Os djs Franklin e Marcelinho da Lua no Espelunca Chic (2009). Foto: Eloína Reis
Marcelinho da Lua é um dos mais renomados djs do Brasil e sua fama corre mundo. Dois discos seus venceram o Prêmio da Música Brasileira na categoria eletrônica: Tranquilo (2003) e Social (2007). Fundador do BossaCucaNova, com quem lançou cinco discos, ele já tocou por aqui, solo ou integrando o BCN, com nomes como Dom Um Romão, Martinho da Vila, Mart’nália, João Donato, Lenine, Rita Lee, Elza Soares, Trio Mocotó e Roberto Carlos, entre outros. Lá fora, já dividiu o palco com Fatboy Slim e Moby, para ficar em apenas duas referências fundamentais do mundo da eletrônica.
Em São Luís, cidade que visita vez por outra, se sente em casa.
Quinta e sábado ele toca nada menos que três vezes na Ilha em que baixa novamente a convite da Canil Records, do Dj Franklin. O anfitrião acompanha-o no Hotel Luzeiros (Ponta do Farol) nesta quinta (5), a partir das 19h, com discotecagem de vinil e entrada franca – o hotel é patrocinador da vinda de da Lua.
Sábado (7), no mesmo palco, a partir de meio-dia, eles tocam na já tradicional Feijoada do Luzeiros, de que Franklin é também residente. O repertório na ocasião é de samba de raiz e outras pilantragens. A festa segue até 16h, também com entrada franca.
Na sequência, depois de guardarem os bolachões, o par de dejotas volta a desentocá-los – para novamente tocá-los – no L’Apero (Av. Litorânea), a partir das 17h. Na ocasião somam-se a eles os djs Pedro Sobrinho e Jorge Choairy. Para esta apresentação o couvert artístico custa R$ 10,00.
Confira o Dj Marcelinho da Lua em Cotidiano (Chico Buarque), com Seu Jorge:
Compositor realizará shows mensais até o final do ano. Turnê alcançará São Luís e municípios do interior. Nas ocasiões será lançado o disco Milhões de Uns – Vol. 1. Estreia acontece nesta sexta (6), no Bar do Léo
Milhões de Uns – Vol. 1. Capa. Reprodução
Milhões de Uns – Vol. 1 apresenta uma significativa, embora pequena, parte da obra musical do poeta e compositor Joãozinho Ribeiro, que completa 60 anos de idade no próximo abril. É o primeiro registro lançado com o autor interpretando sua obra, coalhado de participações especiais, gravado ao vivo em duas memoráveis noites no Teatro Arthur Azevedo, em novembro de 2012 – a exceção é a gravação em estúdio de Elba Ramalho para Asas da paixão (Joãozinho Ribeiro).
É que Milhões de Uns não é apenas título de uma das mais conhecidas músicas do artista, vencedora do Prêmio Universidade FM há mais de 10 anos, na magistral interpretação de Célia Maria. A música que batiza o disco de estreia é a mais perfeita tradução do que são a vida e obra do bacharel em Direito, funcionário público e professor universitário nascido João Batista Ribeiro Filho.
A constelação presente ao disco reflete sua importância para a música produzida no Maranhão ao longo dos últimos mais de 30 anos. Ali estão nomes como o Coral São João, Milla Camões, Célia Maria, Zeca Baleiro, Chico César, Alê Muniz, Lena Machado, Chico Saldanha e Elba Ramalho, a interpretar sambas, choros, blues, reggaes, forrós e marchinhas, o que demonstra a versatilidade de Joãozinho Ribeiro.
Variedade refletida também no leque de parceiros: Betto Pereira (Coisa de Deus), Alê Muniz (Planos urbanos), Chico César (Anonimato), Marco Cruz (Tá chegando a hora) e Zezé Alves (Rua Grande).
O autor e seus convidados são escudados pela banda Milhões de Uns, outra constelação de craques à parte: Arlindo Carvalho (percussão), Danilo Costa (saxofone tenor e flauta), Firmino Campos (vocal), George Gomes (bateria), Hugo Carafunim (trompete), Klayjane (vocal), Luiz Jr. (violão sete cordas, guitarra semiacústica e viola caipira), Paulo Trabulsi (cavaquinho), Rui Mário (sanfona e teclado), Serginho Carvalho (contrabaixo) e Wanderson Silva (percussão).
Se médicos chegaram a desenganar o moleque João aos nove anos de idade, apostando-lhe cinco anos de sobrevida, o menino cresceu, tornou-se Joãozinho Ribeiro e teima em viver e fazer arte, desde um Festival Universitário de Música na UFMA, em 1979. Com seu otimismo quase insuportável, como gracejou Zeca Baleiro durante a gravação do disco, um de seus bordões é “eu não morro nem que me matem”, frase de quem teima em lutar pelas coisas que acredita, como diz outra conhecida canção sua.
Para festejar os seis ponto zero, Joãozinho Ribeiro, sempre acompanhado de convidados especiais, inicia nesta sexta-feira (6), às 20h, no Bar do Léo, uma temporada que circulará por alguns bares e outros espaços ludovicenses e deve descer também a alguns municípios do interior. A ideia é realizar, a partir deste início de março, shows mensais até o fim do ano.
Para a estreia estão escalados Célia Maria e Chico Saldanha. Os shows terão um formato intimista. As apresentações têm entrada franca. Milhões de Uns – Vol. 1 pode ser adquirido na ocasião, no local, e ainda nos seguintes pontos de venda espalhados pela Ilha: Banca do Dácio (Praia Grande), Livraria Poeme-se (Praia Grande), Rodrigo Cds Maranhenses (Praia Grande), Banca do Valdir (Renascença I), Papos & Sapatos (Lagoa da Jansen), Quitanda Rede Mandioca (Rua do Alecrim), Banca do Mundo de Coisas (Renascença II) e Play Som (Tropical Shopping).
Trupe que gravou o LP “Lances de agora”, de Chico Maranhão, em 1978. Da esquerda pra direita: Sérgio Habibe, Paulo Trabulsi, Ubiratan Sousa, Chico Saldanha, Rodrigo Croce, Chico Maranhão, Ronald Pinheiro, Valdelino Cécio, Zezé da Flauta, Antonio Vieira e Vanilson Lima. Foto: Reprodução de “Em ritmo de seresta” (de onde copiei a legenda)
Nos últimos tempos novos trabalhos sobre música popular e identidade cultural no Maranhão vão recolocando um tema que se tornou, aos poucos, incômodo entre os músicos e controverso entre comentaristas, apesar de relativamente aceito entre radialistas e produtores locais: a categoria música popular maranhense ou MPM. Uma referência obrigatória encontra-se ainda em 2004, no debate entre Ricarte Almeida Santos e Chico Maranhão, em dois artigos claros e densos, onde se colocou, de um lado, a inadequação restritiva do termo, utilizado a partir de meados da década de 80, considerado apenas uma receita de sucesso atrelada à estetização de ritmos populares com que se tentou reduzir a produção musical do Maranhão; de outro, foram enfatizadas as condicionantes históricas que teriam propiciado o seu surgimento, o sentido da “construção de uma canção maranhense moderna”.
Nas palavras do próprio Chico Maranhão: “Naquele momento, a afirmação de nossa identidade era mais importante, e a música popular um veículo significativo, embora naquela época inconsciente. (…) Isto continha um enorme peso estimulador criador na época. Demos a cara pra bater e ascendemos (sic) a fogueira que ainda hoje se vê a brasa arder. Éramos muito jovens e necessitávamos responder às ressonâncias que pairavam nos céus do país. Desta forma, qualquer análise sobre esta sigla MPM tornar-se-á vã se não tivermos clareza desses aspectos mórficos históricos de sua ‘adoção’”.
Em 2005, Roger Teixeira apresentou a monografia Xô do Mato, Boca de Lobo e Rabo de Vaca: a trajetória da música popular maranhense nos anos 70. Trabalho direto, sem trololó acadêmico, escrito acima de tudo por um ouvinte e admirador confesso dos compositores em questão, coloca de maneira sucinta, mas informada, praticamente todas as figuras em cena, com algumas histórias ótimas, daquelas de algibeira, onde afloram traços pessoais e situações emblemáticas do período.
Ao final, o autor afirma que as experiências ocorridas mais ou menos no mesmo momento no Ceará (Fagner, Belchior e Ednardo), no Recife (Alceu Valença, Geraldo Azevedo, Zé Ramalho) e na Bahia (Novos Baianos), além de Minas (Clube da Esquina), foram incorporadas à chamada MPB, tendo seus artistas rumado para o grande centro, o que não ocorreu no caso da geração laborarteana, seja por questões financeiras ou por convicções pessoais, pois “ir para o centro do país seria concordar que fazer música no Maranhão não poderia dar certo”.
O passo seguinte foram as monografias de músicos participantes do Rabo de Vaca. Em 2010, o trabalho do baixista Mauro Travincas, Rabo de Vaca: memória de uma geração musical, onde recupera a trajetória do grupo fundamental que existiu entre 1977 e 1982, capitaneado por Josias Sobrinho, dando continuidade nas experiências com ritmos e melodias levadas a efeito no Laborarte em meados da década e com uma postura decidida de tocar em praças e espaços comunitários na periferia, não ficando preso a apresentações em teatros. Curiosamente, o único show realizado no principal palco da cidade, o Teatro Arthur Azevedo, seria também o último do grupo.
Em 2011, o trabalho do flautista José Alves Costa, A Música Popular Produzida em São Luís na Década de Sessenta do Século XX, sobre o momento anterior ao Laborarte, quando a cena musical da Ilha era dominada pelos programas de auditório, no rádio e depois na televisão, e os grupos de acompanhamento eram no estilo “regional”, com violões, cavaquinho, baixo, percussão e algum instrumento solista, como o sax. Um pouco depois, conjuntos de baile, com formação básica dos grupos de rock, guitarras, baixo, bateria e teclados, como Nonato e Seu Conjunto e Os Fantoches, com vasta influência da Jovem Guarda, mas também de toda tradição dançante dos boleros e outros ritmos com toques caribenhos.
Bandeira de aço. Capa. Reprodução
No ano passado, foi a vez da monografia de Josias Sobrinho, Aquém do Estreito dos Mosquitos: a música popular maranhense como vetor de identidade. Para o compositor, a construção da música popular maranhense significa a inserção de sua cultura de raiz popular no universo da música popular brasileira, ou seja, os ritmos do bumba boi, principalmente, transplantados para o universo da produção musical brasileira. Em nota indica que “o site de vídeos online YouTube incorporou o gênero ‘boi music’ entre as categorias disponíveis para a classificação de vídeos enviados pelo usuário da plataforma”. A consagração do gênero bumba meu boi como categoria musical estaria no disco Bandeira de Aço, gravado pelo percussionista e cantor Papete, em 1978, com composições de Cesar Teixeira, Josias Sobrinho, Sérgio Habibe e Ronaldo Mota.
As células rítmicas do boi e do tambor de crioula e sua utilização nas composições é apontada por Josias como elemento distintivo e acompanhada em sua dificuldade de transposição para o disco desde os anos 60. Por exemplo, a toada de tambor de crioula Sanharó, de João do Vale e Luiz Guimarães, gravada por Marinês e Sua Gente, em 1963 ou a conhecida música Tambor de Crioula, de Cleto Júnior e Oberdan Oliveira, gravada por Alcione Nazaré e pelo Nonato e Seu Conjunto. Cleto Júnior explica: “ela não tem a pegada do tambor ainda… ela tem a letra do tambor, ela tem a ideia do tambor, ela tem a homenagem do tambor, ela tem aquela coisa toda do tambor, os versos do tambor (,,,) mas o acompanhamento não tinha ideia de como fazer”. O ritmo terminava sendo levado com toque de umbanda.
Em outros momentos a dificuldade já tinha se colocado. Na gravação do disco do I Festival da Música Popular Brasileira no Maranhão, na Toada Antiga, de Ubiratan Sousa e Souza Neto, realizada sem o acompanhamento percussivo do bumba boi ou em Cavala Canga, de Sérgio Habibe, ritmo do tambor de mina, gravada no primeiro disco do Nonato e Seu Conjunto, em 1974, também com tratamento diferente da forma original.
Lances de agora. Capa. Reprodução
Essa questão de trazer a rítmica para dentro das canções gravadas só seria resolvida com Bandeira de Aço, fruto direto da estética trabalhada pelos compositores no Laborarte e o disco Lances de Agora, de Chico Maranhão, que expressa uma aproximação de seu trabalho com as “influências de berço” (os ritmos do boi e do tambor de crioula). Depois disso, “daí em diante outros artistas e álbuns, com alguma relação com a cultura popular de raiz maranhense, foram sendo colocados no mercado nacional”, citando Papete, Ubiratan Sousa, Tião Carvalho, Betto Pereira, César Nascimento, Mano Borges, Alê Muniz, a dupla Criolina, Flávia Bittencourt e “Rita Ribeiro e Zeca Baleiro, que sempre apontam em suas produções um elo qualquer de identidade maranhense”.
Em setembro de 2011, publiquei no jornal Vias de Fatoum longo artigo, posteriormente incluído no livro Guerrilhas, abordando, a partir das questões colocadas nos textos de Ricarte e Chico Maranhão, o mal-estar e mesmo a indefinição e o desconhecimento que cercam a sigla MPM, pois indicava algo que parecia existir quando ainda não havia sido nomeada (década de 70) e se tornava uma incômoda indagação depois de batizada (década de 80). Afinal, quem além de nós utilizava ou compreendia o que era MPM?
O artigo acentuava a visível distinção do período de gestação, marcado pelo cruzamento das experiências dos três compositores que participaram do Laborarte (Cesar, Josias e Sérgio) com figuras também exponenciais no processo, como Chico Maranhão, Giordano Mochel, Ubiratan Sousa, Chico Saldanha, do momento seguinte, quando a rádio Mirante FM estava no centro de uma estratégia de propagação do que se passaria a chamar de MPM, trazendo uma nova geração de compositores, entre eles, Gerude, Godão, Mano Borges, César Nascimento, Tutuca, Carlinhos Veloz.
Ao contrário das linhas de continuidade, era enfatizada uma descontinuidade em relação ao empuxo inicial, tendo a aproximação com as agências governamentais e com o mecenato privado se verificado segundo os esquemas de patronagem de uma ordem social e política ainda em larga medida oligárquica, por onde terminariam se enredando quase todos os compositores, os novos e a maioria dos antigos. O texto, não por acaso, intitulava-se Antes da MPM, para enfatizar o momento da década de 70 e início dos 80, quando a sigla não existia. Soava, ao mesmo tempo, pois, como elogio e crítica.
O ataque que essa ambiguidade carregava não só à utilização do termo, mas ao próprio estatuto da coisa, colocada como uma experiência interrompida e redirecionada, resultando em pouco tempo numa projeção fantasmagórica sobre os músicos e a própria música que realizavam, não passou totalmente despercebido e foi objeto de um comentário de tom enviesado, meio truncado, mas com uma observação importante. Intitulado Música Para Maiores, de autoria de Lane Mosi, foi publicado no mesmo jornal Vias de Fato, na edição seguinte, de outubro de 2011.
Em linhas gerais, diz que o artigo estava “perfeitamente enquadrado nos moldes históricos – sociais – científicos da sociedade vigente” por comungar de uma mitificação da ação do Laborarte, principalmente na questão das experiências “para criação de uma determinada categoria de música maranhense elitizada”. Alertava então: “É evidente que a periferia a qual me refiro não é composta por aquele bairro privilegiado, pela sua localização estratégica perto dos casarios antigos, tão pouco àquele cheio de afilhados culturais, me refiro mesmo, aos não tão distantes e nem tão abastados, mas totalmente esquecidos e desconsiderados na influência da musicalidade desta cidade”.
Para a autora, a periferia a que o pessoal do Laborarte se articulava resumia-se ao Desterro e a Madre Deus. Sem indicar qualquer referência, de ontem ou de hoje, afirma que ¨existe todo um potencial na periferia que consegue escapar à ‘estratégia governamental de mercantilização da cultura’ mas que é renegado a (sic) pelo menos 30 anos, pouco tempo cronologicamente mas uma eternidade em se tratando de uma arte para libertar”. Surpreendentemente, no entanto, termina o texto falando em reviver os “momentos áureos da música maranhense que tanto gosto”, depois de exaltar programas de rádio com “o melhor da MPM” e “os bolachões (vinis) do Festival Viva”.
Afora o evidente desconhecimento do que foi a atuação do Laborarte, principalmente até o início dos anos 80, minimizando totalmente seu significado cultural e político, pensando o que ele era a partir do que se tornou, e a percepção do momento de diluição como se fosse o “momento áureo” (aí é aquela história, cada qual com seu ouvido…), o texto deixa a observação de que a incorporação da periferia na cultura da cidade ainda não se deu ou seria bastante incompleta, muito seletiva, não aceitando o marco que geralmente é atribuído ao Laborarte. Este momento ainda seria um porvir.
No ano seguinte, Ricarte Almeida Santos volta ao tema, desta vez através de uma dissertação de mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade, da UFMA, intitulada Música Popular Maranhense e a Questão da Identidade Cultural Regional. Temos aqui um trabalho mais circunstanciado, com utilização de todos os textos então existentes, destacando trechos e depoimentos com argúcia, além de sua própria pesquisa, trazendo novos e interessantes depoimentos de músicos e jornalistas. De forma geral, define dois períodos: o de surgimento da música popular maranhense, na década de 70, e o de sua inserção nos mecanismos da “indústria cultural”, na década de 80.
O Laborarte teria configurado uma “ação cultural”, um processo “com início claro e armado, mas sem fim especificado”, onde avulta o papel dos agentes ou mediadores culturais, indivíduos que “num ambiente de heterogeneidade sociocultural, de preconceitos, cumprem uma ação de aproximação de grupos sociais, de pessoas de diferentes procedências”. Uma ação pensada para a prática de um novo teatro, terminou tendo numa nova estética musical seu resultado mais duradouro e “consequentemente, contribuiu decisivamente para a assimilação das expressões e manifestações da cultura popular, até então marginalizadas e negligenciadas, como símbolos da identidade cultural regional”.
Apesar de citar e conhecer todos os nomes principais que estavam envolvidos com a música popular nos anos 60 e 70, Cesar Teixeira, Josias Sobrinho e Sérgio Habibe são considerados “os três principais agentes culturais do desenvolvimento da música popular maranhense”. O disco Bandeira de Aço é colocado no texto como “marco de partida e de chegada” da MPM. Num dos vários trechos destacados de um rico depoimento, Cesar diz: “Bandeira de Aço é uma consequência do que foi sistematizado no Laborarte” (…) “esse paradigma musical incluiu ritmos de bumba meu boi, divino, tambor de crioula e de mina, entre outros, caracterizando-se como música percussiva e adotando uma poética enriquecida pelo vocabulário popular”.
Ou ainda, de forma mais precisa: “creio que o Laborarte serviu como um ponto de referência para a difusão de uma música popular que já vinha sendo gestada antes mesmo da criação dessa entidade cultural. Foram acrescentadas novas células rítmicas à MPB local, deixando transpirar as virtudes artísticas da nossa gente, das nossas raízes culturais. (…) No ponto de convergência estava a estratégia para a superação das dificuldades, habilitando uma essência rítmica – com base harmônica de violão e cavaquinho – alicerçada por instrumentos regionais: matraca, tambor-onça, pandeiro, cabaça, agogô, abatá, terno de crioula, pífaro etc.”
No capítulo seguinte, é olhada mais de perto, com depoimentos esclarecedores, a questão da criação da sigla a partir da ação decidida de Fernando Sarney em promover a “música maranhense”, através da Mirante e de sua posição como diretor da Cemar. É o momento da estetização, que define ao mesmo tempo uma expansão e a descontinuidade no movimento artístico, pois “a música popular em si, se reorienta em vista também de obter o apoio e a legitimação do campo político”.
Ricarte é um conhecedor de música popular brasileira, de suas raízes no choro e no samba, apreciador e incentivador dos compositores maranhenses, além de seu texto ter objetividade e fluência, oferecendo-nos, sem dúvida, uma rica análise do momento. Da sua exposição discordo, no entanto, da centralidade excessiva dada ao Laborarte (lembro, é claro, da observação feita por Lane Mosi, aproveitando-a em outro sentido), basicamente em dois aspectos.
De um lado, a própria definição da estética musical em questão, que passa, a meu ver de maneira significativa, por outros compositores, já indicados. Ameniza essa discordância o fato de que estamos falando de um movimento (ou de uma ação) cuja proposta inicial era de uma integração entre campos distintos e aberta a influências diversas. De outro, acho que a ação do Laborarte deve ser enfocada mais incisivamente como um dos elementos de um processo mais amplo de redefinição da identidade regional, a passagem da exaltação do passado letrado, centrado nos mitos de distinção expresso nas alegorias da Atenas Brasileira e da Fundação Francesa, para a exaltação da cultura popular, principalmente do bumba meu boi, antes excluído e alvo de perseguições. Algo que se efetivou mais como superposição, dado a direção do processo pela oligarquia dominante.
