
Saiba tudo sobre o show de Edvaldo Santana aqui.

ainda compra discos, livros e jornais. Blogue de Zema Ribeiro. Afiliado ao Farofafá

Saiba tudo sobre o show de Edvaldo Santana aqui.

Neste domingo de finados a música do Maranhão amanheceu mais triste: perdeu o sorriso largo e fácil de Léo Capiba, falecido na noite de sábado (1º.), vítima de ataque cardíaco.
Cearense do Crato, radicado em São Luís há quase 30 anos, Capiba tinha 67 anos e chegou a adiar, por problemas de saúde, o show Desde que o samba é samba, anunciado para 17 de outubro passado.
O Regional Tira-Teima, que deve lançar em breve o disco de estreia, registrou duas composições suas: Pra ser feliz, dedicada à esposa Sandra Tavora, com quem teve três filhos, e Zona do agrião, que usa metáforas futebolísticas para falar de amor.
No disco Memória – Música no Maranhão, lançado em 1997, sob direção musical e arranjos de João Pedro Borges, Léo Capiba cantou e tocou pandeiro em Não vá deixar o samba da vila, do compositor madredivino Henrique Martiniano Reis, o Sapo.
Confiram o depoimento que Léo Capiba deu à série Chorografia do Maranhão em abril passado. Continue Lendo “Obituário: Léo Capiba”
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A sambista Patativa está com tudo e não está prosa. Neste ano, em que completou 76 de idade, sua carreira vive um novo e único momento: Patativa, que nunca havia gravado um disco solo, lançará dois cds.
O primeiro, concebido sob iniciativa de Zeca Baleiro, diretor artístico, e Luiz Jr., produtor musical, se chama Ninguém é Melhor do que Eu e traz participações de Simone, Zeca Pagodinho e do conterrâneo Baleiro. É um apanhado de 12 sambas mais o hit regional Xiri Meu, cacuriá malicioso que o povo maranhense já inclui entre seus grandes “clássicos”. O disco sai em novembro pelo selo Saravá Discos, o mesmo que em outros tempos gravou Antonio Vieira e Lopes Bogéa.
O segundo disco, patrocinado pela Secretaria de Cultura do Estado do Maranhão (SECMA), terá o título Patativa canta sua História e está em fase final de gravação, devendo ser lançado no início do ano que vem. O produtor e arranjador é também o músico Luiz Jr.
Ninguém é Melhor do que Eu – Recebendo Lena Machado e Zeca Baleiro como convidados, Patativa lança Ninguém é Melhor do que Eu com show no dia 19 de novembro, no Porto da Gabi (Aterro do Bacanga). O evento começa às 19h, com os DJs Marcos Vinicius e Joaquim Zion, e o grupo Samba na Fonte.
Antecipando o que vem por aí, Ninguém é Melhor do que Eu, faixa que dá nome ao disco e tem a participação de Zeca Pagodinho, começa a ser executada nas rádios maranhenses, em primeira mão, nesse final de semana. E a partir da próxima segunda-feira, passa a ser distribuída para rádios de todo o país.
PATATIVA – ‘Ninguém é melhor do que eu’ – show de lançamento do cd
Participações especiais: Lena Machado e Zeca Baleiro.
Abertura: DJs Joaquim Zion e Marcos Vinicius e Grupo Samba na Fonte.
Onde: Porto da Gabi (Aterro do Bacanga).
Quando: 19 de novembro (quarta-feira), às 19h.
Quanto: R$ 30,00 (inteira) e R$ 15,00 (meia para estudantes e demais casos previstos em lei).
Onde comprar online: DR. Ingresso, (98) 3015-3017.
Pontos de venda: Papos e Sapatos (Lagoa da Jansen) e Livraria Poeme-se (Praia Grande), a partir do dia 4/11 (terça feira).
Ontem participei, com o camarada Alberto Jr. (como eu gostaria que ele tivesse um blogue para linkar no nome dele), do quadro Roda de Conversa, no Santo de Casa, na Rádio Universidade FM (106,9MHz), capitaneado por Gisa Franco.
O tema era “a importância dos blogues na difusão da música maranhense”, mas creio que fomos além.
Comentamos de nossas experiências como blogueiros, citamos blogues importantes, fiz cobranças públicas a quem já teve blogues e precisa voltar a ter e a quem nunca teve mas tem muito o que dizer, rimos um bocado e aproveitei para fazer o meu comercial, divulgando a 9ª. Aldeia Sesc Guajajara de Artes (termina hoje, 30) e shows de Chiquinho França (hoje, 30), Edvaldo Santana (7/11) e Patativa (19/11).
Quem perdeu no rádio pode ouvir o papo aqui, agora. Mais uma vez agradeço a atenção e paciência dos/as ouvintes e o carinho dos/as que fazem a Rádio Universidade FM.
Começo de setembro passado, a trabalho em Brasília/DF, meu celular toca. Era Valéria Santos, produtora da Rádio Universidade FM. Disse-me rapidamente que estavam produzindo um Janela Cultural em homenagem ao mestre José de Ribamar Elvas Ribeiro, mais conhecido como Parafuso. De cara topei dar um depoimento e ela gravou na hora, pelo telefone. Ela tornaria a ligar, já que as operadoras de telefonia não ajudam e a ligação caiu.
No dia em que o programa foi ao ar, eu estava novamente viajando. Hoje, com o amigo Alberto Jr., fui ao Santo de Casa, na mesma Universidade FM, falar com Gisa Franco no quadro Roda de Conversa sobre a relação entre a blogosfera e a difusão da música do Maranhão. O papo rolou agradabilíssimo. Reencontrei amigos e amigas e conheci Valéria pessoalmente. Ela me avisou que o programa dedicado a Parafuso estava disponível, na íntegra, no youtube.
Lembro que o lendário sonoplasta havia lançado recentemente, em concorrida noite de autógrafos no Bar do Léo, o livro Memórias de um Parafuso, de título autoexplicativo.
A quem interessar possa, aí está o programa:
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Uma viagem musical do moderno ao erudito. É o que promete o instrumentista Chiquinho França no encerramento de sua turnê Sons e Trilhos, que acontece nesta quinta-feira (30), às 20h30, na Praça de Alimentação (Parquinho) da Avenida Litorânea.
A apresentação encerra uma temporada de 10 shows com que ele percorreu, além de em São Luís, onde aconteceu a abertura e agora o encerramento, as cidades de Santa Inês, Imperatriz, Porto Franco, Grajaú, Bacabal, Pedreiras, Codó e Caxias. A produção é da Zarpa Produções e o patrocínio da Companhia Energética do Maranhão (Cemar), através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura.
Como nos outros shows da turnê, Chiquinho França (bandolim e guitarra) será acompanhado pelos músicos JBlues (teclados), Mauro Sérgio (contrabaixo) e Oliveira Neto (bateria). A novidade para a apresentação deste show de encerramento é a participação especial do cantor Paulo Piratta.
Chiquinho, sua banda e convidado farão um passeio por ritmos como jazz, blues, rock, samba, choro, baião, frevo e a diversidade da cultura popular do Maranhão. A exemplo de todas as apresentações da turnê, o acesso ao show musical é gratuito.
[No melhor esquema “do it yourself”, a velha máxima punk, topei de bom grado produzir este show, do querido Edvaldo Santana. O artista meteu o pé na estrada, “like a rolling stone”, e pediu pouca coisa para vir à São Luís pela primeira vez: apenas um lugar para tocar. Seu cachê dependerá inteiramente da bilheteria, já que não há patrocínio por trás. Quero ver o Teatro da Cidade de São Luís, o antigo Cine Roxy, entupido de amigos apreciando a arte desse craque de nossa música. Obrigado, de já, aos que tem colaborado ou ainda vão, de alguma forma, para que tudo aconteça e dê certo.]
Turnê de lançamento do novo álbum do artista visitará outras cidades do Nordeste

Cantor, compositor e violonista, Edvaldo Santana se apresenta pela primeira vez em São Luís. O músico paulista conta 40 anos de carreira, iniciada na banda Matéria Prima. Parceiro de nomes como Arnaldo Antunes, Itamar Assumpção e Tom Zé, em seu caldeirão sonoro se misturam a urbanidade de São Paulo à poesia do Nordeste, onde afloram as influências negras de ritmos internacionalmente consagrados, como reggae, salsa, blues, rock e jazz, que se fundem aos brasileiríssimos samba, xote, coco, choro e baião, entre outros.
Seu mais recente disco, Jataí, lançado em 2013, dá continuidade a uma obra que, ainda que pouco conhecida, correndo por fora do mercado convencional, prima pela qualidade e verdade. Sentimento seria uma boa palavra para defini-los – Edvaldo Santana, o disco, sua trajetória.
