O Trítono Trio executará peças de Carlos Gomes e Julio Reis. Foto: divulgação
Mesmo que odeie A voz do Brasil, qualquer brasileiro certamente já ouviu sua vinheta de abertura, da ópera O Guarani, de Carlos Gomes [1836-1896], o mais destacado nome brasileiro do gênero. Por outro lado, o pianista Julio Reis [1863-1933] segue praticamente desconhecido.
Os dois compositores estão no programa do concerto que o Trítono Trio apresenta hoje (18), às 19h, de graça, no Teatro Alcione Nazareth (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho), na programação do projeto Sesc Partituras.
Carlos Gomes e Julio Reis já faziam parte das referências de Israel Dantas (violão), Robertinho Chinês (bandolim) e Rui Mário (sanfona). “Já conhecíamos esses compositores. Na verdade, tínhamos que escolher um repertório que combinasse com o trio e que tivesse uma formação parecida. Foi muito difícil encontrar uma música com a nossa formação, mas conseguimos encontrar uma forma para que o trio pudesse se encaixar, tocar de acordo com cada partitura que escolhemos. Vai haver uma dinâmica bem diferente, tipo violão e sanfona, bandolim solo e violão solo”, comentou o sanfoneiro ao blogue.
Em 2013 15 peças até então inéditas de Julio Reis foram registradas pelo pianista João Bittencourt no disco João Bittencourt apresenta Julio Reis, disponível para download gratuito no site que celebrou o sesquicentenário do compositor, com encarte fartamente “ilustrado” com a história de cada peça. Idyllio – Valsa, por exemplo, é dedicada ao escritor Coelho Neto [1864-1934], com quem era costumeiro frequentador de cafés como a Confeitaria Colombo. O maranhense “muito auxiliou Julio Reis em suas primeiras publicações de artigos em revistas do Rio de Janeiro”, como informa Roberto Bürgel, no encarte do disco, em texto sobre a citada faixa.
A atividade de crítico de Julio Reis talvez ajude a explicar, ao menos em parte, o esquecimento a que foi relegado. Era mordaz, e “em uma de suas crônicas, ao comentar a famosa sala de espera do Cinema Odeon [onde Nazareth tocava e à qual dedicou uma de suas mais conhecidas composições], Julio Reis elogiou a pequena orquestra do maestro Eduardo Andreozzi (1982-1979) e disse que sonhava com o dia em que os tangos e maxixes seriam banidos dos salões”, comenta Roberto Bürgel em texto sobre Cafageste [sic], que abre o disco. E continua: “no entanto, assim como Ernesto Nazareth [1863-1934] escrupulosamente evitava o termo “maxixe” em suas obras, mas cedia às suas tentações rítmicas, também Julio Reis acabou se rendendo ao tango brasileiro e compôs à la Nazareth”.
Rui Mário revela que o grupo ficou sabendo do Sesc Partituras através de amigos. “Fizemos uma pesquisa no site do Sesc, apresentamos uma proposta e nos colocamos à disposição. Depois de um tempo recebemos a notícia de que nossa proposta tinha passado e que iríamos participar. Ficamos muito felizes”, afirmou.
Sobre o repertório do concerto, com duração aproximada de uma hora, ele elogia a versatilidade dos compositores. “As músicas são bem interessantes, com um grau de complexidade altíssimo, uma linguagem com um amplo leque de possibilidades. As melodias nos trazem um pouco daquilo que os compositores estavam sentindo”, garante.
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Confiram João Bittencourt em Passo miúdo [1913], Idyllio – Valsa [1895], Meu sonho [1900] e Cafageste [1918], todas de Julio Reis:
O bom público que prestigiou o Ilumiara contradiz Douglas Pinto. Foto: fb/ilumiara
Talvez o músico Leandro César (violão, marimba e voz), integrante do grupo mineiro Ilumiara, tenha queimado etapas. Dos problemas, o menor. Explico: sábado passado (12), no Teatro Alcione Nazareth (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande), foi combinado, entre a assessoria do Sesc e a TV Mirante, uma passagem, ao vivo, para um jornal da emissora, durante o concerto do grupo, pelo circuito Sonora Brasil.
O problema é que após o ao vivo, a equipe da TV Mirante continuou no recinto, entrevistando pessoas na plateia, com a luz forte e amarela ligada. Seis músicas depois – de acordo com a contabilidade do músico – eles continuavam lá. Leandro César desceu do palco, reclamou, e pediu que a equipe se retirasse. Quando falo em queimar etapas quero dizer que poderia ter, antes, solicitado a retirada da equipe à assessoria do Sesc e, em seguida, caso não fosse atendido, pedir, do palco mesmo, talvez ameaçar interromper o concerto – não sei se o fez.
Voltou ao palco aplaudido pelos presentes, entre afirmações como “é esta mesma Rede Globo que entra na casa das pessoas e destrói nossas culturas, destrói isto que estamos mostrando aqui”.
Douglas Pinto se retirou e, do hall, pude ouvir: “eu vou é falar mal!” em tom alterado – não consegui identificar se a voz era sua, mas a fala não faria sentido noutra boca. Depois o repórter publicou algo no facebook, com repercussão no blogue de Gilberto Lima ainda na mesma noite do espetáculo. Além de reclamar de uma suposta “humilhação” – particularmente não entendo assim – o repórter destilou preconceito, tratando os membros do Ilumiara por “anônimos”, “antiprofissionais” e “grosseiro” – o último adjetivo destinado a Leandro César.
O repórter foi além e afirmou que “muitos artistas de fora quando chegam aqui acham que o Maranhão é o fim do mundo e podem fazer o que bem querem por aqui”. Como diz minha sábia avó, “o bom julgador, por si julga os outros”, e Douglas Pinto acaba por traduzir o que, por vezes, é o comportamento de alguns colegas de profissão, que às vezes acham-se mais importantes que os próprios artistas. Além do mais, não cabe ao Sistema Mirante nem a qualquer funcionário seu recomendar “que o Sesc escolha melhor os artistas que venham se apresentar no Maranhão”, como fez o profissional, em episódio lamentável.
Por um lado, compreendo a ânsia do repórter, de resto um bom profissional, em fazer seu trabalho: os patrões certamente não aceitariam justificativa de ele voltar ao estúdio “apenas” com o ao vivo na bagagem, apesar de, certamente, sempre exigirem pressa, na cobertura do máximo de pautas, o já conhecido esquema industrial de um jornalismo a cada dia mais robotizado. Por outro, a necessidade dos músicos, de um ambiente propício ao ofício, sobretudo nos moldes do Sonora Brasil, em cujas apresentações é dispensado o uso de qualquer tipo de amplificação.
Espero que o acontecido não vá resultar num boicote da/s emissora/s e seus profissionais ao projeto e/ou ao Sesc, que, apesar de enormes e conhecidas limitações, tem proporcionado momentos importantes de fruição e circulação cultural à população maranhense.
Estava na plateia e não me considero motivo de vergonha para ninguém – como também afirmou o repórter em seu “desabafo” na rede social. E na condição de parte do público, fiz questão de dizer algo sobre o episódio (ainda que tardiamente), na tentativa de ajudar, a quem interessar possa, a entender o que de fato aconteceu, tendo em vista, por exemplo, o Ilumiara e/ou o Sesc/MA não terem ainda se manifestado – talvez por acharem desnecessário e talvez tenham razão: o brilho do espetáculo não pode ser ofuscado por este desagradável incidente.
Em tempo: a quem interessar possa, os concertos do Sonora Brasil seguem, em São Luís e Caxias. Veja a programação completa – inclusive com as apresentações dos demais grupos que compõem a edição deste ano – ao fim do post em que anunciei a apresentação do grupo na capital maranhense – hoje (14) eles tocam em Teresina/PI e quarta-feira (16) em Caxias.
Que o Ilumiara volte sempre ao Maranhão e seja sempre bem recebido por aqui!
