibilidades, o conhecido e polêmico A Fundação Francesa de São Luís e seus Mitos.
Impresso no final de 2000, mas lançado apenas em julho de 2001, a primeira edição deste estudo era um livrinho quase inacreditável, com menos de 80 páginas, uma escrita leve e, em certas passagens, até ligeira, mas estruturado em três passos fundamentais que vale frisar.
Primeiro, uma observação arguta: a fundação francesa de São Luís não consta nos relatos dos cronistas portugueses e historiadores regionais até o final do século XIX, mantendo-se uma distinção entre o forte e a cidade, acentuando a ascendência portuguesa. Segundo, uma pergunta incômoda: o que teria acontecido, então, com a memória histórica da cidade, com os franceses passando de “invasores” a inquestionáveis “fundadores”? Terceiro, uma hipótese provocativa: a entronização da fundação francesa seria fruto da ação de intelectuais a partir do final do século XIX e passou a constituir, junto com a imagem da Atenas Brasileira, a identidade da cidade no século XX.
O livro foi recebido com certa estupefação e até incredulidade, sendo tratado por quase todo mundo como um mero engano entre fundação e urbanização ou entre fundação e colonização ou, até mesmo, desconhecimento de evidências históricas óbvias. A reação foi principalmente do que poderíamos chamar de establishment cultural, no arco que vai das academias e institutos tradicionais, passando pela mídia impressa, com intervenção de figuras diversas, conhecidas e desconhecidas, desaguando na aparente indiferença com que foi recebido em círculos universitários.
Em contrapartida, trazia um prefácio ousado, escrito por Flávio Soares, um de seus melhores ex-alunos. A indagação dirigida à historiografia colocava as relações entre as nossas elites e o legado português no processo de constituição de sua identidade. Em uma palavra, a identificação buscada no final do período colonial e em parte do Império, transforma-se em um sentimento ativo de rejeição e, através de uma operação de sublimação já verificada na exaltação da Atenas Brasileira, volta-se para a idealização de suas origens, constituindo o mito fundador.
Ele se permitiu ainda raciocinar para além do que sugeria o texto, mostrando como aquele ângulo propiciava toda uma gama de observações sobre algumas características nucleares não apenas da nossa historiografia, como, principalmente, de “camadas nervosas, aparentemente invisíveis da memória e, mais que isto, talvez da psiché da cidade”.
A polêmica estava relançada e exigiria da professora atenção crescente durante quase toda a década. Logo em 2002, lançou a segunda edição, ampliada com outro ensaio, “A Criação do Mito”, trazendo um levantamento mais circunstanciado do problema, sobretudo com a localização de Ribeiro do Amaral e seu livro A Fundação do Maranhão, lançado no rol das comemorações de 1912. Ele seria o primeiro autor a entronizar o 8 de setembro como data da fundação da cidade, remetendo à missa de tomada de posse da região descrita no livro do capuchinho Claude d’Abbeville. Um enfoque que ficaria cristalizado no livro de Mário Meireles, A França Equinocial, de 1962.
A terceira edição, que ela considera a definitiva, sairia apenas em 2008. Além de novas revisões e ajustes, traz quatro artigos selecionados entre cerca de 10 saídos na imprensa durante o período e um tratamento do belo painel tríptico A Fundação de São Luís, obra de Floriano Teixeira, encomendada pelo governo do estado e entregue em 1972, reproduzida no livro integralmente e em detalhes. Antes, porém, publicou dois outros trabalhos.
Em 2004, o livro sobre a Campanha da Produção, iniciativa dos grandes comerciantes integrantes da Associação Comercial na década de 1950, com vistas aos gargalos que emperravam a produção agrícola e seu escoamento para a capital. Um capítulo final do predomínio do complexo da Praia Grande na economia regional, visto através da análise dos relatórios da diretoria.
Em 2006, lançou outro trabalho enfocando a questão da fundação, um ensaio sobre a figura de Jerônimo de Albuquerque, tornado Maranhão após a vitória de Guaxenduba. Novamente vemos a combinação entre um veio forte de concepção da história como encadeamento de fatos em relação causal, herança da influência de Mário Meireles em sua formação, e outro, da história como determinada forma de construção coletiva da memória e, portanto, em transformação vinculada a determinantes de época.
Assim, depois de demarcar as especificidades da guerra colonial, híbrido de técnicas de guerra europeia e guerra indígena, terreno onde o mestiço Albuquerque estava à vontade, e acompanhar os fatos narrados por Diogo de Campos Moreno, traz novas observações interessantes de teor mais nitidamente historiográfico.
São as considerações dos três últimos capítulos, versando sobre: os condicionantes do próprio relato do militar português; a forma como a batalha de Guaxenduba foi enfocada no decorrer dos séculos; por fim, a vinculação entre Jerônimo de Albuquerque e a fundação da cidade de São Luís na historiografia regional, reafirmando a existência de um arco que vai dos cronistas portugueses a historiadores maranhenses do século XIX e mesmo do início do século XX.