Jataí, disponível para download no site do artista, é o sétimo álbum solo da carreira de Edvaldo Santana. Seu repertório é totalmente inédito e autoral. Quando Deus quer até o Diabo ajuda, faixa que abre o disco, ajuda a explicar o modus operandi da turnê com que o artista visitará, além de São Luís, outras cidades nordestinas: Juazeiro/BA (24/10), São Raimundo Nonato/PI (27 e 29/10), Teresina/PI (31/10), Fortaleza/CE (9/11), João Pessoa/PB (14/11) e Natal/RN (16/11). Explique-se: o músico botou literalmente a viola no saco e está rodando o Nordeste na cara e na coragem.
A faixa-título, aliás, é um passeio pelo Brasil, citando inclusive a capital maranhense e seu tambor de crioula. Merecem destaque ainda faixas como A poda da rosa, Nada no mundo é igual e Amor é graça, entre outras. No repertório do show, Edvaldo Santana passeará ainda por músicas de outros discos, como Lobo solitário, O jogador, Choro de outono e Reserva de alegria, entre outras.
Jataí, o show, acontece dia 7 de novembro (sexta-feira), às 20h, no Teatro da Cidade de São Luís (antigo Cine Roxy). Os ingressos estarão à venda na bilheteria do teatro a partir de 3 de novembro (segunda-feira). A produção é de Zema Ribeiro.
Confiram Edvaldo Santana em A poda da Rosa:
Serviço
O quê: show Jataí – voz e violão.
Quem: Edvaldo Santana.
Onde: Teatro da Cidade de São Luís (antigo Cine Roxy, Rua do Egito, Centro).
Quando: 7 de novembro (sexta-feira), às 20h.
Quanto: R$ 20,00 (R$ 10,00 para estudantes com carteira e demais casos previstos em lei).
Maiores informações: zemaribeiro@gmail.com, (98) 8122-0009.
[Sobre De graça, de Marcelo Jeneci, 17/10, Teatro Arthur Azevedo]

Marcelo Jeneci já está definitivamente consagrado entre os grandes da chamada nova geração da música popular brasileira. Instrumentista bastante requisitado, nome presente em fichas técnicas de discos e shows de Arnaldo Antunes, Chico César, Vanessa da Mata, Zélia Duncan, Luiz Tatit, José Miguel Wisnik, Mariana Aydar, Vanessa Bumagny, Péricles Cavalcanti e Swami Jr., entre outros, parceiro de alguns, ele provou, em De graça, show apresentado no Teatro Arthur Azevedo, sexta-feira passada (17), que poucas vezes a palavra central da surrada sigla fez tanto sentido.
Se Luiz Gonzaga definiu uma estética musical usando sua sanfona, sobretudo (re)inventando o baião, Jeneci (re)coloca definitivamente o instrumento na música pop, superando qualquer preconceito. Embora sua música, ora vibrante, ora pura dor de cotovelo, esteja mais para Roberto Carlos – mas enquadrá-lo em rótulos e/ou comparações não basta para entender e apreciar a grandeza de sua obra.
O teatro estava absolutamente lotado e o espetáculo foi uma demonstração de cumplicidade entre artista e público como raras vezes se vê. Bastavam poucas notas a cada música para o público vibrar, aplaudir, fazer pedidos, cantar junto e mandar gritos de “lindo” e “linda”, para ele e Laura Lavieri, cantora com que divide os vocais desde Feito pra acabar (2010), seu disco de estreia.
Jeneci pilotou teclados e sanfona, cantou, dançou e acariciou as projeções que serviam de cenário, em momentos de pura beleza. Esbanjando simpatia, desceu do palco empunhando um microfone sem fio, rodou a plateia, “flertou” com uma fã, “tomou” o celular de outra, filmou tudo o que estava acontecendo e terminou o momento fazendo um selfie e devolvendo o celular. Em meio a tudo isso a plateia foi ao delírio, evocando gritos histéricos, apertos de mão e abraços de homens e mulheres.
O cantor e compositor revelou-se emocionado com a oportunidade de estar ali. “É tão raro sermos convidados para tocar por estas bandas”. Confessou-se admirado com a beleza dos Lençóis Maranhenses, que, turista, visitara no dia anterior. “Aquilo é único no mundo. Que bom que vocês têm os Lençóis em sua terra”, derreteu-se em elogios.
O par de vocalistas passeou pelos repertórios de Feito pra acabar e De graça (2013) e Jeneci cantou ainda Vamos passear de bicicleta (Hyldon). “Foi uma música que me apareceu durante a feitura desse disco novo. Diz tudo o que a gente queria dizer, com outras palavras”.
Jeneci (voz, teclado e sanfona) e Lavieri (voz e teclado) foram acompanhados por Regis Damasceno (contrabaixo, violão, teclado), Ricardo Prado (guitarra e teclado), João Erbetta (guitarra), Richard Ribeiro (bateria) e Estevan Sinkovitz (guitarra e teclado).
Não faltaram hits como Alento (Jeneci/ Isabel Lenza/ Arnaldo Antunes), Temporal (Jeneci/ Isabel Lenza), Nada a ver (Jeneci), A vida é bélica (Jeneci/ Isabel Lenza), Julieta (Jeneci/ Isabel Lenza), Dar-te-ei (Helder Lopes/ José Miguel Wisnik/ Jeneci/ Verônica Pessoa), Pra sonhar (Jeneci), Sorriso madeira (Jeneci), Jardim do Éden (Arnaldo Antunes/ Betão Aguiar/ Jeneci), Felicidade (Jeneci/ Chico César) e Pense duas vezes antes de esquecer (Arnaldo Antunes/ Jeneci/ Ortinho), entre outras. Completando quase duas horas de apresentação, o bis, um show à parte, incluiu a faixa-título do disco (Jeneci/ Isabel Lenza), que também batiza o show, e Quarto de dormir (Jeneci/ Arnaldo Antunes). “Essa não estava no repertório, mas depois que eu cheguei dos Lençóis, fui para uma situação de imprensa na Cultura Inglesa [principal patrocinadora do show] e alguns me pediram. Eu resolvi atender”, contou.
De graça é um show (e um disco) para ninguém botar defeito.

Elomar Figueira de Melo, ou simplesmente Elomar, é dono de uma das mais consistentes obras musicais do Brasil. Recluso, pouco sai de sua fazenda em Vitória da Conquista, sua cidade natal.
O compositor, violonista e criador de bodes – Elomar foi a inspiração para o Bode Orelana, famoso personagem de Henfil – estará em São Luís para um concerto único no próximo dia 23 de outubro, às 20h30, no Teatro Arthur Azevedo. Ensaiando o Riachão do Gado Brabo, o espetáculo, mesclará repertório consagrado e inédito do artista, que no palco será acompanhado por seu filho, o violonista João Omar.
Este apresentará parte do repertório inédito, algumas peças que serão registradas em João Omar interpreta Elomar: peças para violão solo, disco que deve lançar em breve.
O concerto que Elomar apresentará em São Luís anuncia uma mudança de fase em sua carreira. Ensaiando o Riachão do Gado Brabo deve ser o último disco (e concerto) com canções. Daí em diante o artista deve se dedicar à composição de óperas e outros trabalhos de maior fôlego – o que, na verdade, ele já vem fazendo, em paralelo, há algum tempo.
O público terá ainda a oportunidade de ouvir O robot e Mulher imaginária, temas da trilha sonora de um espetáculo teatral de autoria do próprio Elomar, O mendigo e o cantador. O compacto em que as músicas foram gravadas, ainda na década de 1960, não chegou a ser lançado. Dois sambas da fase inicial de sua carreira também compõem o repertório da noite.
Por si só um concerto de Elomar já é algo que vale muito a pena. Diante de tudo isso, torna-se simplesmente imperdível. Os ingressos, à venda na bilheteria do teatro, custam R$ 70,00 (plateia), R$ 60,00 (frisa) e R$ 50,00 (camarote, balcão e galeria).
Confiram o artista em O violeiro, de sua autoria:
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Bacabal, Pedreiras, Codó e Caxias. Estes são os próximos destinos do trem musical de Chiquinho França, que aporta acompanhado de sua banda nestas cidades, para shows do projeto Sons e Trilhos.
Guitarrista e bandolinista consagrado, Chiquinho França apresenta um repertório versátil, passeando do rock, jazz e blues ao choro, frevo e baião, um pé na modernidade, outro na tradição, as duas mãos na música de qualidade.
Acompanhado por JBlues (teclado), Mauro Sérgio (contrabaixo) e Oliveira Neto (bateria), Chiquinho França, um dos mais requisitados instrumentistas maranhenses, promete emocionar as plateias. “Na verdade, quem se emociona sou eu, ao poder oferecer ao público a música que aprendi vendo um ceguinho tocar na rodoviária de Santa Inês, minha cidade natal”, afirma o músico, lembrando as origens musicais.