O Ilumiara em apresentação no Sesc/DF. Da esquerda para a direita: Leandro Cesar, Marcela Bertelli, Alexandre Gloor, Letícia Bertelli e Carlinhos Ferreira. Foto: Rafael Carmona/ Sistema Fecomércio/DF
Com mais ou menos um ano e meio de existência e um recém-lançado disco de estreia, o grupo Ilumiara abre a temporada maranhense do circuito Sesc Sonora Brasil 2015 em São Luís, hoje (12), às 19h, no Teatro Alcione Nazareth (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande), com entrada gratuita. O grupo se apresenta ainda em Caxias, dia 16 (quarta-feira), no mesmo horário, na Sala de Cultura Martinha Cruz (Sesc), também com entrada gratuita (veja programação completa ao final).
O grupo é formado por Alexandre Gloor (rabecas), Carlinhos Ferreira (percussão), Leandro Cesar (violão e marimba), Letícia Bertelli (voz) e Marcela Bertelli (voz), que conversou com o blogue.
“O Ilumiara surgiu como um grupo de pesquisa em música. Somos músicos, mas temos uma paixão muito grande pelas culturas populares, pela pesquisa. Já tínhamos, inclusive individualmente, um acervo grande de composições pesquisadas e a gente partiu desse trabalho, dessa pesquisa previamente realizada por cada um de nós”, revelou Marcela, sobre o processo de feitura de Ilumiara, o disco de estreia, e a participação no Sonora Brasil, cujo tema este ano é “Sonoros ofícios – cantos de trabalho”.
Ilumiara tem 12 faixas, que podem ser ouvidas no soundcloud do grupo. Entre os temas o Auto do fim de capina, Lavadeira, Toadas de remeiros, Canto do tropeiro, Machadeiros, Fiandeiras e Vissungo, com participação especial de Sérgio Pererê.
Além das pesquisas in loco dos próprios membros do grupo, seus integrantes levaram em conta o trabalho de importantes “desbravadores”, como Mário de Andrade [poeta, romancista, crítico literário e musicólogo], Oswaldo de Souza [compositor de obra fortemente influenciada por temas folclóricos] e Aires da Mata Machado Filho [filólogo pioneiro no registro de um dialeto crioulo falado por descendentes de escravos em Minas Gerais e vissungos – canto de trabalho exclusivamente utilizado por escravos mineradores de Diamantina].
Marcela também revelou a felicidade em integrar o projeto. “Participar do Sonora Brasil tem sido, desde o início, desde o convite, quando ele chegou, e até agora, mesmo circulando, de uma gratidão muito grande, de uma alegria imensa. Imagina, para um músico, poder circular o Brasil todo, 130 cidades, todo o território nacional, todos os estados do país. Isso para qualquer músico, apaixonado pelo Brasil, ligado à questão das culturas tradicionais do Brasil é de uma alegria gigante, uma alegria imensa”.
Com 18 anos, o Sonora Brasil é o maior projeto de circulação musical do país, tendo sido ampliado ao longo dos anos – quando o maranhense João Pedro Borges participou, ao lado do violonista gaúcho Daniel Wolff, em 2009, por exemplo, eram “apenas” 80 cidades. Aos poucos a ideia foi sendo abraçada pelas regionais do Sesc no Brasil. A cantora elogia a preocupação do Sesc com os temas eleitos a cada edição: “o Sonora não está preocupado com a divulgação do trabalho dos artistas. É uma proposta de divulgação de um repertório, de certo tipo de música, de certo repertório para formação de público, de ouvintes. O que eu acho mais interessante é que não é uma formação localizada, é uma formação cultural, mais ampla. Por isso que o Sonora sempre busca essa relação com os temas, a música informada. Isso, para nós, tem um valor imenso. Não estamos circulando com o objetivo de divulgar o Ilumiara, mas de contribuir com essa formação de plateia, essa formação de ouvintes. Por isso é um concerto muito conversado, a gente conversa com a plateia, o repertório não partiu de uma necessidade de divulgar especificamente os nossos instrumentos, a nossa voz, mas foi todo pensado com esse objetivo também de contribuir para a formação do público”, disse.
O nome do grupo é uma palavra forjada, lapidada por Ariano Suassuna, saudoso autor de O auto da compadecida, entre outros. “Já tem um tempo que ele fala essa palavra, “ilumiara”, a gente tomou emprestada dele, pedimos autorização dele para usar essa palavra como trabalho. Iara é altar, é lugar sagrado, ligado também à questão das águas, dos rios, Iara como altar de beira de rio”, revelou Marcela.
“A proposta do Ilumiara é muito lançar luz, ilumiar, iluminar uma expressão da música brasileira, uma expressão da cultura brasileira na música especificamente. A gente percebe que tem uma função de lançar luz sobre um universo que a gente entende como sagrado, que está num espaço que expressa uma condição humana, que tem uma amplitude maior que a música em si. Os cantos de trabalho expressam uma vasta cultura do homem. Ele canta para dar sentido a algo muito maior, a uma necessidade, a um desejo muito mais amplo do que simplesmente projetar a voz em canto. A função dos cantos é determinada por outros fatores muito mais amplos. Então ilumiar, essa expressão, revelar aquilo de sagrado que ela contem, por isso Ilumiara”, continua.
O Ilumiara se distingue dos outros três grupos que percorrem o país nesta edição do Sonora Brasil, “por sermos músicos, artistas que fazem uma interpretação a partir de arranjos mais elaborados, uma instrumentação específica”, explicou Marcela. O grupo também trabalha a construção dos instrumentos, com as marimbas de Leandro César, além de uma ronda, instrumento inventado por ele, e quase todos os instrumentos de percussão feitos por Carlinhos Ferreira.
Ela não poupou elogios às formações que completam o circuito com o Ilumiara. “É importante destacar o Sonora Brasil como mostra de um repertório. A gente está abrindo a mostra aqui em São Luís, mas logo depois de nós vêm os outros três grupos de tradição: As Quebradeiras de Coco Babaçu, aqui do Maranhão mesmo, inclusive, que fazem parte de um grupo muito mais amplo, mobilizado nos estados do Pará, do Piauí e do Tocantins, as trabalhadoras da cultura extrativista; também as Destaladeiras de Fumo de Arapiraca, com o Mestre Nelson Rosa [mestre de coco de roda, patrimônio vivo do estado de Alagoas], um grupo maravilhoso, muito, muito bonito, muito criador do próprio canto; e As Cantadeiras do Sisal e mais dois aboiadores de Valente, na Bahia [Ailton Aboiador e Ailton Jr., pai e filho]. Eles carregam uma força, acho que muito maior que nós, pelo fato de serem grupos de tradição, serem grupos que realizam no cotidiano, a tarefa, o ato de cantar ligado àqueles ofícios que são expressos no canto deles”, revelou.
Sesc Sonora Brasil no Maranhão – Programação (sempre às 19h, entrada franca)
São Luís/MA, Teatro Alcione Nazareth (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande)
Grupo Ilumiara/MG, 12 de setembro
Destaladeiras de Fumo de Arapiraca/AL, 15
Cantadeiras de Sisal e Aboiadores de Valente/BA, 17
Quebradeiras de Coco Babaçu/MA, 19
Caxias/MA, Sala de Cultura Martinha Cruz (Sesc)
Cantadeiras de Sisal e Aboiadores de Valente/BA, 15 de setembro
Grupo Ilumiara/MG, 16
Quebradeiras de Coco Babaçu/MA, 17
Destaladeiras de Fumo de Arapiraca/AL, 19
Agenda Ilumiara
Setembro
14 Teresina/PI
18 São Lourenço da Mata/PE
19 Goiana/PE
21 Jaboatão do Guararapes/PE
22 Limoeiro/PE
23 Surubim/PE
25 Caruaru/PE
26 Belo Jardim/PE
27 Arco Verde/PE
28 Buíque/PE
29 Serra Talhada/PE
Metropolis (1927), de Friz Lang (1890-1976), caberia bem nas estantes de cinema mudo ou musical. A cidade futurística do filme assusta, ainda que considerados os padrões cinematográficos atuais, sobretudo se levarmos em conta que o filme previa o futuro (século XXI) em que vivemos hoje.