Durante todos esses anos não descuidou do debate, sempre se ocupando nos artigos de responder com novos estudos às críticas que lhe dirigiam. Aos poucos, uma agressividade fora do tom, somada à incompreensão e à repetição dos argumentos, foi determinando seu afastamento da polêmica, que, no entanto, continuaria viva.
Um exemplo recente e bem eloquente dos equívocos que sempre acompanharam este debate pode ser visto no livro de Ana Luiza Almeida Ferro, intitulado 1612: Os Papagaios Amarelos na Ilha do Maranhão e a Fundação de São Luís, publicado no final do ano passado, mais de 600 páginas, anunciado com estardalhaço e repleto de autoglorificações, ao estilo da Atenas Brasileira. Estamos exatamente diante de um resgate do tipo de história feito por Mário Meireles e outros próceres da AML.
Após uma longa revisão das disputas entre as coroas em torno das terras do Novo Mundo e das primeiras tentativas de colonização do território, chegamos ao capítulo 7, intitulado emblematicamente “A Fundação da França Equinocial e da Cidade de São Luís”. Utilizando as descrições conhecidas do padre capuchinho, vai configurando a tentativa de implantação da França Equinocial, apoiada também no importante livro de Patrícia Seed sobre as cerimônias de posse levadas a efeito pelos europeus no continente americano.
A autora segue as descrições e análises de seus significados, mas, a certa altura, entra o que não estava lá: “O dia 8 de setembro de 1612 marca a condução de uma cerimônia gaulesa de tomada de posse da Ilha do Maranhão, contudo serve igualmente de marco de fundação da cidade de São Luís” (p.380). Ora, serve para quem e por quê? Este passo de identificação foi dado por Ribeiro do Amaral e o grupo de intelectuais oriundo dos Novos Atenienses. Não é outra coisa o que a autora vai encontrar no levantamento a que procede. Vejamos.
Se excluirmos a utilização equivocada do Pe. José de Moraes, que descreve a cidadela do forte como “cidade pequena”, observação já feita por Rafael Moreira, maranhense radicado há anos em Portugal e especialista reconhecido no estudo de fortes, o que a autora lista de novo são historiadores franceses do século XIX e do início do século XX, posteriores a Ferdinand Denis, nome principal e localizado nos trabalhos de Lourdinha, que, inclusive, frisou suas afirmações contraditórias sobre o tema, aqui silenciadas.
São os historiadores Léon Guérin, para quem “a França lançou os fundamentos de dois dos mais importantes estabelecimentos dos europeus no Brasil… aquele de Saint-Louis de Maranhão e aquele da baía do Rio de Janeiro” e Charles de La Ronciére, que se referiu a “uma cidade toda de madeira, tal foi Saint-Louis, a capital da França Equinocial” (p.273). Entre os autores regionais, o primeiro a aparecer é justamente Ribeiro do Amaral, ao qual se segue uma lista que no decorrer do século XX, como é sabido, se tornou amplamente majoritária.
Do outro lado, ela tem os autores que falam da fundação portuguesa da cidade, um arco que começa em Berredo (não lista Bettendorff), passa por Gaioso (não lista Prazeres e sua Poranduba Maranhense), João Lisboa, Cesar Marques, Barbosa de Godois, estes dois últimos em obras de referência geral, o famoso Dicionário Histórico-Geográfico da Província do Maranhão e um compêndio para alunos secundaristas, a História do Maranhão. Inclui ainda outros autores mais recentes indicados por Lourdinha, José Moreira e Correia Lima, que foram membros do IHGM.
O que temos claramente, portanto, são duas linhagens interpretativas, uma que remonta aos cronistas coloniais, sendo predominante até o final do século XIX, e outra que surge aí, na esteira da revalorização da presença francesa na colonização das Américas, e se formaliza em 1912. Mesmo incluindo equivocadamente o Pe. José de Moraes, no séc. XVIII, ainda assim é visível que a associação entre os dois tópicos do seu capítulo só ocorre depois, quando a cerimônia de 8 de setembro é incorporada à narrativa como marco de fundação da cidade, tornando-se fato naturalizado, a forma como é, de resto, tratado em sua análise.