Nesta segunda metade da turnê, Chiquinho França se apresenta na Praça São José (Praça do Bolo, Centro), em Bacabal, dia 15 (quarta), às 20h30; no dia seguinte (16), no mesmo horário, na Maçonaria Renascença Pedreirense (Praça do Jardim, Centro), em Pedreiras.
Sexta-feira (17) é a vez de Codó: Chiquinho França e banda se apresentam na Praça Ferreira Bayma, às 20h30. Sábado (18), no mesmo horário, é a vez de Caxias. Na terra do poeta Gonçalves Dias a apresentação acontece no Centro de Cultura (Praça do Panteon, Centro).
Todas as apresentações são gratuitas e abertas ao público. A última apresentação da turnê acontecerá em São Luís, em data, horário e local a definir. Sons e Trilhos tem realização da Zarpa Produções e patrocínio da Companhia Energética do Maranhão (Cemar), através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão.
[Do site do Vias de Fato]
Vias de Fato entrevistou, por e-mail, dois escritores, um professor de Comunicação Social, uma cantora e um compositor sobre dois temas completamente ocultados pelo debate eleitoral no Maranhão (e no Brasil)
POR ZEMA RIBEIRO
16 de setembro de 2014, 8h31. Disparo um e-mail para mais de 50 destinatários, com cinco parágrafos explicando a ideia e sete perguntas.
O texto era esse aqui.
Abre aspas.
Se você recebeu este e-mail, certamente tem atuação nas áreas que pautam a pequena entrevista abaixo – comunicação e/ou cultura.
A entrevista coletiva – ao contrário do usual, um pergunta e vários respondem – está sendo enviada a várias pessoas, que responderão o que quiserem, como quiserem – só não vale usar pseudônimo. Pedimos apenas que o façam até a próxima sexta-feira (19), sem falta, para que possamos batucar a edição no fim de semana e fecharmos o próximo número do jornal Vias de Fato.
O modelo de questionário tem origem no Fluxo (a série de entrevistas Sociedade da informação), coletivo de jornalistas sediado em São Paulo. Lá eles trataram a política de forma mais abrangente e entrevistaram apenas escritores. Aqui, restringimos a pauta à cultura e comunicação e ampliamos o leque de entrevistados – escritores/as, cantores/as, compositores/as, instrumentistas, atores/atrizes, artistas plásticos/as, professores/as, jornalistas, produtores/as, djs etc., etc., etc.
A ideia é abarcar os problemas relacionados aos assuntos e tentar colocá-los na agenda eleitoral, que os esqueceu completamente, sobretudo no Maranhão, onde os temas carecem de debates urgentemente. Caso tenhamos esquecido de mencionar algum aspecto que você julgue importante, fique à vontade para fazê-lo.
Junto às respostas, pedimos ainda a gentileza de encaminhar uma foto, para usarmos na ilustração do material, e um pequeno currículo/biografia, de em torno de cinco linhas. Zema Ribeiro e o Vias de Fato agradecem antecipadamente a sua contribuição.
Fecha aspas.
O e-mail tinha o título “Entrevista: Comunicação e cultura ausentes da agenda nas eleições 2014”.
20 de setembro de 2014, manhã. Esgotado o prazo estipulado, apenas cinco mensagens de retorno, com as devidas respostas: Bruno Azevêdo, Carlos Agostinho Couto, Tássia Campos, Herbert de Jesus Santos e Gildomar Marinho (na ordem da chegada de suas respostas).
Admito: não era um questionário de entrevista dos mais fáceis e curtos.
De acordo com as minibiografias enviadas, Bruno Azevêdo (também um dos entrevistados pelo Fluxo) é “escritor, editor e galã de fotonovelas. Escreveu O Monstro Souza, A intrusa, Breganejo Blues e mais cinco livros de ficção. Em novembro lança Em ritmo de seresta, sobre a seresta e a música brega no Maranhão”; Carlos Agostinho Couto é “jornalista e professor da UFMA. É editor da revista Cambiassu do Departamento de Comunicação Social da UFMA e, entre outras obras, publicou os livros Estado, Mídia e Oligarquia, pela EDUFMA e Onde está a Ideologia, pela editora Ética”; Tássia Campos é “cantora e musicista e comete impropérios desde 1986. Gosta de rap, sushi e cachaça e acredita/luta pelo bom e pelo justo no mundo”; Herbert de Jesus Santos “nasceu em São Luís, é jornalista, revisor literário e escritor (poeta, cronista, contista, novelista e romancista), e tem onze títulos publicados, além de diversos inéditos, e prêmios literários, além de jornalísticos. Egresso do Curso de Comunicação Social da UFMA, trabalhou em diversos matutinos locais, de repórter a editor-geral; e, atualmente, é colunista do Sotaque da Ilha, do JP Turismo, suplemento semanal do Jornal Pequeno”; Gildomar Marinho é “cantor, compositor e violonista e tem três discos gravados: Olho de Boi (2009), Pedra de Cantaria (2010) e Tocantes (2013). Atualmente está gravando o quarto, Mar do Gil, com previsão de lançamento para o primeiro semestre de 2015”.
Dois escritores, um professor de Comunicação Social, uma cantora e um compositor. Apesar dos poucos retornos, Vias de Fato – que agradece encarecidamente ao quinteto partícipe – ainda conseguiu alguma diversidade ao pautar dois temas absolutamente excluídos do debate eleitoral no Maranhão.
À/s entrevista/s, pois.

Tanto na esfera federal quanto na estadual, os temas comunicação e cultura não entraram na agenda política de candidatos nem nos debates até aqui realizados. No entanto, são dois temas alardeados como fundamentais para o desenvolvimento do país ou de qualquer estado. A seu ver, qual o motivo do desinteresse por estas pautas?
Bruno Azevêdo – Acho que o único tema que está sendo efetivamente debatido nessas eleições é deus e o filho dele, todo o resto é vírgula, nota de rodapé, nada me parece sair da boca dos candidatos que não seja a afirmação da existência de deus e sua adesão a essa existência. Isso certamente nos diz algo sobre a possível política cultural que teremos ao fim do pleito: um investimento cavalar em arte religiosa e um processo de esvaziamento de produtos e processos que possam gerar constrangimento religioso. Não sei quem vai perder as eleições, mas sei que o Nazareno vai ganhar e isso é um passinho pra frente na beira do poço, direto pra idade média. Fudeu.
Carlos Agostinho Couto – Diante de tantas mazelas que o Estado brasileiro apresenta, é comum alguns temas serem deixados de lado no período eleitoral para que os candidatos possam tratar de promessas, assistencialismo e atendimento aos interesses dos que os apoiam. Cultura e comunicação estão entre esses temas. Agrava a situação o fato de que o controle dessas áreas é concentrado em poucas mãos, que não têm interesse em qualquer tipo de mudança. Excetuando-se os experimentos alternativos e verdadeiramente populares, as indústrias da cultura e a da comunicação pressionam os candidatos e partidos (com exceções, claro) que, temendo as reações dos grupos poderosos, desprivilegiam os assuntos e os tiram da pauta política.
Tássia Campos – Analisando a realidade maranhense há um problema: os meios de comunicação são de políticos. As emissoras, jornais, falo dos de grande circulação e maiores audiências escolhem um lado. Logo é realmente delicado tratar da comunicação quando não temos ainda mídias livres abrangentes e focadas no código de ética do jornalismo, por exemplo. Já a cultura… acredito que nunca foi prioridade em nenhum governo, por isso a ausência de debate. O que é claramente um erro.
Herbert de Jesus Santos – Por absoluta ignorância sobre o assunto da maioria das candidaturas, especialmente na parte que toca à cultura, muito abrangente para os miolos de quem só vê na frente ganhar eleição, a todo custo, e se dar bem depois. Por outro lado, acham que Comunicação é só botar um assessor para isso e pronto!
Gildomar Marinho – Eu não diria desinteresse, diria interesse estratégico em afastar este tema do calendário eleitoral, sobretudo, pelo papel que os meios de comunicação exercem atualmente. Um tema delicado como o da comunicação, que no Brasil permite, em nome da liberdade de imprensa, a manutenção de verdadeiros latifúndios das comunicações não parece ser um tema atrativo para os candidatos mais bem posicionados e que têm nessas mídias seus principais pilares de sustentação. Quanto à cultura, percebo que o tema é colocado de forma transversal pela maioria dos candidatos, sendo mais uma vez tratada como um paliativo social à expansão do consumo de drogas e da violência. Consegui enxergar um debate mais audacioso no programa de governo do PSOL, que defende uma distribuição mais equilibrada de recursos, dentro de uma política que, ao menos, traz o tema cultura para uma posição mais evidente, não como um apêndice da educação ou do turismo, por exemplo, mas como um recurso estratégico, já que pode potencializar o nosso maior capital: o povo brasileiro.