Uma das obras-primas do Expressionismo alemão, o filme é carregado de interpretações exageradas, de personagens de certo modo caricatos, distorção da realidade e (ab)uso de luz e sombras, características daquela escola. Para os representantes do movimento era impossível representar o mundo como ele é. Acreditavam que a imagem (cinematográfica) deveria projetar o conteúdo espiritual do homem.
Nove meses e mais de 30 mil figurantes custaram sua feitura e o parto do monstrengo. À segunda classificação possível, entre as citadas, devemos sua estrutura: Metropolis é dividido em três partes, Prelúdio, Intermezzo e Furioso.
A formação religiosa do diretor, filho de pai católico e mãe de origem judia, também comparece: o filme é uma espécie de atualização da alegoria bíblica da Torre de Babel, retratando a revolta de operários contra seus patrões. Aqueles, nos porões do mundo, literalmente uma espécie de inferno, fazendo a máquina girar para que estes poucos, no paraíso do lado de cima, lucrem e gozem a partir do sacrifício alheio.
Seu personagem central, o ganancioso Joh Fredersen (Alfred Abel), só se preocupará com a classe operária ao saber que seu filho Freder (Gustav Fröhlich), por conta de sua paixão por Maria (Brigitte Helm), está entre os que se revoltam com seu império – e por conta disto corre o risco de morrer.
Há quem diga também ser Metropolis uma espécie de premonição ao nazismo de Adolph Hitler. Talvez seja tudo isso. Por conta de O testamento do Dr. Mabuse (1933), Lang foi convidado por Joseph Boebbels, ministro da propaganda (do) nazista, a assumir o cargo de supervisor do departamento de cinema de seu ministério. Ele fingiu-se lisonjeado, agradeceu o convite, recusou-o e, após a reunião, pegou um trem para Paris, de onde só voltaria 25 anos depois.
Fritz Lang dirigiu 43 filmes entre 1919 e 1960. Com roteiro de Thea von Harbou, que acabou sucumbindo ao nazismo que ele recusou, Metropolis é sua obra mais conhecida.
Uma última curiosidade: pouco depois de estrear, Metropolis sofreu drásticos cortes e alterações. Desde então, mais de um quarto do filme era dado como perdido, somente tendo sido recuperado em 2008, quando uma cópia quase completa do filme foi encontrada em Buenos Aires, ainda que bastante danificada. A versão reconstituída a partir dessa cópia é a mais completa do filme, com 148 minutos.
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Metropolis será exibido hoje (21), às 18h30, no Cine Praia Grande (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande), na abertura da mostra Sombras que assombram – O expressionismo no cinema alemão, realização do Sesc/MA
Composta por nove filmes, a mostra fica em cartaz até a próxima sexta-feira (24), com entrada franca (ingressos devem ser retirados na bilheteria, com meia hora de antecedência a cada sessão).
No último dia de sessões da mostra, Stella Aranha (graduada em Artes Visuais e mestre em Cultura e Sociedade pela Universidade Federal do Maranhão) ministrará o workshop O expressionismo no cinema alemão, às 14h30, no mesmo local, também com entrada gratuita.
João Soeiro trajava uma camisa de bolso e deu seu depoimento à Chorografia do Maranhão na Quitanda Rede Mandioca. Pode até ser mera coincidência, mas nestas linhas iniciais já aparecem duas experiências suas com o choro: os grupos Camisa de Bolso e Choro de Quitanda, por que passou.
Nascido em Pinheiro/MA, em 4 de julho de 1972, João José Soeiro Pereira é professor de violão popular na Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo, filho da dona de casa Lucília dos Santos Soeiro Pereira e do boêmio – de profissão – Mário Pereira, “casado três vezes, estudou para ser padre, foi criado por três freiras. Largou a batina pela boêmia”.
Com cerca de 40 composições, algumas já registradas, o 29º. entrevistado da série transita bem entre dar aulas, tocar na noite e na igreja. “Fui um crente que revolucionou a igreja”, diz, sorrindo. Antes do violão, Soeiro tocou cavaquinho, que aprendeu com um pescador de Tutóia. Além da EMEM, dá aulas no Colégio Educator e em projetos sociais, incluindo o Musicar e a Orquestra Tocando o Choro, do Sesc.
Foto: Rivanio Almeida Santos
Além de boêmio e de ter estudado para ser padre, teu pai fazia o quê? Meu pai foi detentor de muitas riquezas das três freiras [que o criaram], deixaram muito ouro, muita terra para ele. Ele não fazia nada, era boêmio. Por conta das grandes amizades, na política, arrumaram um emprego para ele no IPEM [o Instituto de Previdência do Estado do Maranhão], funcionário público, final de carreira já, arrumaram um serviço na Secretaria de Saúde.
Além de músico, você tem outra profissão? Eu fiz de tudo. Fui comerciante, balconista, farmacêutico, trabalhei em oficina mecânica, forrador de gesso, ajudante de pedreiro e encanador. [Hoje ajudo como] Zelador da igreja evangélica.
O que você ouvia em casa quando era pequeno? Eu ouvia muito [os cantores] Orlando Silva, muito Nelson Gonçalves, essa coisa da boêmia mesmo, Altemar Dutra, ouvia choro também, Waldir Azevedo [cavaquinista], Pedacinhos do céu, o disco Pedacinhos do céu tocava direto lá em casa, meu pai tocava esse choro.
Isso tocava em discos que ele comprava, no rádio, ele era um grande comprador de discos? A gente ganhou uma vitrola, uma vitrola da Philips, momento comercial [risos], então os amigos, meu pai tinha grandes amizades, eles traziam os discos para ele, a gente ouvia em casa, e ele tocava muito chorinho também. Meu pai tocava muito choro, meu irmão também.
Com que idade você veio para São Luís? Em 1981, quando minha mãe vem a falecer, meu irmão, que eu não conhecia, mais velho, o primeiro filho de meu pai, vai buscar meu outro irmão de 14 anos, para viver num comércio em Belém, ele tinha um comércio, tocava. Aí meu irmão não vai, não quer ir, e eu quis ir, “rapaz, eu vou”, com nove anos de idade, vontade de conhecer os novos horizontes, fui para Belém, com esse meu irmão. Esse meu irmão meu pai já tinha levado, meu pai já estava com Mal de Parkinson, já não tocava mais, já estava bem idoso. Meu irmão me leva para Belém, também boêmio, comerciante, sempre gostou de boa música, tocava, aprendeu uns choros que meu pai tocava. Aí eu começo a querer pegar no violão, mas ele não deixava, ele tinha um ciúme danado! Esse violão meu pai comprou em 58, já tinha 10 anos quando meu pai comprou, ele é de 1948, e meu pai tinha comprado em 58. Esse meu irmão tinha um bar, tocava no bar. Em 84 a gente veio para São Luís. Aqui a gente montou o Conjunto Vinagreira, lá no Angelim. Quando a gente chegou aqui ele montou um barzinho menor e a gente começou a tocar. Esse meu irmão, que eu chamo hoje de pai, seu Edson, todo domingo ouve o Chorinhos e Chorões [programa de rádio apresentado pelo chororrepórter Ricarte Almeida Santos na Rádio Universidade FM, 106,9MHz]. Ele era um colecionador de chorinho, gosta muito de Saraiva [saxofonista], adora aquele choro Lágrimas de namorados [de J. Luna e Luiz dos Santos], me ensinou. Eu digo que esse foi o único choro que eu ensinei pra Juca [do Cavaco], Juca me ensinou todos os choros [risos]. Foi a partir daí, de 84, eu já com 12 anos, lá eu começo a tocar cavaquinho, lá na roda, os caras tocando pandeiro, eu tocava cavaquinho fazendo a base, só o centro mesmo, não solava. Quando dá em 87 começam a ir os grandes mestres da Escola de Música na minha casa: Zezé Alves [flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 9 de junho de 2013], Domingos Santos [violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 16 de março de 2014], Raimundo Luiz [bandolinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 15 de setembro de 2013], eles começaram a frequentar lá o bar de seu Edson, lá em casa. Aí com essa influência eles “rapaz, bota esse moleque na Escola de Música”. Foi aí que eu fui para a Escola de Música.