Por que a autora não se apercebe do que está indicado nos próprios dados recolhidos? A resposta pode estar no tipo de concepção, de fundo verdadeiramente mítico, que determina desde o início a forma da investigação e pode ser observado num trecho como este: “Mesmo que admitamos a inexistência de qualquer menção literal de Claude d’Abbeville e Yves d’Évreux à ideia de fundação de uma cidade, tal não significa que eles não tenham descrito, e com detalhes preciosos, a fundação de uma, no caso São Luís” (p. 602). Sim, aos olhos de quem lê e determina que a partir dali a cidade já estava fundada…
É o que leva igualmente um conhecedor dos livros de história do Maranhão e intelectual importante da AML, Jomar Moraes, a escrever sobre a fundação francesa de São Luís utilizando recorrentemente citações de Berredo, quando este afirma justo o contrário. Isto porque ele costuma citar trechos do capítulo ou livro II, quando o autor trata da tentativa de implantação da França Equinocial, seguindo o relato de Claude d’Abbeville sobre as cerimônias e as providências tomadas, e não do capítulo seguinte, justamente quando se reporta à fundação da cidade como fruto de uma decisão da corte em Madri. Em suma, a introjeção da identificação entre a missa de tomada de posse das terras e a fundação da cidade já está fixada e bloqueia qualquer indagação como absurda.
É por isto que a designação de mito, utilizada por Lourdinha de maneira puramente intuitiva, me pareceu sempre tão feliz. Segundo Roland Barthes, no Mitologias, os mitos modernos, como são estes criados na virada do século, constituem uma fala roubada e restituída, mas, “simplesmente, a fala que se restitui não é certamente a mesma que foi roubada. É esse breve roubo, esse momento fortuito de falsificação, que constitui o aspecto transido da fala mítica”. E mais: “O mito é simultaneamente imperfectível e indiscutível, o tempo e o saber nada lhe podem acrescentar ou subtrair”.
No caso, a fala relida e mitificada é a narrativa de Claude d’Abbeville, utilizada para constatar o que ela efetivamente não afirma. Nem verdade, nem mentira, o mito opera nas brumas, mas precisa fixar a cena. Ainda segundo Barthes, “é uma fala definida pela sua intenção muito mais do que pela sua literalidade; e que, no entanto, a intenção está de algum modo petrificada, purificada, eternizada”.
O tipo de comportamento reativo quando o livro apareceu foi efetivamente como se defendessem um mito. No afã de tornar natural ou evidente a fundação francesa, sequer admitia-se que esta noção tivesse uma historicidade. Tornou-se um fato naturalizado através do significado correlato atribuído à cerimônia de 8 de setembro. Neste aspecto, o trabalho de Ana Luiza Ferro apenas segue a crença, frise-se o termo, tornada comum: “Pouco importa se os portugueses agiram em conformidade com uma determinação expressa da Corte no sentido da fundação de uma cidade; eles não podiam fundar o que já fora fundado” (p. 602).
A autora tenta ainda inverter os termos da equação proposta por Lourdinha e fala, no capítulo 14, em um “mito da fundação portuguesa”, ao qual se contrapôs a verdade histórica da fundação francesa, a partir da revalorização das influências gaulesas no litoral brasileiro no processo da colonização e o conhecimento de textos que foram interditados, como o livro do padre Yves d’Évreux. Em linhas gerais, são ideias já defendidas em artigos pelo jornalista Antonio Carlos Lima, além de buscar algumas observações de Andréa Daher sobre as tentativas do português vencedor de impor a memória e “ocultar marcas”.
A questão é que os documentos e textos revelados não alteraram a descrição básica já existente sobre o arraial dos franceses, o forte e adjacências, constante seja no relato de Claude d’Abbeville, seja na correspondência oficial enviada ao reino ou firmada entre os capitães. A nova interpretação se baseia na conhecida História da Missão dos Padres Capuchinhos na Ilha do Maranhão e terras circunvizinhas e surge não como contestação crítica, e sim constatação de algo que já estava lá desde sempre. A noção da fundação francesa se incrustou na historiografia maranhense como um mito. Foi isto que efetivamente o trabalho de Lourdinha mostrou.
Por outro lado, as observações sobre o forte como origem da cidade, tópico recorrente, são absolutamente pueris: “Incontáveis cidades mundiais, em distintas épocas de conquistas de território e guerras entre nações, nasceram de fortificações, a exemplo dos castelos. São Luís não foge a este padrão tão comum ao longo da história” (Idem, p. 264). Por aí não se vai longe.
Novamente as indicações feitas por Lourdinha em artigo intitulado “As Cidades no Brasil Colonial” (Caderno Alternativo, 18.05.2008), parecem mais frutíferas, mostrando, com base em estudo do urbanista Paulo Santos, que longe de serem simplesmente “espontâneas”, existiram cidades coloniais com planta prévia, fundadas por determinação expressa do Reino, entre as quais destaca Salvador, o Rio de Janeiro e São Luís.
As diretrizes para a fundação da primeira constavam do Regimento de Tomé de Souza e o mesmo se deu em São Luís, conforme o Regimento deixado por Alexandre de Moura a Jerônimo de Albuquerque. O plano de autoria do Engenheiro-Mor Francisco Frias de Mesquita seria o exemplo mais expressivo da adoção de traços de regularidade, talvez o primeiro realizado no Brasil, “mas sem a monótona repetição de quadrículos que se vê nas cidades de colonização hispânica”. Em seu núcleo regular rigorosamente projetado e preservado está a singularidade da cidade, muito mais que em sua mítica fundação francesa.