Após a morte de Eduardo Campos, a ascensão de Marina Silva levou Dilma Rousseff a convidar Juca Ferreira, ex-ministro da Cultura, a comandar o setor cultural de sua campanha. A dobradinha formada por ele e seu antecessor, Gilberto Gil, no MinC, goza de quase unanimidade no meio artístico. Qual a sua opinião a respeito do período e do que se viveu depois, no país?
Bruno – Acho que se fez um belo trabalho em fazer gente rica ficar mais rica, que é a minha opinião geral sobre a política cultural no país. Ainda não consegui ver este processo de forma diferenciada, independentemente de quem sente na poltrona do poder. Não consigo enxergar uma política que faça o que se proponha: desenvolver através de iniciativas sistêmicas e pontuais a possibilidade de industrialização e mercantilização da arte brasileira [grifo do entrevistado]. Se o projeto não é esse, então a bagaça não passa de assistencialismo (e sou contra, que arte também é trabalho); se é esse, o Estado falha em manter em suas tetas artistas/produtoras que já possuem relações de mercado bem estabelecidas.
Carlos – A política cultural do país teve alguns avanços, como o incentivo à produção audiovisual local e o reconhecimento de manifestações culturais regionais na esfera nacional. Não podemos deixar de reconhecer que – apesar da riqueza cultural do país – a pasta ministerial é considerada menor, de pouco peso, e serve a interesses pessoais, tanto quanto outras, como no caso do financiamento de fundações de interesse privado, como aconteceu no Maranhão.
Tássia – Sei que houve avanços, foi nesse período que se iniciou a discussão das leis de incentivo, mas honestamente acompanhei muito pouco. Não tenho opinião formada.
Herbert – Realmente, houve um movimento interessante nos mais variados setores culturais, no país. Agora, nem parece que há órgãos culturais com tamanha importância, talvez, com desvio de função, ocupando outras atividades.
Gildomar – Isso denota uma diferença na condução da política de cultura entre os governos Lula e Dilma, para ficar nos presidentes que tentaram levar a sério esse tema. Tenho a percepção de que o Gil trouxe à esfera pública a sua carga pessoal de quem compreende e vivencia a cultura de forma humana, diversa, plural e, por que não dizer, empresarial, já que não se pode esquecer que o próprio Gil é uma grife com valor econômico. Essas características tornaram os diálogos (e havia diálogos) ricos, e dentro de um sentimento de valorização da cultura, com toda a diversidade que enriquece o Brasil. O que veio depois foi uma mecanização de processos e tentativas de profissionalizar o fazer cultural que permite, por exemplo, a destinação de R$ 4,5 milhões para um único artista apresentar-se em parcos eventos (pagos, diga-se), em contraponto à exclusão de milhares de projetos espalhados Brasil afora (ou adentro). A aproximação com o ex-Ministro Juca pode sinalizar uma boa notícia, se com ele vier uma política que, de fato, coloque a cultura como um valor estratégico para o país, que restabeleça o diálogo com a sociedade e que, de fato, retorne a cultura à pauta política. Aos que consideram cultura como custo, vemos o exemplo da “Mona Lisa”, cujo governo francês estuda vender para sanar suas dívidas. A arte salvando a economia. Quantos “Da Vinci”, “Gonzagas”, “Suassunas” se espalham por este país, aguardando uma chance de desenvolver seu potencial artístico? E quantos são abortados por falta de oportunidade? Considero um desperdício ver uma geração potencial sendo cooptada diariamente pela indústria cultural pela simples falta de oportunidade.

O Maranhão é sempre propagandeado como um dos estados culturalmente mais ricos do país. A indústria do entretenimento é das que mais geram divisas mundo afora. Na sua opinião, qual o motivo de o estado permanecer nas últimas posições do ranking quando se trata de indicadores sociais, na contramão do que se propagandeia?
Bruno – Acho uma balela esse lance de “culturalmente rico”, que não há como medir isso. Geralmente esse título vem acompanhado de um ou dois símbolos de diversidade que se repetem infinitamente a despeito de outras possíveis realizações do lugar; é uma pecha, não um mérito. Não há indústria por aqui, nem mercado… talvez haja prum ou outro parafolclórico, pelas relações que estes estabelecem com o Estado via secretaria de cultura.
Carlos – A cultura no Maranhão é rica – de folguedos à culinária, passando pela arquitetura e outras artes – mas excessivamente centralizada em alguns polos e sofre um processo danoso de controle político pelo qual um único grupo produtor de eventos indica os caminhos da área para todo o estado e praticamente monopoliza os recursos. Faltam descentralização, visão voltada também para a cultura da parte continental do estado e o fim dos benefícios por interesses estritamente pessoais.
Tássia – NUNCA HOUVE POLÍTICAS PÚBLICAS CULTURAIS NO MARANHÃO [grifo da entrevistada].
Herbert – Só numa administração democrática, o gestor vai querer a cultura (colocando-se aí sua parceria com o turismo), quanto atividade lucrativa, em termos de autoestima popular, e de geração e distribuição de renda. Todos os outros segmentos, envolvidos no fazer que diverte e recreia, saem lucrando, financeiramente. O modelo do atraso nunca teria interesse em ver o comunitário, além do amor-próprio lá em cima, com mais recheio na poupança.
Gildomar – De fato, a riqueza cultural do Maranhão é inquestionável, pela diversidade do seu povo, pela sua riqueza histórica e, vá lá, com uma forcinha do erário público que sempre arruma um jeito de manter vivas algumas festas tradicionais, mesmo com contradições e, por vezes, chocando com princípios e valores da sociedade contemporânea, a exemplo do que ocorre com a intervenção do Ministério Público, Juizado da Infância e outros órgãos de controle, sem contar a grande engenharia financeira para contemplar os diversos grupos, associações e grêmios nesse processo todo. O desafio é saber qual manifestação se mantém independente dos recursos públicos. Não faço apologia à retirada do apoio público, pois ele é fundamental. No entanto, sem uma política consistente, corremos o risco de mantermos os eventos apenas por mantê-los ou, numa dimensão sociológica, transformá-los ao sabor das exigências da atualidade até descaracterizá-los por completo como manifestação cultural. Isso sem contar o risco sempre presente do apadrinhamento, da privatização do recurso público. Aliás, algumas brincadeiras do Maranhão figuram como uma paródia, que beira o real, da relação social que insiste em atravessar os séculos. Por tal, vemos as figuras do padrinho, da madrinha, do ritual de poder e de uma relação de servidão que nos remete ao tempo que se quer representar. Como se o amo e os vassalos estivessem para sempre presos ao folguedo, por dentro da manifestação, e à realidade, por fora dela. Não há como fazer uma previsão, mas é um desafio pensar como seriam as manifestações tradicionais do Maranhão em um cenário onde todos tivessem acesso à educação, saúde, emprego e moradia, e independentes de padrinhos. Este, para mim, é o maior desafio, buscar uma solução que aproxime o desenvolvimento, mantendo a nossa identidade.
!["[As gestões culturais federal, estadual e municipal] São de medíocres para inoperantes". O escritor Herbert de Jesus Santos. Foto: acervo pessoal](https://zemaribeiro.com/wp-content/uploads/2014/10/herbert-de-jesus-santos-acervo-pessoal.jpg?w=525)
Bruno – A do estado é uma bela merda, e nem tem como não ser. Recentemente um grupo de artistas foi numa secretaria pedir auxílio pra participar de um festival e ouviu a desculpa de que “todo o dinheiro já tinha sido levado pra campanha”; isso é dito em tom de amizade, tipo “tô te dando um toque pra ti não perder teu tempo apresentando projeto”. Esse mesmo grupo (que vou chamar aqui de uma “cena”) conseguiu o apoio da Func [Fundação Municipal de Cultura] (tradicional geradora de patacoadas) porque o prefeito viu o show de uma das bandas e achou por bem apoiar a causa. É massa e necessário que a prefeitura apoie bandas que representam mais de 10% dos concorrentes num grande festival, mas a forma como o apoio ocorre mostra que a gente ainda não superou a pessoalização, e que não temos uma política de cultura que veja algum tipo de mérito por outras formas que não fazer umas centenas de pessoas cantarem em praça pública que aquela banda é legal na cara do prefeito. Chico Gonçalves [presidente da Func] me parece estar fazendo um bom esforço ali, tentando acertar mil pendências, vamos ver no que dá.
Carlos – Percebem-se tentativas de mudança e de tratamento isonômico e republicano dos recursos para as áreas. Porém, enquanto a lógica permanecer a de submissão aos interesses da grande indústria da cultura, do patrimonialismo e compadrio regionais, pouco mudará.
Tássia – Nunca trabalhei pro Estado ou pra prefeitura. Mas vejo na atual gestão da Func, por exemplo, um canal mais aberto pra possibilidades e diálogo. E não esperaria outra coisa de alguém como professor Chico [o presidente da Func é professor do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal do Maranhão]. É a prova de que estudo e preparo fazem muita diferença em qualquer gestão.
