“Palavras dão o tom” em álbum que consolida parceria de Elaine Frere e Flávvio Alves

[release]

“Lá onde o agora espera” reúne 12 poemas dele musicados e cantados por ela

Flávvio Alves e Elaine Frere, em aquarela de Raísa Christina/ reprodução
Flávvio Alves e Elaine Frere, em aquarela de Raísa Christina/ reprodução

A poesia de Flávvio Alves tem versos desconcertantes capazes de nos virar do avesso. Em um tempo veloz (e furioso) sempre nos debatemos quanto à urgência das coisas: que espaço sobra, em nosso dia a dia, para a poesia, a música, as artes e sua fruição, em geral? Hoje em dia ouvimos música fazendo qualquer coisa, menos parando para ouvir música — exclusivamente, prestando atenção. Recomendo ao ouvinte dar um tempo: para si, para o mergulho, para a audição deste álbum.

Elaine Frere, cantora e compositora, sua parceira de outras empreitadas, é a responsável por dar carne sonora ao esqueleto dos poemas e vestir de sua voz este corpo poético-musical de puro lirismo. Mas a poesia de Flávvio Alves já tem um pé na música, o que facilita o trabalho dos parceiros. “Quando li o primeiro poema que recebi, senti que cada verso já carregava uma melodia implícita, pedindo para ser revelada. Poderia ser acaso, mas isso se repetiu a cada novo poema que Flávvio me enviou”, como ela mesmo revela.

"Lá onde o agora espera" - capa/ reprodução
“Lá onde o agora espera” – capa/ reprodução

A voz de Rubi — e Elaine considera isso um presente — se soma às parcerias, como se fosse possível — e sua presença prova que é — deixar tudo ainda mais bonito. Mesmo a “Canção salobra” tem sabor e bom gosto, revelando mais uma camada de “ironia fina, poesia densa”, como reza verso de “Canção insone” — que o coração não dorme ao som de “Lá onde o agora espera”, o álbum, esta coleção de belezas, delicadezas e sutilezas.

Tudo isto emoldurado por uma verdadeira constelação que reúne Estevan Sinkovitz (guitarras), Guto Gonzales (bateria e percussão) e Ricardo Prado (violões, baixo, teclado, guitarra, arranjos, mixagem, masterização e direção musical), numa tessitura orgânica, artesanal e, portanto — vivemos uma era em que é preciso dizer o óbvio, em tempo de inteligências artificiais —, humana, como os sentimentos traduzidos por letras e melodias.

“Lá onde o agora espera” abre e apropriadamente intitula o álbum. O agora é um sopro, um flash, um instante. Logo, já passou. É necessário tirar um agora e prestar atenção no que Flávvio Alves e Elaine Frere têm a dizer. E já que a própria letra brinca com a noção de tempo, quando este instante passar, voltar ao começo e repetir o exercício. Por que beleza pede beleza e a música não pode parar, ciclo que não se fecha nem se encerra em si, ainda bem.

[por motivo de força maior, somente agora consegui postar este release oficial que tive o imenso orgulho de ser convidado e a grande responsabilidade de escrever]

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Ouça:

Intimidade musical

Sobre o show de lançamento de , terceiro disco de Bruno Batista, ontem (30), no Teatro Arthur Azevedo

Foto: Maristela Sena
Foto: Maristela Sena

 

Pareceu descortesia, mas era intimidade, entrosamento. Primeiro entre ambos, e imediatamente entre eles e a plateia.

Bruno Batista subiu ao palco acompanhado da paulista Dandara Modesto sem apresentá-la de imediato. Atacaram de Batalhão de rosas, inédita dele, um belo bumba meu pop (ou pop meu boi).

O cenário, assinado por Cláudio Lima com base no caprichado projeto gráfico de [2013], do piauiense Antonio Amaral, levava o público a se sentir à vontade, em casa, neste lugar musical que é o disco e ontem era  mesmo no Teatro Arthur Azevedo.

O compositor parece menos inibido no palco e está cantando melhor – não tivesse citado uma virose que lhe acometeu, não sem um quê de charme no aviso, nem se teria percebido a dificuldade para exercer o ofício no palco.

O repertório de não foi tocado na íntegra, mas o show foi além, reinventando faixas de Eu não sei sofrer em inglês [2011], o disco anterior, e do próprio : disco é disco, show é show.

Reinventar é a palavra certa: em participação especial, como de praxe em shows de Bruno Batista em São Luís, Claudio Lima deu a exata carga dramática necessária à interpretação de Do abraço. Dandara Modesto tornou o tango Tarantino, meu amor um rock abolerado. E arrepiou o público ao inserir uma tribo de índio em Rosa dos ventos, para citarmos duas que cantou sozinha.

Ao fim foi às lágrimas e quem viu sabe que não era jogo de cena. Elogiou o trabalho do parceiro de disco e palco, o incentivo, agradeceu o convite e revelou: “estou muito feliz em estar aqui. Antes de conhecer o Bruno eu já tinha uma vontade enorme de cantar neste teatro”. Ela ainda substituiu à altura Tulipa Ruiz – que divide os vocais com Bruno Batista na gravação do disco anterior – em Nossa paz.

Bruno Batista é uma espécie de ponte: se traz para o Maranhão a modernidade cosmopolita da São Paulo que hoje lhe abriga, leva para os elementos de nossa cultura popular que acabam por influenciar seu fazer musical. Prova disso é que os músicos que o acompanharam e à Dandara Modesto no show de lançamento do disco estão bastante à vontade em bumba boi e tribo de índio e noutras influências confessas ma(i)s sutis.