Enquanto seus críticos continuaram relendo as descrições de Claude d’Abbeville e tecendo loas à França Equinocial, Lourdinha apareceu com outra grande surpresa em 2012, ano em que seriam comemorados os “400 anos” da fundação. Longe de continuar batendo na mesma tecla, publicou um alentado livro sobre a cidade, a expansão da sua malha urbana, a transformação dos costumes, enfocando traços do cotidiano, as festas religiosas e laicas, as manifestações artísticas.
Aqui se distanciou ainda mais da escrita com traços formais e, sem qualquer quadro teórico, nos termos acadêmicos comuns, costurou uma mistura de pesquisa e ensaio memorialístico livre, vivo, cheio de cores, sabores e odores. O título, São Luís do Maranhão, Corpo e Alma, aparentemente pretensioso, traduz o que efetivamente vamos encontrar, uma narrativa forte e descentrada, desenhando vasto painel histórico da cidade, com fundo sentimental e ligeiramente nostálgico, mas sem a costumeira exaltação afetada.
É um encontro quase literal com São Luís em suas ruas e becos, igrejas e praças, dividido em quatro partes, referentes aos quatro séculos: a cidade traçada; o início da expansão; a era do casario; crescimento e degradação. Não é uma história administrativa, tão ao gosto de Mário Meireles, por exemplo, nem um guia sentimental ou turístico, mas é um painel histórico que traz muito da sua longa vivência na cidade e do trânsito entre famílias antigas, expresso no conhecimento de episódios e figuras variadas da sociedade.
Com uma edição ricamente ilustrada, mesclando fotografias antigas com outras recentes, muitas da lavra do fotógrafo Edgar Rocha, associadas a registros de pinturas, dispostas numa dimensão não muito usual em obras de história, foi, ironicamente, talvez a melhor saudação que a cidade recebeu naquele ano de comemorações. É livro escrito com sofreguidão, salto sem rede de proteção, que se lê de um fôlego. Quanto mais as memórias, suas e de outros, se entrelaçam com a pesquisa e são atravessadas pelas imagens, mais o texto ganha em intensidade. Trabalho significativo de reunião de informações de campos variados, mas também fruto da arte de quem tem o dom de prender a atenção em meio à narrativa mais simples.
Se hoje, passados 15 anos, é possível dizer que o pequeno livro sobre a fundação vai tornando-se clássico, pois reviu os termos do debate, concorde-se ou não com suas posições, este volume sobre a cidade parece simplesmente ter nascido clássico, e da maneira mais silenciosa possível, já disputado e guardado com o zelo do livro raro, apesar de lançado há apenas três anos.
História da Medicina em São Luís. Médicos, enfermidades e instituições. Capa. Reprodução
Sua mais nova realização veio à luz recentemente, o livro História da Medicina em São Luís: médicos, enfermidades e instituições, em outra edição caprichada, lançado no Conselho Regional de Medicina, com relançamento previsto para o dia de abertura da Feira (2 de outubro). Um tema árido e para ela até então desconhecido foi tratado com leveza e novamente as artes da sua narrativa prendem o leitor.
Desta vez, a cidade aparece nas malhas das nossas enfermidades, suas formas e locais de tratamento e, principalmente, na constituição da comunidade médica, em levantamento rico e humanizado, que traz imagens vívidas de figuras emblemáticas, num escopo que vai do tradicional médico de família, percorrendo residências, atendendo nos consultórios ou, mais comumente, nas farmácias, à formação das primeiras especialidades, desenvolvendo-se com o predomínio dos hospitais e clínicas.
Sem dúvida, estes trabalhos escritos em fase avançada da vida por uma professora aposentada que influenciou gerações através da sala de aula, devem ser o motivo da homenagem, mas para todos que a conhecem, seus numerosos amigos, ex-alunos, antigos colegas de trabalho e admiradores, trata-se de algo maior e mais importante, a saudação a uma figura humana rara e sua vinculação à cidade onde sempre viveu.
*Flávio Reis é professor do Departamento de Sociologia e Antropologia da UFMA. Publicou Cenas marginais(2005, ed. do autor),Grupos políticos e estrutura oligárquica no Maranhão (2007, ed. do autor) eGuerrilhas(2012, Pitomba/ Vias de Fato).