Herbert – São de medíocres para inoperantes. Onde não se contempla, com o máximo destaque, a literatura entre os outros também relevantes setores, é pretender por o carro na frente dos bois. Procede a comparação, em nosso ambiente doméstico, de que, dentre planos editoriais e concursos literários, vários, até os 1990, só restando o Cidade de São Luís, da Func, precariamente, defasado em anos, a oferta maior seria para o circo, aliás, mais que o pão.
Gildomar – Por estar atualmente morando fora do Maranhão, é difícil tecer uma opinião acerca da gestão cultural atualmente exercida no estado. No entanto, o que é publicado fala por si. À exceção de um breve espaço de tempo em que a cultura foi amplamente discutida no estado, o que percebo é uma nova parábola do bumba meu boi, onde a cada ano muda o couro, mas o boi é o mesmo. Sinto falta de uma política cultural no Estado que abranja a totalidade do seu território e, mais ainda, que garanta uma programação mais abrangente. Quando partimos para uma visão nacional, a percepção que se tem é que todo o esforço do Minc para capacitar os produtores culturais, mercê do esforço na criação dos Sistemas Municipais de Cultura, não surtiu os efeitos desejados de descentralização e interiorização dos recursos da cultura. Outro ponto de destaque foi a descontinuidade percebida nas gestões que seguiram as do Gil e do Juca.

No Maranhão, particularmente, é bastante complicada a relação entre governos e mídia. É possível vencer o latifúndio comunicacional, com grandes proprietários e capatazes dispostos a tudo para defendê-los, e avançar para uma efetiva democratização da comunicação?
Bruno – É. Acho. Ocupando esses espaços. Não se trata aí de uma efetiva democratização, mas de um distúrbio possível, que também interessa.
Carlos – No modelo que temos hoje, isso é impossível. Poucos controlam os meios de comunicação, a política regional, os recursos para a área cultural e de divulgação artística e ainda submetem os produtores culturais menos críticos à reprodução do modelo “me apoia que libero recursos”, o que faz as áreas de cultura e mídia andarem para trás. Possivelmente o avanço tecnológico (com mais gente com liberdade para veicular) e a democratização das ações (formas de participação e acesso a recursos, por exemplo) poderão alterar o quadro, mas seria outro modelo.
Tássia – Sim! Existem outras formas de comunicação hoje sem ser TV, impresso e rádio. Hoje temos a internet. Existem outras vias para estabelecer uma rede de comunicação. Acredito que a internet será a responsável por uma reforma que vai construir uma comunicação mais democrática, com mais lados pra que as pessoas formem suas opiniões sem que sejam induzidas.
Herbert – Só se houver, finalmente, um governo estadual democrático da cabeça aos pés.
Gildomar – Não considero complicada esta relação. Pelo contrário, é por demais harmoniosa. Não só no velho estilo hay gobierno? estoy dientro [grifo do entrevistado], mas pelo fato de o quarto poder exercê-lo em níveis de países totalitários. É claro que a simbiose do serviço de utilidade pública, papel dos meios de comunicação, confunde-se no Maranhão com propaganda deliberada da cosanostra [grifo do entrevistado]. Considero complicada a relação da mídia maranhense é com a verdade dos fatos, pois ela confunde, persegue, bajula de forma despudorada, como se seu ombudsman [grifo do entrevistado] tivesse o condão de ser, parecer e fabricar a verdade apenas replicando o mantra dos seus patrões. Até mesmo a internet, que advoga para si o espaço da democracia da informação consegue ser ludibriada por blogueiros e fantoches que ganham a vida manipulando, requentando e, mesmo, inventando factoides para manter a si e sua “notícia” em evidência, não importando quanta aderência sua “verdade” tenha com a realidade. Não podemos perder de vista que as concessões dos meios de comunicação no Maranhão, aliás, no Brasil, foram desenhadas para a construção e manutenção dessa, perdão pelo neologismo, latimídia. Não por acaso, executivos e legisladores de então gozam de sua plena liberdade de expressão.
Se convidado pelo governador eleito, aceitaria o cargo de secretário de Estado da Cultura ou Comunicação? Em caso positivo, encararia o desafio em qualquer das seis possibilidades? Que ações desenvolveria ao longo de quatro anos de governo? Em que governo não aceitaria cargo de jeito nenhum?
Bruno – Nem fodendo. Nenhum deles. Acho que a pessoa precisa ter algum tipo de distúrbio moral pra se dispor a ocupar certas posições, ou ter aversão ao trabalho, não sei, meu preconceito supera a razão nesses casos.
Carlos – Gostaria muito de contribuir pragmaticamente com o meu estado e povo, principalmente nas áreas de ampliação de informações e direitos, mas não aceitaria cargo de secretário (também tenho clareza de que não seria chamado). Nunca trabalharia com os políticos conservadores que dominam o estado há décadas.
Tássia – Nunca trabalharia pra quem quer que esteja envolvido com o grupo Sarney. Eu não sei responder ao restante da pergunta. É uma reflexão muito íntima. Só digo o que eu jamais faria [risos].
Herbert – Para a Cultura, não, onde os supérfluos intrusos são até mais contemplados que os genuínos valores maranhenses, em certos casos! Em Comunicação, só com uma equipe competente, nas assessorias setoriais, implicando não ingerência de dedos políticos na constituição do time. No da continuação da oligarquia, eu nem sequer seria convidado; num deles, já tive cargo de assessor-chefe, na Secom estadual, fazendo jus ao cargo e ao salário, funcionário de carreira, e, onde não queriam o melhor trabalho, colocaram, pelo ordenado, em meu lugar, um apadrinhado sem habilidade na área direcional e na profissão jornalística.
Gildomar – O cargo de secretário só tem sentido dentro de um projeto maior, que enseje em uma mudança de atitude de poder. Uma nova cultura política, que aponte para a valorização do povo maranhense, que eleve sua autoestima ante si mesmo, ante seus vizinhos e ante o país. Isso passa por uma mudança, inclusive na estrutura hoje tão imbricada por parentes, amigos e amigos de amigos de um grupo que está há cinco décadas no poder. São duas gerações. Meio século de história. Não é uma mudança fácil. Isso requer um esforço político, técnico, acadêmico e um diálogo muito forte com a sociedade, além de ações assertivas. A cultura, parte com que mais me identifico, carece de um planejamento estratégico, plurianual, plural e que aponte para sua sustentabilidade, que permita potencializar a nossa riqueza cultural, garanta a democratização dos meios e equipamentos culturais e, mais importante, que nos faça sentir orgulhosos de nossa maranhensidade. Não almejo esse cargo, mas se eu fosse sondado por algum grupo para sê-lo, parece evidente que meu mais redundante NÃO teria endereço certo.
Você declara/ria voto? Em quem vai votar nas próximas eleições? Por quê?
Bruno – Declaro: nulo.
Carlos – Declararia e declaro, mas ainda não fechei a chapa. Ainda tenho dúvidas entre o voto de protesto, a abstenção, a anulação em alguns cargos, ou o voto pragmático em pessoas menos ruins.
Tássia – Difícil, hein? Pela dicotomia, voto Flavio Dino governador. Deputado estadual não tenho; federal não tenho. Senador Haroldo Sabóia e presidente Dilma.
Herbert – Nas majoritárias: para governador do Maranhão, em Flávio Dino, pela possibilidade de mudar o rumo dessa conversa da oligarquia (escorchante, exclusivista, antiprogressista etc.); para presidente da República, em Aécio Neves, por ter um plano consistente de governo, moldado em resultados concretos, em suas gestões no executivo mineiro; Dilma, o poste de Lula, sem nenhum tino gerencial, está esquentando o assento para este, a maior decepção republicana, por aliar-se aos que mais contestou e se corrompeu e corrompeu, para quem sabe o que é política correta e íntegra, e sem passar de uma farsa até em se achar estadista; Marina continua sonhando muito e é lenta para acordar. O Brasil não pode errar mais em quem já errou muito nem viu (que nem Lula nunca viu a sangria do dinheiro público no mensalão, etc.) o rateio entre os da velha política da mamata da riqueza do povo brasileiro na Petrobras; e em quem é mais dúvida que certeza.
Gildomar – Voto Flávio Dino porque, apesar das múltiplas forças contraditórias em torno de sua candidatura, acredito na sua capacidade de trabalhar essa diversidade e criar um novo ciclo político no Maranhão. E que nossa capacidade e liberdade de transformar nos seja guia a um Maranhão livre e justo.
[release]
Músico se apresentará em nove cidades do interior. Shows de abertura e encerramento da turnê acontecem em São Luís. Gratuitas, apresentações acontecem em outubro.