E que banda! Ele trouxe à Ilha quase o time inteiro que lhe acompanhou no disco: Chico Valle (percussão), Guilherme Kastrup (bateria e percussão), André Bedurê (contrabaixo e guitarra), Rovilson Pascoal (guitarra, violão e cavaquinho) e Ricardo Prado (guitarra e piano).

Em , o disco, Dandara Modesto canta em cinco faixas. No show demonstrou conhecimento do repertório inteiro de Bruno Batista, incluindo a inédita que apresentou e as músicas do disco anterior: As cigarras e Hilda Regina, além das já citadas. Sobre anjos e arraias ele cantou só, juntando-se à banda ao violão, que tocou em boa parte do show.

O casamento musical de Bruno Batista e Dandara Modesto é terreno fértil para a música brasileira: reafirma a força poética do compositor e revela o imenso talento de intérprete da cantora. Fosse eles não vacilava: um disco dela produzido (e composto, ao menos em parte) por ele já começa a tardar.

Lá confirma Bruno Batista entre os grandes compositores do Brasil na atualidade

Show de lançamento de , seu terceiro disco de carreira, acontece dia 30 no Teatro Arthur Azevedo

Maranhense nascido em Pernambuco, hoje radicado em São Paulo depois da infância no Piauí e uma temporada carioca, talvez a geografia de Bruno Batista aponte os caminhos que o levaram a [2013, R$ 25,00 em média], seu terceiro disco.

é uma prova de que é possível fazer música pop, escancaradamente radiofônica, sem apelar para o fácil – considerando utopicamente o dial um território livre do “jabá”. Bruno Batista reprocessa, embora nem tudo seja percebido de imediato, maracatu, bumba meu boi, samba (que eletrifica, com o auxílio luxuoso de nomes de uma interessante cena paulista) e a canção de festival – com Rosa dos ventos, que fecha o disco, foi vencedor do Viva 400, em São Luís, em 2012; na ocasião a música foi interpretada por Cláudio Lima, seu parceiro de outras temporadas.

O artista mostra-se um compositor de fôlego – assina sozinho letra e música das 11 faixas do disco, o que já acontecia em Bruno Batista [2004] e Eu não sei sofrer em inglês [2011]. É um de nossos mais interessantes criadores, reprocessando influências dos locais por onde passou, sem soar óbvio nem negar a importância, para sua obra, de, entre outros, Naeno [compositor piauiense, seu tio], Tom Zé [há sutil citação de Solidão na faixa-título] e do cinema [o título original de Brilho eterno de uma mente sem lembranças é citado em Rosa dos Ventos], entre outras.

Incêndio, que abre o disco, avisa, de cara: “fiz das chamas o meu protetor/ pois jamais vai temer a fogueira/ quem nasceu pra ser tambor”. A faixa-título é um primor: o riff  inicial avisa que é impossível esta música passar despercebida por qualquer ouvinte e logo se alia a uma poética sublime e um refrão chiclete, cujo resultado é um dos grandes momentos desta sua década de carreira, para figurar ao lado de Bonita e Tarantino, meu amor [faixas do disco anterior]: “Lá onde as bailarinas não têm medo/ lá onde a beleza dá no chão/ e os fantasmas dormem cedo/ (depois do ladrão)/ (…)/ Onde as dores são de areia/ e as sereias cantam nuas/ onde a chuva se penteia/ quando vai cair na rua/ (…)/ Lá onde a escuridão termina/ onde o açúcar tem mais gosto/ e a saudade é uma menina/ com os traços do teu rosto”.

Outra preciosidade é o samba elétrico Pois, Zé, dor de cotovelo que evoca o mestre maior do gênero, Lupicínio Rodrigues, à sua altura: “Agora que você foi embora/ quitei o flat com a penhora/ do teu amor que só me deu azar/ com garantia a toda prova/ comprei uma lua nova/ pra me iluminar/ Cortei o choro, o sal e o analista/ menos metal e mais sambista/ sigo outra pista e levo fé/ Pois Zé/ vivo a alegria a toda hora/ agora que você foi embora/ pra nunca mais/ se Deus quiser!”.

Também merecem destaque o belo projeto gráfico assinado pelo piauiense Antonio Amaral e o time de músicos escalado por Bruno Batista: André Bedurê (contrabaixo), Dandara Modesto (voz e vocais), Guilherme Kastrup (bateria e percussão), Ricardo Prado (contrabaixo e rhodes), Rodrigo Campos (guitarra e cavaquinho) e Rovilson Pascoal (guitarra), entre outros.

“Diga o que disser/ nada muda a maré de direção” [versos de Pois, Zé]: com Bruno Batista (com)firma-se como um grande compositor, antenado ao moderno, sem perder o vínculo com suas tradições, com conteúdo, sem soar hermético.

Show será lançado em São Luís no próximo dia 30 de maio (sexta-feira), às 20h30min, em show no Teatro Arthur Azevedo (Rua do Sol, Centro). Os ingressos custam R$ 30,00 (plateia e frisa) e R$ 20,00 (camarote, balcão e galeria) e estão à venda no Bar do Léo (Vinhais), Livraria Poeme-se (Praia Grande), O Imparcial (Renascença) e bilheteria do TAA.