Claro que isto está referido lá, Ricarte sabe das coisas, mas um trabalho importante como o de Lady Selma Albernaz, O “Urrou” do Boi em Atenas: instituições, experiências culturais e identidade no Maranhão, uma tese defendida em 2004 na Unicamp, favoreceria o olhar para o movimento que se efetuava no campo das instituições governamentais em torno da cultura popular e do turismo desde o final dos anos 60. Assim, o encontro posterior com o guarda-chuva da oligarquia não era propriamente entre elementos estranhos.
O que se perceberia com clareza a partir daí era que o sentido da “ação cultural”, para manter o conceito utilizado, foi redirecionado para a ênfase na carreira profissional, aproveitando os caminhos que se ofereciam através dos favores oficiais. De maneira emblemática, o coletivo que se sobressaiu a partir do final dos anos 80 foi a Companhia Barrica, cujas principais atrações eram o Boizinho Barrica, no São João e, depois, o bloco Bicho Terra, no carnaval.
Ambos eram fruto principalmente da ação do compositor Godão na Madre Deus. No Boizinho Barrica elabora uma recriação cujos ritmos envolvem os vários sotaques do boi, os ritmos dos tambores de crioula e de mina, as ladainhas do Divino e até as batucadas dos blocos e tribos de índio do carnaval. É uma tentativa de síntese de vários elementos da cultura maranhense, da música, das danças, do artesanato etc. A Companhia tentou se colocar como movimento, mas terminou se definindo mesmo mais como atuação de empresa e desencadeou toda uma enorme discussão à época sobre grupos “parafolclóricos”. A outra ponta era a Marafolia, uma empresa de eventos vinculada ao Sistema Mirante, responsável pelo carnaval e as festas juninas “fora de época”, ambas com intensa participação da turma do Barrica. Para estes, a década de 90 significou os anos dourados.
Em ritmo de seresta. Reprodução
No final do ano passado, mais um trabalho tocou na questão da formação da MPM e, desta vez, por um ângulo inusitado. Trata-se do livro de Bruno Azevêdo, Em Ritmo de Seresta: música brega e choperias no Maranhão (Edufma, 2014), também fruto de uma dissertação de mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, da UFMA. Inicia com uma relação entre a crise nas bandas de baile, determinada pelo aparecimento dos teclados eletrônicos polifônicos e a criação de um novo estilo, uma corrente da música brega que se desenvolveu nas regiões norte e nordeste a partir do final dos anos 80, conhecida como “seresta”. Muitos músicos migraram para o teclado com programação, pois barateava o show, eliminando instrumentos, como baixo e bateria. Era uma modificação na técnica acarretando alterações no estilo. “Músicos que por anos tocavam diversos instrumentos passaram para o teclado com programação, músicos que nunca cantaram passaram a emprestar sua voz para as serestas”.
O texto, bem articulado e bastante informativo, penetra fundo no universo das choperias, tendo como campo privilegiado duas grandes, a Choperia Marcelo, no retorno da Forquilha, e o Kabão, no Aterro do Bacanga. Bruno aqui está à vontade, passeando entre os nomes de destaque e suas imensas discografias, as nuances de estilo, a produção dos shows, o mercado de discos (que se apoia justamente na “pirataria”, subvertendo a lógica das gravadoras), o público consumidor etc. Consegue depoimentos incríveis de músicos, desencava vasto material fotográfico que traz muito do espírito do tempo, explorando as capa dos discos, os instrumentos e cenas de palco. Conta ainda com um ensaio do fotógrafo Márcio Vasconcelos, em flagrantes de campo, descortinando as cores, gestos e expressões em torno dos ritmos da seresta. A edição, vale frisar, é caprichada em seus detalhes, além de vir acompanhada de um cd. Tudo com a cara da Pitomba! (apesar de carregar o signo da Edufma, cujo padrão é justamente o oposto…).
Depois de analisar um estilo musical que alicerçou o boom das choperias e envolve milhares de pessoas, Bruno volta sua atenção para a (in)visibilidade dessa música e concentra-se na separação entre os músicos de seresta e suas canções e o que se poderia chamar de “identidade musical maranhense”, indicando a existência de uma marginalização nas “esferas discursivas de poder”, tanto no plano do acesso a financiamentos nos programas de cultura, quanto de legitimação nos meios de comunicação, carecendo de “reconhecimento”, pois a categoria não constaria nas listas de premiação, nem nos catálogos de cultura.
O bolero, a música romântica de “dor de cotovelo”, o brega, que dominavam as rádios, foram taxados de “música de velhos” ainda nos anos 60 e, apesar de constar das lembranças de formação de músicos e jornalistas, seriam deslocados da receita de mistura que definiria a MPM nas décadas seguintes. Nos seus próprios termos: “o processo de construção da tradição da música maranhense, corre em paralelo ao processo de exclusão de outros estilos e seus representantes”. O brega, formaria então sua linhagem à margem do que era reconhecido como “música maranhense”, dos grandes como Raimundo Soldado e Adelino Nascimento, à reinvenção com Lairton e seus teclados e depois continuando em transformação, com o aparecimento do arrocha e outras fusões, em aproximação com o sertanejo e o forró.
O trabalho dá uma guinada e passa a discutir então o processo de definição da MPM. Novamente nos deparamos com uma riqueza de depoimentos, até mais variados. O desenho interpretativo, em sua armadura mais geral, é similar ao já colocado, com a distinção de dois momentos, mas os detalhes levam a resultados distintos. Bruno estabelece uma contraposição entre a geração Laborarte e a geração Mirante. Enquanto a primeira estaria voltada para a pesquisa, a postura política de combate e o contato com bairros da periferia, a segunda centrava-se na busca do apoio de mídia, na proximidade com os grupos dominantes e na fetichização do registro fonográfico. Assim como no trabalho de Ricarte, os dois momentos privilegiados para a análise são o disco Bandeira de Aço e o aparecimento da sigla MPM.
No caso do disco e todo o imbróglio que ele gerou, com o problema dos direitos autorais, da omissão dos nomes nas rádios etc., existem depoimentos extensos de Cesar e de Papete, botando os demônios pra fora mesmo, pois, como diz este último, “é uma coisa que respinga até hoje, essa coisa rançosa, uma pena porque é um disco tão importante”. O disco foi gravado à revelia dos compositores, as músicas capturadas meio à distância, de forma enviesada e depois conseguida a autorização, apesar das resistências de Cesar e de uma certa desconfiança que pairava no ar. Mas foi um sucesso e chegou a vender na época, segundo Papete, 150.000 cópias.
Várias opiniões são reunidas, todas considerando o trabalho como referência fundamental. Como bem sintetizou Ribamar Filho, dono do Sebo Poeme-se, foi “a primeira vez que a gente se ouviu”. Ou Zeca Baleiro: “Bandeira de Aço foi um divisor de águas na música do Maranhão. Sei de cor e salteado, de trás pra frente, ouvi demais. Pela primeira vez pudemos ouvir em disco e com a qualidade de áudio (ao menos próximo) de um disco de grande gravadora, os nossos ritmos e autores. (…). Aquilo calou fundo na alma do maranhense. E abriu portas para que outros artistas se aventurassem naquela seara. Já havia outros discos feitos antes – Chico Maranhão etc. – mas aquele lá foi certeiro. Conjugou a excelência artística com o poder de fogo comercial”.
Quanto à questão da MPM, o contexto mais atual que a cerca, marcado por um certo “toma lá, que o filho é teu…”, ganha aqui contornos até mesmo hilários, dependendo da perspectiva. No geral os depoimentos descortinam ainda mais as engrenagens em operação, principalmente o papel da Mirante e dos favorecimentos pessoais concentrados na figura de Fernando Sarney. O radialista César Roberto, por exemplo, depois de dizer que “Fernando era o pai da nossa música, né? O padrinho, o ‘paitrocinador’”, afirma que ele foi “um dos criadores dessa expressão MPM”.
Pedro Sobrinho, também radialista, não concorda: “Foram os próprios artistas que criaram essa sigla, Betto Pereira, Gerude, acho que Godão do Boi Barrica também. Hoje eles não gostam, mas ele foi um dos grandes incentivadores. (…) Surgiu através dos artistas e a rádio (Mirante) abraçou, também porque houve um boom lá pela década de oitenta, um boom da música maranhense… foi a partir daí que neguinho resolveu ‘não, a nossa música é a melhor’ e criou a sigla, só que foi um grande, quer dizer, o tiro saiu pela culatra, porque não existe, foi um tiro no pé”.
Betto Pereira, por sua vez, devolve: “É do rádio. Não foi pelos artistas não. Rotularam pra diferenciar, fazer uma diferença do que é a MPB e o que é a MPM… Fez uma merda que até hoje a gente tá penando por isso, que eu não sou artista do Brasil, sou MPM”. Essa relação de estranhamento torna-se ainda mais curiosa com a afirmação de Papete, outra figura emblemática da difusão dessa música, com vários discos tendo compositores maranhenses como base, inclusive um deles intitulado Música Popular Maranhense, que a certa altura diz: “MPM não conheço não”.
Para Cesar Teixeira, “é uma discussão que surge no rádio, na verdade nos bastidores da Secretaria de Cultura, que eu acho que surgiu foi ali. Ou era pra reinaugurar uma geração que não tinha pesquisado coisa nenhuma na vida, tipo assim, legitimar uma geração que não foi lá na zona, que não foi no bumba boi, não pegou em matraca, não sei o que, pra legitimar o que eles tavam fazendo, e de repente vender aquele produto, como se venderia o reggae e outras coisas. E mais uma vez não deu certo”.
Bruno trata da programação das rádios Mirante FM e Universidade FM e de como elas cuidadosamente se apartaram dos boleros e do brega, envolvidas no processo de construção da identidade musical local baseada no bumba meu boi e, de forma mais ampla, representando-se como o moderno e conceitual. No decorrer das entrevistas ele sempre se defrontou com a posição dos músicos (de quaisquer vertentes) e dos jornalistas, todos contrários ao estabelecimento de uma relação entre a “música brega/seresta” e a “música maranhense”.
No modelo explicativo com que trabalha, isso seria fruto da internalização por parte dos agentes da construção da identidade musical maranhense como determinada pela aproximação com a cultura popular, sustentada num processo seletivo e excludente (“elitizante” é um termo várias vezes utilizado – lembro novamente de Lane Mosi). A posição das rádios seria, enfim, sintomática de uma “intenção de afastamento do popular”.
A conclusão a que chega é cruel, mas termina se tornando também uma caricatura do processo: “A MPM seria assim, um arremedo de movimento centralizado na rádio Mirante, que reuniu artistas de música popular inspirados no folclore, com o intuito de criar um elemento distintivo para a música dentro do mercado”. Para entender o que ele quer dizer é preciso não esquecer a maneira como foi colocada a dinâmica do processo, como dicotomia entre geração Laborarte e geração Mirante.
O termo geração Mirante é ótimo, basta destacar um depoimento dado por Mano Borges para um programa de televisão sobre os 30 anos da rádio, quando afirma: “30 anos que se confunde, na verdade, com a história da gente, da nossa música. Eu acho que é uma rádio que foi pioneira em mostrar essa música produzida no Maranhão, e isso nos deu muita visibilidade”.
No entanto, utilizá-lo como Bruno faz, a geração Mirante e a MPM como signos intercambiáveis, obscurece o trânsito que também houve da geração Laborarte para dentro da esfera de influência da Mirante e das secretarias de cultura. Talvez fosse mais simples falar, como Celso Borges, simplesmente em primeira e segunda gerações da MPM. Neste caso, o cuidado é para não esmaecer o fato crucial de que o termo é uma criação da segunda geração, quando a produção já não guarda a mesma qualidade, nem as mesmas características, voltando-se para o mercado fonográfico e as rádios, na busca de uma inserção que tinha ficado até então em segundo plano.
Por não se dar conta da rigidez que o esquema explicativo continha, o texto chega ao final escorregando em passagens surpreendentes ao afirmar que após o estabelecimento da sigla pela ação da rádio Mirante, “músicos da geração anterior como Sérgio Habibe passaram a ser reconhecidos como MPM por mais que não tomassem parte ativa em suas engrenagens”. Ou ainda: “Chico Maranhão se considera MPM, mesmo que a sigla tenha surgido depois da maioria de seus discos”. Em suma, aí ele opera uma disjunção total que torna a coisa toda um pouco confusa, na medida em que passa a configurar quase a existência de dois movimentos (mais do que dois momentos).
Não é possível dizer, por exemplo, que pela filiação à Mirante esta geração “é amplamente criticada pela geração anterior”. Salvo grosseiro engano, o único nome da linha de frente que permaneceu à margem dos canais que se formavam entre artistas, a Mirante e secretarias de cultura, foi Cesar Teixeira. Isso lhe valeu um certo ostracismo, uma distância que funcionou ao mesmo tempo como sua maldição e sua aura de identidade. Em graus variáveis, todos em algum momento participaram dos pequenos canais que se formaram para a produção de shows e gravação de discos de música popular. Basicamente era o esquema de financiamento que se formou aqui.
O trabalho de Bruno vai além da boa etnografia, ultrapassa a observação do fenômeno ao inquiri-lo em sua forma constitutiva, enquanto categoria socialmente legitimada, na trilha de Bourdieu, autor de quem pega as lentes para enquadrar os depoimentos dos músicos e agentes de mídia. Analisa um processo de construção simbólica e sua legitimação, insistindo na lógica da exclusão e sua introjeção, através da naturalização de noções como “cultura maranhense”, atrelando-a a um conjunto de signos retirados da cultura popular, mas filtrados pelas elites, no sentido mais preciso do conceito, portanto, incluindo o próprio Laborarte. Penso que a coisa pode ser encarada de outra forma.
Como é sabido, a discriminação acompanhou a música brega desde a formação do agregado que responderia pela sigla MPB a partir da segunda metade da década de 60. E isto só recentemente começou a se romper. No entanto, esta exclusão funciona mais como um recalque. E aqui não foi diferente, pois não dá para dizer que elementos do bolero e do brega não estão presentes na obra desses compositores, ontem e hoje. Me vêm imediatamente músicas como o bolero Babalu, que abre Emaranhado, de Chico Saldanha, seguido da cafonice fundamental de Mara, com aquele órgão hammond lá no fundo, ou ainda bregas escancarados presentes em seu disco anterior, Celebração, como Baby e Telma e Louise. Cesar e Josias não têm influência de brega? Acho que eles dificilmente negariam. Mas do velho brega, da cultura da zona, como enfatizou o primeiro.
E nem teria como ser tão diferente porque isso tudo rodava muito nas rádios. Quando Bruno analisa a questão da programação das duas FM e, através de vários depoimentos, mostra como o que era considerado muzak, de mau gosto, “brega” (Waldick Soriano, Roberto Carlos, Agnaldo Timóteo, Odair José ou Wando, por exemplo), não rodava, fala como se não estivessem presente direto nas rádios AM. Isso não invalida a percepção geral defendida no livro, principalmente a questão dos modos de incorporação e legitimação que culminaram na invenção midiática da MPM, mas abre um caminho para nuançá-la e olhar a persistência desses elementos, que estavam introjetados e não poderiam ser tão facilmente apagados.
Também na década de 80 a onda do reggae se colocava com força e o ritmo terminou sendo absorvido, não ficou à margem, passou a frequentar os discos dos compositores maranhenses. E igualmente parece ter criado um nicho próprio, com bandas, gravações etc. e ainda com a particularidade do negócio das radiolas, mas hoje faz parte do cardápio oficial e é vendido na prateleira da diversidade. O potencial de afirmação de diferenças parece ter se diluído sob o guarda-chuva da “maranhensidade” e a noção de Jamaica Brasileira foi incorporada de maneira a esvaziar o potencial crítico da ordem social e cultural vigente.
Toda essa conversa pode parecer uma ruminação de águas passadas, na medida em que o quadro atual, à primeira vista, tem características muito distintas. É o que pode ser percebido na leitura de dois instigantes e, até certo ponto, antitéticos artigos a respeito do recente festival de música do projeto BR-135 e seu significado no contexto das artes, publicados em 27 de dezembro e 3 de janeiro últimos no Caderno Alternativo do jornal O Estado do Maranhão. Refiro-me aos textos DR-135, do mesmo Bruno Azêvedo e Não há saídas (só pontes e avenidas), de Reuben da Cunha Rocha.
Para encurtar o que já vai longo, Bruno faz um comentário bastante elogioso do festival, por expressar a diversidade atual das bandas e pelo local de realização (a Praia Grande) e do projeto, por ser o resultado de uma “ação política” dos produtores (Luciana Simões e Alê Muniz), que indicaria “uma boa chance para mudança paradigmática dos produtores locais”. A existência de uma ¨cena” artística em plena ebulição, um modelo de produção viável e, por fim, a “mudança política” anunciada são os ingredientes principais do texto.
A questão a que o BR-135 apontaria uma “saída” é de como “fazer acontecer uma cena que já acontece”, identificada por duas características: 1) “a cidade anda cheia de bandas de estilos diversos”; 2) “essas bandas tão (sic) interessadas num som autoral e desamarrado dos medalhões de identificação da cidade/estado”.
Correlato a este processo, que vem de algum tempo, ocorre agora a alteração política com a derrocada do grupo que comanda o estado há décadas, abrindo possibilidades de romper a “organização feudal” em que se tornou a pasta da cultura. Para isso, diz, “espero muito que a nova gestão consiga desfolclorizar a Secretaria de Cultura ou que aja uma ação dos produtores nesse sentido”. E conclama os artistas em geral a se inteirarem das possibilidades abertas com as leis de incentivo e a “convencer as empresas da importância estratégica do investimento na arte”. No horizonte, a aposta de que a “efetivação de uma política pública para a cultura transparente e impessoal”, seja uma alavanca para as atividades artísticas, um caminho “em direção ao público, à cidade, ao seu próprio ofício”.
O texto de Bruno é muito bom, vibrante, tocando em várias questões referentes ao esgotamento de um padrão de política cultural que vigora há décadas. Uma semana depois recebeu um comentário forte de Reuben. Um artigo radical no melhor sentido, opondo logo no título à “saída” do BR as conexões das “pontes e avenidas”.
No geral, ampliava o escopo da ¨cena¨ referida, recusando qualquer viés de apresentação do festival como sua expressão. “O que discuto no texto de Bruno é a tentativa de sequestrar, para sua formulação do BR-135, certos traços da experiência mais ampla e mais ousada que tem borbulhado na panela da ilha. Nessa jogada, ele esvazia os aspectos mais radicais ou pelo menos mais inquietos”.
Reuben expõe a desconfiança com um esquema voltado para a “profissionalização”, que estimula a troca e a mistura, mas “capitaliza experiências radicais como se fossem ‘cases de sucesso’”. Não é propriamente uma recusa, antes uma observação que recupera a importância das formas de agrupamento não marcadas pelo viés “empreendedorista” e sim pelo caráter mais “autonomista e não hierárquico”, como a experiência do Sebo no Chão, no Cohatrac, “que nunca deixa de acontecer e se vale das melhores e piores condições com o mesmo empenho”, ou a da Casa Loca, “que além de boa banda é uma casa ocupada mesmo, e parece que é louca”.
Não tenho condições de comentar o leque que ele apresenta do cenário contemporâneo das artes na Ilha, mas mesmo para quem conhece tão pouco é possível sentir os ventos e a energia que começam a despontar desses sons e imagens, dessa nova gestualidade, do “trânsito de linguagens”, claramente impulsionados por “dispositivos que apontam para a autonomia: a capacidade de gravação, a coletivização do trabalho produtivo, o domínio dos meandros da captação de recursos”.
Neste sentido, o chão da experiência atual é realmente muito distinto, tanto no referente às possibilidades de produção e circulação quanto aos desafios estéticos e políticos a responder. Os anos 70 e 80 marcaram aqui a passagem de uma configuração cultural caracterizada pelo predomínio dos signos de erudição para a incorporação de signos extraídos da cultura popular. Tal processo atingiria seus contornos mais definitivos somente na década de 90, através da ação concertada entre agências estatais e agências de comunicação, e terminou propiciando um aprisionamento e até uma acomodação dos artistas. O que se põe hoje é a necessidade de recriar os canais e ativar outros para uma nova leitura da diversidade cultural, que não seja refém de uma visão asfixiante da identidade e permita ao Maranhão se ver refletido em outros lugares, além do casarão ou do bumba meu boi. Para isso, mais do que (re)ler o local, a questão é como absorver o estranho e deixar acontecer as vias de combinação, vale dizer, de destruição das fórmulas de exaltação predominantes.