Reconhecido como um dos mais talentosos e versáteis artistas da música produzida no Maranhão, o guitarrista e bandolinista Chiquinho França cai na estrada para 10 apresentações em nove cidades maranhenses.
Com patrocínio da Companhia Energética do Maranhão (Cemar), através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura, o projeto Sons e Trilhos levará o músico a Santa Inês (cidade natal do artista), Imperatriz, Porto Franco, Grajaú, Bacabal, Pedreiras, Codó e Caxias.
Os shows de abertura e encerramento da turnê acontecem em São Luís, o primeiro dentro da programação dos festejos do Círio de Nossa Senhora de Nazaré, no Cohatrac, já neste sábado (4/10), às 22h. Todas as apresentações são gratuitas.
“É uma felicidade muito grande poder percorrer estas cidades, poder presentear o público com o que temos feito até aqui em nossa carreira musical. São mais de 30 anos de estrada, passeando por diversos gêneros. Quer dizer, bagagem não falta para esta viagem”, afirma, sorridente, o músico.
Transitando com desenvoltura entre diversos estilos musicais brasileiros – choro, baião e frevo, entre outros – e internacionais – jazz, blues, pop e erudito – Chiquinho França será acompanhado pelos músicos JBlues (teclados), Mauro Sérgio (contrabaixo) e Oliveira Neto (bateria).
Sons e Trilhos é uma realização da Zarpa Produções. Veja a programação completa da turnê, que acontece durante o mês de outubro.
São Luís: 4 (sábado), 22h, Círio de Nazaré (Praça da Igreja do Cohatrac). | Santa Inês: 8 (quarta), 22h, Panela de Barro Restaurante e Eventos. | Imperatriz: 9 (quinta), 21h30, Festejo de Santa Tereza D’Ávila (Praça da Matriz). | Porto Franco: 10 (sexta), 20h30, Praça Demétrio Milhomem (Beira Rio). | Grajaú: 11 (sábado), 20h30, Praça Raimundo Simas (Centro). | Bacabal: 15 (quarta), 20h30, Praça São José (Praça do Bolo, Centro). | Pedreiras: 16 (quinta), 20h30, Maçonaria Renascença Pedreirense (Praça do Jardim, Centro). | Codó: 17 (sexta), 20h30, Praça Ferreira Bayma. | Caxias: 18 (sábado), 20h30, Centro de Cultura (Praça do Panteon, Centro). | São Luís: data, horário e local a confirmar.

Que Luciana Rabello e Paulo César Pinheiro têm um dos casamentos mais férteis da música brasileira ninguém duvida. Mas parece não haver prova maior que Candeia branca [Acari Records, 2013], seu segundo disco, lançado recentemente pela cavaquinista.
Ela, militante do choro desde menina, quando no início da adolescência dividiu grupo e disco com o irmão Raphael, exímio violonista sete cordas, Os Carioquinhas no Choro (1977). Desde então se tornou uma espécie de guardiã, sacerdotisa, embaixatriz do mais brasileiro de todos os gêneros musicais, sempre muito requisitada, presente em vasto número de fichas técnicas de shows e discos de artistas os mais diversos.
Ele, um dos mais produtivos – se não o mais – compositores do Brasil, dono de lavra que já ultrapassa dois mil títulos, sozinho ou em tantas parcerias, gravado e regravado por diversos nomes, profundo conhecedor do Brasil profundo, versátil como só um craque de tamanho talento pode ser.
Não se poderia esperar outra coisa, pois, de Candeia branca, o disco. Adjetivos não faltam – nem bastam – para classificá-lo: excelente, sublime, único. Das 14 faixas, 13 são assinadas em parceria pela dupla: músicas de Luciana Rabello, letras de Paulo César Pinheiro.
A exceção é Teu amor, apenas dela, dedicada a ele: “Deus quando uniu minha alma à tua/ me deu também de presente a paz/ e a tua poesia traçou o caminho/ pro samba que eu faço/ quem pode ser mais feliz que eu?/ quero viver sempre ao lado teu!”, derrama-se na letra.
A grande novidade é que Luciana Rabello não se limita a tocar cavaquinho (e violão em Luz fria), nem a produzir o disco e/ou cuidar da burocracia da Acari por que lança o disco, a gravadora que dirige com Maurício Carrilho (que toca violão no álbum), o que não seria pouco. A surpresa é que Luciana Rabello solta a voz, para deleite de fãs que já a acompanham há algum tempo e/ou novatos, bem vindos sejam!
O disco abre com um tema batido, a origem do samba, sobre o qual o casal consegue jogar originalidade ao tentar responder a pergunta título da primeira faixa, De onde veio o samba: “Mas de onde é que veio o samba?/ Seu Doutor perguntou:/ Veio do Rio de Janeiro ou Salvador? Eu respondi no contrapé/ Vou lhe dizer de onde é que é/ foi dos quadris de uma mulher/ que veio o samba/ Mas sempre ouvi dizer que o samba…/ Seu Doutor insistiu,/ Veio da África direto pro Brasil/ Eu resolvi dar nome aos bois/ Brasil e África amaram-se os dois/ do casamento é que depois/ nasceu o samba”, teorizam.
Em Candeia branca predominam diversas vertentes de brasilidade: o samba (em diversas variações), o choro (praia da artista, permeia todo o álbum), o maculelê (Seu Catirino) e a ciranda (a faixa-título). Além da parceria do marido, Luciana Rabello é escoltada por velhos parceiros, fiéis escudeiros de trincheira comum: Marcus Thadeu (percussão), Celsinho Silva (percussão), João Lyra (violão, viola), Paulino Dias (percussão), Julião Pinheiro (violão sete cordas), Glauber Seixas (violão), Cristóvão Bastos (piano e arranjo em Luz fria e Um triste olhar), Pedro Paes (clarinete), Dori Caymmi (violão, voz e arranjo em Flor d’água), Ana Rabello (cavaquinho em Flor d’água) e Oscar Bolão (percussão em Queda de braço), entre outros, além do já citado Maurício Carrilho.
Todas as músicas são inéditas, exceto Enigma, já gravada por Amélia Rabello, irmã de Luciana, em A delicadeza que vem desses sons [Acari Records, 2011]. Mas Candeia branca soa completamente novo, quiçá por nos apresentar esta outra vertente de Luciana Rabello, que agora se mostra competente e talentosa, além de ao cavaquinho, ao microfone.
[O Imparcial, 22 de dezembro de 2013]
Titular do cavaquinho solo do Regional Tira-Teima, mais antigo grupamento de choro em atividade no Maranhão, Paulo Trabulsi é o 22º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVÂNIO ALMEIDA SANTOS
Um cortejo natalino interrompeu a entrevista que Paulo Trabulsi concedeu à Chorografia do Maranhão, no ECI Museu, na Praia Grande. Titular do cavaquinho do Regional Tira-Teima, o músico atendeu a mãe ao telefone: “estou em uma entrevista. A Bia [filha do músico] está comigo”, a avó queria saber da neta, que atendeu outras ligações enquanto ele conversava com os chororrepórteres.
A conversa aconteceu à boca da noite de 17 de dezembro passado, ocasião em que esperávamos, todos, o recital de lançamento de João Pedro Borges – violonista por excelência, perfil de Sinhô [Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 14 de abril de 2013] escrito pelo jornalista Wilson Marques. Depois da conversa, Paulo Trabulsi, entre outros amigos, subiu ao palco em que o ex-integrante da Camerata Carioca desfilou um repertório que lhe marcou a trajetória, com participações especiais, além do entrevistado, de Serra de Almeida [flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 3 de março de 2013], Zezé Alves [flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 9 de junho de 2013], Francisco Solano [violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 26 de maio de 2013], Juca do Cavaco, Ubiratan Sousa [multi-instrumentista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 12 de maio de 2013], Chico Saldanha [compositor] e Simão Pedro Amaral [professor de canto da EMEM].
Filho do farmacêutido Sadi Ari Ericeira e da contadora Mary Trabulsi Ericeira, Paulo César Trabulsi Ericeira nasceu em São Luís em 28 de novembro de 1957. Funcionário da Caixa Econômica Federal desde 1979 sempre conciliou o ofício de bancário com o de músico – com a segunda profissão gasta parte do dinheiro que ganha na primeira.
Paulo Trabulsi cursou até o nono período de engenharia mecânica e, por força do trabalho no banco, estudou processamento de dados.

Como era o ambiente musical na casa, na família? Se praticava música, se ouvia, ou ambas as coisas? Era um ambiente em que se ouvia muita música. Meu pai tinha um gosto musical extremamente apurado. Eu nesta época, muito jovem, cinco, seis anos de idade, nessa época o que papai ouvia era jazz americano e muito choro. Música instrumental de modo geral. Papai tinha a coleção completa de Jacob do Bandolim. Então, eu ouço Jacob, tá impregnado na minha cabeça…
Mais do que Waldir Azevedo? Mais do que Waldir Azevedo. Desde muito jovem. Então eu cresci escutando isso.