Quem foram teus primeiros mestres de cavaquinho? Olha, meu primeiro mestre de cavaquinho foi seu Assis, um pescador, lá de Tutóia, analfabeto. Foi ele quem me ensinou os primeiros acordes de cavaquinho. Ele era frequentador de nosso bar, lá. Foi meu primeiro mestre de cavaquinho, eu comecei a tocar cavaquinho. Só que a minha grande paixão era o violão, meu pai tocava, meu irmão tocava.
E quando foi que o violão entrou na tua vida? O violão entra mesmo na minha vida por conta da igreja [Congregacional]. Eu entro na igreja em 1984. Só que eu fiquei dividido entre a igreja e o bar, eu não largava nem a igreja nem o bar. Eu fui o primeiro irmão revolucionário [risos], é verdade, isso é fato, verídico. [O primeiro] que revolucionou essa coisa de o pastor deixar tocar no mundo e estar na igreja. Eles [os pastores] viram que não tinha jeito: a minha musicalidade brasileira era muito forte e eu não aguentava tocar aquelas coisas americanas na igreja. Eu disse: “rapaz, eu gosto é de samba, é de chorinho, é de baião, é de bumba meu boi, essa música é nossa e é isso que me encanta”. O pessoal ficou “rapaz, esse moleque é doido”. O que eu achei legal é que eles não desistiram da minha pessoa, mesmo eu sendo assim. Eu fiquei no bar e na igreja, tocava no bar e tocava na igreja.
Quem te ensinou violão para você passar a tocar na igreja, as primeiras lições, o começo da história, o mestre principal? Rapaz, foi o seu Edson. Foi ele que me ensinou os primeiros acordes. Aí a galera da igreja foi me passando, começaram a me passar as músicas da igreja. Antes meu irmão brigava para eu não pegar violão e eu aprendia olhando. Ele dizia que eu conseguia decorar as posições sem ter o instrumento. Eu peguei um dia um pedaço de ripa, preguei umas cordinhas e comecei a treinar. Aí ele viu que eu tinha jeito pra coisa e começou a liberar o violão para eu tocar. Aí começou a história.
Qual era a formação do Vinagreira? O Conjunto Vinagreira era seu Buca, um taxista, no pandeiro, seu Maranhão na cabaça, o meu irmão, seu Edson, no violão, e o seu Assis no cavaquinho, ou eu, quando ele faltava. Aí tinham vários curiosos cantando, mas o grupo instrumental era esse aí.
Isso durou quanto tempo? E por que acabou? Isso vai de 85 a 93. Nossos amigos infelizmente foram falecendo, seu Assis faleceu, seu Buca foi embora. Meu irmão foi enfraquecendo, as condições financeiras para manter o bar, boêmio dono de bar é complicado, aí foi definhando. Mas eu digo que o Vinagreira não acabou, restou este que vos fala, uma raiz de lá do Vinagreira, que estava no empirismo, no senso comum. Foi a partir desses grandes mestres da Escola de Música que eu fui começar a saber o que era uma nota.
Depois do Vinagreira você participou de outros grupos? Há um interlúdio, um tempo de reflexão em que eu comecei a estudar e ser lapidado. Fui para a Escola de Música, comecei a tirar os vícios, os grandes mestres me ensinando. Como eu tocava, eu queria tocar, estar lá no meio, mas eu não tinha técnica apurada ainda para tocar com os grandes mestres, os caras estavam noutro nível. Eu tocava na base do “empurra, lá vai ele”. Quando foi em 2002, que eu passo no concurso para ser professor da Escola de Música, aí sim, eu começo a montar grupos lá dentro da Escola de Música, com meus alunos, grupos de choro, como eu queria ter feito. A partir de uma viagem, em 2004, com Osmarzinho [Osmar Jr., saxofonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 5 de janeiro de 2014], nós fizemos umas apresentações juntos em Brasília, tocamos um choro chamado Confusão, Osmarzinho arrebentou, a gente fazendo a base, todo mundo chegou pra junto: “lá no Maranhão tem choro?”. “Tem choro sim!”. O primeiro grupo que eu toquei realmente choro, foi um grupo que foi até Ricarte quem botou o nome: o Choro de Quitanda. Formação: Zezé na flauta, João Soeiro no cavaquinho, Nonato Privado no violão e Lazico [Lázaro Pereira] no pandeiro. Foi o primeiro grupo em que eu toquei assim já mais lapidado.
Foi no Clube do Choro [Recebe]? Foi no Chorinhos e Chorões, nós fizemos um programa.
E a família sempre te apoiou nessa escolha de ser músico? Sempre houve um ambiente favorável ou as pessoas brecavam? “Olha, João, isso aqui não dá futuro”, ou coisa do tipo? Como todo músico sofreu essa pressão de que “música é coisa de vagabundo”, nesse período, em que não se via ainda o profissionalismo na música, era notório nas pessoas, na própria igreja que eu tocava, “rapaz, tu tem que estudar outra coisa, fazer outra coisa, isso é coisa de boêmio, tu vai acabar sendo cachaceiro que nem teu pai”, as pessoas já diziam que meu pai era cachaceiro. A partir daí eu comecei a fazer outras coisas também, por conta dessa pressão. Eu tinha que me manter, morava de favor, com meu irmão. Larguei os estudos da música para fazer outras coisas, fui fiscal de ônibus, trabalhei três anos na [empresa] São Benedito.
Hoje você vive de música? Hoje, graças a Deus, eu vivo de música. Sou realizado. Sou professor da Escola de Música, sou professor do Colégio Educator, trabalho para o Sesc [Serviço Social do Comércio], toco na noite, toco com meus amigos, e hoje eu tenho o prazer de dizer: do palito de fósforo à pizza mais gostosa, à comida mais gostosa eu pago com música, com os acordes. Meu filho quando era pequeno, eu dizia que ia tocar, ele achava que eu tocava e o dinheiro saia do violão [risos].
Além do Vinagreira e do Choro de Quitanda, quais outros grupos musicais você já integrou? Eu já integrei Os Cinco Companheiros, choro de gafieira, a partir dessa viagem com Osmarzinho, o Camisa de Bolso está com três anos, a gente já fez várias apresentações no shopping. Essa é uma história muito engraçada. O Camisa de Bolso começa lá no Antigamente [extinto bar na Praia Grande], eu, Roquinho [cavaquinista] e o filho dele [o percussionista Léo Caroço], e todo mundo que me conhece sabe que eu toco dançando, brincando, fazendo munganga ou gatimonha, como diz Raimundo Luiz [risos], e a gente tocando lá no Reviver, de repente vem um gringozão, mais de dois metros, na minha direção, na direção do grupo. Eu fiquei assim atônito, “rapaz, esse cara vai me dar uma bolacha!”. De repente ele tira alguma coisa do bolso e bota no meu bolso, na minha camisa. Aí, que eu olho para Roquinho, tá com a camisa lisa, e o filho dele com a camisa lisa, só eu com camisa de bolso. Que eu olho pra dentro, cem dólares! [gargalhadas dos chororrepórteres]. Aí eu disse: “nunca mais toco de camisa lisa, só de camisa de bolso”, batizei o grupo de Camisa de Bolso. Depois outras senhoras botaram mais uns 40 reais, e eu disse “olha, eu só toco de camisa de bolso, a partir de hoje”. É uma história verídica. Aí também tive o prazer de fazer participações com o [Instrumental] Pixinguinha, mas os grupos de choro que a gente integrou foram esses.