Para Reuben (no que Bruno concorda), “uma evidente liberdade se coloca entre a geração mais nova e os mais longevos fantasmas da cultura maranhense. Já quase não se sentem os ecos de certa ideia de legitimidade antes pretendida sobretudo através da cultura popular. O Maranhão, na música mais nova que tenho ouvido, aparece em outro lugar”. Liberados de qualquer “acerto de contas” com o passado, “afinal os mitos deixaram poucos discos e tudo depende da memória hiperbólica dos que lá estavam”, essa geração estaria de certo modo, liberada de carregar o fardo da “preservação da cultura”, abrindo espaço não só para um leque mais amplo de gêneros como, principalmente, da perspectiva que ele se coloca, para a experimentação mais radical e subversiva. Na formulação feliz: “O jogo agora é com o estúdio e não com o histórico”.
O dilema é o que fazer com essa “liberdade”, pois se é possível dispensar “a demanda dos fantasmas históricos”, é necessário também fugir dos “acertos do mercado nacional”, ou seja, do velho sonho de “estourar”. O próprio Reuben alerta: “não adianta tirar onda dos velhos medalhões para acabar refém de outros lugares de poder”.
Se não estamos mais na posição de reféns da relação entre arte e cultura popular, é bom frisar que isto se deu antes pelo desgaste da fórmula e pelas possibilidades abertas com os novos meios de produção e comunicação do que por qualquer diálogo crítico com essa “herança”. Não é apenas “um papo desgastado entre nós”, como Reuben e Bruno parecem concordar, é uma limitação que essa nova geração vai carregar, apesar de ser também por onde vai tentar se livrar dos “fantasmas da cultura maranhense”, que poderia sintetizar na necessidade de ultrapassar a tônica do “Maranhão, meu tesouro, meu torrão…”, o canto de sereia da ordem vigente.
Não me refiro, é claro, à bela toada que Humberto deixou gravada na memória da cidade, mas ao narcisismo ludovicense historicamente enraizado, que sempre deu o tom de nossas mais duradouras representações e ajuda a entender como um momento tão rico de transformação da música popular, capaz de definir os contornos de uma estética regional na linha de experimentações do período, desembocou na caricatura pretensiosa que significou a sigla MPM.
*FLÁVIO REIS é professor do Departamento de Sociologia e Antropologia da Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Publicou Cenas marginais (ed. do autor, 2005), Grupos políticos e estrutura oligárquica no Maranhão (ed. do autor, 2007; 2ª. ed. 2013) e Guerrilhas (Pitomba!/Vias de Fato, 2011).
João Soeiro trajava uma camisa de bolso e deu seu depoimento à Chorografia do Maranhão na Quitanda Rede Mandioca. Pode até ser mera coincidência, mas nestas linhas iniciais já aparecem duas experiências suas com o choro: os grupos Camisa de Bolso e Choro de Quitanda, por que passou.
Nascido em Pinheiro/MA, em 4 de julho de 1972, João José Soeiro Pereira é professor de violão popular na Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo, filho da dona de casa Lucília dos Santos Soeiro Pereira e do boêmio – de profissão – Mário Pereira, “casado três vezes, estudou para ser padre, foi criado por três freiras. Largou a batina pela boêmia”.
Com cerca de 40 composições, algumas já registradas, o 29º. entrevistado da série transita bem entre dar aulas, tocar na noite e na igreja. “Fui um crente que revolucionou a igreja”, diz, sorrindo. Antes do violão, Soeiro tocou cavaquinho, que aprendeu com um pescador de Tutóia. Além da EMEM, dá aulas no Colégio Educator e em projetos sociais, incluindo o Musicar e a Orquestra Tocando o Choro, do Sesc.
Foto: Rivanio Almeida Santos
Além de boêmio e de ter estudado para ser padre, teu pai fazia o quê? Meu pai foi detentor de muitas riquezas das três freiras [que o criaram], deixaram muito ouro, muita terra para ele. Ele não fazia nada, era boêmio. Por conta das grandes amizades, na política, arrumaram um emprego para ele no IPEM [o Instituto de Previdência do Estado do Maranhão], funcionário público, final de carreira já, arrumaram um serviço na Secretaria de Saúde.
Além de músico, você tem outra profissão? Eu fiz de tudo. Fui comerciante, balconista, farmacêutico, trabalhei em oficina mecânica, forrador de gesso, ajudante de pedreiro e encanador. [Hoje ajudo como] Zelador da igreja evangélica.
O que você ouvia em casa quando era pequeno? Eu ouvia muito [os cantores] Orlando Silva, muito Nelson Gonçalves, essa coisa da boêmia mesmo, Altemar Dutra, ouvia choro também, Waldir Azevedo [cavaquinista], Pedacinhos do céu, o disco Pedacinhos do céu tocava direto lá em casa, meu pai tocava esse choro.
Isso tocava em discos que ele comprava, no rádio, ele era um grande comprador de discos? A gente ganhou uma vitrola, uma vitrola da Philips, momento comercial [risos], então os amigos, meu pai tinha grandes amizades, eles traziam os discos para ele, a gente ouvia em casa, e ele tocava muito chorinho também. Meu pai tocava muito choro, meu irmão também.
Com que idade você veio para São Luís? Em 1981, quando minha mãe vem a falecer, meu irmão, que eu não conhecia, mais velho, o primeiro filho de meu pai, vai buscar meu outro irmão de 14 anos, para viver num comércio em Belém, ele tinha um comércio, tocava. Aí meu irmão não vai, não quer ir, e eu quis ir, “rapaz, eu vou”, com nove anos de idade, vontade de conhecer os novos horizontes, fui para Belém, com esse meu irmão. Esse meu irmão meu pai já tinha levado, meu pai já estava com Mal de Parkinson, já não tocava mais, já estava bem idoso. Meu irmão me leva para Belém, também boêmio, comerciante, sempre gostou de boa música, tocava, aprendeu uns choros que meu pai tocava. Aí eu começo a querer pegar no violão, mas ele não deixava, ele tinha um ciúme danado! Esse violão meu pai comprou em 58, já tinha 10 anos quando meu pai comprou, ele é de 1948, e meu pai tinha comprado em 58. Esse meu irmão tinha um bar, tocava no bar. Em 84 a gente veio para São Luís. Aqui a gente montou o Conjunto Vinagreira, lá no Angelim. Quando a gente chegou aqui ele montou um barzinho menor e a gente começou a tocar. Esse meu irmão, que eu chamo hoje de pai, seu Edson, todo domingo ouve o Chorinhos e Chorões [programa de rádio apresentado pelo chororrepórter Ricarte Almeida Santos na Rádio Universidade FM, 106,9MHz]. Ele era um colecionador de chorinho, gosta muito de Saraiva [saxofonista], adora aquele choro Lágrimas de namorados [de J. Luna e Luiz dos Santos], me ensinou. Eu digo que esse foi o único choro que eu ensinei pra Juca [do Cavaco], Juca me ensinou todos os choros [risos]. Foi a partir daí, de 84, eu já com 12 anos, lá eu começo a tocar cavaquinho, lá na roda, os caras tocando pandeiro, eu tocava cavaquinho fazendo a base, só o centro mesmo, não solava. Quando dá em 87 começam a ir os grandes mestres da Escola de Música na minha casa: Zezé Alves [flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 9 de junho de 2013], Domingos Santos [violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 16 de março de 2014], Raimundo Luiz [bandolinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 15 de setembro de 2013], eles começaram a frequentar lá o bar de seu Edson, lá em casa. Aí com essa influência eles “rapaz, bota esse moleque na Escola de Música”. Foi aí que eu fui para a Escola de Música.
Quem foram teus primeiros mestres de cavaquinho? Olha, meu primeiro mestre de cavaquinho foi seu Assis, um pescador, lá de Tutóia, analfabeto. Foi ele quem me ensinou os primeiros acordes de cavaquinho. Ele era frequentador de nosso bar, lá. Foi meu primeiro mestre de cavaquinho, eu comecei a tocar cavaquinho. Só que a minha grande paixão era o violão, meu pai tocava, meu irmão tocava.
E quando foi que o violão entrou na tua vida? O violão entra mesmo na minha vida por conta da igreja [Congregacional]. Eu entro na igreja em 1984. Só que eu fiquei dividido entre a igreja e o bar, eu não largava nem a igreja nem o bar. Eu fui o primeiro irmão revolucionário [risos], é verdade, isso é fato, verídico. [O primeiro] que revolucionou essa coisa de o pastor deixar tocar no mundo e estar na igreja. Eles [os pastores] viram que não tinha jeito: a minha musicalidade brasileira era muito forte e eu não aguentava tocar aquelas coisas americanas na igreja. Eu disse: “rapaz, eu gosto é de samba, é de chorinho, é de baião, é de bumba meu boi, essa música é nossa e é isso que me encanta”. O pessoal ficou “rapaz, esse moleque é doido”. O que eu achei legal é que eles não desistiram da minha pessoa, mesmo eu sendo assim. Eu fiquei no bar e na igreja, tocava no bar e tocava na igreja.
Quem te ensinou violão para você passar a tocar na igreja, as primeiras lições, o começo da história, o mestre principal? Rapaz, foi o seu Edson. Foi ele que me ensinou os primeiros acordes. Aí a galera da igreja foi me passando, começaram a me passar as músicas da igreja. Antes meu irmão brigava para eu não pegar violão e eu aprendia olhando. Ele dizia que eu conseguia decorar as posições sem ter o instrumento. Eu peguei um dia um pedaço de ripa, preguei umas cordinhas e comecei a treinar. Aí ele viu que eu tinha jeito pra coisa e começou a liberar o violão para eu tocar. Aí começou a história.
Qual era a formação do Vinagreira? O Conjunto Vinagreira era seu Buca, um taxista, no pandeiro, seu Maranhão na cabaça, o meu irmão, seu Edson, no violão, e o seu Assis no cavaquinho, ou eu, quando ele faltava. Aí tinham vários curiosos cantando, mas o grupo instrumental era esse aí.
Isso durou quanto tempo? E por que acabou? Isso vai de 85 a 93. Nossos amigos infelizmente foram falecendo, seu Assis faleceu, seu Buca foi embora. Meu irmão foi enfraquecendo, as condições financeiras para manter o bar, boêmio dono de bar é complicado, aí foi definhando. Mas eu digo que o Vinagreira não acabou, restou este que vos fala, uma raiz de lá do Vinagreira, que estava no empirismo, no senso comum. Foi a partir desses grandes mestres da Escola de Música que eu fui começar a saber o que era uma nota.
Depois do Vinagreira você participou de outros grupos? Há um interlúdio, um tempo de reflexão em que eu comecei a estudar e ser lapidado. Fui para a Escola de Música, comecei a tirar os vícios, os grandes mestres me ensinando. Como eu tocava, eu queria tocar, estar lá no meio, mas eu não tinha técnica apurada ainda para tocar com os grandes mestres, os caras estavam noutro nível. Eu tocava na base do “empurra, lá vai ele”. Quando foi em 2002, que eu passo no concurso para ser professor da Escola de Música, aí sim, eu começo a montar grupos lá dentro da Escola de Música, com meus alunos, grupos de choro, como eu queria ter feito. A partir de uma viagem, em 2004, com Osmarzinho [Osmar Jr., saxofonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 5 de janeiro de 2014], nós fizemos umas apresentações juntos em Brasília, tocamos um choro chamado Confusão, Osmarzinho arrebentou, a gente fazendo a base, todo mundo chegou pra junto: “lá no Maranhão tem choro?”. “Tem choro sim!”. O primeiro grupo que eu toquei realmente choro, foi um grupo que foi até Ricarte quem botou o nome: o Choro de Quitanda. Formação: Zezé na flauta, João Soeiro no cavaquinho, Nonato Privado no violão e Lazico [Lázaro Pereira] no pandeiro. Foi o primeiro grupo em que eu toquei assim já mais lapidado.
Foi no Clube do Choro [Recebe]? Foi no Chorinhos e Chorões, nós fizemos um programa.
E a família sempre te apoiou nessa escolha de ser músico? Sempre houve um ambiente favorável ou as pessoas brecavam? “Olha, João, isso aqui não dá futuro”, ou coisa do tipo? Como todo músico sofreu essa pressão de que “música é coisa de vagabundo”, nesse período, em que não se via ainda o profissionalismo na música, era notório nas pessoas, na própria igreja que eu tocava, “rapaz, tu tem que estudar outra coisa, fazer outra coisa, isso é coisa de boêmio, tu vai acabar sendo cachaceiro que nem teu pai”, as pessoas já diziam que meu pai era cachaceiro. A partir daí eu comecei a fazer outras coisas também, por conta dessa pressão. Eu tinha que me manter, morava de favor, com meu irmão. Larguei os estudos da música para fazer outras coisas, fui fiscal de ônibus, trabalhei três anos na [empresa] São Benedito.
Hoje você vive de música? Hoje, graças a Deus, eu vivo de música. Sou realizado. Sou professor da Escola de Música, sou professor do Colégio Educator, trabalho para o Sesc [Serviço Social do Comércio], toco na noite, toco com meus amigos, e hoje eu tenho o prazer de dizer: do palito de fósforo à pizza mais gostosa, à comida mais gostosa eu pago com música, com os acordes. Meu filho quando era pequeno, eu dizia que ia tocar, ele achava que eu tocava e o dinheiro saia do violão [risos].
Além do Vinagreira e do Choro de Quitanda, quais outros grupos musicais você já integrou? Eu já integrei Os Cinco Companheiros, choro de gafieira, a partir dessa viagem com Osmarzinho, o Camisa de Bolso está com três anos, a gente já fez várias apresentações no shopping. Essa é uma história muito engraçada. O Camisa de Bolso começa lá no Antigamente [extinto bar na Praia Grande], eu, Roquinho [cavaquinista] e o filho dele [o percussionista Léo Caroço], e todo mundo que me conhece sabe que eu toco dançando, brincando, fazendo munganga ou gatimonha, como diz Raimundo Luiz [risos], e a gente tocando lá no Reviver, de repente vem um gringozão, mais de dois metros, na minha direção, na direção do grupo. Eu fiquei assim atônito, “rapaz, esse cara vai me dar uma bolacha!”. De repente ele tira alguma coisa do bolso e bota no meu bolso, na minha camisa. Aí, que eu olho para Roquinho, tá com a camisa lisa, e o filho dele com a camisa lisa, só eu com camisa de bolso. Que eu olho pra dentro, cem dólares! [gargalhadas dos chororrepórteres]. Aí eu disse: “nunca mais toco de camisa lisa, só de camisa de bolso”, batizei o grupo de Camisa de Bolso. Depois outras senhoras botaram mais uns 40 reais, e eu disse “olha, eu só toco de camisa de bolso, a partir de hoje”. É uma história verídica. Aí também tive o prazer de fazer participações com o [Instrumental] Pixinguinha, mas os grupos de choro que a gente integrou foram esses.
E grupos de samba? Eu tenho sido chamado pra fazer com Rafael Guterres [cavaquinista], toquei com o [grupo] Amigos do Samba.
Eu lembro que você participou daquele show em homenagem a Noel Rosa [o showNoel, Rosa Secular, de Chico Saldanha, Joãozinho Ribeiro e Josias Sobrinho, com Cesar Teixeira na primeira edição, apresentado em 2010 e reprisado em 2011, vencedor de um Prêmio Universidade FM]. O que significou aquilo para você? Aquilo foi muito significativo para mim. O centenário de Noel Rosa, eu ser chamado para fazer o violão seis cordas, com o Domingos Santos no sete cordas. Mudou muita coisa na minha cabeça, culturalmente, harmonicamente, no que é Noel Rosa, a gente vai entender que era um gênio realmente do samba, com 26 anos deixar mais de 200 músicas. Nós tínhamos ali Josias Sobrinho, Joãozinho Ribeiro, Chico Saldanha, Célia Maria [a lista de participações especiais se completava com Lena Machado, Lenita Pinheiro e Léo Spirro], e instrumentistas como Juca do Cavaco, Domingos, o grande João Neto [flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 2 de fevereiro de 2014], Arlindo [Carvalho, percussionista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 18 de agosto de 2013], um trabalho maravilhoso.
E disco? Você gravou algum disco? Tem participação? Não. Eu tenho músicas gravadas. Um choro meu que está no cd [Made in Brazil] de Robertinho [Chinês, bandolinista e cavaquinhista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 28 de abril de 2013], Chorando de saudade. E tenho composições, a minha música O menino da feira foi agora para as eliminatórias finais do Festival Viva. Eu fiz essa música, eu indo para a Escola de Música, e tinha um menino dormindo no ônibus. Eu empurrei ele e disse: “o que é, rapaz, tu tá xilado uma hora dessas, oito e meia da manhã?”. E ele disse: “não, tio, é que eu junto verdura na feira pro meu pai, pra gente botar pros animais”. Depois ele desceu, saiu correndo e eu fiz uma canção pra ele assim [canta, se acompanhando ao violão]: “tão pouca vida/ e já cansado/ do estresse urbano/ da sacola da feira/ tão poucos sonhos/ todos frustrados/ (…)/ Lá vai o menino da feira/ chutando o repolho/ pensando que é bola/ pedindo pra alguém pra pegar a sacola/ sobrou o limão/ não deu pra ir pra escola// Lá foi o menino da feira/ sacola vazia/ não deu pra juntar/ cebola, tomate/ tá tudo caro/ não deu pra ninguém// Lá foi o menino sonhando, sonhando/ com a próxima feira/ será que algum dia ele come uma pera?/ será que tem feira?”. Essa música está no disco do Tony Soubler [cantor], ele gravou essa música com arranjo do Marquinhos Lussaray [o violonista e guitarrista Marcos Lussaray]. As duas músicas minhas que ele gravou, essa e Mulheres. Só um pedacinho pra ver se vocês aprovam. Essa música, na verdade, eu fiz pensando em como Adão se sentia nos dias em que ele estava sem mulher [canta, se acompanhando ao violão]: “Antes de você chegar/ havia tristeza, encoberta a beleza estava/ e no campo e nas florestas/ não se ouvia nenhuma festa/ (…)/ nem havia tão fácil sorrir/ sem você, mulher/ o mundo era menor/ foi então que o criador percebeu/ que a solidão o homem entristeceu/ e fez você, mulher/ harmonia, alegria pelo campo, e a fantasia”.
Você faz letra e música? É, letra e música. Até então eu só fazia música gospel, que é meu mundo, meu universo. Mas tudo assim, samba. Eu tenho um samba que foi gravado por uma galera de Goiânia, que é [canta, se acompanhando ao violão]: “essa força que vem lá de dentro do meu coração/ força tremenda, que não dá não, pra explicar/ mas se eu pego a viola, com todo carinho/ e ouço o gemido do meu cavaquinho/ se tenho um pandeiro/ na ginga, na bossa do samba que traz/ se é na poesia/ ou nos versos de uma linda canção/ eu tenho o Senhor como centro maior da inspiração/ (…)”.
Atualmente você está integrando algum grupo? Os Cinco Companheiros e o Camisa de Bolso são grupos que não acabam. A gente está sempre fazendo algum evento. Rapaz, eu esqueci aqui de um grupo maravilhoso que eu fiz parte durante dois anos, o Nós da Música, que é um grupo da Tania Rego. Era eu, Tania Rego, Adriana Soraya e Nonatinho na percussão. A gente tocava bossa nova, era muito gostoso.
Você também se envolveu em projetos sociais com a música. Hoje, na verdade, eu sou coordenador de um projeto de música chamado Musicar, em duas comunidades, na Divineia e no Maiobão. É desenvolvido pelo Sesc. Hoje eu sou regente. A partir de 2007 a gente criou uma orquestra de choro com os meninos. Tem um menino muito bom, tocando, Raul, fez recital na Escola agora. Estamos na ativa, uma orquestra tocando choro.
A cada ano tem alunos novos, que entram? Como é que funciona? Isso! E os alunos que vão se destacando a gente vai inserindo na orquestra. A orquestra hoje é no Maiobão, o sonho do Sesc é trazer para a Deodoro.
Qual a importância de contribuir com comunidades tidas como carentes, com este tipo de iniciativa? Eu me sinto muito feliz. Os relatos que a gente tem lá na comunidade são de benefícios diretos da música para estes jovens. Na escola, concentração, na família, o comportamento. A gente faz reuniões periódicas com os pais e eles trazem este depoimento pra gente. “Meu filho melhorou a concentração”, “meu filho está mais obediente em casa”, “meu filho está mais caseiro, por conta de estar estudando um instrumento”. E fora que no projeto nós já temos alunos na UFMA, alunos na Escola de Música, tudo isso é qualidade de vida que foi levada para eles através da música, e a gente é muito feliz com isso. Quando a gente começou a levar o choro, disseram: “mas choro com essa juventude?” O que ficou notório? O povo gosta de boa música, às vezes não tem é onde ouvir. Além disso, eu trabalho com musicalização infantil, sou o Tio João, na Companhia Vovó Beth, adoro trabalhar com isso, dou aula para a garotada, de dois anos de idade até…
Para você, o que é o choro? O choro é o ápice do estudo musical do instrumentista. Simplesmente por que ele é a música brasileira mais difícil de ser tocada. Pela sua complexidade rítmica, harmônica, melódica. Eu converso com meus amigos, olha, Pixinguinha faz cinco choros em fá, você analisa o campo harmônico dos cinco choros, é muito parecido, e as melodias são totalmente diferentes. Incrível, você vê Os cinco companheiros é em fá, vai pra ré menor e a terceira parte é em si bemol; Chorei, a mesma coisa; Cheguei, a mesma coisa; Proezas de Solon, a mesma coisa. E todas essas quatro músicas, não é por que você aprendeu a tocar uma que você sabe tocar as outras. Não! É a música mais complexa que existe, não desmerecendo os outros ritmos.
