Lançamento do single “Purificação” marcou Dia da Consciência Negra para as artistas Cyda Olímpio e Mariene de Castro

“Purificação”. Single. Capa. Arte: Alaído. Reprodução

Já se vão mais de 15 anos da estreia da cearense Cyda Olímpio em disco: “Nem jazz nem jeans” saiu em 2005 e é uma delicada coletânea reunindo suas facetas de compositora e intérprete.

Ontem (20), Dia Nacional da Consciência Negra, a compositora teve lançada sua “Purificação”, single de Mariene de Castro – baiana que esteve recentemente em São Luís, em memorável show nas comemorações do aniversário da cidade.

“Essa canção chegou pra mim numa noite de São João. E pra Cyda Olimpio veio através de um sonho. É uma fotografia daquele lugar. Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo da Bahia”, conta Mariene de Castro, referindo-se à cidade-musa inspiradora, terra de Caetano Veloso e Maria Bethânia.

“Ao ouvir pela primeira vez na voz de Cyda me emocionei. Revi nessa canção Dona Canô, Dona Clara, Nicinha, Sydia, Dona Edith, Portugal, Dona Nicinha, as festas de fevereiro, a novena de nossa senhora, vi Roberto, Ulisses, Nando, João do Boi, o nego fugido, o terno de reis. São tantas imagens, lembranças, tantos amigos que já se foram. Muita gente pensa que sou santoamarense. E eu gosto”, revela a soteropolitana.

Ela continua: “Lembro da primeira vez que cheguei à cidade, à noite e a igreja estava aberta, toda iluminada, uma imagem inesquecível. Foi lá que batizei João Francisco, meu filho. Sob as bênçãos de Nossa Senhora da Purificação. Um templo de Oxum. Um lugar que me acolheu como filha. Um lugar que faz parte da minha vida. Essa canção chegou lavando meu coração com as águas sagradas e purificadas de Oxum, pelas mãos de Cyda Olimpio. Serei pra sempre agradecida. Viva Oxum! Viva Nossa Senhora da Purificação. Que essa canção lave nossas dores”. Amém, Mariene de Castro!

A capa do single foi desenhada por Alaído, artista que os ludovicenses conheceram por ocasião da apresentação mais recente de Mariene de Castro em São Luís – ele e sua mãe, Alaíde Almeida, assinavam o painel-cenário do show. No single, gravado no Estúdio Casa da Árvore, a voz da cantora é emoldurada por Nino Bezerra (contrabaixo acústico), Gabriel Rosário (bandolim, violão e arranjo), Marcos Bezerra (viola caipira), Gel Barbosa (acordeom) e Fábio Cunha (percussão e arranjo).

Com 35 anos de carreira entre a noite, o disco e a composição, Cyda Olímpio não esconde a satisfação de ter Mariene de Castro em seu rol de intérpretes. ““Purificação” chegou até mim em um sonho, linda, doce, leve e como um recado de cura, tão necessária pra mim e espero que também para quem a escutar. Fui só humildemente um instrumento na jornada. Outras pessoas, generosa e afetivamente, fizeram chegar à voz nobre e sublime de Mariene de Castro, para que “Purificação” continue cumprindo seu papel de ser uma música não somente minha, mas de todos nós”, diz.

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Ouça “Purificação”:

Ponte Bahia-Maranhão: o axé de Mariene de Castro

Mariene de Castro levou a plateia ao delírio, ontem (6), na Praça Maria Aragão. Foto: Zema Ribeiro

Sem meias palavras: a apresentação de Mariene de Castro, ontem, na Praça Maria Aragão, foi um arrebatamento. “O sino da igrejinha faz Belém/ dêm/ dêm”, adentrou ao palco cantando, após ser chamada pelo prefeito Eduardo Braide (Podemos) em pessoa (quase sempre errado, acertou a mão na programação de aniversário da cidade, e na noite anterior já tinha usurpado o papel do cerimonialista ao chamar ao palco o jamaicano Eric Donaldson).

Era a noite dedicada às religiões de matriz africana e a escolha da baiana Mariene de Castro (Bahia e Maranhão têm as maiores populações afrodescendentes do país) revelou-se mais que acertada. Sua trajetória coerente já revelava sua devoção e reverência às nossas heranças ancestrais e o show parecia estreitar essas relações, com seu repertório de pontos, sambas, chulas e suingueira, que incluiu peças como “O vira” (Luhli/ João Ricardo), sucesso do grupo Secos e Molhados, e “Mamãe Oxum”, tema de domínio público popularizado por Zeca Baleiro e Chico César.