Enquanto não sai oficialmente a programação completa da 9ª. Feira do Livro de São Luís, que volta à Praia Grande entre os próximos dias 2 a 11 de outubro, este blogue anuncia a participação de seu titular no evento. Medeio duas mesas:
5 (segunda), às 20h, “Uma historiadora ludovicense: a figura e a obra de Lourdinha Lacroix“, palestra do professoramigo Flávio Soares, no Auditório Lourdinha Lacroix (Casa do Maranhão) Mário Meirelles (Teatro João do Vale). Na #9FeliS, Maria de Lourdes Lauande Lacroix, professora, historiadora e patronesse desta edição da FeliS, lança História da Medicina em São Luís: Médicos, enfermidades e instituições, que tive o prazer e a honra de revisar; e
10 (sábado), às 17h, “Editoras alternativas: pedras no caminho do mercado“, debate-papo com Bruno Azevêdo (Pitomba!), Eduardo Lacerda (Patuá) e Bruno Brum, no Auditório Mário Meireles Espaço Café Literário Lourdinha Lacroix (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho).
Ilustra este post foto roubada da Talita Guimarães (ao centro, não lembro quem fez), após a mesa que, baita honra, dividi com Jotabê Medeiros na FeliS passada.
José Luís Carvalho dos Santos nasceu em Teresina, capital do vizinho Piauí, em 16 de abril de 1948. É saxofonista, clarinetista, professor de música e de língua portuguesa e escritor, autor de, entre outros, Cotidiano II [vencedor do Prêmio Literário Gonçalves Dias, da Secretaria de Estado da Cultura do Maranhão, em 2008], volume de contos e crônicas, e do romance Oceano. Está prestes a lançar Português: tirando dúvidas de quem tem, espécie de gramática prática.
Zé Luís é filho de Luís José dos Santos, “regente da banda de música da Polícia Militar do Piauí e professor de língua portuguesa da rede estadual”, que “chegou a ser diretor de uns dois ou três colégios por lá, é nome de rua, nome de praça”, e Adélia Carvalho Santos, que “cuidava dos afazeres domésticos, papai não admitia que mulher dele trabalhasse para ninguém, aquela mentalidade da época”.
Lembrando seu pai, falecido em 2010, aos 85 anos, ele comenta: “quando ele se reformou da Polícia Militar foi direto para a Escola Técnica fazer uma banda de música que até hoje existe por lá, ficou lá como regente, professor de língua portuguesa”.
O 47º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão é o mais velho de 13 irmãos, numa família em que todos desenvolveram aptidões musicais. Sua irmã, Beth Moreno, é considerada “a Marrom do Piauí”, em alusão à cantora maranhense Alcione, a “Marrom”. O mesmo gosto foi herdado pelos seis filhos de Zé Luís, entre os quais a cantora Virna Lisi, o pianista Carlinhos Carvalho e o violonista Luiz Jr. [Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 4 de agosto de 2013].
José Luís venceu os seguintes festivais: Festival de Música Popular do Estado do Piauí, promovido pela TV Clube, em 1975, com a música Reconstrução; V Encontro Nacional do Compositor de Samba, Riotur, 1975, com Melhor pra quem sorrir no final; Festival do Sesi/MA, 2011, com Samba e chorinho na Madre Deus; Festival de Música dos Correios, 2011, obtendo o primeiro lugar nas eliminatórias de São Luís, Belém e Belo Horizonte com a música No peito e na raça.
Durante a entrevista, realizada no Bar do Léo em uma tarde de sábado, Zé Luís estava acompanhado de Maria das Dores Lima de Sousa, mais conhecida como Dora, funcionária dos Correios, com quem vive há 15 anos. O técnico agrícola, professor e médico Jonas Eloy da Luz, organizador de festas de forró pé de serra, acompanhou parte da entrevista, marcada por encontros: também apareceu por lá o mergulhador Daniel, neto do lendário Bigode, saudoso proprietário do bar a que emprestou o apelido, que ainda resiste, sob administração de João José, na Praça das Flores, no Renascença.
Foto: Rivanio Almeida Santos
Quando você veio para o Maranhão? Cheguei aqui em 17 de dezembro de 1981, definitivamente para morar.
Você já tinha vindo antes? Tinha parentes? O que o trouxe em definitivo? Já, passava três, quatro, cinco dias de férias na minha juventude, mas estava bem afastado. Tinha alguns parentes. Eu era professor da então Escola Técnica Federal do Piauí e me transferiram para cá. Em uma viagem que eu fiz, um final de semana, gostei muito da cidade, “acho que venho morar aqui”, conversei com o diretor da Escola, passei um dia a mais, um dia útil, e ele disse: “se você quiser vir, já pode se considerar transferido”. E eu vim no intuito de ficar por uns três anos e estou até hoje [risos].
Na Escola você era professor de música? Não. Na Escola eu era professor de língua portuguesa. A música eu sempre pratiquei fora da Escola Técnica Federal. Lá em Teresina eu dava aula tanto na Escola Técnica Federal quanto nos colégios do Estado, mas sempre como professor de língua portuguesa.