Quem é o chorão, de toda a história, que mais te fascina? Eu sou apaixonado por Waldir Azevedo. Foram as músicas que eu ouvi na infância, ouvi desde pequeno, acho o cavaquinho um instrumento belíssimo, maravilhoso.
Você se considera um chorão? [Pensativo] Sim. Eu me considero um chorão por que eu não sei viver sem o choro. Mesmo quando eu não estou tocando, eu tenho que ouvir, por que o choro faz parte da minha identidade. As minhas composições, o ritmo, é tudo com choro. A gente na Escola de Música, com esses grandes mestres, eu sempre balancei em criar esses eventos, assim, esse Dia do Choro, fui um dos primeiros a fazer, 23 de abril [data de nascimento de Alfredo da Rocha Viana Filho, o Pixinguinha, em que se comemora o Dia Nacional do Choro], hoje é um evento grande, mas fomos um dos primeiros, eu e Nonatinho [percussionista]. Foi a partir dali que todo 23 de abril a gente faz um evento do choro em São Luís.
Entre as pessoas para quem você deu aulas, quem você destacaria? Eu tive a honra de dar aula para Robertinho [Chinês], é um exímio instrumentista, Rafael Guterres, fui agraciado agora com um show de Israel Costa [cantor], que foi meu aluno de percepção na Escola de Música, gravou cd agora. E outros, Lee Fan, foi meu aluno de cavaco, hoje é flautista, toca sax, está tocando piano também. É muita honra, e saber que hoje eles estão no meio musical. Os meninos do projeto lá do Maiobão, Raul, e Rardson e Adenardson, foram meus alunos do zero, começaram sem saber onde botar os dedos no violão e hoje estão aí.
Quando Domingos da Silva Santos nasceu, em 3 de julho de 1955, Miritiba já passara a se chamar Humberto de Campos, em homenagem ao escritor maranhense nascido ali. Miritibano, como se chamavam os que nasciam na cidade, dá nome à faixa de abertura de Choros Maranhenses [2005], disco de estreia do Instrumental Pixinguinha, do qual é titular do violão sete cordas.
O músico deu seu depoimento à Chorografia do Maranhão na Sala Turíbio Santos [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 29 de setembro de 2013], em que dá aulas na Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo [EMEM].
Filho do saxofonista e comerciante Raimundo Nonato Amaral dos Santos e da dona de casa Maria José da Silva Santos, o músico é bacharel em Geografia, mas nunca atuou na área. “A música bateu mais, não foi preciso andar atrás de emprego, me agarrei com ela”.
A seu lado, dos outros professores da EMEM com que forma o Pixinguinha, e de outros mestres já saudosos, seu falecido pai figura na lista de compositores de Choros Maranhenses. Seu grupo gravou Não se esqueça de mim.
Foto: Rivanio Almeida Santos
Como era o universo em casa, familiar, era propício à música? Eu morava numa casa de festa. Papai era músico. Ele tinha uma orquestra que tocava as festas de Humberto de Campos, das redondezas, não era só da cidade. Eram bateria, banjo, tuba, trombone, saxofone, trompete e pandeiro. Tocava a região inteira lá.
E o que se ouvia em casa? Papai tocava choro. Na verdade a gente não tinha nem rádio. A gente só escutava as festas. Mamãe fazia essa festa de Santo Antônio, lá o pessoal amanhecia. Amanhecia tocando choro, cantando.
Teu pai além de tocar era professor de música? Ele deu aulas para alguns lá. Já morreu com 94 anos, até 80 e pouco ainda andou dando aula para uma criançada lá. Nada foi assim pra diante.
A vida dele era só música ou ele tinha outra profissão? Ele tinha um comércio. Lá, Humberto de Campos, era uma região muito pobre, a história é farinha e peixe, só isso [A pedido do flautista Paulinho Oliveira, também professor da EMEM, Domingos Santos conta uma história:]. Eu estudava aqui na Escola de Música, tinha um professor de piano que falava assim pra mim: “rapaz, faz de conta que tu estás pegando uma laranja”. E eu: “rapaz, lá no interior só tem manga” [risos dos chororrepórteres e do entrevistado]. Mamãe fazia remédios caseiros, e comprava remédio em São Luís e revendia lá.
Teu pai era saxofonista? Saxofonista. Tocador mesmo! Lia partitura que era uma beleza. Inclusive quando o Pixinguinha, depois que acabou, a gente fez uma nova formação, eu, Marcelo [Moreira, violonista], Zezé [Alves, flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 9 de junho de 2013], Paulinho, a gente foi tocar na festa de Cururupu, e ele estava lá e tocou com a gente.
Com que idade você veio para São Luís? Eu vim fazer o ginásio no Liceu, em 1973.
Vocês são quantos irmãos? Nós somos nove. Morreu uma. São quatro homens e cinco mulheres. Aí morreu uma.
Quando teu pai ia fazer festas, você garoto, acompanhava ele nessas festas? Não. Eu vim acompanhar depois, nas rezas lá de casa. Tinha as ladainhas, aí eu passei a tocar. Ele tocava as ladainhas lá com esse grupo. Depois de muito tempo é que eu comecei. Eu tenho a [gravação da] ladainha tocada com eles, com essa formação. A gente estudava música lá em casa e outro dia descobrimos que papai tinha um violão dentro do guarda roupa. Alguém comprou no comércio, não tinha dinheiro para pagar e deu esse violão. E ele tocava um pouco de violão também. Aí ensinou um acorde para outro irmão meu, eu aprendi, ele que já me ensinou. Aí eu comecei a tocar. Passei a tocar no Ginásio Bandeirante, na época, festas de dia das mães, dia das crianças. Lá também funcionou o Clube Alvorada de Leôncio Rodrigues, e ele fazia show de calouros. E eu passei a tocar nesses shows, com 12, 13 anos.
Foi essa a idade com que você começou a tocar em ladainhas? Com 12, 13 anos eu comecei a estudar música com papai. Depois, com uns 13 anos, a gente descobriu que ele tinha um violão, ele sabia um pouco de violão, começou a ensinar pra gente, e a gente começou. Aí passamos a tocar, só de ouvido. Engraçado que o primeiro solo de violão que eu fiz, eu aprendi com minha vó, que tocava violão. Meu avô também tocava, a parte materna toda tocava.
Você vindo dessa linhagem musical, teu filho seguiu na música? Meu filho mora com a mãe dele, não mora aqui. A gente inclusive tem pouco contato.
Você vindo dessa tradição de família musical, seu pai tocava sax. Como é que você optou pelo violão? É por que todo mundo lá em casa tocava um pouquinho. Foi a época em que eu vim para cá para São Luís. Joaquim [Santos, violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 8 de dezembro de 2013] morava na casa da minha tia, na Rua do Ribeirão [Centro], era muito amigo de Viriato Gaspar [poeta maranhense radicado em Brasília], que é meu primo. Em 1981 eu vim estudar na Escola de Música. Aí eu participei em 1985 do Festival Viva [de Música Popular do Maranhão], Fátima Passarinho, que tem esse nome por causa da música [Canto de Passarinho]. Na época Gerô [o artista popular Jeremias Pereira da Silva] botou como se fosse minha e do irmão dele, ele participou com várias músicas e só podia parece que duas [pelo regulamento]. É minha e de Gerô, poucas pessoas sabem disso. Inclusive a gente participou de festival na UFMA, há poucos dias eu estava folheando uma revista e olhei uma música, minha e de Gerô, que eu nem sei como é, a melodia eu não lembro.
Essa música que Fátima [Passarinho] defendeu no [Festival] Viva, você tocou? Toquei no Festival. Na gravação é [o multi-instrumentista Arlindo] Pipiu que toca.
Quem foram teus principais mestres? De música foi papai. Partitura musical. Mas professor de violão mesmo foi Marcelo. Só tinha ele na Escola de Música quando eu cheguei.
Quando você deu o salto do seis cordas para o sete cordas? Foi uma necessidade. O Instrumental Pixinguinha, na primeira formação, era Carbrasa [percussionista], Solano [Francisco Solano, violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 26 de maio de 2013], Marcelo, eu, Paulinho [flautista] e [o bandolinista César] Jansen. Era a primeira formação, ensaiamos seis meses para tocarmos dois shows [a Suíte Retratos, de Radamés Gnattali, maestro e compositor gaúcho]. Depois teve a gravação do disco de Rosa Reis, Estrela, música de Joãozinho [Ribeiro, compositor]. Aí começou uma história que Marcelo disse que o bandolim de Jansen estava desafinado, a flauta de Paulinho estava desafinada, tinha que refazer. Aí Jansen entregou a partitura dele para Marcelo. Inclusive Marcelo fez no violão a parte do bandolim nessa gravação de Estrela. Ah, esqueci do nome de Biné [do Cavaco], tocava cavaquinho. Aí acabou o grupo. Paulinho não foi refazer, Rosemary [Fontoura, pianista] fez no teclado, Jansen não foi refazer, Marcelo fez no violão.
Quem é o grande violonista que mais te inspira? Eu, na verdade, passava o ano todo esperando Turíbio e João Pedro Borges [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 14 de abril de 2013] virem tocar aqui. Eram só eles quem tocavam aqui. Eu não conhecia outra pessoa. Tudo o que eu aprendi de violão foi com Marcelo. Marcelo é um cara… mas eu fiz curso com João Pedro, com Joaquim, com Turíbio, e viajei. Eu fiz cursos em Londrina, em Brasília, com Eustáquio Grilo, aqueles cursos de verão, e Henrique Pinto. E as outras coisas é assistindo mesmo por aqui, o que aparece.
Teu pai, além de músico, instrumentista, mestre de banda, também era compositor. Papai tem cento e poucas músicas. Eu vou editar, até falei com Zezé. É um acervo significativo, muita música. Uma vez eu fui para Pindaré, fui tocar com Osmar [do Trombone, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 23 de junho de 2013]. Papai tocava suas próprias músicas em festas. Ele tocava forró, tocava samba. O pai de Osmar [José Furtado, saxofonista] passou uma meia hora tocando uma música. Aí ele perguntou: “e o senhor não termina essa música?” Aí ele disse: “não, rapaz, acabou a música e eu fui inventando”. Outro dia Maurício Carrilho [violonista] veio aqui e disse que Pixinguinha fazia isso. As músicas tinham a primeira, a segunda e a terceira parte, e geralmente ele improvisava outra música. Papai faliu o comércio dele por que ele levava músicos para lá e ficavam tocando, eles tocavam dentro do comércio, faliu o comércio dele. As primeiras pessoas com quem eu toquei, aqui em São Luís, na noite, foi com Hamilton Rayol [cantor] e Antônio Vieira [compositor e percussionista]. Eu estudava com Hamilton na Escola de Música, a gente estudava na mesma turma. Um dia ele me viu tocando violão, Fernando Cafeteira [violonista] viajava e toda vez que ele viajava ele me levava. Era ali no Petisco, que era de Biné [Aranha], ali na Fonte do Ribeirão, tocando acústico.
Que linha predominava na composição de teu pai? Choro. E tinha música que tinha letra, letra dele.
E você compondo? Eu tenho 20 e poucas músicas. Eu faço choro e valsa, não sei fazer outra coisa.
A música de teu pai foi gravada pelo [Instrumental] Pixinguinha. Foi. Não se esqueça de mim. Essa música eu tenho uma gravação antiga, a gente tocando lá em Cururupu, ele mesmo tocando. Papai deixou de tocar por que mamãe morreu. Ele tava com 92 anos, não quis mais viver. Abandonou instrumento, perdeu a vontade de viver.
Dá para viver de música? Eu vivo de música. Eu não preciso de muito dinheiro para viver bem. O dinheiro que eu ganho dá pra viver legal. Eu dou aula aqui [na EMEM], eu dou aula particular, eu toco, não toco mais por que não quero. Carnaval, por exemplo, eu não quero mais tocar.
De que grupos musicais você já participou? O primeiro grupo foi quando eu fazia o bacharelado em Geografia, lá no grupo eu tocava cavaquinho, no Geosamba [risos dos chororrepórteres]. Eu abandonei total o cavaco, hoje em dia eu só pego. Eu participei do Amigos do Samba, do Cacuriá de Dona Teté e do Pixinguinha. Tinha dia que eu tocava nos três grupos no mesmo dia. O em que eu passei mais tempo foi o Pixinguinha.
O que significa esse grupo para você? Significa tudo. Na verdade eu sou o único componente da primeira formação, que fiquei. Tem uma pergunta que eu não respondi, né? O negócio do violão…
Sim, o pulo do violão de seis para o sete cordas. Quando a gente terminou os dois shows, acabou a história da primeira formação. Aí nós tentamos fazer, éramos eu, Zezé, Paulinho e Paulo Akomabu, tocou pandeiro na segunda formação. Sempre foi complicado pandeiro e cavaquinho. Era Athos [Lima] no cavaquinho, mas ele dormia até 12 horas e não tocava de manhã. Depois ele virou roqueiro. Quando a gente ia tocar de manhã, a gente ia sem cavaquinho. Ubiratan [Sousa, multi-instrumentista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 12 de maio de 2013] também tem essa história. Uma vez eu pedi uma corda do violão sete cordas, Ubiratan mandou um recado por Paulinho. Aí eu liguei para ele, ele dormindo, a mãe dizia que ele não estava. Aí ele me disse: “rapaz, quando tu vier do pagode tu me liga”, era de madrugada, nessa época eu tocava num pagode.
O Pixinguinha já tem mais de 20 anos e demorou bastante a gravar o disco de estreia. Não há vontade do grupo de gravar um segundo disco? Já teve essa ideia, essa história. Nesse livro de Zezé [Choros Maranhenses – Caderno de Partituras, organizado pelo músico] era para ser feito, só que alguns componentes, Juca [do Cavaco], por exemplo, é um cara que não gosta de gravar. Eu não sei por que, ele é um cara que saca muita coisa de choro, é um cara que lê muito.
Além do disco do Pixinguinha e do de Rosa Reis, há outros discos que têm teu sete cordas? Toquei no de Zeca Tocantins [Terreiro de Todo Canto].
O que significa o choro para você? A melhor música brasileira. Eu quando chego em casa, eu não digo que é choro, é a música instrumental. A música instrumental é muito bacana.
Que nomes você admira nesse meio? Eu tenho admiração pelo Serra [de Almeida, flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 3 de março de 2013], ontem encontrei-o, fazia tempo que não o via, é um baita dum flautista. Os violões vocês sabem, a primeira vez que eu vi Agnaldo [Sete Cordas, violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 17 de março de 2013] tocar eu fiquei admirado, os baixos que ele faz, não aprendeu com ninguém, aprendeu com Dino [o violonista sete cordas Horondino José da Silva, do Conjunto Época de Ouro]. Gordo Elinaldo [violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 27 de outubro de 2013] toca muito bem, Solano. A nossa música instrumental melhorou demais.
Isso deve-se a quê, esse avanço de grau, de qualificação? Ao estudo. Antigamente a gente não via o choro tocado bem aqui. O pessoal só olhava a televisão. Maurício Carrilho está vindo por aqui, sempre, na Escola. A gente conhecer as outras pessoas, a gente aprende olhando os outros tocarem.
Você acha que a internet também contribui para isso? Eu acho que tudo contribui, Youtube, aquela coisa toda.
Você é refratário à tecnologia? Você baixa música? Eu não sou muito da tecnologia, mas eu acho que é importante. Baixo. Até pouco tempo eu não sabia. Eu tenho um sobrinho que é craque, me ensinou.
Como você tem observado o desenvolvimento do choro no Brasil? A história do Radamés, aquele divisor, dali pra cá todo mundo passou a estudar. Antigamente era um solista e os outros acompanhando, também é bonito. Eu escuto umas coisas modernas, acho legal, mas o choro, eu quando escuto Vibrações [o disco de Jacob do Bandolim], com aquele [conjunto] Época de Ouro, eu fico arrepiado.
Há quem diga que é o melhor disco de choro da história. É uma das gravações que eu mais gosto, aquela gravação deles. O lado moderno eu acho bonito também, não pode ser todo tempo do mesmo jeito. Sem a tradição o moderno não existiria.
Você se considera, a si e ao Pixinguinha, moderno, tradicional ou as duas coisas? Eu me considero tradicional. Eu quando vou escrever uma música é muito romântico. Hermeto [Pascoal, compositor e multi-instrumentista] durante um ano escreveu uma música por dia. Eu passei um tempo com um caderno de partituras, tinha uma ideia, anotava. Tenho uma porrada de músicas que, se eu quisesse fazer hoje a segunda parte, eu podia fazer.
O que te inspira para compor? Às vezes eu penso numa música, eu acordo, naturalmente. Eu penso num tema e vou desenvolvendo ele. Qualquer coisa.
Como você observa o choro no Maranhão hoje? Se o Clube do Choro não tivesse parado estaria melhor. O projeto Clube do Choro [Recebe] deu um pontapé inicial na história. Se não tivesse, não tinha hoje um monte de garoto tocando choro.
Dessa gurizada quem te chama a atenção? Tem um monte de gente tocando bem. Robertinho Chinês [bandolinista e cavaquinhista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 28 de abril de 2013], Wendell [Cosme, bandolinista e cavaquinhista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 24 de novembro de 2013].
Onde o Pixinguinha está tocando hoje? Só aqui na Escola. Temos viajado por projetos da Escola para o interior.
O que você ainda sonha em fazer com a música? Um cd com minhas músicas.
[O músico posa para fotos tocando, com arranjo de choro, Essas emoções, do recém-falecido Donato Alves, do Boi de Axixá] Você acha que o nosso repertório de música popular pode ser chorificado? Pode. Eu mesmo estou procurando isso. Nem tudo poderia virar choro, mas o lado instrumental sim, os arranjos para violão.
Você acha que ajuda o músico de choro tocar música popular e vice-versa? Acho que sim. O instrumentista tem que tocar a música popular. Tem muita música bonita, muita toada de bumba meu boi.
Confete e serpentina. Cerveja gelada ou outra bebida de sua preferência. Fantasia e muita animação. Está faltando algo para seu Carnaval? Como boa música é um ingrediente indispensável, a pedida de abertura da festa de momo é o Bailinho Abre Alas 2015.
Uma verdadeira “noite do prazer”, com muito “balancê”, um pé na tradição de sambas, frevos e marchas do menu carnavalesco, outro na contemporaneidade da moderna música popular brasileira. Uma festa para agradar a gregos e troianos, baianos e piauienses, mas sobretudo a você, sua família e seus amigos presentes.
O Bailinho Abre Alas 2015 terá como atrações os cantores Marconi Rezende e Katiana Duarte e o DJ Pedro Sobrinho e acontecerá dia 13 (sexta-feira gorda de carnaval), às 21h, no Bar Bendita Hora (Rua dos Maçaricos, nº. 2, Lagoa da Jansen). Os ingressos, à venda no local, custam apenas R$ 25,00.
“Eu gosto desse carnaval das misturas. O importante é a pessoa chegar no salão fantasiado e cair na folia independente da música que está tocando”, afirma o dejota, para usarmos a expressão que ele prefere. Pedro Sobrinho é um dos mais renomados djs do Maranhão e seu nome está sempre aliado a um profundo trabalho de pesquisa. Em seu set list convivem samba, rock, reggae, salsa, ska, blues, jazz, world music e o que mais pintar. Não será diferente no Bailinho. “O bacana é que vou compartilhar essa mistura armando o terreno para a música orgânica de Marconi Rezende e Katiana Duarte. Estou preparando um repertório para garantir a diversão do folião ludovicense”, promete.
Marconi Rezende, embora mais conhecido pelo refinamento com que trata o repertório de Chico Buarque, seu maior ídolo, passeia com desenvoltura pela obra de grandes nomes da música brasileira. É o que ele apresentará no Bailinho, com foco na tradição do carnaval. Ele passeará por um repertório de marchas, sambas e frevos de nomes como Chico Buarque, Caetano Veloso e Moraes Moreira, entre muitos outros. “Será uma boa mistura de recordação e entusiasmo contemporâneo, um ensejo para extrairmos todo o prazer dessas canções que nos encheram de alegria, cada uma em seu momento, e que continuam com uma grande força neste período”, antecipa Marconi.