Jacob, para você, acaba sendo uma referência, mesmo você sendo cavaquinhista e ele bandolinista. Tenho muito mais referência no som de Jacob, que eu ouvi muito mais. Embora papai também tivesse discos de Waldir Azevedo.
E sua mãe? Mamãe só apreciava, mas não tinha esse gosto musical apurado. Ela era muito orgulhosa de nós filhos, eu e Sadi, meu irmão, dos cinco filhos nós ficamos com essa veia musical. Mamãe tinha prazer de nos ver aprender a tocar alguma coisa.
A partir de quando você se interessou por aprender música? Desde muito jovem, seis, sete anos de idade, mamãe comprou um violão e eu comecei a aprender sozinho, observando. Era uma musicalidade muito grande. Eu me recordo que papai levava a gente para aqueles bailes de carnaval no Lítero, e eu ficava o baile inteirinho olhando pra banda tocar. E na época, depois eu vim descobrir, o guitarrista da banda era o Agnaldo Sete Cordas [violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 17 de março de 2013]. Eu ficava hipnotizado por aquele senhor tocando aquela guitarra, tão melodiosa, tão harmônica. Tempos depois, a gente se identificou: “eu me lembro de ti, tu não era aquele gordinho que ficava ali na frente?”
Você teve algum estudo formal de música ou sempre foi autodidata? Tive depois. Depois eu fiz violão clássico aqui na Escola de Música [do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo].
Hoje você é reconhecido como um de nossos principais cavaquinhistas. Como se deu a passagem do violão para o cavaquinho? O cavaquinho apareceu depois, eu vendo alguém tocar, eu acho que foi o Carvalhinho [Trabulsi atende a mãe ao celular]. Nessa época eu conheci Juca, Vadeco [cavaquinhista do grupo Espinha de Bacalhau] e nós praticamente começamos juntos. Vadeco já tocava e era o cara, já solava coisas de Waldir Azevedo e nós não sabíamos nada. Ele foi aquela fonte de inspiração pra gente.
Isso era que ano? Isso foi 1974, 73. Eu já me dou com Juca e com o irmão dele há muitos anos.
Quem você considera seu grande mestre do cavaquinho, quem mais te ensinou? Eu aprendi a tocar cavaquinho escutando Waldir Azevedo. Botava o vinil de Waldir Azevedo, nessa época não tinha cd, não tinha nada. Agora tu imagina aprender a tocar Brasileirinho, naquela velocidade que ele tocava, num disco de vinil. Ia voltar um pedacinho era um sofrimento, tira o braço, “perdi”, volta de novo, foi desse jeito. Eu aprendi a tocar dessa forma. Nessa época a gente fazia umas rodas de choro aqui na [rua de] São Pantaleão, tinha Magno Frias, com Ricardo Frias, o próprio Juca do Cavaco, Vadeco, Cotia. Foi dessa forma que eu comecei minha carreira de chorão. Um belo dia o professor Ubiratan, maestro Ubiratan, me encontrou tocando numa dessas rodas. Tinha aberto uma vaga no Regional Tira-Teima, que já existia e eu nem sabia. Era justamente a vaga que o [jornalista e compositor] Cesar Teixeira ocupava como cavaquinhista e saiu, por um motivo que eu não sei qual foi. Eu estava bem no começo e fui chamado para fazer uma espécie de experiência. Esse ensaio foi marcado para a casa de Ubiratan, na São Pantaleão. Outra figura importante, eu não posso deixar de falar, foi Joacilo [Frota], me deu muita noção harmônica de samba e choro.
Você conviveu com Juca na Rua do Norte e foi chamado para um ensaio na casa de Ubiratan na São Pantaleão. Você morava onde, nessa época? Aqui pelo Centro, também? Não. Até hoje mamãe mora no mesmo local, na Rua Silvio Romero, no Retiro Natal. O ponto de referência era a estação do bonde, onde ficou a Cobal, o Horto. Juca eu conheci no [Colégio] Marista.
Ali por perto da casa de seu Vieira [o falecido compositor Antonio Vieira, percussionista da primeira formação do Tira-Teima]. Exatamente, na mesma rua de Vieira. Eu cresci com Antonio Vieira por ali, influência musical. Pois bem, primeiro ensaio. Eu chego lá já encontro as feras formadas: Adelino Valente no bandolim, Ubiratan no violão de seis cordas, Fernando Cafeteira no outro violão, Chico Saldanha no outro violão, Antonio Vieira, percussão, Arlindo Carvalho [percussionista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 18 de agosto de 2013] numa outra percussão e Hamilton Rayol, cantor. Se não me falha a memória eles tocaram Noites cariocas [de Jacob do Bandolim]. E eu todo atrapalhado, só via as cabeças balançando assim negativamente. “Me lasquei, não vão me querer aqui” [risos]. Por que realmente eu não sabia nada. Mas ali naquele momento eu vi que minha identidade com a música era aquela coisa ali. Era aquela coisa: daqui eu não saio.
Quer dizer: mesmo errando você se sentiu em casa. Quer dizer: uma chance para aprender. A minha vertente musical é essa. Eles estavam muito na frente, eu estava começando. Mas rapidamente eu me dediquei, estudei. Passado algum tempo eu já estava no nível deles. Quer dizer, não no nível deles, Ubiratan é um cara… mas a minha evolução foi muito rápido.
Teus pais sempre apoiaram? Nunca teve uma reprimenda, “meu filho, vai procurar outra coisa pra fazer”? Sempre apoiaram. Nunca! Ainda falando sobre o Tira-Teima, por que a minha história se confunde com a do Tira-Teima. Daí pra frente, tudo foi Tira-Teima. Então, até 79 este grupo existiu com essa formação, depois entrou [o percussionista] Carbrasa, se não me engano, Jorge Cotia, eles botaram como uma forma de me tirar [risos], mas não me tiraram, Jorge Cotia tocava cavaquinho. Em 79 eu entrei na Caixa e logo em seguida me jogaram pro interior, pra Bacabal. Ubiratan foi embora pra São Paulo junto com Chico Saldanha. Quando eu voltei em 82 o Tira-Teima já não existia nessa época, estava esfacelado. Aí eu fiz parte do Regional Alma Brasileira, que era [o bandolinista] César Jansen, [o violonista] Natan, o próprio Fernando Cafeteira e Carbrasa. Esse grupo durou mais ou menos um ano. Logo em seguida eu conheci Serra de Almeida, em 84, e nós fundamos essa nova versão do Tira-Teima. Aí foi Serra de Almeida, Gordo Elinaldo [violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 27 de outubro de 2013], Zeca do Cavaco [Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 21 de julho de 2013], Carbrasa, que depois saiu e entrou Zé Carlos [percussionista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 10 de novembro de 2013]. Anos depois saiu Gordo pra entrada do Solano, que é a formação que se mantém até hoje. Mas a gente tem contato com todo mundo, Adelino Valente é nosso amigo, Arlindo Carvalho está sempre com a gente. Inclusive a gente está gravando, finalmente, nosso primeiro disco e a ideia é tê-los como convidados.
O que significou para você ter participado do antológico Lances de Agora [disco gravado em 1978 na sacristia da Igreja do Desterro, em São Luís], de Chico Maranhão? Lances de Agora foi um divisor de águas muito importante. Eu ter participado deste disco foi uma coisa extremamente importante na minha carreira musical. Foi o Regional Tira-Teima com a participação de Sérgio Habibe [o compositor tocou flauta em Lances de Agora], [o compositor] Ronald Pinheiro, bandolim, e mais uns dois percussionistas, cujo nome não lembro agora. Pitoco, no clarinete. Foi extremamente importante pra mim. Foi o primeiro disco de que eu participei. Depois eu participei de outros.
Lances de Agora, pelo fato de ter sido gravado em uma igreja, é ainda um disco mais comentado que ouvido. Este ano ele e Bandeira de Aço [disco lançado por Papete em 1978] completaram 35 anos e nós vimos festividades aqui e acolá para celebrar Bandeira de Aço, que é muito importante e merece, mas nem se ouviu falar em Lances de Agora. É um disco também do catálogo da [gravadora Discos] Marcus Pereira, mas que ao contrário de Bandeira de Aço, sequer chegou ao formato digital, não teve reedição em cd. A que você acha que se credita o desinteresse, o quase completo esquecimento e o que poderia ser feito para mudar este quadro? Do ponto de vista musical não existe razão de Lances de Agora ser preterido junto a Bandeira de Aço. A qualidade musical, o disco é bom de A a Z, composições belíssimas de Chico Maranhão. Velho amigo poeta, Meu samba choro, Ponto de fuga, Cirano [faixas de Lances de Agora]. Realmente eu não sei te responder. Musicalmente este disco tem uma qualidade muito grande. Tem uma importância muito grande para o cancioneiro popular do Maranhão.