E grupos de samba? Eu tenho sido chamado pra fazer com Rafael Guterres [cavaquinista], toquei com o [grupo] Amigos do Samba.
Eu lembro que você participou daquele show em homenagem a Noel Rosa [o showNoel, Rosa Secular, de Chico Saldanha, Joãozinho Ribeiro e Josias Sobrinho, com Cesar Teixeira na primeira edição, apresentado em 2010 e reprisado em 2011, vencedor de um Prêmio Universidade FM]. O que significou aquilo para você? Aquilo foi muito significativo para mim. O centenário de Noel Rosa, eu ser chamado para fazer o violão seis cordas, com o Domingos Santos no sete cordas. Mudou muita coisa na minha cabeça, culturalmente, harmonicamente, no que é Noel Rosa, a gente vai entender que era um gênio realmente do samba, com 26 anos deixar mais de 200 músicas. Nós tínhamos ali Josias Sobrinho, Joãozinho Ribeiro, Chico Saldanha, Célia Maria [a lista de participações especiais se completava com Lena Machado, Lenita Pinheiro e Léo Spirro], e instrumentistas como Juca do Cavaco, Domingos, o grande João Neto [flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 2 de fevereiro de 2014], Arlindo [Carvalho, percussionista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 18 de agosto de 2013], um trabalho maravilhoso.
E disco? Você gravou algum disco? Tem participação? Não. Eu tenho músicas gravadas. Um choro meu que está no cd [Made in Brazil] de Robertinho [Chinês, bandolinista e cavaquinhista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 28 de abril de 2013], Chorando de saudade. E tenho composições, a minha música O menino da feira foi agora para as eliminatórias finais do Festival Viva. Eu fiz essa música, eu indo para a Escola de Música, e tinha um menino dormindo no ônibus. Eu empurrei ele e disse: “o que é, rapaz, tu tá xilado uma hora dessas, oito e meia da manhã?”. E ele disse: “não, tio, é que eu junto verdura na feira pro meu pai, pra gente botar pros animais”. Depois ele desceu, saiu correndo e eu fiz uma canção pra ele assim [canta, se acompanhando ao violão]: “tão pouca vida/ e já cansado/ do estresse urbano/ da sacola da feira/ tão poucos sonhos/ todos frustrados/ (…)/ Lá vai o menino da feira/ chutando o repolho/ pensando que é bola/ pedindo pra alguém pra pegar a sacola/ sobrou o limão/ não deu pra ir pra escola// Lá foi o menino da feira/ sacola vazia/ não deu pra juntar/ cebola, tomate/ tá tudo caro/ não deu pra ninguém// Lá foi o menino sonhando, sonhando/ com a próxima feira/ será que algum dia ele come uma pera?/ será que tem feira?”. Essa música está no disco do Tony Soubler [cantor], ele gravou essa música com arranjo do Marquinhos Lussaray [o violonista e guitarrista Marcos Lussaray]. As duas músicas minhas que ele gravou, essa e Mulheres. Só um pedacinho pra ver se vocês aprovam. Essa música, na verdade, eu fiz pensando em como Adão se sentia nos dias em que ele estava sem mulher [canta, se acompanhando ao violão]: “Antes de você chegar/ havia tristeza, encoberta a beleza estava/ e no campo e nas florestas/ não se ouvia nenhuma festa/ (…)/ nem havia tão fácil sorrir/ sem você, mulher/ o mundo era menor/ foi então que o criador percebeu/ que a solidão o homem entristeceu/ e fez você, mulher/ harmonia, alegria pelo campo, e a fantasia”.
Você faz letra e música? É, letra e música. Até então eu só fazia música gospel, que é meu mundo, meu universo. Mas tudo assim, samba. Eu tenho um samba que foi gravado por uma galera de Goiânia, que é [canta, se acompanhando ao violão]: “essa força que vem lá de dentro do meu coração/ força tremenda, que não dá não, pra explicar/ mas se eu pego a viola, com todo carinho/ e ouço o gemido do meu cavaquinho/ se tenho um pandeiro/ na ginga, na bossa do samba que traz/ se é na poesia/ ou nos versos de uma linda canção/ eu tenho o Senhor como centro maior da inspiração/ (…)”.
Atualmente você está integrando algum grupo? Os Cinco Companheiros e o Camisa de Bolso são grupos que não acabam. A gente está sempre fazendo algum evento. Rapaz, eu esqueci aqui de um grupo maravilhoso que eu fiz parte durante dois anos, o Nós da Música, que é um grupo da Tania Rego. Era eu, Tania Rego, Adriana Soraya e Nonatinho na percussão. A gente tocava bossa nova, era muito gostoso.
Você também se envolveu em projetos sociais com a música. Hoje, na verdade, eu sou coordenador de um projeto de música chamado Musicar, em duas comunidades, na Divineia e no Maiobão. É desenvolvido pelo Sesc. Hoje eu sou regente. A partir de 2007 a gente criou uma orquestra de choro com os meninos. Tem um menino muito bom, tocando, Raul, fez recital na Escola agora. Estamos na ativa, uma orquestra tocando choro.
A cada ano tem alunos novos, que entram? Como é que funciona? Isso! E os alunos que vão se destacando a gente vai inserindo na orquestra. A orquestra hoje é no Maiobão, o sonho do Sesc é trazer para a Deodoro.
Qual a importância de contribuir com comunidades tidas como carentes, com este tipo de iniciativa? Eu me sinto muito feliz. Os relatos que a gente tem lá na comunidade são de benefícios diretos da música para estes jovens. Na escola, concentração, na família, o comportamento. A gente faz reuniões periódicas com os pais e eles trazem este depoimento pra gente. “Meu filho melhorou a concentração”, “meu filho está mais obediente em casa”, “meu filho está mais caseiro, por conta de estar estudando um instrumento”. E fora que no projeto nós já temos alunos na UFMA, alunos na Escola de Música, tudo isso é qualidade de vida que foi levada para eles através da música, e a gente é muito feliz com isso. Quando a gente começou a levar o choro, disseram: “mas choro com essa juventude?” O que ficou notório? O povo gosta de boa música, às vezes não tem é onde ouvir. Além disso, eu trabalho com musicalização infantil, sou o Tio João, na Companhia Vovó Beth, adoro trabalhar com isso, dou aula para a garotada, de dois anos de idade até…
Para você, o que é o choro? O choro é o ápice do estudo musical do instrumentista. Simplesmente por que ele é a música brasileira mais difícil de ser tocada. Pela sua complexidade rítmica, harmônica, melódica. Eu converso com meus amigos, olha, Pixinguinha faz cinco choros em fá, você analisa o campo harmônico dos cinco choros, é muito parecido, e as melodias são totalmente diferentes. Incrível, você vê Os cinco companheiros é em fá, vai pra ré menor e a terceira parte é em si bemol; Chorei, a mesma coisa; Cheguei, a mesma coisa; Proezas de Solon, a mesma coisa. E todas essas quatro músicas, não é por que você aprendeu a tocar uma que você sabe tocar as outras. Não! É a música mais complexa que existe, não desmerecendo os outros ritmos.
Quem é o chorão, de toda a história, que mais te fascina? Eu sou apaixonado por Waldir Azevedo. Foram as músicas que eu ouvi na infância, ouvi desde pequeno, acho o cavaquinho um instrumento belíssimo, maravilhoso.
Você se considera um chorão? [Pensativo] Sim. Eu me considero um chorão por que eu não sei viver sem o choro. Mesmo quando eu não estou tocando, eu tenho que ouvir, por que o choro faz parte da minha identidade. As minhas composições, o ritmo, é tudo com choro. A gente na Escola de Música, com esses grandes mestres, eu sempre balancei em criar esses eventos, assim, esse Dia do Choro, fui um dos primeiros a fazer, 23 de abril [data de nascimento de Alfredo da Rocha Viana Filho, o Pixinguinha, em que se comemora o Dia Nacional do Choro], hoje é um evento grande, mas fomos um dos primeiros, eu e Nonatinho [percussionista]. Foi a partir dali que todo 23 de abril a gente faz um evento do choro em São Luís.