“Adorei o convite para participar do Bailinho Abre Alas junto com Marconi Rezende e Pedro Sobrinho. O que me encanta na proposta é a diversificação de estilo musical, passeando do moderno ao tradicional e vice-versa. Será uma experiência inesquecível, estou ansiosa”, revela a cantora Katiana Duarte, que, com quase 20 anos de carreira na noite de São Luís, apresentou-se recentemente no Bar Café Brasil, em Oslo, Noruega. Seu repertório será baseado em nomes mais recentes da música brasileira, como Nando Reis, Vanessa da Mata e Zeca Baleiro.
Os produtores acreditam que o grande trunfo do Bailinho Abre Alas seja justamente essa diversidade de repertório, a qualidade dos artistas e, sem dúvida, a alegria, diversão e disposição do público. A quem porventura pensar tratar-se de evento infantil, pelo nome, eles avisam: é uma festa para um público seleto, daí o nome; a alegria e satisfação dos presentes serão enormes, prometem.
Serviço
O quê: Bailinho Abre Alas – 2015 Quem: Marconi Rezende, Pedro Sobrinho e Katiana Duarte Quando: 13 de fevereiro (sexta-feira gorda de carnaval), às 21h Onde: Bar Bendita Hora (Rua dos Maçaricos, nº. 2, Lagoa da Jansen) Quanto: R$ 25,00 Informações: (98) 983033995 (Tim) e 98822-6206 (Oi)
Seu apelido emprestou o nome a uma das mais famosas turmas de samba de São Luís. O percussionista Vandico é o 27º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão
Era uma segunda-feira à noite e Vandico abriu a pesada porta de um velho casarão na Rua do Giz, Praia Grande, para receber a chororreportagem: adentramos o Samba Sem Telhado, palco da Turma do Vandico há quase uma década – pelo vão entre as paredes é possível olhar o céu.
Os chororrepórteres ajudaram o entrevistado a compor o cenário, arrastando bonecos de típicos malandros, boêmios, além de uma espécie de “boneco de Olinda” representando o entrevistado. E é claro, as sombrinhas, estandarte da Turma do Vandico, uma das mais populares e tradicionais do Maranhão.
O percussionista Evandro José Araújo Lima é funcionário público, repetindo uma dobradinha que já esteve muito em voga nas artes nacionais. Nasceu em 29 de maio de 1965, na Rua de Nazaré, “com parteira”, filho de Olga Silva de Araújo, “dona de casa, boa de cozinha, doceira já com uma empresa há 35 anos, a Mãe Olga Doces e Salgados”, e do político Evandro Bessa de Lima, “vereador por três mandatos, chegou a ser prefeito de São Luís por cerca de três meses. Ele faleceu em 1977, eu tinha 12 anos. Quem ficou sendo pai e mãe foi a Mãe Olga”.
Vandico é casado com Ana Paula Martins Rodrigues. Sua turma de samba, por onde já passaram muitos bambas, começou a se reunir em 1986, na casa em que nasceu. Há nove anos mudou de endereço, para o Samba Sem Telhado em que deu seu depoimento à Chorografia do Maranhão. Talvez para fazer valer a máxima do baiano Tom Zé: “na vida quem perde o telhado/ em troca recebe as estrelas”.
Foto: Rivanio Almeida Santos
Você já nasceu onde fazia o samba? Sim, onde foi criado o movimento da Turma do Vandico, em 1986.
Essa tua influência para a música, para o carnaval, vem de quem? Como surgiu isso? Eu acredito que você nascendo na ilha, você já nasce com o rufar dos tambores. Principalmente onde eu nasci, no Centro Histórico, na Praia Grande, o movimento que já existia na época, bumba meu boi, tambor de crioula. E ouvindo. Eu tinha como vizinho o Sindicato dos Estivadores, onde faziam festas memoráveis. A padroeira deles é Nossa Senhora da Vitória [padroeira de São Luís]. Nas festas só se entrava de terno e as mulheres de longo. Lá eu conheci, sempre estava atento, guri, não podia entrar, eu tive o prazer de ouvir Nonato e Seu Conjunto, não a Tribo de Jah, era outro nome antes da Tribo de Jah, que eram só eles, deficientes [refere-se à deficiência visual dos instrumentistas da banda, numa época em que a formação ainda não contava com o vocalista Fauzy Beidoun], o reggae. Os festejos de Nossa Senhora da Vitória tinham ladainhas, tudo. Acabou! Infelizmente acabou.
E em tua casa? O que se ouvia? O que teus pais gostavam? Minha mãe gostava muito de boleros e meu pai gostava de samba. Mas ele quase não tinha tempo. Dentro de casa mesmo eu já começava a construir os próprios instrumentos. Eu lembro do bloco de sujo, a gente criava latinhas pra fazer o bloco. Eu tinha vizinhos que, aos domingos, aquela calma na rua, colocavam muito instrumental, aquelas orquestras americanas, muita música clássica. Isso se ouvia demais. O próprio vinil de Nonato e Seu Conjunto, sambas, Martinho da Vila, Paulinho da Viola. Tinha na época, até no repertório das emissoras, uma música bem mais agradável. Isso aí tudo fazia parte, eu sempre ouvindo, atento, os próprios sambas-enredos. Lembro, eu guri, indo pro Araçagy, não tinha nada, na Kombi de um padrinho, a gente fazia uma batucada e cantava todos os sambas-enredos. Hoje, pra eu saber uma letra de um samba-enredo, é difícil!
Você é membro de uma família tradicional, e jovem manifestou interesse pela música, pela percussão. Como foi a reação da família quando você escolheu este universo? Houve alguma resistência? Não, não. Eu acho que foi bem tranquila. Inclusive eu tinha um grande sonho, papai ainda vivo, eu sempre fui invocado com percussão, principalmente com bateria. E nós saímos para a Rua da Paz, antiga Casa São Jorge, para comprar uma bateria. Aquela empolgação e tal. Nesse primeiro momento eu não consegui a bateria, não foi possível. Com isso eu sempre criando, comprando outros instrumentos e montando uma bateria. Já com 18 anos de idade, meu primeiro salário, funcionário do município, eu comprei uma timba na Casa São Jorge, com vassourinha. Foi meu primeiro instrumento profissional. Pela sonoridade eu já comecei a me apaixonar. O som grave me atrai, eu já tinha visto os amigos [tocando]. Eu sempre fui empolgado com isso, a nossa cultura popular.
Essa relação tua com a música tem alguma coisa de espiritual? Não exatamente. É interessante isso. Na verdade a minha [relação] seria a paixão pelo ritmo. E curiosidade: de todas as manifestações, que na verdade é o que me atrai, são as batidas. As pessoas me veem com colar e pensam “pô, Vandico é pai de santo” [risos dos chororrepórteres], muita gente pensa isso. Eu tava num aniversário e um cara falando: “Vandico, eu me amarro nesse teu jeito de vestir, eu não tinha coragem de andar desse jeito”. A Helena, minha filha, de seis aninhos, me vê falando com os amigos, um dia ela indagou, a gente vinha de carro, e eu falei com um amigo meu, médico, de terno, e ela: “papai, por que o senhor não se veste desse jeito? Seus amigos se vestem bem” [risos dos chororrepórteres]. E eu disse: “minha filha, eu sou artista”. Ela estava se formando no ABC [concluindo o jardim de infância] e eu disse: “olha, tudo bem, na sua formatura eu vou”, aí eu fui com uma calça de linho e uma camisa branca, não fui de terno, não.
A partir de quantos anos você começou a batucar, a se interessar por música e dizer que isso ia fazer parte da tua vida? Olha, meu grande brinquedo foi bola. Bola era um negócio que me fascinava. Eu ia para uma escolinha no Rio, meu pai faleceu e eu fiquei por aqui. Cheguei a jogar nos times maranhenses. Mas a questão do instrumento, a percussão, acho que com sete anos de idade eu já comecei a me interessar. Já é diferente meu filhão, de um ano e oito meses, ele já pega o repique, direitinho, senta na cadeirinha dele e bate. É uma diferença!
Além de músico você tem outra profissão? Sou funcionário público municipal há 25 anos, assalariado. Sou assistente administrativo, hoje estou na Secretaria de Urbanismo. Eu tive momentos assim, com a música, no próprio colégio [Santa Teresa], participando de bandas. Eu tive um grupo chamado Jam 4, que era um instrumental regional. Tive uma época no Tonga Trio, com Léo Spirro e Oberdan [Oliveira], tudo isso foi uma escola. Entrei no lugar de Zé Carlos [percussionista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 10 de novembro de 2013].
Você começou a tocar profissionalmente com que idade? 18 anos.
Timba? Timba. Foi a época em que eu entrei no Hibiscos [extinto restaurante, localizado na Vila Palmeira, onde o Tonga Trio apresentou-se por várias temporadas], eu passei um ano e seis meses. O último contrato deles lá no Hibiscos eu participei. Acompanhar grandes artistas foi um aprendizado para mim. Tive um primeiro momento na Escola de Música [do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo], passei uma temporada lá, parei, depois voltei.
Quem foram teus professores? Pixixita, professor Zé Carlos [o músico José Carlos Martins, o Pixixita], a parte de fundamentos. Na época a escola era [de formação musical] erudita.
Quem é tua grande inspiração na percussão? Eu vou te ser sincero: quando eu comecei a tocar timba e tive essa paixão por ela, tinha uns caras aqui, que eram Jeca, Carbrasa. Eram uns caras que já faziam esse trabalho, depois foi muito rápida a amizade, essa troca de informação, de instrumentos. Foi muito interessante.
Como surgiu a ideia do samba que você manteve durante muito tempo na Rua de Nazaré? A padaria ainda funciona? Houve uma época em que já estava ficando insuportável de cheio. A loja continua, a Mãe Olga Doces e Salgados. Na verdade, com esse movimento, e essa minha paixão também pelo futebol, a gente começou, nos nossos encontros de bola, sempre as reuniões tinham um bate papo e um bom sambinha. Cada um levava seu instrumento e batia um sambinha. Aí eu tive a ideia de convidá-los para a loja, a loja é a mesma casa. Onde era o quarto do velho [seu falecido pai] hoje é a loja. A gente se reunia, ia pra lá fazer o sambinha. Num certo momento, numa sexta-feira, na roda, tivemos a ideia de sair em cortejo pela Praia Grande. Naquele primeiro momento, todo mundo concordando com a ideia, animação, me veio a ideia de ter algo para puxar esse grupo. Eu peguei a sombrinha da minha mãe e saímos dançando pela Praia Grande. Quando a sombrinha voltou, não era um guarda-chuva, voltou só os talos, por conta do vento. Aí começamos, nessa época, a fazer estes encontros. Botamos o nome Turma do Vandico, depois veio o Grupo Magia. Com isso foram 19 anos, esse movimento na Rua de Nazaré, sempre às sextas-feiras.
Foi de quando a quando? Começou em 1986 e há oito anos estamos aqui [no Samba Sem Telhado].
Você falou em uma turma de bola, mas quem eram os músicos? Havia músicos hoje reconhecidos? Tem. Tinha Isaac Barros, Tadeu, a turma de Nonatinho, Luizinho, Inhu, é Mário, hoje ele é segurança, da PM, a gente esquece nomes, Marcílio, Nivaldo [Santos] esteve depois. Depois veio Cacá [do Banjo], Neto Peperi, depois, na formação de um grupo, nós fizemos Vandico, Carbrasa, fizemos um momento lá no Caminho da Boiada, com Chico Chinês, Neto Peperi, Costa Neto, Álex, mineiro…
Então, de certa forma, o movimento da Rua de Nazaré serviu de embrião para grupos como o Magia e o Espinha de Bacalhau? O Espinha de Bacalhau já era antes, já tinha a formação. Depois que formou a Turma do Vandico eles andaram se apresentando, fizemos Bailes do Bigorrilho aqui na Casa da Fésta [no Centro de Cultura Popular Domingos Vieira Filho, na Praia Grande]. Como o Estação, que não era Estação, era com a turma, aí criaram o grupo. É mais ou menos isso.
Dá pra viver de música? Você ganha algo com música ou só gasta? Não. Música, não. A música é uma paixão. Eu não posso viver sem ela, ela desopila, é uma coisa que você gosta de fazer. Hoje eu tento nivelar, empatar. A própria Turma do Vandico sempre foi mais pra se divertir. Hoje eu procuro não gastar com ela. Pego recursos pra que empate, na própria venda da cerveja. A Turma do Vandico é feita por amigos, que vêm de bom coração. É um movimento que você tem uma referência da tradição da música maranhense, da boa música. Na verdade você consegue realmente agradar, o próprio instrumentista vem e consegue estar bem no local. Tem essa energia maravilhosa.
Não dá para classificar a Turma do Vandico como uma banda. Ela é mais um movimento pelo qual passam músicos, sem uma formação fixa. Você já citou alguns, mas eu queria que você lembrasse algumas personalidades da música do Maranhão que já passaram pela Turma do Vandico, isto é, os ambientes da Rua de Nazaré e do Samba Sem Telhado. Isso! Exatamente! Neto Peperi, Chico Chinês, Nivaldo, Cacá, Valdinar, Jó, Dinho, esses meninos que estão fazendo sucesso agora, o [grupo] Argumento, eu tenho uma foto lá. Eu diria que muitos beberam dessa fonte. Estivemos participando de um festival que teve na Vila Palmeira, apresentando uma música de Oberdan, nós ficamos em terceiro lugar, onde eu estive com Dona Ivone Lara, Zeca Pagodinho, aquela turma toda. Quem mais? Álex, às vezes você perde os nomes, não é? João Neto [flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 2 de fevereiro de 2014]! Juca do Cavaco, hoje é um dos nossos maestros da Turma do Vandico, Chico Nô. Sávio Araújo esteve por lá, Josias Sobrinho, Joãozinho Ribeiro, Cesar Teixeira, César Nascimento, Célia Leite, a última agora que deu uma palhinha com a gente, Patativa. Léo Spirro, Domingos Santos, Privado.
Vandico e o choro: a partir de quando essa relação começa? O choro, eu participando ativamente do choro, acho que tem uns 15 anos. Eu já ouvia muito. Dilermando Reis [violonista], eu tinha um vinil de Dilermando Reis. O choro, o pandeiro é um instrumento importantíssimo, e difícil de ser executado. Pretendo ainda ser um grande pandeirista.
Com quem, primeiro, você começou a tocar? O Feitiço da Ilha já tem oito anos, mais ou menos isso, quase 10. [Comecei] Nos encontros, Biné do Cavaco, Paulo Trabulsi [cavaquinhista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 22 de dezembro de 2013], Solano [Francisco Solano, violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 26 de maio de 2013], Agnaldo [Sete Cordas, violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 17 de março de 2013], Serrinha [o flautista Serra de Almeida, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 3 de março de 2013]. Aí vem Osmar do Trombone [Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 23 de junho de 2013], eu tive o prazer de estar em rodas de choro com… [demora a lembrar do nome e exclama alto:] Zé Hemetério [multi-instrumentista]! Às vezes você perde o nome, cara, das figuras. Eu acredito que o percussionista tem que estar nessas variações, conhecendo os artistas, tocando com eles. Essa é a universidade musical, a vida que você tem nos bares, nas ruas, fazendo serenatas, saraus. Eu era do Santa Tereza ainda, fazia sarau com Djalma [Chaves, cantor e compositor]. Outra figura também interessante que eu vi muito ainda jovem foi Gilberto, Gilberto que foi do Peso [Banda O Peso], Fantoches.
De uns anos para cá, 2009 mais precisamente, o Feitiço da Ilha tem andado mais articulado, tocado com mais regularidade. A que você credita isso? A uma valorização do choro em São Luís, a uma organização da cena, ou a quê? Eu acredito que, na verdade, até a própria vontade do artista em querer fazer esse grande trabalho. Choro foi a nossa primeira música, estilo, instrumental. Com as figuras mais jovens também, a própria Escola Lilah Lisboa, ela te prepara para esses estilos. O Feitiço da Ilha, com Juca, Domingos Santos [violão sete cordas] fez parte, maravilhoso, e Chico Nô, começamos na calçada da Rua do Giz, em frente ao Restaurante da Dadá [o Cantinho da Estrela], a boa música condizia com o cartão postal que é a Praia Grande. É o que falta. De lá partimos para a calçada do [antigo] Hotel Central [na Praça D. Pedro II], chegamos a ser citados na revista da TAM por Zeca Baleiro.
Por lá passaram alguns grandes nomes do cenário nacional tocando com vocês, não é? Zé Barbeiro [violonista sete cordas], Hélcio Brenha [saxofonista], Celsinho Silva [pandeirista]. Teve um rodão depois, que não foi lá na calçada. Acredito que além da resistência e de você colocar para fora esse movimento do choro, da música instrumental, e você pegar os pontos que realmente seriam um atrativo do próprio espaço para essa boa música, eu acredito que há público para isso, inclusive sente-se muita falta disso, o próprio Clube do Choro [Recebe, projeto sediado no Bar e Restaurante Chico Canhoto entre 2007 e 2010] faz uma falta, tem que ser reativado, com certeza. Eu tive conhecimento de uma roda de choro na [praça] Gonçalves Dias. São movimentos que o público maranhense precisa.
E um cd da Turma do Vandico? Nós temos músicas, um repertório para gravar esse ano, inclusive com nossos compositores.
Quem são os nossos compositores? Zé Paulo, Chico Nô, Isaac [Barros], Neto Peperi, Quirino, Serrinha [do grupo Serrinha e Cia.] ficou de fazer uma, o próprio Oberdan já fez uma, Joãozinho [Ribeiro] me disse que tem duas.
Um momento importante de tua carreira foi o show Rosa Secular [Noel, Rosa secular teve duas edições, a primeira também com Cesar Teixeira], que veio a ganhar Prêmio Universidade. O que significou para você estar ali junto de [os compositores] Joãozinho [Ribeiro], Josias [Sobrinho], [Chico] Saldanha, seus convidados especiais e aquela banda enorme e supertalentosa? Na verdade eu me sinto muito feliz em estar com estes monstros da música brasileira. E o [show em homenagem a] Noel Rosa fez com que a gente tivesse mais contatos, o músico, os compositores, os artistas, num movimento que foi muito importante para a cidade. Eu sempre aprendo nesses movimentos que sou convidado, participo, com essas pessoas maravilhosas. Tanto com os músicos quanto com os compositores que estiveram nesse show. Foi uma celebração da música maranhense junto com um público maravilhoso. Foi um espetáculo, um show que eu diria que se a gente voltasse atrás, eu sempre digo para os amigos que eu nasci numa época errada, eu queria ter nascido no século 18, 19. Aquele show do Noel Rosa lembrou até o Teatro de Revista. Foi uma celebração maravilhosa, isso para meu currículo, de artista, de produtor cultural, de percussionista, ritmista, foi muito interessante.
Qual a importância do choro na cena brasileira? Eu acredito que é o ABC de todo músico, de todo artista, está com ele, na sua cartilha, o choro. Além de proporcionar viagens maravilhosas, aonde você chegar você é muito bem recebido. Eu, particularmente, vivo um momento muito gostoso de minha vida fazendo parte do Feitiço da Ilha, mostrando nos cantos da cidade o choro. ABC não no sentido de ser fácil de fazer: os grandes chorões eram escolados maestros.
Como você avalia o choro que se faz hoje no Maranhão? Nós temos um movimento maravilhoso, instrumentistas fabulosos. Tem muita rapaziada nova já inserida, saindo da Escola [de Música] e se interessando pelo choro.
Você é um cara muito ligado, valoriza demais a cultura popular maranhense. Você acha que ela pode ser misturada ao choro? Sim, claro. Deve. Com certeza! Eu crio em cima do choro a minha performance musical. Em cima, não tirando, mas acrescentando, a musicalidade em cima do instrumental de choro. Eu acho interessantíssimo, isso vem de dentro. Por que não? De repente a Bela mocidade [toada de bumba meu boi de autoria do recém-falecido Donato Alves] vira um clássico do choro, não procede?
O que significa o carnaval para Vandico? É minha alegria! Meu dia a dia. É fazer as pessoas felizes, compartilhar momentos maravilhosos. Eu acho que o carnaval, não só na sua época, mas em todo momento que eu participo dos movimentos culturais, até propriamente dentro de casa, você tem que ser alegre. A Turma do Vandico, o próprio Vandico, é uma alegria e com muito prazer de se resgatar o nosso grande carnaval de São Luís do Maranhão. Já estive em momentos maravilhosos em carnavais em interiores, que infelizmente acabaram por influência de musicalidades que realmente não têm a ver com nossa cultura, com nosso carnaval, que eu particularmente sou do carnaval de rua, essa é a cara do Maranhão.