Como era o ambiente musical de sua infância, em sua casa? Foi um ambiente muito musical. Meu pai além de tudo ainda tinha uma escola particular, ele mantinha em casa. Muitas pessoas estudavam lá, tanto música, quanto preparatório para exames de admissão, ele tinha uma escola registrada na Secretaria de Educação, a Escola Dom Pedro I, inclusive foi lá que eu dei minhas primeiras aulas.
Na Escola Técnica Federal do Maranhão você chegou a se aposentar como professor? Não, na Escola Técnica Federal, não. Ela mudou de nome, como todas, virou Cefet, Centro Federal de Educação Tecnológica, e depois Ifma, Instituto Federal de Educação Tecnológica. Eu me aposentei no último ano de Cefet, praticamente, em julho de 1998.
Em algum momento de sua vida você chegou a viver de música? Ou a música sempre foi um hobby, uma coisa paralela à questão da língua portuguesa? Sempre foi um hobby. Nunca vivi de música, assim, tocando na noite. Toquei na noite, criei um conjuntozinho com meus filhos, mas nós não vivemos daquilo, eu tinha meu salário, tanto federal como estadual, e depois quando eu vim para cá, São Luís me adotou, e eu era professor de quase todos os grandes cursinhos daqui, por exemplo o José Maria do Amaral, Meng, Anglo, colégios particulares como o Dom Bosco, uns se acabaram, o Dom Bosco ainda está aí. Eu era professor, ainda sou da rede estadual, através de concurso público. Não deu para viver de música, mas com minha escola eu devo reconhecer que ganhei um dinheirinho até bom, como professor de música da minha escola particular.
Você continua na ativa como professor de língua portuguesa? Sou professor de língua portuguesa da rede pública estadual. Ensino no bairro do Anjo da Guarda, no Vicente Maia.
Quem foram teus principais mestres? Quem te influenciou a ir para a música? De tanto passar, vendo meu pai dando aula de música, eu fui aprendendo naturalmente a ler, escrever e tal. Comecei a tocar clarinete bem cedo, e depois meu pai me tirou o clarinete, que não era mais para eu tocar, pois eu não estava indo bem no colégio.
Era o instrumento dele? Ele tocava que instrumento? Não. Ele era trompetista. Tocava trombone também muito bem, bombardino, mas o forte dele era o trompete.
Você aprendeu o clarinete autodidaticamente? Autodidaticamente, mas sempre acompanhado de uma partitura. eu aprendi a ler antes da prática do instrumento.
Pelo que você conta, seu pai tinha resistência em você seguir a carreira musical, mesmo ele sendo músico? Tinha uma certa resistência. Tanto que eu fui da Polícia Militar do Piauí, mas eu entrei lá através da Escola de Oficiais. Passei três anos e desisti, pois vi que não era minha vocação. Aí fui para o magistério.
Nessa tua passagem pela polícia, tinha alguma questão com música? Não, nenhuma questão. Era Academia Militar do Ceará. Eu era do Piauí, mas era custeado para estudar na Academia do Ceará, eu sairia de lá aspirante, mas nem cheguei a terminar o curso, desisti.
Você aprendeu clarinete autodidaticamente, seu grande mestre, ainda que involuntariamente foi seu pai. Quem era tua referência no clarinete? A figura que você via e achava que era uma influência positiva para você? Eu comecei cedo, mas meu pai me interrompeu os passos. Eu tinha uma admiração por um clarinetista chamado Abel Ferreira. Foi a pessoa que me fez voltar ao clarinete. No dia da morte dele, eu estava ouvindo rádio quando se deu a notícia de que ele havia falecido, o grande músico, compositor e maestro Abel Ferreira. A partir daquele momento eu disse para mim mesmo: vou me tornar um clarinetista. Ele foi minha referência. Eu fiquei tão comovido que prometi a mim mesmo me tornar um clarinetista. Peguei um clarinete da Escola Técnica Federal do Piauí e fui treinar diariamente. Terminava o expediente e eu ia treinar.
Que outros nomes foram referência para você? Para todos os clarinetistas: Paulo Moura e Severino Araújo.
Se ouviam muitos discos em sua casa? Papai era um romântico, ouvia muitos discos, não faltavam Waldick Soriano, as grandes orquestras, Ângela Maria fez parte de nosso acervo, Nubia Lafayette, Maysa, Dolores Duran, Cauby Peixoto, esse era o pessoal que circulava lá por casa, através de seus discos, suas gravações, suas músicas.
E rádio? Também se ouvia muito? Muito rádio! Aliás, na nossa rua a primeira casa a ter uma radiola [risos] foi a nossa, aquela do bracinho, com aquela agulha, a gente substituía quando gastava, foi a primeira casa a ter, antes da geladeira, por sinal [risos].