Se a ponte Bahia-Maranhão não foi construída por Mariene de Castro, ela certamente enfeitou-a, embelezou-a, tornando o caminhar mais aprazível. Ela mesmo disse, durante o show, que a noite de ontem era “um divisor de águas”. Um marco não só em sua carreira, mas na de grande parte do público presente, que não esquecerá tão cedo do que ou/viu e certamente terá neste um dos grandes shows da vida.

Atriz e cantora coabitam pacificamente uma artista que é pura ginga, e logo no início, após umas poucas rodopiadas dela pelo palco, entendi porque ela fez questão de citar o nome de seu figurinista (Wilson Ranieri) na entrevista que ela me concedeu: seu vestido (depois de rodopiar à vontade, ela tirou a capa) parece ter vida própria, um espetáculo à parte, com seu esvoaçante bailado alegre. Sem falar no painel, “de Alaíde e Alaído Almeida, mãe e filho, que desenharam a nossa gente nordestina”.

Se o povo de santo, os fiéis das religiões de matriz africana, parecem não ter motivos para festejar, vítimas cotidianas de discursos e práticas de ódio, as milhares de pessoas presentes à praça ontem, certamente têm em Mariene de Castro uma embaixatriz, alguém que não se cala diante de violências e injustiças e tampouco separa arte de política por conveniência. Pelo contrário: seu show demarca uma posição, num tempo em que esta é exigida, sobretudo a artistas, estes formadores de opinião sempre tão violentados em tempos fascistas e autoritários.

Mariene de Castro não citou o nome de nenhum dos primeiros colocados nas pesquisas eleitorais, mas não se incomodou com os cantos pró-Lula e contra Jair Bolsonaro que a plateia entoou ao longo de sua apresentação. Engrossou o coro, falando em mudanças e transformações. Citou o Nelson Cavaquinho que não cantou: “isso tudo vai passar e o sol vai brilhar mais uma vez”.

Depois de “Alguém me avisou” (Dona Ivone Lara), “Sonho meu” (Délcio Carvalho/ Dona Ivone Lara) foi interrompida: uma fã conseguiu driblar a segurança para anunciar, aos prantos, no palco, que havia se perdido da filha criança. Apesar do susto, Mariene pediu calma à mulher e à segurança, e repetindo o nome da criança ao microfone; logo várias mãos apontaram-na e, com mãe e filha se reencontrando, “Sonho meu” acabou ficando mesmo pela metade. “Eu sou mãe, fiquei nervosa. Que nenhuma mulher precise mais chorar a dor da perda de um filho”, rogou, referindo-se, talvez, a quem perdeu parentes para a pandemia de covid-19, mas não só. Entoou uma Salve Rainha, acompanhada por grande parte da plateia, lição prática de sincretismo. Seguiu com a sequencia com que homenageava a centenária Dona Ivone Lara, cantando “Um sorriso negro” (Adilson Barbado/ Jair Carvalho/ Jorge Portela).

“Eu sou contra qualquer interrupção dos direitos humanos”, ousou dizer, sempre sem meias palavras. “Contra a homofobia, o racismo, o feminicídio, a intolerância religiosa”, bradou.

A determinada altura, seus percussionistas encararam a parelha do tambor de crioula. “Cheguei, cheguei, cheguei com a minha turma, cheguei”, cantou o famoso refrão de Mestre Felipe. Noutra altura o percussionista maranhense Mariano tocou caixa e eles cantaram juntos um medley do Cacuriá de Dona Teté: “Choro da Lera”, “Jabuti/Jacaré” e “Assa cana”.

Voltou ao palco aos gritos de mais um e recebeu das mãos do prefeito um buquê de rosas brancas e vermelhas. “Nunca um prefeito tinha visto um show meu inteiro de cima do palco”, agradeceu. Sim, Eduardo Braide surfa na onda da popularidade dos artistas que fazem a festa da cidade – na véspera, beijava a primeira-dama enquanto aparecia no telão dançando agarradinho com ela “Cinderella”, primeira “pedra” que Eric Donaldson cantou ao subir ao palco na noite regueira do aniversário da Jamaica brasileira. 

Ela distribuiu ao público quase todas as flores, antes de receber no palco a representação de sete orixás, um a um saudados por ela. Por fim, saudou os erês fechando a conta com “O que é, o que é?”, clássico de Gonzaguinha, deixando o público com gosto de quero mais, apesar de ter cantado por aproximadamente duas horas. Puro axé, que volte logo e sempre!