Que tipo de sentimento te ocorre quando você pega sua sombrinha, sai em cortejo e vê todo aquele povo te seguindo? A minha missão na Turma do Vandico é fazer esses cortejos. A cada cortejo que é feito, todas essas pessoas amigas, que acompanham a Turma, são simpatizantes, isso me deixa muito feliz. São 28 anos de atividades, de movimento, e você não vê uma briga. A gente consegue manter essa tradição junto com nosso estandarte, nosso guarda-chuva, tocando nosso apito.
Sambista e carnavalesco eu sei que a resposta seria sim, mas você se considera um chorão? Eu estou a cada vez mais me botando essa camisa, pela afinidade e pelas parcerias, os companheiros dessa área. Eu vejo que hoje é a musicalidade que me deixa muito bem.
Você tem uma cara que é como se fosse a cara do carnaval, ao mesmo tempo em que a Turma do Vandico tem um slogan, “é só alegria”. O que deixa Vandico triste? O que me deixa triste é o desrespeito ao artista maranhense. Nós temos uma batucada ímpar, bloco tradicional, tambor de crioula, a batucada do [bloco] Fuzileiros da Fuzarca, inconfundível. Nós temos tudo isso, onde os compositores e artistas maranhenses se prestam a fazer um grande carnaval, mas não são valorizados pelos nossos gestores.
Como você observa o abandono da Praia Grande? É o cartão postal da cidade. A Praia Grande precisa ser revigorada em todos os aspectos. Falta capacidade, competência para que você faça um grande trabalho, invista. Isso aqui é um lugar belíssimo. Do jeito que está você vê o turista vindo, batendo foto. Ela vive um momento muito cruel, a poluição sonora, o descaso no seu entorno todo. É preciso que se veja com bons olhos esse momento que o Centro Histórico está vivendo. Nós estamos praticamente nos momentos políticos de eleições, que se pense realmente em quem vai dirigir futuramente o estado e veja isso com o maior carinho. E convido-os [os candidatos] a passearem na Praia Grande, só assim veremos os problemas que a Praia Grande tem.
O que você achou da exclusão arbitrária de Chico Maranhão e Cesar Teixeira da programação carnavalesca oficial do Governo do Maranhão? São dois grandes compositores, têm tudo a ver com o carnaval, fico também triste por isso, por que se eles não estão com suas apresentações no palco, as músicas deles estão sendo tocadas por aí. A bandeira do artista bate em todos os sentidos e pra todos os lados, ela não pode ser rotulada: “você não pode, você não deve, aquele não pode”, assim não funciona. Eu fico triste com esta situação.
[nota do blogue: era domingo de carnaval; o jornal cortou a última pergunta]
No retorno do Vias de Fato, nosso repórter de cultura relembra Ninguém é melhor do que eu, show de lançamento do disco de estreia da compositora Patativa, que ele teve a honra de assessorar
Talentosa, contente e faceira: a compositora Patativa ladeada pelo séquito de admiradores com quem trabalhou para o sucesso de “Ninguém é melhor do que eu”, o disco e o show. Foto: Maristela Sena
Nem pestanejei ao receber o convite para assumir a assessoria de comunicação do show de lançamento de Ninguém é melhor do que eu, disco de estreia de Patativa, que aconteceu em São Luís, no Porto da Gabi, na última quarta-feira (19).
Já era admirador de longa data de seu trabalho e sabia cantar alguns sambas seus de cor, apesar da quase inexistência de registros de músicas suas até ali. As exceções eram Rosinha, gravada por Fátima Passarinho no único disco do grupo Fuzarca (integrado ainda por Cláudio Pinheiro, Inácio Pinheiro, Roberto Brandão e Rosa Reis), e Colher de chá, por Lena Machado em Samba de minha aldeia (2009), com participação especial de Zé da Velha e Silvério Pontes.
O aprender fácil, a própria Maria do Socorro Silva, seu nome de pia, 77 anos, explica: “samba de cachaça! A letra é curtinha pra não esquecer”. E dá um exemplo, cantarolando a letra de Quebrei meu tamborim: “deixei de beber/ e quebrei meu tamborim/ eu não vou, eu não vou/ na porta daquele botequim/ vai, vai, vai/ eu não quero mais você pra mim”.
Nas rodas boêmias entre a Praia Grande e a Madre Deus, Xiri meu é hit absoluto. Durante os dias em que a acompanhei por diversos veículos de comunicação numa maratona de entrevistas prévias ao lançamento, senti-me personagem do documentário curta-metragem de Tairo Lisboa, que toma emprestado no título sua música mais famosa. Ela ia cumprimentando conhecidos por onde passava, distribuindo seus “beijinhos furta-cor”. Pura simpatia!
Não poucas vezes ouvi-a dizer, em conversas ou respondendo a perguntas de repórteres, que “quem espera por Deus não cansa”, referindo-se ao fato de somente agora lançar o primeiro disco da carreira. “Eu queria mais cedo, quando estava mais nova e a voz, mais bonita. Mas foi agora que Deus quis”, também a vi conformando-se algumas vezes. Ninguém é melhor do que eu sai pelo selo Saravá Discos, de Zeca Baleiro, diretor artístico do disco, que tem produção musical de Luiz Jr.
O álbum traz um apanhado de 12 sambas e o cacuriá malicioso, já velho conhecido dos ludovicenses, sobretudo os frequentadores das citadas rodas boêmias, e conta com as participações especiais de Simone, em Saudades do meu bem querer, e Zeca Pagodinho, na faixa-título, além do próprio Zeca Baleiro, em Santo guerreiro.
Patativa já está com outro disco na gaveta, Patativa canta sua história, que deve ser lançado antes do carnaval, segundo o produtor Luiz Jr., financiado por edital da Secretaria de Estado da Cultura do Maranhão.
Mas é de Ninguém é melhor do que eu que nos cabe falar, por enquanto. O lançamento foi uma linda noite de festa, em que Patativa foi reverenciada por fãs, amigos, admiradores, conhecidos e todos os frequentadores, assíduos ou não, do Porto da Gabi, cuja proprietária e o marido, Gabriela e Josemar, são personagens de uma das músicas do disco: o Samba dos seis.
Joaquim Zion e Marcos Vinicius, djs residentes da casa na já tradicional Sexta do Vinil, três anos recém-completados, fizeram o povo gingar misturando reggae, merengue e música brasileira, antes das apresentações do grupo Samba na Fonte – de cujas apresentações na Fonte do Ribeirão que lhes batiza Patativa vez por outra participa – e da exibição do filme de Tairo Lisboa.
Depois era a vez dela. Inseparáveis, o chapéu e o galho de arruda na orelha esquerda compunham o figurino com que Patativa subiu ao palco, acompanhada de Luiz Jr. (violão sete cordas e direção musical), Robertinho Chinês (cavaquinho), Davi (contrabaixo), Oliveira Neto (bateria), Lambauzinho (percussão), Wanderson (percussão), Elton (sax e flauta), Philippe Israel (vocais) e Lena Machado (vocais) – esta subiria ao palco a partir de sua participação especial em Colher de chá.
Patativa abriu o show com a mina No pé da minha roseira (“No pé da minha roseira/ em cada galho é uma flor”). Cantou quase todo o disco e mais cinco inéditas, incluindo esta primeira. Zeca Baleiro dividiu o microfone com ela em Santo guerreiro e em Ninguém é melhor do que eu. Antes, brincou: “vai ser difícil fazer as vezes do xará”, referindo-se a Zeca Pagodinho, que canta a faixa-título no disco.
O público lotou o Porto da Gabi em plena quarta-feira. O clima de cumplicidade entre artistas e público, raras vezes visto com tanta intensidade, garantiu que tudo corresse bem. Agora Patativa era uma estrela – como sempre foi – mas continuava se comportando como se cantasse na Fonte do Ribeirão, na Feira da Praia Grande ou na janela da sala de sua casa – onde a vi batucando um samba, talvez compondo, enquanto esperávamos a hora de um novo compromisso de divulgação do show. Ou seja: Patativa continuava se comportando como a Patativa que sempre foi, desde que Justo Santeiro colocou-lhe o apelido, com o que de início se zangou, o que certamente colaborou para que o nome artístico pegasse. “E tu, que é uma Patativa, que só vive cantando pela Madre Deus?”, revidou à comparação com o Amigo da Onça numa cachaçada, como ela mesma conta.
Passados tantos anos, Patativa, hoje, é sinônimo de alegria e boa música – mesmo quando os temas são tristes, como as saudades e as dores de amor. Que seu compor e seu canto alcem cada vez mais altos voos, pousando em cabeças, corações e ouvidos abertos e interessados.
Com trânsito livre entre o choro e gêneros da cultura popular maranhense, o violonista sete cordas é o 26º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão
Para a sexta-feira (24 de janeiro) em que João Eudes deu seu depoimento à Chorografia do Maranhão estava anunciado o lançamento de Cinco Gerações, disco de estreia de Osmar do Trombone [Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 23 de junho de 2013] com o filho Osmar Jr. [saxofonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 5 de janeiro de 2014]. A chuva que caía entre o fim de tarde e começo da noite em São Luís desencorajava qualquer chorão a sair de casa – depois São Pedro deu uma trégua e o show aconteceu, com a presença da chororreportagem, que seguiu da entrevista para o Barulhinho Bom [bar na Lagoa da Jansen].
João Eudes Martins Júnior nasceu em São Luís – mais precisamente na Maternidade Marly Sarney, na Cohab – em 26 de janeiro de 1980, filho do mecânico João Eudes Martins e da funcionária pública Clarice da Silva. No braço direito, tatuado, o nome de Ana Carolina, 5, sua filha.
Da infância, ele traz a lembrança de festas em casa, regadas a muita música, de onde pinçou o gosto pela música instrumental, embora essa não fosse predominante na trilha sonora nem na coleção de discos de seu pai.
Um dos mais respeitados violonistas sete cordas na cena choro do Maranhão na atualidade, João Eudes é figura fácil em rodas de choro e samba e é um dos músicos preferidos de figurões que visitam a Ilha em shows. Passeia com desenvoltura pela música instrumental, particularmente o choro, e por ritmos da cultura popular do Maranhão – depois do choro, seu gênero predileto é a batida do bloco tradicional.
O músico concedeu a entrevista na Quitanda Rede Mandioca (Rua do Alecrim, 343, Centro, ao lado da Cáritas Brasileira Regional Maranhão), novo point gastronômico-cultural da cidade, e foi regado a croquetes de queijo e coxinhas de frango, ambos a base de massa de mandioca e fritos no azeite de coco babaçu.
Foto: Rivanio Almeida Santos
Você tem outra profissão além de músico? Não. Já tive. Fui professor de informática, professor particular. Hoje [sou] só músico.
E o ambiente musical em tua casa? Em tua vivência doméstica, familiar, o que te motivou a estudar, a fazer música? A questão musical foi através de meu pai. É uma pessoa que gosta muito de festas, hoje nem tanto, já está com mais de 70 anos. Sempre convidava os amigos para ir lá para casa e colocava várias músicas. Engraçado é que a música instrumental não rolava muito lá em casa, mas foi uma música que chamou muito a minha atenção quando eu era criança ainda. Rolava na minha casa mais era carimbó, sirimbó, samba, [as cantoras] Clara Nunes, Elis Regina, lambadão.
Ele tocava ou só ouvia? Ele era um grande comprador de discos? Só ouvia. Sim, lá em casa sempre teve muitos discos. Mais do meio dele, tipo, o Pinduca [cantor e compositor paraense] lançava um disco e ele já estava comprando.
Desde quando você começou a se interessar por música? Com 11, 12 anos eu queria estudar, mas meus pais não deixaram. Diziam: “esse negócio de música, é melhor seguir outra profissão”. Aí eu fui estudar já com 20 anos.
E o violão? Era esse o instrumento que sempre te chamava a atenção? Sim, sempre. O violão, a música instrumental, principalmente o choro, eu escuto isso desde criança, pela [rádio] Universidade, pela 106 [106,9MHz, a frequência da FM]. Eu me lembro, eu com nove anos, eu já gravava fitas e guardava pra escutar, eram músicas que me chamavam a atenção, o choro, [os compositores] Chico Buarque, Vinicius [de Moraes], João Bosco. Mas eu não tinha a convivência com este gênero na minha casa.
Então o rádio foi um grande incentivador? Sim, o rádio foi um grande incentivador para eu gostar desse estilo de música.
Você consegue fazer um paralelo entre o rádio que você ouvia na infância, com 10, 11 anos, e o rádio que você ouve hoje? Percebe alguma diferença? Eu acho que a qualidade caiu um pouco. Em geral. A [rádio] Universidade caiu, pode ser a questão da evolução da tecnologia, tudo isso tem influência. As outras rádios, que tocam músicas mais comuns, caíram bastante.
Quando você decidiu estudar música, já caiu direto no sete cordas? Não. Eu comecei a estudar música no violão seis cordas, como todo mundo começa, aquele negócio, pega o violão do amigo, compra uma revistinha na banca. Naquela época, 1999, 2000, não tinha tanta informação quanto hoje. Não era fácil você comprar um livro de música, hoje em dia você entra na internet e baixa, já tem um vídeo de um cara que gravou alguma coisa, já te ensina algo. Na minha época não existia isso, então eu tive que aprender com os amigos, as revistinhas. Eu tive uma facilidade, em um ano eu já tocava uma porrada de músicas, mas tinha os empregos paralelos, então eu não me dedicava tanto.
Você estudou informática na juventude? Estudei, fiz faculdade até o quinto período, no Ceuma, Sistema de Informação.
Quando foi que você percebeu que a música é que era o negócio e você resolveu largar tudo? Foi nessa época aí que eu fazia faculdade. Por que lá eu já fazia alguns eventos e já tocava música instrumental. O professor já falava assim: “rapaz, vai ter um evento aí, tu não quer tocar umas quatrozinhas só pra…”, e eu “rapaz, na hora”. Eu me preparava, ia lá, tocava. Eu já estava começando a tocar na noite, acompanhando um, acompanhando outro, festa, aniversário, já estava começando a ganhar um dinheiro. Aí eu comecei a tocar mesmo, já com outras pessoas, mais profissionais, acabei largando a faculdade e ingressando no mundo da música.
Dá para dizer que o rádio foi o teu primeiro professor e a noite a segunda? Claro! O gosto da música, na verdade, veio por causa de meu pai, que sempre gostou. Eu, na barriga da minha mãe, já escutava música, meu pai já gostava. Mas esse gosto pelo gênero [o choro], que eu tenho, com certeza a influência maior foi do rádio.
Depois dos 20 anos, quando você se decidiu mesmo pela música, você passou a receber apoio dos pais, ou eles continuaram resistindo? Não. Ainda teve muita resistência, brigas, lições de moral. Aquela coisa: “rapaz, vai ficar nesse negócio, só beber cachaça!”, sabe como é que é, né? Eu nunca tive [incentivo] assim. Meu pai é um cara que não é formado, não tem tanta instrução. Então o negócio dele é trabalhar mesmo, mas ele não consegue enxergar na música algo que possa ser encarado como profissão. Mas hoje mudou muito. Hoje eu vivo totalmente da música, então hoje ele me respeita, tem o maior carinho por mim.
Você hoje vive apenas de música? Só de música. Como que eu vivo só de música? Deixa eu explicar: além de tocar música instrumental, também toco os gêneros regionais. Eu toco em blocos tradicionais, sou arranjador de blocos tradicionais desde 2007, toco no Boi Pirilampo já há sete anos, comando a parte musical, arranjos, a maioria dos arranjos é meu, toco em escolas de samba. A gente sabe que em São Luís a produção musical é pequena, em termos financeiros, não de composições, de letras. A questão que é pequena é a produção para gerar a grana, no caso.
Teve o rádio e a noite, mas houve uma hora em que você sentiu necessidade de estudar música. Quando você entrou pra Escola [de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo]? Eu entrei de 2005 pra 2006, por aí. Fiz todas as percepções, falta um recital e duas disciplinas para receber o diploma lá.
Você está na universidade? Sim, sexto período, na UFMA, Licenciatura em Música.
Além do rádio e da noite, quem foram outros mestres decisivos na tua orientação violonística? O principal foi João Pedro Borges [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 14 de abril de 2013], esse foi o maior incentivador. Eu tenho um amigo, também, chamado Tom, um grande violonista, tenho o maior carinho, fez uma grande diferença quando eu me dediquei aos estudos. O nome dele é Elton.
João Pedro foi teu professor na Escola? Não, foi meu professor particular. Na verdade foi assim: ele me olhou tocando no Clube do Choro Recebe e perguntou “rapaz, tu não quer pegar umas aulas só pra consertar essa mão aí?”, e eu: “rapaz, na hora!”. Aí eu fui assistir aula com ele, sem problema nenhum. Com o maior prazer. Na verdade, ele foi meu professor mesmo de violão. E tive na Escola de Música também o Antonio de Jesus.
E no sete cordas teve alguém? Não, no sete cordas ninguém. O sete cordas, na verdade, quando eu ouvia o choro, eu sabia que tinha um violão diferente. E eu via as pessoas tocando seis cordas e não era aquilo. Que instrumento doido é esse? Aí um dia Costa Neto [violonista sete cordas] chegou num barzinho, eu estava com um amigo, começando a tocar, ele chegou com o violão sete cordas. Rapaz, eu fiquei doido, “esse é que é o violão do choro”. Eu nem queria mais tocar meu violão, queria só ouvi-lo tocando. Depois eu conversei com ele: “rapaz, tu não quer me emprestar teu violão?”. O meu seis cordas estava novinho, mas eu não estava nem aí. Eu já o conhecia há algum tempo, mas não sabia que ele tocava sete cordas. Ele me emprestou um mês o violão. Foi um mês que eu estudei. Nessa época eu estava desempregado, estudava 10, 12 horas direto esse violão. Daí eu nunca mais larguei. Ele me emprestou, e eu fiquei ainda um tempo tocando seis cordas. Quando começou o Clube do Choro [Recebe], o Chorando Calado, eu tocava seis cordas. Às vezes afinava como sete cordas, ficava tocando assim e treinando: era uma forma de eu aprender.
Quem é o sete cordas, daqui ou de fora, vivo ou morto, que mais te inspira? O maior, que todo mundo sabe, é o Dino [Horondino José da Silva], que ele foi o criador, o mentor desse negócio todo, mas o Raphael Rabello foi o maior violonista de todos os tempos. Acho que ele é inspiração para todo violonista que queira tocar legal. Aos 16 anos ele já foi considerado um dos melhores sete cordas do mundo.
E dessa geração nova? O Félix Jr. e o Rogério Caetano são dois violonistas sete cordas muito bons. Na linha do sete cordas, por que o Yamandu [Costa] toca sete cordas, mas é solista, e quando a gente fala em sete cordas, fala em acompanhamento. Solista, acho que não tem ninguém igual a ele.
Voltando à coleção de discos de teu pai: você falou que era predominantemente música de festa e, pelo meio, havia coisas de música instrumental. Daquela época você lembra de algum nome que te tenha chamado a atenção, que tenha se destacado? Ah, lembro: Vieira e seu Conjunto era um disco instrumental que meu pai escutava. Taí! Era só guitarrada. Eu gostava demais daquilo ali.
Algum outro? Sim. Baden Powell [violonista] era um preferido meu. Baden Powell tocava na rádio também. Mais do que qualquer outro instrumentista. Por que além de ele fazer música instrumental, também tinha música cantada, os afrossambas, e tinha como adquirir o disco dele. Não era fácil adquirir discos de choro. Mas de música instrumental, primeiro foram as guitarradas de seu Vieira [dedilha algo do ritmo no sete cordas], escutei muito na minha vida, carimbó de Pinduca, sirimbó, na doideira [risos].
Você fez uma distinção entre o acompanhante e o solista. Você é um reconhecido acompanhador na cena musical de São Luís. Você tem alguma pretensão de passar a solista? Tenho uma grande pretensão de passar a solista [a pedido da chororreportagem executa Sons de Carrilhões, de João Pernambuco, posando para fotos].
A gente observa que quando os grandes nomes do samba, do cenário nacional, vêm à São Luís, eles [os produtores] recorrem a você para tocar com eles. Isso é importante. Que tipo de sentimento te traz, além da grana no bolso? É legal você ter uma experiência, uma relação. A relação é sempre boa, nunca houve problemas. A relação é musical, não de amizade, mas é legal por que você compartilha de trabalhos diferentes.
Cite alguns nomes do cenário nacional com quem você já tocou. Moacyr Luz, Toninho Geraes, Monarco, Marquinho Satã, o show passado de Zé da Velha e Silvério Pontes, Nicolas Krassik, toquei aqui e toquei com ele no Rio, Moyséis Marques, Mariana Bernardes, Thaís Macedo, Julieta Brandão, Nina Wirtz, Elisa D’Or, Edu Krieger, gente boa, é um cara com quem eu tenho amizade.