Você podia lembrar um pouco o clima das gravações? Era um aparelho pequeno, tipo rolo de fita daqueles carretéis. Todo mundo gravando simultaneamente, não tinha aquela história de cada um gravar a sua. Errou, todo mundo começava de novo.
Essa pergunta pode soar óbvia, boba até. Mas tem que ser feita: o que significa o Tira-Teima para você? O Tira-Teima é minha vida musical toda. A minha vida musical está mesclada e fundida com o Tira-Teima. É a minha referência musical, foi o que eu fiz a vida inteira.
Se o grupo deixasse de existir você certamente sentiria muito. Iria sentir muita falta. Eu passei uma época da minha vida sendo violonista, acompanhando cantores e compositores. Mas a minha vida musical, a minha identidade musical é o Regional Tira-Teima, regional de choro. É um amor à primeira vista, um encantamento mesmo.
A que você credita tanta demora para definir a feitura do primeiro disco? Já são 40 anos do Regional. Foi problema interno do grupo, de como seria feito, se as músicas teriam arranjos próprios, se a gente ia delegar. Por falta de consenso, as coisas foram atrasando, atrasando. Ainda um dia desses falávamos sobre isso: uma vertente do grupo defendia que os arranjos deveriam ser arranjos próprios, e a outra que contratássemos arranjadores para fazer. Isso tudo atrasou o projeto, mas agora já está em andamento.
E o que ficou definido, no final das contas? [Risos] Ficou definido o meio termo: a metade o arranjador, que Ubiratan já fez, e a outra metade arranjos do grupo.
Mas o disco está andando. Já está tudo fechado: repertório, participações especiais? O disco está andando. Já estamos em estúdio, Gordo Elinaldo é nosso guru.
O que significa para vocês a participação do Ubiratan neste disco, já que ele foi um dos fundadores do grupo? Eu acho extremamente pertinente justamente por este motivo: pelo fato de ele ter sido fundador do grupo. Ele participar dessa forma é fundamental.
Uma volta às origens, já que o convite é também uma forma de homenageá-lo, mas com o pé no futuro, na medida em que vocês devem trazer um repertório, ao menos parte dele, inédito e autoral. Exatamente. E quase todo formado por músicas de autores maranhenses.
O que vai ter? Podes adiantar? Tem três choros de Serra de Almeida, Dom Chiquinho, Imbolada e Choro Nobre. Tem dois choros meus, Gente do Choro e Meiguice, um choro que eu fiz para minha filha. Gente do Choro vai ser cantada por Zé Carlos. Tem Companheiro, que é um choro meu e de Solano. Tem uma valsa que João Pedro fez pra Serra, chamada Simples como Serra. Tem duas músicas de Léo Capiba. Tem uma música chamada Apelo, que a gente descobriu que é de Nhozinho Santos. Até então a gente dava como autor desconhecido, Ubiratan foi quem descobriu que é dele. E tem dois choros na forma, que a gente está terminando de fazer para entrar no disco.
Como tem sido, ao longo de todos estes anos, conciliar a atividade musical com o ofício de bancário? Não foi tão complicado, por que o expediente no banco é de segunda a sexta, em horário bancário, das 10 às 16 [horas]. As atividades musicais geralmente são à noite ou em fins de semana. E os ensaios também à noite. Eu não tive grandes problemas em conciliar as duas atividades. Salvo quando pintava uma viagem para fazer show, aí ou eu conseguia uma folgazinha ou não ia.
Além de Lances de Agora, de que outros discos você participou? Fiz um grupo chamado Canto de Rua, uns rapazes que tocam samba, fiz Joãozinho Ribeiro [o inédito Milhões de Uns, gravado ao vivo no Teatro Arthur Azevedo], fiz Cabeh [Esquina da Solidão, lançado postumamente], produzi e gravei o disco de Anna Cláudia [cantora paraense radicada em São Luís, com quem Paulo Trabulsi foi casado], fiz Cesar Teixeira [Shopping Brazil, 2004], Serrinha [e Companhia, grupo de samba e pagode] com Tributo a Zé Hemetério e Das cinzas à paixão [faixas de Na palma da mão, de autoria, respectivamente de Gordo Elinaldo e Cesar Teixeira]. Memória [da Música do Maranhão, disco coletivo que registrou a obra de vários compositores da velha guarda], Antonio Vieira [O samba é bom, 2001]. Estou participando agora do disco de Gordo Elinaldo, já gravamos.
E shows? O de Carlinhos Veloz [Sobre Cordas, apresentado no Teatro Arthur Azevedo] foi muito importante, eu tenho a filmagem lá em casa. Foi um negócio emocionante, o regional tocou, foi super aplaudido. O de Turíbio Santos, João Pedro Borges. Nós participamos com duas atrações internacionais, Jerzy Milewski, um violinista polonês, que tocou com a esposa dele, Marcelo Bratke, um pianista, o Tira-Teima tocou com ele. E shows com vários artistas maranhenses, Fátima Passarinho, Lena Machado, Alberto Trabulsi, Anna Cláudia, Zeca Baleiro, foi realmente muita gente. Com Antonio Vieira nós fomos a São Paulo, fizemos Sesc. Participei de quatro festivais da Fenai, a Federação Nacional das Associações do Pessoal da Caixa. Inclusive Gente do Choro foi de um festival em João Pessoa, na Paraíba.
Entre estes shows de destaque você incluiria o Recital de Música Brasileira, com João Pedro Borges e Célia Maria? Sim. Foi um show importantíssimo, em que participamos eu, Celson [Mendes, violonista], o pandeirista Lazico. Foi sucesso, um trabalho para mim extremamente importante. Teve uma coisa interessante [risos], eu participando de um dos encontros da Escola Portátil de Choro, eu fui lá como aluno de Luciana Rabello e tava lá no aulão dela. E um dos alunos, um rapaz bem jovem, me viu e me reconheceu: “o senhor não estava naquele show da TV Senado, acompanhando João Pedro Borges?” “Sou eu”. “E o quê que o senhor está fazendo aqui?” [risos]. Eu achei graça, “rapaz, eu tou aprendendo junto com vocês”.
O que é o choro? Qual a importância dessa música? O choro tem aquelas explicações históricas do choro, que derivou das polcas, mazurcas, schottisches europeias e se fundiu com os ritmos africano, os lundus da vida, e a coisa, o choro é um produto que vem evoluindo, vem em transformação. No início da história do choro, Chiquinha Gonzaga, Antonio Calado, todo choro era maxixe. De Pixinguinha pra cá a coisa tomou outra forma, aí que colocaram pandeiro no choro e virou o que é, como é tocado hoje. Mas se você notar, está o tempo todo em transformação. Essa nova geração de chorões já está dando outro tratamento, a música vem evoluindo, vem se transformando ao longo dos anos. É um organismo vivo.
Você se considera um chorão? [Rápido e enfático:] Eu sou um chorão!
Capixaba radicado em São Paulo, Alvaro Gribel escolheu uma paisagem do Rio – onde viveu – para compor e batizar seu segundo disco: São Francisco é um bairro niteroiense banhado pelas águas da Guanabara.
Gribel (voz e violão) cerca-se dos veteranos Jurim Moreira (bateria), Jorge Helder (contrabaixo acústico) e Rodrigo Campello (guitarra, programações, cavaquinho e violões de seis e sete cordas) em um disco de sonoridade sofisticada. O último assina a produção do álbum, coproduzido por Eber Pinheiro.
A voz de Gribel, que assina as nove faixas de São Francisco, evoca o Caetano bossa novista. Entre os temas que permeiam o disco estão o amor e a contemplação. As duas últimas faixas, a que batiza o disco e Camburi, homenageiam respectivamente as paisagens do citado bairro em que São Francisco foi composto e a praia em que o menino Alvaro foi criado.
Àqueles temas somam-se inquietações com questões sociais. Santos e orixás, a primeira faixa, narra o cotidiano de favelas, ansiando por paz: “mas um dia hei de ouvir calar/ os seus fuzis a batucar”, termina. Oração alude ao Morro do Bumba, em Niterói, com a tragédia causada pelas chuvas em 2010. “Porque somos poucos meu Senhor/ e já perdemos muito nesta vida/ Tristeza vem do céu do morro/ a chuva traz/ Deus,/ tanta dor fez a cidade amanhecer só/ tanta terra despencou da ribanceira, sem dó/ vê quanta aflição/ tem pena/ não deixe ser em vão”, diz a letra.
O destaque do disco é a alegre Marcha da autopeça, cuja letra nasceu de um orçamento da revisão do carro do artista. Diz um trecho: “Radiador/ correia de polivalente/ cano de carburador/ coifa, coxim, batente/ par de amortecedor/ ponteira de direção/ jogo de vela, filtro de ar/ quanta peça a pressa leva”.