Quer dizer, a música era mais importante. Pois é. Meu pai como regente, ele acabou criando muitas bandas de colégios da rede pública estadual. Era um professor de música, muita gente que passou por ele e agradece isso, gente das forças armadas, aeronáutica, polícia, gente daqui mesmo, uma turma do Piauí que veio para cá. O pessoal de lá do Piauí costuma dividir a música em antes e depois de Luís Santos.
Ele é um personagem importante na história da música piauiense. Sim, na história da música piauiense. É nome de rua, nome de praça. Ainda está recebendo várias homenagens por lá. Faleceu em 2010, aos 85 anos. Compositor, muitas músicas gravadas.
Então você não teve escolha: herdou geneticamente tanto a coisa da música como da língua portuguesa. É. Foi uma condenação [risos]. Eu nasci condenado a ser músico. Pena que eu não consegui ser um músico formado. Já tentei três vezes. Sou da primeira turma de música da Universidade Federal do Piauí, da primeira turma da Universidade Federal do Maranhão, nunca terminei o curso, estou lá, passei naquele vestibular, embora sendo formado, fiz vestibular. Nem tranquei. Por que em seguida veio minha nomeação como professor do Estado, e chocavam os horários.
Você gosta de dar aulas? É o que eu fiz a vida inteira, vou fazer a vida inteira, sinto falta quando paro. Eu costumo dizer para meus alunos que meu maior prazer não era morrer em casa ou no hospital, mas dentro da sala de aula [risos]. Se um infarto me pegasse, que me pegasse dentro da sala de aula.
Além de músico e professor, você também é escritor. Sim. Eu sempre gostei de literatura. Quem colocou os primeiros livros, que posso chamar de literários nas minhas mãos, foi minha mãe, que era uma boa leitora. Ela colocou revistas, livros e tudo, aqueles personagens, As viagens de Gulliver [do escritor irlandês Johathan Swift], A volta ao mundo em 80 dias [do escritor francês Julio Verne], aquilo ficou, “um dia eu vou escrever um livro, um dia eu vou escrever um livro”. Hoje eu tenho vários livros publicados e tem um no prelo, para sair nos próximos dias.
Quantos livros? Uns seis ou sete. Esse agora é na área didática. Eu tanto faço na área didática, quanto na área artístico-literária. O título é Português: tirando dúvidas de quem tem. São mais de 300 dúvidas e, questões aleatórias, os colaboradores do livro são as pessoas que conversam comigo nas mesas de bar, ou elas acertam uma linguagem difícil, que pouca gente acerta, ou erram a linguagem que não deveriam errar. Tudo isso está no livro, claro que sem citar o nome de personagem nenhum.
Recentemente você ganhou um concurso literário. Sim, com Cotidiano II. Eu ganhei aqui e no Piauí, primeiro lá, depois aqui. É um volume de crônicas e contos. Tenho um romance publicado, Oceano, ambientando no Piauí. Tenho um inédito ambientado aqui, ainda não está terminado, chamado A hora fatal.
Se você fosse escolher um dos ofícios para dizer que se realiza mais em um ou outro, é possível escolher um? Dar aulas, a música ou a literatura? É meio difícil. O que está em terceiro plano mesmo é o ofício de escritor, requer uma dedicação maior, exclusiva, e eu ainda não posso me aposentar por que não preciso mais de dividendos, não: eu trabalho por que eu preciso trabalhar. Eu faço por prazer, mas também por obrigação.
Você acha que estes ofícios, em alguma medida, se ajudam, se atrapalham ou não têm nenhuma relação? Eles sempre se ajudam. Por que escrever não é uma coisa muito fácil, a pessoa tem que acreditar no que está escrevendo, até ter um estilo, um estilo próprio.
Em alguma medida você consegue separar o Zé Luís escritor, do Zé Luís professor do Zé Luís músico? Ou eles estão sempre misturados? Eu sou muito acusado de autobiográfico, de me meter nas obras que eu faço. Muita gente vê, por exemplo, o Marcos Alencar [personagem de Oceano], as pessoas veem o Zé Luís por trás dessa história. Eu procurei fugir de mim mesmo, são realmente figuras literárias de ficção, mas muita gente acha que eu me meto em minhas músicas e em minha literatura. Eu já paguei caro, já fui acusado de certas coisas que nem fiz, mas como eu escrevi, o pessoal “não, isso aí é ele mesmo” [risos].
Na sua escola de música seu filho Luiz Jr. acabou aprendendo como você aprendeu: de tanto ver e ouvir o pai ensinando. Que outros nomes de destaque passaram pelas suas mãos? Eu comecei a ensinar música aqui, foi onde eu comecei a levar a música a sério. Eu tocava violão, era um seresteiro, boêmio. Eu cheguei a ter alunos como Roberto Ricci [violonista], uma figura conhecidíssima aqui, o Marquinho Duailibe [cantor]. Muita gente passou pela Escola de Música Vinicius de Moraes, era em frente à Lusitana [supermercado] da [rua das] Cajazeiras, onde hoje é a Ponto Branco [loja de roupas]. Aquela casa parece que nasceu com uma vocação musical, hoje é da Selma Delago [cantora, compositora e empresária, proprietária da Ponto Branco].