E o Chorando Calado? Acho que foi um grupo muito importante para a época. Acho que a gente incentivou muitos músicos da nossa geração. Por que todo mundo tratava o choro como se fosse música de velho. Quando viram a gente tocando, com alegria, com a pegada… eu tenho saudade, foi uma época em que a gente aprendeu muita coisa.
O que significou o grupo para você? Foi um grupo que teve uma grande importância nessa música instrumental do Maranhão. Todo mundo viu a gente jovem, tocando, estudando pra caramba pra poder tocar. Foi um dos grupos muito importantes para a minha base musical.
Vocês já pensaram em reeditar o grupo ou acabou? Já, já pensamos. A gente sabe que essas coisas nunca acabam. Na verdade o que aconteceu é que cada um seguiu uma coisa, cada um teve uma oportunidade e [o grupo] foi se dispersando. Ano passado, no começo do ano, a gente sentou, até no estúdio, pra reformular o grupo, gravamos o vídeo de uma música, um arranjo que a gente fez para Boi de Lágrimas [toada de Raimundo Makarra]. Começamos a engatinhar e começaram a aparecer trabalhos para um e para outro, viagem não sei pra onde.
Com as mesmas pessoas ou com alguma novidade? Com algumas novidades, o Lee [Fan, flautista e cavaquinhista] e o Henrique [Jr., violonista].
Além do Chorando Calado e do Boi Pirilampo, de que outros grupos você já fez parte? Como membro do grupo? Os blocos tradicionais Os Feras, Os Vigaristas, Os Tradicionais do Ritimo. Eu sou muito desse meio, de bloco tradicional. Eu participei de vários blocos. Eu participei de três bumba bois, o Pirilampo foi o em que durei mais. Participei do Boi Brilho da Comunidade, está terminando de gravar o cd, esse ano sai, no São João, e do Boi de Palha, que é um boi bem mais antigo que o Pirilampo. Participei, viajei, toquei em vários lugares com ele.
De que discos você já participou da gravação? Eu participei agora de um que Zeca Baleiro produziu [A palavra acesa de José Chagas, produzido por Zeca Baleiro e Celso Borges], de poemas de José Chagas, na faixa de Cesar Teixeira [Campoema, poema de José Chagas musicado por Cesar Teixeira]. De bloco tradicional eu participei de praticamente todos. De bumba boi eu toquei em discos do Pirilampo. No samba: Isaac Barros, Feijoada Completa, está para sair, Madrilenus, está para sair, Turma do Cafuné, eu estou produzindo, está para sair, é um grupo da Cidade Operária. Fiz agora uma gravação num projeto do Ronald Pinheiro [compositor] com Augusto Bastos [músico], gravamos eu e Wendell [Cosme, bandolinista e cavaquinhista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 24 de novembro de 2013] duas faixas no cd.
O que significou para você ser chamado por Cesar para participar da gravação? Significou muito. Além de serem os poemas de José Chagas, que já é importante, foi um convite de Cesar. Eu fiquei até surpreso. Eu já tinha tocado em shows dele, é um dos maiores compositores de todos os tempos. Eu fiquei altamente honrado.
Você acha que há uma relação entre o choro e os ritmos da cultura popular do Maranhão? Você, que transita com desenvoltura em ambos, que tipo de informações leva de um a outro? Eu acho que há várias cabeças para pensar isso. Tem gente que tem grupo de samba e não gosta de colocar a regionalidade, e tem grupos que gostam. Eu acho muito importante ter. Não adianta fazer o samba do jeito que o cara do Rio toca, por que para eles vai ser a mesma coisa, não tem diferença. O que faz a gente ser diferente é tu ter uma marca, ter uma identidade. Qual é a nossa identidade? É bumba boi, é bloco tradicional, é tambor de crioula. São os estilos, os gêneros que são caracterizados de São Luís, do Maranhão. Todo mundo deveria explorar isso. Isso não quer dizer que você vai tocar uma música e vai tocar o tempo todo só o boi ou o tambor de crioula. Não. Pega um samba, mistura um pouquinho aqui e ali.
Você compõe? Componho. Eu tenho algumas coisas instrumentais que eu faço. Tem coisas na minha cabeça que eu nunca escrevi. Tem coisas que eu gravo no celular, outras eu já anoto num programa de computador, em partitura. Uma coisa que estou estudando bastante agora é essa questão de arranjos e direção musical. São Luís ainda está precisando melhorar muito essa questão, de profissionalismo. A gente não pode comparar com São Paulo, há o tamanho da cidade, a população, mas quanto mais profissional, melhor.
O que é o choro para você? Qual a importância dessa música? A importância dessa música é a base musical para todo o Brasil. Tudo o que você imaginar, que você analisar, vem do choro. A bossa nova, o samba. Se você pegar os choros antigos, até hoje, muita gente ainda faz as melodias muito parecidas com o choro.
Você se considera um chorão? Não. Eu me considero um apreciador do choro. O cara quando se considera um chorão tem que ter uma base de choro bem violenta, tem que estar muito envolvido com isso.
Mas você não acha a expressão “chorão” reducionista? Não, eu não vejo dessa forma. É uma coisa boa para o músico, dizer que é chorão. Eu não me considero chorão, mas é uma linguagem que eu escuto muito, diariamente. Depois do choro é o bloco tradicional, depois vem o bumba boi.
Conheci mais de perto Humberto de Maracanã no início da década de 1970, quando eu integrava o grupo Laborarte. Nesse período percorremos várias comunidades do interior da ilha de São Luís apresentando o espetáculo João Paneiro, escrito por Tácito Borralho e Josias Sobrinho. A peça, encomendada pelas Irmãs de Notre Dame de Namur, Barbara e Anne Caroline, que atuavam na área, iniciou a discussão sobre a implantação dos grandes projetos que atingiram as comunidades.
Humberto foi uma das lideranças importantes nesse debate. Algum tempo depois, em 1982, fui convidado pelas mesmas Irmãs de Notre Dame de Namur, para documentar as ações da Associação de Lavradores do interior da ilha de São Luís, onde Humberto exercia forte militância. Nesse período não faltaram oportunidades de acompanhar o Humberto compositor e cantador.
A foto registra meu candidato a vereador pelo PT nas eleições de 1982. O grande cantador de boi Humberto de Maracanã reuniu em torno de seu veículo de campanha, esposa e filhos. Humberto não se elegeu. Entretanto, a campanha rendeu uma bonita toada.
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Texto e foto roubados do perfil de Murilo Santos no facebook.
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Humberto Barbosa Mendes (2 de novembro de 1939 – 19 de janeiro de 2015), o Humberto de Maracanã, faleceu na tarde de ontem, aos 75 anos, vítima de falência múltipla dos órgãos. Havia sido internado dias antes, por conta de diabetes, tendo chegado a amputar uma perna.
Em 2008 foi o homenageado do Prêmio Culturas Populares do Ministério da Cultura. Autor da antológica toada Maranhão, meu tesouro, meu torrão, além de liderar o centenário grupo de bumba meu boi que lhe deu sobrenome artístico, integrava o coletivo Ponto BR, ao lado de outros mestres e bambas (Éder “O” Rocha, Henrique Menezes, Renata Amaral, Thomas Rhorer, Walter França e Zezé Menezes), considerado melhor grupo regional no Prêmio da Música Brasileira de 2012.
Um chuvisco anunciava a noite em São Luís do Maranhão. A tradicional e pacata quitanda de Seu João, na Rua do Ribeirão, já abrigara, aquele dia, um ensaio fotográfico da cantora Alexandra Nicolas – o casarão lhe serviu de cenário ao encarte de Festejos, disco de estreia lançado ano passado. Ao fim dos trabalhos, ela degustava uma cerveja gelada por ali, na companhia da amiga e designer Raquel Noronha.
Era mais uma feliz coincidência das tantas que a Chorografia do Maranhão já proporcionou aos chororrepórteres que logo se juntariam a elas, mais próximos do balcão. O entrevistado da ocasião era o flautista João Neto, de passagem pela Ilha para curtir as férias de virada de ano – atualmente o músico mora em Belo Horizonte/MG, onde cursa mestrado em Música na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Alexandra Nicolas preparava a primeira edição da temporada de Festejos na Praça, show que apresentou 18 de janeiro no coreto da Praça Gonçalves Dias. João Neto deu uma canja na abertura, compondo o grupo Cantinho do Choro, que tem ocupado aquele logradouro em fins de tardes de sábado.
Raimundo João Matos Costa Neto nasceu em São Luís em 3 de julho de 1978, ano em que seu tio Josias Sobrinho [compositor] teve gravadas suas quatro primeiras músicas por Papete, no antológico Bandeira de Aço, lançado pela Discos Marcus Pereira. Ainda criança João Neto engatinhava entre instrumentos musicais na casa da avó Ingrácia, onde aconteciam os ensaios do grupo Rabo de Vaca, formado por Josias e outros bambas.
Ao tio Josias ele afirma dever as maiores influências, desde antes de ter se decidido pela flauta – passou por violão e toca também flautim, pífano, clarinete, cavaquinho e percussão. É filho do dentista Francisco Carlos Guterres Costa e da dona de casa Francisca Tereza Morais Silva.
A entrevista que ele concedeu à Chorografia do Maranhão foi musicalmente ilustrada por Língua de preto (Honorino Lopes), André de sapato novo (André Victor Correia) e Rosa (Pixinguinha/ Otávio de Souza), que começou com a voz de Alexandra Nicolas e terminou com um coral formado por todos os presentes à quitanda, que aquela noite teve o expediente aumentado.
Foto: Rivanio Almeida Santos
Como era o ambiente musical em tua casa, na tua infância? Minha infância, de zero aos seis, sete anos, ela foi meio assim, dinâmica, em relação à casa em que eu estava. Eu ficava um tempo na casa da avó, um tempo na casa da outra avó. Uma dessas avós é dona Ingrácia, mãe de Josias. E lá rolavam os ensaios do Rabo de Vaca. Então eu já estava ali com dois anos, fui conhecido por Zezé [Alves, flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 9 de junho de 2013], por Beto Pereira [cantor e compositor], desde criança eu estava ali naquela história. A família, muito musical, além de Josias, meu tio Armando tocava clarinete, meu tio Paulo toca violão, nada profissionalmente. Só quem seguiu profissionalmente foi Josias, compositor. Mas sempre em casa teve música, desde a infância até hoje, as festas são regadas a muita música. Sempre teve esse contato, em casa, minha mãe escutando Elis Regina, Chico Buarque.
Quando foi que você percebeu que iria encarar a música profissionalmente? Foi em Campina Grande. Fui morar em Campina Grande e lá tem um cara que hoje está nascendo aqui, o Madian [cantor e compositor], estudava lá. Eu fui pra lá, sabia que ele morava lá, morei numa república, pra fazer vestibular pra João Pessoa, um vestibular mais ou menos, na malandragem, já tocando violão. Eu fui pra Campina Grande pra tentar o vestibular para Odontologia em João Pessoa, meu pai é dentista e eu queria ser igual papai. Ele não queria. Eu cheguei e comecei a tocar violão pra caramba, Djavan, Chico Buarque, e foi uma escola muito legal. Foi a primeira vez que eu ganhei dinheiro tocando, foi com Madian e uma ex-mulher dele, uma grande cantora, de uma família de músicos lá da Paraíba. Eu tocava um tempo e Madian tocava outro tempo. Eu falei: “pô, dá pra ganhar dinheiro!”, tomando uísque, puta churrascaria lá, buffetzão. “Eu quero é isso pra mim!” Fiz vestibular, não passei, voltei pra cá, depois de seis meses em Campina Grande, vi o surgimento do [grupo] Cabruêra, um movimento musical muito forte.
Aí você voltou para São Luís. Veio fazer o quê? Eu tinha que estudar alguma coisa, acabei entrando no Ceuma, fiz dois anos de Direito. E paralelo, depois de um ano de Direito, passei em Filosofia na UFMA, e ao mesmo tempo tocando violão.
Você concluiu Filosofia? Que nada! Nenhum dos dois. Abandonei e fui para São Paulo, essa época já tocando flauta.
Significa dizer que tua profissão mesmo é a música? Não tem outra profissão? Não. Ter, tem outras coisas, meu pai tem uma clínica, eu trabalhei na parte administrativa coisa de cinco, seis meses, só. É difícil falar em profissão músico, pra mim, principalmente. Eu nunca toquei pra ganhar dinheiro. O dinheiro vem em consequência de minha arte. Eu vejo minha carreira como uma coisa da minha vida. Se eu for displicente com minha carreira eu estou sendo displicente com minha vida.
Mas cada vez mais você é cobrado para tocar profissionalmente. Isso! É uma consequência.
Não dá para dizer que você não é músico profissional. Não dá. Eu vivo da música.
Quando você fez essas outras tentativas. Odontologia, chegou a fazer vestibular, depois Direito, depois Filosofia. Elas eram, de algum modo, uma imposição da família? Eram. Eu tinha que corresponder a alguma coisa, eu não podia ficar ali. A gente deve uma satisfação. Músico é [visto como] vagabundo, né, cara? Principalmente flauta, flauta é luxo, entre aspas. O grupo tem violão, o grupo tem baixo, tem bateria, cavaquinho, mas a flauta vem muito depois. E depois que eu conheci flauta, eu larguei violão assim de uma forma. Virou meu amigo, parceiro, vez ou outra eu falo com ele.
Quando e como é que se deu a passagem do violão para a flauta? Há 12 anos, quando eu peguei a flauta transversal.
O que te motivou? Quem foi a pessoa que fez com que você se decidisse a tocar flauta? Foi um cara chamado Fabiano, que já tá lá com papai do céu já. Morreu muito novo, um cara que eu conheci em Campina Grande, era de Maceió. Era um cara surpreendente, tocava violão, baixo, teclado, bateria, trabalhava com tudo isso, e flauta também. Certa vez a gente na casa dele, eu e Madian, tocando lá, Djavan, um monte de música, ele pegou a flauta, começou a destruir, tocando um monte de coisas, tinha várias flautas doces na casa dele. Eu fiquei encantado e falei: “pô, Fabiano, como é que a gente faz aqui?” Ele falou: “não tem segredo, é só ouvido”. Eu fiquei mais encucado ainda, meio com raiva dele. Eu pensei: “esse cara toca pra caramba, não quer ensinar, dar um toque pros amigos”. Quando eu peguei a primeira flauta doce, que eu fui entender o que ele quis dizer lá atrás. Esse cara, esse encontro, esse dia foi que [interrompe-se]. Depois disso eu cheguei, fui pesquisar os flautistas, fui ajudado por muita gente.
Quem são os mestres que você considera essenciais? Na música, em primeiro lugar, para mim é Josias. Quando viu que eu estava tocando já chegou, me abraçou, eu tava tocando violão, me botou no palco, num show dele, eu já toquei violão com Josias, quando viu a flauta a mesma coisa. Musicalmente foi um cara que eu devo até hoje, até hoje é um parâmetro que eu tenho. Em relação à flauta o primeiro foi Zezé.
A família sempre te apoiou na decisão de buscar a música como caminho? A família da minha mãe sim. É muito musical, minha avó, que é um lance matriarcal forte pra caramba na família, meu avô morreu muito novo, com cinquenta e poucos anos, ela que segurou a onda toda. Lê muito, 86 anos, não assiste novela, passa o dia lendo, fazendo crochê. Escreve, no aniversário de 80 anos ela deu um presente à família, fez um livro de poemas. Toda uma espiritualidade muito forte. Tenho tios que me apoiam financeiramente, compram instrumentos, dão força, “taí, pega essa grana”, não é só “ah, é lindo!”, apoiam, investem. Tem incentivo da família.
Você falou de uma fase violão que rolava muito Djavan, Chico Buarque. Como é que foi a aproximação com os grupos de rock, principalmente a Mandorová? A Mandorová nem é um rock, a gente tocava rock. Tinha umas músicas que eram rock, mas a gente misturava, bumba boi, Josias, muita música nossa. A gente misturava isso por causa das influências de todo mundo. Veio uma galera de Campinas, Madian fez parte um tempo. Ela começou meio que um monte de gente, a gente conseguiu gravar umas coisas, eu já não tocava violão, já tocava flauta, pífano e percussão. Violão eu não tinha como meu instrumento, eu tinha como meu amigo. Eu gostava de cantar, mas essa voz, só nariz [risos]. Tudo que eu tocava eu cantava. Teve uma época que eu tinha o songbook de Chico Buarque, eu tocava mais de 60 músicas do Chico Buarque, aquelas melodias empenadas, ficava em casa, estudava. Mas a flauta veio e chegou e “peraí”, ela que me capturou, eu não escolhi.
Como é que foi a tua chegada ao universo do choro? Logo depois da flauta transversal, que eu comecei a tocar, Zezé pirou. Eu morei ali na época do Rabo de Vaca, ele “pô, sobrinho de Josias, tocando flauta!”. Não, vem aqui, vem aqui, me botou na Escola de Música [do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo], eu nem tinha feito prova, fiz Escola de Música, todas as percepções, ele me dava aula, “traz a flauta aqui”, me dava aula. Teve um tempo que se passava um ano e meio pra pegar em instrumento, só tendo aula de teoria, era algo meio maçante, o cara doido pra pegar no instrumento, hoje mudou isso. Então, Zezé foi um cara fundamental, até hoje é.
A música pra você é uma importante fonte de renda? Dá pra viver de música? O viver de música, viver de tocar. Eu não penso mais num futuro artístico pra mim. Eu penso num futuro acadêmico, que é uma coisa que vai me segurar, eu vou poder escolher o que quero tocar.
O professor pagando as contas do músico. Mais ou menos isso, mas pra mim é muito difícil separar o professor do músico. Tem gente que é um puta músico e não sabe ser professor, tem gente que é um puta professor e não toca porra nenhuma. Essas duas coisas são muito ligadas, eu amo ensinar, um projeto do Sesc que eu fazia parte, eu me coço todinho lá em casa, sem poder ensinar pra garotada, eu olho as fotos, aquilo era muito importante, 10 alunos tocando flauta. Minha vontade de estar lá é tão grande quanto minha vontade de voltar para cá e ir dar aulas na UFMA, na UEMA, crescer. Essa coisa da educação musical é uma coisa fundamental pra gente, pra definir um gosto musical. É tão grande essa nossa riqueza cultural, ao mesmo tempo a gente se submete a outras culturas impostas. Chega pra juventude, ninguém sabe quem é Coxinho, Mestre Felipe, Dona Teté [mestres da cultura popular, representantes, respectivamente, do bumba meu boi, tambor de crioula e cacuriá]. Isso é uma coisa que eu tenho como objetivo, além da vida artística, que é um sonho, uma coisa utópica, viver, ter filho, só tocando como flautista. O professor é um pé no chão, uma coisa palpável pra caramba, é uma coisa que eu estou construindo e com o choro, choro no Maranhão, na Baixada maranhense.
Houve um tempo aqui em que você tocava em 11 dos 10 grupos de choro que existiam. Teve um período em que o choro estava na crista da onda. Como é que você avalia o mercado de trabalho para o músico instrumentista em São Luís e em Belo Horizonte, se é que é possível algum tipo de comparação? Teve uma época que, por conta de uma efervescência do ritmo, ou uma influência do que estava acontecendo no Rio de Janeiro, do choro na Lapa, essa coisa de eu estar em vários grupos aconteceu exatamente concomitantemente com o projeto Clube do Choro Recebe, que propiciou a formação de outros grupos, além dos bares, cerca de cinco anos atrás, tinha o Por Acaso que tinha choro toda terça, o Antigamente toda segunda, o Feijão de Corda, na Ponta d’Areia, sexta-feira tinha no Tropical Shopping Center, o Clube do Choro Recebe todo sábado, vários lugares tinham choro. O fato de eu tocar com um monte de gente, quando eu estava chegando do Rio de Janeiro, Zezé fez um viaduto de safena, três pontes, ele falou, “ó, te vira aí”. Eu já fiquei no lugar dele no [Instrumental] Pixinguinha, na Escola de Música dando aulas no lugar dele, na Escola Municipal, e com o Xaxados e Perdidos.
Você está onde quer, fazendo mestrado hoje em Minas. Dá pra falar em saudade dessa cena de São Luís? Lógico! Faz com que surja os grupos, o movimento. Hoje, onde é que a gente tem choro? Só no Brisamar [hotel]. Fixo, só no Brisamar, pra reunir o pessoal que toca choro. Se não tem movimento, não tem avanço, não tem jeito. A efervescência desse movimento em São Luís fez surgir o Choro Pungado, Os Cinco Companheiros, os Madrilenus, que foi formado para acompanhar seu Eudes [Américo, compositor]. Em relação a Belo Horizonte, lá tem choro todo dia. Todo dia tem lugar onde tem choro, de segunda a segunda. O dia em que eu cheguei foi uma segunda-feira que eu fui pro Salomão [bar]. Nesse mesmo dia ele falou: “ó, toda segunda-feira vem pra cá!”, a galera na roda. Lá são dois dias, segunda e quinta. Toda segunda eu tenho ido. Pedra Azul [o cantor e compositor mineiro Paulinho Pedra Azul] tá toda segunda lá com a gente, já levou Fabiana Cozza [cantora], Silvério [Pontes, trompetista]… é um bar que a galera vai mesmo.