Entre as pessoas para quem você deu aulas, quem você destacaria? Eu tive a honra de dar aula para Robertinho [Chinês], é um exímio instrumentista, Rafael Guterres, fui agraciado agora com um show de Israel Costa [cantor], que foi meu aluno de percepção na Escola de Música, gravou cd agora. E outros, Lee Fan, foi meu aluno de cavaco, hoje é flautista, toca sax, está tocando piano também. É muita honra, e saber que hoje eles estão no meio musical. Os meninos do projeto lá do Maiobão, Raul, e Rardson e Adenardson, foram meus alunos do zero, começaram sem saber onde botar os dedos no violão e hoje estão aí.
Muita coisa me impressionou na gigantesca programação da 9ª. Aldeia Sesc Guajajara de Artes, em que tive a honra de trampar ano passado. Foram dias intensos, doidos e doídos, que valeram muito a pena. O epíteto de “maior evento de arte e cultura do Maranhão” não é mero slogan.
Na Casa de Nhozinho, um dos muitos espaços da cidade com que a Aldeia – literalmente uma aldeia – dialogou, tomei conhecimento das obras de João Cosme e Dinho Araújo, que respectivamente apresentavam as exposições fotográficas Abstraturbano e Liturgias do Corpo.
O segundo está com nova exposição a partir de hoje (11) na Galeria de Arte do Sesc Deodoro – a vernissage acontece às 18h30 e a exposição fica em cartaz até o próximo dia 20 de março, com visitação gratuita e aberta ao público.
Dos dias em que a ausência é marca, a exposição, chega à São Luís depois de ter percorrido outras seis capitais brasileiras, ano passado, pelo projeto Sesc Amazônia das Artes.
Composta por fotos, objetos e um vídeo, a exposição apresenta “um olhar crítico e poético sobre identidade, patrimônio e memória, contrapondo visões antagônicas sobre São Luís. No trabalho, memórias pessoais se entrelaçam à experiência coletiva, ambas servindo de inspiração a um registro sutil que sublinha como somos marcados pela ausência”, de acordo com o texto de divulgação distribuído aos meios de comunicação.
“Como analogia ao nosso vazio existencial, a leitura da cidade requer um olhar atento às lacunas e fissuras. Um caso exemplar é a paisagem do Centro Histórico, marcada tanto pela força expressiva do seu conjunto arquitetônico quanto pela sua descaracterização (consequência da demolição de imóveis e da remoção dos azulejos das fachadas). Beleza e depredação, memória e esquecimento: pares antagônicos que costuram as representações locais e as projeções externas que fazem de nós. Como uma composição sem letra, essa reflexão transcende à experiência local, conectando de modo singular os polos da identidade, do patrimônio e da história”, continua o release.
O artista – Dinho Araújo é arte-educador, designer e artista plástico, mestre em Antropologia pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Entre 2012 e 2013 foi professor do Departamento de Artes da Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Além da Aldeia Sesc Guajajara de Artes já expôs em eventos como a Feira do Livro de São Luís (2013) e Salão de Artes Visuais da Prefeitura de São Luís (2010), entre outros.
Silvero/Gisele mostra o que aprendeu na escola. Não se passa impunemente por esse monólogo. Foto: Daniel Sena
Silvero está sozinho no palco. Quase só. Um músico ao piano o acompanha. Ele canta e dança. De repente despe o vestido vermelho e escreve no próprio corpo. Seu nome. Gisele. Uma personagem que surgiu e que hoje ele mesmo não se sabe onde termina o ator e começa a personagem. Ambos fundem-se num só corpo.
O ator conta a história de Gisele e de vários outros travestis, transexuais e transformistas. BR Trans, monólogo da companhia cearense As Travestidas, equilibra-se numa linha tênue entre o bom humor e a desgraça. O espetáculo, vencedor do Festival Nordestino de Teatro de Guaramiranga 2014, é dirigido por Jezebel De Carli e encenado pelo ator Silvero Pereira, que também assina cenário, figurino, maquiagem e adereços – do palco, ele mesmo opera a luz.
Sem perder a graça e o rebolado, aponta para questões latentes de nosso cotidiano, como o universo LGBT, a homofobia e a necessidade de combatê-la, dentro e fora de sua própria casa, a ineficiência do sistema educacional, e da sociedade em geral, em lidar com “o diferente” e a impunidade quase geral para crimes de motivação homofóbica.
BR Trans lida com o desconhecido: o “medo” que a sociedade tem de corpos parados nas esquinas escuras da noite é o medo que lhes domina cotidianamente: medo da violência, da intolerância, da morte. Tudo isso envolto em uma atmosfera de pura arte, beleza e poesia. Sublime, BR Trans desperta risos e lágrimas na plateia.
A 9ª. Aldeia Sesc Guajajara de Artes começa amanhã (23), com um cortejo artístico que seguirá da Biblioteca Pública Benedito Leite, na Praça Deodoro, até a Praça Nauro Machado, na Praia Grande. A concentração tem início às 15h30.
O encontro de diversas linguagens artísticas marca a abertura do maior evento de arte e cultura do Maranhão, cuja programação, completamente gratuita, segue até o dia 30 de outubro, em São Luís e Raposa.
Ao longo do trajeto, as ruas do centro da capital maranhense serão enfeitadas pelas artes do Maracatuque Upaon Açu, Núcleo de Formação Artística O Circo tá na Rua, Trupe de Habilidades Circenses, Grupo Officina Affro, Grupo de Artes Maria Aragão (Gamar), Banda do Bom Menino, Xangô Caô (TSI/Sesc), contando ainda com o intervencionismo arte educativo “Piracema Criativa” da Imaginautas_Rede Social.
A trupe será recepcionada às 18h na Praça Nauro Machado, onde acontecerá o Brechó no Olho da Rua, cujo nome surgiu por conta de um despejo, passando o mesmo a funcionar em diveros espaços públicos, de forma itinerante. Dialogar com ações culturais que já acontecem na cidade, caso do brechó, é o mote da 9ª. Aldeia Sesc Guajajara de Artes, cujo tema é “Tecendo Redes”.
Um dos mais refinados e requisitados DJs de São Luís, Franklin Santos, ou simplesmente DJ Franklin, sobe ao palco da Nauro Machado às 19h. Ele comenta a alegria em participar novamente da Aldeia: “é uma grande alegria, ainda mais dividindo a noite com uma das bandas que mais escutei, ao lado de Chico Science e Nação Zumbi, é realmente um sonho”, afirmou, referindo-se aos pernambucanos da mundo livre s/a. “Estou programando uma mistura de reggae, samba e manguebeat para rolar naquele lugar fantástico que é a praça Nauro Machado, outra magia à parte, ambientando tudo isso”, adiantou.
A banda Madian e O Escarcéu, com o premiado Sinfonia de Baticum, também está na programação de abertura da 9ª. Aldeia Sesc Guajajara de Artes, a partir das 20h. O repertório não se limitará ao disco: “Serão executadas em “primeira mão” na ilha canções como Sal de cigana e Terremoteou, que em breve estarão num lançamento do grupo, o álbum Nonada”, adianta o baixista Miguel Ahid.
Para Madian, estar junto de todos os artistas, tornando a noite uma festa, dá “uma sensação de bem estar. Afinal, lugar de índio urbano, lugar de metal do mato, é na aldeia mesmo. E – sendo maranhense – um legítimo tupinambá, é guajajara na veia”, afirma.
“Temos um respeito enorme por todo o trabalho, história e carreira dos expoentes da música pernambucana, de Luiz Gonzaga a Alceu Valença, passando por Chico Science, Nação Zumbi, mundo livre s/a e tantos outros. Todos eles, juntos com outros grandes nordestinos como João do Vale, Ednardo, Jackson do Pandeiro, são exemplos da grandiosidade da força e influência abissal do folclore nordestino na cultura do país”, afirma Erico Monk, que completa a formação do trio.
A banda pernambucana mundo livre s/a, um dos nomes mais importantes do movimento Manguebeat, que eclodiu no início da década de 1990, em Recife, sobe ao palco da 9ª. Aldeia Sesc Guajajara de Artes às 21h30. O repertório passeará por todos os seus discos, com especial destaque para o de estreia, Samba esquema noise, que em 2014 completa 20 anos de lançado.
Para ZéMaria Medeiros, poeta e músico que comanda A Vida é uma Festa, evento semanal que acontece ininterruptamente desde 2002, na Praia Grande, integrar-se à programação da 9ª. Aldeia Sesc Guajajara de Artes é uma forma de reconhecimento. “O Sesc, ao nos incluir em sua programação, coloca-nos em sua rede de diálogo com as diversas manifestações artísticas, o que nos fortalece. É o reconhecimento por um trabalho continuado de afirmação do nosso fazer artístico, do valor que a cultura tem para integrar as pessoas e sinergizar rumo a um mundo harmônico, plural, de paz”, enfatiza.
Este clima de confluência pauta toda a programação da 9ª. Aldeia Sesc Guajajara de Artes. A programação completa, totalmente gratuita, está disponível no site do Sesc/MA.
A etapa Maranhão do circuito Sonora Brasil, do Sesc, continua até domingo (28). Ontem (24), no Teatro João do Vale, o Quarteto Belmonte (foto), formado exclusivamente para o circuito, fez um belo espetáculo,o repertório fruto de uma pesquisa pelas Bienais de Música Brasileira Contemporânea, tema central desta edição do Sonora Brasil, que homenageia o maestro Edino Krieger (autor de todos os temas que ilustram este post), que por motivos de força maior não pode vir à São Luís como previsto.
Duo Cancionâncias (RS/MS), 27 (sábado), às 19h, no Teatro da Cidade de São Luís (antigo Cine Roxy).
Octeto do Polyphonia Khoros (SC), 28 (domingo), às 19h, no Teatro João do Vale.
Todos os espetáculos são gratuitos, devendo os interessados retirar os ingressos nas bilheterias do teatro com uma hora de antecedência aos espetáculos.
Edino Krieger, o pai do Edu, é o autor das Telas sonoras acima. Ele, criador das Bienais Brasileiras de Música Contemporânea, internado por força de complicações cardíacas, não poderá vir à São Luís, como previsto, para participar do Sesc Sonora Brasil, cujo tema, nesta edição é justamente Edino Krieger e as Bienais Brasileiras de Música Contemporânea, sobre o que o compositor palestraria dentro da programação. Este blogue torce por sua pronta e breve recuperação.
Não é à toa que o Quarteto Belmonte foi escolhido para ilustrar este post: eles tocam amanhã (24), às 19h, no Teatro João do Vale (Rua da Estrela, Praia Grande), com entrada gratuita (retirada de ingressos com uma hora de antecedência na bilheteria do teatro).
O Belmonte é formado por Márcio Sanchez (violino da Orquestra Municipal do Theatro Municipal do Rio de Janeiro), Ubiratã Rodrigues (violino da Orquestra Sinfônica Brasileira – Ópera & Repertório), Dhyan Toffolo (viola da Orquestra Petrobras Sinfônica) e Janaína Salles (violoncelo da Orquestra Sinfônica Nacional da Universidade Federal Fluminense). O concerto tem duração aproximada de uma hora.
Talento precoce do violão, músico apresentou-se após João Pedro Borges na Mostra Sesc Amazônia das Artes. Maranhense foi jurado de concurso vencido pelo piauiense aos 17 anos, em 2004
Ponte musical entre o Piauí e o Maranhão, Josué Costa e João Pedro Borges tocaram juntos “Magoado”, de Dilermando Reis. Foto: Zema Ribeiro
João Pedro Borges não exagerou ao não poupar elogios a Josué Costa, talentoso violonista piauiense que sucedeu seu concerto na programação da Mostra Sesc Amazônia das Artes, ontem (23), no Teatro João do Vale.
O que o maranhense me havia dito em entrevista, reafirmou diante da plateia: o espanto causado pelo jovem, então com 17 anos, quando venceu em 2004 o I Festival de Violão do Piauí, de que eram jurados, além de João Pedro Borges, Turíbio Santos e Guinga, entre outros.
Depois de um repertório criteriosamente selecionado, que passou, entre outros, por Heitor Villa-Lobos, Paulinho da Viola, Radamés Gnattali, Ernesto Nazareth e João Pernambuco, os músicos ergueram uma ponte musical estreitando as relações entre Maranhão e Piauí. O que deveria ser feito mais vezes, a nosso ver, dada a proximidade geográfica entre dois dos estados mais pobres da nação – entretanto fertilíssimos quando o assunto é cultura. Insisto em dizer que pouco conhecemos dos vizinhos desde Torquato Neto e vice-versa.
“Eu não podia perder essa oportunidade. É para colocar no meu currículo”, anunciou João Pedro Borges, ao anunciar a última peça, que dividiu com Josué Costa: Magoado, de Dilermando Reis. Depois, o piauiense seguiu sozinho, em um concerto emocionante e corajoso – pois quase completamente autoral.
Ambos derreteram-se em elogios ao Sesc, destacando o papel fundamental que a instituição cumpre para a fruição da música brasileira, lembrando de suas participações em eventos promovidos por suas unidades em todo o Brasil.
Antes de continuar, Josué Costa devolveu os elogios a João Pedro Borges, destacando sua importância para o instrumento no Brasil. Com talento de sobra, ele desfilou um repertório quase todo de sua autoria, apresentando-se competente compositor e instrumentista. Mostrou músicas de seu disco de estreia, Luando, tema que escreveu em homenagem ao filho Luis Fernando e que também batizava o concerto de ontem. Abriu sua apresentação com um tema de sua autoria, ainda sem título, composto durante a turnê que se encerrava ontem em São Luís.
Bem humorado e supersimples, ia contando as histórias de suas músicas. Samba aranha, que escreveu para o amigo Yamandu Costa, que “hoje está bichado, sofreu um acidente, mas é um patrimônio do violão brasileiro”. O músico gaúcho fraturou a mão direita no início de agosto e cancelou algumas apresentações. Para o pai escreveu Mestre Riba: “ele nunca me disse para procurar outra coisa, nunca disse que música não dá certo, sempre gostou da música que eu faço”, agradeceu.
Ele próprio contando as histórias era engraçado e alguns títulos de suas músicas, idem: Chefe atrapalhado escreveu para um colega violinista de quem é – ou foi – subordinado. Asilado foi escrita após uma noite de conversa e música com Alessandro Penezzi. “O cara conversa, ouve tanto e depois quer fazer alguma coisa sob a influência. Aqui eu não sei como é que chamam, mas lá no Piauí, asilado é doido. Mas esse é um doido do bem, é o cara doido por música”, explicou. Ele dedicou sua apresentação a “um grande músico maranhense, Robertinho Chinês”, que estava na plateia.
Feito em casa foi composta sob encomenda para um programa homônimo da tevê piauiense. Josué Costa passeou ainda por temas de Tom Jobim (Passarim), Carlos Gardel (Por una cabeza, com letra de Alfredo Le Pera, tema do filme Perfume de mulher, de Martin Brest) e Edith Piaf (Sob o céu de Paris, tradução de Sou le ciel de Paris, de Hubert Giraud e Jean Dréjac).
“Estou muito feliz em estar aqui, estou me sentindo em casa, espero voltar mais vezes em breve. Estou há 10 dias na estrada, já começa a bater uma saudade”, anunciou, antes de despedir-se.
João Pedro Borges faz passeio por escolas do violão brasileiro. Josué Costa, vencedor do I Festival de Violão do Piauí, se apresenta na sequência
João Pedro Borges conversou com exclusividade com o blogue sobre apresentação de amanhã (23). Foto: Rivanio Almeida Santos
Violonista e professor de música, João Pedro Borges, 67, é um nome fundamental para o violão brasileiro, que ajudou a divulgar inclusive fora do país. Entre o fim da década de 1970 e boa parte da de 80, Sinhô, como também é conhecido no meio musical, integrou um capítulo fundamental para a renovação do choro no Brasil: a Camerata Carioca, do maestro gaúcho Radamés Gnattali.
A bagagem e as histórias são muitas. Musicalmente, boa parte poderá ser conferida em concerto que o músico apresenta amanhã (23), às 19h, no Teatro João do Vale (Rua da Estrela, Praia Grande), com entrada franca, dentro da programação da Mostra Sesc Amazônia das Artes.
Sinhô, que recentemente percorreu o Brasil ao lado do violonista gaúcho Daniel Wolff, numa série de concertos pelo projeto Sonora Brasil, também do Sesc, apresentou-se na última edição da Mostra Sesc Guajajara de Artes, ao lado da cantora Célia Maria, em outubro do ano passado. Sobre estar mais uma vez escalado para uma programação da instituição, ele comentou: “Desde o Sonora, mantenho excelentes relações com o Sesc e é com grande prazer que participo da sua extraordinária programação. Representar o Maranhão no Sesc Amazônia é uma distinção que muito me honra”.
O concerto do maranhense será seguido pelo de Josué Costa, às 20h, no mesmo palco. O piauiense venceu o I Festival de Violão do Piauí, cujo júri era formado, além de João Pedro Borges, por nomes como Turíbio Santos e Guinga. “É um jovem violonista muito talentoso e que nos deixou impressionados quando venceu aquele concurso. Estou curiosíssimo para ver como está “a Fera” neste momento”, elogia.
Eventos como os citados, de que Sinhô participou, demonstram a valorização da música instrumental pelo Sesc. Pergunto-lhe o que falta para que isto seja mais corriqueiro e pauta dos poderes públicos e da iniciativa privada. “Creio que a excessiva politização da vida brasileira e da maranhense em particular, sempre acaba levando as chamadas políticas públicas para o campo suspeito das disputas pelo poder. O primeiro mundo há muito nos dá o exemplo de como integrar o público e o privado criando um mercado independente onde a música instrumental vive dos seus méritos. O Sesc, preenchendo uma lacuna brasileira, tem desenvolvido projetos que contemplam a música não comercial e de mais difícil acesso, tendo em conta os critérios da indústria cultural”, respondeu.
Como repertório de sua apresentação ele anuncia “um passeio pelo violão brasileiro, juntando patriarcas como [Heitor] Villa Lobos, [Ernesto] Nazareth, Radamés Gnatalli e figuras marcantes como João Pernambuco, Garoto e Paulinho da Viola. O programa mostra as relações de influência entre eles e registra mudanças rítmicas, harmônicas e sociais da vida brasileira”, antecipou.
Após sua participação no Sesc Amazônia das Artes, João Pedro Borges irá ao VI Festival de Violão da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. O festival acontece de 21 a 25 de setembro e, além do maranhense, terá concertos gratuitos de Marco Pereira, Turíbio Santos e Egberto Gismonti, entre outros.
O exercício do caos, do cineasta maranhense Frederico Machado, continua sua trajetória de sucesso, percebida desde a bilheteria das sessões em que foi exibido, no país inteiro.
O filme agora concorre em diversas categorias no 40º. Festival Sesc Melhores Filmes: além de melhor filme, melhor ator (Auro Juriciê), melhor atriz (Elza Gonçalves), e nas categorias melhor direção, melhor roteiro e melhor fotografia, todas assinadas por Fred, como é carinhosamente chamado pela gente do meio.
A votação é popular e pode ser feita pelo site do Festival até o dia 9 de fevereiro.
Não é fácil classificar a música de Babi Jaques e Os Sicilianos – assumisse o grupo uma sigla ela seria quase “beijos”. Talvez seja mesmo tarefa impossível e dizer simplesmente liquidificador sonoro certamente soaria clichê. É pop, é rock, é blues, é frevo, é música popular brasileira, mas é muito mais que isso. Ecos de tropicalismo e manguebeat – justificado pela conterraneidade com Chico Science, a quem, aliás, sampleiam na vinheta de abertura de Coisa Nostra, seu disco de estreia –, mas também da vanguarda paulistana de Arrigo Barnabé e Itamar Assumpção. Ao menos aos ouvidos deste modesto crítico, impossível não lembrar, de cara, das experiências do pianista em Clara Crocodilo.
Talvez pelo fato de a banda ser formada por personagens. O que justifica a multiplicidade, Barbara Jaques, a vocalista, assumindo diversas formas durante uma performance. O disco enquanto suporte – um cd com encarte ou as faixas soltas nas esquinas virtuais para download – não é suficiente para cabê-los. Qualquer busca no google levará o leitor/ouvinte a biografias inventadas – o que pode reacender propositadamente ou não a fogueira em torno da polêmica um tanto vazia e insossa sobre o assunto.
Em Coisa Nostra, disco e show com que chegam à São Luís, por exemplo, travestem-se de mafiosos oriundos da cidade imaginária de Nostrife, evidente soma de máfia e Recife, sua (verdadeira) terra natal. Babi Jaques pode ser numa faixa cantora de cabaré, noutra dublê de desenho animado, versátil cantora é o que é, afinal de contas. Sua música está próxima da poesia, melodias e harmonias são trilha sonora para a palavra, onde cabem ainda teatro, cinema, circo e, por que não?, música.
Coisa Nostra chega após a participação da banda em coletâneas e na trilha sonora de filmes. Produziram e lançaram ainda o documentário Sabe lá o que é isso, investigando as transformações do frevo, o título um verso do Hino de Batutas de São José, cuja releitura moderna o disco traz de brinde. É a estreia de um grupo que parece ter nascido pronto. São apenas quatro anos de carreira, mas o que se ouve e vê é pura maturidade musical. Alexandre Barros (bateria), Babi Jaques (voz), Thiago Lasserre (baixo) e Well (guitarra) garantem diversão nostrifense aos estrangeiros que se aventuram por seu disco e shows.
Hoje eles aportam em outra cidade imaginária, de tantas alcunhas um tanto já sem sentido: Athenas brasileira, Ilha do amor. Certamente não conhecem a lenda da serpente e é capaz dela despertar para dançar e se divertir – e fumar!: o afundar de São Luís fica pra outra ocasião, hoje no máximo o chão vai tremer ali na Praça Nauro Machado e arredores, onde às 23h Babi Jaques e Os Sicilianos armam sua (fan)farra musical, de graça, dentro da programação da 8ª. Aldeia Sesc Guajajara de Artes. A festa está garantida, como na letra de Evocação sem número: “E não importa se acabou fevereiro/ meu carnaval dura o ano inteiro”.
O quarteto se apresenta ainda em Itapecuru-Mirim (3/11) e Caxias (8/11), antes de continuar as aventuras por Piauí, Ceará, São Paulo, Uruguai e Argentina.
Confesso: enquanto a banda durou, não acompanhei o trabalho.
Sua provavelmente mais recente “aparição” se deu justo quando os conheci: em uma faixa de Música, livro-disco de Celso Borges, um entusiasta desse ato de fênix. O poeta havia tentado remontar (remendar?) a banda para um show na 7ª. Feira do Livro de São Luís (FeliS), o que acabou não acontecendo.
Se a sétima não conseguiu, a oitava consegue. E os fãs, novos e/ou órfãos, nem precisarão esperar a feira do ano que vem. O reencontro acontece é na aldeia deste 2013 mesmo: a 8ª. Aldeia Sesc Guajajara de Artes orgulhosamente apresenta T. A. Calibre 1!
Groove Balaio, o show, será apresentado hoje, às 22h, na Praça Nauro Machado (Praia Grande), de graça.