Você falou em clarinete, violão e sabemos que você toca também saxofone. Você toca os quatro naipes de saxofone? E que outros instrumentos você toca? Eu toco sax alto, eu toco os outros, mas não vivo tocando, o tenor, tenor eu nem tenho em casa, tenho o soprano, gravei algumas músicas com o sax soprano.
Falando em gravar, em que discos podemos ler teu nome na ficha técnica? Tem um disco chamado Talentos da Educação, gravado em Fortaleza, eu estou lá. Tem também o V Encontro Nacional do Compositor de Samba, fui um dos vencedores. Inclusive ele tem aqui [informa que o Bar do Léo, onde acontece a entrevista, tem o disco em seu vasto acervo]. E vários outros discos.
E composições, você tem quantas? Mais de 200 músicas.
Quando você faz, faz letra e música? Por que imagino que, como entende de música, toca, é professor, e ao mesmo tempo é professor, dá aula de português, isso ajuda? Você faz letra e música? Tenho poucas parcerias, o resto tudo eu fiz letra e música. Meu percentual de música sem letra é muito pouco. A maioria tem letra. Tenho uma música conhecida no Nordeste inteiro, chamada Grito do professor, onde homenageio a classe e ela é o hino do Sindicato dos Professores do Ceará. Ela roda todo sábado em Fortaleza, num programa dos professores. No Piauí também. Não sei por que não roda aqui.
Além de instrumentista e compositor, você desenvolve outras habilidades na música? Os arranjos das músicas que eu faço são também meus. A não ser quando alguém quiser gravar, pode cuidar disso. Eu faço arranjo, fiz um curso básico de piano, dá para extrair partituras para outros instrumentos.
Você se considera mais saxofonista ou clarinetista? Eu sou mais clarinetista. Durante muito tempo o saxofone foi visto como consequência do clarinete. O pai do sax é o clarinete. Na Europa, um grande músico cujo nome não lembro agora, recomendou que quem quisesse aprender saxofone que começasse pelo clarinete. Coisa que já dizíamos aqui há tempos. Quem toca clarinete, quando pega o sax, é questão de semana para aprender a tocar. O clarinete é um instrumento dificílimo.
Qual a sua percepção sobre Luiz Jr., seu filho, um virtuose do violão, uma figura reconhecida? Como você percebe o papel dele na cena chorística, musical do estado? Quando Júnior tinha mais ou menos 11 para 12 anos de idade ele, na verdade, era um cantor mirim. Aquela música do Jessé [o cantor José Florentino dos Santos], [cantarola trecho de Solidão de amigos, de Eunice Barbosa e Mário Maranhão] “Lenha na fogueira”, ele disse que ia cantar na escola. “Eu queria que o senhor fosse me acompanhar”. Eu tinha três provas para corrigir, eu disse assim: “eu vou pegar o violão, vou te ensinar uns acordes e você mesmo se acompanha”. Ensinei três acordes, fui dar aula, quando eu voltei, ele estava realmente se acompanhando, eu acrescentei mais um acorde, pronto, foi a única aula que eu dei para ele. Ali eu percebi a aptidão dele para o violão, percebi que ele seria um grande violonista. Eu disse para ele que ele não podia deixar a escola, fiz como meu pai fez. Se ele não demonstrasse desenvolvimento dos dois lados eu teria que tomar o violão dele. Só que ele só queria saber de música, deu um trabalhão na escola, nunca terminava o ensino médio, professor já olhava com vontade de reprovar, ele tinha preguiça de fazer os trabalhos, mas o violão crescendo. Um dia eu cheguei para ele e perguntei: “mas o que é mesmo que você quer ser?”. E ele: “papai, eu só quero ser músico”. E eu disse: “olha, uma coisa é você ser músico, outra coisa é você viver de música. Antes você tem que pelo menos terminar esse ensino médio”. Mas foi o que me disse que queria mesmo ser músico, assumiu isso e eu disse para ele todas as dificuldades. Júnior é o meu orgulho! Eu me sinto satisfeito em ele representar tão bem o Maranhão onde ele vai. Por acaso eu ainda estava no Piauí quando ele nasceu, ele nasceu lá mas é maranhense. Você é sua cultura: Júnior é maranhense.
Você se considera um chorão? Sim. Aliás, eu sou chorão inclusive literalmente [risos]. Pra eu chorar é daqui pra li. Eu sou meio bruto também, hoje não, mas eu tenho o coração muito mole, qualquer coisa, acabou.