Além do Mandorová e do Choro Pungado de que outros grupos musicais você já participou, de choro ou não? Mandorová, Xaxados e Perdidos. Artistas que já toquei: Josias, toco até hoje, Rosa Reis, Cacuriá de Dona Teté, Omar Cutrim, Carlinhos Veloz, Alexandra Nicolas… De choro, o grupo Um a Zero, toco no [Instrumental] Pixinguinha, estou de férias nessa temporada, Tira-Teima, uma temporada, de reserva, de substituto, Choro Pungado, Urubu Malandro, Quartetaço, Os Cinco Companheiros eu fiz uma participação, o Não Chora que eu Choro, que era meu, Azeite Brasil.
E discos que têm tua flauta? Tem alguns. Que eu lembre assim, tem a Lena Machado [Samba de Minha Aldeia, 2010], Rosa Reis [Brincos, 2009], agora o que saiu do Osmar [do Trombone, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 23 de junho de 2013;Cinco Gerações, 2013], Gildomar Marinho [Olho de Boi, 2009]. Tem algumas produções de bumba meu boi daqui, muita coisa, “pô, vem gravar uma faixa”, às vezes sai, os caras nem me dão o disco. Grupo de samba tem o Vamu di Samba, que eu gravei os dois dvds dele, tem algumas produções que eu já fiz parte. O cd do Cláudio Leite, não sei se já saiu.
Há um grupo no cenário chorístico que deu o que falar, tanto do ponto de vista estético quanto das relações internas. O que significou para você o Choro Pungado? Não significou: significa. O Choro Pungado é mais ou menos assim um ideal. Eu acho que tanto pra mim quanto pra maioria dos que participavam, eu levo a sério mesmo. A gente conseguiu, assim de uma forma legal, descontraída, conseguimos compor, brincar com a música maranhense e choro, fundidos, de uma forma legal, livre, pelos integrantes terem uma desenvoltura musical muito avançada, eu acho, as coisas ficam mais fáceis, fluem mais rápido. Tanto que em pouco tempo de grupo a gente já tinha conseguido, pela crítica, vocês, Ubiratan Sousa [multi-instrumentista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 12 de maio de 2013] falou da gente, conseguimos vários elogios. Mas como você falou das relações, dentro do grupo, acontece, foi uma coisa muito rápida, o grupo teve uma vida curta, fatores extramusicais, agenda, por exemplo, Rui Mário [sanfoneiro, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 7 de julho de 2013], trabalha muito em estúdio, Luiz Jr. [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 4 de agosto de 2013] toca com todo mundo, eu também toco com muita gente, então foi assim desgastando a história dos compromissos. Mas eu acredito que musicalmente falando foi um passo à frente nesse cenário musical do choro no Maranhão. Foi uma experiência muito válida em relação à inovação, à fusão, à hibridação, tentar misturar essas coisas que estão muito dentro da gente. Pra mim é uma pena ter acabado, ter terminado cedo assim. A gente podia construir mais coisa, avançar muito mais. Teve meio que uma pressa em fazer sucesso, faltou uma perseverança, faltou mais trabalho, mais sentar e conversar, não querer logo fazer um dvd, por exemplo. Foi uma coisa legal, mas não foi legal, em relação a produto. O amadurecimento já estava vindo justamente nas nossas composições, sentados, ensaiando, e compondo.
Hoje em dia você participa de algum grupo? Lá em Minas você está só nas rodas? Não. É muito prematura minha chegada em Minas. É muito difícil você chegar e já conquistar um espaço. Eu cheguei há quatro meses e vou ficar só mais quatro. Tem muitos flautistas bons, os caras tocam pra caramba. Você chegar e já pegar um espaço, se inserir no mercado, é muito difícil, tem que ser extraordinário.
Como é que você tem conciliado a atividade acadêmica com a atividade musical? Tá sendo muito difícil. É uma transição bem peculiar. A parte acadêmica exige muito tempo, parar para ler, lá na UFMG não brincam, os professores são alto nível, minha orientadora é formada em Sorbonne, tem doutorado em Sorbonne. Eu suei a camisa pra conseguir conciliar.
Qual a discussão da tua dissertação? Eu vou tentar fazer uma mescla da musicologia histórica com a etnomusicologia. Isso da etnomusicologia eu fiz agora, numa cadeira que eu fiz, fiz etnografias da III Semana Seu Geraldo [de Música], em São Paulo, do Bandão [da Escola Portátil de Música], lá no Rio, eu fiquei meio que apaixonado por etnomusicologia.
Fala um pouco de tuas pesquisas, tanto na graduação como no mestrado. O que você fez e o que vai fazer? Na graduação, no trabalho de conclusão, eu tentei mostrar que na Baixada maranhense tem compositores de choro. Peguei alguns compositores de choro, o Josias, o Osmar, um cara que eu descobri, que ninguém conhece, que eu descobri lá em Guimarães, seu Moisés Ferreira, um cara que era teatrólogo. Esse cara é que foi assim a válvula, o estopim, de dizer, “pô, tem!”. Eu estava meio em dúvida sobre o que fazer. Eu pensei também nessa fusão do choro com a música maranhense, nos arranjos de Ubiratan no disco do Biné do Banjo [Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 31 de março de 2013; Visitação, 2011], que ficaram muito interessantes, eu pensei em falar deles. Eu percebi que a dimensão do choro, dos compositores de choro na Baixada maranhense é muito maior que um trabalho focado. É um trabalho que eu posso levar, posso pesquisar a minha vida toda. No meu TCC eu peguei o escopo de que existe, uma comprovação, fiz entrevistas com Osmar, Josias, seu Raimundo Abreu, lá de Cajari, um grande professor de música de lá. Tive como suporte teórico, suporte de pesquisa, a obra de João Mohana [padre, médico e escritor], aquele livro A grande música do Maranhão. Ele começou em Viana. É o único registro que a gente tem escrito disso. Joaquim Santos [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 8 de dezembro de 2013] colaborou. Osmar, o avô dele, seu Macico [Marcelino Fernandes Furtado, flautista] foi um puta mestre de banda, fez arranjos de choro, foi um cara que recebia as partituras e fazia arranjos. Essa parte do mestrado eu quero justamente fazer isso, além da continuação do que eu fiz no TCC eu quero pegar material, do acervo João Mohana também.
Além de multi-instrumentista você desenvolve outras habilidades no campo da música? Arranjos, composição? Eu tenho composições. Na Mandorová a gente tocava umas duas, no Choro Pungado a gente gravou uma, um baião chamado Vim de lá, pá-pá-ri-ra-ri-pá-rá-rá [cantarola o ritmo], que eu fiz no pífano, depois a gente adequou para a flauta.
A Mandorová foi uma experiência boa? Foi fundamental. Com ela eu fui para São Paulo, passamos dois anos tocando, abrimos shows, saímos em jornal, passamos em matéria nacional do Jornal Hoje [da Rede Globo de Televisão], fizemos coisa de 10 interiores em São Paulo. Tocamos muito aqui no Canto do Tonico [extinto bar, na Rua Portugal, Praia Grande].
Pra você, o que é o choro? Se a gente vir pela história do choro, ele já começa importante. Começa como uma maneira de tocar, uma coisa que foi trazida, aquele amálgama da brasilidade no século XIX, meio que fez surgir aquela história toda de uma forma brasileira de tocar, depois virou dança, depois virou maxixe, depois virou tudo isso. Eu encaro isso como uma identidade brasileira, musical, mas além, social: uma identidade social, o choro. Se você leu O Choro [O Choro – Reminiscências dos Chorões Antigos], do Alexandre Gonçalves [Pinto], que fez o primeiro registro, em 1936, ele falou dos caras que tocavam, que faziam parte daquela história, que estavam na roda. Pra mim o choro é essa identidade brasileira, que por mais que mude a moda, que venha dessa transição de uma coisa pra outra, do violão pra isso, da jovem guarda pr’aquilo, o choro está sempre ali de alicerce. Desde a sua gênese, de sua aparição, seu apogeu, 1920, 1930, desde ali, ele pode ter caído mercadologicamente, financeiramente, tudo, esse campo artístico em volta do choro, mas ele nunca deixou de ser produzido. Se a gente falar na década de 1980, o rock’n roll, os melhores discos de Raphael Rabello [violonista sete cordas] foram lançados na década de 80, Baden Powell [violonista], Camerata Carioca.
Há quem ache que o choro é uma coisa estática, estagnada. Você acha que o choro é uma música fechada ou uma música aberta? A música em si é aberta. O que fecha é a cabeça das pessoas. Eu posso chegar numa roda de choro falando de choro, tocando do jeito que eu gosto, a galera pode não gostar. Yamandu Costa [violonista sete cordas], Hamilton de Holanda [bandolinista], Pixinguinha [Alfredo da Rocha Viana Filho, compositor e multi-instrumentista], na época dele, “esse cara é doido!”.
Você se considera um chorão? Não. Eu amo o choro, amo tocar choro, mas eu não me enquadro numa especificidade, num estereótipo. Mesmo dentro do choro, da linguagem choro, do gênero, você vê o ritmo baião, maxixe, tango, flamenco, é um universo. Como é que se vai dizer que é só uma coisa? É o mesmo que dizer “eu sou roqueiro”, eu acho que limita. Eu sou músico!
“Meu Deus, me deixe ficar mais uns dias/ dias que digo alguns anos/ anos assim não mais que uns 26”. As preces que Neném Bragança [Bragança/PA, 19 de março de 1960 – Imperatriz/MA, 15 de janeiro de 2015] cantou em Os milagres (Erasmo Dibell) não foram atendidas: vítima de um câncer de palato contra o qual lutava há cerca de um ano, o cantor faleceu nesta madrugada.
Os milagres abre o recém-lançado cd/dvd de Neném Bragança, segundo volume da série Som do Mará, produzido por Chiquinho França, que inaugurou-a. O câncer de Neném, aliás, foi descoberto quando o artista se preparava para entrar em estúdio e foi submetido a um tratamento dentário.
O trabalho é um apanhado de sucessos colecionados por Neném Bragança ao longo dos anos, composições autorais e clássicos da música do Maranhão, como Prisma (Carlinhos Veloz), Bela Mocidade (Donato), Agosto (Nando Cruz), Grades (Zeca Tocantins), Plenitude das palavras (Neném Bragança) e Ilha magnética (César Nascimento), entre outras. Ave de arribação (Javier dy Mar-y-abá) seu maior sucesso, encaixa-se nas três categorias – no fim das contas a música é também de Neném, será dele a interpretação para sempre lembrada.
Há poucos dias, em uma roda de amigos, comentávamos a situação da saúde de Neném e a torcida coletiva por sua pronta recuperação, enquanto ouvíamos um exemplar em vinil do festival Tribo (1989), que reunia nomes como Zeca Baleiro, Nosly, Renata Nascimento, Luis Carlos Dias, Neném Bragança e Tutuca, entre outros. Foi o último quem comentou: “Pra mim a música que ganhou é essa aqui [aponta para Ave de arribação na capa do vinil]: foi a única que tocou em rádio”, declarou. Na mesma ocasião, ganhei de presente, do amigo e fiel leitor Otávio Costa, o volume dedicado ao cantor da série Som do Mará.
Neném Bragança ficou conhecido como “papa festivais” entre os amigos, tantos os troféus acumulados em certames país afora, em especial no entorno da região que o acolheu. Artista iluminado, trazia a luz no sobrenome de batismo, Raimundo Nunes da Luz Ferreira. Tinha 54 anos. Sua Plenitude das palavras pode lhe servir de epitáfio: “quero a plenitude das palavras/ chegará a hora da verdade/ e aí? O que vai ser de mim e de você?”. Ou Ave de arribação: “o certo é que acaba, como todas as folias/ o certo é que passa, como passa uma euforia/ (…)/ não, não vou deixar meu coração perder a luz”.
Show gratuito acontece na Praia Grande e terá participações de Patativa, Zé Pivó e Luzian Filho
Foto: Rivanio Almeida Santos
No melhor espírito “eu quero é botar meu bloco na rua”, a cantora Lena Machado volta aos palcos com o show Divino Espírito Samba. A apresentação, gratuita, acontece no Anfiteatro Beto Bittencourt (Ágora do Centro de Criatividade Odylo Costa, filho), na Praia Grande, no próximo dia 15 de janeiro (quinta-feira), às 20h. A produção é da Negro Axé.
Recentemente Lena Machado participou do show de lançamento de Ninguém é melhor do que eu, disco de estreia da compositora Patativa, do réveillon, como convidada do grupo Afrôs, e da posse do governador Flávio Dino, mas há algum tempo o fã clube vinha reclamando um show completamente seu.
“O show é uma espécie de antologia com o melhor do samba brasileiro, o que inclui autores locais, que não devemos nada a ninguém”, exalta a cantora, que volta aos palcos em grande estilo. Nenhum dos 18 sambas do repertório já foi gravado por Lena nos dois discos que lançou: Canção de vida (2006) e Samba de minha aldeia (2009). Com Quem roubou minha aquarela?, de Cesar Teixeira, ela participou da Exposamba, concurso voltado ao gênero em nível nacional. “O repertório não deixa de ser também uma espécie de teste para o que estamos pensando para o próximo disco”, revela, ainda sem previsão de lançamento.
Além de Cesar Teixeira, fornecem obras primas para sua privilegiada voz Antonio Vieira, Batatinha, Benito di Paula, Bruno Batista, Candeia, Chico Buarque, Ismael Silva, Luzian Filho, Paletó, Patativa, Paulo César Pinheiro, Roge Fernandes e Roque Ferreira.
A cantora contará ainda com as participações especiais de Patativa (em cujo disco fez vocais e de quem gravou Colher de chá em seu segundo trabalho), Luzian Filho (do grupo Feijoada Completa) e Zé Pivó (compositor da Turma de Mangueira, escola de samba do bairro do João Paulo, e do bloco carnavalesco madredivino Fuzileiros da Fuzarca).
“Para mim é uma honra, eu, aprendiz, dividir o palco com estes mestres. É beber na fonte de nosso samba genuíno, legítimo, autêntico”, derrete-se a artista. Sobre o nome do show ela conta: “é impossível negar o samba como uma das autênticas expressões de nossa cultura popular, essa nossa batida diferente. O nome une dois aspectos de nossa tradição, e dessa fusão de duas tradições surge algo moderno, daí Divino Espírito Samba”. Além de tudo, soa bem. Como um bom samba.
Lena Machado será acompanhada por Andrezinho (percussão), Fofo (bateria), João Eudes (violão sete cordas), João Paulo Seixas (percussão), Lee Fan (flauta), Rafael Bruno (contrabaixo), Rui Mário (sanfona), Wanderson Silva (percussão) e Wendell Cosme (bandolim, cavaquinho e direção musical). Uma constelação de craques para ninguém botar defeito.
Serviço
O quê: show Divino Espírito Samba. Quem: a cantora Lena Machado, com participações especiais de Patativa, Zé Pivó e Luzian Filho. Quando: dia 15 de janeiro (quinta-feira), às 20h. Onde: Anfiteatro Beto Bittencourt (Ágora do Centro de Criatividade Odylo Costa, filho), Praia Grande. Quanto: grátis. Maiores informações: (98) 981920200 e 981220009.
De novo-baiano a tribalista: personagem fundamental da música brasileira, Dadi lança livro em que relembra sua participação em momentos marcantes nos últimos 40 anos
Meu caminho é chão é céu. Capa. Reprodução
Eduardo Carvalho nunca foi conhecido por seu nome de batismo, apelidado desde a infância, mesmo em casa, de Dadi. Mais que testemunha, o baixista é personagem privilegiado de momentos marcantes da música brasileira nos últimos 40 anos. Ele próprio adverte não ser um escritor, mas “um músico que teve a sorte de participar de alguns momentos maneiros da música brasileira”.
Meu caminho é chão é céu [Record, 2014, 175 p.], seu livro de memórias, recém-lançado, é um agradável rememorar de fatos e causos de sua “trajetória-vida”, como escreveu o parceiro Arnaldo Antunes numa das diversas notas introdutórias ao livro, espécies de “bilhetes de recomendação”. Com o ex-Titãs avalizam a obra Marisa Monte, Roberto de Carvalho, André Midani, Jorge Ben Jor, Heloísa Carvalho Tapajós (a Losinha, sua irmã, que escreve o texto de apresentação e a quem o livro é dedicado), Caetano Veloso, Rita Lee e Moraes Moreira. A orelha é assinada pelo jornalista e crítico musical Antonio Carlos Miguel.
Estes nomes dão ideia da importância de Dadi para a música que se fez/faz no Brasil desde que os Novos Baianos a reinventaram com o antológico Acabou chorare [1972] – ele estava lá e de lá para cá, num momento ou outro, trabalhou com todos os citados.
“Éramos músicos melhores no palco que em disco”, diz, a certa altura, sobre A Cor do Som, de que foi membro por 10 anos – fora o período em que o grupo existiu “dentro” dos Novos Baianos. Dadi refere-se ao fato de gostarem de improvisar e seu livro pode ser lido assim: como sucessivas linhas de baixo numa apresentação ao vivo, as lembranças do músico parecem papo em mesa de bar, pela descontração, de improviso, já que o autor se deixa levar pelas próprias emoções – algumas vezes pede licença ao leitor para se adiantar num ou noutro ponto para contar uma boa história sobre determinado personagem. Como se não quisesse perder o fio da meada ou a oportunidade. Casos e causos emendam-se uns aos outros quando Dadi resolveu atender aos inúmeros pedidos: com tantas histórias colecionadas em tantos anos de carreira, ele tinha que escrever um livro.
Personagem da música O leãozinho [1977], de Caetano Veloso, Dadi revela que foi a audição de Samba esquema novo [1963], de Jorge Ben, que o fez decidir que queria ser músico. Tinha então 11 anos e com uma vassoura imitava acompanhar o mestre, com quem viria a tocar depois em discos igualmente antológicos.
Não faltam histórias do mítico Sitio do Vovô, espécie de comunidade hippie onde viveram os Novos Baianos e onde foram gestados discos fundamentais do grupo, de como foi chamado a integrar o time, de viagens dentro e fora do Brasil, de ônibus e aviões perdidos, de aventuras em terras estranhas, das decisões que o destino tomou para ele, de passagens meteóricas por grupos como Barão Vermelho e Tigres de Bengala. Sobre os bastidores que rememora, Dadi também adverte: “com certeza, deixei de contar outras várias maravilhosas histórias”.
A discografia ao fim do livro lista títulos básicos a quem quiser ouvir o instrumentista. Estão lá seus discos solo – Dadi [2005] e Bem aqui [2008] – e títulos seus com os Novos Baianos, Jorge Ben Jor, A Cor do Som, Tigres de Bengala, Barão Vermelho, Caetano Veloso, Marisa Monte, Tribalistas e Rita Lee. Faltam Otto, Zé Ramalho, Walter Franco, Maria Gadú, Péricles Cavalcanti e Nando Reis, fora discos em que ele toca outros instrumentos que não o contrabaixo.
Faleceu nesta madrugada o músico Omar Cutrim (30 de junho de 1958 – 6 de janeiro de 2015), vítima de um câncer de próstata – o velório acontece na Pax União (Rua Grande, Centro, próximo à caixa d’água).
Conheci-o há alguns anos, provavelmente no saudoso Bar de Seu Adalberto, onde começou A Vida é uma Festa, evento semanal capitaneado pelo poeta-músico ZéMaria Medeiros, do qual Omar era habitué. Em uma rede social o colega lamentou a perda: “Triste com o falecimento do companheiro […]. A música está triste”, declarou o guitarrista e saxofonista.
Admirava-me de sua simplicidade, ele autor, entre outras, de Fé no santo (parceria com Costa Neto), gravada por Betto Pereira, e Tempo de guarnicê (parceria com Gerude e Ronald Pinheiro), também gravada por Betto, além de Alcione, entre outros. É dele ainda o choro Candiru (parceria com Zezé Alves, seu companheiro de Rabo de Vaca), gravada pelo Instrumental Pixinguinha em Choros Maranhenses. Só estas três já lhe valeriam lugar na galeria dos grandes.
Cumprimentamo-nos algumas vezes, a última numa manhã de sábado, quando ambos devorávamos um delicioso caldo de ovos em uma lanchonete do Mercado Central. Depois ainda o veria tocar na Companhia Circense de Teatro de Bonecos, na Praia Grande, há algum tempo palco dA Vida é uma Festa.
Confiram Omar Cutrim em ação em Remelexo (de sua autoria) no Carnaval de 2009: