Lembranças da infância com bom humor

Antonio Prata é um de nossos mais charmosos cronistas em atividade, e aqui poderia estar me referindo ao homem, mas falo da obra. Com elegância, idem, ele ocupa uma coluna dominical na Folha de S. Paulo, dono de um estilo fino, inconfundível.

Nu, de botas [Companhia das Letras, 2013, 144p., leia a primeira crônica], seu novo livro, reúne divertidas histórias de sua infância, numa mescla de memória e ficção – não é possível que apenas um moleque tenha sido agraciado com tantas experiências hilariantes como as que povoam as páginas do livro.

As primeiras descobertas, as brincadeiras e os brinquedos, a vizinhança num bairro de classe média em São Paulo nos anos 1980, a admiração pelo palhaço Bozo, o maior astro da televisão de então na inocente opinião dos petizes, até a descoberta das revistas de sacanagem e do amor, não necessariamente nessa ordem. Nada fica de fora do crivo memorialístico e do talento de ficcionista do escritor, o leitor não suspeita onde termina um e começa o outro, tão habilidoso é o autor na condução dos enredos – para quem não sabe, por exemplo, Antonio Prata integrou o elenco de roteiristas da novela Avenida Brasil.

Embora as histórias sejam independentes entre si, a coleção de crônicas pode ser encarada como um romance, já que o leitor não vai conseguir parar de rir e consequentemente desgrudar do livro antes de terminá-lo. Não há um rigor por lê-las na ordem em que aparecem, mas como as próprias experiências infantis, cada leitor se relacionará com os textos de maneira diferente, uns certamente voltando páginas para reler e garantir ainda mais risadas.

Com show em clima de confraternização, Gildomar Marinho encerra temporada 2013

[release]

Show mesclará música e poesia no Bar do Ferro Velho, no Benfica, em Fortaleza/CE

O tempo das festas de fim de ano é um tempo de reciclagem. A agenda não comporta tantas confraternizações. Inspirado no período, o músico Gildomar Marinho resolveu inventar e apostar em mais uma. Ele apresenta o show O futuro tem o coração antigo no Bar do Ferro Velho (Rua Confúcio Pamplona, 352, Benfica, Fortaleza/CE) nesta quinta-feira (26), às 20h, com entrada franca.

O nome do espetáculo o músico tirou do título do livro novo de Celso Borges, recém-lançado em São Luís do Maranhão. “Celso é talvez o maior poeta em atividade em São Luís, dono de uma poesia visceral, sem nunca perder a ternura, e só faz livros bonitos. Depois da experiência de unir música e poesia em uma trilogia [A posição da poesia é oposição, composta pelos livros-cds XXI (2000), Música (2006) e Belle Epoque (2010)], este une poesia e fotografia. Tive a honra de tê-lo como parceiro em Pedra de Cantaria”, explica Gildomar Marinho, referindo-se à participação que o poeta fez em seu segundo disco, quando colocou voz no poema Vazio [de Celso Borges], incidental de Claustrofobia, faixa do cd.

O futuro tem o coração antigo é o reencontro do poeta com outra São Luís, cidade em que nasceu e da qual vivia distante”, continua Gildomar. “Usar este título para este espetáculo é uma forma de homenagear e também de mostrar minha relação com São Luís, onde vivi, onde tenho parceiros e que sempre estou visitando para me impregnar de sua cultura popular, de sua beleza arquitetônica e matar as saudades”. O resultado é ouvido em faixas como É de Reis, tambor de crioula de sua autoria, gravado em Tocantes, o terceiro disco, lançado em 2013, indicado a algumas categorias do Prêmio Universidade FM (de São Luís/MA) este ano.

Destaque – O local escolhido para a realização do show é um espetáculo à parte. “O Bar do Ferro Velho tem este nome por que é um bar à noite, mas de dia, lá funciona um ferro velho. Além desse detalhe, o destaque fica por conta do cardápio, preparado por dona Leide, esposa do Seu Paulo, o proprietário do ferro velho”, convida Gildomar. O leitor e a leitora imaginem o que é tudo isso somado à boa música dele, aos poemas de Celso Borges que serão lidos durante o espetáculo e ao que outros artistas trarão. “Neste espetáculo, eu, na verdade, serei uma espécie de anfitrião, de mestre de cerimônias. Cantarei músicas de meus três discos – incluindo Olho de Boi, o primeiro, de 2009 –, lerei poemas de Celso Borges, mas franquearei o palco a artistas e amigos que aparecerem por lá e se sentirem à vontade para participar”.

Projetos – Em 2014 Gildomar Marinho pretende fazer shows de lançamento de Tocantes em São Luís, Alcântara e Imperatriz, no Maranhão, além de entrar em estúdio para gravar seu quarto disco, cujo título provisório é Mar do Gil, um trocadilho com seu nome e uma homenagem ao Pindaré que banhou sua infância.

Livro – Interessados em adquirir O futuro tem o coração antigo, novo livro de Celso Borges, podem fazê-lo pelos sites da Editora Pitomba, do livro (onde é possível folhear virtualmente algumas páginas, além de ouvir trechos) e/ou pelo e-mail cbpoema@uol.com.br. Tocantes, novo disco de Gildomar Marinho, pode ser adquirido na ocasião.

Serviço

O quê: O futuro tem o coração antigo, show especial de fim de ano e confraternização
Quem: Gildomar Marinho, com participações especiais
Onde: Bar do Ferro Velho (Rua Confúcio Pamplona, 352, Benfica, Fortaleza/CE)
Quando: 26 de dezembro (quinta-feira), às 20h
Quanto: grátis

Pitomba vai botar a banca no Sebo no Chão

A banca da Pitomba

Depois do sucesso do lançamento coletivo de ontem (11) no Chico Discos, a editora Pitomba vai botar a banca no Sebo no Chão: domingo (15), a partir das 19h, na praça da Igreja do Cohatrac, Bruno Azevêdo, Celso Borges, Jorgeana Braga e Reuben da Cunha Rocha autografam seus novos livros, respectivamente Baratão 66, O futuro tem o coração antigo, A casa do sentido vermelho e As aventuras de Cavalodada em + realidades q canais de tv.

Na ocasião haverá ainda o tradicional comércio de livros organizado por Diego Pires, exibição do filme Luises – Solrealismo maranhense, do coletivo Éguas, além de apresentações musicais de Acsa Serafim, Sfanio Mesquita e Tammys Loyola.

No Guesa Errante (Jornal Pequeno) de sábado passado (7) escrevi sobre As aventuras de Cavalodada em + realidades q canais de tv. Continue Lendo “Pitomba vai botar a banca no Sebo no Chão”

Pitomba neles!

POR FLÁVIO REIS

A primeira vez que ouvi falar em Pitomba como nome de uma editora foi mais ou menos há cinco anos. Era uma reunião entre amigos, inclusive livreiros, sobre a organização de uma editora e Bruno Azevêdo, que tinha ideia semelhante, foi contatado, aparecendo já com a sugestão do nome Pitomba, que causou estranheza geral. Achei até bom para os textos que ele fazia, bastante influenciados pela linguagem dos quadrinhos, mas ruim para os livros que tínhamos em mente publicar de imediato, sobre São Luís e o Maranhão. O projeto da editora “séria”, entretanto, gorou muito cedo. A obsessão de Bruno com a Pitomba, felizmente, não.

Conseguiu, então, um logotipo canalha para o selo, uma pitomba que é também uma bomba, expressando de forma bem inteligente a dupla face da coisa, e começou a publicar livros e outros materiais. Os livros sempre trazem seis tópicos colocados como manifesto, programa ou algo similar, ou talvez apenas uma grande tiração com isso tudo, afirmando que a palavra “não é palavra, antes de ser ouvida” e, se há de ser dito, “que seja dito com cacófatos e microfonias, pra que, assim, quem ouça também diga” (…) “porque a informação não se pertence e a posse de ter é a posse de dar e é essa posse que reivindicamos”. No resumo, “porque para além do caroço, que é quase tudo, existe a casca, que se quebra, e existe a polpa, que se quer: pitomba!” Sacou?

Pois é, muita gente sempre torceu o nariz pra esse “manifesto” da Pitomba, mas ele continuou lá. Nesse tempo ainda inicial, Celso Borges voltava de São Paulo, após vinte anos, enquanto Reuben da Cunha Rocha fazia o caminho inverso, não sem antes eles se cruzarem, resultando na invenção de uma revista sem periodicidade ou critério de classificação. Decidiram embarcar no nome e na tirada do logotipo e batizaram a nova cria com o mesmo nome da editora.

Nascia a Pitomba, uma revista fora do sério, pra provocar e avacalhar, na trilha da literatura, das artes, mas num clima underground, de liberdade e doideira, que aqui sempre é difícil. Nada muito sofisticado, apesar da elaborada e agressiva diagramação, nem de bairrismos, nordestinismos e outras baboseiras, tão comuns em publicações regionais, apesar de trazer em seu cerne um princípio corrosivo que se volta diretamente contra a antiga cultura ateniense e contra a exaltação publicitária da cultura popular.

Material cru, pra saborear com sangue: poesia variada (da boa e da ruim, quem sou eu, hein), traduções, frases-bomba, desenhos malucos, fotografias, quadrinhos, novelas, fotonovelas, pornografia variada, sátira política, crítica cultural e o que mais pintar. Em quase três anos e apenas cinco números lançados, acredito que este seja um caso muito estranho em que nem os editores nem os (poucos) leitores parecem saber ao certo do que trata mesmo a revista e até o que esperar dela. Justamente aí, no entanto, reside o melhor da coisa. Existe uma diferença entre a editora e a revista, a primeira saiu da cabeça de Bruno e é dirigida por ele, a segunda, não. Mas uma é a cara da outra na disposição anárquica, no traço de caravana.

Pitomba não chegou a se configurar como “movimento” ou “coletivo”, é bem menos complicada, nem tem objetivo claro ou programa é, antes, fruto de uma f(r)icção de individualismos, que se estimulam e energizam no coletivo. Talvez se resuma mesmo apenas a um “estado de espírito”, uma caravana aberta aos acasos, onde ressoa a necessidade urgente de acelerar a destruição de determinadas ideias canonizadas sobre cultura e literatura, num lugar onde estes termos tornaram-se sinônimos de tombamento,  de exaltação vazia. Para isto, apostaram decisivamente na estratégia do atrito. Como disse Celso em entrevista: “eu acho que tem que manter o atrito, é uma característica da revista. Isso a gente não tem que abrir mão, nem é essa coisa do atrito, é a coisa da irritação mesmo”.

Na cultura da afirmação e do elogio em que vivemos, mergulhados na sedação da mediocridade, a estranheza e o incômodo que a revista pode causar se traduziu apenas no silêncio, no desconhecimento puro e simples. Nada de espantar, Narciso só repara nos seus próprios movimentos e na situação atual da cidade, quatrocentona em estado terminal, não consegue esboçar mais nenhuma reação senão aos clichês do próprio espetáculo.

Entretanto, tal reação (ou ausência de) nunca mudou nada na determinação dos editores, na lógica radical explicitada por Reuben: “nós não temos apoio, portanto faremos”. É um caso de combinação, de articulação entre o individual e o coletivo, de pulsações que se encontram na mesma pegada. Sem a diagramação, a anarquia e a putaria de Bruno, a revista perderia sua linguagem mais atual e desconcertante; sem Celso, a cara da poesia, sua capacidade de misturar códigos e, principalmente, a disposição de juntar, a revista sequer existiria; e sem Reuben, perderia na crítica cultural, feita diretamente ou através de traduções que são também finas transposições de situações, reflexões, e na experimentação, ou seja, perderia em densidade e aventura, risco.

No geral, um não gosta de poesia, enquanto outro não vive sem ela, nem se sente à vontade com os quadrinhos e outro transita mais facilmente entre estas linguagens; um gosta de brega, outro é roqueiro de raiz, mas aberto, ouve de tudo, enquanto outro anda garimpando todo tipo de experimentalismo e doidice sonora. No fundo, eles terminam se encontrando na eletricidade do rock e na firme disposição em embaralhar e ampliar o escopo do que seja literatura, sem nenhuma preocupação com convenções, prêmios, público, nada.

Pra fazer a revista, não é fácil, é uma briga. Segundo o depoimento dado em entrevista preciosa ao Vias de Fato, feita por Zema Ribeiro e Igor de Sousa, Celso precisa tocaiar Bruno e “hostilizá-lo” para a coisa começar a sair do papel e das ideias para o computador. Recolher o material nem é tanto o problema quanto traduzir isso tudo em forma gráfica, em diagramação. O processo costuma ser mais fácil quando está presente o ponto de união entre os extremos, Reuben. Mas ele mora longe, tornando o lance mais complicado. Foi o que vimos neste segundo semestre. Celso, envolvido com várias coisas, não obteve êxito na tocaia e Bruno conseguiu escapar, colocando todos os esforços no Isabel Comics! ano II, no Baratão 66 e outras iniciativas da editora Pitomba. Era muito difícil mesmo a missão de Celso, mas agora ele terá a ajuda de Reuben para tocaiar e prender Bruno, o passo decisivo para a elaboração da Pitomba.

Não tem a revista no final do ano (e que ano intenso!), mas tem uma festa de arromba da editora nesta quarta 11/12, no QG de quase todas as experiências de doideira que tem rolado nos últimos anos por aqui, o Chico Discos. É a Pitomba espocando pra valer, lançando de uma tacada mais quatro publicações de seu já variado catálogo, que até agora comporta quadrinhos, “novela trezoitão”, poesia, ensaios, “romance festifud”, e experiências para além de qualquer classificação.

É o caso do livro de Reuben, As Aventuras de Cavalodada em + Realidades Q Canais de TV, o mais louco dos novos lançamentos.  Manipulando principalmente o aforismo e outras formas fragmentárias, como o anúncio, a citação, a colagem, no ritmo da escrita sintética das redes, saturada de visualização e sonorização, o livro destila veneno pra todo lado, numa percepção ácida e virulenta da cultura do espetáculo e da brutalização do cotidiano. Respira e transpira todo o clima de insurreição cultural que já se insinua claramente em certos círculos da moçada mais criativa das cidades.

Em movimentos rápidos, toca em temas como circulação e apropriação dos espaços urbanos, através de figuras tão inesperadas como o mijador de rua e o skatista; a crise dos sistemas de signos, através do pixador (assim mesmo), “cavalo das ruas”, o anunciador do “estado da escrita na realidade onde vivemos”; ou as relações entre diamba e bruxaria, vale dizer, entre a maconha e experimento de sensações, a questão crucial da alteração da percepção num mundo de sobrecarga visual e atrofia de sensibilidades.

As Aventuras de Cavalodada estão carregadas da experiência urbana contemporânea, da redefinição da relação com o espaço, buscando discernir a “camuflagem superposta da comunicação das ruas”. Tenta mesmo fundir novamente cidade e literatura, na esteira dos modernistas mais radicais, e neste sentido é texto complexo, um grito contra o “pensamento pobre” e o “pensamento conveniente”. Pode até ser lido como pura curtição, mas, no fundo, é de leitura densa, na leveza enganosa da colagem de curiosidades ou reflexões ditas de maneira extemporânea.

Depois de alguns trabalhos publicados, entre eles o incrível O Monstro Souza, seguramente um dos retratos mais cruéis e cômicos já feitos da cidade de São Luís, realismo fantástico do século XXI, Bruno traz à luz o Baratão 66 (ou 69, depende da hora), uma novela em quadrinhos, misturando erotismo, sátira e crítica de costumes, ao seu estilo. Agora, no entanto, aparece mais afiado, com o controle maior do ritmo e do entrelaçamento das partes da narrativa, feita em camadas que se revelam aos poucos, como um saco infindável de surpresas.

 Este é um traço em que ele vem caprichando, principalmente com a experiência de A Intrusa, novela erótica em 12 capítulos, publicada originalmente como folhetim no jornal alternativo mensal Vias de Fato e também já disponível em forma de livro pela Pitomba. O enredo, desta vez, se desenrola numa casa que, durante o dia, funciona para depilação, cuja especialidade são os desenhos nos pelos pubianos, o Baratão 66; e, durante a noite, transforma-se num puteiro, o Baratão 69, onde se aceita tudo, menos “fazer cu fiado”.

Bruno fala da sacanagem e dos puteiros como traço identitário do maranhense e satiriza um futuro reconhecimento como patrimônio da cultura, através da instalação da Casa de Cultura Baratão 66. A trama é cheia de surpresas, envolvendo Francinete, a dona do bordel e seus ataques com as lembranças do marido, suas filhas e a ambição de deixarem a vida de puta, o porteiro apaixonado pelo padre, mas com obrigação de comer a velha matrona, o representante da Piu-Piu, franquia de desenho de boceta e o governador, sonho de dez entre dez putas do Baratão que almejam algum golpe na dureza da vida.

A edição é cuidadosa e os desenhos de Luciano Irrthum são um ponto alto, onde afinal se materializa todo o tom de excesso da trama. O livro saiu com duas capas diferentes, à escolha do freguês e é repleto de detalhes gráficos. Tem ainda um posfácio escrito por quem entende do riscado. Enfim, uma beleza, presentão de natal, “quadrinhos para toda a família!”.

O pacote traz também o livro de Celso Borges, O futuro tem o coração antigo, uma experiência com “poemas fotográficos” e imagens do centro antigo, em fotografias tiradas por alunos do Curso Técnico em Artes Visuais do IFMA, utilizando um dos métodos mais antigos, sem lentes, com câmeras feitas à mão, com latas ou caixas, um furo em um dos lados e um pedaço de filme no outro. É o método pin hole, criando imagens não muito nítidas e que podem sofrer deformações ou alterações variadas, dependendo do formato das caixas e do tempo de exposição do filme à luz.

O resultado é um encontro conflituoso do poeta consigo mesmo e com a cidade, numa superposição de suas metamorfoses, em que os tempos se embaralham e a poesia tornada palavra-imagem e palavra-som (o trabalho se completa com o vídeo, feito em colaboração com Beto Matuck) se volta sem melancolia ou saudosismo, mas não sem saudade, para uma cidade que, numa palavra, simplesmente morreu, não existe mais. A edição, como sempre nos trabalhos de Celso, é caprichada, o texto todo datilografado numa máquina Hermes, criando um detalhe estético forte associado à questão do tempo, papel de primeira, textura em preto e branco, formato retangular, capa dura. Um luxo.

Tem ainda um romance que é a estreia de Jorgeana Braga na prosa, A Casa do Sentido Vermelho, ela que tem um livro de poesia publicado na Pitomba. Este ainda não li, vou adquirir no lançamento, mas já comecei a gostar pela capa, sem contar o que ouvi falar acerca da beleza de sua escrita. A conferir.

Enfim, com site na rede, um cartel de cerca de dez publicações (já com material fora de catálogo), uma caixa de madeira novinha pra venda ambulante e, principalmente, muita irreverência e disposição para chutar o pau da barraca, a Pitomba está em festa e justa celebração, literalmente “cuspindo os caroços”. Editora, revista, espaço de criação, base de lançamento… É Pitomba neles!

Uma história de amor, sexo e morte

Estreia de Marcelino Freire na “prosa longa” – para usar uma expressão do próprio autor – tem tons de literatura policial

POR ZEMA RIBEIRO
ESPECIAL PARA O IMPARCIAL

O próprio Marcelino Freire referiu-se a este seu Nossos ossos [Record, 2013, 120 p.] como sua estreia na prosa longa. Pernambucano radicado em São Paulo, ele é um dos maiores contistas e agitadores literários do país, inventor da Balada Literária, que anualmente agita o cenário das letras em São Paulo, desde 2006, ano em que venceu o prêmio Jabuti por Contos Negreiros.

Nessa nova empreitada, o escritor mantém o fôlego, o frescor, a agilidade e o bom humor de suas prosas curtas, que acabaram por torná-lo isto que já dissemos: um dos grandes de nossa literatura.

O romance conta a história de Heleno de Gusmão, dramaturgo homossexual que se vê envolvido em um intrigante enredo quando o seu boy morreu, evocando a cantiga popular do interior do Piauí usada de epígrafe no livro. Entre capitais – São Paulo e Recife – e interiores – a cidade de Pedra, no agreste pernambucano, o povoado Poço do Boi tornado cidade na ficção – Marcelino Freire constrói sua grande narrativa policial.

Cícero, o boy, não tinha ninguém na cidade grande e Heleno dá uma de herói ao contratar Lourenço – o nome do motorista é tomado emprestado de Lourenço Mutarelli, que desenhou a capa – para levar os restos mortais à família, garantindo alguma dignidade a quem tanto lhe havia dado alegria em vida. Tudo narrado na prosa ligeira e elegante de Marcelino Freire, de frases curtas e certeiras, como as facadas mortais que acertaram o boy na altura do peito.

O livro é ambientado na noite e vida paulistanas e povoado pelas lembranças de Heleno, nascido em Sertânia, por acaso a cidade natal de Marcelino Freire, criador que guarda muitas semelhanças com a criatura, embora Nossos ossos não seja, necessariamente, uma autobiografia.

[O Imparcial, ontem]

De quatro é mais gostoso

A lua, a data e o catálogo da Pitomba são crescentes. 11/12/13. Noite. Chico Discos. Quatro autores, Bruno Azevêdo (Baratão 66, com Luciano Irrthum), Celso Borges (O futuro tem o coração antigo), Jorgeana Braga (A casa do sentido vermelho) e Reuben da Cunha Rocha (As aventuras de Cavalodada em + realidades q canais de tv), autografam seus novos livros, a estreia, no caso do último.

Se liguem: dia onze, mês doze, ano treze. Sacaram? “O gato preto cruzou a estrada/ passou por debaixo da escada”. Antes isso que ficar em casa nessa data. Pra quem não for, nunca a frase “azar o seu” fez tanto sentido.

Apareçam! Encontrem conhecidos e desconhecidos. Conversem. Bebam. Tirem gosto com queijo e azeitona. E principalmente: comprem e leiam os livros, que estão lindos por fora e por dentro.

Mais sobre cada um digo depois (sobre o de Celso eu e Flávio Reis, autor também publicado pela Pitomba, já dissemos). De aperitivo, deixo-lhes as capas.

Esse sai com duas capas. A outra vocês conhecerão no lançamento
Poesia de Celso Borges vem embalada em registro fotográfico da cidade fora do convencional
Segundo livro da poeta, que estreia no romance
Entre a poesia e o manifesto, a estreia de Reuben da Cunha Rocha

Narciso em estado terminal

FLÁVIO REIS*

Um trabalho de Celso Borges é sempre promessa de surpresas. Poeta visceral, afeito a experimentações e radicalismos, há muito deixou de fazer propriamente livros, no sentido mais comum do termo. Apresenta, antes, objetos de arte. Foi o que vimos no esmerado design dos livros-cds que compõem a trilogia A Posição da Poesia é OposiçãoXXI, Música e Belle Epoque. O livro se completa noutra coisa, a poesia é lançada furiosamente ao encontro de sons, vozes, colagens, em meio a um grafismo elaborado, num jogo de cores, desenhos, fotografias, apropriações, citações, que são o invólucro para os petardos que estouram em nossas lentes, ouvidos e mentes.

O Futuro tem o Coração Antigo, lançado recentemente no Cine Roxy, é a nova e desconcertante iguaria desse alquimista da palavra, que vem misturando poesia com música, artes plásticas, cinema, fotografia, num esforço sempre múltiplo, coletivo. O jogo de Celso no entrelaçamento das palavras com as imagens e os sons ganha mais um capítulo, com duas faces.

De um lado, poemas curtos, como um click, chamados por ele mesmo de fotográficos, tendo ao fundo fotografias tiradas por alunos de um curso técnico do IFMA, coordenado pelo professor Eduardo Cordeiro. As fotos utilizam uma técnica antiga, criando imagens meio embaçadas, disformes, distantes, em uma palavra, fantasmagóricas.

De outro, a transposição dos poemas e fotografias para o formato de vídeo, num filme realizado em parceria com Beto Matuk, onde a experiência alcança sua maior complexidade, com a inclusão dos sons, a ampliação das imagens e a duração, revelando de maneira mais intensa todo o estranhamento que está na base da construção. Estamos falando de um momento de inflexão, em que o poeta olha sua longa relação/obsessão com a cidade sem saudosismo, somos logo avisados na abertura do livro/vídeo, mas como um “exercício de ternura” na “carne da cidade futura”.

A combinação aponta, no fundo, para um mergulho necessário e urgente nas sombras do passado. Não o passado da memória narcísica, inerte, perdido nos devaneios da autoglorificação, mas aquele turvo, borrado, sujo, que teimamos em recalcar na imagem dos casarões. O objetivo do salto é de estabelecer um novo encontro com o passado, sem as fantasmagorias que nos impedem de olhar de frente os olhos do futuro.

Celso carregou na vida a paixão da cidade natal, que demarca em três momentos bem distintos: da infância até os 30, quando criou a sua experiência de São Luís e inscreveu a cidade em si; depois, os vinte anos seguintes passados em São Paulo, quando a cidade ganhou os contornos da memória; por fim, a volta em 2009 e o encontro com uma “terceira cidade”, quando os alicerces da memória são então sacudidos pela crueza de uma realidade na qual “cercas elétricas se engalfinham sobre os muros” e o cenário é de destruição e medo.

O livro/vídeo é sobre este terceiro momento, mas se constrói de maneira que não aparece apenas como presente ou simples evocação do passado, e sim como fantasmagoria, uma projeção do passado no presente.  Compõe-se de dois poemas, o poema-título e A Terceira Cidade.

No primeiro, um bordão forte, “o futuro tem o coração antigo”, serve de base para a artilharia diversificada de Celso, alvejando lugares, figuras, situações, de ontem e de hoje, embaralhando as coisas e os tempos, enquanto “os azulejos portugueses encardidos nos observam do alto de sua nobreza rachada”. É a certeza de que “o futuro tem o coração antigo porque a fonte do ribeirão nunca vai secar e os condomínios do renascença morrem de medo”, “porque gullar ainda não escreveu o poema sujo e gonçalves dias não conheceu sabiás empalhados”, “porque o maria celeste ainda queima no cais da sagração” e, principalmente, “porque faustina faustina faustina”, eco que se perde no oco do tempo.

Em pequenos flashs são provocados nomes e imagens emblemáticas da nossa história. Uma história nebulosa, onde o fundador é uma miragem e “ninguém sabe se bequimão é uma força ou uma farsa na forca”. Celso trabalha à vontade em meio aos pedaços, pois sabe que “o futuro tem o coração antigo porque precisamos continuar bebendo na fonte de marcel duchamp”.

No poema A Terceira Cidade, mais longo e propriamente na forma de “poema fotográfico”, vemos todo o impacto da antiga cidade dos azulejos violentada num progresso devastador, mas ao mesmo tempo o anúncio do rompimento do casulo em que a cidade se manteve até então. A abertura não deixa dúvida, “Ó, ilhéus, abris os portais do futuro para o renascimento do maravilhoso”. O recomeço indica que o tempo passou, pois “alguma coisa já não é mais a mesma”. O enredo é simples: “era uma vez uma cidade e a cidade já era”.

Desfilam a devastação e a violência vivenciadas hoje nos quatro cantos da Ilha. São trechos quase sempre estarrecedores, mesmo em sua acidez crítica, expondo as muitas fraturas de uma cidade perdida em meio a ruas engolidas por buracos, a destruição ambiental e a lenta agonia dos casarões, quando “o berro mudo dos cupins devora a pele podre da parede do prédio”, enquanto “uma boca de lobo uiva na camboa”, “jegues abandonados vagueiam em procissão pelas estradas da maioba” e “centenas de carros rosnam na jerônimo de albuquerque”.

Superposição de cenas cotidianas: “ratos mascam chiclets num bueiro de vinhais. baratas brincam de esconde-esconde no calçadão da rua grande. impossível fotografar”. A cidade atulhada de carros, retratados de maneira turva, entupindo as vielas entre os casarões perdidos no tempo, mergulhados na sujeira e no abandono, por trás das placas cheias de cifrões com as promessas nunca cumpridas de reconstituição. Tudo parece distante e, no fundo, totalmente próximo, incômodo. Fantasmas que nos paralisam mesmo quando agonizam.

Momento de morrer, momento de renascer, “a mais bela flor do mundo agoniza. osso duro de morrer”. É também o momento do encontro entre as três cidades, entre as três eras, como um ajuste de contas. Onde se esconde São Luís? Onde se encontra São Luís? Em que visões, em que memórias, em quais sonhos? Terá a antiga cidade dos azulejos virado um grande pesadelo? Ou este foi sempre seu retrato mais fiel, sua imagem mais profunda? Ciente da urgência, Celso sabe que “chega uma hora em que chegou a hora”, “uma hora em que os gatos latem os cães piam e os bambis atiram pra matar”. Para São Luís e os ludovicenses essa hora parece soar. “O centro da cidade é um ciclope se mirando no espelho: narciso em estado terminal”.

Submetida a um processo desordenado e brutal de expansão, sem a resolução mínima de problemas estruturais seculares, chegando mesmo ao ponto de explosão, a cidade afunda a olhos vistos, sob a complacência de uma elite mesquinha apodrecida. “fidumaséguas!” berra o poeta. O fundo do poço em que nos encontramos parece o momento final da cidade na lenda da serpente, evocada no fecho do poema. A hora mítica do despertar, da destruição das fantasmagorias que dominam a nossa cultura. Momento possível, atual, de quebra da adoração vazia dos símbolos em que estamos atolados, seja da cultura ateniense, da cultura popular ou da união hipócrita de ambas executada sob o comando da mídia, em prol de uma apropriação criativa da própria história, pela invenção, pela negação desse futuro perverso vendido como redenção, onde o “turista de pacote clica a tanga da brincante do boizinho de butique”.

Uma obra em processo, que não tem programa, roteiro ou atores definidos, nem precisa, pois começa a se desenhar anarquicamente em experiências descontínuas e dispersas neste momento de cruzamento de gerações, traduzindo-se em movimentações variadas que podem confluir de maneira a criar fendas nas visões canônicas da cultura e da identidade ludovicenses. Nada mais adequado para celebrar a urgência deste “espírito destrutivo”, aliás, que a própria dedicatória feita por Celso naquela noite. Em sua maneira direta, diz apenas: “Chega de boferagem. Viva a fúria!”.

*Flávio Reis é professor do Departamento de Sociologia e Antropologia da UFMA, autor de Cenas Marginais (2005), Grupos políticos e estrutura oligárquica no Maranhão (2007) e Guerrilhas (2012).

O reencontro do poeta com a cidade

Não que poesia careça de explicação, não é disso que estou falando, mas a melhor definição de seu novo livro é o próprio Celso Borges quem dá. Os versos impressos na contracapa – e que o abrem – anunciam: “o futuro tem o coração antigo/ não é um livro saudosista/ mas um exercício de ternura/ a pele da flor na carne da cidade futura”.

O título do livro é mantra que martela a cabeça do poeta, que já havia usado a frase do italiano Carlo Levi como epígrafe em XXI (2000), seu primeiro livro-disco, que inaugura a trilogia A posição da poesia é oposição, continuada com Música (2006) e completada com Belle Epoque (2010).

O futuro tem o coração antigo [Pitomba, 2013] é um livro de poemas curtos, que marcam o reencontro de Celso Borges com sua São Luís natal, após 20 anos de São Paulo – ele voltou a morar aqui em 2009 e em rápida apresentação, divide sua existência em três blocos, as três cidades de São Luís em que viveu: a primeira entre 1959 e 1989, a segunda, a mudança para São Paulo, e a terceira o retorno, período em que foram concebidos os poemas deste novo livro.

Celso Borges não é saudosista, “antigamente era antigamente e era muito pior”, já disse num poema [A saudade tem seus dias contados, que fecha Belle Epoque]. Mas em tempos de instagram e toda tecnologia do mundo recorre a recursos, digamos, rudimentares, para compor seu novo livro: O futuro tem o coração antigo é datilografado e ilustrado por retratos da cidade realizados através da técnica pin hole. Sua poesia, sincera e marcante, prescinde de ferramentas e técnicas. Exige, sim, seu coração de homem antenado com a realidade, batendo no compasso do ofício pelo qual foi escolhido – poeta!

Em preto e branco juntam-se os poemas de Celso Borges às fotografias dos alunos de Eduardo Cordeiro no IFMA, sob o design de Luiza de Carli, que já havia materializado ideia do poeta na revista Pitomba, de que é um dos editores.

Seu reencontro com a cidade – sem mágoas, expectativas ou juízos de valor – não faz do livro obra para iniciados – ou faz? Qualquer um que tenha nascido, vivido, passado (ainda que rapidamente) ou ouvido falar de São Luís poderá apreciá-lo – como à cidade, sob algum ângulo. E mesmo quem não conheceu Faustina ou A vida é uma festa – evento semanal ainda na ativa –, o Cine Éden do passado ou o Box idem, poderá extrair beleza dali, o que O futuro tem o coração antigo transborda. Foi Fabiano Calixto ou Marcelo Montenegro – dois poetaços – quem disse uma vez, não faz tanto tempo numa rede social, que Celso Borges faz os livros mais bonitos do mundo?

Há várias maneiras de lermos este O futuro tem o coração antigo. Como um longo poema. Como vários poemas curtos. Como pílulas poéticas, cartões de visitas, guias para um passeio pelas cidades, que São Luís é várias, mesmo se nos contentarmos com a clássica divisão cidade nova versus cidade velha, as pontes por sobre o Rio Anil, este também um personagem, unindo a São Luís horizontal com a vertical. Ou ainda como um álbum de fotografias que retrata São Luís entre o belo e o feio, o casario tombado pelo patrimônio histórico e o prestes a tombar pela falta de conservação por parte de proprietários e poderes públicos irresponsáveis, os buracos que se tapam e reabrem a cada chuvisco, o esgoto a céu aberto, os cartões postais, a São Luís real, de verdade, pura poesia. Mesmo quando trisca em política, o que temos de mais nojento desde sempre, o autor soa poético, o que talvez lhe explique a alcunha de homem-poesia com que o tratam os amigos.

Mas a intenção aqui não é estabelecer um manual de instruções para o livro. Cada um o apreciará à sua maneira, difícil mesmo será quem não o faça – haverá?

Depois da volta de Celso Borges à Ilha, o Cine Roxy, quase em ruínas e então exibindo apenas filmes pornôs, tornou-se o Teatro da Cidade de São Luís – embora velhos como este blogueiro ainda prefiram chamá-lo pelo antigo nome –, hoje palco de importantes acontecimentos no cenário cultural da capital maranhense, o que inclui o lançamento de O futuro tem o coração antigo, amanhã (21), às 19h, com entrada franca. Na ocasião o livro será vendido por R$ 30,00 e haverá a exibição de um vídeo, o teaser abre-ilustra este post, realizado por Beto Matuck e Celso Borges.

O futuro tem o coração antigo e o passado tem lugar certo em nossos corações. Sem nostalgias baratas ou gratuitas, que pra frente é que se anda, “um passo à frente e você não está mais no mesmo lugar”, como disse outro poeta cujo futuro foi abreviado. Um pé no passado, outro no futuro, a poesia de Celso Borges é um espaço-lugar em que a cidade não para no tempo – para o bem e/ou para o mal, “a cidade só cresce”, sem saber onde vai dar, sem saber se é desta vez que a serpente vai acordar.

Felinos para apresentar o jazz aos pequenos

Uma das ilustrações de Cau Gomez para o texto de Pedro Henrique Barros

Simpaticat é um trocadilho em inglês para uma possível descrição da figura que aparece na capa de O dia em que os gatos aprenderam a tocar jazz [Cepe, 2012, 32 p.]: um gato simpático envergando um trompete, terno com direito a gravata borboleta e óculos escuros. Por trás, um piano, o bumbo de uma bateria – em que estão escritos o título do livro e o nome do autor, Pedro Henrique Barros – e uma cortina.

O livro ficou em primeiro lugar na categoria juvenil do Concurso Cepe de Literatura Infantil e Juvenil de 2011 e foi publicado pela promotora, a Companhia Editora de Pernambuco, da sigla que batiza o concurso, ano passado. As ilustrações de Cau Gomez, verdadeiras obras de arte à parte, ocupam páginas inteiras, traduzindo o texto para crianças e jovens – e felinos, por que não? – de todas as idades.

A história da Musichounds, banda formada pelos gatos Patrick Fitzpatrick, o baterista, Toy Denison, o trompetista, Hoover Jones, o contrabaixista, e Chet, o saxofonista – referência óbvia ao trompetista Chet Baker – começa com o lançamento de Birth of the cool, de Miles Davis, em 1950. E continua com a entrada de Augusta Valentine, gata com um olho de cada cor, a primeira que cantava. Com uma história de vida triste, como cabe a boa parte das divas do jazz.

É um livro cheio de beleza e outro resultado seria difícil ao misturar o mais representativo dos gêneros musicais norte-americanos e os felinos. É também um livro cheio de tristeza, mostrando a crueldade dos seres humanos e do capitalismo – o que torna até difícil classificá-lo como literatura infantil ou juvenil, ao menos nos moldes a que estamos acostumados.

Recomendar a leitura ao som de jazz pode ser obviedade. Mas é uma ótima oportunidade para apresentá-lo, o jazz dos grandes, aos pequenos.

Isabel, cômica

Isabel faz pose enquanto autografa um exemplar do álbum de retratos inventado por seus pais

O escritor Bruno Azevêdo e a jornalista Karla Freire escolheram uma forma nada convencional – mais que isso, uma forma genial – de documentar os primeiros anos de sua filha, Isabel: fotografando-a e criando histórias.

Ontem, na Livraria Leitura (Shopping da Ilha), aconteceu o lançamento de Isabel Comics! – ano dois [Pitomba, 2013, 54 p., R$ 20,00], que reúne tiras do segundo ano de vida da criança mais famosa de São Luís.

Os pais, autores de, entre outros, O Monstro Souza – romance festifud [Pitomba, 2010, 244 p., esgotado] e Onde o reggae é a lei [Edufma/ Pitomba, 2012, 304 p., R$ 45,00], respectivamente, passaram boa parte de seu tempo, nos últimos dois anos – que Isabel completou em março passado –, fotografando, escrevendo e montando as histórias mui engraçadas de sua filha.

A capa já entrega a sapequice – existe essa palavra? – da guria, ao desafiar a ordem estabelecida, tentando subir em um escorregador justo no lugar em que se deveria descer. Não se pode ser herdeira de Bruno e Karla impunemente.

Bruno Azevêdo é um quadrinhista que não desenha. Em Isabel Comics!, ele e sua esposa também são atores na fotonovela cuja personagem principal é sua filha, com pontas do Gato Marreco – um agente secreto aposentado – e de alguns parentes e amigos. Fotografam-se uns aos outros e recheiam as histórias de referências a alta e baixa cultura, distinções que aqui nem fazem sentido (e fazem nalgum lugar?).

Estão lá A Galinha Pintadinha, as “tias” da creche, o mar cheio de merda da Ilha capital (uma das páginas preferidas deste blogueiro), o sorveteiro Quantos – sucesso absoluto (há “quantos” anos?) pelos corredores da UFMA, onde os pais de Isabel cursaram graduações e mestrados –, Tony, o Troninho, a nutricionista (recomendando em alto e bom som “Mocotó pra Missu!” – seu apelido), Bob Esponja, South Park, Star Wars e os Backyardigans – “Biardigans”, na pronúncia de Missu. Sobra até mesmo para o sociólogo Pierre Bourdieu e o diabo – sim, o capeta, imortalizado em uma parede do Desterro, bairro do Centro Histórico ludovicense, e agora em uma página de Isabel Comics!.

Algumas histórias do álbum podem ser vistas no perfil da publicação no Facebook e no blogue do pai. A quem ainda não sacou o sorriso de Bebel fazendo-nos sorrir, se liguem: este ano dois é o último da publicação deste álbum de fotografias, pois como advertem os pais numa espécie de bilhete de abertura, “não queremos que você cresça como um personagem de gibi”. Será mesmo que não rolaram umas sobras?

Vísceras sociais vomitadas a uma caixa preta

Com capítulos e páginas numerados de trás pra frente, Sobrevivente [Leya, 2012, 353 p., tradução de Tatiana Leão], segundo romance de Chuck Palahniuk, conta a história de Tender Branson, fanático religioso que sequestra um avião – para irmos direto ao ponto. A contagem regressiva é o tempo de os motores pifarem e a aeronave cair, o tempo em que ele aproveita para registrar sua própria história de vida, que narra à caixa preta.

Branson é o único sobrevivente – daí o título – de uma seita religiosa fanática e o autor se utiliza disso para construir uma obra satírica, criticando costumes e valores da sociedade ocidental. O protagonista, por exemplo, alimenta seu peixinho de estimação com valium, usa ele mesmo um sem número de drogas para manter as aparências, afinal de contas, é um líder religioso que precisa conquistar e convencer, principalmente pelo que expõe em cadeia nacional de tevê.

É também ele um incentivador de potenciais suicidas a consumarem o ato, por telefone. É mais um elemento irônico do texto: qualquer um pode ser promovido a qualquer coisa, tudo depende da intensidade da cobertura da mídia, para citarmos uma passagem em que ele questiona mesmo o martírio de Jesus Cristo. Como convém, a obra é recheada de passagens bíblicas.

Também recheiam as páginas de Sobrevivente dicas domésticas, os afazeres do lar outra das funções do personagem principal, antes de sua vida virar. Com uma narrativa frenética, o livro, que também diverte, talvez seu objetivo primeiro, acaba revelando bastidores de um circo em cuja plateia só se veem palhaços: eu, você, seus leitores e todos aqueles de quem bancos, governos, igrejas e instituições em geral riem da cara a cada quebra de recorde nos lucros.

Ademir Assunção leva o Jabuti de Poesia

UM QUILO MENOS DISSO

Há uma canção melancólica de Tom Waits que narra a história de uma garota interiorana que vai para Nova York e cai nas mãos de pessoas erradas. No fim, restam apenas alguns litros de sangue na calçada e uma bolsa de pele de crocodilo vazia, jogada no bueiro por um vigarista. Há uma canção de Bob Dylan que narra o desterro de uma garota de nariz empinado que acaba na sarjeta, tendo que filar o rango de um maltrapilho que ela olhava do alto do pedestal. How does it fell/ To be on your own/ With no direction home/ Like a complete unknow/ Like a rolling stone? Há dias de calmaria e há dias de tormenta. Há um disco de Carmen McRae rolando na vitrola. Há céus azuis e há céus cinzentos. Há anjos e há demônios em quase todas as mitologias. Há pessoas que julgam e há pessoas que não se importam mais. It could be right or it could be wrong. Não há erros. Há fluxos, rajadas de vida. E muitas vezes o vento muda de direção. Há pessoas que às vezes estão tristes. Há muito desacerto. Há certezas demais. Há um vazio gigante entre os dois extremos da conexão. Há coisas que acontecem somente para que os antigos laços sejam reatados e novos sejam rompidos. Há drogas pra dormir. Há um avião B-52 caindo, há o rugido pesado de uma guitarra e há o choro de um recém-nascido. Há bombas que foram lançadas em 1944 e ainda não pararam de cair. Há um muro bem ali na frente. Ainda não consigo distinguir sua cor. Não sei nada sobre sua textura. Nem sobre sua densidade. Mas sei que estou indo em direção a ele. A 180 por hora. E não vou tirar o pé do acelerador.

Este poema em prosa abre a sétima noite do diário do ventríloquo – A voz do ventríloquo [Edith, 2012], de Ademir Assunção, é dividido em noites, cada noite uma seção de poemas.

O trecho com que abro este post, batizado por um verso de Sérgio Sampaio, traduz um pouco do que é o poeta, mostra algumas de suas influências e a forma como ele lida com as coisas – principalmente a poesia.

Ademir Assunção esteve em São Luís no final de setembro. Participou de três momentos da Feira do Livro de São Luís. Entrevistei-o por e-mail antes de sua chegada e provavelmente deixei sua indicação ao prêmio Jabuti na categoria poesia de fora do papo por ainda não ter à época a lista dos 10 finalistas – em que figurava também, entre outros, o maranhense Josoaldo Lima Rêgo, meu colega de equipe de curadoria, por Variações ao mar [7Letras, 2012]. Minha conversa com ele foi publicada pela metade nO Estado do Maranhão e inteira cá neste blogue.

No fundo, talvez, se eu já tivesse conhecimento da lista, a pergunta entraria na roda apenas por critérios jornalísticos (acho que a entrevista vai além), justamente por saber que Ademir não escreve poesia – ou prosa, ou jornalismo ou o que quer que seja – para ganhar prêmios. A prova disso são os quatro livros inéditos que ele tem na gaveta – uma coletânea de reportagens, outros de poesia.

Ademir Assunção já era um papo de longa data, ele desde sempre bastante atencioso ao responder e-mails, e conhecemo-nos pessoalmente durante a 7ª. FeliS, um grande acontecimento: nomes importantes como Fernando Moraes e Walnice Nogueira Galvão, por exemplo, preferiram-na à Feira de Frankfurt. As críticas existentes devem deixar a FeliS ainda melhor – e maior – ano que vem.

Mas voltando: como eu disse na mediação de uma das mesas de que ele participou no evento literário, um cara fundamental na minha formação. Conheci sua poesia meio que por acaso: Xico Santos, editor proprietário da Altana, mandou-me de presente seu Zona Branca [2001], publicado por aquela editora. Desde então tenho acompanhado com avidez e alegria sua trajetória, lançamento após lançamento – vem um disco novo aí em novembro! –, suas dicas e suas reações a essa sociedade e seus problemas.

Este post, pois, é para anunciar a vitória de Ademir Assunção na categoria Poesia do prêmio Jabuti 2013, com seu A voz do ventríloquo. Ele, que gostou do que viu e viveu em seus dias de ilha, quem sabe não torna a ela ano que vem? De minha parte será um enorme prazer. Ademir: ligando ou não para prêmios, parabéns!

O peso das escolhas

[O Imparcial, ontem]

Michel Laub lança segundo volume de trilogia em que analisa o peso individual de grandes catástrofes. A maçã envenenada relaciona o genocídio étnico em Ruanda e o suicídio de Kurt Cobain para contar uma história de amor

ZEMA RIBEIRO
ESPECIAL PARA O IMPARCIAL

O gaúcho Michel Laub é um dos mais talentosos escritores em atividade no Brasil – e um dos 70 que está representando o país na Feira do Livro de Frankfurt, na Alemanha. A maçã envenenada [Companhia das Letras, 2013, 119 p., leia um trecho] segue um modo particular de escrever: capítulos curtos e certeiros, espécies de notas numeradas, daquelas que facilitariam ao leitor interromper a leitura, um marca páginas, e continuar logo em sequência – isso se se conseguisse parar.

O título retirado de um verso do Nirvana – de Drain you, do mítico Nevermind, de 1993 – une temas aparentemente sem relação alguma: o suicídio de Kurt Cobain e o martírio de Immaculée Ilibagiza, escritora ruandesa que sobreviveu ao confinamento por 91 dias em um banheiro enquanto sua família era dizimada por um genocídio étnico, ambos em 1994 – a relação entre os dois acontecimentos se dá pelo jornalismo, outro ofício de Laub, e o tom autobiográfico não está aí à toa ou por ego. O título, que caberia a um conto de fadas, deve ser levado a sério.

O que o autor conta é uma dolorosa história de amor, iniciada e terminada nos verdes anos juvenis: uma história de perda. Ou de perdas. A maçã envenenada é o segundo volume de uma trilogia iniciada por Diário da queda [Companhia das Letras, 2011, 151 p.], em que Laub analisa o peso de catástrofes de repercussão global a partir de um olhar particular, mesclando memória, autobiografia e ficção.

O dilema entre ir ou não ao show do Nirvana no Brasil – que o próprio Kurt Cobain classificaria como o pior show da banda em todos os tempos – por um estudante que cumpre o serviço militar obrigatório – uma aberração que sobrevive aos quase 30 anos do fim do regime militar brasileiro – é o ponto de partida para uma trama bem construída, em que cenários e personagens se alternam para contar uma história acima de tudo humana, o início de uma biografia cujos capítulos juvenis morarão na saudade quando um adulto olhar para trás e se perguntar o que poderia ter acontecido se tivesse feito outras escolhas – ir a um show de rock e desertar ou ficar e não ser punido?

O futuro da censura

Entre lançamentos e reedições, outras obras podem ter o mesmo infeliz destino desta

Muito já se falou no assunto e eu só não vi mesmo a opinião do Lobão, que agora engrossa o coro de colunistas reaça da Veja. Em pauta as biografias e a censura prévia. Talvez o velho lobo esteja quieto por já ter escrito – com o grande Cláudio Tognolli – sua autobiografia.

Até aqui, de tudo o que foi dito, fico com Alceu Valença e Benjamin Moser. O grupo formado por Caetano Veloso, Chico Buarque, Djavan, Erasmo Carlos, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Paula Lavigne e Roberto Carlos – perdoem se esqueço alguém – é simplesmente ridículo, a começar pelo nome: Procure saber é um exemplo de pura arrogância.

A meu ver, quem já foi vítima de censura não tem o direito de se tornar censor.

Existem biografias boas e biografias ruins, como tudo na vida. Mas não será a censura que fará este filtro de qualidade. Num momento em que está muito em voga a pauta memória, justiça e verdade, por conta da Comissão Nacional que, apesar dos limites, procura esclarecer crimes de lesa-humanidade cometidos pela ditadura militar brasileira, é no mínimo triste o comportamento da dita elite da emepebê.

Para além do interesse público, pra mim o buraco é bem mais embaixo. Agora censuram biografias. Já imaginou se num futuro próximo tentam censurar a literatura? Deliro? De jeito nenhum. Um ótimo exemplo é a clássica página 73 do Bregajeno Blues – Novela Trezoitão, de Bruno Azevêdo. Leiam-na e tirem suas próprias conclusões.

Este post vai com um abraço ao Paulo César de Araújo!

O maior segredo do Brasil é a tal da perna de pau do Roberto Carlos. Não pode comentar isso. É feio. É errado.

Podem reparar. Já viram isso em alguma revista? Programa de tv? Nada, não sai nada! É a informação mais subversiva do país. Entra governo, sai governo, aparece a nova promessa da música brasileira, morre a nova promessa da música brasileira, fulano chifra cicrano, Nelson Gonçalves abre o jogo, mas ninguém fala da perna de pau do Rei.

Literatura e teatro para crianças de todas as idades

Cena de “O mundo imaginário de Juju Carrapeta”

Engana-se quem pensa que literatura em São Luís somente na Feira do Livro do ano que vem. É certo que muita gente ainda não se curou da ressaca literária, tanta gente boa passou por aqui, tanta coisa boa aconteceu nestes últimos 10 dias.

Com a proximidade do dia das crianças – o que inclui as crianças crianças e as crianças adultas – Júlia Emília e seu grupo Teatrodança relançam, dia 10/10 (quinta-feira), às 19h, na livraria Leitura do Shopping da Ilha, o livro O Baile das Lavandeiras, mistura de sacro, profano, pastor maranhense, pastoril pernambucano, tambor de mina, dança do lelê, São Gonçalo, Maria Firmina dos Reis, Chico Maranhão, Ferreira Gullar, Carlinhos Veloz, Dona Elzita Vieira, Lídia Castro, Lili Sá Marques, Raul Valença, a fundação da cidade de São Luís, a serpente e Ana Jansen: um verdadeiro liquidificador cultural.

Na ocasião será encenada a peça O mundo imaginário de Juju Carrapeta. A entrada é franca. O livro custará, na ocasião, R$ 25,00.